
 S h a n n a
    Kathleen E. Woodiwiss





Digitalizao: Leniria Santos.
   Reviso: Samara Alberts.
   Formatao: Sabrina Castilho.

   Sinopse

    Por trs das paredes da priso de Newgate  um pacto  selado em segredo: um arrojado criminoso ir se casar com uma rica herdeira em troca de uma inesquecvel
noite de prazer.
    Os frgeis votos de casamento se perderam e a promessa foi quebrada. Com seu esprito sensual e livre Shanna foge para o paraso luxuriante das Carabas, abandonando
o belo estranho com quem se casou a fora.
    Mas Ruark Beauchamp estar eternamente entrelaado no destino de Shanna e no h grades que o impedir de buscar o que  legitimamente seu.




Parte um
Ser este o terrvel drago
De fortes tendes e peito possante
Que jamais precisa de repouso?
No mnimo um corcel?
Ento tire uma sela do gancho
E amarre-a no lombo do animal
No tenha medo
No h como desistir.
O animal j trabalhou e revolveu a terra.
Voc procurou seus tesouros, e forou o corcel at o cho.
Voc solta as rdeas, encontrou seu objetivo.
O animal se vira....
Presas longas, olhos e garras ferozes,
no despreze A impossibilidade de opo,
pois voc no encontraria melhor animal.
Mas agora voc est apanhado e descobre
que o perigo est chegando...
    
    
    Meia-noite - 18 de novembro de 1749 Londres.
    A noite envolveu a cidade em sua escurido fria e nebulosa. A ameaa de inverno pairava no ar. Fumaa cida atacava as narinas e a garganta, pois em todas as 
casas havia fogos acesos e alimentados contra o friozinho vindo do mar que atravessava os ossos. Nuvens baixas gotejavam finas gotculas de umidade que se misturavam, 
 ferrugem vomitada pelas altas chamins de Londres antes de desintegrar-se em fina pelcula que cobria todas as superfcies.
    A deplorvel noite mascarou a passagem de uma carruagem que se inclinava pelas ruas estreitas como se fugisse de alguma pavorosa calamidade. Ia aos solavancos 
e cambaleava precariamente sobre os paraleleppedos enquanto suas rodas altas espalhavam gua e lama. Na tranqilidade que se seguia  passagem da carruagem, o denso 
lquido escoava-se lentamente de volta a poas espelhadas, salpicadas por gotinhas ou harmoniosamente decoradas com guas encrespadas. O cocheiro, sinistramente 
volumoso e vestido de preto, puxando as rdeas, praguejava contra a parelha de cavalos malhados, mas sua voz se perdia em meio ao rudo surdo dos cascos e das rodas 
que se agitavam. O estrpito da cavalgada ecoava na noite gelada at dar a impresso de que vinha de todas as direes. O formato escuro da carruagem corria por 
opacas poas de luz lanadas pelas bruxuleantes lanternas s portas das fachadas barrocas pelas quais passava. Grgulas sorridentes contemplavam a rua do alto de 
seus postos, onde se agachavam em beirais de telhados de pedra, enquanto finos tneis de chuva escorriam de suas bocas de granito, como se estivessem esfaimadas
pelas presas que passavam abaixo de seus pousos.
    Shanna Trahern recostou-se no assento de veludo vermelho da carruagem para firmar-se contra a velocidade vertiginosa. No se preocupava com a lama na rua; na
verdade, apenas seus pensamentos lhe ocupavam a mente. Estava sentada sozinha e em silncio. Seu rosto no tinha expresso, mas de vez em quando a lanterna oscilava 
a um solavanco da carruagem e sua luz dbil captava o brilho dbio e instvel da profundidade dos olhos azul-esverdeados. Se algum homem os olhasse naquele instante, 
no vislumbraria qualquer trao de cordialidade para anim-lo nem nenhum sinal de amor para lhe consolar o corao. O rosto, incrivelmente bonito e jovem, era indiferente. 
Sem o costumeiro acompanhamento de admiradores  sua volta, no era preciso exibir imagem encantadora ou graciosa, embora fosse realmente raro que Shanna Trahern
se esforasse alm de um capricho momentneo. Se estivesse interessada era capaz de seduzir qualquer um, mas naquele instante seus olhos mostravam severa determinao
que s no desanimaria o esprito mais herico.
    "Sou amaldioada", seus lbios se encresparam. "Se eu fosse abenoada pelo cu, no estaria agora tendo de fazer esta misso. Que outra mulher precisa aventurar-se 
pelas ruas numa noite como esta, para aplacar o tormento de sua condio?" Sua mente percorreu o caminho j bastante trilhado. "Por que o destino cruel fez com que
eu nascesse sob a maldita riqueza de meu pai? Quisera ser pobre e conhecer um homem que me quisesse por mim mesma."
    Suspirou e novamente sua mente lhe analisou o raciocnio, tentando encontrar alguma falha. Nem sua beleza nem a riqueza do pai a haviam ajudado. Um estgio de
trs anos nas melhores escolas da Europa, em especial da Inglaterra, a haviam entediado incrivelmente. Os chamados colgios para damas tratavam mais de maneiras 
da corte, moda, e das vrias e tediosas formas de trabalhos de agulha do que das tcnicas de escrever ou lidar com nmeros. Neles, ela havia sido perseguida por 
sua beleza e exposta  insinceridade de jovens libertinos que procuravam ampliar sua reputao  sua custa. Muitos haviam sentido as ferroadas de seu desprezo e, 
desanimados, desistiram. Quando se divulgou que ela era a filha de Orlan Trahern, um dos homens mais ricos da praa do mercado, todos os rapazes necessitados vieram 
atrs de sua mo. Ela no conseguiu tolerar esses fracalhes tampouco, e impiedosamente destroou-lhes os sonhos com palavras to dolorosas quanto  lmina de uma 
espada.
    Seu desencanto com os homens conduziu ao ultimato que o pai lhe deu. Tudo comeou de forma banal. Quando ela voltou da Europa, ele a censurou por no haver encontrado 
marido.
    - Com todos aqueles jovens garanhes das cortes a seu redor, menina, voc no conheceu um homem de nome para reconhecer seus filhos!
    Estas palavras feriram o orgulho de Shanna e lhe trouxeram lgrimas aos olhos. Sem tomar conhecimento do pesar da filha, o pai continuou o sermo, e foi cravando 
a espora mais fundo ainda.
    - Maldio, menina! Para que constru minha fortuna, se no para deix-la para algum do meu sangue? Mas se for como voc quer, ela vai morrer na sua sepultura. 
Maldito seja tudo, quero netos! Voc est disposta a ser uma solteirona que rejeita todo homem que lhe faz a corte? Seus filhos poderiam ser importantes na corte, 
se tivessem um ttulo para ajud-los. Eles s precisaro de duas coisas para ter sucesso no mundo e serem aceitos pela realeza. J lhes ofereo uma dessas coisas... 
Dinheiro.
    Mais do que eles podem gastar numa vida. Voc lhes pode conseguir a outra: um nome que ningum ousar questionar, um nome de linhagem to fina e pura que vai
ser preciso boa quantidade de sangue plebeu para refor-la. Um nome assim abre tantas portas quanto meu dinheiro. Mas se eles s carregarem o nome Trahern, sero
pouco mais do que comerciantes. - Sua voz se irritou e ficou mais severa. - Que azar ter uma filha cuja aparncia tem condies de satisfazer s linhagens de sangue
mais azul, capaz de fazer com que bares, condes e duques a cortejem e babem, de tanto desej-la. Ela, porm, desperdia o tempo sonhando com um cavaleiro prateado 
num cavalo branco que possa combinar com sua prpria pureza intocada.
    Shanna foi imprudente ao responder ao pai de forma atrevida e com palavras acaloradas. Logo os dois estavam empenhados numa troca violenta de palavras que terminou 
abruptamente, quando ele bateu com o vigoroso punho na mesa e a desafiou a continuar a falar. Seu olhar raivoso a impressionou.
    - Voc tem um ano para resolver suas fantasias - rosnou ele. - Seu perodo de graa termina no seu aniversrio de vinte e um anos. Se nessa ocasio voc no 
se tiver casado com algum de famlia aristocrtica, vou obrig-la a casar-se com um campons rstico e jovem o bastante para engravid-la. E se for preciso que
eu a arraste at o altar acorrentada, voc me obedecer!
    Shanna ficou perplexa e caiu em incrdulo silncio ao ouvir as palavras rudes do pai, mas sabia de corao pesaroso, que ele no estava brincando. A palavra
de Orlan Trahern era uma promessa que nunca era rompida. O pai continuou j agora em tom mais ameno:
    - Como vivemos discutindo ultimamente, vou livr-la de minha presena. Ralsfon vai para Londres, a servio meu. Voc vai com ele, e tambm com Pitney. Sei que 
voc manobra Pitney  sua vontade, desde que era criancinha. Mas Ralston tem condies de fazer com que vocs dois no faam bobagem. Voc pode tambm levar sua 
criada Hergus. No dia dois de dezembro, quando voc fizer aniversrio, dever voltar a Los Camellos, casada ou no. Se at l no conseguir marido, o assunto sair 
de suas mos.
    Quando jovem Orlan Trahern teve uma vida bem dura. Aos 12 anos, viu seu pai, um gals salteador de estradas, ser enforcado numa rvore por seus crimes. A me, 
reduzida a trabalhar como criada de copa morreu alguns anos depois de malria, debilitada por anos de excesso de trabalho, alimentao deficiente e correntes frias 
de inverno. Orlan a enterrou e jurou que sua vida seria melhor, para ele e para os seus.
    Recordando-se sempre do carvalho cinzento onde o corpo de seu pai oscilou, o rapaz trabalhou duro e com a cabea, tendo sempre o cuidado de ser escrupulosamente 
honesto. Sua lngua era rpida, assim como seu raciocnio, e a mente era gil. Em pouco tempo, aprendeu tudo a respeito de dinheiro, aluguel, juros, investimentos 
e, principalmente, o risco calculado do alto retorno de investimentos. O jovem Trahern teve inicialmente de pedir dinheiro emprestado para seus empreendimentos, 
mas em pouco tempo isso no foi mais preciso. Os outros comearam a recorrer a ele para pedir dinheiro. Tudo em que ele tocava lhe engordava os cofres, e ele comeou 
a adquirir propriedades no interior, pequenos prdios, manses senhoriais e outros imveis. Em troca de promissrias aceitas pela Coroa, adquiriu a concesso de 
uma pequena e verdejante ilha no Caribe, para a qual imediatamente se transferiu para gozar de sua riqueza e poder de maneira mais tranqila, administrar o fluxo 
da riqueza em suas contas bancrias.
    Seu xito lhe granjeou o ttulo de "Lorde" Trahern de vendedores de cara suja e comerciantes astutos, pois ele, na verdade, era o lorde da praa do mercado. 
Os aristocratas o chamavam pelo ttulo quando precisavam pedir-lhe dinheiro, embora isto no lhes fosse agradvel, pois o consideravam socialmente inferior. Orlan 
ansiava por ser considerado  mesma altura deles, mas ele mesmo tinha dificuldade em reconhecer isso. No era homem de rastejar, e aprendeu a usar bem a persuaso. 
Agora, tentava fazer isso com a filha nica. As afrontas que recebeu durante os anos passados acumulando riquezas eram em grande parte responsveis pelo abismo que 
fazia com que sua linda filha ficasse to introspectiva.
    Shanna, porm, tinha o mesmo temperamento do pai, teimoso e decidido. Enquanto Georgiana Trahern viveu, havia suavizado as rixas e as discusses entre o marido 
e a filha, mas com seu falecimento, ocorrido h cinco anos, os dois perderam a mediadora. Agora no havia ningum que pudesse sutilmente dissuadir o voluntarioso 
Trahern ou fazer com que a filha se ocupasse de suas tarefas.
    Ainda assim, com Ralston para garantir que ela obedecesse  ordem do pai, Shanna s havia tido oportunidade de cumprir as vontades dele. Ela no demorou muito, 
aps voltar  Inglaterra, em se perder numa multido de nomes que acompanhavam vrios ttulos estranhos de baro, conde, etc. Friamente, era capaz de apontar o defeito 
de cada admirador: este tinha um nariz saliente, aquele, "mo boba", outros, um cenho torcido, uma tosse irritante ou uma presuno enorme.
    A viso de uma blusa puda debaixo de um colete, ou de uma bolsa amarrotada e vazia pendurada num cinto a esfriava abruptamente quanto a propostas de casamento. 
Sabedora de que considervel dote a acompanharia e que com o tempo herdaria uma fortuna grande o bastante para perturbar os espritos mais imaginativos, os camponeses
eram prestativos e atentos, levando em extrema considerao o menor desejo demonstrado por ela, ao contrrio do que ela costumava afirmar. Ignoravam as splicas
da moa de se retirar de sua presena e normalmente precisavam ser ajudados pelo Sr. Pitney. Freqentemente, entre os solteiros pretendentes havia discusses que 
resultavam em socos e brigas, e o que comeava como um tranqilo acontecimento social ou um simples passeio muitas vezes se transformava desagradavelmente, e Shanna 
precisava ser acompanhada em segurana at a casa pelo guardio Pitney. Alguns pretendentes eram sutis e tortuosos, enquanto outros eram ousados e insistentes. Na 
maioria, porm, ela reconhecia que o desejo de se tornar rico se sobrepunha ao desejo que sentiam por ela. Parecia que nenhum deles se importava com uma mulher que, 
tendo amor no corao, seria capaz de viver na pobreza; todos viam o ouro do pai dela.
    Havia tambm outros que se empenhavam ativamente em lev-la para a. cama sem a cerimnia do casamento, normalmente pela simples razo de j estarem ligados a
uma mulher. Um conde a quis como amante e apaixonadamente jurou-lhe sua devoo, at ser interrompido por seus seis filhos. Shanna teve muito mais desse tipo de
acontecimento do que de fatos positivos, e cada vez tinha menos motivos para gostar dos homens.
    Um de seus menores problemas era que seu ano em Londres se transformou em um desastre total, em termos existenciais. O Tratado de Aix-laChapelle soltou soldados 
e marinheiros na cidade, e muitos deles, incentivados pela falsa coragem do gim, haviam-se dedicado a roubar para sobreviver, o que tornava a noite perigosa para 
os que inocentemente perambulavam pela rua. Shanna passeou pela rua  noite apenas uma vez, o que bastou para dissuadi-la de repetir o passeio. No fosse pela ao 
rpida e vigorosa de Pitney, que ps os malandros a correr, ela teria sido roubada de suas jias e sem dvida tambm de sua pureza. Em abril fora quase pisoteada 
at a morte, quando, em companhia de um jovem, dirigira-se ao Templo da Paz para ouvir um concerto de Handel para o Royal Fireworks. Na verdade, esses fogos de artifcio 
 que causaram toda a agitao, pondo fogo ao edifcio rococ que o Rei mandara construir para celebrar o Tratado de Aix. Horrorizada, Shanna vira a saia de uma
jovenzinha incendiar-se. A moa foi rapidamente despida at o espartilho e sua saia pisada at que o fogo fosse extinto. Um momento depois a prpria Shanna escapou 
de ser esmagada quando seu acompanhante a segurou e atirou-a ao cho. Poderia ter acreditado nos protestos dele de que apenas buscava salv-la de algum rojo caprichoso
se, no processo, ele no lhe tivesse desatado completamente os cordes do corpete. A detonao do canho era suave, se comparada  raiva de Shanna que, sem se importar
com o populacho que se movia em torno dela - para olhar seu peito meio nu ou para fugir s chamas, no podia afirmar - virou a mo e mandou um tabefe no visconde
que o fez cair de joelhos. Atravessou ento a multido, voltando  carruagem e a alguma aparncia de recato. Pitney evitou que o jovem lorde fosse juntar- se a ela,
de modo que Shanna pde voltar sozinha  cidade.
    Porm, agora tudo isso era passado. Importava  que seu tempo de graa estava quase esgotado e no encontrara um companheiro aceitvel. Entretanto, era mulher 
de personalidade. Tal como o pai, Shanna Trahern podia ser astuta e inteligente. Isso exigia toda a sua esperteza. E estava desesperada o bastante para tentar fosse 
o que fosse para fugir ao destino que o velho Trahern planejara para ela. Prevalecia a honestidade quando confessava a si mesma que, apesar de suas disputas, amava 
profundamente o pai.
    Nessa mesma tarde, uma esperana bem morosa fora reanimada quando Pitney - amigo leal e verdadeiro - lhe trouxera novas h muito esperadas. Estavam livres at 
mesmo do sempre vigilante Ralston: por um excepcional golpe de sorte ele fora chamado, s primeiras horas da manh, para investigar os danos em um navio mercante 
de Trahern que havia encalhado nas costas da Esccia. Como Ralston estaria fora pelo menos por uma semana, talvez mais, Shanna sentia-se confiante em que resolveria 
o caso antes que ele voltasse. Ento, se tudo corresse bem, ele encontraria o fato consumado e no poderia estragar nada.
    Confiar em Ralston teria sido o mesmo que informar o prprio Orlan Trahern, e Shanna teria de tomar cuidados especiais para convencer Ralston de sua sinceridade 
e da validade de suas aes. Se o pai sequer suspeitasse de suas cavilaes, teria de haver-se com mais do que a sua raiva: ele faria cumprir sua promessa sem demora, 
e ela no desejava viver com as conseqncias, fosse quem fosse o rapaz.
    No interior da luxuosa carruagem aumentava a ansiedade de Shanna e, com a voz das rodas como proteo, experimentou o nome to novo em seus lbios, to cheio 
de promessas:
    - Ruark Beauchamp. Ruark Deverell Beauchamp. - Ningum poderia negar a distino do nome, nem mesmo a aristocracia dos Beauchamps de Londres.
    Um leve pungir de conscincia a invadiu quando a carruagem a levou mais perto do seu momento de avaliao, mas Shanna criou coragem:
    "Isto no est errado!  um arranjo que ser til a ns dois. Esse homem ter os seus ltimos dias suavizados e repousar num tmulo decente em paga de seus
servios temporrios. Dentro de duas semanas meu ano estar terminado."
    Ainda assim, a apreenso comeou a atorment-la  margem de sua deciso  medida que dvidas e mais dvidas lhe povoavam a mente como morcegos na noite. Esse 
Ruark Beauchamp seria o necessrio para a sua causa? E se ele fosse um corcunda, de dentes estragados?
    Shanna apertou os maxilares, adorvel como sempre, com a obstinao de uma Trahern, e buscou algo que lhe diversificasse os muitos temores que ameaavam engolf-la. 
Afastando a cortininha de couro da janela, espiou a noite. Farrapos de nvoa haviam comeado a infiltrar-se nas ruas, mascarando a meio as escuras lojas e hospedarias 
por onde passavam agora. Era uma noite sombria, porm ela podia suportar nvoa e umidade. Tinha medo  de tempestades, que lhe tiravam a paz da mente quando assolavam 
a regio.
    Deixando a cortina voltar a seu lugar, Shanna fechou os olhos, no encontrando alvio para suas tenses. Num esforo para firmar o tremor que a dominava, apertou 
bem as mos no regalo de peles. Tanto dependia desta noite! No podia esperar que tudo corresse s mil maravilhas. A dvida contrariava suas tentativas para acalmar-se.
    Iria esse Ruark rir dela? Ela agitara os coraes de muitos homens: por que no desse tambm? Negaria o seu pedido, com algum gracejo cruel?
    Shanna sacudiu da mente os escrpulos. Aprimorou suas armas, arrumando o decote do vestido de veludo vermelho que escolhera. Nunca exercera plenamente seus ardis,
mas suspeitava que um homem sadio dificilmente fosse imune a um acesso de lgrimas.
    Em algum lugar houve um dobrar de sinos na noite.
    As rodas da carruagem batiam no calamento empedrado, e o corao de Shanna parecia acompanhar-lhe a marcha rpida. O tempo ficou imobilizado quando a incerteza 
mordeu os limites de sua mente: em algum cantinho bem fundo ela cogitou que loucura a levara a comear essa histria.
    Um grito ntimo lhe chegou  superfcie da conscincia. Por que deveria ser assim? Teria seu pai perdido o senso do amor e a ternura em sua nsia e desejo de 
aumento da famlia? Seria ela apenas um peo til para alguma jogada maior? Ele amara a me dela profundamente e no se importara com o fato de Georgiana ser filha 
de um ferreiro comum. Por que, ento, precipitar sua nica filha num relacionamento que ela detestaria?
    No  que ela no tivesse tentado. Fora constantemente cercada por pretendentes desde o momento em que chegou a Londres, mas em todos s via nulidades. Desagradavam-lhe 
mais os que a cortejavam com o desejo de riqueza sobrepujando o desejo por ela. Ser que o pai no compreenderia sua nsia por um marido a quem pudesse admirar, 
bem como amar e respeitar?
    Nenhuma voz deu as respostas que Shanna buscava. S havia o firme rufar dos cascos dos cavalos levando-a sempre mais para perto da sua experincia.
    A carruagem diminuiu a marcha ao dobrar uma esquina. Shanna ouviu Pitney mandando parar diante da medonha fachada da cadeia de Newgate: seu flego parecia preso 
na garganta, e o corao da moa batia num ritmo catico. O som dos passos de Pitney a ressoar pesadamente no calamento empedrado ecoava em sua cabea. Como um 
prisioneiro condenado, ela esperou at ele abrir a porta e inclinar-se para entrar.
    Pitney era agigantado, ombros largos, rosto amplo, tudo em proporo a seu tamanho. Mechas de cabelo bronzeado estavam atadas na nuca do grosso pescoo, sob 
um tricrnio preto. Aos 50 anos ainda podia levar a melhor sobre dois homens mais jovens ou mais velhos do que ele. Seu passado era um mistrio que Shanna jamais 
tentou penetrar, mas suspeitava que pudesse rivalizar com o de seu av. Porm com Pitney por perto ela no tinha preocupaes quanto  sua segurana.  como se fizesse 
parte da famlia, embora se pudesse achar que sua posio era a de um empregado, pois o pai dela o tomara como guarda pessoal da moa para cuidar de sua segurana 
sempre que viajasse. Em Los Camellos ele independia da fortuna de Orlan Trahern e passava o tempo esculpindo e fazendo mveis. O homenzarro servia  filha tanto 
quanto ao pai, e no tinha tendncias a correr para encher os ouvidos do pai com mexericos sobre as menores infraes cometidas pela moa: admirava-a por muitas 
coisas, aconselhava-a em outras, e quando Shanna sentia necessidade de extravasar suas perturbaes, era Pitney quem a confortava na maioria das vezes. Fora seu 
co-conspirador em ocasies que o pai no teria aprovado.
    - J se resolveu? - perguntava Pitney, em voz rascante. -  assim que dever ser?
    - Ai, Pitney! - murmurava ela; e, com mais determinao: - Veremos isso.
     escassa luz das lanternas da carruagem, os olhos cinzentos dele encontraram os dela. Franziu as sobrancelhas com preocupao:
    -  melhor que se prepare.
    Shanna firmou as idias e, com fria deliberao, puxou um pesado vu de renda sobre o rosto e ajustou o capuz do manto de veludo negro para mais disfarar sua 
identidade e ocultar as longas tranas douradas.
    Pitney abriu caminho em direo ao portal principal; ao segui-lo, Shanna sentiu um desejo imperioso de voar na direo oposta. Porm, dominou o impulso, raciocinando 
que, se isso fosse loucura, ento o casamento com um homem a quem detestava teria sido o inferno.
    Ao entrarem, o carcereiro se esforou para pr-se de p com uma nsia nascida da avidez e adiantou-se para cumpriment-la. Era grotescamente gordo, com braos
que pareciam aretes. As pernas eram to imensas que tinha de caminhar com os ps bem separados, o que lhe causava um passo gingado. Mas para todo esse volume, era 
baixo, de altura mal equiparada  de Shanna, que, para uma mulher, estava mais para pequena do que para alta. A respirao ofegante, acelerada pelo esforo de erguer-se 
da cadeira, encheu a sala com um aroma de rum ordinrio, alho e peixe. Depressa Shanna apertou de encontro s narinas um leno perfumado, para acalmar o estmago 
depois de todos esses cheiros.
    - Minha senhora, pensei que tivesse mudado de pensar. - E Hicks riu  socapa, enquanto tentava pegar-lhe a mo para pespegar-lhe um beijo.
    Shanna reprimiu um tremor de repulsa e afastou-se antes que os lbios dele lhe tocassem os dedos, pondo as mos a salvo dentro do regalo. No podia decidir o 
que era pior: se suportar o cheiro ftido daquele lugar e o que se desprendia dele ou a repugnante sensao de sua boca na mo dela.
    - Aqui estou como afirmei que estaria, Sr. Hicks - respondeu a moa, com severidade. O odor medonho a venceu e tornou a tirar do regalo o lencinho perfumado 
para sacudi-lo em frente ao rosto velado. - Por favor! - Ela sufocava. - Deixe-me ver o homem, para que possamos prosseguir com as negociaes.
    O carcereiro demorou um momento e esfregou o queixo, pensativo, cogitando se poderia ganhar mais do que lhe haviam prometido. A nica vez em que a dama estivera 
na priso fora cerca de dois meses antes, tambm pesadamente disfarada, como agora. Sua curiosidade estava desperta,
    Porm ela no deixara perceber a razo por que desejava conhecer um condenado. A perspectiva de uma bolsa bem pesada o acicatara, e fornecera os nomes de prisioneiros 
destinados  rvore tripla, dando esses nomes ao homem enorme ao lado dela, quando ele viera busc-los. Na primeira visita, Hicks observara o anel no dedo dela e 
seu rico vesturio. No era difcil adivinhar que no se tratava de gente pobre. Oh! Sim, a pequena tinha fortuna! E ele procuraria obter com jeito maior poro 
dela do que lhe fora prometido. Se pudesse. E a  que estava a dificuldade: no ousaria pedir-lhe nada enquanto ela estivesse acompanhada pelo empregado, que no 
parecia disposto a deix-la.
    Mas parecia-lhe uma vergonha que uma mulher que cheirava to doce e tentadora assim desperdiasse nem que fosse um s momento de sua vida falando a um condenado. 
Esse tal de Beauchamp era um arruaceiro, o pior prisioneiro que ele j levara a uma cela. Hicks esfregou a gorda bochecha, pensativo, recordando o punho do homem 
contra ela. O que no daria para ver castrado o maldito vagabundo! Isso lhe calharia bem. Mas o patife ia morrer, e seria feita vingana. Embora um fim mais lento
fosse mais da sua preferncia. Hicks deu um pesado suspiro, depois resfolegou abruptamente
    - Temos de v-lo nesta cela. - O gorducho carcereiro tirou uma penca de chaves de um gancho na parede. - Est sendo guardado separado dos outros. - Ergueu a 
lanterna enquanto falava. - Foi preciso um monto de soldados pra derrub-lo e acorrent-lo quando foi apanhado na hospedaria. Sendo um colono,  mesmo meio selvagem.
    Se Hicks tentava amedront-la no o conseguiu. Shanna estava calma agora e sabia o que deveria ser feito para facilitar sua prpria situao. Nada se interporia
a ela depois de ter chegado to longe.
    - Mostre o caminho, mestre carcereiro - falou, com firmeza. - No haver um s nquel para voc at que eu haja decidido por mim mesma se esse Sr. Beauchamp 
preenche meus requisitos. Meu servidor Pitney nos acompanhar para que no acontea nada demais.
    O sorriso desapareceu Hicks deu de ombros. No achando outra desculpa para demoras, pegou a lanterna para iluminar o caminho. Com seu peculiar andar gingado, 
precedeu-os para fora do escuro aposento, atravs das pesadas portas de ferro que levavam  priso principal e depois para baixo, para um corredor muito mal iluminado. 
Seus passos ecoavam nos degraus de pedra, enquanto a lanterna lanava em torno deles sombras bruxuleantes e sinistras. Silncio sobrenatural dominava o lugar, pois 
a maioria dos prisioneiros dormia; mas, de vez em quando, podia-se ouvir um ronco ou um lamento amortecido. gua pingava de alguma fonte invisvel, e sons de rpidas 
correrias em cantos escuros traziam a Shanna arrepios e um estranho pressentimento. Tremeu de apreenso e apertou bem o manto contra si, sentindo a misria do local.
    - H quanto tempo esse homem est aqui? - perguntou, relanceando, inquieta, em derredor. Parecia impossvel que algum mantivesse sua sanidade mental num buraco 
assim.
    - Quase trs meses, senhora.
    - Trs meses! - suspirou Shanna. - Mas sua nota dizia que ele acabava de ser condenado! Como  isso?
    Hicks fungou:
    - O magistrado no sabia direito o que fazer com o sujeito. Com um nome como Beauchamp, tem-se de ter muito cuidado at para pendur-lo. Mesmo Lorde Harry, ele 
mesmo, tem um bocado de medo do Marqus de Beauchamp. O velho Harry estava relutante, pode apostar, mas sendo o magistrado, a coisa lhe competia e no a outro. Ento, 
h uma semana, deu a ordem: pendure-o! - Os pesados ombros de Hicks descaram como se fossem carga demasiada para ele. - Acho que  porque o sujeito  das colnias 
e, tanto quanto sei, no tem parentes por aqui. O velho Harry me mandou pendurar o gajo sem barulho para os outros Beauchamps e o marqus no ouvirem falar da faanha. 
Sendo inteligente como sou, imaginei, quando me mandaram cuidar do caso em segredo, que o Sr. Beauchamp era o homem para a senhora. - Hicks se deteve diante de uma 
porta de ferro. - A senhora disse que queria um homem pronto para a forca, e eu no podia d-lo para a senhora at que o velho Harry se decidisse a pendur-lo.
    - Fez bem, Sr. Hicks - replicou Shanna, um pouco mais amvel. A coisa era melhor do que havia esperado! Agora, quanto  aparncia e ao consentimento do homem.
    O carcereiro meteu a chave na fechadura e empurrou a porta, que se abriu depois de muito ranger. Shanna trocou um rpido olhar com Pitney, sabendo que o momento 
estava perto quando visse um fim para o seu plano, ou um comeo.
    Hicks ergueu a lanterna para iluminar melhor a pequena cela, e Shanna deu uma olhada no homem l dentro. Estava encolhido num catre estreito e agarrava um cobertor 
gasto, esfarrapado, em torno dos ombros como fraca proteo contra os arrepios. Quando o brilho da lanterna o atingiu, mexeu-se e cobriu os olhos como se lhe doessem. 
Onde a manga fora arrancada do brao, Shanna viu uma feia contuso. Seus pulsos estavam feridos e inflamados no lugar onde haviam estado as algemas. As feies achavam-se 
meio ocultas pelos cabelos negros desarrumados e a barba escura; fitando-o, Shanna no pde deixar de pensar em alguma criatura diablica que houvesse rastejado 
das entranhas da terra. Um estremecimento a percorreu como se  tivesse realizado o pior de seus temores.
    O prisioneiro se ergueu de encontro  parede at sentar-se e abrigar os olhos.
    - Maldio, Hicks! - resmungou. - No pode deixar que ao menos eu durma em paz?
    - De p, seu patife maldito!
    Hicks adiantou-se para cutuc-lo com o basto de madeira que levava, mas quando o prisioneiro obedeceu, o carcereiro apressadamente retrocedeu vrios passos.
    Shanna perdeu o flego, pois o camarada se esticou at ficar muito mais alto do que Hicks. Agora ela podia ver-lhe os ombros largos e, sob a camisa aberta, o 
peito peludo que descia para o ventre chato e os quadris estreitos.
    - Est aqui uma dama que quer v-lo. Sua voz era agora menos perceptvel do que antes. - E se pensa em danific-la, deixe preveni-lo de que...
    O prisioneiro se esforou para enxergar na escurido para alm da lanterna:
    - Uma senhora? Que loucura  essa, Hicks? Ou talvez alguma tortura mais sutil?
    Sua voz era macia e profunda, agradvel aos ouvidos de Shanna, e pronunciava bem. A voz flua com facilidade e ele falava com menos rapidez do que Shanna estava 
acostumada a ouvir na Inglaterra. Homem das colnias, dissera Hicks. Essa, sem dvida, a razo para os sutis acentos em sua fala. Mas ainda havia algo mais: uma
divertida zombaria que parecia escarnecer de tudo a respeito do carcereiro.
    Shanna se manteve nas sombras por mais algum tempo, enquanto estudava com cuidado esse Ruark Beauchamp. Suas roupas estavam to esfarrapadas quanto o cobertor, 
e ela se tornou bem consciente de que estavam amarradas com barbantes numa tentativa de encobrir o torso esbelto. Os cales haviam sido rasgados de um lado quase 
at a cintura, e o rstico remendo pouco escondia da linha flexvel de seu flanco. Um bluso de linho - talvez branco, outrora - estava manchado e apenas reconhecvel; 
pendia-lhe em farrapos dos ombros, mostrando as costelas e o corpo ainda musculoso, a despeito das privaes por que passava. Seus cabelos revoltos e os olhos alerta 
enquanto tentava distingui-la. No o conseguindo, ergueu-se em toda a sua altura e inclinou-se formalmente para a escurido que a encobria. Havia uma nota satrica 
em sua voz:
    - Perdo, senhora. Meus aposentos nada tm de belos. Tivesse eu previsto sua visita e teria mandado limp-los um pouquinho. Claro - sorriu e indicou o que o 
rodeava - no h muito que limpar e arrumar aqui.
    - Segure essa lngua exuberante! - interrompeu Hicks, servialmente. - A dama est aqui a negcios e voc tem de lhe mostrar respeito. Bateu na palma da mo, 
de modo sugestivo, com o basto e riu  socapa com a prpria inteligncia.
    O condenado ergueu o sobrolho para Hicks e o fitou at que o obeso carcereiro comeou a sentir-se pouco  vontade.
    No tendo encontrado at ento obstculos a seu plano, sentia-se Shanna muito animada. Tudo parecia correr maciamente, como se o tivesse planejado toda a vida, 
quando, na verdade, isso no se dera. A confiana e a coragem se reanimaram nela: com um movimento gracioso, etreo, adiantou-se at a plena luz da lanterna.
    - No precisa maltratar o homem, Sr. Hicks - repreendeu, com gentileza.
    O som de sua voz, baixo e aveludado, garantiu-lhe que a ateno do prisioneiro se concentrava nela. Shanna caminhou lenta, completa e deliberadamente em torno 
dele, avaliando-o como o faria a um animal. Os olhos dele - de um raro colorido ambarino com reflexos dourados - a seguiam com divertida pacincia. O amplo manto
preto e as anquinhas que a moa usava sob o vestido deixavam muito  imaginao, no dando a menor pista sobre sua idade ou aparncia.
    - Ouvi dizer que as senhoras da corte praticam estranhos prazeres - observou ele, cruzando os braos sobre o peito. - Se na verdade existe uma mulher embaixo
dessas roupagens, vejo poucas evidncias disso. Perdo, senhora, mas  tarde, e minha mente est entorpecida de sono. Por minha vida: no posso determinar o seu 
propsito aqui.
    Seu sorriso era apenas um pouquinho zombeteiro, mas havia em sua voz um desafio.
    De propsito, Shanna chegou bem perto dele, para assegurar-se de que o homem podia sentir a fragrncia de seu perfume.
    Estava lanado o primeiro assalto.
    - Cuidado, senhora! - aconselhou Hicks. - Esse cara  vivo! Matou uma mulher e seu beb. Bateu at ela virar uma massa sangrenta.
    Pitney foi a passos largos para junto de sua ama, para proteg-la. Sua imensa estatura parecia ameaadora nos estreitos limites da cela e fazia parecer anes
os que lhe estavam prximos. Shanna viu apenas um vislumbre de surpresa nos olhos do prisioneiro.
    - Veio bem escoltada, senhora! - Seu tom era um tanto audacioso. - Terei cuidado em no fazer movimentos sbitos com receio de errar e fraudar o carrasco em 
seus emolumentos.
    Ignorando o escrnio, a moa retirou um frasco das dobras do manto e lho entregou, dizendo suavemente:
    - Conhaque, senhor, se  que aprecia isso.
    Devagar, Ruark Beauchamp estendeu a mo, cobrindo os dedos finos com os seus por um breve momento antes de pegar a garrafa. Ela sorriu sob o vu.
    - Meus agradecimentos.
    Em qualquer outra ocasio, Shanna teria tratado o homem com desdm por sua ousadia, porm ficou silenciosa, agora. Observou-o ao tirar a rolha e levar o frasco 
aos lbios. Depois, ele se deteve e tentou de novo descobrir-lhe as feies atravs da renda negra do vu.
    - Deseja partilh-lo comigo, senhora?
    -No, Sr. Beauchamp;  seu para que o aprecie a seu gosto. Ruark provou um longo gole antes de suspirar de aprovao.
    - Minha gratido, senhora! Quase havia esquecido que existem tais luxos...
    - Est acostumado ao luxo, Sr. Beauchamp? - indagou Shanna, suavemente.
    O prisioneiro deu de ombros, erguendo a mo para o que o rodeava:
    - Certamente, a mais do que isto.
    "Uma resposta que no compromete", pensou Shanna, zombeteira. Depois de trs meses naquele lugar, o homem deveria estar mais agradecido por sua companhia. Tornou 
a retirar a mo de sob o manto, dessa vez oferecendo-lhe um pequeno pacote:
    - Embora admitindo que seus dias estejam contados, Sr.Beauchamp, muito pode ser feito para facilitar suas condies. Isto  para sua fome.
    Ele ficou sem aceitar o embrulho at que Shanna foi obrigada a abrir o grande guardanapo, ela mesma, exibindo uma forma de po e um bom pedao de queijo com 
cheiro muito forte. Ele a olhou, curioso, no fazendo o menor movimento para pegar as coisas.
    - Senhora - implorou - desejo este presente, mas devo ter cuidado, pois no posso adivinhar o que deseja em troca, e nada tenho para oferecer-lhe.
    Uma sombra de sorriso passou pelos lbios de Shanna. Olhando-a diretamente, Ruark pensou perceber uma linda boca sob o vu. Deu asas  imaginao...
    - Oua-me por um momento e considere o que vou dizer senhor, pois tenho um assunto a discutir - replicou Shanna com calma, colocando o alimento na mesa rstica 
junto ao catre.
    Resolutamente, Shanna encarou Hicks, e sua ordem foi firme:
    - Deixe-nos agora. Quero falar em particular com este homem. Estava cnscia de haver despertado o interesse do prisioneiro. Sob as escuras sobrancelhas, ele 
observava todos com ateno, e aguardava com pacincia, como um gato frente a um buraco de rato. Pitney aproximou-se, preocupado:
    - A senhora est bem certa?
    - Claro. - A mo fina indicava a porta: - Acompanhe o Sr. Hicks para fora da cela.
    O corpulento carcereiro protestou, irritado:
    - O vagabundo pode apertar o pescoo dela! - Quem daria o seu dinheiro, se algo de mau acontecesse  dama?
    -  o meu pescoo que est em jogo, Sr. Hicks. - Shanna cortou-lhe a palavra; e, como se lesse na mente dele acrescentou: - E o senhor ser pago do mesmo jeito
pelos seus servios.
    Hicks ficou vermelho, e seus lbios gaguejantes pareciam expelir a respirao. Arriscou um olhar cauteloso ao prisioneiro. Depois, com um suspiro, segurou a 
lanterna acima da cabea. Pegando um toco de vela da mesa tosca, acendeu-o na lanterna. E preveniu:
    - Ele  ligeiro madame.  melhor ficar longe dele. Se ele fizer um movimento, grite. - Olhou para o homem: - Tente alguma coisa, seu vagabundo, e vamos ver voc 
danar e balanar antes que o Sol v embora.
    Resmungando para si mesmo, Hicks acabou saindo. Pitney ficou, rgido, a indeciso marcando as fundas rugas da testa.
    - Pitney, por favor! - Shanna esperava, e quando ele no deu sinal de sair, ela ergueu a mo, implorando, em direo  porta: -  seguro o bastante. Que pode 
ele fazer? Nada acontecer.
    Afinal o homenzarro falou, mas s para Ruark:
    - Se quer viver, tome cuidado em que nem o mnimo dano acontea a ela. Se acontecer, voc se arrepender: dou-lhe minha palavra!
    Com o olhar, Ruark avaliou o tamanho e o vigor do outro e, com respeito, acenou sua aquiescncia. Ainda carrancudo, Pitney saiu da cela. Fechando a porta ao 
passar, abriu a pequena vigia que havia nela. Suas costas podiam ser vistas do interior, pois se colocou de guarda contra um possvel intrometido.
    O prisioneiro se manteve imvel, aguardando o que faria Shanna. Ela caminhava devagar pela cela, tendo o cuidado de pr-se a salvo do alcance dele. Baixando 
o capuz, ela o encarou e lentamente retirou o vu, deixando-o na mesa a seu lado.
    A segunda restrio cara por terra!
    O golpe acertou com uma fora de que Shanna sequer suspeitou. Ruark Beauchamp tinha receio de falar: A beleza dela era tal que os joelhos dele fraquejaram. Isso 
f-lo compreender o sofrimento de fome de seu longo e forado celibato. Seu cabelo cor de mel, preso num apanhado de cachos soltos, lhe cascateava pelos ombros e
pelas costas. Era rico e luxuriante, em estudado desarranjo. Fios dourados, iluminados pelo Sol, tremeluziam entre os cachos. Ruark sentiu a tentao de ir at ela
e acariciar a farta cabeleira sedosa, gentilmente correndo os dedos pelas faces delicadas e coloridas. Suas feies pareciam perfeitas, nariz reto e de ossos delicados. 
As sedosas sobrancelhas castanhas se arqueavam ao afastar-se de olhos claros, verde-mar, brilhantes contra a franja espessa das negras pestanas. Fitaram-no, bem 
abertos, mas to insondveis quanto qualquer oceano que ele jamais tivesse contemplado. Os macios lbios rseos, arqueados e graciosos, sorriam de leve. Sob esse 
clido olhar, a pele corava. Com grande fora de vontade, Ruark dominou-se e manteve silncio. Shanna murmurou, com recato:
    - Serei to feia, senhor, que no lhe acodem palavras?
    - Ao contrrio - respondeu Ruark, aparentando um  vontade que no sentia. - Sua beleza me cega de tal forma que receio ter de ser levado  fora pela mo. Minha 
mente mal pode absorver tanto esplendor aps o aspecto lgubre deste calabouo. Querer isto dizer que irei saber seu nome, ou isso  parte de seu segredo?
    Shanna sentiu haver atingido seu alvo. Com freqncia, ouvira palavras assim, na verdade as mesmas palavras, e lhe pareciam banais. Que esse infeliz andrajoso 
as usasse era quase uma afronta para seu orgulho. Mas levou o jogo adiante. Sacudiu a cabea, balanando os cachos de modo sedutor, e riu um tanto tristemente:
    - No, senhor, vou dizer-lhe meu nome, embora implore sua discrio, pois a reside o n do meu problema. Sou Shanna Trahern, filha de Orlan Trahern. i,
    Deteve-se, esperando uma reao. As sobrancelhas de Ruark se ergueram, ele no pde esconder seu espanto. "Lorde" Trahern era conhecido em todos os crculos, 
e nos dos jovens, Shanna Trahern freqentemente era motivo de acirrados debates. Ela era a rainha do gelo, o prmio inatingvel, a mgoa de muitos rapazes, e o alvo 
ambicionado, o sonho de grande nmero de jovens. Satisfeita, Shanna continuou:
    - E, Ruark - usou o prenome dele com casual familiaridade - preciso do seu nome.
    - Meu nome! - explodiu ele, sem acreditar no que ouvia. - Ruark Beauchamp? Precisa do nome de um assassino condenado, quando o seu prprio lhe abriria qualquer 
porta?
    Shanna se ps bem diante dele para dar peso s suas palavras. De olhos bem abertos e suplicantes, fitou-o nos olhos e falou quase num sussurro:
    -Ruark, estou em dificuldades. Devo casar-me com um homem de bom nome, e voc deve saber da importncia, na Inglaterra, da famlia Beauchamp. A no ser eu, claro, 
ningum saberia que no tem parentes aqui. E como ter pouca necessidade futura do seu nome, eu poderia fazer bom uso dele.
    A confuso de Ruark lhe embotava os sentidos. No podia imaginar os motivos da moa. Um amante? Um filho? Claro que no seriam dvidas, pois tinha dinheiro aos
montes. Sua testa franzida encontrou os olhos azul-esverdeados:
    - Com certeza, madame, a senhora graceja. Propor casamento a um homem que est para ser enforcado?Palavra que no entendo, no vejo a lgica disto.
    -  uma questo um tanto delicada. - Shanna ficou de costas para ele, como se estivesse embaraada, e se deteve antes de continuar. Falou gravemente, por sobre 
o ombro: - Meu pai, Orlan Trahern, concedeu-me um ano para encontrar um marido: o fracasso me far noivar com quem ele quiser. V em mim uma solteirona e deseja 
herdeiros para sua fortuna. O homem deve ser de uma famlia chegada ao Rei George. Ainda no encontrei o que eu mesma escolheria, mas o ano quase se esgotou. Voc 
 minha ltima esperana para evitar um casamento arranjado por meu pai. - Agora, vinha a parte mais difcil: tinha de argumentar com esse colono sujo e esfarrapado. 
Manteve o rosto desviado para disfarar seu desgosto. Disse, com cuidado: - Ouvi dizer que um homem pode casar-se com uma mulher para pagar-lhe as dvidas que o
levam  forca como compensao por algum conforto nos seus ltimos dias. Posso proporcionar-lhe muito, Ruark. alimentos, vinho, roupas adequadas e bons cobertores.
E na certa minha causa...
    Ante seu silncio, Shanna se virou para ele e tentou divisar-lhe as feies na obscuridade, porm ele havia manobrado suas posies at que ela agora ficava 
em plena luz ao enfrent-lo; movera-se de modo to furtivo que ela nem se dera conta disso. A voz de Ruark estava meio tensa, quando disse:
    - Senhora, este  um teste realmente difcil. Minha me se esforou por fazer de mim um cavalheiro em relao  mulher. - A respirao de Shanna ficou presa 
quando ele se aproximou, dizendo: - Porm meu pai, homem de grande sabedoria, ensinou-me, quando eu ainda era adolescente, uma regra a que procuro sempre ater-me.
    Caminhou devagar em redor dela, tal como a moa fizera momentos antes, e se deteve quando ficou s costas dela. Mal respirando, Shanna esperou, sentindo-o perto,
mas sem ousar mexer-se.
    - Jamais - ele lhe sussurrava ao ouvido, o que lhe provocou um formigamento de medo - jamais compre uma gua encoberta por um cobertor..
    Shanna no pde evitar um recuo quando as mos dele se aproximaram de seus ombros e pairaram sobre as presilhas de seu manto.
    - Permite-me? - indagou ele, e sua voz, embora macia, pareceu encher todos os cantos da cela. Ruark interpretou o silncio dela como consentimento, e Shanna 
se conteve enquanto os dedos magros dele lhe desabotoavam os prendedores do manto. Ele lhe retirou o manto dos ombros e ela, naquele instante, se arrependeu do que 
havia feito. Seu ataque to bem concebido se gastara numa precipitao imprevista. Ela, porm, nem calculava que iria colher uma carnificina. Embora no tivesse 
muitos enfeites nem rendas bonitas, o vestido de veludo vermelho lhe realava divinamente a beleza. Ela era uma jia de rara beleza que tornava o vestido no uma
pea de vesturio, mas uma obra de arte. Em cima das anquinhas em feitio de balo, que lhe aumentavam as saias para o lado, o corpete de rendas justo mostrava a
finura de uma cintura e realava-lhe o busto ousadamente acima do decote quadrado.  luz dourada da lanterna de sebo, sua pele brilhava como cetim fino e clido.
    Ruark permaneceu perto dela; sua respirao lhe bafejava suavemente o cabelo e a cabea estava embriagada com o perfume delicioso da mulher. O tempo voou em
asas silenciosas, mas mesmo assim ele no se mexeu. Shanna sentia-se sufocada pela proximidade dele. O cheiro de conhaque lhe impregnava os sentidos, e ela podia 
sentir os olhos dele a analisando lentamente. Se a causa fosse menos extrema, ela teria fugido, enojada. Na verdade, precisou lutar contra a vontade de faz-lo naquele 
instante. Irritava-a a muito o fato de precisar ficar em exibio para ele. Porm, como seu pai, quando existiam altas vantagens em jogo, no havia limite para sua 
pacincia, determinao, ou astcia.
    Com todos os sentidos totalmente envolvidos nela, Ruark sentiu um desejo avassalador de tomar Shanna nos braos. A fragrncia dela o atraa, e as curvas maduras 
e suaves da moa faziam-no arder de desejo. A beleza irrepreensvel da moa lhe estimulava a alma e agitava a imaginao com imagens das coisas adorveis que estavam
ocultas. Tinha necessidade de sentir o calor dela sob ele, de tom-la em seus braos frementes e aplacar o desejo que lhe consumia a alma. Tinha, porm, perfeito
conhecimento de que estava vestido de andrajos imundos.
    Ademais, havia um laivo intrigante sob a superfcie da beleza da moa; era algo que ele no conseguia identificar, uma ponta de sarcasmo, um lampejo de insinceridade, 
um estranho toque arrogante. Ainda assim, estava convencido de que, se ela pudesse escolher, no estaria ali agora. Ele sabia que Orlan Trahern era homem poderoso, 
mas era-lhe difcil acreditar que o outro pudesse constrangir daquela forma a vida de sua filha nica. Shanna no suportou mais e se virou para enfrent-lo:
    - Quer dizer que o senhor no est de acordo em partilhar seu nome comigo? Recusa minha proposta? - Por que, em nome de Deus, precisava ela suplicar quele tratante 
velhaco?
    Ruark arfou com dificuldade e, com esforo extremo respondeu, calmo:
    - H muita coisa a ser ponderada, Shanna. Examinou-a interrogativamente, arqueando as sobrancelhas escuras e, quando ela fez um sinal afirmativo com a cabea, 
prosseguiu. - Meu nome  tudo que me resta, e h os que sofreriam mais ainda se tambm ele fosse mais desonrado do que j foi.
    - Prometo-lhe, Ruark, que no tenho inteno de usar mal seu nome - apressou-se ela a afirmar. - Apenas o pedirei emprestado por algum tempo e, quando descobrir 
o homem que vou amar, tudo terminar. Se voc concordar, ser enterrado com todo o respeito numa sepultura de um cemitrio. Os que lhe so caros logo se esquecero 
de sua desgraa.
    - E voc me promete tranqilidade para meus ltimos dias, Shanna? - Foi como se ele no a houvesse escutado. - Entretanto, isso vai roubar-me minha nica diverso. 
o desafio do Sr. Hicks.
    Como se tivesse ficado perturbado, Ruark andou para l e para c na cela, aparentemente meditando muito. Parou em frente ao catre e mais uma vez seu olhar foi 
inquisitivo.
    - Posso sentar-me, Shanna? Peo desculpas por no haver cadeira para voc. Se quiser, pode sentar-se junto comigo.
    - No, no, obrigada - apressou-se ela a responder. Relanceou a vista para a palha imunda e no conseguiu reprimir um estremecimento.
    Ruark encostou-se na mida parede de pedra do canto da cela, levantou um joelho para nele apoiar o brao, e deixou que a mo ficasse pendurada molemente. Fixou 
o olhar na moa, e Shanna preparou-se para o ltimo ato. Precisava representar bem. Pelo menos ele ainda no rira dela abertamente.
    - Voc acha que julgo o assunto superficialmente, Ruark? Meu pai  homem de vontade de ferro e, embora j tenha sido xingado de muita coisa, nunca ouvi algum 
duvidar de sua palavra. No duvido de que far como ameaou e me forar a casar com um homem a quem eu despreze.
    Era firme a contemplao de Ruark, mas ele no dizia uma s palavra. Era sua vez de ficar nervosa e caminhar de um lado para outro, o que s lhe aumentava a 
inquietao. Shanna Trahern se movia com a graa natural de quem tinha vida ativa e nada da afetada fragilidade exibida pelas "belas"
das cortes e sales. Havia uma segurana em seu passo que emprestava graa a todos os movimentos. Ruark lhe admirava todas as facetas e perdia a maioria das
palavras dela, pois em sua mente j estabelecera o preo, e apenas esperava o momento propcio.
    Shanna se deteve e, descansando as mos na mesa, inclinou-se para ele. O decote se abriu tentadoramente: ela viu-lhe os olhos onde os queria.
    - Ruark - disse com firmeza, e o olhar dele se ergueu, relutante, para encontrar os dela - existe algo em mim que ache desagradvel?
    - No, Shanna, meu amor. - Sua voz soava oca na cela. - Voc  bela alm da minha imaginao. E apreciei tanto esta refeio que no queria ver-lhe o fim. Mas 
por favor considere isto: se sua causa lhe  to cara, negociarei com voc por meu nome, mas o preo ser elevado, Shanna. E peo-lhe que, antes de ir-se, diga-me 
sim ou no, pois no poderei suportar o suspense.
    Shanna prendeu a respirao, de medo do que ele ia dizer.
    - Meu preo  este. - As palavras dele lhe ecoavam no crebro. - O casamento ser pra valer. Estou condenado  forca, e gostaria de poder ter um herdeiro. O 
preo  que voc passe a noite comigo e consume os votos: que no fiquem apenas em palavras.
    O flego da moa voltou num mpeto, seus olhos flamejavam de ira. Ofegava de raiva da afronta. Como ousava ele! Preparava-se para gritar sua fria, mas a risada 
dele percorreu a cela e logo lhe abrandou a ira. Balanando ambas as pernas no catre e pondo as mos atrs da cabea, ele se mostrava to  vontade como se estivesse 
em alguma taverna bebendo cerveja.
    - Ah! sim. - Ele sorria, zombeteiro. - Esse poderia ser o preo real do seu apuro. Voc busca meu nome por uma causa que lhe  cara, esse nome que  meu ltimo 
e nico bem e s meu para dar. Quando peo o mesmo de voc. que o preo seja algo que s voc pode dar. ento parece muito alto. Ento rejeita o preo, nega a troca, 
e se encaminha para o fim desejado por seu pai. - Ruark pegou o frasco e, erguendo-o, fez o brinde: - A seu casamento, querida Shanna!
    Bebeu, e depois sentou-se contemplando-a com um sorriso abatido, sentindo sua perda. Shanna devolveu-lhe o olhar, com pouca cordialidade: "Esse maldito porco! 
Pensa que vai levar a melhor?"
    Encaminhou-se para ele, gingando os quadris como uma bailarina cigana, cabelos oscilando e olhos brilhando como fogos verdes. Fora atingida e sentiu a necessidade 
de sorrir para disfarar. A raiva comandava onde o bom senso se encolhia de medo. Ficou de p diante dele, mo nos quadris e dedo em riste:
    - Olhe - escarneceu - ouso toc-lo, sujo como , embora seja capaz de zombar da minha necessidade. E se me deito com voc. O que terei a ganhar? Trocar a vontade 
de meu pai por seu pirralho?
    Inclinando a cabea para trs, Ruark riu:
    - A vontade de seu pai, querida, parece coisa to certa que, como da morte, voc no escapar. E o que acontecer quando o marido, encontrado a preo to elevado, 
desposar uma viva e descobrir que ainda  virgem? Que dir ele? Que ela mentiu a seu pai? E meu pirralho, se tal for o caso, pode ou no ser aceito. S Deus sabe.
Se no, voc no tem nada a perder e tem muito a ganhar. Se sim, ser uma viva genuna que nenhum pai pode recusar. - Suspirou fundo: - Tudo isso para nada, pois
vejo que voc no  do tipo que arrisca a sorte. Quer meu nome, e tudo o que ele lhe possa acarretar, enquanto eu nada tenho a ganhar, pelo menos no aquilo que 
entesouraria at meu ltimo suspiro: uma lembrana que na verdade facilitaria meus ltimos dias. Ora! Chega de tudo isso! Na verdade voc  muito cativante, minha 
Shanna!
    Ps-lhe a mo no brao, numa terna carcia:
    - Sabe que  minha at que eu morra? Esse  o preo que uma mulher paga por procurar um homem e pedi-lo em casamento. De modo que os sbios dizem que ela deve 
pertencer-lhe at a morte dele.
    Shanna olhou-o sem acreditar no que ouvia, cnscia da armadilha que se ia fechando em torno dela.
    - Porm minha preciso  grande! - murmurou, e achou alguma verdade no que ele dissera: no se sentiria livre at que ele morresse. - Vim preparada para argumentar. 
- Sua voz era baixa e rouca. - No vim para capitular, mas capitularei. Ento  uma troca.
    Por um instante, Ruark ficou boquiaberto; no havia esperado isso. De sbito, sentiu-se estimulado. Quase valia a pena ser enforcado! Levantou-se para ficar 
diante dela, embora no ousasse toc-la, e suas mos apertavam os prprios quadris enquanto lutava por dominar-se. Sua voz veio gentil, quase um sussurro:
    - Uma troca. Sim, uma troca. E que se saiba que o primeiro a despos-la, minha adorvel Shanna, comprou esse direito pelo mais alto preo.
    Fitando aqueles clidos olhos ambarinos, Shanna no achou palavras com que replicar. Pegando seu manto, meio entorpecida, ela aceitou sua ajuda para vesti-lo. 
Arrumou o vu e puxou o capuz para a frente, cobrindo os cabelos com cuidado.
    Por fim, pronta para partir, encarou-o mas quase recuou quando a mo dele se ergueu para toc-la. Para sua surpresa ele apenas enrolou um cacho que escapara 
e lentamente firmou o lao que lhe mantinha o capuz no lugar. Shanna mirou-o no rosto: os olhos dele eram doces e no a deixavam de olhar.
    - Devo fazer certos arranjos - falou ela com firmeza, reunindo toda a sua coragem. - Depois mandarei Pitney busc-lo. No sero mais de um ou dois dias. Boa-noite.
    Voltou-se e saiu. Nesse momento Ruark poderia gritar de alegria. Mesmo Hicks no lhe pde refrear a felicidade, quando mais tarde, outra vez no escuro, Ruark 
estendeu-se no catre e empenhou-se em seu passatempo: caar pulgas.
    O dia se arrastou interminavelmente, coisa que para Ruark Beauchamp era normal. Nos estreitos limites de sua cela ele nada podia fazer a no ser esperar seu 
fim. Os restos da refeio da manh estavam numa mesa, porm ele sentia a fome saciada, coisa incomum atrs dos portes de ferro de Newgate. Idnticas pores de
alimento teriam satisfeito a qualquer desgraado que houvesse tido o dissabor de estar trancafiado na cadeia - estivesse cumprindo pena por uma dvida no paga ou
por ofensa pior que, com o tempo, o levaria  forca em Tyburn. Havia umas boas trs horas de caminho de Newgate  forca em Tyburn, e se podia pensar sobre uma vida
inteira nesse lapso de tempo, embora habitualmente ao longo do caminho estivessem enfileirados visitantes e curiosos, ansiosos para presenciar o enforcamento.
    No haviam confiado uma navalha a Ruark, de modo que uma barba espessa lhe cobria grande parte do rosto; porm, com as roupas limpas que Hicks lhe trouxera, 
ele apresentava melhor aparncia. Uma camisa de linho, cales, meias, e um par de sapatos de couro pareciam muito bem aps trs meses de farrapos imundos. Naquele 
tempo seu balde de gua - a que acrescentavam uma dose de rum para evitar que fermentasse - tanto servia para matar-lhe a sede quanto para qualquer limpeza que ele 
quisesse. Porm, desde a visita de Shanna havia sempre um bom suprimento de gua fresca, e uma garrafa de vinho acompanhava os pratos do jantar.
    Impossvel imaginar algo que melhorasse a natureza de Hicks a no ser a promessa de uma bolsa, pequena ou grande. A chegada de roupas e alimentos e as boas maneiras 
do carcereiro eram a melhor indicao de que no estava tudo perdido.
    Ainda assim, na pequena e escura cela, Ruark caminhava sem cessar. A sombra do n corredio escurecia os dias que se escoavam, dvida e temor lhe torturavam 
a mente. No tinha meios de saber se Shanna Trahern manteria sua palavra e mandaria busc-lo. Apenas tornar a ver o mundo l fora seria um projeto inebriante, mas-seus 
pensamentos se ocupavam com a viso daquela bela moa em seus braos. Talvez tivesse mudado de opinio, decidindo ser mais fcil tolerar a vontade do pai do que 
passar uma noite com ele. Ou teria imaginado tudo? Seria um sonho que ele teria conjurado das profundezas da desesperana? Teria Shanna Trahern, mulher linda e meta 
celestial de todo rapaz solteiro aqui e no estrangeiro, na verdade entrado em sua cela e feito com ele aquele pacto? A viso que o enganara por completo era a daquela
orgulhosa mulher entregando-se a um homem estigmatizado como assassino.
    Detendo-se diante da porta da cela, Ruark descansou a testa de encontro ao ferro frio. A imagem obsedante de feies perfeitas, suaves, tranas douradas cascateando
pelos belos ombros, e seios arredondados e trgidos quase livres no decote do vestido de veludo vermelho eram como um ferro em brasa em sua memria com todos os 
detalhes, agitando uma angustiosa impacincia que s poderia ser aliviada quando ela fosse sua de verdade.. se  que esse momento chegaria. - Deu-se conta de que, 
onde a brutalidade de Hicks fracassara, a iluso de Shanna estava perto de derrub-lo. No entanto, manteve a viso, pois, quando ela desaparecia, era substituda 
pelo horrvel: a da forca, a rvore tripla, e seu fruto.
    Caminhava. Sentava-se. Lavava-se. Esperava.
    Afinal, em crescente frustrao atirou-se em seu catre, exausto pela agonia da incerteza. Esfregou a mo na barba hirsuta e estremeceu quando lhe veio  mente, 
dolorosamente, como devia estar miservel sua aparncia. O melhor que Shanna podia haver pensado  que ele era um brbaro.
    Ps o brao sobre os olhos como para expulsar essas iluses torturantes e cochilou intermitentemente. Mesmo assim no encontrou paz e acordou suando frio, com 
uma dor corrosiva na boca do estmago.
    Ainda lutava por conter suas emoes quando ecoaram passos no silncio. Ruark despertou por completo, quando o som parou em frente  sua cela. Uma chave fez 
barulho na fechadura: Ruark ps as longas pernas para fora do catre, quando a porta foi escancarada. Dois guardas corpulentos armados de pistolas entraram e o fizeram 
sair. Satisfeito por qualquer quebra na monotonia, Ruark apressou-se em obedecer. Atravessou o portal e viu-se cara a cara com o Sr. Pitney.
    - Vieram busc-lo, escria! - Hicks cutucou as magras costelas de Ruark com o longo porrete. - Pouco me importa se voc tem de lidar com gente importante, mas 
a dama est disposta a casar-se. Voc vai ter de se haver com o homem e com os meus rapazes aqui: John Craddock e Hadley. - Olhou de soslaio para as sobrancelhas 
erguidas de Ruark: - S para ver,  claro, que voc no faa alguma gracinha.
    O corpulento carcereiro riu  socapa quando as pesadas correntes foram parafusadas aos pulsos de Ruark. As extremidades das correntes foram entregues a Pitney 
que as agarrou com firmeza. Com um gesto para que seguissem, Hicks guiou o cortejo atravs da cadeia, s parando quando chegaram ao carro que os esperava, perto 
do porto exterior. O veculo parecia muito uma grande caixa de carvalho sobre rodas com apenas uma janelinha gradeada ao lado. Um terceiro guarda sentava-se no 
alto, ao lado do cocheiro que j sustinha as rdeas, entrelaadas nos grossos dedos. Seu casaco estava bem enrolado nele devido ao frio da chuvinha garoenta, e no 
lhes deu mais ateno do que baixar o tricrnio sobre os olhos.
    - Agora, vocs vo fazer o que o Sr. Pitney disser - instruiu Hicks - E trazer esse miservel vagabundo de volta vivo ou morto. Os olhinhos pretos relancearam 
para o prisioneiro: - Cuidado! Se ele fizer um movimento para escapar arrebentem os miolos dele!
    - Sua bondade s  ultrapassada por suas boas maneiras, mestre carcereiro! - comentou Ruark, baixinho. Depois, endireitou os ombros: Podemos ir cuidar dos nossos
negcios ou ainda h coisas que voc deseja discutir com esses cavalheiros?
    Hicks acenou para o carro.
    - Entre, velhaco infame. Autorizo o bom Pitney a evitar que faa com a sua dama como voc fez com aquela moa na hospedaria... e ela carregava o seu filho...
    O olhar de Ruark endureceu quando o carcereiro exibiu um sorriso baboso, rindo em silncio zombeteiramente; mas o jovem permaneceu mudo mesmo sob o exame atento
de Pitney. No oferecendo qualquer explicao, Ruark passou por ele, alcanou a entrada e atirou-se no carro, junto com suas correntes. No escuro e vazio interior 
do furgo, afundou num canto para buscar o conforto que pudesse encontrar. A porta foi trancada com barras, e Hicks preveniu seu pessoal contra os lados de madeira.
    - Agora, tomem bem conta dessa pea! - admoestou. - E no ficaria admirado se ele lhes pregasse uma na menina do olho...
    Com um balano brusco, o pesado veculo tomou seu caminho aos solavancos. Era perto do meio-dia. Ruark no podia adivinhar quo longa seria a jornada, ou para 
onde iam. Rpidas aparies de um cu de chumbo e telhados midos com a fria garoa que perpassava atravs da janelinha alta. Jornadeavam para alm dos arrabaldes 
de Londres, e exigiam maior velocidade dos cavalos. Atravs das barras de ferro, Ruark avistou casas baixas de fazendas a distncia, cobertas por tetos de colmo, 
e campos com os remanescentes das colheitas de outono enchendo-os de restolhos, separados por sebes ou baixos muros de pedra. A sinuosa estrada enlameada passava 
por aldeias e manses campestres, mas dificilmente se via algum, pois a chuva impedia que houvesse trabalho nos campos e mantinha a todos fora das ruas. O veculo 
ia rpido sem olhos que lhe observassem a passagem, exceto os de algum porco guinchador a desimpedir o caminho e os dos cavalos que pastavam calmamente no relvado 
mido.
    Algum tempo depois, o veculo de repente se desviou da estrada e entrou numa pequena clareira, a que faltavam rvores que cresciam, compactas, ao longo do caminho. 
A correria quase virou Ruark no seu canto, mas ele conseguiu apoiar-se contra o choque. Seu corpo tenso s relaxou quando a viatura se deteve ao lado de um lago 
de gua verde estagnada.
    - Estamos bem escondidos agora, queridos. - Era a voz estrondosa do cocheiro. - Dem uma ajuda a esse vagabundo.
    Pitney desceu pelo lado oposto enquanto os dois guardas robustos pulavam para o cho e puxavam Ruark para fora pelas correntes, no lhe dando oportunidade de 
objetar ou resistir. Por um momento, Ruark ficou esmagado entre eles e gemeu de dor quando meteram os cotovelos em suas magras costelas. Depois, com um empurro 
amigvel, fizeram-no escorregar no espumante atoleiro que bordejava o lago. Gargalhando numa alegria vingativa, deram tapas nas costas um do outro com ruidoso bom 
humor.
    - Levante-se, fidalgo! - tripudiou o maior e o chutou. - Sua dama o est esperando!
    Zangados olhos ambarinos brilharam num rosto sujo: Ruark se ps de p com um rosnado, reunindo suas correntes num longo lao e sacudindo-as ameaadoramente. 
O guarda menor, John Craddock, cambaleou para trs, surpreso, agarrando a pistola na cintura.
    - Agora, meus queridos - Ruark rilhou os dentes num aviso resoluto - j tenho a corda no pescoo, e no poderio enforcar-me mais de uma vez, se levar comigo 
alguns de vocs. Pode usar essa pistola, mas, pelo que me toca, no irei explicar ao Hicks por que no vai pegar aquela gorda bolsa. Divirtam-se com outro qualquer, 
pois, se tornarem a pr as mos em mim, eu lhes arrebentarei as cabeas com essas "correntinhas" e o diabo que diga a ltima palavra.
    Eram homens simples, e olharam o prisioneiro com novo respeito. Ele tinha um modo indecente de tornar errada uma piada e tirar-lhe toda a graa. Mas Craddok
ficou com a pistola preparada para o que desse e viesse, quando Ruark voltou a pisar cho firme e uma vez mais assumiu o papel de prisioneiro.
    Pitney se havia recostado ao fundo do carro da priso e pde apreciar todo o episdio. Riu  socapa ao dar-se conta de que ali estava um homem que seria digno
par para Shanna Trahem pelo esprito. Seria divertidssimo ver sua senhora face a face com esse sujeito. Pelo menos, mais divertido do que agora. Irritava-o ver
um homem amarrado sendo atormentado.
    Peseando a chave no bolso do colete, Pitney se encaminhou para Ruark, porm, ao passar por trs de Craddock, pareceu tropear. Como um slido ombro o pegou firme 
nas costas, Craddock deu um grito explosivo e balanou para diante, tentando manter o equilbrio enquanto a lama o aspirava pelos ps. Rosnando, foi de encontro 
ao companheiro, Hadley, e ambos se esparramaram na lama. Falando de modo atropelado e tossindo, levantaram-se enquanto Pitney os contemplava calmamente.
    - Cus! Vocs trs so muito parecidos. Qual ser o. Ah! Acho que o que tem correntes  o meu homem. - Sua hilaridade atraiu olhares fulminantes dos dois guardas, 
e ele gesticulou para a gua: - Caramba, companheiro, voc deixou cair a pistola do Sr. Hicks.
    Enquanto- John Craddock caa de joelhos e andava s apalpadelas na lama, Pitney foi at Ruark. Hadley comeou a arrastar-se para a margem at que o companheiro 
lhe golpeou as canelas.
    - Olhe por onde anda! - gritou John Craddock. - Essas coisas esto amontoadas, e vo arrancar fora seus malditos ps!
    Pitney sorriu e, tendo a ateno de Ruark, bateu um dedo em seu ombro:
    - H uma hospedaria mais abaixo, na estrada. L poder lavar-se e arrumar-se para o casamento. Esses rapazes tero tempo de limpar-se. - A voz era estridente 
quando avisou: - Tome cuidado: segure a lngua a respeito de por que est aqui e de onde veio. E no tem de falar nada sobre a minha patroa a ningum, s a mim. 
Entendeu?
    Ruark limpou a lama do queixo barbado e espiou o homem:
    - Est bem.
    - Ento, vou tirar-lhe esses fenos, e estaremos a caminho. O dia est passando e minha patroa acha-se  sua espera.
    Entraram na hospedaria por uma escada traseira; ningum soube de sua chegada enquanto iam para um quartinho embaixo do telhado. Depois de pr seus casacos a 
secar diante do fogo, os dois guardas se postaram ao lado da porta, deixando Ruark aos cuidados de Pitney. Este apontou para uma grande tina de madeira a um canto 
do quarto:
    - A criada buscar gua para o banho. H um espelho para que possa observar sua aparncia. - Abriu um ba de couro e mostrou o contedo a Ruark: - A senhora 
mandou roupas para a ocasio. Pede que voc se prepare com cuidado para no a envergonhar.
    Ruark olhou de soslaio para o vigoroso homem e riu sem vontade:
    - Para quem foi implorar, sua patroa quer demais.
    Pitney no deu sinais de ter ouvido. Puxou um relgio do bolso do colete:
    - No temos mais de duas horas para perder aqui.
    Guardando o relgio, ergueu um pouco a cabea e olhou para Ruark com um sorriso que lhe era raro:
    - Caso esteja pensando onde eu estarei: h dois caminhos para sair daqui. Pela porta, com aqueles bons meninos l fora s esperando a oportunidade de pr-lhe 
as mos em cima, e esta janela. - Chamou-o com um gesto e abriu os postigos: era uma altura de trs andares dando para um empilhado de rochas escarpadas. - S tenho 
de disparar a pistola, e o outro guarda trar a viatura pelo outro lado, a toda velocidade.
    Ruark deu de ombros quando o homem fechou a janela devido ao friozinho cortante, e caminhou a passos largos para pr-se diante da lareira.
    - De qualquer modo, primeiro ter que passar por mim.
    Pitney despiu o pesado manto e abriu o casaco para mostrar um par de pistolas metidas na cintura. Aps breve considerao, e com total honestidade, garantiu-lhe 
Ruark que tal idia sequer lhe passara pela mente.
    A camareira era baixota porm jovial e cheia de sade, no inteiramente feia, no bonita tampouco. Alegava ter uns 20 anos, exagerava em quatro, e denunciava 
sua baixa idade na bvia relutncia em aproximar-se de seu imundo patro. Porm, tendo feito todos os preparativos, s podia demorar-se mais um pouquinho:
    - Vou barbear o senhor num minuto. Mas minha navalha est cega. Vou buscar o couro de amolar.
    Seus olhos descorados percorreram as roupas sujas e esfarrapadas de Ruark e, preocupada, considerou a barba dura de lama. Uma expresso de repugnncia foi por 
demais evidente em seu rosto, e o nariz sardento se franziu ante o mau cheiro dele. Logo foi tratar de seu servio.
    - Vai ver que a moa duvidou que eu seja humano.. - observou Ruark mal-humorado.
    Pitney grunhiu enquanto se esticava na cama, apoiando os ombros de encontro  cabeceira e sorvendo uma caneca de cerveja:
    - No precisa amofinar-se: voc no demorar o bastante para tentar nada com ela.
    - Nunca tive essa inteno. - Olhando srio para o outro, acrescentou: - Este  o dia do meu casamento, ou j se esqueceu?
    A carranca de Pitney se enfarruscou enquanto punha os ps no cho e ia a largos passos at a janela, onde pde dar uma olhada para o dia cinzento:
    - Tambm no me preocuparia muito com isso. - resmungou, por sobre o ombro. Estirando bem os longos braos e dobrando os dedos num movimento de compresso, voltou-se 
e sorriu para Ruark, embora houvesse pouco humor em seus olhos: - Estou aqui para ver que sejam cumpridas as ordens de minha patroa, quer eu goste disso ou no. 
Minha primeira tarefa  cuidar de seu bem-estar, mas que eu julgue por mim mesmo. No gostaria se voc me causasse dvidas quanto ao bem-estar dela.
    Ruark pesou sua resposta com cuidado:
    - Pouco sei da faanha de que me acusam. Na verdade, no lembro seno de ter acompanhado a moa at seu quarto na hospedaria. Com certeza, posso declarar: no 
estava grvida de um filho meu. No havia uma quinzena que estava no pas, e a maior parte desse tempo eu passara na Esccia. Na verdade, era o meu primeiro dia 
em Londres. Assim, se cheguei mesmo a ir para a cama com ela, foi na mesma noite que foi a sua ltima. Mas nem disso me lembro. Na manh seguinte, quando o estalajadeiro 
veio acordar a moa para os seus deveres, encontrou-me dormindo no quarto dela. De modo que voc v, meu amigo, no posso negar que me deitei com ela ou a matei, 
pois que ela estava morta, espancada e ensangentada, e l estava eu, dormindo pacificamente em sua cama. Mas posso negar, e nego, que o beb fosse meu.
    Sob o peso do exame atento de Pitney, Ruark despiu o casaco e a camisa e ps uma toalha no ombro. Sentou-se numa cadeira para esperar a. volta da criada e estudar 
mais as palavras do companheiro silencioso. Era bem possvel que sua patroa, Shanna, nada lhe tivesse dito a respeito do acordo entre eles. Se ela era propensa  
deslealdade ou se o fez por simples precauo, Ruark no podia adivinhar. Porm, como o prprio Pitney tornara bem claro, de qualquer modo isso pressagiava hostilidade.
    A camareira voltou, e Ruark se entregou a suas mos hbeis, enquanto ela lhe enrolava a barba em toalhas quentes para amolecer a lama seca. Se essa pobre pequena 
o achou to repulsivo, pensou, ento a elevada fidalga,
    Shanna, deve t-lo visto apenas como um animal. Ela estaria em terrveis dificuldades, na verdade, para submeter-se a tal acordo.
    Mas isso era um agradvel interldio para Ruark, coisa que havia experimentado muito raramente nos ltimos meses... embora a moa no fosse muito gentil em sua 
pressa de acabar com ele. Entretanto, o nico dano foi um minsculo corte dado ao passar a navalha pela ltima vez quando a pequena, para observar seu trabalho, 
deu uma boa olhada no rosto em que laborava.
    - Caramba, patro! - falou ela ofegante e, de repente sorriu, umedecendo a toalha para apert-la de encontro ao pequeno corte. Seu rosto ficou vermelho diante
do olhar divertido dele, e ela se mostrou mais do que perturbada. A ateno de Pitney foi despertada, quando ela derrubou a vasilha de gua, a maior parte no colo
de Ruark. Ignorando o desconforto do homem, Pitney observou:
    - Voc parece perturbar a criada; est tonta como um pardal se aninhando..
    - Desculpe, patro - disse a criada, fazendo uma reverncia, - No foi nada que ele fez. Fui eu que fiz.
    Arrebatando a toalha dos ombros de Ruark, ela comeou a dar pancadinhas em seu peito antes que ele lhe segurasse os pulsos e, com firmeza, a afastasse de si:
    - No se incomode - ordenou secamente. - Eu farei isso.
    A pequena mal podia afastar os olhos daquele peito musculoso e nu enquanto reunia seus objetos.
    - Apare o cabelo dele enquanto est com as suas tesouras, menina - ordenou Pitney, sem se importar com o olhar zangado que Ruark lhe lanou. A criada sorriu
largamente e fez outra curvatura:
    - Sim, senhor. Com prazer.
    Pelo estranho comportamento dela, Pitney olhou a moa com estupefao. Sacudindo a cabea, murmurou algo para si mesmo, e apresentou as costas ao calor do fogo 
enquanto sorvia sua cerveja com todo o vagar.
    A moa comeou a cuidar dos cabelos de Ruark com novo zelo, como se quisesse cortar cada fio do mesmo tamanho - e eles no eram poucos. Detendo-se com freqncia 
para apresentar um pequeno espelho para que ele pudesse aprovar-lhe os esforos, ela segurou o espelho diante de si, conseguindo apert-lo entre os seios, com resultados 
notveis. A moa comeava a tornar-se petulante ante a falta de interesse dele, e foi com bvia relutncia que aceitou a palavra dele de que no precisava de ajuda 
para o banho. Ento, reuniu seus objetos dentro do avental e se foi.
    Ruark no perdeu tempo em despir os fedorentos cales e meter-se no banho, dando um longo suspiro de satisfao. Esfregou-se meticulosamente vrias vezes com 
um forte sabonete para retirar toda a sujeira da cadeia, cobrindo tambm os cabelos com a penetrante espuma. Estava ansioso para pr-se a caminho e enxugou-se vivamente 
antes de vestir as meias e os cales. Porm deteve-se o tempo suficiente para notar como combinavam essas peas. "Talvez Shanna Trahern o tivesse observado mais 
do que ele pensava", murmurou para si mesmo, com um sorriso triste. Ele tivera bastante conscincia dela.
    Livrando-se do p perfumado, penteou os cabelos negros e os prendeu na nuca, escovando-os diante do espelho. Frente  sua imagem vestiu a camisa creme com seus 
babados de renda nos punhos, colocou o peitinho rendado, e ento vestiu o colete de seda que combinava com os cales justos. Por cima dele ps o casaco de veludo 
castanho prodigamente embelezado com fios dourados tranando um ornato em volta dos punhos e na frente. O couro dos sapatos castanhos era polido e adornado com fivelas 
douradas nas altas lingetas. Completava o vesturio um tricrnio de veludo bordado a ouro.
    Ruark sups, quando se observava ao espelho, que Shanna no poupara despesas para t-lo vestido como um homem de classe. Acima do ombro de sua imagem, Ruark 
percebeu os olhos de Pitney a contempl-lo. Pitney passou em revista a nova aparncia daquele a quem custodiava e deu um sorriso glido:
    - Acho que minha patroa ficar agradavelmente surpresa. Acabou de um s gole a cerveja e consultou o relgio: -  melhor meter o p na estrada.
    Era uma pequena igreja do campo, coberta de hera, mas, com o friozinho penetrante do inverno que se aproximava, as trepadeiras se agarravam escuras e frgeis 
s pedras cinzentas das paredes. A garoa terminou, e raios vivos de Sol penetravam atravs das nuvens separadas, iluminando os vitrais de cristal das janelas da 
casa paroquial.
    Shanna ficou banhada da luz que vinha por um dos balces envidraados. Seu rosto, enquanto ela contemplava os campos ondulantes, exibia o sorriso de algum confiante 
em seus objetivos na vida. Ela chegara cedo  igreja, numa carruagem alugada, pois sua prpria carruagem teve de levar Pitney  hospedaria a mais de uma hora de 
distncia, e l permanecer enquanto ele viajava em outra carruagem alugada a Londres e voltava com Ruark Beauchamp. Entretanto, o Reverendo e Sra. Jacobs foram calorosos 
e hospitaleiros, e Shanna tolerou pacientemente a espera.
    A rechonchuda mulher do bondoso proco sentou-se perto da moa bebericando ch enquanto observava Shanna. No era comum que pessoas ricas permanecessem naquela 
tranqila cidadezinha, muito menos na humilde casa paroquial e a Sra. Jacobs jamais vira roupas to opulentas. Havia um manto lils de seda de aparncia de chamalote, 
forrado prodigamente de plo de raposa macio e cinzento, colocado num brao de cadeira, esquecido como se tivesse sido rejeitado. A mulher no podia sequer imaginar 
o preo do vestido de seda que combinava com o manto, com suas filas de renda cinza rosado caindo em cascatas  frente da saia, entre rufos duplos de seda. Babados 
de renda enfeitavam as mangas at a metade dos braos, onde terminavam. Renda pregueada se espalhava como um leque de um ponto na cintura justa, elevando-se at 
a recatada exibio da pele alva. Uma estreita fita lils estava presa na esbelta coluna da garganta da moa, e o elaborado penteado, sem estar empoado, mostrava-se 
glorioso, em sua esplndida cor. O efeito das mechas douradas entre o cabelo trigueiro teria desafiado os melhores esforos do cabeleireiro mais criativo.
    A Sra. Jacobs estava admirando sinceramente tamanha beleza, pois a inveja no fazia parte dela. No fundo do corao, era uma romntica e se encantava com o que, 
para ela, era a arte sria de arranjo de casamentos. O noivo, segundo ela o imaginava, precisaria ser bonito e encantador, pois nenhum sujeito comum deveria ter
direito quela beleza.
    Shanna debruou-se para a frente para olhar fixo para fora da janela, e esse movimento fez com que a Sra. Jacobs se aproximasse.
    - O que , minha cara? - perguntou a bondosa mulher, com genuno interesse. - J esto chegando?
    Os olhos azuis da Sra. Jacobs examinaram a estrada distante e, como havia suposto, uma carruagem estava chegando ao pico do morro e logo chegaria  igreja.
    Shanna, com vrias explicaes na ponta da lngua, pensou e achou melhor refre-las. Se justificasse os defeitos de seu futuro marido, eles ficariam mais evidentes. 
Era melhor que a mulher julgasse que, no caso dela, o amor era cego.
    Shanna ajeitou o cabelo, preparando-se mentalmente para encontrar o pobre-diabo.
    - Voc est radiante, minha cara. - Os erres rolaram pela lngua da senhora, com pesado sotaque escocs. - No se preocupe. V cumprimentar seu bem-amado. Eu 
apanho seu manto.
    Gentilmente, Shanna obedeceu, e ficou satisfeita por encontrar Ruark antes do clrigo e de sua mulher, na esperana de que a aparncia dele pudesse estar melhor 
quela altura. Enquanto se apressava pelo caminho coberto que ia da casa paroquial  igreja, 1000 razes para se preocupar lhe passaram pela mente, e ela praguejou 
baixinho, usando vrias das expresses de seu pai, e depois rangeu os dentes ao pensar no cuidado que um cavalheiro devia ter ao vestir-se.
    "Aquele provinciano rstico! Que ele ao menos tenha vestido direito a cala!"
    Os cavalos malhados de cinza sacudiam as cabeas fortes e bonitas e pararam diante da igreja. Pitney cuidadosamente enfiou a pistola sob o casaco no momento 
em que o Sr. Craddock saltou na grama e, como todo bom cocheiro, abriu-lhes a porta. Compreendendo o franzir de testa de advertncia de Pitney, Ruark saltou da Briska 
e parou para atentamente contemplar os terrenos turfosos. Sentiu grande vontade de correr pelos campos pelo simples prazer da liberdade, mas sabia que no iria alm 
do murinho de pedra. Pitney era forte, mas seu tamanho prejudicava sua agilidade, e o Sr. Craddock e Hadley no lhe pareciam rpidos de pernas ou de mente. Mesmo 
aps seu confinamento, Ruark estava convencido de poder correr mais depressa do que eles, mas a pistola de Pitney e seu chumbo
    podiam perfeitamente ser mais rpidos do que ele. Havia, ademais, a questo de uma combinao feita, que ele tinha a maior ansiedade em resolver. Isto o controlava
muito mais do que a ameaa de morte. Ultimamente, essa sinistra donzela lhe fizera ntima companhia.
    Lentamente caminhou at os degraus da igreja, mas se viu o centro de um grupo unido. Na primeira pedra, Ruark parou e contemplou os trs homens, todos cuidadosamente 
ao alcance de seu brao.
    - Cavalheiros! - Um sorriso dbil lhe torceu o canto da boca. - Se eu tentar escapar, sem dvida os senhores usaro as armas que encobrem to obviamente. No 
lhes peo que sejam relapsos em seu dever, mas pelo menos recuem um pouco, como se fossem realmente criados contratados.
    A um sinal afirmativo de Pitney, os dois guardas voltaram  Briska e nela se encostaram, embora sua ateno continuasse em Ruark, sem vacilar, pois haviam percebido 
o suficiente para compreender que sua recompensa s seria recebida se a tarefa fosse bem cumprida.
    - E agora, Pitney? - perguntou Ruark. - Vamos entrar ou aguardar aqui a moa?
    O criado franziu os lbios, pensando na pergunta e se sentou no degrau. Com a voz dissonante, afirmou categrico:
    - Ela ouviu a carruagem chegar. Quando estiver pronta, vir at aqui.
    Ruark subiu os vrios degraus at o vo de porta coberto e ficou esperando. Pensava seriamente se deveria conversar com seu impassvel acompanhante, quando a 
pesada porta de madeira se abriu com um ranger e sua futura mulher apareceu. A respirao de Ruark ficou-lhe presa na garganta, pois,  plena luz do dia, Shanna 
Trahern era a beleza mais devastadora que ele j vira. Parecia quase frgil no delicado vestido lils. No havia o menor sinal da atrevida megera que visitara a 
penitenciria  procura de marido.
    Shanna passou pelo estranho com pouco mais do que um relancear e sequer parou por gentileza, quando ele tirou o chapu dos cabelos negros. Em vez disso, ela 
levantou as amplas saias para descer os degraus apressadamente.
    Ruark encostou-se na pedra e sorriu sua apreciao, enquanto os olhos acariciavam as lindas costas da moa. Subitamente, Shanna se deteve, quase tropeando nos 
degraus quando Pitney se virou para olh-la fixo. Ento, admirada, ela girou o corpo para olhar, boquiaberta, para Ruark; os olhos verde-mar da moa estavam arregalados 
e incrdulos. O amplo manto achava-se atirado sobre os ombros largos e, ao ver as roupas que ela havia comprado, deu-se conta da realidade. Eram de tom sombrio, 
castanho. Na poca, ela as escolhera cuidadosamente. Poderiam disfarar uma variedade de defeitos e talvez emprestar ao sabujo leve dignidade, pensara ela. Mas, 
agora, estavam maravilhosamente adequadas e muito mais agradveis do que ela ousara esperar.
    O rosto dele era rusticamente bonito, com magnficas sobrancelhas negras que se arqueavam harmoniosas; nariz reto e fino, e boca firme, mas quase sensual. A
linha magra do queixo demonstrava fora e retesava-se
    com o movimento dos msculos. Os olhos de Shanna se encontraram com os dele e, se ainda havia um lampejo de dvida, ela se desvaneceu imediatamente, quando lhe 
viu os clios espessos e negros emoldurando os olhos amarelados que ardiam de reflexos dourados.
    - Ruark? - Ela no conseguiu impedir a pergunta.
    - O prprio, meu amor. - Vendo que contava com toda a ateno dela, Ruark tirou o chapu e fez uma reverncia exagerada com ele,  frente do peito. - Ruark Beauchamp, 
s suas ordens.
    - Ora, d essa maldita coisa a Pitney - retrucou ela, sentindo a zombaria dele.
    - Como quiser, meu amor. - Riu levemente e jogou o chapu a Pitney, que s faltou esmag-lo ao peg-lo contra o peito. Ele o passou ao Sr. Craddock com tal firmeza, 
que o guarda exclamou "Puxa!", esbaforido.
    - Leve isto para a carruagem - ordenou, secamente, Pitney. - E mantenha distncia respeitvel.
    De p com as mos nos quadris, Shanna bateu irritada com os ps. No poderia determinar a causa de sua petulncia, mas Ruark Beauchamp era muito mais do que 
ela havia combinado. Havia algo intolervel em um homem condenado que se mostrava to atrevidamente auto confiante. Ele era do tipo que enfrentaria a forca como 
um heri cambaleante, pensou, maliciosa.
    - Bem, j que voc est aqui, no vejo razo para atrasarmos a cerimnia - disse ela, e mentalmente calculou a idade dele. No devia ter alm de 10 anos mais 
do que ela, embora, em seu primeiro encontro, a moa o houvesse julgado 20 anos mais velho. - Vamos dar logo prosseguimento  histria.
    - Sou seu servo mais obediente. - Ruark sorriu, e depois riu quando ela o olhou, raivosa. Apertou a mo contra o jab rendado e disse ligeiramente: - Madame, 
estou to ansioso para me casar quanto a senhora.
    Claro que ele est, zombou ela, em silncio. Sem dvida, no dia seguinte, ele se gabaria da moa que havia sido sua na vspera. Cafajeste!
    Antes que ela pudesse eliminar esses pensamentos, a porta se abriu e a Sra. Jacobs surgiu, acompanhada do marido alto e magro. Os olhos azuis da mulher se concentraram 
em Ruark e piscaram alegremente, refletindo bvio prazer.
    - Minha cara, traga seu noivo para perto do fogo - instou ela junto a Shanna. - Quando ele estiver aquecido, realizaremos a cerimnia e tenho uma garrafa de 
xerez para afugentar o frio.
    Shanna pensou que ele j estava bastante aquecido. Mas, em homenagem ao velho casal, ela se aproximou de Ruark e pousou, tranqila, a mo em seu peito enquanto 
sorria docemente e o olhava com um risinho provocante. Ela teria adorado poder fazer desaparecer daquele rosto o riso debochado.
    - Ruark, meu querido, estes so o Reverendo e Sra. Jacobs. Falei deles a voc, no? Tm sido muito gentis. - Este tipo de frase lhe pareceu estranho,
    vindo de seus lbios. Sentiu o bater lento do corao de Ruark sob seus dedos e, por alguma razo estranha, seu prprio pulso disparou.
    Sendo um homem que aproveitava todas as oportunidades que se lhe apresentavam, Ruark agarrou-lhe a cintura com as mos e a comprimiu levemente, enquanto sorria 
para os olhos quase glidos dela. Nos olhos dele, havia um fogo ardente que impressionou a moa como um ferro em brasa.
    - Confio em que o bom Pitney se haja lembrado de publicar os banhos. Temo provar a morte antes de nos casarmos, se houve qualquer esquecimento.
    Se Ruark pensou ter conquistado uma vitria quando Shanna se derreteu contra ele, comprimindo os seios macios em seu peito, foi severamente rechaado. A prpria
Shanna no recusava desafio e, ao ouvir aquelas palavras, abespinhou-se como um felino encurralado. Debaixo das amplas saias, ela lhe pisou o peito do p.
    - Pode deixar de se preocupar, meu querido - cantarolou ela, e apoiou o peso no p dele. - Os banhos foram publicados. - Simulou preocupao, franzindo o cenho. 
- Voc parece estar com alguma dor. No est passando bem? Ou ser aquele velho ferimento que o est incomodando novamente?
    Shanna recuou de leve, mas no o bastante para livr-lo da dor, e os dedos esbeltos tocaram-lhe os botes do colete.
    - J lhe supliquei vrias vezes, Ruark, que se cuide melhor. Voc  sempre muito imprudente!
    Se se tivesse lembrado, Pitney poderia ter avisado ao sabujo que ela no era o tipo de mulher com quem se podia brincar muito. Do ltimo degrau, quando a saia 
em arco balanou levemente para cima, ele viu de relance o pequeno p calado com sapatilhas batendo impaciente no p de Ruark. O riso retumbou-lhe no peito, quando 
ele cruzou os fortes braos e esperou.
    Os olhos do Reverendo Jacobs se arregalaram por trs dos culos quando a dama pareceu na iminncia de despir seu bem-amado, e ele sups que no fosse a primeira 
vez. A Sra. Jacobs, com as faces robustas escarlates, ficou de sbito alvoroada e no parecia saber o que fazer com as mos, a no ser torc-las nervosamente.
    Ruark aparou o ataque  sua prpria maneira, dobrando o joelho e ao mesmo tempo elevando o dedo do p em que ela pisava. Como a maior parte de seu peso estava 
apoiada nele, Shanna oscilou precariamente e quase se desequilibrou. Arfando, tropeou contra Ruark e passou-lhe um brao pelo pescoo enquanto a outra mo lhe agarrava 
a manga. Ouviu-lhe o risinho zombeteiro quando ele a firmou no cho.
    - Shanna, meu amor, contenha-se. Daqui a pouco estaremos em casa - repreendeu ele.
    O regozijo dele a irritou, e ela teve vontade de demonstrar-lhe sua ira, mas percebeu muito bem que isso seria loucura. Ouviu a tosse de Pitney; parecia que 
ele estava com um ataque de sufocao, e enraiveceu-se ainda mais.
    -  melhor realizarmos logo este casamento - sugeriu o clrigo, e espreitou reprovadoramente os dois, com os culos de aros quadrados.
    Com a sobrancelha levantada, Ruark olhou para a adorvel Shanna, que o encarava, colrica. Era talvez a mulher mais linda que ele j vira, mas percebia nela 
tambm algo maldoso.
    - Isto mesmo - concordou Ruark. - Acho que seria a coisa mais apropriada a fazer, antes do batizado do beb.
    Shanna ficou boquiaberta, e teve vontade de mat-lo! Fosse outra ocasio, ela lhe teria desferido uma bofetada, mas naquela hora seu nico recurso foi suportar 
a brincadeira dele. Impulsivamente, girou o corpo quando os risinhos abafados de Pitney quebraram o silncio perplexo, e o olhou com tamanha raiva que lhe ps as 
veias a ferver. O homem, porm, suportou a dor com dignidade e esforou-se para controlar seu divertimento.
    A cerimnia foi rpida e despretensiosa. Era bvio que o Reverendo Jacobs queria reparar qualquer mal por acaso j cometido pelo jovem casal. Perguntaram-se 
e responderam-se as perguntas adequadas. A voz profunda e grave de Ruark fez-se ouvir firme, prometendo amar, honrar e idolatrar Shanna at a morte. Ao repetir seus 
prprios votos, Shanna sentiu uma sensao quase sufocante de condenao. Era como uma premonio, avisando-a de que sua trama falharia. Relutantemente, seus olhos 
foram atrados pela minscula aliana de ouro na pgina aberta da Bblia, e ela conseguiu pensar apenas, enquanto o ministro falava, nos anos de dedicao que sua 
me dedicara a seu pai. Em contraste, este casamento era uma farsa, e parecia-lhe at um sacrilgio prometer amor num altar de Deus. Era uma mentira, e ela podia 
ser amaldioada por pronunci-la.
    Embora se esforasse para manter a pose, as mos de Shanna tremeram quando Ruark lhe enfiou o anel no dedo, e chegou a hora das derradeiras palavras do padre:
    - Com a autoridade a mim investida e em nome de Deus Todo-Poderoso, eu os declaro marido e mulher.
    Feito! A altaneira Shanna estava casada. Vagamente, ouviu o Reverendo Jacobs dar seu consentimento para o beijo nupcial, e quando Ruark a tomou nos braos, ela 
voltou  realidade. Isto bastou para despertar-lhe a conscincia. Deliberadamente afastando as mos do corpo, Shanna se levantou nas pontas dos ps e depositou um
beijo fraternal no rosto do marido.
    Ruark recuou e franziu o cenho para o rosto belssimo  sua frente. O sorriso provocantemente meigo da moa no era o que ele desejava no tocante a uma reao
apaixonada. Ele estava desejoso de um beijo mais sensual do que um beijinho de amizade. J havia concludo que sua mulher tinha muito a aprender em matria de amor.
Esperava apenas que tivesse tempo suficiente para romper o degelo.
    - Agora vamos, meus filhos - instou o Reverendo Jacobs, recuperando a animao. - H documentos que vocs devem assinar. E temo que daqui a pouco seremos assolados 
por uma tempestade. Ouvem a chuva?
    Shanna relanceou os olhos para a janela e sentiu nova ansiedade. L fora juntavam-se nuvens negras, aprofundando o crepsculo na noite. O pavor que Shanna sentia 
por tempestades a perseguia desde criana, e mesmo agora, j mulher, no conseguia mitigar o medo. Sempre que ouvia um relmpago, encolhia-se toda. Seria bom que 
a tempestade esperasse at terminar aquela farsa.
    Desviando o olhar das vidraas borrifadas pela gua, Shanna esperou esquecer a tempestade, mas sentiu-se apavorada ao seguir o proco at a sacristia. Entretanto, 
certa mo a pegou no brao e a deteve. O toque era suave mas firme como uma tira de ferro, e a fez meditar na fora oculta nos dedos finos e compridos de Ruark Beauchamp.
    - Olhe para mim - murmurou ele, quando ela se recusou a dar sinal de que sabia que ele estava ali. Contra sua vontade, Shanna ergueu olhos frios e interrogativos 
e encontrou um sorriso indolente que parecia zombar dela. Calmamente, Ruark passou um dedo no rosto dela enquanto os reflexos dourados dos olhos dele mergulharam, 
impulsivos, nos oceanos verdes que eram os olhos dela. - Shanna, meu amor, eu me ofenderia muito se voc me privasse de passar esta noite com voc.
    Irritada por esse lembrete pouco sutil, Shanna sacudiu a cabea e levantou o lindo nariz ao ar:
    - Duvido que essa boa gente tenha providenciado acomodaes para que passemos a noite aqui. Creio, Sr. Beauchamp, que o senhor precisar refrear seu ardor at 
termos mais privacidade.
    - Vamos mesmo ter privacidade, minha cara? - persistiu ele. - Ou ser que voc vai passar o tempo at nada mais restar?
    - No creio que possa esperar que eu esteja ansiosa para ir para a cama com o senhor - retrucou ela, atrevida. - Pode ser que esteja acostumado a conquistas 
fceis, mas acho a idia de mau gosto.
    -  bem possvel que o seja, madame - replicou ele. - Mas nosso trato  em relao a uma noite inteira em meus braos, e no fao por menos.
    - O senhor  um desavergonhado por se aproveitar da minha situao - afirmou ela. - Se o senhor fosse um cavalheiro...
    Ruark riu brandamente, divertido, e os olhos amarelados a desafiaram:
    - A senhora no se aproveitou da minha, por acaso? Diga-me, minha cara, quem descobriu o busto para aquela pobre alma no calabouo, para seduzi-lo com suas artimanhas? 
Seja sincera comigo, madame. No foi a moa que se aproveitou do calejado sabujo, sabendo-o faminto pela mera viso de uma mulher? Segundo o capricho dela, no tenho 
dvida de que se teria lanado de seios nus para aquele pobre-diabo.
    Shanna deu um pulo como se tivesse sido picada, e a boca se abriu para vociferar sua clera, mas a moa no conseguiu encontrar palavras que fizessem justia 
a esse grosseiro patife, embora pesquisasse todo o seu vocabulrio.
    Estendendo um dedo, Ruark o ps no adorvel queixo dela e suavemente o levantou at que seus lbios se fecharam.
    - Voc o nega? - zombou ele.
    Os olhos de Shanna se estreitaram e ela vociferou:
    - Seu mendigo vulgar, voc devia ser enforcado por molestar mulheres!
    Os olhos dele brilharam como mbar, e seu sarcasmo a chocou.
    - Madame, creio que  isso mesmo que eles pretendem.
    Shanna engoliu em seco. Quase se esquecera de que ele era um assassino.Tentou soltar-se enquanto o corao lhe pulsava acelerado, mas ele a segurou com fora. 
Temerosa, ela relanceou os olhos  procura de Pitney, mas ele estava conversando com os guardas. S se ela fizesse uma cena conseguiria atrair-lhe a ateno. As 
palavras dela jorraram, desajeitadamente:
    - Eu... fui tola o bastante para concordar.
    O rosto de Ruark ficou inescrutvel, mas algo lhe brilhou nos olhos.
    - Muito bem - disse ele, com um sorriso. - Agora que a senhora j tem meu nome, quer anular o trato.
    O medo dela aumentou. Algo a preveniu de que ela ousava muito, com seu franco desdm. Ruark riu e recuou, soltando-a. Surpresa, Shanna levantou os olhos. Ele 
ergueu a mo e gritou para os bancos vazios da igreja:
    - Meu bom senhor!
    Sentado a uma mesinha escrevendo os documentos do casamento, o Reverendo Jacobs parou e levantou os olhos em expectativa. Pitney olhou em redor, sobrancelhas 
levantadas.
    - Por favor, senhor, um momento - pediu Ruark. - Parece que a senhora...
    Shanna arfou e interrompeu-o rapidamente:
    - No  preciso incomod-lo, meu amor. Vamos discutir mais o caso. Quando o clrigo voltou a escrever, Shanna estendeu a mo para pr o brao de Ruark para baixo, 
agarrando-o firmemente contra seu busto. Os olhos dela o desafiaram a rejeit-la, quando ela lhe sacudiu firme o cotovelo.
    - Voc  um grosseiro - disse-lhe, entre lbios docemente franzidos.
    A chama amarelada do olhar dele brilhou mais forte, queimando-a com sua intensidade. Os msculos do brao dele se retesaram contra o busto dela, quando ele se 
inclinou para beijar-lhe o rosto, e sua clida boca adejou pertssimo da dela.
    - Shanna, seja amvel. Restam-me poucos dias, e menos ainda dias alegres. Vamos pelo menos dar a impresso de sermos amantes, quando no apenas pela Sra. Jacobs. 
Tente parecer mais calorosa, minha cara.
    Shanna se fortaleceu contra todos os sinais exteriores de afastamento enquanto a boca de Ruark suavemente provava a dela, brincando, provocando, mas a rigidez 
do corpo da moa parecia a de algum esperando a condenao.
    - Voc deve aprender a relaxar - advertiu Ruark. Sua respirao caiu suavemente sobre os lbios dela.
    O brao escorregou at a cintura dela quando ele se aprumou, puxando-a possessivamente para seu lado e, embora relutante, Shanna aceitou essa atitude dele, que 
a levou at a sacristia.
    Enquanto o proco laboriosamente completava os documentos e registrava o acontecimento no livro apropriado, a Sra. Jacobs foi buscar refrescos. Enquanto esperavam, 
o exame de Pitney centralizou-se no colono, que ele achava estar demonstrando mais considerao pela noiva do que necessrio. Um brao apoiado levemente no ombro 
da moa, uma carcia leve como pluma nas costelas de Shanna, um toque no espao nu do brao dela; os dedos longos e finos reclamavam a posse. Pitney bem podia imaginar 
a armadilha em que sua jovem patroa se encontrava, para suportar aquela bolinao indesejada. O cenho carregado de Pitney se aprofundou e, quando ele deu de olhos 
com Ruark, chamou-o at si.
    -  melhor nos apressarmos. A tempestade vem a, e  bem capaz de nos pegar aqui.
    Ruark parou para ouvir o som do vento soprando no canto da igreja. Ele se erguia desolado e soprava lugubremente em tom cada vez mais alto. Gotas de chuva bateram 
nas janelas e, em seguida, caram em torrentes. Acenderam-se velas para iluminar o vu cinzento da tempestade. Ruark analisou cuidadosamente o outro homem e respondeu:
    - Est bem, vou falar com sua patroa. O queixo quadrado se retesou:
    - Tire as mos dela, rapaz. Ela no  para tipos como voc.
    - Voc  um criado dedicado, Pitney - replicou Ruark, analisando suas palavras. - Talvez dedicado demais. Agora, sou marido dela.
    - Apenas de nome - retrucou o grandalho. - E isso vai ser verdade at voc morrer.
    - Mesmo que voc tenha de apressar o meu fim? - indagou Ruark.
    - J preveni, rapaz. Deixe a moa em paz. Ela  uma boa moa e no  do tipo que a gente encontra numa hospedaria para consolar os hspedes.
    Ruark cruzou as mos para trs das costas e olhou firmemente para os olhos de Pitney. Em seguida disse, convicto:
    - Ela  minha mulher, independente de tudo que voc pense. No sou homem de comear briga com outro num lugar como este, mas vou dar-lhe umas palavrinhas de
conselho. Se pretende impedir que d ateno a Shanna,  melhor sacar agora a pistola e terminar logo com tudo. No tenho nada a perder, e ela vale qualquer briga
que voc queira ter comigo.
    Aps dizer isso, Ruark girou nos calcanhares e andou em largas passadas at s janelas, para contemplar o panorama assolado pela chuva, deixando Pitney para
trs, contemplando-o com cenho carregado. Shanna tambm estava observando o marido. Havia um sentido tranqilo de alerta nos modos dele, semelhante ao de um gato
ou lobo, com a fora pronta para explodir, mas, no momento, dcil. Ela se lembrou de uma grande pantera
    negra que certa vez, em viagem, vira. Em repouso, os msculos do animal eram longos e geis, mas quando a pantera se mexia, os nervos se flexionavam, estendiam-se 
e encrespavam-se, num ritmo fantstico de vida que hipnotizava. Ruark era magro, mas vigoroso, e se movimentava com graa quase sensual. Seu andar era to confiante 
que parecia que ele planejava cuidadosamente onde ia cair cada p. No momento, estava calmo e tranqilo, mas Shanna percebeu que ele via tudo o que acontecia  sua 
volta
    Virando-se de novo para a moa, ele caminhou com o mesmo andar compassado, e, mesmo em sua situao desagradvel, Shanna no pde deixar de admirar o vulto elegante 
em que o traje luxuoso o convertera. Ela o havia descrito para o alfaiate como um homem magro, musculoso, ombros largos, quadris estreitos, cintura fina e estmago 
chato. Era muito gratificante ver que os resultados chegavam quase  perfeio. Na verdade, os cales seriam indecentes, se o alfaiate tivesse entrado um pouquinho 
mais na costura, pois estavam muito justos e se adaptavam perfeitamente ao corpo.
    Percebendo de sbito onde estavam pousados seus olhos, ela os levantou e deparou com o olhar divertido de Ruark, que a olhava carinhosamente. Quando ele se aproximou, 
murmurou apenas alto o bastante para ela ouvir:
    - Curiosidade de mulher, minha cara?
    Shanna ficou rubra e deu-lhe as costas, subitamente confusa. A mo dele foi-lhe at a cintura, e ela estremeceu quando o peito rijo se comprimiu contra as costas 
dela.
    A voz profunda do homem ecoou at a alma da moa quando ele afirmou, suave:
    - Parece que nosso dia de casamento vai ser um aguaceiro s.
    Nesse instante os pensamentos de Shanna estavam longe da tempestade l fora e se concentravam na tempestade dentro dela mesma. Srias dvidas lhe abalavam a 
confiana, e ela de sbito no soube mais como lidar com Ruark Beauchamp.
    Os documentos estavam prontos, e feitas as marcas das testemunhas, de modo que os guardas podiam sair e preparar a carruagem. Pitney indicou ser a vez de Ruark: 
Shanna prendeu a respirao, pois esquecera de perguntar se ele sabia assinar o nome. Preocupao desperdiada: a mo dele foi rpida e segura. Ento o ministro 
segurou a pena e passou-a  noiva. Shanna ps seu nome no registro primeiro, e depois numa poro de declaraes para o distrito, o condado, e a coroa. Em seguida 
veio a cpia dos votos tais como estavam declarados. Ao colocar a pena sobre o pergaminho, captou a frase "Para teu marido, a quem deves amar, honrar e obedecer." 
Silenciando a conscincia que reclamava, Shanna aps o nome no documento e, quando fazia um ltimo e elaborado arabesco, um relmpago tornou o interior da igreja 
de um branco fantasmagrico. Antes que escurecesse, um crescente ribombar de trovo fulgurou rapidamente e acabou num estrondo de estourar ouvidos. As vidraas das 
janelas matraquearam, as telhas do telhado pareciam danar. Com olhos arregalados de medo, Shanna fitou o pergaminho que assinara, cnscia da mentira em que apusera 
seu nome. Ergueu-se, atirando a pena para o lado como se lhe queimasse os dedos. A tempestade estava agora em torno dela. Chacoalhantes rajadas de chuva golpeavam 
a igreja - e o vento uivava como uma banshee na obscuridade do dia agonizante.
    Vendo sua inquietao, o Reverendo Jacobs aproximou-se dela:
    - Parece preocupada e transtornada, minha filha. Talvez seja bom ter dvidas, mas devo dizer-lhe isto: como as coisas aconteceram hoje, convenci-me de que o
que foi iniciado aqui hoje  abenoado de verdade e ser longo e duradouro testemunho da vontade de Deus. Minhas preces a acompanharo, minha filha. Seu marido parece
um rapaz distinto e sem dvida se comportar bem.
    Suas palavras pouco conforto deram a Shanna. Emoes a percorriam com tanta violncia, que a moa temia pudesse ele v-las refletidas em seu rosto.
    Nota de rodap:
    Banshee esprito feminino cujos lamentos, segundo uma crena irlandesa, anunciava s famlias a morte iminente de um de seus membros (N.da T.)
    Fim da nota de rodap.
    Porm, o ministro se afastou, sem perceber sua angstia, e comeou a recolher os documentos que selara e carimbara e que j estavam secos. Dobrou-os num pacotinho 
bem-feito, que amarrou com uma fita vermelha, e os entregou a Ruark.
    - Antes que se vo, queridos - disse a Sra. Jacobs, sorrindo, radiante. Segurava uma bandeja com elegantes copos de hastes longas cheios de um lquido ambarino. 
- Um golinho de xerez para aquec-los no caminho.
    Entorpecida, Shanna aceitou o oferecimento e ergueu, hesitante, o copo at os lbios. Deteve-se, pois Ruark a fitava, erguendo o prprio copo em saudao:
    - A nosso casamento, meu amor! Que seja duradouro e prolfico! Shanna o olhou serenamente acima da borda do copo. Seu desejo de escarnecer era quase irresistvel. 
Sua expresso convencida, presunosa, presumida era o que ela mais odiava, pensou, enraivecida. O quanto anelava p-lo em seu lugar!.
    Perto, a Sra. Jacobs falava com Pitney, conversando a respeito da cerimnia, que o marido nunca havia realizado nada mais fino, enquanto Pitney permanecia calado, 
olhando por cima da cabea da mulherzinha o jovem casal. A posio do queixo de sua ama era boa indicao de sua agitao, e ele cogitava o que viria a seguir.
    Ruark estendeu um dedo e gentilmente ajudou a mulher a levar o copo aos lbios, enquanto seu olhar clido sondava o dela:
    - Beba, meu amor. Temos de ir embora.
    Depois de beberem e de terem posto de lado os copos, a Sra. Jacobs se apressou em buscar-lhes os mantos. Ruark tomou o que era guarnecido de peles e com ele 
envolveu Shanna, atirando o seu aos ombros, de modo descuidado. Guiou-a at a porta, enquanto Pitney os precedia. Deram os ltimos adeuses e o ministro lhes desejou 
todas as felicidades. Poderosas rajadas de vento os golpearam, enfunando-lhes os mantos quando o enorme portal foi escancarado. Grossas gotas de gua ali penetraram 
como saraivada. Pitney correu  frente para abrir a porta da carruagem e baixar os degraus dobradios, enquanto Ruark esperava por Shanna ao abrigo do portal. Os 
dois guardas j estavam empoleirados no assento do cocheiro, embuados nas dobras de seus mantos para proteger-se da chuva. Pitney fez lugar para os recm-casados, 
porm, ao pisarem do lado de fora, uma rajada de vento, pesado com chuva fria, golpeou-os de frente. Shanna ofegou esbaforida e rodopiou, achando-se a lutar para 
respirar de encontro ao peito de Ruark. Ele aconchegou-a a si, encobrindo-a com o seu manto. Depois, abaixando-se, tomou-a nos braos fortes e arremeteu para a Briska. 
Colocando-a no interior confortvel, logo a seguiu, acomodando-se ao lado dela. Pitney recolheu os degraus e os atirou para dentro, iando-se para o assento  frente 
deles:
    - Mais abaixo na estrada existe uma estalagem na aldeia, onde a gente pode jantar.
    - Jantar? - indagou Ruark.
    - . - Pitney acenou de cabea, e  fraca luz penumbrosa seus olhos cinzentos encontraram os de Ruark. - A menos que pense voltar  priso sem uma boa refeio 
para esquent-lo at amanh.
    O olhar de Ruark se moveu para Shanna, que parecia muito pequena e quieta em seu canto.
    A carruagem seguia estrada abaixo em meio ao lamaal. Raios fulguravam, e o trovo ecoava atravs das montanhas. Nas volumosas dobras de seu manto Shanna vacilava 
a cada exploso aterradora. Clares intermitentes riscavam o cu escuro, e s Pitney estava ciente de sua angstia. Ruark puxou assunto com Pitney:
    - Vocs viajaro de volta a Londres hoje  noite? Um grunhido lhe respondeu: - Sim.
    Ruark pensou por um momento a respeito da curta resposta do homem antes de perguntar:
    - Por que no pernoitam na estalagem? So umas boas trs horas daqui a Londres.
    - Um longo caminho numa noite como esta - emitiu Shanna, rispidamente.
    Seu marido ergueu uma sardnica sobrancelha ante seu tom de voz e contemplou os irritados olhos verdes que perfuravam a escurido.
    - Parece que lhe voltou muito de sua coragem agora que est longe do bom Reverendo Jacobs - zombou ele de leve.
    Shanna escarneceu como desejara antes:
    - Voc, seu tagarela, cuidado com a lngua, ou soltarei Pitney nos seus calcanhares.
    Pitney baixou o chapu sobre os olhos e recostou a cabea no encosto do banco, como se fosse cochilar. Parecia-lhe que sua jovem senhora se sairia bem sozinha, 
mais uma vez. Ruark ponderou o tamanho de seu companheiro, e depois voltou toda a sua ateno para Shanna, que quase se encolheu de medo quando sua mo tocou a dela. 
Ele puxou uma das mos dela, que estava em seu colo, e s  fora conseguiu prend-la. Sorrindo casualmente, Ruark a trouxe a meio caminho de seus lbios enquanto 
Shanna se contorcia, nervosa, em seu canto e lanava olhares a seu protetor para ver se realmente ele cochilava.
    - Claro, a senhora  uma flor, madame, mas seus espinhos - os olhos de Ruark pousaram em Pitney - me picam acerbamente. Na verdade, madame, a senhora  uma rosa, 
suave beleza dos bosques, tentadora, implorando para ser arrancada, mas se mo menos cuidadosa procurar colh-la apenas encontrar uma poro de farpas espinhosas. 
- Riu suavemente, aumentando o mal-estar de Shanna, e pousou os lbios num ponto acima do seu pulso delicado. - Mas existe quem cuide do jardim e no receia as picadas 
dos espinhos. Com mos cuidadosas ele colhe a flor e gentilmente quebra a haste onde ela cresce. Ento haver sempre mais.
    Shanna lhe empurrou a mo:
    - Contenha-se, senhor - admoestou, spera. - Seu juzo est moroso.
    Shanna firmou-se em seu canto quando ele ergueu a cabea para estud-la. No sabia exatamente o que ele poderia fazer, um salafrrio homicida que era. No podia 
 suportar aquele sorriso zombeteiro dele, como se ela apenas o divertisse. Onde estava a raiva dele? Se levantasse a mo para bater nela, Pitney l estaria para 
salv-la. Assim, no precisava ter sequer a menor tolerncia com ele ou aturar-lhe a presena em sua carruagem. Seria amarrado e posto a viajar l em cima, com os 
guardas.
    Uma violenta guinada da carruagem mandou Ruark quase em cima dela, e Shanna tremeu num medo sbito, levantando um brao para defender-se de seu ataque. Seu divertido 
riso trouxe-lhe de volta a coragem numa exploso de orgulho escaldado, e a mo dele em sua coxa, enquanto ele se apoiava, causou uma fria ultrajada.  guisa de 
falta de jeito, pensou ela, os longos dedos, de modo intencional ou no, a tocaram atravs do vestido onde nenhum homem ainda ousara faz-lo.
    - Afaste-se de mim! - gritou, tremendo de raiva, e empurrou-o com todas as suas foras. - V acariciar as suas amsias na cadeia!
    Pitney espiou-os por baixo do tricrnio, e Shanna arrepanhou as saias para arrum-las, lanando um olhar candente a ambos.
    - Afinal, onde fica essa estalagem? Acham que chegaremos l antes que eu seja maltratada at a morte?
    - Acalme-se, patroa! - E Pitney ria gostosamente. - Logo logo a gente estar l.
    Embora apenas uns poucos minutos mais, o restante do caminho para a estalagem foi intoleravelmente longo para Shanna. Mesmo com o olhar descansado mas cauteloso 
de Pitney sobre eles, a proximidade. na verdade, a presena mesmo do marido colono era sufocante e a tornava por demais cnscia da malandragem que praticara.
    Por fim, a carruagem parou diante da estalagem. Uma tabuleta acima do portal balanava loucamente ao vento, e rvores oscilavam pra l e pra c, ramos descaindo 
em nervoso frenesi para a terra encharcada como se em busca de conforto contra o temporal. Os guardas, expostos  plena fora do vento e da chuva e da saraivada 
durante o caminho, no se retardaram por sua carga: correram para abrigar-se na estalagem, deixando que Pitney cuidasse do trabalho.
    Apeando da carruagem, Ruark ps o manto bem chegado ao pescoo e puxou o tricrnio para baixo sobre as sobrancelhas; quando Shanna ia comear a descer ele se 
voltou e pegou-a nos braos embora ela protestasse, indignada ante o ultraje. Ele a carregou pelo caminho lamacento. Shanna rilhou os dentes de raiva, odiando a 
ousadia dele e o ntimo contato com aquele peito forte e musculoso.
    - Assume muita responsabilidade, senhor - repreendeu ela, irritada; depois respirou com dificuldade e passou os braos, bem apertados, em torno do pescoo dele 
quando o rapaz se inclinou um pouco, como se fosse
    deix-la cair. Silenciosamente, Shanna fervilhava, enquanto o som abafado da hilaridade dele lhe atacava os nervos, mas no ousou retorquir at que seus ps 
estivessem bem plantados em solo firme.
    Como sempre, Pitney estava bem perto, logo atrs deles, e quando alcanaram o portal coberto, seu enorme vulto os abrigou contra a fora da tempestade. Uma lanterna 
de sebo pendia acima do portal:  sua luz bruxuleante, o rosto de Shanna flamejava de indignao.
    - Nunca fui to insultada em minha vida! Ponha-me no cho! Amavelmente, Ruark retirou o brao que tinha abaixo dos joelhos
    dela, permitindo que seus ps chegassem ao cho; mas o outro brao continuou a segur-la de encontro ao peito. Zangada, Shanna empurrou-o para liberar-se. Atnita, 
deu-se conta de que a renda de seu corpete se prendera em torno de um boto do casaco dele.
    - Oh! Veja o que fez! - lamentou-se a moa.
    Impossvel recuar um passo que fosse. Os ps dele estavam um pouco separados e ela estava agarrada por ele e tinha de ficar de p no espao entre eles ou rasgar
o vestido. Sentia as coxas firmes e musculosas dele contra as dela, e era uma posio muito comprometedora e humilhante. Ter o brao de Ruark em seu redor, a cabea
dele inclinada perto da dela, e o hlito quente dele contra seu rosto no colaborou em nada nos esforos de Shanna para manter a pose. Pitney desajeitadamente pigarreava
de vez em quando, mas isto era s o que fazia. Os dedos de Shanna tremiam e embora ela se esforasse para livrar-se do boto intrometido, estava em tal condio 
que s conseguia embaralh-lo ainda mais. Irritada, gemeu baixinho, frustrada.
    - Deixe que eu experimente - disse Ruark, rindo e afastando as mos da moa para o lado.
    Shanna se engasgou e suas faces arderam quando os dedos dele lhe pressionaram os seios, esfregando-os ligeiramente, enquanto tentava desfazer o emaranhado. Ela 
ficou sufocada pela proximidade dele e no conseguia respirar, com as mos dele nos seios dela. Finalmente, no conseguiu tolerar mais a carcia dele.
    - Pare com isto, seu paspalho desajeitado! - guinchou ela e, perdendo toda a pacincia, empurrou-lhe o peito com as mos.
     investida, Ruark tropeou para trs e seu movimento foi acompanhado por ntido som de um rasgar de roupas e do arfar de Shanna. Os enfeites de renda e seu 
forro de seda cederam  presso e deixaram pequeno fragmento de renda e o boto firmemente ligados ao colete de Ruark. Muda de horror, Shanna contemplou-se, pois 
seu busto se achava agora apenas tenuemente oculto sob a delicada fazenda de sua blusa. Os seios redondos estavam comprimidos lascivamente contra a pelcula do tecido, 
e os montes cor-de-rosa pareciam ansiosos por romp-la. A luz de velas refletindo na pele sedosa da moa proporcionou viso excitante para Ruark, cuja vida de celibato 
ultimamente lhe oferecia alvio pouco maior do que seus pensamentos, confinados pelas quatro severas paredes de uma cela. A boca de Ruark ficou subitamente seca 
e sua respirao virou-lhe um n na
    garganta. Como um homem faminto, ele contemplou as "iguarias" raras  sua frente e sua fora quase se exauriu, no esforo de manter as mos longe dela.
    - Seu sabujo imbecil! - gritou ela.
    Ao grito, Pitney aproximou-se, preocupado, sem identificar a razo do apuro de Shanna.
    - No! - arquejou a moa. Agarrando o corpete em frangalhos, ela deu as costas a Ruark.
    O pnico na voz da moa fez com que Pitney girasse nos calcanhares, pois calculou que os danos fossem mais do que simples rasgo. Ele recuou vrios passos, para 
no constrang-la ainda mais.
    Shanna enfiou a extremidade do pedao rasgado na blusa, comprimindo a ltima at que o arranjo ficou quase to revelador quanto o rasgo. Ruark quase sufocou 
a essa tortura, atraindo a ateno dela e o olhar raivoso da moa. O olhar fixo de Ruark lhe queimou a pele nua, cobiosamente absorvendo as formas redondas da moa 
como se temeroso de que desaparecesse de vista. Shanna j havia sido alvo de olhares cpidos, mas nunca fora to integralmente devorada com os olhos. Naqueles olhos 
dourados ardia desejo, to forte que lhe tirou a respirao e ela apenas conseguiu murmurar, com um pouco menos de rancor:
    - Se voc tivesse alguma decncia, viraria o rosto.
    - Shanna, meu amor - arquejou Ruark com voz tensa. - Sou um homem na iminncia da morte. Voc me negaria at um lampejo dessa beleza?
    Estranhamente, Shanna no sentiu rancor contra ele, e o olhou subrepticiamente. O olhar atrevido dele despertou algo nela, e a sensao no foi desagradvel. 
Mesmo assim, a moa se cobriu com o manto.
    Houve um momento de silncio enquanto Ruark se debatia contra as prprias emoes. Debaixo do manto flutuante, ele cruzou as mos violentamente por trs das 
costas.
    - Voc prefere voltar  carruagem agora? - perguntou ele, solcito.
    - Meu dia j foi pouco divertido, porque aconteceu minha desgraa - respondeu Shanna, sinceramente. -  melhor que eu desfrute o que me resta de orgulho.
    Os olhos de Ruark brilharam com humor diablico, e seus lbios sorriram num sorriso delicado:
    - Voc  a luz e o amor de minha vida, Shanna. Tenha piedade de mim.
    Shanna ergueu o lindo queixo e disse:
    - Ha! Realmente, nem me passa pela cabea que voc no seja um conquistador e que j no tenha tido muitas "luzes e amores". Dificilmente serei seu primeiro 
ou nico amor.
    Gentilmente, Ruark segurou a porta para que ela passasse:
    - No posso negar que voc no  meu primeiro amor, Shanna, porque eu no a conhecia na poca. Mas voc  meu nico amor, e assim o ser
    at a minha morte. - Os olhos dele estavam srios. - No pediria mais de uma mulher do que sou capaz de dar. Garanto, meu amor, que daqui para a frente nenhum 
dia se passar sem que voc esteja em meus pensamentos.
    Confusa pelo olhar suave e a objetividade das palavras dele, Shanna no conseguiu responder. Era impossvel dizer se ele zombava ou falava a verdade. Ele era 
diferente de todos os homens que ela conhecia. Quando falava propositadamente para mago-lo, xingando-o ou procurando insult-lo profundamente, Ruark aceitava com 
bom humor ou indiferena, e continuava a elogi-la. A pacincia dele no tinha fim?
    Perdida em pensamentos, Shanna passou por ele e entrou na hospedaria. Enquanto ele tirava o manto e o chapu ensopados, ela esperava, momentaneamente posando 
de mulher dcil. Ruark voltou e com uma das mos passada na cintura dela, levou-a  mesa indicada por Pitney. Ficava intimamente num canto escuro e no possibilitava 
qualquer fuga.
    O Sr. Hadley e John Craddock os haviam precedido por alguns instantes, e j estavam acomodados  comprida mesa comum no centro da sala. A hospedaria estava vazia, 
a no ser pelo dono e a mulher, pois os freqentadores habituais haviam corrido para casa,  proximidade da tempestade. Um fogo brilhava alegremente na lareira, 
lanando sombras oscilantes nas vigas rsticas de madeira que sustentavam o teto e oferecendo calor aos ensopados clientes. Aps franzir demoradamente o cenho, admoestando 
Ruark, Pitney reuniu-se aos dois guardas e rapidamente bebeu um caneco de cerveja.
    Muito aliviado por encontrar-se  mesa a ss com a mulher, Ruark ajudou-a a sentar-se e acomodou-se bem pertinho dela. Logo uma refeio substancial lhes foi 
servida, a todos, carnes suculentas, po e vegetais, e um vinho fino para o par. Cnscia do olhar firme do marido fixo nela, os dedos de Shanna no estavam firmes 
e seu apetite no demonstrava ser o que ela havia proclamado. Ele lhe estava atacando os nervos. Jamais conhecera homem to persistente e sincero. Bem podia compreender 
no que ele pensava, quando se recostou na cadeira e a mirou. E no querendo responder a pergunta nenhuma, ela fez algumas:
    - Quem era a moa que o acusam de ter assassinado? Era sua amante?
    Ruark ergueu o sobrolho:
    - Shanna, amor, devemos discutir isso em nossa noite de npcias?
    - Estou curiosa - insistiu ela. - No quer dizer-me? Por que fez aquilo? Ela lhe era infiel? Foi o cime que o levou a mat-la?
    Inclinando-se para a frente para descansar os braos na mesa, Ruark sacudiu a cabea e riu rudemente:
    - Cime de uma camareira com quem mal troquei algumas palavras? Minha cara Shanna, nunca sequer lhe soube o nome, e no tenho dvida de que teve muitos homens 
antes de mim. Eu apenas estava ali, numa sala comum da estalagem em que ela trabalhava, e ela deixou outro homem para vir para minha mesa. Convidou-me para o seu 
quarto..
    - Com essa facilidade? Isto , no havia nada entre vocs? Nunca a tinha encontrado antes?
    Ruark franziu o sobrolho e, pensativo, considerou o lquido em seu copo enquanto o agitava devagar de um lado para outro:
    - Ela reconheceu a cor do dinheiro em minha bolsa, quando paguei a refeio. Foi o suficiente para tornar-nos amigos. - O tom amargo em sua voz falava do muito 
que Shanna no podia compreender.
    - Lamenta t-la assassinado, no? - instou Shanna com ele.
    - T-la assassinado? - Ruark deu uma risada breve. - Nem sequer me lembro de haver deitado com a moa, muito menos ter-lhe posto as mos de outra maneira. Ela 
tirou-me a bolsa e no me deixou seno os cales para encontrar os soldados que me arrancaram da cama dela na manh seguinte. Acusaram-me de mat-la por estar grvida 
de mim, mas Deus sabe que isso  mentira: era completamente impossvel, pois eu acabara de vir da Esccia e tomara um quarto naquela estalagem naquela tarde mesmo. 
Nunca antes pusera os olhos na mulher. Fui levado diante do magistrado, Lorde Harry, chamava-se ele. - Bufou. - E s me deram um momento para defender-me antes de 
me acusarem de mentir e me atirarem no mais escuro calabouo at o prprio Lorde Harry decidir qual a minha culpa. Assassinato, disse ele, por me negar a casar-me 
com a sujeita. Pode imaginar com todos os bastardos no mundo como tal coisa podia ser verdade? Teria sido mais simples dar o fora do pas. E ainda mais simples, 
se em estado de loucura tivesse assassinado a pequena, fugir do quarto dela antes que o estalajadeiro viesse cham-la para comear o trabalho do dia. Mas como um 
imbecil apalermado fiquei repousando em seus lenis at o dia amanhecer claro e brilhante. Por Deus! Eu no a matei! Se  que me conheo, eu no a matei! - Zangado, 
ele tomou o vinho e empurrou o prato.
    - Mas como poderia no lembrar? - perguntou Shanna, suave. Ruark deu de ombros:
    - Oh! pensei muito nisso, e ainda no consegui decifrar..
    - Um culpado sempre se declara inocente - murmurou Shanna,zombeteira. No era como se ele no estivesse dizendo a verdade, pois s um louco esqueceria um assassinato 
e ela no acreditava que Ruark Beauchamp fosse louco. Entretanto, achou melhor mudar de assunto, ao perceber seu humor pensativo. Aceitou que ele tornasse a encher-lhe 
o copo de Madeira e o bebericou, deixando que o vinho lhe afrouxasse as tenses. Quase podia congratular-se pelo xito do dia. At ento tudo correra como havia 
planejado. Comeou a sentir-se quase alegre.
    - E quanto a voc, minha adorvel Shanna? - O olhar de Ruark abarcou-a com todo o calor que um homem pode ter em relao  sua noiva.
    - Oh! - Ela riu, nervosa. Nesse lugar pblico onde Ralston, ao voltar da viagem e saber do casamento dela, poderia verificar a respeito do novo casal, ela no 
ousava fazer nada de desagradvel. - O que deseja saber?
    - Por que sentiu que tinha de casar-se comigo quando poderia ter escolhido qualquer homem que satisfizesse sua imaginao?
    - Satisfizesse a minha imaginao? - Shanna escarneceu de leve. Nenhum o fez. E meu pai no cede a um fracasso. Tinha de ver-me noiva e casada com algum de 
sua escolha. Por qu? - Girou a mo num gesto gracioso. - Ele nem sequer pediu a minha me que se casasse com ele.
    Deu uma risadinha quando Ruark a olhou em dvida, um sorriso encantador espalhado em seus lbios:
    - Oh, no, no  o que pensa. Meu pai  muito autoritrio. Disse a minha me que ela ia casar-se com ele e ameaou-a de rapto se recusasse. Nasci, com muita 
propriedade, um ano aps o casamento deles. - O sorriso permanecia.
    - O que sua me disse a isso?
    - Oh! Ela estava convencida de que o Sol nascia e se punha s para Orlan Trahern. Amava-o profundamente. Porm, ele era um enganador. Meu av foi enforcado como 
ladro de estrada.
    - Pelo menos temos algo em comum - observou Ruark secamente. Houve um momento de silncio. Depois: - Tenciona manter o trato?
    Shanna procurou uma resposta, sacudida pela pergunta abrupta depois que tinha tentado evit-la, com tanta dificuldade:
    - Eu... eu...
    Ruark colocou um brao por trs da cadeira dela, descansando o outro na mesa enquanto se inclinava para ela. Beijando-lhe a orelha, murmurou docemente:
    - Poderia s por esta noite fingir que me tem um pouco de carinho, Shanna?
    A clida respirao dele lanou-lhe arrepios na carne, e uma curiosa excitao a formigar-lhe nos seios. Na certa o vinho produzia seus efeitos, pensou, atnita, 
pois seus sentidos vacilavam num prazer embriagador.
    - Ser assim to difcil imaginar que somos namorados que acabaram de se casar? - perguntou Ruark, respirando no pescoo dela. Ps o brao em torno dos ombros 
da moa, e Shanna teve de esforar-se para manter seu mundo a prumo quando sua boca, mida e entreaberta, calidamente provou a dela. A moa lutou para empurr-lo 
e libertar seus lbios. Teria tomado tanto vinho a ponto de sentir-se tonta? O que havia com ela? No era uma alcolatra nem uma mulher de virtude fcil. Por Deus! 
Era uma virgem! No mximo uma bebedora de ch, e olhe l!
    - No a machucarei... - suspirou Ruark como se lesse em sua mente. Beijou-a no tentador cantinho de sua boca: - Deixe-me abra-la, Shanna, e am-la... Deixe-me 
toc-la.. deixe-me possu-la...
    - Sr. Beauchamp! - Ela respirava com dificuldade e evitava seus beijos. - Claro que no pretendo entregar-me ao senhor aqui, na sala comum, para divertimento 
de todos. Deixe-me ir - implorou, e depois, com mais firmeza: - Gritarei se no deixar..
    O brao afrouxou um pouco, e Shanna ergueu-se depressa, anunciando de modo trmulo:
    -  melhor irmos embora.
    Shanna voou para a porta, enquanto Ruark se deteve para pegar o manto e o tricrnio; quando tentou correr atrs dela, Pitney e os guardas estavam l, bem pertinho 
dele. No dando ateno ao aguaceiro e s poas que marcavam o caminho, Shanna saiu de sopeto da estalagem. Ruark queria segui-la, mas houve alguma demora porque 
o estalajadeiro, temeroso de perder dinheiro na despesa que haviam feito, ps-se a discutir com Pitney, que estava mais interessado em manter Ruark a seu lado. Uma 
pesada bolsa atirada ao estalajadeiro silenciou qualquer discusso, e por fim Pitney permitiu que Ruark o precedesse na carruagem.
    A chuva era agora um firme rufar de tambor no teto da Briska. Encharcada e tremendo com o frio e suas prprias emoes, Shanna se havia encolhido a um canto 
do banco, deixando o maior pedao para quem quer que sentasse ali. Havia conseguido, com dedos trmulos, bater a pederneira e acender a pequena lanterna que pendia 
na parede interna da carruagem.
    Ruark subiu, e Pitney dobrou os degraus. Comeava a iar-se para dentro mas achou o caminho barrado pelo brao do rapaz:
    - No tem piedade, homem? Casado h poucas horas e condenado  forca antes do fim da semana! V junto com os guardas.
    Antes que Pitney pudesse protestar, Ruark bateu a portinhola. Entretanto, o homem enorme dificilmente acataria ordens de um namorado atrevido que corria atrs 
da sua mulher. De fato, justo o oposto era verdade. A porta da carruagem foi escancarada com tal fora que ricocheteou contra a lateral da carruagem com estrondo, 
fazendo Shanna pular de susto.
    Ruark no estava disposto a suportar essa intruso sem pelo menos uma breve luta e estendeu um brao para impedir que o outro entrasse. Pitney aprestou-se para 
arrancar da carruagem o ardente noivo, porm Shanna, ofegando pesadamente, chamou sua ateno imediata. Claro, no era receio pelo marido o que motivou tal reao 
da moa, mas o ter observado a presena do estalajadeiro e sua mulher de p  porta do estabelecimento, esticando os pescoos para ver o que se estava passando.
    - Est bem, Pitney. Suba para a boleia - foi sua ordem, calma porm premente.
    Relanceando o olhar por sobre o ombro, Pitney viu a razo dessa preocupao. Endireitou-se, deu um passo atrs, e arremessou o manto no lugar. Ruark sorriu, 
benevolente:
    - Bom menino. E no fique a parado, perdendo tempo. Apresse-se. Vamos logo pegar a estrada.
    O pesado queixo de Pitney se projetou  frente, obstinado, e suas sobrancelhas se baixaram de modo agourento. A chuva fria escorria em seu rosto largo, porm 
ele nem se dava conta. Seus agudos olhos cinzentos mediram Ruark  meia-luz das lanternas da carruagem.
    - Se voc a machucar... - A ameaa foi feita em voz baixa, mas chegou bem distinta aos ouvidos de Ruark.
    - Ora vamos, rapaz. - Ruark riu, desdenhosamente. - No sou louco varrido. Valorizo o pouco tempo que me resta na Terra. Garanto-lhe que ela ser tratada como 
algum por quem tenho a mais alta afeio e muito respeito.
    O sobrolho de Pitney se franziu mais ainda s palavras de Ruark. Teria discutido a questo, mas Shanna viu a ameaa de uma cena em pblico nessa aldeia onde 
as aes de estranhos logo seriam notadas. To perto da igreja onde se haviam casado, os boatos logo se espalhariam, e Ralston no teria dificuldade em ouvi-los.
    - Vamos embora, Pitney, antes que voc desfaa o melhor de meus planos.
    Afinal o homem concordou e, embora suas palavras fossem dirigidas a ela, ele fitava Ruark:
    - Vou colocar trancas nas portas. Ele no ter oportunidade de fugir.
    - Ento, depressa com isso! - pediu Shanna. - E tenha cuidado para que os estalajadeiros no vejam o que est fazendo.
    Alguns minutos se passaram antes que a carruagem ricamente equipada tomasse a lamacenta estrada para Londres. A chuva continuava a tamborilar no teto, amortecendo 
todos os outros sons, enquanto as lanternas apenas lanavam uma luz fraca, bruxuleante,  escurido de bano atravs da qual passavam. Embora o luxuoso interior 
fosse aquecido e cmodo, bem protegido contra a msera noite exterior, Shanna no se sentia confortvel. Sua precipitao para o carro fora completa loucura. Seus 
sapatos estavam ensopados, as meias at os joelhos tambm midas, e a barra encharcada da saia, tambm molhada, lhe esfriava os quadris. Enrolando bem junto ao corpo 
o manto, ela se aconchegou em suas dobras mas no pde parar de tremer ou evitar que seus dentes chocalhassem.
    - Ora, Shanna, est tremendo! - disse Ruark, pegando uma de suas mos e achegando-se mais.
    Irada, ela se afastou dele e silvou:
    - Tem sempre de declarar o bvio? - E depois, mais devagar. - Meus ps esto gelados.
    - Deixe-me aquec-los, amor. - Havia mais de um trao de riso no tom em que falava; mas antes que ela pudesse protestar, abaixou-se e ergueu-lhe as pernas at 
seu colo. Dobrando para trs as bainhas molhadas, fez cair-lhe dos ps as sapatilhas arruinadas. Um suspiro escapou a Shanna quando as mos dele lhe tocaram os joelhos 
ao tirar-lhe as compridas meias molhadas. Jogando-as ao cho, junto aos sapatos, Ruark lhe ps os ps dentro do casaco dele com que tambm lhe cobriu as pernas at 
que ela ficou toda enrolada no abrigo. Um dos braos lhe segurava os ps bem junto de si, enquanto a mo que estava mais perto deslizou por baixo do casaco para 
massagear, com gentileza, as esbeltas panturrilhas. Todos os pensamentos de frialdade abandonaram Shanna. Tinha muito a considerar, quando aceitou suas massagens 
e essa casual familiaridade. Nunca privara to de perto com um homem, e isso lhe excitava a imaginao. Acolhera como
    visitas muitos lordes e homens da nobreza, mas sempre apropriadamente acompanhada. Este fora sua prpria escolha; ela sequer conhecera, antes, um colono como 
Ruark Beauchamp. E a estava ela sozinha, e ele podia reivindicar o ser seu marido, por mais breve que devesse ser essa condio. Era natural cogitar qual seria 
a reao dele se ela testasse seus ardis femininos. Seria bastante interessante deixar a esse campesino rstico e estpido uma amostra de sua beleza como um presente, 
pensou ela, pois logo estaria de volta, a caminho da forca. No faria mal afiar suas armas na capacidade mental dele.
    Sentou-se no canto, encarando-o, as costas contra o lado da carruagem. A pequena lanterna dentro da carruagem proporcionava uma luzinha fraca, e ela podia ver 
aqueles olhos ambarinos incandescentes de fervor enquanto ele a observava. Os dedos dele lhe massageavam suavemente a perna, do quadril ao joelho, aquecendo-a de 
modo agradvel. Os lbios de Shanna se curvaram num quase sorriso quando ela suspirou; e, como que se acomodando como um felino satisfeito, ela se estirou contra 
o assento. O manto se lhe abriu na cintura, porm ela pareceu no se dar conta disso enquanto juntava os braos no peito, pressionando os seios para cima at quase 
saltarem do vestido rasgado e da fina camisa. Na verdade, ela no sabia como sua pele plida brilhava como cetim  luz da lanterna, nem podia mesmo calcular a extenso 
da paixo de Ruark. Apenas viu que os olhos dele vagavam para baixo e sentiu a presso da barriga dele contra a sua perna e a trepidao na coxa dele se apressou 
sob o seu p.
    O amaciar de suas maneiras intensificou-lhe a beleza, e Ruark a fitava com apreciao. Quando falou, a voz dele no traa o aperto na garganta:
    - Est mais quentinha, madame?
    - Ai, sim! - suspirou Shanna, fechando os olhos a meio, enquanto inclinava a cabea para trs, deixando-o apreciar a linda curva de seu pescoo. A qualquer momento 
ele iria dizer-lhe o quanto a desejava e tentar adul-la, e ela o iria levando at o momento em que tivessem de separar-se. Atravs das plpebras entreabertas ela 
o vigiava e ficou irritada de decepo quando ele pareceu livrar-se do encantamento dela. Tranqilamente, ele enfiou a mo no bolso do casaco e de l tirou os papis 
amarrados com fita escarlate.
    - Estes so os documentos do casamento - informou Ruark ao agitar os papis na mo. - Voc vai precisar deles para provar que estamos casados.
    Shanna aprumou-se um pouco e ia apanh-los, mas ele afastou-os do seu alcance.
    - Ah, madame, o preo ainda no foi pago - disse ele, rindo.
    Estampando algo semelhante a pavor nos olhos, Shanna o olhou fixamente. Ameaaria ele destru-los, se ela no cedesse? Se fossem atirados na estrada, ficariam 
imprestveis.
    - Ruark - disse, atnita, e retirou os ps de perto dele, enfiando-os sob o corpo. - Voc faria...
    - Faria sim, madame. Nossa combinao foi perfeitamente sacramentada. - Os olhos dele a examinaram ousadamente, e Shanna se preparou para o pior. Ele sorriu 
e continuou: - No vou pr em dvida sua inteno nem sua honra. Acontece que isto  uma coisa nova. Eu tiraria de voc - parou e bateu com os papis no queixo, 
contemplando a lanterna - um beijo - disse repentina e decisivamente. - Um beijo amante de uma mulher, concedido a seu marido recentemente consagrado. O preo 
muito alto, madame?
    Ele ergueu o cenho, em zombeteira dvida. Com certo alvio, Shanna se controlou e puxou o manto para ocultar-se dos olhos maravilhados dele, irritada que seus
joelhos continuassem a escorregar e a tocar a coxa de Ruark.
    - Muito bem - disse ela, como se relutasse ao mximo. - J que insiste, sou muito frgil para lutar. - Debruou-se para a frente e disse: Quando quiser, senhor.
Estou pronta.
    Fechou os olhos para esperar, e o risinho dele a fez abri-los rapidamente de novo. Ele no se havia mexido. Na verdade, quando ela o olhou firme, ele tirou o
casaco e abriu o colete antes de se recostar no canto do assento.
    - Madame - o sorriso dele a provocou - o trato foi que a senhora daria o beijo. Precisa de ajuda ou de alguma instruo?
    Shanna irritou-se com a brincadeira e o olhou raivosamente. Acharia ele que ela era uma criada imbecil, que no percebia a trama? Ergueu-se acima dos joelhos,
resolvida a dar-lhe uma lio. Ela lhe daria um beijo de que ele jamais esqueceria, at morrer!
    Timidamente, ps os braos nos ombros dele. Ainda uma vez o olhar dele dirigiu-se para baixo, para onde ela queria. Ela o faria retorcer-se de frustrao. Seus
dedos afagaram suavemente a nuca do marido ao aproximar-se dele. De sbito, ele levantou a cabea e seus olhos encontraram os dela: o cenho dele estava franzido
de preocupao.
    - Tente caprichar - advertiu. - Compreendo que a senhora talvez no tenha muita experincia, mas um beijo de mulher para marido deve ser uma coisa que carregue
orgulho e no vergonha.
    Por um instante Shanna ficou furiosa com essas palavras e quase esbofeteou aquele rosto lbrico. Vendo a expresso divertida de Ruark, ela sussurrou:
    - Voc pensa que nunca beijei um homem?
    As sobrancelhas dele se ergueram um pouco e ele respondeu:
    - Para falar a verdade, Shanna - ele esfregou o pescoo nas mos dela - eu estava pensando nisso. Um beijinho infantil no rosto s deve ser dado por um tutor
paternal.
    Decididamente, Shanna debruou-se para a frente at que seus seios pousaram no peito dele, e recorrendo a toda a sua imaginao, ela entreabriu os lbios e os
mexeu lenta e calorosamente sobre os dele. Os olhos dela se arregalaram quando a boca de Ruark se abriu e se torceu na dela, sua
    lngua dando estocadas enquanto ele a abraava, esmagando-a no seu brao. O mundo de Shanna tombou loucamente quando ele devagarinho virou-se de tal forma que
ela praticamente ficou no colo dele, com a cabea comprimida no ombro do rapaz. A boca de Ruark era insistente, exigente e incansvel, roubando-lhe a respirao
e a compostura. Ela foi apanhada no calor de uma batalha que no podia esperar vencer. Suas armas se embotaram, sua vontade desapareceu. Deveria ter achado o beijo
dele repulsivo, mas na verdade foi incrivelmente excitante. O peito retesado e musculoso, cujo calor era transmitido atravs do tecido da camisa, comprimiu-se contra 
os seios parcamente ocultos de Shanna, que se deu conta do disparar do corao dele, enquanto o seu prprio palpitava em ritmo frentico.
    Lentamente, Ruark recuou o rosto. Com trmulo esforo Shanna se controlou e, quando ele a olhou, ela respirou fundo. Esforou-se para livrar-se dos braos dele, 
conseguiu e se encontrou sentada no colo dele.
    - O trato no foi cumprido, senhor? - perguntou, com voz insegura.
    Sem comentrios, Ruark lhe entregou os papis, que ela enfiou rapidamente no regalo. Quis sair do colo de Ruark, mas o brao dele estava ao redor de sua cintura 
e a mantinha firme no lugar. As anquinhas lhe dificultavam ainda mais os movimentos, e ela no conseguiu escapar. Seus olhos perscrutaram as chamas ambarinas no 
olhar dele.
    - Seu trato compreendia algo mais do que o senhor disse?
    - No - respondeu Ruark, pausadamente. - Mas eu gostaria de dar prosseguimento ao beijo.
    Shanna debateu-se, mas os braos dele no a largaram, comprimindo-a contra o corpo rijo. A voz dele era um sussurro rouco nos ouvidos dela:
    - Madame, esforce-se para tentar compreender o que  ficar numa cela pequena e cinzenta, contando pedras pela milsima vez; saber de cor todas as medidas do 
cubculo; ver novamente os dias que passaram como riscos numa porta de ferro e saber que naquela manh voc vai acrescentar mais um risco e que cada momento que 
passa o aproxima de um lao de forca. Calcule tambm o que  a pessoa se ficar perguntando se vai doer muito ou se ser um sofrimento breve. Ento, nesse mundo limitado, 
surge uma beleza como a sua, com seu sonho e sua esperana. Ah! Shanna, minha mulher, ansiei sexualmente muitas vezes, em meu calabouo, mas lembre-se disto - os 
olhos dele brilharam ao aproximar o rosto dela - antes que a porta se abra de novo, voc ser minha mulher em todos os sentidos.
    Shanna percebeu ento que a mo dele j estava debaixo das saias dela, na altura das coxas. A respirao convulsiva da moa no foi ligeira nem tmida: ela lhe 
agarrou o pulso e o afastou com determinao, mas percebeu que, s suas costas, os dedos dele lhe soltavam os laos do vestido.
    - Ruark! - Ela se contorceu e lhe repeliu o brao.
    De sbito, parecia que ele tinha mais do que o nmero normal de duas mos, e suas prprias mos precipitaram-se para manter seu recato. Finalmente, conseguiu 
pegar as mos dele e apert-las contra seu diafragma, num esforo para mante-las imveis. Ento, percebeu outra coisa: na luta, a saia havia sido arrancada, e suas 
ndegas nuas se apoiavam inteiras na virilha dele. Sua virilidade estava atrevida e rija contra o corpo da moa. At mesmo naquele instante, as mos dele escapuliam 
do controle dela e subiam pelos quadris dela, aproximando-a dele.
    - Voc realmente no  um cavalheiro! - arquejou ela, afrontada.
    - E voc esperava encontrar um cavalheiro numa masmorra? "
    - Voc  um cafajeste! - gritou ela, tentando afastar as mos dele. Ruark riu de leve e seu respirar roou a garganta de Shanna.
    - Sou apenas um marido - respondeu ele - bem aquecido e disposto.
    Shanna esforou-se para alcanar a janelinha e poder abri-la e gritar, mas Ruark lhe pegou o pulso e o torceu para o lado. Ela se contorceu com redobrada energia. 
Sentiu ento a mo quente do outro em seu busto nu, e sua mo livre avanou para esbofete-lo como um falco, mas foi impedida a um centmetro do rosto sorridente 
que a encarava. Ele a agarrava com mos de ferro, mas no a machucava, e com facilidade ele lhe pegou as duas mos e as virou para as costas. Shanna guinchou de 
raiva, mas a boca de Ruark lhe sufocou o grito. Sua cabea girou em acelerado redemoinho, e ela lutou contra o arrebatamento que o beijo dele lhe trouxe.
    - Ruark, espere! - arfou, quando ele tirou os lbios de cima dos dela. Os dedos dele estavam pegando a delicada fita da blusa da moa, para liberar-lhe o busto.
    - No, Shanna. Ceda a mim, meu amor - murmurou ele, com voz rouca, perto da garganta dela. Seu rosto abaixou-se. Sua boca escaldava nos seios dela, que foi devorada 
por uma chama abrasadora que a percorreu como um foguete colorido.
    - Oh! Ruark - murmurou ela. - No. por favor! - Ela no conseguia respirar. - No, Ruark, pare!..
    O calor se espalhou nela, que teve a sensao de que sua pele brilhava. Suas mos estavam livres, porm ela as usava para aproximar a cabea dele. Ele se movimentava 
e estava quente e duro entre as coxas dela. Os lbios de Shanna estavam secos e sua lngua umideceu-os. Num ltimo e dbil esforo para resguardar seu recato, ela 
tentou escudar-se contra o basto de carne que lhe explorava as coxas.
    - Amor, amor! - murmurou ele, tomando-lhe a mo e a levando at ele, fechando os dedos magros sobre os dela. - Sou um homem. De carne e sangue. No sou nenhum 
monstro, Shanna.
    Sua boca comprimiu-se contra a dela novamente, e sua lngua insistiu at encontrar a dela, primeiro hesitante, depois com paixo redobrada. Ele a comprimia para 
baixo, no assento de veludo.
    O que havia de sensato nela pensou: "Isto  loucura!" Mas a paixo lhe sussurrou: "Deixe-o agir!"
    E ele agiu: ela sentiu uma dor aguda e penetrante que a fez arfar, seguida por profundo calor que a fez soluar de prazer. Ele comeou a se mexer, e a beij-la, 
acarici-la, am-la...
    De sbito, do lado de fora, o grito de Pitney se elevou acima da chuva fustigante, e o ritmo da carruagem mudou. Praguejando, Ruark levantou a cabea e percebeu 
que estavam parando. Ouviu ento outro grito responder ao de Pitney, e reconheceu-o como sendo o do terceiro guarda, o que havia ficado para trs com a viatura da 
priso.
    - Maldio! - rosnou Ruark, em frustrada agonia. - Maldita seja, sua cadelinha traidora! - Ele se afastou dela asperamente. - Eu sabia que voc no cumpriria 
o trato!
    Com rapidez, Ruark comeou a pegar as roupas, ao mesmo tempo que seus lbios mostravam uma expresso de desprezo selvagem, enquanto ele a xingava rancorosamente. 
Shanna refugiou-se em seu canto, cobrindo os ouvidos com as mos enquanto ele desabafava sua ira com palavras de baixo calo.  parca luz, os olhos cobiosos dele 
a analisavam cruamente, queimando-lhe os seios plidos e trmulos e as coxas macias e adorveis, com o olhar ardente.
    - Cubra-se! - disse ele entre dentes, de modo escarninho. E, em seguida, mais agressivamente: - Ou deseja que os guardas tomem meu lugar?
    Shanna puxou o manto sobre o corpo, como se para escudar-se do escrnio e do penetrante e raivoso olhar dele. Um segundo depois a porta foi aberta aos solavancos 
e a grande boca da enorme pistola de Pitney foi encostada ameaadoramente no peito de Ruark.
    - Fora! - grunhiu Pitney.
    Tudo dentro de Ruark se revoltou. Ele havia sido empurrado, jogado de um lado para outro, espancado, acicatado, engabelado, tentado e finalmente trado, num 
momento degradante. Um rosnado atormentado saiu de sua garganta e, antes que algum pudesse reagir, ele chutou a pistola e se lanou, primeiro de ps, contra o peito 
de Pitney. A fora do ataque fez com que ambos se arrastassem na lama. Gritos de alarme foram emitidos pelos guardas.
    - Apanhem o sujeito! Hicks vai cortar a cabea da gente!
    Shanna encolheu-se quando caram em cima dele. Xingaes abafadas e grunhidos de dor pontilharam a batalha. Os guardas eram troncudos, grandes e musculosos; 
Hicks os havia escolhido pela fora, para levar o prisioneiro de volta  cela. Cada um deles era maior do que Ruark, e Pitney era maior do que todos eles, mas Ruark 
exibiu amplos conhecimentos de briga. Lutou como um homem possesso.
    Passaram-se vrios momentos antes que pudessem domin-lo, e ainda assim ele ficou apenas pouco mais machucado do que seus opositores, dois dos quais o seguraram 
nos joelhos enterrados na lama, com os dois braos abertos, enquanto o terceiro apressou-se em prender-lhe as algemas nos pulsos.
    Pitney ficou por perto, tentando raspar parte da terra lamacenta do seu manto. Massageou o ombro como se estivesse doendo e flexionou os braos. Ao levantar 
os olhos, parou ao ver o rosto de Shanna iluminado pelo brilho da lanterna e, seguindo-lhe o olhar, os guardas tambm se detiveram em sua tarefa. O terceiro, aproximando-se, 
disse humildemente:
    - Desculpe o atraso, senhora. Meu carro ficou preso na lama perto do lago. Se no fosse por isso, eu tinha chegado mais cedo, como a senhora queria.
    Devagar, Ruark levantou a cabea e a olhou firme nos olhos. O rosto estava machucado, e sangue lhe escorria do canto da boca. A garganta de Shanna apertou-se 
convulsivamente, e ela recuou para a sombra, puxando o capuz do manto para o rosto, para no ter de encarar Ruark. A voz dele, porm, fez-se ouvir, rouca e cheia 
de ira incontida.
    - Se Deus Todo-Poderoso me conceder Sua piedade, madame - disse ele, rangendo os dentes - nosso trato ser cumprido at o fim.
    Sua promessa foi silenciada por vigoroso punho. Shanna estremeceu ao ouvir o rudo surdo. Quando conseguiu controlar-se e olhar de novo, Ruark estava lassamente 
seguro pelos guardas. Eles terminaram de acorrent-lo e o atiraram bruscamente no carro. A tranca fechou-se s suas costas, e seu rosto ensangentado apareceu brevemente 
 pequena janela, antes que a porta de madeira se fechasse.
    Shanna afundou no assento almofadado e, com dedos nervosos, comeou a arrumar a roupa. Exceto pelo fato de haver perdido a virgindade, seus planos haviam sado 
de acordo com sua vontade; ela, porm, no conseguiu sorrir satisfeita. Em vez disso, tudo lhe pareceu esmagadoramente vazio, e sua traio lhe pesava de modo terrvel. 
Seu corpo jovem ardia de um desejo que ela jamais sentira, mas agora no havia alvio para ele, pois debaixo do manto seus braos estavam dolorosamente vazios.
    A porta de sua carruagem foi fechada suavemente, e o peso de Pitney fez com que o veculo oscilasse quando ele assumiu o lugar do cocheiro. A carruagem ps-se 
em movimento aos solavancos, e quando eles passaram plo outro carro e salpicaram lama pela escurido, um rosnado quase desumano e irado ouviu-se, acompanhado por 
repetidos rudos secos contra a pesada porta de madeira. De repente, Shanna pde acreditar que Ruark Beauchamp fosse louco.
    Fechando os olhos, a moa cobriu os ouvidos com as mos. Entretanto, a imagem do rosto ferido de Ruark lhe estava gravada na mente, e nada conseguiu expuls-la.
    Um silncio mortal pairava nos lgubres corredores da penitenciria. Ouviu-se ento o bater de pesada porta, e o rudo de uma tranca se fechando, junto com o 
de ps que se esfregavam, e agourento arrastar rompeu o silncio. Hicks estremeceu no cochilo. Gotas de suor lhe salpicavam o cenho, e ele contemplou, com olhos 
temerosos, o rosto sombreado e contorcido debruado  sua frente.
    - No! No! - balbuciou suplicante enquanto se debatia nos cobertores emaranhados e atirava ao ar dedos gordos e rechonchudos, para afastar o fantasma de seus 
sonhos que se agigantavam.
    - Diacho, Hicks, acalme-se!
    A sombra se endireitou e assemelhou-se mais a um homem. Hicks piscou ao focalizar o grupo  sua frente. A percepo finalmente o penetrou, e seu olhar atormentado 
transformou-se em surpresa ao notar o estado dos homens. John Craddock apontou para o prisioneiro e disse:
    - O maldito tratante tentou fugir. - Cambaleou ligeiramente. - Deu um trabalho  gente.
    - Trabalho! - zombou Hicks. Com um arfar do corpo macio, rolou at ficar de p e examinou sua musculosa equipe. Craddock exibia um lbio partido, Hadley, um 
olho preto, e o terceiro guarda apalpou o queixo dolorido: - Deus os ajude, se ele algum dia resolver lutar!
    Um sorriso afetado de satisfao lhe assomou aos lbios grossos, enquanto ele ponderava sobre o deplorvel estado de Ruark:
    - Quer dizer que voc tentou passar o carrasco para trs, hem? debochou o carcereiro, e havia em seus pequenos olhos um brilho de crueldade. - Pode apostar que 
sua mulherzinha nem se incomodaria, se eu lhe arrebentasse mais um pouco esse couro.
    Ruark retribuiu o desafio do homem com muda rebeldia. Seu rosto machucado e ensangentado havia sido espancado, mas continuava intrpido. O Sr. Hadley tocou 
suavemente o olho embaciado.
    - Oh! A mulherzinha no era nada m, companheiro. Era bonita demais, e ele estava doido por ela. Eu bem que gostaria de tirar uma casquinha dela.
    Hicks revirou os olhos para Ruark:
    - Ela lhe esquentou o sangue, no ? Mas no adiantou, porque vocs se casaram, mas no foram para a cama. Bem feito pra voc, seu vigarista safado. - Levantou 
o porrete e cutucou o ombro do prisioneiro. - Diga pra gente o nome dela. Talvez esteja precisando de um cara que seja mais homem do que voc. Ande, fale pra gente.
    A resposta zombeteira de Ruark foi amarga e rspida:
    - Acredito que Madame Beauchamp.
    O balofo carcereiro olhou firme para Ruark por algum tempo, dando com o porrete levemente na palma da mo, mas a expresso de escrnio no rosto de Ruark no 
se alterou com a silenciosa ameaa.
    - Recolha sua excelncia a seus aposentos - ordenou Hicks. - E deixe as algemas presas. No quero que ele os machuque. Logo a gente toma conta dele.
    Dois dias depois, de manh cedinho, ouviu-se forte bater na porta, o que fez com que os roncos do carcereiro-chefe terminassem num gargarejo sufocado. Hicks 
rolou aprumado na cama e, depois de barulhento arroto, pigarreou. Sua raiva por ser to rudemente despertado foi expressa pelo berro que deu:
    - Seu maldito palerma! - rosnou. - Quer tirar as dobradias da porta? J me levantei!
    Hicks enfiou as pernas curtas e gordas na cala e, sem enfiar as compridas fraldas da camisola para dentro, foi tropeando at a porta de ferro, tirou a tranca 
e abriu a porta. Quando o guarda se afastou, Hicks viu, boquiaberto, o Sr. Pitney, cujo corpo volumoso enchia a estreita passagem. Nos braos vigorosos havia um 
pacote de roupas e uma cesta bem carregada e com cheiro to gostoso que ps gua na boca do carcereiro. Pitney entrou abruptamente no aposento e disse:
    - Venho da parte de Madame Beauchamp, para providenciar o bem-estar de seu marido. O senhor permite?
    Embora a frase fosse dita em tom de pergunta, foi mais uma ordem, e Hicks entendeu que sua nica alternativa era concordar com a cabea e apanhar as chaves. 
Ao tir-las do gancho, examinou o homem dos ps  cabea, e o rosto rechonchudo se comprimiu num sorriso de escrnio:
    - Seja l o que foi que vocs fizeram a esse sujeito, fizeram bem-feito.
    O cenho do outro se ergueu interrogativamente e Hicks zombou:
    - Tivemos de acorrentar o vigarista  parede, seno a gente ia dar-se mal. Ele chegou aqui que parecia doido. Nem tocou num pedao da comida que o senhor tem 
mandado. S come po e bebe gua como fazia antes e fica l sentado olhando para ns quando levamos as coisas para ele. Se pudesse botar as mos em cima da gente, 
nos matava, ou a gente o matava, o que era o mais certo de acontecer.
    - Leve-me a ele - ordenou Pitney.
    - Est certo - concordou o carcereiro.
    As corridinhas e guinchos de ratos, perturbados pela luz, intrometeram-se no silncio da cela mal iluminada. Pitney esperou algum sinal de vida que viesse da 
forma estirada no catre esmulambado, e observou as correntes presas aos tornozelos e pulsos magros e o comprimento da corrente, que ia da parede  argola de ferro 
no pescoo do prisioneiro. Pitney franziu o cenho e perguntou ao homem na sombra:
    - Voc vai bem, rapaz?
    No houve resposta nem sinal de vida, e o vigoroso homem deu um passo  frente.
    - Est muito ferido?
    A forma se levantou e ficou sentada, e os olhos dourados olharam fixo na escurido.
    - Minha patroa lhe mandou roupas limpas e pergunta se a gente pode fazer alguma coisa por voc.
    O colono ergueu-se com um rosnado e caminhou a passos largos na cela estreita, segurando a corrente de modo a que no pesasse na argola. Carne viva apareceu 
no pescoo, onde a pele fora esfolada, e havia marcas no rosto e no corpo muito recentes, para haverem sido feitas na noite do casamento. A camisa rasgada mostrava 
feios arranhes nas costas, como se tivessem sido chicoteadas. Ele no demonstrou que qualquer das palavras de Pitney lhe houvessem penetrado no crebro. Parecia 
um animal enjaulado e, por um instante, Pitney, apesar de seu volume e fora, sentiu um medo irracional dele.
    Pitney balanou a cabea, perplexo. Havia visto esse Beauchamp como homem e sabia que ele era realmente homem. Agora, porm, estava reduzido a lamentvel estado.
    - Tome aqui, cara! Pegue as roupas, coma a comida, lave-se. Aja como homem e no como animal.
    Ruark parou de andar e ficou meio agachado, olhando raivosamente para Pitney, como um gato encurralado.
    - Vou deixar isto aqui. - Pitney deu alguns passos  frente e ps o embrulho na mesa. - Voc no precisa...
    Um rosnado colrico o advertiu, e Pitney recuou cambaleante, quando os braos acorrentados se agitaram. O golpe atingiu a mesa e ps tudo no cho.
    - Voc acha que vou aceitar a caridade dela? - vomitou Ruark. Agarrou a beira da mesa e a corrente ao pescoo ficou retesada quando ele se debruou para a frente.
    - Caridade? - repetiu Pitney. - Vocs fizeram um trato, e minha patroa tenciona cumprir sua parte.
    - A oferta foi dela! - rugiu Ruark, encolerizado. - No foi parte de nenhum trato. - Socou o punho na mesa, abrindo-lhe uma racha. Sua voz diminuiu o tom e ficou 
zombeteira e insultante: - Diga  prostituta de sua patroa que ela no vai aplacar sua conscincia to facilmente assim.
    Pitney no toleraria ver Shanna xingada dessa forma, e se virou para ir embora.
    - Diga tambm  sua cadela - gritou Ruark - que mesmo que seja no inferno, vou tomar providncias para que ela cumpra sua parte do trato!
    A porta se fechou com pesado rudo, e a cela ficou de novo silenciosa, a no ser pelos sons da corrente sendo arrastada pelo prisioneiro que caminhava de um 
lado para outro.
    O recado de Ruark, repetido cruamente, provocou um grito de ultraje em Shanna. Ela palmilhou irada a sala de estar, enquanto Pitney pacientemente esperava que 
a tempestade amainasse.
    - Ele ento que fique como est! - A moa jogou um brao para cima. - Tentei ajud-lo no possvel. J no est nas minhas mos agora. Daqui a alguns dias, que 
importncia ter?
    Pitney revirou devagar o chapu de trs bicos.
    - O rapaz parece que acha que a senhora lhe deve alguma coisa. Shanna girou o corpo; os olhos azul-esverdeados flamejaram.
    - Aquele sabujo convencido! O que me importa o que ele ache! J que  to orgulhoso, que morra enforcado e pronto! Ele mesmo fez sua cama. - Parou de sbito 
e, corando violentamente, rodopiou o corpo, para que Pitney no lhe pudesse ver o rosto. - Isto . afinal de contas, ele no matou a moa?
    - Ele parece um homem que est enlouquecendo - observou Pitney com um suspiro fundo. - No come nada, a no ser po e gua.
    - Cale a boca! - exclamou Shanna, e comeou a andar nervosamente. - Acha que quero ouvir isso? No fui eu quem o condenou. Isto aconteceu antes que o conhecesse. 
J basta ter de enfrentar o enterro dele, sem que me estejam sempre lembrando como ele vai morrer. Queria estar em casa! Detesto ficar aqui! - De repente, Shanna 
parou de vagar de forma agitada e encarou Pitney. - O Marguerite parte antes do final da semana. Informe ao Comandante Duprey que queremos passagem para voltar a 
casa.
    - Mas seu pai j tratou para voc voltar para casa no Hampstead estranhou Pitney. - O Marguerite  apenas um pequeno navio mercante.
    - Eu sei que ! - retrucou Shanna. -  a menor das embarcaes de meu pai. Mas  dele e est indo para casa. E no me recusaro a bordo. O Hampstead s vai partir 
em dezembro, e quero voltar para casa agora!
    Batendo com o dedo do p no tapete de pelcia, ela sorriu, com um brilho calculado nos olhos.
    - E se ele quiser enfrentar meu pai quando eu for para casa, o Sr. Ralston tambm vai precisar apressar-se. Vou dar-lhe muito pouco tempo para se aprofundar 
na verdade do meu casamento. Deus nos ajude se algum dia ele vier a descobri-la!
    Quando Pitney foi embora e os criados se dedicaram silenciosamente a seus afazeres, Shanna sentiu-se estranhamente s. Estava deprimida e afundou na cadeira 
diante de sua pequena mesa, muito mal-humorada. Imagens
    de Ruark segundo Pitney o descrevera - esmolambado, magro, machucado, acorrentado, zangado - contrastavam estranhamente com o homem que ela vira nos degraus 
da igreja. Perguntou-se o que mudaria tanto um homem. A resposta veio quando ela pensou no rosto contorcido contra as barras do carro da priso e no grito lamentoso 
que a seguiram noite adentro. E compreendeu perfeitamente bem a causa.
    Sua mente lhe pregava truques. Ela se imaginou espancada, maltratada, acorrentada, indefesa, condenada, desesperanada, trada...
    Um gritinho lhe escapou dos lbios, e no mais breve lampejo de tempo ela sentiu um gostinho de raiva amarga de que ele devia estar possudo. Irritada, tentou 
dissipar essa inclinao mrbida e no permitiu  sua mente pensar novamente no assunto, para no sentir nenhum remorso indesejvel.
    O Sol brilhante surgiu potente pelas janelas. O dia estava frio, o que era raro em Londres na poca. O cu estava azul e lmpido. Fresca brisa marinha acompanhara 
o Sol, afastando as nuvens e a fumaa, limpando o ar e deixando-lhe apenas uma insinuao de sal. Entretanto, Shanna mal reparou na beleza do dia. Olhou aptica 
para cima da mesa, onde havia uma caneta de pena e fino papel apergaminhado. Indolentemente, comeou a rabiscar seu novo nome nas folhas brancas.
    Shanna Beauchamp.
    Shanna Trahern Beauchamp.
    Shanna Elizabeth Beauchamp.
    - Madame Beauchamp!
    - Madame? Madame Beauchamp? Devagar, ela se deu conta de que estava sendo chamada por uma voz estranha a seus pensamentos. Levantou o olhar e viu a criada  
porta, segurando vrias peas de roupa, na maioria peas pesadas para frio.
    - Sim, Hergus?
    - Eu estava pensando, Madame, se a senhora quer que eu v arrumando estas roupas para a viagem de volta a casa. Parece que estas aqui so suficientes. A senhora 
vai deixar as roupas aqui para a prxima vez?
    - No! Se a deciso couber a mim, no volto antes de muito tempo. Ponha essas roupas num dos bas maiores.
    A escocesa concordou com a cabea, em seguida parou e olhou para Shanna com expresso preocupada:
    - Est se sentindo bem? A senhora no gostaria de descansar agora? - Hergus estava muito preocupada com ela desde o momento difcil em que Shanna, com Pitney 
ao lado, anunciou seu casamento e sua viuvez aos perplexos criados.
    - Estou bem, Hergus. - Afastando a sincera preocupao da idosa mulher, Shanna mergulhou a ponta da caneta no tinteiro e disse, por sobre o ombro: - Vamos voltar 
para casa a bordo doMarguerite antes do fim da semana. Sei que isto vai significar que voc vai ter de apressar o servio, mas quero voltar para casa o mais depressa 
possvel.
    - Acho que a senhora faz bem, para que seu pai a possa consolar.
    Quando os passos da criada se afastaram no vestbulo, Shanna voltou a rabiscar no pergaminho. Mas sua mente no acompanhava o que fazia, ao contrrio vagueava, 
meditativa, sobre suas aventuras. Corou ao lembrar a ardente umidade contra seu peito, olhos ambarinos fitando-a quase at a alma, e a ltima penetrao que ela 
recebera muito bem.
    Com um gemido de frustrao, Shanna espetou a pena no tinteiro e ps-se de p, com a mo alisando a frente do vestido de veludo cor de vinho como se para afastar 
qualquer imperfeio ou a lembrana de um corpo forte, rijo, apertando-se contra ela com fervor.
    Inclinou-se para pegar o pergaminho, pretendendo rasg-lo em tiras; porm viu o trabalho de suas mos enquanto seus pensamentos flutuavam, o rosto entre as espirais 
e os floreios: o esboo de Ruark Beauchamp! Os lbios, belos e sensuais, embora severos, sorriam-lhe zombeteiros, ao passo que os olhos. Ora, esses no estavam como 
deviam, e ela duvidava de que mesmo um grande mestre de arte pudesse apanh-los com uma pena de escrever!
    Irritada consigo mesma, rebelou-se contra o forte apelo que a lembrana dele tinha sobre sua mente, e fungou com veemncia.
    "O patife! Est danado porque no lhe dei ocasio para fugir! Com certeza essa era sua inteno: deixar-me s e depois escapar." Arremessou ao cho o pergaminho. 
"Isso era o que ele queria, e no me deixarei impressionar pelo que no fiz."
    Quase aliviada, Shanna suspirou, tendo-se defendido adequadamente ante o alto magistrado de sua mente: sua conscincia.
    "No tornarei a pensar nele!", decidiu, com firmeza.
    Porm, mesmo quando caminhava para a janela, no recesso mais secreto de seus pensamentos, entrincheirada contra ataques, o vago desafio dos olhos cor de mbar 
impedia sua vitria.
    A confrontao de Shanna com Ralston viria mais cedo do que ela esperava, pois apenas poucas horas mais tarde ela se deteve outra vez  quente luz do Sol que 
entrava pelas janelas, quando uma carruagem parou diante da casa e James Ralston apeou. Ficou parado por um momento, batendo na coxa magra com o chicote curto que 
sempre carregava, enquanto olhava para cima, para a parte mais alta da manso onde ficavam os aposentos dela.
    Shanna franziu o nariz, aborrecida e vexada por ele ter chegado antes do enforcamento de Ruark. Apressando-se a atravessar a sala, procurou compor uma aparncia 
de perda, todo o tempo praguejando entre dentes. Acomodou-se numa grande poltrona diante da lareira, alisando as largas saias e afofando os babados de renda creme 
nos cotovelos. Gostaria de oferecer ao homem um espetculo de lgrimas, mas no se sentia com disposies para isso. Ento lhe veio a lembrana: quando Pitney provou 
da caixinha de rap, os olhos dele aguaram demais durante algum tempo. Se no estava enganada, ele a havia deixado na mesa do ch.
    - Ah, ei-la aqui... - Ansiosa, voou at ela e apanhou a caixa. Ralston dava ordens aos criados que tiravam suas malas da carruagem de modo que ela teria bastante 
tempo. Como tantas vezes vira Pitney fazer, Shanna tirou uma pitada e a meteu numa das narinas, inalando fundo.
    - Meu Deus! - gemeu. Era como se um ferro quente estivesse sendo introduzido por sua garganta. Espirrou e espirrou e espirrou..
    De modo que, como fora sua inteno, quando James Ralston entrou na sala, Shanna l estava, numa funda tristeza cheia de lgrimas que lhe corriam pelas faces, 
e com os olhos to vermelhos como se houvesse chorado por horas e horas. Delicadamente, esfregou o nariz com um leno e fungou alto.
    - Madame? - Ralston deu um passo para ela, feies tensas enquanto tentava controlar a clera, a mo agitando o chicote.
    Shanna ergueu os olhos, enxugando as lgrimas com o leno de rendas. Seu peito ardia, e ela ofegava:
    - Oh! Ralston,  voc! Eu no esperava.
    - Apressei-me, com receio de achar tudo em desordem..
    - Oh! Se voc tivesse chegado mais cedo. - Shanna fungou, tristonha.
    - Madame. - Seu tom era rpido, curto. - Fiz minha viagem pelo Marguerte, escoltando algumas das preciosas mercadorias do navio encalhado, e l encontrei notcias 
espantosas  minha espera. A senhora encarregou o Comandante Duprey de tom-la a bordo para lev-la para casa; e no decorrer dos acontecimentos soube que se casou 
e enviuvou em minha ausncia. Est correto ou fui enganado por aquele francs transviado?
    Shanna usou o lencinho nos cantos dos olhos, quando um soluo lhe ergueu o peito:
    -  tudo verdade...
    - Madame...
    - Madame Beauchamp. Madame Ruark Deverell Beauchamp - declarou Shanna.
    Ralston pigarreou:
    - Madame Beauchamp, devo entender que no breve prazo de uma semana foi capaz de escolher um marido aps um ano inteiro de fracasso para achar um homem sequer 
tolervel?
    - Acha o fato impossvel, Sr. Ralston? - Era difcil ocultar a irritao.
    - Madame, com outra mulher eu no duvidaria da possibilidade de tal ocorrncia.
    - E comigo, Sr. Ralston? - As sobrancelhas de Shanna ergueram-se e seus olhos no eram nada amistosos. - Acha-me incapaz de amar?
    - No, Madame - respondeu ele com cuidado, relembrando o grande nmero de cavalheiros que apresentara  considerao da jovem, esperando que um deles se casasse 
com ela e, posteriormente, partilhasse com ele uma parte do dote. - S parece, Madame, que a senhora  mais exigente do que a maioria.
    - E sou! - retrucou, afetada. - De outro modo teria trado a mim mesma escolhendo algum que me fosse menos caro do que meu amado Ruark.  uma ironia que aquele 
encontrado to tarde tenha sido perdido to cedo. Sobre os detalhes de sua morte no posso estender-me, pois que ele me foi arrancado subitamente: um tropeo da 
carruagem. e ele se foi.. fe-las! meu amado Ruark!
    - E voc chegou a partilhar a cama com...
    A cabea de Shanna se ergueu numa demonstrao de altiva indignao:
    - Sr. Ralston! Procura insultar-me com essa grosseria? Ou  fora do comum, em sua opinio, que marido e mulher durmam juntos em sua noite de npcias?
    - Perdo, madame. - O rosto de Ralston se turvou ao perceber o perigo dessa pergunta.
    - No tolero que duvidem de minha palavra, e me pe doente que ouse pressionar-me assim. Mas como demonstrou sua curiosidade to espalhafatosamente, deixe-me 
acalm-la. Garanto-lhe, senhor, que j no sou uma moa solteira, e uma criana pode estar a caminho.
    Tendo feito essa declarao como se fosse mesmo uma viva, Shanna se voltou, sobrancelhas franzidas de preocupao, pois na verdade cogitava se estaria mesmo 
carregando a semente de Ruark. Foi um encontro to breve. mas sempre havia uma possibilidade. No era seu desejo criar um filho sem um pai. Mentalmente contava os 
dias at que pudesse certificar-se da verdade. S o tempo podia dar fim a seu temor.
    Ralston interpretou mal suas maneiras. Ela bem podia prejudicar seu lucrativo relacionamento com o pai; a preocupao em sua voz era real:
    - Madame, no queria embara-la.
    - Shanna tornou a encar-lo e ento se deteve, pois, por trs dele, via Hergus. Percebeu a contrao no rosto da escocesa quando Ralston tambm se voltou. Com 
esforo  que a criada mantinha uma aparncia de respeito para com o homem. Estando com a famlia Trahern havia quase 20 anos, a Hergus no faltava confiana e freqentemente 
se expressava com total franqueza, o que de hbito no levava  lisonja. Nunca aprovara os homens que Ralston apresentara  jovem patroa, e sua antipatia por Ralston 
crescia a passo acelerado com seu desdm pelos que ele trazia. A Shanna  que devia lealdade; quem quer que duvidasse disso o bastante para ameaar a jovem teria 
de haver-se com ela.
    - De que se trata, Hergus? - perguntou Shanna, grata pela interrupo.
    A criada se aproximou:
    - No quis ser intrometida, mas como me disse que me apressasse pensei que era melhor perguntar. O que pensa fazer com isto?
    A respirao de Shanna ficou presa na garganta quando Hergus mostrou o casaco e o manto que Ruark deixara na carruagem. Ralston franziu a testa ao notar que 
eram roupas de homem e olhou, indagador, para Shanna.
    Ela viu que era um teste para sua inteligncia: suspirando, pensativa, tomou-as das mos de Hergus. Quase com ternura acariciou o veludo macio do casaco:
    - Era de Ruark. - murmurou com tristeza. - Ele era belo, viril, encantador, e tinha o sorriso mais persuasivo. Impressionou-me profundamente.
    Segurando as peas com cuidado, Shanna as entregou  criada:
    - Coloque em um dos meus bas, Hergus. Eu as guardarei como lembrana. - Porm j estava pensando em como livrar-se delas, pois as lembranas que lhe traziam 
nada tinham de consoladoras.
    Os ns dos dedos de Ralston estavam brancos, quando agarrou o chicote de couro tranado e seu queixo ficou rgido:
    - Seu pai me far perguntas a esse respeito, Madame Beauchamp. Tenho de dar-lhe respostas. Tenho de saber o lugar em que se deu esse casamento e examinar os 
documentos. O nome Beauchamp  bem conhecido aqui em Londres, porm h coisas que devo saber e no posso apresentar-me  porta dessa famlia fazendo perguntas sobre 
o seu parente, especialmente num tempo de tristezas. Mas devo assegurar-me da validade do casamento para a paz de esprito de seu pai.
    Shanna experimentou um breve momento de tentao de lanar uma custica acusao de que ele faria qualquer coisa que pudesse engordar-lhe a bolsa. Mas conseguiu 
parecer apenas levemente ofendida:
    - Claro, senhor! Suponho que meu pai no aceitaria apenas a minha palavra a tal respeito. - Atravessando a sala at a secretria, retirou o pacote de documentos 
que ganhara com um beijo e sua virtude. - Eis a prova.
    Ralston j estava a seu lado, tomando-os dela e avidamente desamarrando a fita escarlate. Porm, como seus olhos dessem com a folha de pergaminho na secretria, 
seu interesse se diversificou, e ele se deteve para olh-la. Shanna acompanhou-lhe o olhar e viu, sem poder evit-lo, o homem pegar o esboo para inspecion-lo mais 
de perto. No pde suportar os olhos dele espreitando seus pensamentos secretos, pois de certo  o que isso era: uma rude invaso de sua privacidade, to certo como 
se ele houvesse testemunhado sua intimidade com Ruark na carruagem. Despertado seu ressentimento, Shanna quis arrancar-lhe o papel, porm Ralston destramente p-lo 
fora do alcance.
    - Madame, a senhora tem muitos talentos! No sabia que iam at produzir imagens de pessoas sobre pergaminho - observou, desconfiado. - Seu falecido marido?
    Relutante, Shanna acenou que sim:
    - D-me isso.
    - Seu pai teria curiosidade..
    Num movimento rpido, Shanna pegou o papel da mo dele picando-o em pedacinhos.
    - Madame, por que destri um retrato de seu marido? Parece que tinha todas as qualidades de que a senhora se gaba. Com certeza, tinha-veia amorosa. Talvez tenha 
ganho seu corao como a senhora declara.
    A mente de Shanna gritava: conversa fiada! Mas sua resposta veio muito meiga:
    - Ai! E isso me despedaa o corao, de modo que nem posso olhar sua imagem!..
    O mesmo tempo enfarruscado agraciou a manh seguinte. O vento cortante varria os edifcios quando Ralston apeou do carro e apertou bem o casaco em volta do 
corpo. Com o cabo do chicote bateu no portal da estrutura at vir de dentro uma resposta.
    - Tenho negcios com o carcereiro. Abram! - ordenou.
    Aps um breve chocalhar de chaves, a porta de ferro foi escancarada e ele entrou. Um guarda o levou atravs das salas at  presena do carcereiro.
    - Ol, Sr. Hicks! - comeou, calorosamente. - Pensei voltar  ilha mais cedo. Vim para ver que boa mercadoria voc tem para mim.
    - Mas, Sr. Governador. - o gorducho ficou de p, gaguejando e retorcendo as mos curtas e grossas. - Mas, Sr. Ralston, no tenho nada mais alm do que j escolheu..
    - Ora, deixe disso, meu bom homem! - Ralston riu enquanto tirava as luvas de couro e as enrolava com cuidado em torno do cabo do chicote, depois agarrou o chicote 
e bateu na prpria perna. - Voc deve ter alguns bons jovens devedores ou mesmo um ladro ou dois que gostariam de ver seus papis resgatados pela sorte de fugir 
deste buraco. Sabe que meu patro paga bem e com uma boa gratificao para os homens que o servem. - Cutucou a barriga redonda de Hicks com o chicote e sorriu com 
recato: - Isso quereria dizer algumas boas moedas para sua bolsa..
    - Mas, Governador, juro que no existe nenhum.
    - Ora, ora! - Ralston falou rspido, mostrando irritao. - Aquele ltimo grupo dificilmente duraria um ano ou dois nos canaviais. - Bateu na coxa, impaciente, 
com o chicote. - Voc deve ter alguns novos. Claro, voc compreende que mulheres sadias e crianas mais crescidas tm seu valor nas Carabas. - Franziu o rosto, 
agourento: - Meu patro ser muito, muito severo comigo se eu no lhe mostrar coisa melhor do que isso por seu dinheiro.
    - Mas, Governador! - Hicks chorava e transpirava mais, se isso fosse possvel. - Existe s...
    Uma movimentao do lado de fora da sala o interrompeu, e a pesada porta de ferro da cadeia principal foi escancarada. Entrou um guarda, puxando em todo o seu 
comprimento uma corrente presa a um homem carregado com tantas argolas de ferro e grilhetas quantas podia carregar. Outro guarda caminhava atrs, tambm usando uma 
comprida corrente presa ao prisioneiro que mostrava sinais de um recente tratamento brutal. Uma plpebra inchada e um lbio grosso, ensangentado, desfiguravam-lhe 
o rosto. A curta distncia das argolas que lhe prendiam os ps o fazia cambalear e, por essa falta de jeito, recebeu um soco nas costelas. Um grunhido
    de dor lhe saiu da boca machucada, mas nada mais. Os dois guardas estavam a ponto de levar o prisioneiro para o ptio externo quando Ralston, perito juiz de 
carne humana, estendeu a mo para det-los.
    - Parem a! - Seus olhos chamejavam para Hicks. - Voc, seu porco espertinho! Escondeu-o de mim para conseguir preo mais alto!
    Ralston se aproximou para melhor examinar o prisioneiro; um momento depois virou-se para a o carcereiro:
    - No percamos tempo, homem. Preciso dele. Diga logo o preo. Quanto est pedindo?
    - Mas, Governador! - O pobre Hicks estava quase apopltico. - Eu no queria vender. quer dizer: no posso.. Esse vai ser enforcado amanh de manh e agora est 
sendo levado para a cela comum para se juntar aos outros que vo ser enforcados...
    Manejando o chicote longo e negro, Ralston fitou Hicks durante muito tempo. Afinal se deteve e se ergueu, dobrando os braos. Seus olhos sombrios eram como os 
de um falco fixos em um coelho gordo.
    - Agora, Hicks...
    O gorducho pulou ao som dessa voz.
    - Sei que voc e alguns dos... ah. calculam que voc trabalhou no passado. Uma quantia considervel por um jovem como esse  o que haver.
    O carcereiro tremia e parecia prestes a cair de joelhos:
    - Mas... eu no posso... O vagabundo  um assassino, condenado  forca. Ora, devo verificar o verdadeiro... eis o nome dele... - As palavras ficaram presas na 
garganta de Hicks.
    - Estou l me importando com o nome dele! Vamos cham-lo por um novo nome.
    Ouvindo isso, um tmido olhar brilhou nos olhos do carcereiro, e Ralston no desperdiou um momento:
    - Vamos, homem, alegre-se! - Sua voz era lisonjeira. - Use a cabea. Quem vai saber? Ora, isso pode significar tanto quanto... - deu de ombros e quase sussurrou 
ao ouvido de Hicks - duzentas libras em seu bolso, uma gratificao para os guardas, e est acabado.
    A cobia de Hicks comeou a brilhar em seus olhinhos:
    - Ai! - murmurou suavemente, mais para si mesmo. - H o corpo de um velho que esteve aqui anos e anos. esquecido.. morreu na cela na noite passada. Ora, isso 
pode acontecer. - Olhou de soslaio para Ralston, falando baixo para que ningum pudesse ouvir: - Duzentas libras? Por gente assim?
    - Ora, homem! - Ralston acenou que sim. - Ele  jovem e forte. Sero apenas poucos dias antes que velejemos, e voc pode mant-lo escondido. Existe algum parente 
para reclam-lo? - Ante o aceno de cabea de Hicks, Ralston continuou: - Ento, entregue-lhes o outro corpo amanh num caixo fechado e com o selo do magistrado 
para que no ousem abri-lo. Eu o apanharei junto com o resto dos homens na vspera de embarcarmos.
    Ralston observou Hicks com olhar penetrante:
    - Espero que o homem seja cuidadosamente instrudo para que vigore o melhor de nosso acordo. Compreende?
    Um enrgico acenar de cabea fez tremer a papada de Hicks e garantiu o fato de que ele havia compreendido.
    Completado o negcio, Ralston voltou  carruagem, meio sorridente enquanto pensava: 200 para Hicks, e Trahern soltaria umas boas 1.500 libras por um homem como 
aquele sendo l300 para ele prprio. Sorriu, satisfeito, e calou as luvas. Comeou a cantarolar desafinado uma cantiguinha enquanto se recostava no assento e apreciava 
a jornada de volta a casa.
    Era o dia 24 de novembro quando Pitney foi a Tyburn. Apreciava pouco os espetculos de enforcamento e sentiu necessidade de fortificar-se. Para isso entrou num 
botequim e mandou que lhe servissem um jarro de cerveja. Os enforcamentos sempre atraam uma verdadeira multido, e a taberna estava cheia dos que esperavam que 
a coisa comeasse. Pegando o nico assento disponvel, Pitney ficou ao lado de um escocs baixote, cabelos vermelhos, magro, de cerca de 40 anos. O sujeito j estava 
bem encharcado de gim e deu-lhe um sorriso. Pitney no tinha a menor inteno de conversar, mas, como o escocs estava claramente entristecido por alguma grande 
tragdia, Pitney ficou ouvindo enquanto o outro lhe contava a histria da sua vida. Alguns momentos depois, Pitney se ps de p com uma praga e, agarrando seu tricrnio, 
saiu do estabelecimento e se mandou para o patbulo. A multido estava cerrada, e mais de uma vez Pitney estivera pique de derrubar todo um agrupamento de pessoas 
que pareciam querer barrar-lhe o caminho. Seus cotovelos foraram a passagem e chegou perto de onde os guardas descarregavam os prisioneiros do carro. No viu ningum 
a quem reconhecesse como Ruark Beauchamp. Passou um dos homens do carcereiro, e Pitney segurou-lhe a frente do casaco, perguntando:
    - Onde est o colono, Ruark Beauchamp? No ia ser enforcado hoje?
    - Largue-me, seu sapo nojento! V saindo! Tenho meu trabalho para fazer!
    Com sua mo grossa e musculosa, Pitney puxou o guarda para perto at ficarem os dois nariz contra nariz.
    - Onde est Ruark Beauchamp? Ou quer sua cabea virada pelo avesso?
    Esbugalharam-se os olhos do guarda e ele engoliu em seco ruidosamente:
    - Est morto,  como ele est. Eles o enforcaram de manhzinha, antes de ajuntar a multido.
    Pitney sacudiu o homem at os dentes dele chacoalharem:
    - Tem certeza?
    - Aiii! - grasnou o guarda. - Hicks o trouxe de volta numa caixa, Est toda selada.. Deixe eu ir embora..
    Devagar, as pesadas mos afrouxaram, e o homem escorregou para pr-se de p, aliviado. Enraivecido, Pitney socou com o punho fechado a palma da mo vigorosa 
e rosnou uma maldio. Girou nos calcanhares e, no mesmo passo rpido, voltou ao botequim, escancarando a porta com um golpe forte. Seus apertados olhos cinzentos 
vasculharam a sala... mas nem sinal do escocs!
    Era uma longa cavalgada de volta a Newgate, e Pitney ainda a apreciou menos do que havia imaginado. Ouvindo de Hicks a mesma histria da morte de Ruark, nada 
pde fazer seno aceitar o caixo fechado, com o nome Ruark Beauchamp gravado a ferro quente na tampa. John Craddock o ajudou a colocar o caixo num carro puxado 
a cavalos, e Pitney jornadeou para um pequeno e deserto estbulo, nos arredores de Londres. Ali, defendendo as portas atrs dele, comeou a trabalhar. Arrastou um 
caixo mais pesado e mais ornamentado at o carro, colocando:o perto do que viera da priso.
    Era muito mais tarde quando Pitney bateu com um formo, unindo as roscas dos parafusos para que a tampa do caixo enfeitado no se soltasse sem grande esforo. 
Seu contedo estava bem protegido contra olhares intrometidos.  medida que Pitney trabalhava, estranho sorriso lhe aflorava ao rosto, indo e vindo como o vo fugaz 
de uma mariposa ao redor de uma vela.
    Pitney levou o caixo para um cemitrio escondido, anexo a uma igreja, colocou-o ao lado de uma cova aberta e combinou com o vigrio o enterro para o dia seguinte. 
Em seguida, apressou-se a levar a notcia  sua dona.
    Ralston estava no prdio e Shanna parecia impaciente. Pitney sentiu-se pouco  vontade, sem saber como dar a notcia a ela sem que Ralston ouvisse. Finalmente, 
Pitney gaguejou:
    - Seu marido - torceu o chapu nas mos quando Shanna o olhou firme e arquejante. - Seu marido, o Sr. Beauchamp...
    O cenho de Ralston ergueu-se, interessado.
    - Terminou tudo, e o vigrio marcou o enterro para as duas da tarde amanh.
    O que comeou como um suspiro de alvio, acabou em soluos lacrimosos, quando Shanna ocultou o rosto e saiu correndo. Subiu a escada, correu para o quarto e 
fechou a porta com estrpito, afastando o mundo e deixando-se ficar debruada no portal. Uma dor lnguida lhe perturbava o peito, e quando Shanna olhou para a cama, 
quase desejou que tivesse sido diferente. Agora seu papel de viva era verdadeiro. Triste, contemplou-se no espelho alto, esperando sentir-se triunfante, mas isto 
no aconteceu.
    O Marguerite, como a margarida que lhe dava o nome, era pequeno, e despretensiosamente construdo. Tinha sido feito em Boston, e possua um brigue de dois mastros; 
era mais comprido e estreito do que a embarcao inglesa com que partilhava a rampa de embarque. A carga que o sobrecarregava
    estava presa em todos os locais possveis. O peso da carga baixava o casco na gua de tal forma que o convs principal mal ficava acima da superfcie de paraleleppedos 
do cais. O Comandante, Jean Duprey, era um francs baixo e atarracado, cujo temperamento fazia com que de uma hora para outra seu cenho franzido se transformasse 
num rosto sorridente e estimado pela tripulao. H seis anos trabalhava para Trahern, e seu nico fraco era no poder ver mulher. Conhecia todas as tbuas do barco, 
e todos os espaos estavam lotados de carga. O Marguerite era pequeno, mas sua aparncia era nova e limpa, o que traduzia o cuidado que lhe dispensavam, e sua lona, 
apesar de emendada, era firme.
    Era o fim da temporada comercial nos climas nrdicos. As mercadorias para Los Camellos deixadas no armazm de Trahern deviam ser divididas entre o Marguerite 
e um navio muito maior, o Hampstead, que partiria em dezembro. Miscelneas que compreendiam cordame, piche e alcatro foram levados para a embarcao pequena, junto 
com outros artigos de uso dirio. De interesse especial eram quatro longos e esguios barris cuidadosamente encaixotados e tratados com muito respeito pelos marinheiros. 
O Comandante Duprey fez questo de que ficassem bem guardados no poro principal. Trahern havia encomendado canhes a um armeiro alemo, e dizia-se que eles eram 
capazes de atirar o dobro da distncia dos outros canhes at ento construdos. O proprietrio ficaria possesso se algo de mal lhes acontecesse.
    O Sol descorado estava mais baixo, e o dia esfriou, trazendo vapores das guas do Tamisa. Aceleraram-se os preparativos finais para a partida do dia seguinte, 
pois logo os vapores cinzentos se aglomerariam e formariam perigosa neblina que poria fim ao trabalho. Os bas de Shanna foram alados a bordo; os maiores foram 
para o poro e os menores, contendo o necessrio para a travessia, colocados em seu camarote, recentemente deixado vago pelo primeiro oficial e pelo imediato. As 
acomodaes eram modestas e mal davam espao para que Shanna e Hergus se movimentassem pelo aposento ao mesmo tempo. Sendo as nicas mulheres a bordo, elas compartilhariam 
o minsculo camarote. Resistente tranca de ferro fora colocada do lado de dentro da porta por Pitney, o que limitava a possibilidade de visitantes indesejveis. 
Quaisquer idias que os homens pudessem alimentar em relao s duas mulheres foram rapidamente eliminadas, pois o criado pendurou sua rede no convs, perto da rampa 
de passagem que levava ao camarote das duas. Embora Pitney no estivesse  vista naquele instante, Shanna e Hergus no tinham dvida de que sua segurana na embarcao 
estava garantida, no fosse por saberem que o prprio Trahern tomaria srias providncias contra quem lhe ofendesse a filha ou a criada, como tambm pela certeza 
de que a vingana de Pitney seria muito mais rpida.
    A neblina diminuiu grande parte das atividades de bordo, e aumentou a sensao de impacincia. Ao lado de Hergus, perto do parapeito, Shanna sentiu a disposio 
do comandante e da prpria tripulao, mas a atribuiu  sua prpria ansiedade por ir embora de Londres. Comparecer ao enterro
    de Ruark fora tarefa altamente desagradvel. Difcil explicar a Ralston por que a famlia Beauchamp no foi, e finalmente ela afirmou que exigira uma cerimnia 
discreta e, devido ao fato de ela s ficar mais alguns dias na Inglaterra, os Beauchamps haviam concordado com sua vontade e lhe concederam o privilgio de estar 
sozinha com o marido pela ltima vez.
    Esperavam agora por Ralston e os escravos que ele havia ido buscar. Era hbito antigo do agente de Orlan Trahern esse de percorrer estalagens e becos at o ltimo 
momento,  procura dos que aceitassem a servido, em troca de uma oportunidade de se livrar da sordidez da priso de Londres. Nesses tempos de relativa paz, havia 
muita gente  disposio, embora poucos de algum valor. No passado, alguns haviam sido comprados da priso por no haverem pago suas dvidas, mas os bons trabalhadores 
eram os que procuravam melhorar. Eram estes que Trahern apreciava, e vrias vezes havia manifestado sua objeo a que um homem fosse feito cativo contra sua vontade 
e ordenara rispidamente a Ralston para que isso no fosse feito. Entretanto, havia novas plantaes de cana a serem colhidas; e a urgncia por novos trabalhadores 
era grande.
    Toda a carga j estava a bordo, as escotilhas fechadas e protegidas para a partida do dia seguinte.  proporo que a espessa nvoa percorria o convs, o suave 
ranger da embarcao e o rudo do barco batendo n'gua eram o nico toque com a realidade. Lampies nas docas eram plidas ilhas na escurido reinante. As luzes 
penduradas na proa do barco brilhavam como estrelas. Em algum lugar, em meio  neblina, o riso de um homem se misturou a agudo risinho feminino, e ambos pareceram 
fantasmagricos e estranhos em meio  quietude. Porm, quando os sons dos risos desapareceram, o silncio voltou novamente, como algo tangvel.
    Tremendo com o arrepio que lhe penetrava no vestido de l, Shanna se aninhou no manto de veludo verde, tirou um cacho de cabelo do pescoo e o enfiou no lao 
harmonioso  sua nuca, antes de levantar o capuz para proteger a cabea da umidade.
    Ouviu-se barulho de rodas nos paraleleppedos do cais, e Shanna debruou-se na amurada do navio quando um carro saiu da nvoa cada vez mais densa e parou perto 
da embarcao. O landau de Ralston vinha logo atrs, mas os dois veculos eram apenas escuras sombras em meio  nvoa. Shanna precisou esforar-se para reconhecer 
o vulto magro e ossudo do representante de seu pai que no momento instrua os cativos a saltar. O rudo de correntes avivou a percepo de Shanna e ela respirou 
fundo ao compreender que os homens estavam atados uns aos outros por ps e mos. Isto lhes dificultava o andar, pois o comprimento das correntes no bastava para 
permitir que um homem descesse sozinho. Ouviram-se tombos e tropees enquanto eles entraram em fila. Ser acicatados pelos vrios guardas no melhorou a situao, 
nem mesmo os pesados palavres que aplicavam  vontade, esquentando muito os ouvidos de Shanna.
    - Por que acorrent-los? - Perguntou Shanna a Hergus, que se inclinou na amurada para olhar.
    - No sei, madame.
    - Bem, veremos se ele tem boa razo para isso.
    Irritada, Shanna desceu a rampa e caminhou com largas passadas at Ralston. Crescia-lhe a vontade de desabafar a raiva ao ver a forma escura do homem na nvoa.
    - Sr. Ralston! - Sua voz estava cheia de ira.
    O empregado girou rpido o corpo e, ao ver Shanna se aproximar, correu para det-la.
    - Madame - disse. - No se aproxime. Estes no so os costumeiros.
    - O que significa isto? - perguntou Shanna indignada, e s diminuiu o ritmo quando ele ficou  sua frente. - Pouqussima coisa pode justificar tratar homens 
de bem como porcos, Sr. Ralston. Tire-lhes as correntes!
    - No posso, madame.
    - No pode! - repetiu Shanna, incrdula. Atirou os braos para cima, sob o manto que a envolvia. - Esquece seu lugar, Sr. Ralston. Como ousa dizer-me no!
    - Madame! - implorou ele. - Estes homens...
    - No aborrea meus ouvidos com desculpas - retrucou a moa agilmente. - Se esses homens vo ser teis a meu pai, no podem ser espancados, machucados, nem dilacerados 
com correntes. A viagem em si j ser dura para eles.
    O homem magro suplicou e argumentou ao mesmo tempo:
    - Madame, no posso solt-los aqui no cais. Paguei bom dinheiro de seu pai por eles, e a maioria fugiria, se tivesse oportunidade. Pelo menos deixe que eu...
    - Sr. Ralston - o tom de Shanna foi firme, mas calmo. - J mandei solt-los. Agora!
    - Mas, Madame Beauchamp!
    De sbito, um dos cativos parou, e os outros cambalearam por cima dele, quando suas cadeias lhes bateram nos tornozelos. Um grito alto foi emitido por um guarda, 
que correu para ele.
    - Ande logo, seu maldito mendigo! V andando. Pensa que a gente est passeando em Covent Garden?
    Ergueu o cacete para bater no homem preso, mas nisto percebeu o olhar de Shanna. Irritada, ela deu um giro no corpo e baixou o capuz at os ombros: o preso recuou, 
cobrindo a cabea com os braos e parecendo mais temeroso dela do que do porrete do guarda.
    - O senhor est maltratando a propriedade de meu pai! - gritou Shanna, irada com a audcia do guarda. Deu um passo  frente como se para agir em relao ao guarda 
hesitante, mas seu brao foi seguro pela mo de Ralston.
    ", Madame, no confie nesses homens. - Estava sinceramente preocupado, pois sabia o tipo de castigo que receberia se a filha de Trahern se ferisse. - Eles esto 
desesperados e poderiam...
    Espumando de raiva, Shanna encarou lentamente o empregado. Quando mandou que ele tirasse a mo dela, seu tom foi glido. Num gesto impotente, o homem fez um 
sinal afirmativo com a cabea e obedeceu:
    - Madame Beauchamp, seu pai me encarregou de sua segurana...
    - Meu pai ordenaria sua sada de Los Camellos, se soubesse como o senhor trata esses homens - retrucou Shanna. - No me tente informar isso a ele, Sr. Ralston.
    Os msculos no queixo estreito dele se retesaram:
    - Desde que se casou, madame ficou mais geniosa.
    - Tem razo - assegurou, veementemente, Shanna. - E tome cuidado para que meu gnio no o prejudique.
    - Surpreende-me, madame, constatar que a senhora est sempre de birra comigo. Cumpro as ordens de seu pai.
    Ela zombou, custica:
    - E bem demais.
    - Ento, madame, o que h de errado nisso? - Seus olhos de falco a olhavam firmes.
    - O errado  o que o senhor faz para cumprir as ordens de meu pai - retrucou ela, imediatamente. - Se o senhor tivesse algum grau de decncia...
    O cenho moreno de Ralston se ergueu e ele disse:
    - Como seu finado marido, madame?
    O primeiro instinto de Shanna foi esbofetear-lhe o rosto zombeteiro. dio quase incontrolvel por esse homem a invadiu, e simples palavras no poderiam expressar 
o que ela sentia. Com o queixo firme, ela olhou raivosamente para o guarda cuja pose era agora menos ameaadora, pois os braos pendiam dos quadris. O prisioneiro 
estava quase encoberto, pois se havia refugiado no meio dos companheiros, para no ser maltratado.
    Um grito vindo do navio ecoou na nvoa e fez com que Shanna prestasse ateno ao Comandante Duprey, que saltou da rampa e apressou-se a vir ao encontro deles.
    - Mon Dieu! O que  isto? - perguntou.
    Viu os prisioneiros observando tudo calados e rapidamente analisou a situao.
    - Vocs a! - Quase danou ao agitar os braos para os guardas. - Levem esses homens para bordo, e para a parte de baixo do navio. O Imediato mostra a vocs.
    O rosto vermelho do Comandante Duprey abriu-se em largo sorriso quando ele viu Shanna. Tirou espalhafatosamente o chapu de trs bicos e fez uma reverncia at 
a cintura.
    - Madame Beauchamp, a senhora no devia estar aqui no cais - censurou, ternamente. - E certamente nunca to perto desses bandidos.
    Shanna timidamente lhe implorou, com palavras e o olhar:
    - Comandante Duprey, no posso tolerar correntes, e quero que esses homens sejam tratados mais dignamente. - Demorou-se um instante
    em seu apelo at que o ltimo cativo subiu ao barco e continuou: - Eles agora esto no seu navio, Capito. Imploro-lhe que mande retirar as correntes e os trate 
bem.
    - Madame! - O bigode fino e negro se inclinou para baixo quando ele deu um risinho, e os olhos negros lampejaram calidamente. - No posso recusar. Vou tomar 
providncias imediatas.
    - Senhor! - O grito agudo de Ralston o deteve. - Previno-lhe de que eles esto sob minhas ordens e sou o responsvel...
    O Comandante Duprey levantou a mo para interromp-lo ao contemplar novamente os olhos azuis esverdeados to suaves e suplicantes:
    - Madame Beauchamp tem razo! - disse ele, galantemente. - Nenhum homem deve ficar preso por correntes. Com o sal do mar, elas apodrecem na pele e levam semanas 
para curar.
    O francs pegou impulsivamente a pequena mo de Shanna e a beijou, ardente:
    - Estou s suas ordens, madame - murmurou, e saiu apressado.
    Ralston resmungou seu desprezo mas compreendeu haver perdido. Girando nos calcanhares, afastou-se.
    Satisfeita com sua vitria, Shanna o observou ir-se: os encantadores lbios se abriram num sorriso de prazer. Ao perceber estar sozinha no cais, levantou as 
saias e apressou-se a voltar ao navio. Passos vigorosos a seguiram e, ao parar, corao acelerado, viu que Pitney estava s suas costas. Afinal de contas, no havia 
motivo de medo, mas foi o sorriso divertido do homem ao olhar para Ralston que ela estranhou.
    Bem antes do alvorecer Shanna foi acordada pelas vozes dos homens, vindas do convs principal. Ainda sonolenta, levantou a cabea do travesseiro mas no conseguiu 
ver nenhuma luz da manh atravs das pequenas e pesadas janelas do camarote. Ouviram-se mais gritos e ela percebeu que a embarcao estava sendo impelida para o 
Tamisa. Com pequeno balouar, o navio estava livre e se firmou quando as velas foram abertas para pegar a brisa da manh. O suave movimento do barco fez com que 
logo Shanna voltasse a dormir.
    Na primeira noite da travessia, Madame Beauchamp foi formalmente convidada a partilhar da mesa do comandante, com vrios de seus oficiais e Ralston. Durante 
as semanas seguintes isso se tornou rotina e, na maioria das vezes, o ponto alto do dia. Quebrava a monotonia da viagem sempre que o grupo se reunia para dividir 
o repasto noturno e um ou dois copos de vinho do amplo e excelente estoque, e conversar animadamente. O cozinheiro francs tinha grande talento e as refeies eram 
servidas formal e agradavelmente por um camareiro jovem, vestido imaculadamente de branco. Devido a seu relacionamento de anos com o comandante e seus oficiais, 
Shanna desfrutava dessa hora e exibia seu esprito e encanto como recompensa pela cavalheiresca ateno que lhe dedicavam. Ralston, porm, participava desses acontecimentos 
com relutncia. Ele no era obrigado a comparecer,
    mas suas nicas outras opes eram jantar com a tripulao ou sozinho no convs. Amargo, resmungava contra o requinte da refeio e tinha a ousadia de comentar, 
aps terem sido servidos sete pratos maravilhosos e quando todos estavam desfrutando a sobremesa de frutas cristalizadas e amndoas aucaradas, que preferia um bom 
ensopado de rim gals. Sua observao era recebida com olhares apticos de seus companheiros.
    Era a noite do terceiro domingo no mar, aps lindo dia de sol. A embarcao ia harmoniosa; brisa firme lhe enchia as velas, Shanna sentia-se bem ao dirigir-se 
ao camarote do comandante para o habitual jantar. A pequena embarcao a aproximava cada vez mais de casa, ela saboreava a expectativa da chegada. O Sol desapareceu 
mas foi substitudo por luminosa Lua nova, porque dezembro estava correndo. O ar noturno era tpido, pois estavam perto dos climas meridionais.
    De algum lugar sob o convs ouvia-se bonita voz de bartono. A melodia acompanhava a marcha cadenciada do Marguerite  medida que a embarcao singrava as milhas. 
A brisa teria, em outras circunstncias, levado as palavras, espalhando-as no mar, mas os acordes enganavam o vento e chegavam at Shanna, no convs. Sonhadoramente, 
ela contemplou o cu estrelado ao ouvir a msica e quase pde imaginar o amor de seu corao, sem rosto e sem nome, chamando-a sobre as guas. Estranha caracterstica 
na voz que cantava a cativou com sua magia, e ela ficou hipnotizada ao ouvir as palavras:
    Querida, onde ests? Querida, onde ests? Pra onde foste? Triste estou sem ti.
    Quando estou sozinho, caro corao, Esteja negra a noite ou bravo o mar, A luz do amor guia meus passos E eu chego at onde ests.
    Clidos braos imaginrios a envolveram e ela fechou os olhos, esttica. Rouco sussurro lhe veio  mente: "Ceda, ceda!", e seus sentidos experimentaram embriagante 
tontura. A viso se agitou e aumentou e se transformou em penetrantes olhos ambarinos e num sorriso debochado num rosto bonito: "Maldita seja, sua cadelinha traidora!"
    A iluso se desvaneceu, e os olhos de Shanna se abriram. Com uma imprecao entre dentes, girou o corpo e pisou na rampa que levava ao camarote do comandante. 
 sua batida brusca na porta, esta se abriu rapidamente e o homem moreno inclinou-se em vistoso cumprimento:
    - Ah! Madame Beauchamp! Palavras no podem expressar sua radiante beleza! - exclamou o Capito Duprey. - Sou seu humilde criado, madame, agora e sempre. Entre, 
entre.
    Forando-se a sorrir, Shanna entrou. Parou, surpresa, ao ver que estavam s os dois no camarote, a no ser pelo jovem camareiro que esperava pacientemente para 
servi-los.
    - Ningum mais veio hoje? - perguntou ela, decepcionada.
    Os olhos de Jean Duprey brilharam calorosos quando ele cofiou o bigode escuro:
    - Meus oficiais tm deveres a cumprir em outros lugares, Madame Beauchamp.
    - E o Sr. Ralston? - perguntou Shanna, erguendo uma sobrancelha irritadamente, perguntando-se o que o comandante o teria mandado fazer.
    - Bem. ele. - Jean Duprey deu um risinho e encolheu os ombros. - Ele descobriu que a tripulao estava comendo feijo com carne seca e convenceu o cozinheiro 
a mandar um prato para ele. De modo que, madame... - Pareceu tropear no nome dela e tentou pegar-lhe a mo. - Posso cham-la por seu primeiro nome, Shanna?
    Com um sorriso forado, Shanna afastou-se. Tinha curiosidade em saber o que a Sra. Duprey achava da inclinao amorosa do marido e de seu gosto pelas mulheres. 
Inclinada a deixar a disciplina severa  porta daquela mulher, e no fazer uma cena embaraosa, Shanna foi tolerante com o homem e disse com tranqila graa
    - Comandante Duprey, conheci meu marido por muito pouco tempo e ele me foi tirado h menos de um ms. -me muito doloroso que me chamem pelo primeiro nome. Por 
favor, perdoe-me. Vim aqui buscar a companhia de muitas pessoas e assim aplacar minha mgoa. Imploro-lhe que respeite meu luto. Ele tinha uma personalidade alegre, 
e o senhor despertou lembranas de gratos momentos que partilhamos, embora tenham sido breves. Peo-lhe que me perdoe por esta noite, senhor, mas devo procurar solido 
em outro local.
    Jean fez meno de segui-la, mas Shanna levantou a mo branca e pequena para impedi-lo.
    - No, Comandante. H uma ocasio em que se precisa ficar s. - Sua voz oscilou tristemente, embora o aroma no aposento lhe recordasse que estava com fome. - 
H uma coisa...
    O Comandante Duprey fez um sinal com a cabea, ansioso para agrad-la.
    - O senhor poderia mandar um prato com meu jantar para meu camarote mais tarde? Tenho certeza de que ento j poderei suportar a viso de comida. - Fez rpida 
reverncia e, quando se aprumou, os cantos de sua boca sorriram maliciosamente. - D lembranas minhas  sua mulher, quando chegarmos a Los Camellos, Capito.
    Antes que ele se pudesse recuperar, Shanna saiu apressada, fechando a porta. O som de seus passos rpidos ecoou na rampa de passagem, porm ela s suspirou aliviada 
quando se viu novamente no convs, perto de Pitney. Ele jantava boa poro de carne-seca, feijes e bolachas. Quando a viu, levantou os olhos do prato, analisou-a 
por um instante e depois fez um sinal
    de assentimento com a cabea, dispensando a explicao de ela ter fugido do camarote do comandante. A queda de Jean Duprey pelas mulheres no era segredo para 
os homens em Los Camellos.
    Pensativa, Shanna caminhou vagarosamente pelo convs da embarcao. As nuvens brancas assumiram sombras escuras de beiras prateadas ao passar entre a Lua e o 
mar que corria suave. As brisas leves tocaram Shanna. A noite estava parada, a no ser pelo borbulhar da gua sob o casco e o ranger dos mastros e dos equipamentos. 
O barco parecia tocar uma cano s dele, um ritmado murmrio de sons que combinavam com o suave erguer e tombar do casco no mar.
    Shanna deu um suspiro profundo e se afastou da amurada. Em contraste com seu jbilo anterior sentia-se agora pensativa e solitria, como se a noite houvesse 
perdido o gosto. A voz vinda da parte de baixo da embarcao lhe havia roubado a felicidade: s conseguia pensar como teria sido partilhar um leito nupcial por uma 
noite inteira..
    Era como se uma nuvem encapelada tivesse originado uma mancha verde esmeralda. Morros baixos juntavam-se perto de uma faixa de praia que separava o verde vivo 
da arrebentao que se precipitava sobre a praia deserta, com lnguas de espuma branca. O profundo azul do mar alto cedeu nos lugares rasos perto da ilha e se transformou 
em brilhante verde iridescente que combinava com o tom dos olhos de Shanna.
    O Marguerite chegou por trs de sua prpria nuvem e as velas queimadas de sol reluziram, alvas,  claridade do dia. Uma baforada de fumaa surgiu no cimo do 
morro mais alto de Los Camellos; momentos depois o rudo surdo do canho de sinalizao os alcanou. A embarcao se aproximava de seu objetivo. Compridos braos 
verdejantes podiam ser vistos em redor de espaosa enseada, em cuja parte traseira ficavam os prdios caiados da Vila Georgiana. Um tom mais escuro nas guas marcava 
o canal aberto de aproximao, que ia reto entre os braos e at o porto que servia ao povoado.
    Poucas pessoas na ilha no largaram o que faziam ao ouvir o som do canho, para precipitar-se at o cais para cumprimentar a nova chegada. Haveria bugigangas 
a ser trocadas, favores especiais h muito aguardados e, mais importante do que tudo, as notcias e fofocas mais recentes do mundo em geral. O prprio Orlan Trahern 
continuava mais um comerciante do que um plantador, e somente um acontecimento de monta poderia fazer com que o fazendeiro deixasse de tomar a sua carruagem para 
ir verificar se a sorte o favorecera. Se fosse um navio estranho, haveria o que regatear e pechinchar - o que ele acolheria com satisfao pelo desafio que representava, 
e aceitaria como um jogo.
    Impaciente, Shanna esperou enquanto as velas eram arriadas e o Marguerite bordejava em busca do mais fcil ancoradouro no cais. Vrios outros navios no porto 
eram retirados da doca e ancorados  parte. Durante os meses de inverno os maiores seriam querenados, isto : virados de lado para serem reparados, ao passo que 
os menores" seguiriam rumo s ilhas ao sul e a oeste, mercadejando bens do Continente pela matria-prima das Carabas.
    Foi baixada a prancha de desembarque enquanto os convs eram suspensos e acomodados. O corao de Shanna se elevou quase to alto
    quanto as gaivotas cabriolando l em cima, e avidamente seus olhos vasculhavam a multido embaixo, em busca do rosto familiar do pai.
    Pitney apareceu a seu lado, dois dos menores bas dela embaixo do brao, e seguiu-a quando ela desceu. Quando Shanna alcanou a prancha, o Comandante Duprey 
estava l para oferecer-lhe ajuda, tendo-se certificado antes de que sua mulher no estava na multido. Os escuros olhos dele mendigavam alguma demonstrao de simpatia 
no delicado rosto oval, porm ficou muito desapontado, pois Shanna mal o notou, na pressa em ver-se fora do navio. Como se ele fosse um mero criado para tarefas 
menores, confiou-lhe a sombrinha de babados e relanceou os olhos, ansiosa. Para alm da multido, a caleche aberta de Trahern permanecia vazia. Ento a multido 
se afastou quando o fazendeiro se adiantou, quase a correr, para ir ao encontro da filha. Amplo sorriso lhe abriu os lbios quando a viu, mas rapidamente refreou 
aquela mostra de prazer.
    Orlan Trahern era um pouco mais baixo do que os homens em torno dele, porm seus ombros eram largos e o corpo quadrado. Movia-se em largas passadas, carregando 
seu peso com facilidade, pois, embora fosse amplo de circunferncia, havia nele uma grande fora. Shanna o vira vencer Pitney numa luta de brao por um caneco de 
cerveja. Esticado para rir, toda a sua estrutura tremia, embora a jovialidade, em si mesma, estivesse ausente. Com um grito alegre, Shanna voou para o pai e atirou 
os braos em seu pescoo. Por um breve momento os braos de Trahern envolveram-lhe a cintura esbelta, depois empurrou-a gentilmente para olh-la de alto a baixo 
num exame atento. Com um riso claro, Shanna ergueu um pouco a saia ampla, abriu-a em leque diante dele ao mesmo tempo fazendo uma cortesia; depois encarou-o:
    - s suas ordens, cavalheiro!
    - Ai, filha! - Ele franziu os lbios e a contemplou como se a visse de outra maneira: - Parece que voc se ultrapassou e est ainda mais bonita do que no ano 
passado...
    Virou-se a meio, pondo na cabea o largo chapu exagerado, enquanto fixava os olhos no Comandante Duprey:
    - E, como sempre, voc tem homens rastejando atrs de voc em busca de seus favores...
    Jean Duprey mudou de mos a sombrinha como se quisesse achar um lugar onde atir-la, mas afinal devolveu-a a Shanna. Desculpando-se, retirou-se ante a atitude 
divertida do cavalheiro Trahern.
    - Tornou-se mais tolerante com a misria, menina? Nunca adivinharia que seria capaz de viajar num barco to humilde.  mais seu hbito curtir os luxos da vida...
    - Ora, Papai. - Shanna sorriu. - Seja bonzinho! Eu estava ansiosa para chegar a casa. Pode negar que est feliz em ver-me?
    Orlan Trahern pigarreou e espiou Pitney, que parecia ter dificuldade em manter-se srio. O fazendeiro estendeu a mo para o homem quando os bas foram depositados 
no cho:
    - Oh! Voc est bem! Nada pior do que o desgaste de acompanhar uma moa assim durante um ano. Muitas vezes duvidei do meu bom senso por mandar s o Ralston para 
tomar conta de vocs dois, mas esto aqui a salvo, e suponho que nada de desastroso aconteceu.
    Nervosamente, Shanna abriu a sombrinha e, girando-a acima da cabea, deu ao pai um brilhante sorriso.
    - Vamos, filha. Est chegando o meio-dia e bem podemos fazer um pequeno lanche enquanto me d as novidades. - Orlan deu palmadinhas nas costas de Pitney: - Aposto 
que est doido por ver-se em casa. Refresque sua cerveja e estarei l mais tarde para venc-lo num jogo de xadrez..
    O fazendeiro guiou a filha para diante sem ostentao, embora o povo os rodeasse para cumprimentar Shanna e estender as mos em sinal de boas-vindas. Logo que 
a viram, todos haviam comentado, e agora at mesmo marinheiros extraviados juntaram-se  multido. Shanna ria de alegria enquanto velhos e queridos amigos surgiam. 
As mulheres de vila se acotovelaram apenas para olhar o vestido e o penteado da recm-chegada, neles reconhecendo a ltima moda, enquanto crianas brigavam para 
tocar-lhe a bainha da saia. Havia tambm homens, mas os que no conheciam a filha de Trahern mantinham-se a distncia, contemplando atnitos sua lendria beleza. 
Foram breves momentos, mas cheios de animao e da renovao de pessoas estimadas.
    Ajudada pelo pai, Shanna finalmente subiu na carruagem, e o veculo afastou-se rapidamente do cais. Shanna inclinou-se para trs, para observar as casas e as 
rvores familiares que passavam. Intimamente preparou-se para o que sabia estava a caminho. Achavam-se longe do povoado na estrada que levava ao solar, quando Trahern, 
sem olh-la, tocou no assunto. Sua voz estava to abrupta, que ela se sobressaltou:
    - Voc j cansou de bater perna por a, filha, e j escolheu marido? Sua mo morena estava apoiada no joelho robusto, e foi l que Shanna ps a prpria mo, 
de forma a que a aliana de ouro ficasse visvel.
    - Pode chamar-me de Madame Beauchamp, Pai, se no quiser chamar-me pelo meu primeiro nome. - Suas plpebras tremeram para baixo e ela se arriscou a olh-lo pelos 
cantos dos olhos. - Porm, infelizmente - disse ela, triste - h uma coisa terrvel que devo contar-lhe.
    Shanna sentiu-se estranha ao contar o caso, pois os olhos dele, do mesmo tom que os dela, viraram-se em muda interrogao para ela. Sem conseguir enfrent-los, 
ela desviou o rosto. Lgrimas surgiram, embora em parte devido  vergonha por sua farsa.
    - Conheci um homem muito bonito e galante e... nos casamos. - Engoliu em seco  medida que a mentira lhe amargava mais na lngua. - Aps rpida noite de felicidade 
- perdeu-se em desgosto por um instante, mas se forou a continuar - ele saltou da carruagem e torceu o p numa pedra. Antes que os cirurgies pudessem fazer alguma 
coisa, ele morreu.
    Orlan Trahern bateu com o basto no cho da carruagem e soltou uma imprecao.
    - Ah, Papai! - soluou Shanna, lacrimosa. - Custei tanto a casar e logo fiquei viva!
    Resfolegando, Trahern lhe deu as costas e continuou silenciosamente contemplando o panorama a distncia, envolto em pensamentos. A estrada j muito percorrida 
foi subitamente intercalada por densos arvoredos e novamente a carruagem saiu  luz do Sol. A filha parou de chorar e, quase tranqila, apenas de vez em quando fungava. 
Assim foi at chegarem  branca manso. Cores vibrantes inundavam o gramado: eram flamboyants plenos de brotos escarlates ainda fechados; cachos de brincos-de-princesa 
suavizavam o ar com seu agradvel aroma. O gramado bem aparado estendia-se at onde a vista se perdia, interrompido, a intervalos regulares, pelos grandes troncos 
de enormes rvores cujas densas folhagens lhe cobriam os topos. Raros raios de Sol atravessavam as copas, mostrando os amplos prticos que se estendiam interminavelmente 
pela frente e pelos lados da manso. Arcos fechados de tijolos caiados sombreavam a varanda suspensa que confinava a casa no andar principal, enquanto no segundo 
andar colunas de madeira decorada viam-se na comprida varanda em que havia divises de trelia que conferiam privacidade aos quartos separados. A manso era coberta 
por elevado telhado, enfeitado por janelas de guas-furtadas. Portas envidraadas forneciam fcil acesso s varandas atravs da maioria dos quartos do casaro, e 
as pequenas e quadradas vidraas de cristal dentro das portas brilhavam  luz pintalgada, o que demonstrava o cuidado e a ateno da criadagem.
    Trahern continuou sentado em silncio quando a carruagem parou. Shanna o olhou meio temerosa, sem querer interromper-lhe os pensamentos. Saltou sozinha do veculo 
e subiu os largos degraus at a varanda, parando, indecisa, para olhar para trs. Seu pai continuava sentado imvel, mas virou a cabea e a olhou firme. O cenho 
estava todo enrugado, refletindo o que ele devia estar pensando. Levantou-se com esforo, saltou da carruagem e lentamente subiu a escada, como se a bengala o estivesse 
levando pela mo. Shanna foi at a porta da frente e a abriu, para esperar por ele. A vrios passos de distncia ele se deteve e a espreitou de novo. Sua expresso 
de surpresa foi vagarosamente substituda pela de raiva. De sbito, ele ergueu o basto bem acima da cabea e o atirou na varanda:
    - Maldio, menina!
    Fechou a porta com estrondo; a mo de Shanna foi  garganta e ela recuou, olhos arregalados de medo.
    - Voc pouco se importa com seus homens! - rosnou ele. - Eu queria pelo menos ter visto o rapaz! - Em tom ligeiramente mais baixo, indagou: - Voc no podia 
t-lo mantido vivo at engravidar?
    Com certo medo do pai, Shanna respondeu baixinho:
    - Existe essa possibilidade, Papai. Passamos juntos a noite de npcias. Foi apenas uma semana antes de o navio partir, e no sei... - Corou ligeiramente  mentira, 
pois tinha toda a certeza do mundo de que no carregava nenhuma semente de Ruark no ventre.
    - Ora! - bufou Trahern e passou por ela batendo os ps, deixando a bengala no cho e batendo novamente a porta, atrs de si.
    Debilmente, Shanna pegou a bengala e seguiu o pai para dentro de casa. Parou um instante no vestbulo enquanto todas as recordaes de seus anos na manso a 
invadiram. Quase conseguiu imaginar-se criana de novo, guinchando, excitada, ao descer correndo a escada que parecia curvar-se em si mesma e circundar o enorme 
lustre de cristal suspenso no teto alto. Os radiosos prismas que faziam o vestbulo brilhar com infinitos arcos-ris danantes sempre foram uma fonte de fascnio 
para ela. Lembrava-se bem de suas disparadas no cho de mrmore ao procurar, no meio das samambaias e demais plantas luxuriosamente verdes que cercavam o aposento, 
pelo gatinho que vivia correndo, e que fora presente de Pitney. Recordava-se tambm de quando contemplava, atnita, o retrato de sua me, pendurado perto da porta 
da sala de estar, e de quando dava gritinhos de impacincia infantil sentada na enorme arca esculpida  mo, esperando o pai voltar de suas inspees nos campos.
    Agora, como mulher, Shanna viu a madeira descorada do balastre e os painis esculpidos das portas envidraadas que levavam aos demais cmodos: eles brilhavam, 
com seus detalhes dourados. A e em toda a casa abundavam mveis estilo regncia francesa. Ricos tapetes Aubusson e da Prsia, laca, jade e marfim do Oriente, mrmore 
da Itlia e outras peas que valiam fortunas do mundo inteiro embelezavam e davam um toque de bom gosto s peas da manso.
    Compridos corredores sobressaam em direes opostas ao vestbulo, levando s alas laterais.  esquerda, ficavam os espaosos aposentos do pai, que incluam 
a biblioteca e o escritrio onde ele trabalhava, seu quarto de dormir e um cmodo onde se banhava e vestia, com a ajuda de um criado.
    Os aposentos de Shanna ficavam no segundo andar,  direita da escada, afastados dos do pai. Antes de chegar ao quarto de dormir, era preciso passar pela sala 
de visitas da moa, onde paredes de suave tecido creme complementavam os sutis tons castanhos, lils e turquesa das poltronas e do sof. Luxuosa tapearia Aubusson 
combinava todas as cores em rebuscado desenho. Fina seda lils cobria as paredes. No cho, um tapete marrom e lils. Da grande cama de dossel, via-se um baldaquim 
de seda rosa plido. Havia tambm uma chaise castanho claro.
    As recordaes se dissiparam quando seu pai olhou-a raivosamente por cima do ombro. Resmungando, ele se virou e berrou para cima das escadas, fazendo o lustre 
de cristal estremecer:
    - Berta!
    A resposta foi imediata:
    - J vou!
    Os tamancos da governanta tamborilaram na escada circular, traindo sua pressa. Ela apareceu, arfante e rubra. A holandesa era pouco mais alta do que o ombro 
de Shanna, e era rechonchuda; sua pele era clara. Sempre
    andava depressa, e o espanador estava sempre enfiado no bolso do comprido avental. Principalmente graas a seus esforos e  sua superviso dos criados  que 
a manso era mantida imaculadamente limpa.
    Berta parou a certa distncia de Shanna e a ficou olhando, atnita. Depois da morte de Georgiana, a governanta havia assumido, com seus modos firmes, e em mais 
de uma ocasio vira sua protegida partir para a Europa, com lgrimas nos olhos. Embora tivesse sido h apenas um ano que a moa viajara, era ainda muito criana, 
mas agora sua aparncia era real, segura de si, aprumada, enfim, uma jovem de estonteante beleza. Por isso, a velha criada no sabia como abord-la. Foi Shanna quem 
resolveu o problema. Abriu os braos e, no minuto seguinte, as duas estavam abraadas, partilhando lgrimas de alegria e beijos, rostos amorosamente juntos. Finalmente, 
Berta recuou e perguntou:
    - Minha pobre criana. Finalmente voc veio para ficar? - Sem esperar resposta, Berta apressou-se a continuar. - Pois , aquele tolo do Trahern mandou embora 
sua prpria filha.  como cortar o nariz da cara. E mandou aquele idiota do Pitney tomar conta de uma moa! Aquele bobalho!
    Trahern censurou-a pelas palavras e rosnou a Milan, para que lhe pegasse rum e angostura, porque estava precisando de um drinque forte. Berta fez uma careta 
para ele, e os olhos azuis arregalados demonstraram alegria quando ela os virou para a moa.
    - Quero olhar para voc. Yah, voc est muito linda! Est mesmo adorvel, querida, e senti muito sua falta.
    - Oh! Berta! - exclamou Shanna, eufrica. - Estou to feliz de estar em casa!
    Jason, o porteiro, voltou dos fundos e, ao ver Shanna, o rosto se iluminou de prazer.
    - Patroinha Shanna! - Correu para a frente e apanhou as mos estendidas da moa. Sua voz bem-educada a surpreendeu como sempre: - Por Deus, menina, sua volta 
nos d muita felicidade. Seu pai estava ansioso por v-la.
    Um alto pigarro evidenciou que Trahern havia ouvido. Shanna deu um risinho alegre. Finalmente estava em casa, e nada lhe podia ofuscar o contentamento.
    No clima agradvel, a necessidade de depsitos no era crtica, e os prdios que se amontoavam na rea do cais eram, na maioria, simples telhados sobre colunas
de madeira. Sob um destes,  sombra fresca que oferecia,  que John Ruark e seus companheiros estavam agachados. Haviam raspado a barba e cortado rente o cabelo.
Depois de haverem sido esfregados com forte sabo de lixvia, foram conduzidos ao castelo de proa e postos debaixo das bombas do barco. Alguns dos homens gritaram
quando o sabo custico encontrou locais em carne viva, mas John Ruark gostou do banho. Havia passado quase um ms no cubculo, com apenas um exerccio
    ocasional no convs, para estender os msculos. As refeies a bordo foram satisfatrias, porm ele comeou a se desesperar de que a nica coisa que havia no
mundo para comer eram carne salgada, feijo e biscoitos, engolidos com gua salobra.
    John Ruark sorriu devagar enquanto pensava e esfregou as mos na nuca, familiarizando-se com o cabelo curto. Estava vestido como os outros, usando cala de brim
e sandlias. As roupas eram todas de um s tamanho, e uniformemente grandes para ele e os oito companheiros. Recebera tambm um chapu de palha de aba larga, uma
camisa branca e pequena sacola de lona. Esta permanecera vazia at que foram levados  loja de Trahern e receberam uma navalha, uma caneca e uma escova, pequeno
canivete com cabo de madeira, mais duas mudas de roupa e vrias toalhas, alm de grande estoque de sabo e uma advertncia para que fosse freqentemente usado.
    Quando a brisa forte se aplacou, o calor ficou intenso sob o amplo teto. Um nico supervisor os observava, e teria sido fcil fugir. John Ruark, porm, ponderou 
que seria pequeno esforo desperdiado na procura ou na perseguio, porque seria apenas questo de tempo antes que algum homem precisasse sair da selva. No havia 
outro lugar para onde correr.
    Seus olhos examinaram o lugar enquanto ele pinicava o joelho livre dos cales de lona. Esperavam pelo Sr. Trahern; haviam sido informados de que ele tinha o 
hbito de vistoriar e falar a todos os novos trabalhadores. Ruark ansiava por conhecer o famoso "Lorde" Trahern e continuava pacientemente agachado junto com os 
outros, mas mantinha-se cuidadosamente no final da fila. Estava vivo e no nico lugar no mundo onde queria estar, isto , o local onde Shanna Trahern se encontrava.
Ou ser que ela se chamaria mais adequadamente de Shanna Beauchamp? Riu sozinho. Ela havia recebido o seu nome enquanto ele, durante o mesmo rumo dos acontecimentos,
o havia perdido: este era mais um assunto a ser resolvido.
    Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada da carruagem aberta que afastara Shanna do cais. O homem alto e magro chamado Ralston foi o primeiro a descer 
e, em seguida, apeando-se com esforo, surgiu o homem que Ruark vira cumprimentando Shanna antes. Sups que fosse o temvel Sr. Trahern.
    Ruark observou o homem se aproximar com interesse. Seus modos eram autoritrios. Era grande e troncudo, e dele emanava uma aura de poder. Em estranho contraste 
com o tecido escuro de l do magro companheiro, estava vestido de bonita malha branca e calava sapatos pretos de couro com fivelas douradas. A cala era de imaculado 
linho branco, resistente mas leve e fresco. O comprido colete era do mesmo tecido e branco como a camisa. No havia nenhuma prega nem babados. Imenso chapu de palha 
de aba larga lhe protegia o rosto; nas mos, ele carregava uma bengala preta j bastante usada, como se fosse um smbolo de sua posio. Os dois homens se dirigiram 
ao abrigo e, aps cumpriment-los, o supervisor mandou que os homens ficassem de p e em fila. O latifundirio
    pegou um pacote com Ralston e desdobrou um papel que havia nele, analisando-o um instante antes de se aproximar do homem no incio da fila.
    - Seu nome? - perguntou, rspido.
    O cativo respondeu num resmungo, e o novo patro fez uma marca de verificao no papel. Em seguida, examinou cuidadosamente sua aquisio. Pegou no brao do 
homem, apalpando-lhe o msculo e lhe inspecionou as mos,  procura de sinais de trabalho.
    - Abra a boca - ordenou Trahern. - Vejamos seus dentes.
    O homem obedeceu e o outro sacudiu a cabea quase com tristeza, fazendo anotaes no seu registro. Indo ao homem seguinte, repetiu o ritual. Depois do terceiro 
examinado, virou-se para Ralston e vociferou:
    - Com os diabos, cara! Gente bem fraquinha voc me trouxe. Foram os melhores que pde encontrar?
    - Lamento, senhor. - Ralston se irritou com a censura do outro. Estes foram os que consegui, atravs de modos cordiais ou de dinheiro. Talvez a escolha seja 
melhor na primavera, se o inverno for rigoroso.
    - Bah! - bufou Trahern. - Realmente, um preo alto dado por homens cumprindo pena por dvidas no pagas.
    As sobrancelhas de Ruark se elevaram ligeiramente ao ouvir a resposta do homem. Com que ento, Trahern no sabia que havia comprado um criminoso que devia ser 
enforcado! Ruark pensou nisto e no efeito que poderia ter sobre ele. Levantou os olhos e viu que o cenho de Ralston estava dirigido diretamente a ele. Ruark deduziu 
que fosse obra do Sr. Ralston, e que, se no quisesse voltar a Londres e ser enforcado, deveria danar conforme a msica.
    Aps minucioso exame do oitavo homem, Trahern foi at Ruark, e ento parou subitamente. Seus olhos se estreitaram ao examinar o ltimo homem do lote que havia 
comprado. Os olhos ambarinos do cativo revelavam mais do que inteligncia mediana, e o sorriso em seus lbios era estranhamente inquietante. Notavelmente diferente 
dos demais, esse sujeito era esbelto e musculoso; tinha ombros largos e braos fortes, costas retas, e pernas aprumadas de um rapaz. No havia gordura em seu corpo 
e o estmago chato e duro no tinha sinal de barriga. Era estranho que um sujeito to valioso fosse encontrado naquele lote.
    Trahern consultou a lista e viu que faltava um nome.
    - Voc deve ser John Ruark - afirmou mais do que perguntou, e ficou surpreso com as palavras que provocou no camarada.
    - Sou, sim senhor. - Ruark assumiu um sotaque para disfarar sua origem. Grande nmero dos insulares no gostava de homens nascidos nas colnias inglesas. - 
E sei ler, escrever e lidar com nmeros.
    Trahern inclinou a cabea para ouvir as palavras.
    - Minhas costas so fortes e tenho bons dentes. - Ruark exibiu a dentadura para mostrar a brancura radiosa. - Sei trabalhar bem, claro que sei comer direito, 
e espero provar que vali tudo o que sua famlia investiu em mim.
    - Minha mulher morreu, s tenho uma filha - murmurou, distrado, Trahern, e silenciosamente se censurou por estar conversando com o homem. - Mas voc  colono 
de Boston ou Nova York, parece-me. Como veio parar aqui?
    Ruark suspirou fundo e passou a mo no queixo:
    - Tive um ligeiro desentendimento com vrios soldados britnicos. O juiz no teve a menor considerao e preferiu acreditar no que eles lhe contaram. - No era 
totalmente falsa essa afirmao. Ele no se conformara em ser grosseiramente arrancado do sono, e havia reagido instintivamente, e mais tarde descobriu haver quebrado 
o queixo do chefe do destacamento policial.
    Trahern fez um sinal lento com a cabea e pareceu aceitar o que o outro lhe contou at dizer:
    - Voc  um homem de certo nvel e acho que h outras coisas nessa sua histria, mas - deu de ombros - isto no vem ao caso. No me importo com o que voc foi, 
s com o que voc .
    O cativo John Ruark analisou calmamente seu patro. Percebeu que teria de agir com prudncia ao lidar com ele, pois era realmente to arguto quanto se dizia. 
Entretanto, a verdade sempre aparecia e, como no conseguiu pensar em nada para dizer que valesse a pena, ficou calado.
    Ao deix-lo, Trahern foi postar-se  frente dos homens, firmou as pernas e apoiou a mo no topo da bengala. Devagar, observou-os e depois disse:
    - Este local  chamado Los Camellos. O nome foi dado por um espanhol, mas o lugar foi passado em escritura para o meu nome. Aqui, sou prefeito, xerife e juiz. 
Vocs esto comigo em razo de dvidas no pagas. Meu contador poder informar-lhes, se assim o quiserem, da progresso de suas dvidas. Sero pagos por domingos 
e feriados, mas se ficarem doentes e tiverem outros problemas, isto ser por sua conta. Seu ordenado ser de seis pennies por dia de trabalho. No dia primeiro do 
ms vocs recebero pelos dias trabalhados, na seguinte proporo: dois pennies para suas necessidades, dois pennies para amortizar sua dvida e os outros dois, 
por sua manuteno. Se trabalharem duro e progredirem, recebero mais e podero ajustar os pagamentos como lhes convier. - Parou e olhou firme para Ruark. Espero 
que alguns de vocs paguem suas dvidas em cinco ou seis anos. Podero ento trabalhar para pagar sua passagem de volta  Inglaterra ou para qualquer lugar aonde 
quiserem ir. Podero tambm, se o quiserem, ficar aqui. Vocs receberam meios para se conservar vestidos e limpos. Cuidem bem de suas roupas, pois todas as peas 
que quiserem alm dessas sero pagas por vocs. S daqui h muito tempo tero dinheiro, e ainda assim ser pouco.
    Trahern se calou, e assim ficou at capturar-lhes total ateno.
    - Aqui existem duas formas de entrar em srias complicaes. A primeira  maltratar ou roubar alguma coisa minha, e a maioria das coisas aqui  minha. A segunda 
 perturbar ou aborrecer algumas das pessoas que vivem aqui. Alguma pergunta?
    Esperou, mas no houve perguntas. O proprietrio relaxou a atitude e ficou mais  vontade.
    - Vocs tero trs dias de servios leves para se recuperar da viagem. Depois disso, esperamos que passem as horas do dia em trabalho produtivo. Comearo a 
trabalhar no dia seguinte ao Natal. Bom-dia a todos.
    Sem dar mais sequer um olhar, subiu na carruagem e deixou Ralston falar com eles. O homem esqueltico foi para a frente do grupo quando o veculo partiu. Deu 
um tapa na mo enluvada com o indefectvel chicote de montaria e comeou a falar:
    - O Sr. Trahern  muito mole com seus escravos. - Seu sorriso de escrnio mal era perceptvel. - Fiquem certos de que eu no os trataria assim, mas preciso dedicar-me 
a minhas outras obrigaes. Ficaro alojados num velho estbulo perto do vilarejo at irem para os campos, e seu trabalho ser leve, no cais ou na plantao. Este 
homem - apontou para o homem que os estava vigiando - ser seu capataz. Informar a mim ou a Trahern. At vocs serem julgados dignos de confiana, devem permanecer 
junto do estbulo, quando no estiverem trabalhando. Se ainda no notaram - apontou o chicote para as montanhas e para a praia - por aqui no h lugar onde se esconderem, 
pelo menos no por muito tempo. - Pareceu ento quase lamentar o que ia dizer: - Vocs tero tempo para descansar e recebero alimentos caros. - Em seguida, ficou 
animado: - Mas devero pagar por sua manuteno. - Bruscamente, fez um gesto para o guarda e ordenou: - Leve-os, menos aquele.
    Apontou para Ruark e, quando os outros saram, aproximou-se e disse baixinho:
    - Voc parece ter alguma dvida quanto  sua posio aqui. Ralston esperou, mas Ruark devolveu-lhe o olhar firme sem nada dizer, e os lbios do empregado se 
curvaram com desprezo:
    - A no ser que queira voltar  Inglaterra e ser enforcado, previno-o a manter a boca fechada.
    Os olhos de Ruark no vacilaram, nem ele fez qualquer comentrio. O homem lhe fizera grande favor, embora no se desse conta disso em toda a sua extenso.
    - Rena-se aos outros. Ralston fez um sinal com a cabea para a fila de homens que ia longe, e Ruark obedeceu-lhe rapidamente, para no lhe dar motivo de raiva.
    Os barcos de Trahern percorriam as guas do Sul, afastando-se do Atlntico Norte, onde grandes temporais estrondeavam e icebergs tornavam as viagens perigosas. 
Levavam s ilhas ricas quinquilharias, sedas primorosas e outros produtos do Continente e da Inglaterra, e traziam de volta as matrias-primas que seriam enviadas 
de volta ao Norte, no vero. Novos campos eram abertos nas encostas meridionais da ilha, e a madeira obtida desta forma era atirada dos penhascos e caa no mar, 
sendo ento coletada por pequenos barcos e levada para os portos maiores, onde seria serrada em
    troncos. Grupos de homens iam de campo em campo, segundo a necessidade do trabalho. Normalmente, seus primeiros deveres eram reformar ou construir alojamentos 
para os capatazes e para si mesmos. A norma era fazer simples cabanas de sap com meias paredes, resistentes o suficiente para prover abrigo das chuvas e do Sol 
constante.
    John Ruark foi logo trabalhar para um capataz. Trabalhou bem e fez vrias sugestes valiosas de melhoria. Foi sob sua direo que um riacho foi desviado para 
um canalete, e os enormes troncos deixaram de ser penosamente arrastados at a beira dos penhascos, percorrendo, ao invs disso, sem auxlio um caminho rpido at 
o mar, o que economizou servio de jumentos e homens. O capataz apreciava muito aquele rapaz inteligente, pois homens capazes eram raros e at mesmo os jumentos 
se cansavam rapidamente sob o calor escaldante. O feitor citou o nome do prisioneiro em seu relatrio a Trahern.
    John Ruark foi transferido para outra turma empenhada em colher cana do inverno antes que chegassem os meses secos. L, ele lhes mostrou como queimar os campos 
de forma a reduzir a planta a uma haste carbonizada, ainda cheia de caldo, e simultaneamente eliminar aranhas venenosas e insetos que diminuiriam ainda mais o nmero 
de cativos. Alterou o pequeno engenho de moer cana de forma tal que um jumento pudesse virar a roda em vez da meia dzia de homens habitualmente usados na operao. 
Mais uma vez o nome de Ruark apareceu nos relatrios.
    No demorou para que sua habilidade de engenharia ficasse conhecida na ilha, e os capatazes o estivessem sempre transferindo para que pudesse resolver-lhes os 
problemas. s vezes, a tarefa era fcil, s vezes difcil, e como a idia de queimar os campos ainda encontrava muita relutncia, ele teve de prov-la. Ainda assim, 
progrediu. Seu soldo foi dobrado, depois triplicado. Suas posses foram acrescidas de um jumento que lhe foi cedido por um comerciante do povoado para executar servios 
nas horas vagas.
    Alm de todos os seus outros talentos, ele tinha especial inclinao por cavalos; o fogoso garanho tila lhe foi trazido coxo, sofrendo de um tendo estirado 
na perna dianteira. Quando John Ruark soube que aquele era o cavalo favorito da filha de Thahern, tratou carinhosamente do bicho, esfregando-lhe linimento na perna 
ferida e amarrando-a com fora. Com pacincia, trabalhou com o animal at ele lhe pegar torro de acar na mo, coisa que s vezes nem a jovem dona conseguia fazer 
com tila. Ruark ensinou o bicho tambm a atender a seu assobio e ento, afirmando que tila estava curado, mandou-o de volta  moa.
    Para Shanna, voltar a casa foi maravilhoso. Passava os dias montada em seu corcel ou nadando no mar cristalino, mergulhando e s vezes pegando um peixe ou dois 
para acrescentar  refeio. Renovou sua amizade com o povo de Los Camellos e providenciava o bem-estar das famlias carentes. Uma de suas maiores preocupaes era 
que, at ento, no tinha conseguido encontrar um professor para as crianas, e a escolinha que seu pai construra permanecia vazia. Na maioria, os dias de Shanna 
compunham uma
    sucesso idlica, como prolas num colar. Outros barcos paravam em Los Camellos para comerciar e seus oficiais normalmente jantavam na manso, o que dava a Shanna 
oportunidade de se vestir apuradamente e diverti-los com seu esprito bulioso. Era dona da ilha, filha de Trahern, e era um esforo constante lembrar s pessoas 
que ela era agora Madame Beauchamp. Perodo feliz para ela, um interldio de ventura com suficiente trabalho, mesclado de prazer, o que evitava que se entediasse. 
As aterradoras recordaes que a haviam atormentado amainavam dia a dia.
    Fevereiro estava a meio e, numa sexta  tarde, ela mandou buscar tila e foi dar um passeio demorado. Tomou a estrada do centro entre os morros prximos aos 
campos de cana, muito perto dos grupos de homens que seu pai sempre lhe prevenira serem perigosos, embora poucos em Los Camellos pudessem ousar fazer mal  filha 
de Trahern. Mesmo assim, no era sensato provocar o destino, e l nas plantaes de cana as turmas de cativos trabalhavam dia aps dia. Shanna, porm, ia onde lhe 
dava na telha, sem ligar para as conseqncias. Era um dia quente, e os cascos de tila levantavam pequenas nuvens de poeira que flutuavam acima da superfcie da 
estrada. Havendo passado entre os morros, ela se dirigia  encosta sul, quando deparou com um homem conduzindo um jumento no acostamento da estrada. Pela roupa, 
era um cativo, embora seu traje tivesse sido estranhamente mudado. Usava o conhecido chapu de aba larga, e a camisa estava atirada no lombo do jumento, mas sua 
cala estava enrolada acima dos joelhos. As costas achavam-se bem queimadas e os msculos mostravam pertencer a um homem forte.
    tila bufou e sacudiu a cabea. Shanna quis afastar o animal para dar passagem ao homem, mas, ao passar pelo cativo, um brao bronzeado estendeu-se e agarrou 
as rdeas do cavalo. Em qualquer outra ocasio, o animal se teria revoltado e se livrado de qualquer conteno desconhecida, mas tila apenas resfolegou ao cutucar 
o brao estendido. Por um instante, perplexa com a reao do animal, Shanna s conseguiu olhar fixo o carinho de tila no brao do sujeito. Controlando-se, olhou 
raivosa para quem lhe ousava interromper o passeio. Abriu a boca para exigir que a soltasse. O homem se virou, e a raiva da moa desvaneceu-se. Ficou de boca aberta, 
enquanto esmagadora incredulidade lhe embotou o crebro.
    - Voc! - exclamou, engasgada.
    Os zombeteiros olhos ambarinos se fixaram nela, e ele disse:
    - Salve, Shanna! Este  o bom homem John Ruark, s suas ordens. Parece que voc ganhou um nome, meu amor, enquanto eu perdi o meu. - Deu um risinho confiante 
e prosseguiu: - Entretanto, no  sempre que um homem consegue enganar sua mulher e o carrasco ao mesmo tempo.
    Shanna recuperou parte do controle, mas sentia-se tambm apavorada.
    - Solte! - retrucou e movimentou as rdeas. Quis fugir, mas a fora de Ruark manteve o corcel no lugar. A voz da moa alquebrou-se devido ao medo: - Solte! - 
repetiu.
    - Calminha, meu amor! - Os olhos dourados reluziram como metal. - Temos de discutir um assunto.
    - No! - A negativa saiu num misto de guincho e soluo. Ela ergueu o chicote que empunhava como se para atacar, mas ele lhe foi arrebatado das mos e o homem 
lhe agarrou o punho sem piedade.
    - Por Deus, madame! - rosnou ele. - Escute.
    Suas mos cingiram fortemente a cinturinha de Shanna, e ela foi retirada da sela como se fosse criana, e posta  frente dele. Frentica, Shanna se debateu: 
as mos pequenas enluvadas empurravam o peito moreno e peludo que lhe parecia encher toda a viso. Ele a sacudiu to violentamente que quase lhe decepou a cabea 
e, na verdade, chegou a atirar-lhe o chapu de aba larga na grama e lhe desfez o bonito coque, fazendo com que seus cabelos se precipitassem costas abaixo como uma 
torrente. Shanna aquietou-se e fixou, indefesa, os olhos mordazes.
    - Assim  melhor - debochou Ruark, amenizando levemente a presso sobre a moa. - Voc no  muito arrogante quando est com medo.
    Shanna dissimulou seu pavor e, levantando o queixo trmulo, indagou:
    - Pensa que estou com medo de voc?
    Os dentes alvos surgiram contra a pele morena, quando ele riu dela, e Shanna achou que ele se parecia com um pirata. A palidez da priso j o abandonara, e agora 
a pele trigueira reluzia com o saudvel suor de quem desfrutava de liberdade.
    - Acho, minha devotada mulher - zombou ele. - E talvez voc tenha mesmo motivos para tal. Hicks quase me levou  loucura depois que voc me traiu, e eu realmente 
estava louco de vontade de me vingar de minha linda mulher.
    O rosto de Shanna ficou plido, porque as palavras de Ruark lhe relembraram o que Pitney dissera. Com um soluo sufocado, renovou seus esforos de se livrar 
do homem, mas contorceu-se em silenciosa agonia quando os dedos dele a comprimiram novamente de forma cruel.
    - Fique quieta! - ordenou Ruark, e Shanna no teve outro remdio. No estava dominada, mas tremia violentamente do susto.
    - Se voc no me soltar, vou gritar at que o enforquem! E desta vez sem escapatria! Maldio! Esta ilha inteirinha vir correndo acudir-me!
    -  mesmo, minha cara? - provocou ele. - E que dir seu pai do nosso casamento?
    Irritada pelo deboche, ela foi imprudente e rosnou:
    - O que voc pretende? Violentar-me? Ruark riu, acidamente.
    - No se preocupe, Shanna. No tenho nenhum desejo de ter relaes com voc no meio do mato.
    Ela ficou perplexa. O que queria ele? Poderia suborn-lo?
    Como se lhe tivesse lido os pensamentos, Ruark foi direto ao assunto:
    - No quero o dinheiro de seu pai; portanto, se est pensando em me subornar, perde seu tempo. - Ergueu as sobrancelhas negras e contemplou-lhe
    as faces afogueadas e a boca macia e trmula. O olhar baixou ainda mais e ele lhe apreciou o busto arfante; Shanna chegou a pensar se ele poderia ver atravs 
de sua roupa de montaria. Sob o olhar firme dele, os seios dela arderam, e ela no conseguiu controlar a respirao ofegante. Debilmente cruzou os braos no peito, 
como se sentisse desnudada por aquele olhar. Ruark sorriu, malicioso, e a olhou de novo nos olhos. - Na priso minha mente era atormentada por sua beleza, e eu no 
conseguia sequer esquecer a menor mincia de voc em meus braos. Essa imagem me ficou gravada como se voc a tivesse marcado em fogo.
    Ele a olhou demoradamente, com brilho meio alucinado no olhar. Isto a fez duvidar da prpria sanidade em t-lo procurado. Ele ento sorriu e mostrou-se mais 
amvel:
    - Vou encontrar um meio de me desviar dos espinhos e colher a rosa - prometeu.
    A mo dele percorreu-lhe as madeixas suavemente. Seu sorriso aumentou e virou um risinho maroto, mais de acordo com o Ruark que ela conhecera na carruagem. De 
sbito, percebeu que ele nada tinha de louco; era, apenas, um homem querendo vingar-se.
    - No me passa pela cabea revelar seu segredo, Shanna, mas cumpri integralmente minha parte do trato. S falta agora a sua parte, minha cara, e s descansarei 
quando ela for cumprida.
    A mente de Shanna girou desordenadamente em crculos crescentes.
    - Nada de trato! - gritou, debatendo-se contra ele. - Nada de trato! Voc no morreu!
    - O trato foi cumprido! - rosnou ele. - Voc leva meu nome e tudo o que quis. No  culpa minha que Hicks seja ambicioso. Quero ver cumprida minha condio no 
acordo: uma noite inteira com voc, sozinho sem ningum para abrir a porta e me levar arrastado. - Olhou-a sensualmente e disse: - Acho que voc tambm pode gostar 
disso.
    - No! - sussurrou Shanna, envergonhada pela lembrana de sua reao. - O casamento foi consumado. Satisfaa-se com isso.
    Ruark deu um risinho de escrnio e falou:
    - Se voc no  mulher bastante para saber, minha santa inocente, somente comeamos a consum-lo, e no chegamos absolutamente a concluir nada. Quero uma noite 
inteira, Shanna, nada menos do que isto. E no adianta discutir!
    Ela ento raciocinou que era melhor agrad-lo, pelo menos at conseguir fugir, e depois Pitney...
    Os olhos de Ruark se estreitaram e ele advertiu:
    - Embora voc lamentavelmente deixe a desejar como mulher, Shanna, enganei o carrasco para procur-la. Se voc soltar os cachorros, ou mandar aquele atoleimado 
do Pitney ou seu pai atrs de mim, fujo deles todos. E prometo que volto e reclamo o que voc me deve. E agora, minha dedicada mulher...
    Ele soltou as mos e pegou as rdeas de tila, sossegando-o animal. Inclinou-se e cruzou as mos para que Shanna nelas pisasse e alcanasse o lombo do cavalo. 
Shanna no hesitou, pois estava louca para ir embora. Apoiando a mo no ombro vigoroso dele, deu um pulo para cima, ajudada pelo impulso que ele deu, e instalou-se 
na sela. Um arfar lhe veio  garganta quando ele, ousadamente, pegou-lhe o joelho para ajustar-lhe o p no estribo. Pegando as rdeas, Shanna deu um puxo em tila 
e fez o cavalo disparar pela estrada. O risinho debochado de Ruark lhe soou nos ouvidos at muito depois de o perder de vista.
     frente da ampla manso branca, Shanna fez o corcel parar e saltou-lhe do lombo, mandando um criado ir busc-lo, pois tila j se afastava. Passou rapidamente 
por Berta - que parou, boquiaberta - e subiu correndo a escada, batendo estrepitosamente a porta da sala de visitas. Trancou-a contra qualquer intruso e encostou-se 
nela, arquejante.
    - Ele est vivo! - arfou. Atirou as luvas de montaria na mesa e foi correndo para o quarto. Deixou as botas e o traje de montaria numa pilha desarrumada em cima 
do tapete. Conservando apenas a blusa, andou para l e para c, irritada.
    - Ele est vivo! - exclamou, raivosa. - Vivo!
    No fundo do estmago sentiu uma pontada pavorosa, mas perto de seu corao, que batia acelerado, havia estranha sensao de euforia, talvez at de liberdade. 
No redemoinho de pensamentos que a assaltaram, ocorreu-lhe que ela se sentira ligada  morte de um homem porque isso lhe traria vantagens. Felizmente, deixaria de 
sonhar com um pescoo vigoroso rodopiando na ponta de uma corda, e com a viso de um cadver putrefato num caixo de madeira.
    - Como  possvel? Eu o vi ser enterrado. Como.. .. possvel?
    A linda testa se enrugou toda e ela ficou andando pelo quarto, pensando mais sobre o assunto.
    Cativo? Ralston era responsvel por todos os escravos que vinham trabalhar em Los Camellos. Como foi que Ruark chegou l? Pelo Hampstead? No, nenhum cativo 
viajou nele. S no Marguerte.
    Jesus! Bem debaixo do meu nariz!
    Riso histrico insinuou-se, e ela se atirou de novo na cama, com um brao sobre os olhos, como se para eliminar a viso daqueles maliciosos olhos ambarinos.
    Shanna manteve-se longe dos morros e do plat situados ao lado sul da ilha. Sempre que cativos eram trazidos dos campos, ela fazia questo de estar em outro 
lugar. Sempre que montava tila, tinha o cuidado de ficar perto do vilarejo ou nos terrenos da manso. Como no viu mais Ruark, sua apreenso terminou.
    Quase uma quinzena se passou antes que seu pai a instasse a dar um passeio de carruagem com ele, porque tinha assuntos a tratar nos campos de cana.
    - Vamos levar um cesto de comida - disse, olhando para ela quase sorridente. - Sua me e eu adorvamos dar esse tipo de passeio. Voc ia junto e ficava sempre 
chupando cana.
    Constrangido pela saudade que demonstrava, Orlan Trahern pigarreou alto.
    - Venha, menina. No tenho o dia inteiro, e a carruagem est esperando.
    Shanna no pde recusar-se a ir e sorriu aos modos subitamente bruscos do pai. Na carruagem, j na estrada, analisou o pai. Desde que ela voltara, ele se mostrara 
mais tratvel. Ou seria ela mesma? Quando ele estava acostumado a esbravejar em relao a coisas pequenas, ela j no o desafiava nem argumentava; simplesmente esperava 
que ele desabafasse e se acalmasse, depois, sorridente e gentil, calmamente concordava ou discordava de modo firme, mas sem o declarado antagonismo de antes. Ele 
rosnava e a criticava, se ela estava contra ele; ou sorria com afetao e ficava todo prosa, se ela estava a seu favor. A moa quase podia afirmar que o pai dava 
certo valor  sua opinio e admitia que muitas vezes ela era mais perspicaz do que ele.
    O ar nas montanhas estava mais frio, e a brisa refrescante. Pacientemente, Shanna esperava quando a carruagem parava de vez em quando para seu pai falar com 
capatazes ou se ausentava um instante para tratar de algum assunto menor. Pararam para comer e, em seguida, continuaram a jornada. Chegaram a amplo campo cultivado 
no centro do qual estranho carro era puxado devagar por jumentos. Amplo pano estava colocado dos dois lados do veculo como se fosse asas de um pssaro, e debaixo 
dele alguns
    homens com sacos de sementes e compridos bastes caminhavam ao comprido de buracos, onde largavam as sementes e depois comprimiam a terra com os ps descalos.
    Sempre atento, Trahern sentou-se aprumado na carruagem e contemplou a estranha engenhoca. Esperou impaciente o capataz, que se dirigiu apressado ao veculo do 
patro.
    - Senhor, esse sujeito  mesmo esperto - respondeu o capataz  pergunta de Trahern. - Limpamos o campo em tempo recorde; a gente s cortou as rvores grandes 
e queimou o resto. Ele disse que as cinzas iam amolecer a terra. Depois, a gente comeou a fazer isso que o senhor est vendo. Poxa, anteriormente o cara precisava 
pegar um saco de sementes no depsito, e antes que se passava uma hora ele ia pegar sementes, descansar e tomar um gole de gua. Esse troo a d sombra a eles e 
o carro tem sementes e gua, e a gente ento planta muito mais depressa. Limpamos (e plantamos o terreno numa semana. Bem bom, no , patro?
    - Sim - concordou Trahern. Ficou parado por um longo tempo, observando o progresso do plantio. Shanna reparou que um homem ficava  parte e no trabalhava como 
os demais. Suas costas estavam nuas e viradas para eles, e havia algo estranhamente familiar nele. Trahern perguntou, ento, ao capataz: - Voc disse que a idia 
toda foi do tal de John Ruark?
    Shanna ficou engasgada, e por um instante o mundo pareceu revirar. Evidente, era ele! Aquela cala encurtada!
    O mundo voltou a firmar-se, ela respirou fundo e acalmou o corpo trmulo, olhando para Ruark com o rabo do olho.  medida que ele andava devagar inspecionando 
os resultados, suor lhe rebrilhava nos msculos firmes das costas, e as pernas longas e morenas eram bem-feitas e musculosas. Ela quase sentiu de novo a ousada estocada 
que ele lhe dera entre as coxas e corou profundamente a esse pensamento. Inclinou-se e pegou na manga do pai.
    - Papai - pediu. - Estou h muito tempo ao sol, e minha cabea di. Podemos voltar agora?
    - Daqui a um instante, Shanna. Quero falar com aquele homem.
    O corao da moa quase subiu  garganta. Ela no toleraria deparar com Ruark. No aqui! No agora! No junto com o pai!
    - Lamento muito, Papai, mas me sinto muito mal. Estou um pouco tonta. Podemos ir, por favor? - instou, desesperada.
    Trahern olhou, preocupado, para a filha e cedeu a seu pedido.
    - Muito bem. Depois eu falo com ele. Vamos.
    Deu a ordem ao cocheiro negro, Maddock, e a carruagem partiu de volta  manso. Suspirando longamente, Shanna reclinou-se e fechou os olhos, enquanto o alvio 
a inundava. Quando os abriu de novo, viu que o pai a contemplava com estranho sorriso. Seu olhar era firme, e ela, embaraada, comeou a contorcer-se.
    - Ser, Shanna, que voc est esperando? - perguntou ele, mansamente.
    - No! - exclamou ela, impulsiva. - Quer dizer, acho que no. Isto , foi to curto o tempo.. Ns mal... - Ela se calou de repente.
    - Quer dizer que voc no sabe? - bufou Trahern. - J deu tempo suficiente. Certamente voc sabe a respeito dessas coisas, no?
    - Acho que no, Papai - respondeu Shanna, e viu o desapontamento nos olhos dele. - Lamento.
    Baixou os olhos para as mos cruzadas com fora; Trahern olhou direto para a frente e no mais falou at chegarem a casa.
    Berta os encontrou  porta. Seu olhar interrogativo os perscrutou rapidamente e concentrou-se em Shanna. No querendo mais responder a nenhuma pergunta naquele 
dia, Shanna passou depressa pela governanta e subiu apressada a escada at chegar a seu quarto. Desta vez, teve a presena de esprito de guardar suas roupas como 
de hbito e, vestida apenas com uma blusa leve, deitou-se e contemplou os topos das rvores alm de sua sacada. As portas envidraadas estavam abertas para deixar 
entrar a refrescante brisa vespertina, e um ventinho frio agitou a fina seda do dossel em cima da cama. O suave aroma da trepadeira florida enroscada no parapeito 
encheu-lhe o quarto com sua fragrncia inebriante; Shanna ficou olhando sem ver durante longo tempo.
    Certo tempo depois, Berta bateu  porta. Comunicou que o jantar estava servido, e Shanna alegou estar doente. O pr-do-sol se transformou em escurido, e mais 
uma vez Berta bateu suavemente  porta. Desta vez a governanta no seria afastada to facilmente e insistiu para que Shanna abrisse a porta. Finalmente, ao entrar 
no quarto, a bondosa senhora levou para o lado da cama uma bandeja com pratos cobertos e um copo de leite frio.
    - Isto vai dar um jeito no seu estmago, Shanna - assegurou Berta. - Posso ajud-la em mais alguma coisa?
    A insistncia de Shanna de que seu mal era apenas um pouco de sol demais, fez com que Berta comeasse a resmungar sobre a falta de ateno "desta gerao de 
hoje", ao descer a escada.
    Shanna beliscou a comida e bebericou o leite. Sentindo-se tonta, vestiu a camisola curta e enfiou-se entre os lenis de seda. Estava quase dormindo, quando 
de algum lugar de sua cabea lhe veio a recordao de mos lhe pegando nos seios e de uma boca, doce e quente, acariciando-lhes a maciez. Eram beijos que lhe machucaram 
os lbios e lhe fizeram arder o peito, braos fortes esmagando-a contra um corpo retesado, de novo aquela estocada calcinante e depois...
    Com medo, Shanna acordou e devagar recolocou a cabea no travesseiro, ao perceber estar sozinha no quarto. Sombras familiares ocupavam as paredes do quarto, 
mas no ajudavam a esmagar a dor oca que a consumia. Agarrou firme um travesseiro e se aninhou contra ele. Teria sido mais um truque de sua imaginao quando ela, 
pouco antes de dormir, sentiu os msculos fortes das costas de um homem sob seus dedos?
    A manh no lhe forneceu a resposta. O travesseiro era apenas um travesseiro. A noite de sono, porm, realizara milagres. Ela se levantou, tomou
    banho e vestiu um vestido turquesa plido. Ficou imvel enquanto Hergus lhe amarrava a cintura fina. Com o decote quadrado, o vestido exibia as curvas superiores 
de seus seios redondos. Olhou-se no espelho e afofou devagar o cabelo, penteado numa cascata de cachinhos por trs das orelhas. Carranca petulante lhe franziu a 
testa quando as palavras atormentadoras de Ruark lhe ardiam na mente. Quer dizer que ela no era bastante mulher? Por qu? Qual meu defeito? Na aparncia? Na altura? 
No sou espirituosa? O que era? O espelho no lhe daria a resposta, e Shanna saiu dos seus aposentos para reunir-se ao pai e tomar um desjejum tardio, como se tornara 
hbito desde sua volta.
    Era costume de Orlan Trahern levantar-se ao nascer no dia, mas na maioria das vezes, agora, a no ser que tivesse assunto de urgncia a resolver, ele esperava 
para tomar o desjejum na companhia de Shanna. Era habitualmente um momento agradvel, embora fossem trocadas poucas palavras. Porm, ao descer as escadas nessa manh, 
Shanna ouviu vozes vindas da sala de jantar. Claro, no era fora do comum que o fazendeiro tivesse visitantes pela manh  hora da refeio; em geral, negcios eram 
o assunto. Mas, algo cautelosa a respeito de quem os visitava, Shanna caminhou com cuidado.
    - Bom-dia, Shanna - cumprimentou Berta. - Est melhor hoje? Ento veio a voz do pai, atravs da porta aberta:
    - Aqui est ela. Minha filha, Shanna.
    Uma cadeira rangeu, e num momento o grande volume de Trahern enchia o vo da porta quando veio receb-la. Tomando-lhe o brao, levou-a para a sala arejada onde 
brancos biombos de trelia permitiam que a brisa penetrasse pelas janelas deixando fora o sol e seu calor.
    - Desculpe-me, querida, mas eu queria falar com este homem - falou o fazendeiro, enquanto a fazia entrar na sala.
    Shanna parou de sbito ao ver de quem se tratava, e tirou a mo do brao do pai. A cor lhe fugiu das faces, e ficou boquiaberta de surpresa. Trahern tornou a
pegar-lhe a mo, observando-a com certa preocupao. A voz do pai era baixa, quase um murmrio, quando lhe falou:
    - Sim, um escravo. - Seu tom era de censura. - Mas penso no estar abaixo de ns partilhar com ele nossa mesa. Se quiser fazer as honras da casa, seja graciosa 
e receba bem todo aquele a quem eu convide como meu hspede.
    "Venha, Shanna - continuou, em voz mais alta, colocando a mo dela em seu brao e dando-lhe amigveis tapinhas. - Conhea o Sr. Ruark, John Ruark, homem de alguns
conhecimentos e bastante inteligente. Tem trabalhado bem para ns, e devo atender a seus conselhos em algumas questes.
    John Ruark ergueu-se e olhos ambarinos lhe sorriram, tocando-a em todos os lugares, quando Trahern se voltou para dar uma palavrinha com Berta. As cores voltaram 
logo s faces de Shanna, aumentando quando ela tornou a experimentar aquela sensao de ser despida por aquele olhar
    dourado. Murmurou um cumprimento enquanto seu prprio olhar passeava, com desdm, por seus cales curtos. Estavam limpos, mas no menos objetveis em seu estado 
de esprito. Entretanto, sentia-se grata ao fato de que pelo menos ele havia vestido uma camisa. Com o chapu de palha posto de parte, notou pela primeira vez que 
o cabelo dele fora tosquiado rente. Alguns tufos curtos se enrolavam ligeiramente em volta do rosto, acentuando-lhe as feies bonitas. O sorriso zombeteiro raiava 
com surpreendente brancura contra a pele tostada de sol. De m vontade Shanna confessou a si mesma que ser um escravo no parecia haver-lhe feito mal. Na verdade, 
havia nele uma sade e uma vitalidade quase hipnotizantes. Em resumo: estava ainda mais bonito do que no dia do casamento.
    - Muito prazer, madame - respondeu ele, calorosamente. Shanna retrucou com um sorriso ameaador:
    - John Ruark, foi o que disse? Conheo alguns Ruark na Inglaterra. Um bando bem baixo, de assassinos e degoladores. Por acaso  aparentado com eles, senhor? 
Uma canalha vil. - A doura de seu tom no escondia o desdm da inteno. Ele teve um sorriso de divertimento nos lbios, mas Trahern interrompeu de repente lanando 
 moa um olhar de advertncia.
    "Deve perdoar-me, Sr. Ruark. No  sempre que tenho de hospedar um escravo.
    - Shanna! - Era baixo o tom de voz do pai, mas desafiante. Como se fosse apenas um gracejo, Shanna se abrandou e sentou-se em sua cadeira. Ignorando Ruark, enquanto 
ele tornava a sentar-se no lugar fronteiro ao dela, voltou-se para o negro baixinho e grisalho que esperava para servi-la. Concedeu-lhe seu melhor sorriso:
    - Bom-dia, Milan! - disse, alegremente. - Outro lindo dia que estamos tendo, no acha?
    - Sim, madame! - O criado sorriu. - Claro e brilhante, como a senhora. E o que vai querer esta manh? Guardei um suco de melo para a senhora.
    - Ser timo! - disse ela, sorrindo.
    Quando o criado ps diante dela uma xcara de ch e afastou-se at o aparador, Shanna ousou encontrar o olhar divertido de Ruark do outro lado da mesa.
    Enquanto a conversa dos homens tocava em muitos tpicos, Shanna bebericava seu ch, ouvindo com ateno como Ruark se expressava em opinies audazes, respondendo 
s perguntas do patro. Com rapidez tomou de uma pena e fazia esboos, quando necessrio. No agia como um escravo, mas sim como quem possui valor de fidalguia. 
Ele e o fazendeiro inclinaram-se sobre pilhas de desenhos que cobriam seu canto da mesa, e ele explicava em detalhes o trabalho mecnico dos desenhos. Shanna no 
se aborrecia em absoluto ao ouvi-lo. Deu-se conta de que o rapaz era inteligente, de mente to aguda como seu pai, e que no parecia estranho aos trabalhos de uma 
plantao. De fato,  medida que a conversa progredia, tornava-se evidente que ele podia ensinar muito ao patro.
    - Sr. Ruark - interrompeu ela, provocando uma pausa, enquanto Milan tornava a encher-lhe as xcaras. - Qual era o seu negcio antes de ficar escravo? Um inspetor, 
talvez? O senhor  das colnias, no? O que estava fazendo na Inglaterra?
    - Cavalos. e outras coisas, madame - explicou ele descansadamente, um lento sorriso despontando enquanto lhe prestava toda a ateno. - Trabalhei muito com cavalos.
    Shanna franziu a testa enquanto ponderava a resposta dele:
    - Ento deve ter sido o senhor quem cuidou do meu cavalo, tila... - No era de espantar que o garanho no tivesse ficado nervoso por causa dele; o astuto mendigo 
tratara dele. - Quer dizer que treina cavalos? E por que, senhor? Por que est na Inglaterra?
    - Pela maior parte para cavalgar, madame. - Deu de ombros. - E alguns apreciam o esporte de cavalgar suas montarias. Fui primeiro  Esccia para escolher animais 
para procriao.
    - Ento seu patro confiava em que o senhor conhece animais de boa raa quando os v? - insistiu ela.
    - Sim, madame, disso tenho certeza! - Brilhavam luzes douradas em seus olhos, enquanto ele vagarosamente a media de alto a baixo. A insinuao era clara. O olhar 
do pai permanecia nela, de modo que perdeu o lento olhar e o exame que o seguiu.
    O cavalheiro Trahern tomou seu ch, lambendo os lbios enquanto saboreava o calor da bebida.
    - Para l enviei minha filha em misso semelhante, porm ela me voltou como viva e com um bero vazio. Sequer cheguei a conhecer o rapaz, e isso me ri o corao. 
Vendo tantos pretendentes recusados, eu estava em grande ansiedade para conhecer sua escolha final.
    Shanna falou ao pai, mas seus olhos estavam sobre Ruark, e ela sorria por trs de sua xcara de ch:
    - Pouco posso dizer-lhe a respeito dele, Papai. Mas o destino foi quem decretou que eu no poderia ter o seu rebento. Sabe, Sr. Ruark - Shanna lhe dirigia abertamente 
suas observaes - meu pai me enviou para encontrar um marido que procriasse filhos para sua dinastia. Isso no tinha de acontecer, apesar dos meus esforos. Embora 
no tenha dvidas de que acharei outro homem, talvez de ps mais espertos para evitar o mesmo fim que ele. - Ergueu de leve as sobrancelhas para enfatizar as ltimas 
palavras e mirou direto nos olhos ambarinos que se inclinaram momentaneamente para apreciar a resposta da moa.
    - Na verdade, Madame Beauchamp - o tom de Ruark demonstrava preocupao e falou com sinceridade - s posso concordar em que to fino cavalheiro sem dvida enriqueceria 
muito sua vida. Mas acho que o que  chamado destino muitas vezes  apenas trabalho de mos terrenas. Por vezes um capricho ou fantasia, um desejo bsico podem estragar 
os planos mais elaborados. Meu prprio caso, por exemplo. Embora eu estivesse em terrvel necessidade, minha melhor oportunidade me foi negada pela prpria pessoa 
que props o negcio.
    "Sim, sofri muito devido a essa pessoa - continuou ele. - Mas a justia, embora muitas vezes adiada, sempre vence. Tenho dvidas a pagar, e no  a menor delas 
o que devo a seu pai. Porm, outros me devem e espero cobr-las... com grande antecipao.
    Shanna reconheceu a ameaa em sua declarao e, mostrando um pouco de raiva, retorquiu:
    - Senhor, acho imprudente sua referncia  justia, pois obviamente o senhor  sua vtima e est onde deve estar. Meu pai pode receber bem seus conselhos, mas 
acho odiosa a presena de um selvagem seminu  minha mesa de desjejum!
    Ante essa exploso vingativa, o fazendeiro baixou a xcara e fitou-a, perdendo o olhar de soslaio de Ruark e interpretando mal a suave desculpa na voz dele ao 
replicar:
    - Madame, s posso esperar que mude de opinio.
    No ousando mais palavras, mas com turbulentas emoes a irrit-la e a escurecer o verde de seus olhos, Shanna se ps de p e saiu da sala.
    S depois da sada de Ruark  que Shanna ousou aproximar-se do pai; e o fez apreensivamente, pois no poderia apontar nenhum outro escravo que tivesse ganho 
o interesse do fazendeiro tanto quanto esse colono. Trahern estava no escritrio, cuidando de algumas contas que Ralston preparara quando Shanna entrou na sala, 
as mos atrs das costas, e com um olhar de anglica inocncia.
    - Acha que teremos chuva antes do fim do dia, Papai? - indagou, olhando para fora pelas portas-janelas abertas para um deslumbrante cu azul. Se algum tivesse 
tomado nota a srio de seus assuntos de conversa, poderia haver levantado uma questo sobre sua aparente preocupao com o tempo nesse dia.
    Trahern grunhiu uma resposta, mas sua ateno continuou nas pginas abertas dos livros de contabilidade. Mergulhado em seus pensamentos, franziu a testa e examinou 
com cuidado os algarismos diante dele, mal se dando conta de a filha haver puxado uma cadeira ao lado da mesa.
    - Imagino se a Sra. Hawkins ter apanhado algumas lagostas em suas armadilhas hoje. Talvez pergunte a Milan se podemos t-las para o jantar. Gostaria disso, 
Papai?
    O fazendeiro deu uma olhada em sua filha sem mesmo notar sua presena e voltou ao que fazia. Shanna no se deixava despedir to facilmente. Inclinou-se para 
espiar o trabalho que o pai tentava completar. Numa vozinha infantil, perguntou:
    - Estou interrompendo alguma coisa, Papai?
    Com um suspiro, Trahern empurrou a cadeira para trs e encarou a filha, batendo as mos juntas na pana e aninhando a cabea entre os ombros como um falco alerta:
    - Estou vendo que no terei sossego at discutir seja o que for que a traz aqui. Vamos, menina, v falando.
    Shanna alisou a saia e deu de ombros, de leve.
    - Ah!. Esse homem, Ruark, Papai - comeou, hesitante. - Ele poder mesmo trazer algum benefcio a Los Camellos? No poderamos livrar-nos dele de algum jeito? 
Negoci-lo? Ou - talvez vender os documentos dele? Qualquer coisa para p-lo fora da ilha.
    Shanna se deteve e relanceou o olhar para o pai. Ele a fitava, lbios franzidos como se estivesse perdido em pensamentos. Antes que pudesse responder, ela foi 
em frente:
    - Quero dizer: o Sr. Ruark parece to audacioso e arrogante para um escravo. Na verdade,  como se estivesse mais habituado a ser um amo do que um escravo. E 
suas roupas So simplesmente horrveis! Nunca tinha visto um homem pavonear-se meio nu como esse! E nem se importa com o que possam dizer. Ainda h outra coisa: 
ouvi dizer que a maioria das moas da aldeia est ansiosa por ele.  provvel que antes do fim do ano voc esteja sustentando vrios filhos dele.
    - Hum! - rosnou Orlan Trahern. - Talvez devamos castrar o garanho para proteger as damas de nosso paraso.
    - Por Deus, Papai! - Shanna mordeu a isca como um peixe esfaimado. - Ele  um homem, no um animal! Voc no pode fazer uma coisa dessas.
    - Ah, sim! - A voz de Trahern era baixa e poderosa, e ele se balanava na cadeira para enfatizar suas palavras. - Um homem! No um animal! timo que admita isto, 
Shanna!  mesmo timo!
    Shanna quase relaxou no encosto da cadeira, at dar-se conta de que os olhos do pai estavam velados e o tom de voz descolorido, sinal certo de que a raiva fervia 
nele lentamente. Sua mente voou enquanto ela tentava lembrar o que dissera, e quase parou de respirar ao perceber a tormenta que se aproximava. Pulou ao mesmo tempo 
em que sua mo batia na mesa, agitando a caneta no tinteiro.
    - Por Deus, filha: estou satisfeito por ter confessado isto! - Trahern inclinou-se para a frente, agarrando os braos da cadeira como se quisesse arremessar-se 
para fora dela. - Tenho os papis dele, e me servir como escravo at que sejam pagos. No sei qual foi seu erro, mas reconheo que  inteligente e na verdade entende 
mais desta plantao do que eu. Posso conhecer mais de mercados e de comrcio, porm ele conhece os homens e como extrair deles o melhor. Durante o pouco tempo em 
que est aqui j provou seu valor, e o respeito mais como homem do que voc jamais o faria. Ele no  um animal para ser quebrado ou treinado para uma simples tarefa; 
 um homem para ser trabalhado e usado onde melhor convenha, e apostarei o que voc quiser que ele pagar cem vezes o seu valor. A propsito - mexeu nos papis na 
mesa, arremessando um, coberto de esboos e algarismos, no colo dela - ele sugeriu um grande engenho de cana combinado com destilaria, o que aumentaria a produo 
do xarope e do rum umas dez vezes ou mais. Isso exigir menor nmero de homens do que os que agora trabalham nos campos.
    Orlan atirou-lhe outra folha de papel:
    "Depois disso, sugeriu uma represa no rio para impelir a roda de uma serraria, de modo a que pudssemos cortar nossas prprias rvores em toros e vender o excesso. 
Ele j sugeriu uma dzia de modos para economizar homens e animais. Ora, minha alta e poderosa filha: eu o valorizo muito e no o enxotarei daqui como se fosse um 
animal s porque no satisfaz seus altos padres de comportamento.
    O orgulho de Shanna ficou ferido sob essa reprovao. Erguendo-se, fungou altivamente:
    - Se no pode acompanhar o meu raciocnio, ento de certo  direito meu pedir que, pelo menos, no o convide para minha mesa de desjejum onde ele pode fitar-me 
de olhos arregalados ou mesmo insultar-me com suas palavras encobertas.
    O brao de Trahern teve um movimento rpido, e um dedo apontou com firmeza para a pequena sala de jantar:
    - Aquela  minha mesa, aquela  minha cadeira, assim como esta  minha casa! - mugiu, e continuou, apenas um pouco mais calmo. - Convido voc a partilhar meu 
desjejum, e ali  que comeo meu dia de trabalho. Se procura privacidade, busque-a em seu quarto.
    Um tanto espantada com a exploso, Shanna o fitou, porm tentou mais uma vez:
    - Papai, voc no negaria  minha me se ela lhe pedisse para no trazer algum a esta casa, uma pessoa a quem ela detestasse ou de quem apenas no gostasse.
    Desta vez Trahern levantou-se da cadeira, e dominou a filha! Eram rudes sua voz e suas maneiras:
    - Sua me era dona desta casa e de tudo que possuo. Que eu saiba, nunca despachou algum a quem eu tivesse convidado. Se voc quer servir como senhora aqui, 
seja uma anfitrioa graciosa para todos. Voc tratar esse homem, Ruark, como hspede em minha casa sempre que ele aqui estiver. Voc sabe que no dou importncia 
a dourados, pompas e atavios. Na verdade, vim para aqui para fugir disso. Aprecio muito mais a honestidade, lealdade, e um bom dia de trabalho. Tudo isso o Sr. Ruark 
me tem dado. E ouso dizer, filha, ele lhe tem obsequiado com menos do que voc merece. Mas basta de tolices. Devo terminar de examinar esses livros de Ralston. Sua 
raiva cessou; a voz tornou-se quase pedinte: - Agora seja boazinha para com um trmulo velho, menina, e deixe-me acabar meu trabalho.
    - Como quiser, Papai. J disse o que queria.
    Satisfeito, Trahern sentou-se e, pegando a pena, logo ficou absorto no que fazia. Shanna no fez um s movimento para sair, enquanto considerava o desenrolar 
dos acontecimentos. Nada a esperar aqui, mas esse no era o fim de seus recursos. Com sbita determinao, ergueu-se e foi pr a mo no ombro do pai at que ele 
ergueu os olhos para ela:
    - Papai, vou dar uma sada. Tenho vrias coisas a fazer na aldeia, assim como algumas compras. Poderei voltar tarde para casa, mas no se preocupe comigo.
    Deu um rpido beijo na testa dele e se foi. Orlan viu-a sair; depois, balanou a cabea, confuso:
    - Instruo demais para uma mulher. - murmurou; em seguida, deu de ombros e voltou ao mao de papis em sua mesa.
    Era tarde da noite quando Shanna dirigiu tila para o poste de amarrao diante da casa de Pitney. Era um estranho chal um pouco acima da cidade: lembrava aqueles
encontrados na Inglaterra ocidental. Atrs dele havia um pequeno barraco onde Pitney costumava ocupar-se fazendo mveis finos com as madeiras raras que os comandantes 
dos navios de Trahern lhe traziam de qualquer lugar a que os levassem as viagens. Em criana, Shanna ali passara muitas horas observando-lhe as mos habilidosas 
transformarem madeira bruta em lindas cadeiras, mesas e arcas. Entalhes desenhados por ele mesmo embelezavam a maioria das peas grandes. Ali, Shanna o encontrou, 
traando um desenho cuidadoso num pedao de madeira, os grandes ps enterrados num monte de enroscadas aparas. Ele a viu aproximar-se e ergueu-se para acolh-la, 
enxugando o suor da testa com um trapo de fazenda desbotada.
    - Bom-dia, menina! - cumprimentou-a, amigavelmente. - H muito tempo no subia a colina para visitar-me.. Mas venha, nos sentaremos na varanda. Tenho bebida 
boa refrescando no poo.
    Pitney bebia vez por outra os melhores vinhos de Trahern, mas sua predileo por cerveja inglesa amarga era bem conhecida. Arrastou uma poltrona acolchoada para 
Shanna. Ela o seguia e, enquanto Pitney girava a manivela do poo, a moa sentou-se.
    - Para mim, s um copo d'gua. No gosto de sua bebida.
    O poo era, em si mesmo, uma singularidade: h anos, quando a manso estava sendo erguida e a cidade no passava de algumas casas esparsas, Pitney descobrira 
uma fonte de gua gelada e construra sua casa em torno dela. O muro de pedra do poo formava o fim de sua varanda. Podia-se apanhar gua da varanda ou atravs de 
uma janela do chal.
    Pitney lhe trouxe uma caneca de estanho cheia de gua glida, a ponto de causar-lhe dor nos dentes. Sentando-se em frente a ela, bebericou a espumosa cerveja 
escura de sua prpria caneca, esperando com pacincia que ela estivesse pronta para falar. A casa voltava-se para o ocidente, onde podiam ser vistas todas as cores 
do brilhante pr-do-sol, e daquela altura Shanna podia apreciar os telhados da cidade que se espraiava l embaixo. Era a casa de um homem, firme, slida, com portas 
um pouco maiores do que o usual, tal como o prprio Pitney. Que Shanna soubesse, apenas trs mulheres jamais puseram ali os ps: sua me, ela mesma, e uma velha 
da aldeia que fazia a limpeza uma vez por semana.
    Afinal, Shanna se arrancou de seus pensamentos para tratar do que a trouxera ali. Encarando Pitney, foi direta ao assunto:
    - Ruark Beauchamp est vivo e aqui na ilha.  escravo comprado de meu pai e atende pelo nome de John Ruark.
    Pitney acenou com a cabea e fitou a caneca que estava no parapeito a seu lado:
    - Sei de tudo isso. - Era calma sua voz, e Shanna o fitou, cogitando o que viria a seguir. - Eu sabia que ele no foi enforcado - continuou Pitney - e que enterramos 
outro homem, velho e gasto. Poderia ter-lhe dito isso logo, mas Ralston estava l com voc. Depois disso no vi que mal havia nem a necessidade de preocup-la. Sabia 
tambm que ele estava no Marguerite. Segui Ralston at o crcere, pois sabia que l  que ele conseguia seus homens, e no nos leiles, como sempre disse. E eu lhe 
teria dito isso, mas sempre havia muitos por perto que poderiam ir fazer mexericos com seu pai. Se lhe causei algum mal nisto, no foi menor o que causei quele 
rapaz. Voc no o teria reconhecido quando o trouxeram para o navio, tal o estado dele. Na verdade, menina, ele era aquele que voc salvou de ser espancado, na noite
anterior  nossa partida. Por Deus, no sei como o homem suportou tudo sem ficar deformado ou cheio de cicatrizes. E eu estava l, eu vi!
    Pitney no disse qual fora seu prprio compromisso, nem Shanna perguntou, presumindo que ele lhe diria a seu devido tempo. Porm, sentiu que sua causa fraquejava 
e tinha de fazer outra tentativa.
    - Quer lev-lo daqui? - perguntou com firmeza, j sabendo qual seria a resposta. - Pode tir-lo da ilha, lev-lo para suas colnias ou para onde ele quiser ir?
    Pitney deixou o olhar vagar por muito tempo pelo porto antes de olhar Shanna diretamente nos olhos:
    - Madame Beauchamp. - Ele parecia lanar o ttulo por algum capricho. Suas palavras eram estudadas e lentas. - Embalei-a em meus joelhos desde pequenininha e 
a vi crescer e transformar-se numa linda jovem. Tem tido perturbaes com seu pai, e eu nem sempre concordei com ele. Acompanhei-a em sua viagem sob juramento de 
velar por voc e a trazer a salvo de volta a casa. No estou muito certo de haver cumprido o primeiro encargo, ajudando naquele casamento contra a vontade de Orlan, 
mas cuidei para que tudo sasse bem at o fim. Agora nada me perturba a no ser o fato de que aumentei as angstias de um homem e o prejudiquei sem razo alguma.
    - Sem razo alguma! - Shanna estava furiosa com suas escusas. - Mas o homem foi acusado de assassinato e condenado  forca! O brutal assassinato de uma mulher 
grvida. Ora - ela apontou para a aldeia - a prxima pode ser qualquer uma l da aldeia, ou mesmo eu!
    - Menina. - Pitney voltou a uma forma mais familiar de conversa. - No leve a srio tudo o que lhe chega aos ouvidos. Eu diria que o homem no podia fazer tal 
coisa. E pelo que ouvi a respeito dele, muita gente acreditaria o mesmo.
    Shanna ergueu-se e, irritada, alisou a roupa de montaria, incapaz de encontrar os olhos de Pitney:
    - Ento, no quer ajudar-me?
    - No, menina. - A voz dele era spera e firme. - J feri bastante o homem. No tornarei a levantar minha mo contra ele sem um motivo muito forte.
    - Ento, o que devo fazer? - murmurou ela, quase timidamente. Pitney pensou por um momento; havia um estranho sorriso em seus olhos quando tornou a falar:
    - V falar ao homem, John Ruark, como fez no crcere. Antes que voc saia lhe direi como fazer para encontr-lo. Talvez possa convenc-lo a ir embora. Se ele 
quiser ir, eu o ajudarei.
    Com alguma angstia, Shanna perguntou:
    - Ajudaria a ele, e no a mim?
    - Sim. - Pitney balanou a cabea. - Com voc  um capricho. Para ele ser uma necessidade.
    A noite chegou para ocultar o percurso de Shanna pelo vilarejo. As pessoas se achavam em suas casas aps o dia de trabalho, e as ruas estavam silenciosas e vazias. 
Deixando tila na loja onde ele no atrairia ateno indesejada, ela caminhou pelos becos, mantendo-se oculta na sombra. Quando avistou a residncia de Ruark, parou, 
perplexa. Era pouco mais do que uma meia-gua, contra os fundos de um depsito de tijolos. Luz vinda de plido lampio escoava das inmeras fendas entre as tbuas
que a cobriam e pela porta entreaberta. Cuidadosamente, Shanna aproximou-se e espreitou por entre as fendas, tomando cuidado para no ser percebida. Por um instante
pensou que ele estava nu, enquanto lavava os ombros e os braos com gua tirada de pequena bacia, mas, quando ele se movimentou e ficou mais sob a luz, Shanna percebeu
que ele continuava a usar a terrvel cala curta. Fortalecendo-se para o confronto, a moa avanou.  suave batida, a porta escancarou-se e Ruark girou instantaneamente
o corpo, arquejante.
    - Shanna! - A primeira palavra pronunciada por ele o foi com certa surpresa, porm ele se recuperou rapidamente, sorriu e pegou-lhe a mo, para faz-la entrar. 
- Perdoe, meu amor. No esperava visita, muito menos de pessoa to encantadora. - Com pesar, esfregou a mo no queixo rijo e disse: - Se tivesse sido avisado de 
sua vinda, teria feito certos preparativos.
     luz parca, os olhos dele brilhavam suavemente ao fitar os dela. Aproximou-se da moa, a outra mo apoiada na nuca de Shanna. Nervosa, ela relanceou a vista 
pelo cmodo entulhado, sem conseguir suportar as gentilezas que ele lhe prestava. A presso dos dedos dele era leve, mas lhe pareceu uma garra de ao. Comeou a 
duvidar seriamente se teria feito bem em ir l sozinha.
    O cheiro do forte sabo de lixvia e de vinagre que havia sido usado para esfregar as tbuas do lugar penetrou nas narinas dela. Embora as instalaes fossem 
pobres, estavam quase dolorosamente limpas e conservadas. Estreita cama de cordas com colcho de palha e lenis limpos, embora j gastos, enchiam um canto, e pequena 
e rstica mesa, com uma pilha de desenhos,
    pena e tinta estavam empilhados em outro. Uma s cadeira amarrada com uma cordinha numa perna e uma prateleira alta eram os nicos outros mveis. A prateleira 
continha vrias caixas, uma das quais com uma forma de po, um naco de queijo, uma garrafa de vinho e poucos pratos que no combinavam. A colcha de remendos na cama 
tinha franja e era muito remendada, mas mostrava-se dobrada harmoniosamente e os lenis estavam brancos de to limpos.
    Ao ver onde o olhar dela pousava, Ruark sorriu e disse:
    - No  o lugar indicado para um encontro, Shanna, mas  o melhor que consegui. No me custa nenhum dinheiro, apenas preciso manter os olhos abertos contra os 
vndalos. - Riu ligeiramente ao ver o olhar dela no dele. - No podia imaginar que voc viesse to depressa cumprir sua parte no trato.
    Shanna arfou, perplexa  sugesto dele:
    - No vim aqui passar a noite com voc!
    1 - Que pena! - suspirou ele, como se decepcionado, tirando um cacho do rosto dela e inclinando-se ao faz-lo. - Quer dizer que minha tortura continua! Ah! Shanna, 
meu amor, voc no percebe que s de v-la sofro?
    A voz dele soava baixa e rouca aos ouvidos dela, e Shanna precisou agarrar-se fortemente  sua reserva de disposio para eliminar a lenta paralisia que lhe 
destrua as defesas.
    - Voc calcula como doem meus braos, de vontade de abra-la? Estar assim to perto sem poder toc-la  uma agonia para mim. - Os dedos dele acariciaram as 
omoplatas dela. - Ser voc uma bruxa que me faz sentir o inferno na Terra, pois  o que mais desejo e o que menos tenho? Seja suave, Shanna, seja mulher, seja meu 
amor. - Ele se inclinou, e seus lbios se aproximaram perigosamente.
    - Ruark! - exclamou, rispidamente, Shanna, afastando-se dele com um solavanco e ordenou: - Comporte-se!
    - Est bem, meu amor. Mas sou homem. E voc, mulher. De que outra forma me devo comportar? - Ele quis abra-la.
    - No me force tanto! - Shanna esquivou-se ao abrao. - Seja cavalheiro ao menos uma vez! - Ela o manteve afastado, colocando o chicote de montaria no peito 
dele.
    - Cavalheiro? Como, meu amor? - Bancou, ento, o simplrio. - Sou apenas um colono idiota, sem conhecimento das atitudes prprias de namoro, treinado apenas 
para ser sincero e verdadeiro num trato combinado. No consigo tolerar v-la aqui, estar sozinha comigo, e no tentar toc-la.
    - Concordo - Shanna afastou-se mais e continuou andando enquanto ele a seguia. - Devemos restringir nossos encontros.
    O olhar dela adejou hesitante pelo peito moreno e coberto de suave penugem antes de deparar com o olhar firme e arrasador dele. De repente, Shanna sentiu-se 
uma galinha acuada por uma raposa, esperando ser devorada a qualquer instante.
    - Se voc parar de ser agradvel a meu pai e concordar em ficar longe de minha casa, isto simplificaria as coisas. Pare com isto! - Ela repeliu a mo dele que 
lhe ia afagar os cabelos, mas o penteado se desfez sob a rapidez daqueles dedos e a cabeleira despencou em cachos nas costas dela. Shanna tentou inutilmente prender 
o cabelo de novo.
    "Voc quer ficar srio por um minuto! - censurou ela. - Controle sua luxria. No vim aqui para ir para a cama com voc e sim para apelar  sua honra. Libere-me! 
- Ela ergueu a voz e o chicote. - Voc no voltar a me agarrar!
    Ruark recuou e encostou na parede s costas dela.
    - Shanna, meu amor! - exclamou, triste. - Devo realmente acreditar que voc no vai cumprir o trato?
    - Trato! - Shanna bateu na porta entreaberta com o chicote, desesperada. - O senhor  o mais...
    - Psiu! - Fez ele, dedo nos lbios. Seu rosto estava na sombra, mas seus olhos pareciam brilhar, rindo e zombando dela. - Fale baixo, seno daqui a pouco a vila 
inteira estar aqui. - Estendeu o brao para trs e tirou da prateleira a garrafa de vinho e uma xcara, na qual serviu um trago.
    - Talvez um pouco de lcool lhe acalme os nervos, Shanna. Que tal um golinho de xerez?
    - Meus nervos! - Estas palavras foram proferidas com raiva. - So seus nervos que precisam ser acalmados, senhor. - Ela pegou a caneca que lhe estendia e bebeu 
um gole, franzindo o nariz e em seguida dizendo com escrnio: - Disto, meu caro Ruark, voc tem grande suprimento.
    - A senhora me maltrata, madame. - Sua mo estendeu-se at o cabelo dela, mas se deteve quando ela ergueu o chicote. Ele deu de ombros.
    - Apenas conheo minhas necessidades e procuro satisfaz-las.
    - Caro Ruark - disse Shanna entre dentes, com raiva. - Quando eu me der a um homem, ser sob os votos do casamento e com todo o amor que eu puder reunir.
    Ruark deu um risinho debochado e ps o p na cama, apoiando um cotovelo no joelho e disse:
    - Voc no se contenta com meu amor imorredouro e os laos de um trato combinado com a maior lealdade? Posso acrescentar - fez um gesto displicente - que os 
votos j foram...
    - Seu grosseiro! - Shanna ficou perplexa  exibio desaforada e deselegante dele. - Tenho um sonho...
    - No  sonho nenhum! - retrucou ele, imediatamente. -  simplesmente uma barreira interposta contra um homem de carne e osso.
    - Voc tem to pouca honra que me obrigaria a cumprir um trato to vil?
    - Honra? Eu a tenho, sim. - Sacudiu a cabea e a olhou firme; os olhos ambarinos flamejavam. - E que tem voc? Oferecer-se por um capricho e, quando este  satisfeito,
negar o acordo?
    Lgrimas de ira apareceram nos olhos de Shanna:
    - Nasci e fui criada com muito carinho, mas tive de me inclinar  vontade de outro!
    - Entendo. - Seu tom foi de deboche. - A virgem Shanna, cruelmente trada.
    - Ningum vai mandar em mim! Nunca! - Rija de dio, com lgrimas lhe escorrendo no rosto, ela o olhou raivosa.
    - Ah, ? - Ruark fingiu surpresa. - Quer dizer que agora temos a Rainha Shanna, real, dominadora. Esconda-se atrs de seu trono de espinhos, meu amor. Jamais 
seja mulher!
    - Seu paspalho nojento!
    - Shanna. - A voz dele estava impessoal, dura e mordaz. - Cresa. O chicote atingiu-lhe o peito uma vez. Ela ia atacar novamente, mas a mo dele jogou o chicote 
no cho. A raiva de Shanna havia alcanado propores violentas. A palma aberta de sua mo vazia completou o tapa no rosto dele e voltou com o dorso virado para 
atingir o outro lado do rosto, enquanto seus olhos fuzilavam de raiva. De repente, seu pulso foi agarrado por mo de ferro e o brao foi parar nas costas, esmagando-a 
contra o peito nu de Ruark, que exibia duas marcas lvidas. Ficou ainda mais possessa quando ele lhe torceu o brao, e ela tentou levantar a outra mo para esbofetear 
o rosto irnico  sua frente, mas o brao dele a rodeou at ela ficar imobilizada. Ficou presa a ele, sentindo-lhe o respirar entre dentes rangentes e arfando o 
busto contra o peito dele.
    - Chega, Shanna, meu amor - disse ele, rspido. - Voc me bateu dos dois lados do rosto antes que eu pudesse virar-lhe a outra face.
    O abrao era de tal forma que os ps dela foram levantados do cho, e Shanna ficou comprimida contra ele, sem respirar direito. A boca de Ruark se inclinou sobre
a dela, queimando, excitando; sua lngua dardejava como um tio em brasa, queimando-a, possuindo-a. Shanna debateu-se debilmente, tentando pensar com alguma lgica
por entre o caos de sua mente. O prazer transps a barreira de sua vontade. O esmagar brutal dos lbios dele nos dela, os braos fortes que a mantinham junto do 
corpo forte ficaram suportveis e ela no reagiu, deixou de lutar, e sentiu-se aquecida. De sbito, ele soltou os braos, e ela tropeou, livre dele, e foi de encontro 
 porta. Os olhos ambarinos se surpreenderam ao olh-la, um instante, mas depois se encheram de ira.
    - Defenda-se, Shanna. Nenhuma artimanha de moa a livrar de mim. Ser minha quando e onde eu quiser.
    Ela sentiu medo, no dele mas de si mesma, pois, apesar de suas palavras, queria deitar-se com ele na cama estreita e mostrar-lhe definitivamente que era mais
mulher do que ele imaginava.
    Trmula, Shanna mordeu o dorso da mo, procurando sentir dor que lhe acalmasse o desejo. Girando, correu do aposento e s foi parar at encontrar-se, arfante,
ao lado de tila. Precisou esperar que a fora lhe retornasse antes de poder alar-se  sela. Seu rosto queimava onde o queixo barbado de Ruark lhe roara a pele
macia.
    Triste, olhou novamente para o beco escuro. Teria ele visto? Teria percebido o sbito desejo que deve ter surgido em seus olhos de mulher? A volta a casa foi 
muito demorada.
    Shanna montava tila pela praia at que o animal resfolegasse de cansao; ela, porm, no sentia nenhum prazer no ritmo exaustivo. s tardes, ia nadar, mas a 
gua era tpida e cheia de algas: isto tampouco lhe dava prazer. Durante as semanas seguintes, fez o mximo para ficar sozinha, e chegou ao ponto de evitar o pai, 
exceto se ele estivesse sozinho. Os cenhos de preocupao e as perguntas dele comearam a cans-la. Ela, porm, no tinha foras para enfrentar John Ruark e continuava 
sozinha.
    Certa tarde de sol, Shanna procurou a privacidade de pequena enseada escondida sob os penhascos, do lado oeste da ilha. Como precauo, levou tila pela praia, 
para evitar a estrada que levava ao interior da ilha. Cavalgando o corcel em meio s guas at a barriga, ela foi abrindo caminho por entre rochas salientes e logo 
chegou. Havia penhascos elevados nos trs lados. A nica forma de alcanar o local desejado era pelo mar. Sentindo-se segura, Shanna prendeu o animal e o deixou 
pastar nos tufos de capim macio que cresciam junto ao penhasco.
    Em estreita faixa de areia, abriu um cobertor  sombra e tirou a roupa, ficando s de blusa. L finalmente havia a privacidade que ningum poderia romper. Durante 
algum tempo, ficou deitada, lendo um livro de sonetos, passando os dedos distrada pelas madeixas. O calor do dia fez com que tivesse sono e, passando o brao pelos 
olhos, adormeceu.
    Acordou sobressaltada, sem saber por qu. Sua mente estava inquieta, mas no havia razo para alarme. Os rochedos estavam to descampados quanto antes. No havia 
ningum l.
    Tranqilizada, Shanna procurou eliminar seus pensamentos e, levantando-se, foi chapinhar no mar. Deu um mergulho e, com braadas longas, nadou at se afastar 
bem da praia. Brincando como criana, quis procurar conchas e mergulhou at o fundo. Durante algum tempo boiou de costas, erguendo-se e caindo de acordo com as ondas. 
Seu cabelo se espalhava como um leque gigantesco, como alguma criatura marinha encabulada, exibindo sua glria para apenas uns poucos felizardos. Enorme gaivota 
cinza de asas imveis ficou pairando acima dela, aproximando-se para melhor enxergar to estranha ninfa marinha.
    Cansada da brincadeira, Shanna voltou  estreita e oculta praia. Secou-se com a toalha, enrolou-a na cabea e deitou-se. Ficou observando uma nuvem passageira. 
Ela tocou o cume de um penhasco e...
    Sufocando um grito, Shanna ficou de p. O vulto de um homem estava  beira do rochedo. Largo chapu de palha lhe sombreava o rosto; a camisa estava descuidadamente 
sobre o ombro. Cales brancos lhe cobriam as coxas, e pernas morenas e compridas apareciam. Shanna sabia que os olhos dourados estavam sorrindo dela, zombando dela, 
desafiando-a e irritando-a.
    O guincho que lhe aflorou  garganta no foi sufocado ento. Era de pura raiva. No haveria lugar onde pudesse fugir dele? Furiosa, arrancou a toalha da cabea 
e a atirou aos ps.
    - V embora! - gritou, a voz ecoando na enseada. - Desaparea! Deixe-me em paz! No lhe devo nada!
    O riso de Ruark chegou aos ouvidos dela, enquanto ele caminhava pela beira do penhasco em redor da enseada. Comeou a cantar em possante voz de bartono, e as 
palavras eram loucas e tolas, acompanhadas de melodia que ela desconhecia:
    A orgulhosa Rainha Shanna no conseguiu encontrar o amor. Por isto, a orgulhosa Rainha Shanna flertou com um roedor.
    Ele a observava to de perto quanto Shanna o observava. Estremecendo, Shanna percebeu que a fina blusa achava-se ensopada e grudada  sua pele como nvoa fina, 
deixando nada  imaginao.
    Outro guincho irado abafou a cano dele; ela enfiou o vestido por cima da cabea, sem parar para amarrar as costas. Atirou as outras peas de indumentria no 
cobertor, que enrolou e atirou no lombo de tila. Dando um pulo para montar no cavalo, ela forou-o a entrar na gua e circular o penhasco e ento saiu galopando 
pela praia.
    - Bom-dia, minha senhora!
    O grito de Ruark fez com que ela cavalgasse ainda mais depressa, e mais uma vez o som do riso de Ruark lhe soou aos ouvidos at que, finalmente em casa, no quarto, 
ela escondeu a cabea debaixo do travesseiro.
    O ar estava pesado, e a noite quente. O lenol parecia mido e Shanna o atirou longe, como se fosse o abrao de um pretendente indesejado. No tinha sono e acendeu 
uma vela antes de coloc-la na mesa-de-cabeceira. Inquieta, caminhou pelo quarto, procurando e verificando sombras familiares, mas vendo em cada uma o vulto solitrio 
de p no penhasco saliente.
    H muito tempo, sua me lhe dissera que, independente do calor, jamais dormisse nua. Era uma ordem que Shanna no conseguira desobedecer, mas havia feito certa 
concesso, cortando algumas camisolas logo depois dos quadris. Era uma desse tipo que usava naquela noite, pea to curta que no poderia realmente ser chamada de 
camisola.
    Shanna ponderou que mesmo aquele calor era melhor do que a nevoenta e mida Londres. Foi  varanda, onde apoiou os quadris na madeira fresca e esculpida da balaustrada.
    A noite estava parada, mas Shanna abriu os braos e lentamente girou o corpo, tentando captar o arzinho fresco. Atirou os braos para cima da cabea, bocejou, 
arqueando as costas e sentindo a camisola comprimir-lhe os seios.
    Exalou demorado suspiro. Gostava de nadar nas claras guas azuis, de correr entre as rvores, e de sentar-se no lombo de um cavalo, enquanto ele corria como 
o vento. Na Inglaterra, era inconcebvel que uma dama fizesse esse tipo de exerccios, e Shanna adorava sua liberdade de poder agir daquela maneira ali. Ultimamente, 
porm, parecia que faltava algo, como se outra coisa pudesse preencher mais seus desgnios como pessoa. Ela no sabia especificar o que era, mas, quando essa sensao 
a possua, normalmente se acompanhava pela lembrana de olhos calorosos e ambarinos que a fitavam.
    Apoiando as mos na balaustrada, Shanna debruou-se para a frente, para contemplar o cu escuro. Nuvens passavam ligeiras carregadas por lufadas de vento. Um 
brilhante quarto de Lua iluminava os jardins e conferia halos prateados s nuvens fugidias de vapor.
    Sentou-se no parapeito, nele ps um p descalo e elevou o joelho. Contemplou devagar os terrenos  sua frente. Grandes trechos negros reuniam-se sob figueiras 
de Bengala cujas altas copas formavam densas sombras. Manchas de luz eram pintadas no gramado pelas rpidas pinceladas da Lua irreverente. Uma delas passou debaixo 
da copa de uma rvore. Shanna ficou de p e se debruou no parapeito, olhando firme para o homem agachado. A sombra desdobrou-se quando o homem se levantou, e ela 
percebeu que ele estava nu,  exceo de curtos cales brancos.
    - Ruark! - sussurrou por entre os lbios entreabertos.
    Virando as costas, ele chutou o gramado com a sandlia e ento foi embora devagar, assobiando leve cano. Shanna teve certeza ento. Conhecia aquele andar descansado 
e gracioso como o de um animal.
    - Maldito vagabundo! - Girando o corpo, Shanna voltou correndo ao quarto. Seu orgulho sentiu-se de repente ferido porque ele no fora para debaixo da sacada, 
ardentemente lhe suplicar seus favores. Apagou a vela, atirou-se na cama e ficou l sentada, olhando raivosamente para as janelas.
    - Como posso dormir com esse homem sempre me rondando, espreitando debaixo de minha varanda, espionando-me a todos os instantes?
    Irritadssima, virou de barriga para baixo e apoiou o queixo nos braos cruzados.
    Que queria dela aquele paspalho? Ha! No havia dvida quanto a isto. O trato! Ah, maldito trato! Ele queria a todo custo que o trato fosse cumprido. E a que 
preo! Passar uma noite com ele, estar  disposio dele!
    Shanna tentou sentir-se maltratada e zangada, mas a idia de passar uma noite com ele agitou alguma coisa nela, parecida a...
    -  apenas curiosidade - murmurou. - S tive uma provinha- da coisa e quero saber mais a respeito. No  nada mais do que qualquer mulher quereria. Bem, sou 
mulher e, estando em condio saudvel, poria seriamente  prova o ardor daquele vigarista. Ele me acusa de no ser mulher, porque no tenho vontade de me dar a
nenhum homem. Ele  um idiota, porque anseio ferventemente pelo homem bondoso e nobre que me pegar em seus braos e conhecer toda a minha paixo.
    Fechando os olhos, Shanna tentou formar uma imagem desse homem que viria a ela to prontamente. E ele veio, desta vez com cabelos negros e sorridente olhar ambarino.
Os olhos dela se abriram e a irritao lhe franziu o cenho.
    - Ele me espiona at a mente!
    Enraivecida, Shanna rolou na cama e atirou um travesseiro na ombreira da porta. Que espcie de homem era esse Ruark Beauchamp que se insinuava em seus sonhos?
    Passou-se uma quinzena; na tarde de um sbado, Shanna montou tila em plo e correu com ele pela praia, a alguma distncia depois do vilarejo. Vestia uma tnica
leve e um chapu de palha com aba larga, que lhe protegia a pele dos raios escaldantes do Sol. Estava descala e instou o corcel a se aventurar em guas mais profundas,
levantando a bainha da saia bem acima dos joelhos e enfiando-a s costas. O vento lhe soltou o cabelo, e este caiu em cascatas. Enfiou o chapu com mais fora e 
riu, alegre, enquanto corria mais depressa na praia, debruada no pescoo do animal.
    Subitamente, um assobio percorreu o ar, e o cavalo diminuiu a marcha. O assobio fez-se ouvir de novo e, apesar de seus esforos para levar tila a outro lugar, 
Shanna se viu sendo carregada para um arvoredo  margem do pntano. Sem rdeas, no podia forar o animal a obedecer-lhe.
    Ruark apareceu e assobiou novamente, desta vez baixinho, e ofereceu a mo ao cavalo. tila resfolegou e aproximou-se para aceitar o acar.
    A boca de Shanna se fechou e seu olhar raivoso se concentrou no olhar fixo, divertido e debochado de Ruark. Ele acariciou calmamente o focinho de tila enquanto 
o olhar se dirigia s coxas nuas e ao vestido mido que moldava os seios de Shanna.
    - Voc estragou um bom animal! - gritou ela, furiosa por haver ele conquistado to depressa a confiana de tila.
    -  timo animal, e inteligente. - Ruark sorriu devagar. - Eu teria levado muitos meses mais com outro cavalo. S o ensinei a vir quando eu assobiar.  mais
do que voc faz..
    Shanna ferveu, e seu busto arfou de indignao:
    - Se pensa que algum dia virei quando voc me chamar, est bem na hora de ser internado num hospcio!
    Pareceu que ele no a escutou falar. Seu olhar ardente viajou devagar pelo corpo pouco vestido da moa, e seu desejo se acelerou. Ele se recordou da maciez da 
pele dela.
    - Quer parar de me olhar assim? - vociferou Shanna, sentindo-se devorada por aqueles olhos ardentes.
    Sem uma palavra, Ruark ficou a seu lado e, em seguida, com um rpido movimento, postou-se atrs dela, sobre o animal. Shanna arfou com o desaforo e debateu-se 
ligeiramente, mas os braos dele se fecharam em redor dela e suas mos pegaram a crina de tila.
    - Desa! Est maluco? - protestou ela, mas sua mente foi invadida pela presso do peito rijo e nu dele s suas costas e pelas coxas compridas mostrando msculos
morenos ao lado das suas. As coxas dele se comprimiram intimamente contra as ndegas de Shanna, que ficou sufocada pela sensao de virilidade que ele lhe transmitiu.
    - O que voc quer? - Ela tentou livrar-se dele. - Se me violentar, vou mandar persegui-lo. Juro que vou.
    A voz dele lhe soou rouca nos ouvidos:
    - Fique quieta, Shanna, e deixe-me cavalgar com voc por algum tempo. Voc est acostumada a selas de mulher e tila tambm. Ele precisa que quem o cavalgue 
lhe ensine a obedecer, seja quem for. - Ruark acrescentou, em tom jocoso: - Voc poder refre-lo quando eu assobiar. Agora, preste ateno para ver como um homem 
cavalga.
    A espinha dorsal de Shanna enrijeceu ao ouvi-lo falar naquele tom risonho. Tirou o chapu da cabea e zombou:
    - E se formos vistos? O que faremos, Sr. Ruark?
    - Com o pntano de um lado e os recifes de coral do outro? - Ele riu levemente. - Duvido, e voc tambm. Agora se acalme, Shanna. Sua virtude est a salvo comigo. 
Quem poderia preocupar-se mais com voc do que seu marido? - O risinho dele mostrou certo tom amargo.
    - A salvo! - O escrnio se evidenciou nas palavras dela. - Quando voc est perto, no pra de me agarrar, e penso que  a nica coisa em que voc pensa.
    - Porque s existe tambm um pensamento em sua cabea, meu amor. - O murmrio aproximou-se do ouvido dela, enquanto ele lhe amaciava o cabelo. - E voc sabe 
qual ser o resultado. Farei cumprir o trato quando eu quiser, sob minhas condies, e de forma integral.
    - Voc  um ordinrio de forar uma dama assim!
    - Ordinrio? No! - Ruark deu de ombros. - S tenho vontade de ser pago por um servio prestado, segundo me foi prometido. Quanto a for-la... jamais! No quero 
mago-la, Shanna. Na verdade, devo dizer que quero partilhar um momento de ventura e apresent-la ao toque suave da paixo.
    Shanna girou o corpo para olh-lo; no rosto, ela demonstrava um misto de surpresa e raiva.
    - Chega! - Ruark a acomodou em seus braos e pegou firme a crina de tila. - Hoje voc est a salvo. S quero dar-lhe uma aula de equitao. - Observe. - Ficou 
mais objetivo. - Coloque os joelhos mais alto e deixe que o cavalo sinta seus calcanhares contra seu corpo. Assim...
    Bateu de leve nos flancos de tila com os calcanhares e o animal se movimentou devagar, empinado. Ruark debruou-se para a frente e o corcel acelerou o ritmo. 
Ruark o guiou por uma srie de manobras que surpreenderam Shanna. Ela sentia os movimentos do homem, aos quais o cavalo reagia como se os dois fossem uma s criatura. 
Sentiu ento os joelhos atrs dela se retesarem e, com um salto, tila disparou pela praia, e comearam a correr junto com o vento.
    Ruark sussurrou no ouvido dela, e Shanna virou-se para ele com olhar interrogativo.
    - Perguntei se seu pai a espera de volta cedo.
    Shanna sacudiu a cabea, e seu cabelo voou at o ombro dele. Ruark a comprimiu contra si e disse:
    - timo! Vou lev-la por uma trilha que descobri ao longo do pntano. No est com medo, est?
    Relanceando a vista para os olhos dele, Shanna viu neles calor e afeto e no sentiu medo algum. Sua curiosidade estava aguada com a habilidade de Ruark em fazer 
com que as circunstncias se ajustassem em seu benefcio. Esse era o homem que lhe tirara a virgindade, escapara do carrasco e aceitava sua servido com rara firmeza.
    - Estou em suas mos, senhor. - Ela se conformou, talvez um pouquinho mais alegre do que tencionara. - S espero que mantenha sua palavra.
    - No h razo para tra-la, Shanna. Vou ter a minha noite.
    Ruark inclinou-se para trs para poder sentir plenamente a velocidade imprimida pelo forte animal. tila correu mais depressa; seus cascos levantavam morrinhos 
de areia molhada e gua. Shanna jamais ousara conduzi-lo daquela forma, mas os braos fortes que a abraavam a faziam sentir se estranhamente segura.
    Com um estalo de lngua e um retesar de joelhos, Ruark fez o garanho diminuir a velocidade e dirigiu-o por estreita trilha que parecia no levar a lugar algum, 
apenas mais para dentro da ilha. De repente, depararam com uma vereda cheia de sol, onde um tapete de relva macia era cercado por enorme variedade de botes de cheirosos 
brincos-de-princesa, e rvores compridas curvavam humildemente os galhos  beleza da senda.
    Ruark desmontou e ajudou Shanna a saltar.
    - Voc tinha razo - murmurou ela. - Tem um jeito especial com os cavalos.
    Ruark esfregou o pescoo de tila afetuosamente.
    - Gosto de trabalhar com eles. Um bom corcel sempre reconhece o dono, uma vez estabelecido este fato.
    Shanna fitou firme Ruark at ele levantar os olhos para ela, com a testa franzida.
    - Voc conhece seu dono? - perguntou ela, rspida. - Para dizer a verdade, voc admite que algum homem seja seu dono?
    - Que homem, madame, seria capaz de me subjugar? - Ficou olhando firme para ela, com seu olhar perturbador. Sua voz estava macia  medida que ele falava, mas 
continha um tom de determinao que, de forma estranha, simultaneamente a assustava e irritava. - Afirmo-lhe, Shanna, meu amor, que s ser meu dono o homem a quem 
eu permitir.
    - Nem nenhuma mulher - retrucou Shanna. - Voc nega minhas ordens e no reconhece meu direito a elas.
    - Ah, amor, isto nunca! - Ruark deu um risinho. - Sou apenas seu humilde criado e voc, minha linda mulher. Estou sempre pronto a servi-la e a me tornar agradvel 
a seus olhos.
    Sem conseguir sustentar o olhar inflamado de Ruark, Shanna percorreu o local florido e arrancou um frgil boto, enfiando-lhe a haste no cabelo e prendendo os 
compridos cachos que lhe caam no pescoo. Fascinado, Ruark apoiou-se em robusto tronco de rvore e cruzou os braos no peito para gozar com mais calma o que se 
havia tornado seu passatempo favorito desde que os dois se haviam conhecido na priso: observar Shanna. Ela no podia imaginar o grau de tortura que lhe impunha, 
pois, sob suas censuras sutis, o rapaz se consumia em ardente desejo por ela.  noite, ele rolava insone em seu catre enquanto vises da moa o provocavam: Shanna, 
suave e entregue na carruagem; Shanna, encantadora e arrogante do outro lado de uma mesa; Shanna, linda e tentadora numa blusa molhada mais excitante do que carne 
desnuda. Ele no deixava de pensar nela, e sempre que a carruagem do pai percorria rpida os campos ou o vilarejo, Ruark se virava, na esperana de v-la sentada 
ao lado do latifundirio. Comparada  estatura do homenzarro, ela ficava pequena e frgil como uma rosa entreaberta, mas quando estava perto dela, Ruark tinha dolorosa 
conscincia de que, embora no fosse muito alta nem rechonchuda, era muito mulher, e ele a desejava.
    Seu perfume lhe permanecia na mente, a fragrncia de botes exticos de flor esmagados na pele de cetim, sob a qual havia o odor suave de mulher, misturado a 
perfume de sabonete. Era um fogo que lhe ardia no sangue, e ele no encontrava forma de debel-lo, pois a idia de outras mulheres o irritava quando as comparava 
a Shanna. Era como considerar o cu e depois o inferno como substituto, quando ele pensava em Milly Hawkins, filha da peixeira, para aplacar-lhe o desejo. A moa 
estava sempre disposta e no era feia, mas cheirava a peixe.
    De repente, Ruark comeou a rir, e Shanna virou-se para olh-lo, sobrancelhas erguidas de surpresa. Ruark fez apenas um gesto para os brotos que ela havia colhido.
    - Uma ndia usa uma flor assim, quando quer dizer ao marido de seu desejo por ele.
    Shanna corou e tirou o broto de onde estava; em seguida, fazendo gracioso beicinho, colocou-o em cima da outra orelha.
    Ruark deu um risinho e falou:
    - Isto que voc fez agora significa que uma virgem solteira est disponvel. 
    Shanna tirou o enfeite do cabelo e comeou a tran-lo com outras flores. Aps um instante, percebeu que Ruark a olhava com sorriso estranho e terno.
    - Minha querida Shanna, sua beleza ofusca a exuberncia deste paraso - afirmou ele.
    - Por que voc me galanteia, Ruark? - perguntou Shanna, divertida. Sua boca arqueou-se em provocante sorriso e ela se dirigiu a ele com graa quase sensual. 
Parou a alguns centmetros dele e estendeu um dedo, cuja ponta tocou o plo negro que lhe cobria o peito. - Nunca fui galanteada por um cativo antes.  a primeira 
vez. H pouco tempo, foi algum que ia ser enforcado que me dirigiu elogios. Aquele tambm foi o primeiro galanteio desse tipo dirigido a mim. Tenho recebido sempre 
cumprimentos de lordes e nobres cavalheiros das cortes.
    - Acho que voc me est atazanando, minha adorvel Shanna - retrucou ele, imediatamente. - Oh, amor, voc quer que eu perca a pacincia para que voc ento tenha 
motivo para me odiar? Sua conscincia ficaria ento aplacada pela palavra no cumprida? - A boca de Ruark curvou-se em sorriso diablico. - Se seu jogo  esse, madame, 
continue. Sua ateno e o desafio sero bem-vindos.
    Fagulhas iradas arderam nos olhos azul-esverdeados de Shanna, que retirou a mo do peito dele:
    - Voc  muito arrogante.
    Tencionando demonstrar-lhe seu desprezo, ela percorreu o corpo esbelto do outro, mal coberto pelos cales, mas seu olhar fraquejou ao perceber que nada havia 
no corpo dele de que ela pudesse zombar. Nada! Era rijo e esbelto, no magro, e seus msculos eram firmes e se salientavam na pele tisnada de sol. De repente, ela 
se perguntou como seria deitar contra aquele corpo forte durante uma noite inteira.
    - Vou voltar - anunciou Shanna abruptamente, constrangida pelos prprios pensamentos. - Ajude-me a montar.
    - Sou seu criado, madame.
    O alvo de seus dentes brilhou quando ele sorriu para ela, e Shanna girou o corpo com altivez. Ruark a seguiu, observando enlevado o ondular dos quadris da moa, 
que andava com provocao natural e graciosa. Ele se inclinou ao lado de tila, cruzou as mos para receber o p descalo de Shanna, e a alou para o lombo do animal.
Ajeitando-se rapidamente, Shanna deu suave pontap no corcel, que desembestou do local, deixando Ruark com os braos nos quadris.
    Shanna chegou  extremidade externa do pntano, quando sua mente a traiu com a lembrana de um uivo estrondoso numa noite de tempestade. Um gemido frustrado 
escapou da moa e com uma imprecao baixa e entre dentes, Shanna fez com que tila desse a volta e corresse novamente pela trilha, conduzindo-a a Ruark. Ele corria
em passo moderado e, quando ouviu o cavalo correr pelo caminho, levantou o olhar, surpreso. Estendeu a mo para passar o brao pelo pescoo do animal quando este
parou a seu lado.
    - Epa, calma! - exclamou Ruark e acariciou o nariz de veludo, olhando para Shanna com uma interrogao no olhar.
    - Vamos precisar de sua percia nos campos amanh. - Ela deu a desculpa de forma rspida. - Se voc vai andar a maior parte da noite para voltar  vila, vai
ser de pouca utilidade para ns.
    - Minha gratido imorredoura, madame - disse ele, e Shanna percebeu-lhe a inflexo.
    - Seu patife! - Ela sorriu sem querer. - Pensei que o Sr. Hicks ia enforc-lo. Ele parecia estar com esta disposio.
    - Ele est sempre mais disposto, madame, por uma moeda. - Ele riu, e subiu para trs dela no lombo de tila. - E eu sou muito agradecido por isso.
    Seus braos morenos a envolveram novamente, e ele espicaou levemente com os calcanhares os flancos de tila, instando-o a ir a meio galope. Ele lidava com o 
cavalo sem o menor esforo, e Shanna descansou, apoiando-se nele e permitindo que dirigisse o bravo animal. O contato prximo fazia com que sentisse a masculinidade 
que emanava dele e o calor vibrante que se espalhava pelo corpo dela.
    Quando estavam chegando ao lugar de onde ele assobiara, Ruark voltou a perguntar-lhe:
    - Quer encontrar-se aqui comigo de novo?
    - Evidente que no! - Voltou a ser a orgulhosa Shanna, ignorando a excitao crescente que a agitava. Sentou-se aprumada e retirou a mo dele, que se apoiava 
na coxa dela. - Acha mesmo que eu faria algo escondido de meu pai para me encontrar com um cativo e dar um passeio no bosque? O senhor  odioso por sugerir uma coisa 
dessas.
    - Voc seria capaz de se esconder atrs da sombra de seu pai - retrucou ele, loquaz. - Como uma criana, com medo de ser mulher.
    As costas de Shanna se enrijeceram, e ela se contorceu para livrar-se dele, num acesso de raiva.
    - Desa, seu... seu vigarista! - exigiu. - Desa e me deixe em paz! No sei por que fui montar com voc. Seu... seu rapazote de corao perverso, feito para 
limpar o lixo dos outros!
    O risinho baixo dele espicaou novamente a raiva dela, mas Ruark fez tila parar e saltou do cavalo, fitando-a com um olhar que era um misto de deboche e paixo. 
Dessa vez Shanna no se virou, ao chutar o animal nos flancos e este sair disparado pela praia.
    Como sua solido premeditada no deu certo, Shanna resolveu ser ativa. Sem planejar, transformou-se numa espcie de escriba do pai. Acompanhava-o nas incurses 
 ilha e ia fazendo anotaes de interesse, quando passavam pelos campos e por reas j limpas. Prestava ateno quando os capatazes e os supervisores faziam relatrios 
e anotava suas observaes ou cifras. Registrava as horas trabalhadas e o nmero de homens necessrios para completar uma tarefa, bem como as colheitas resultantes 
dos esforos deles.
    Evidenciou-se que, onde havia reas difceis, ela sempre via um jumento com um cavaleiro usando calas curtas montado na garupa, absorvido nas tarefas dos homens 
ou simplesmente andando por perto, explicando uma inovao com gestos ou com um desenho do bloco sempre  mo. Essa viso se fixou em sua mente com um monte de nmeros 
e notas e a freqente meno do nome dele; onde John Ruark estava, era onde os homens se sentiam mais felizes e o trabalho progredia.
    Embora Shanna se mantivesse ocupada com suas novas obrigaes, era impossvel, apesar do esforo que fazia, ignorar o homem. Como observou seu pai certa tarde, 
com um risinho, John Ruark era to conhecido quanto ele na ilha e, aparentemente, at mais estimado. Shanna, porm, continuou a lutar para esquec-lo, e conseguiu 
concentrar-se no trabalho. Quando o pai estava ocupado de outras maneiras e ela no tinha tarefas a cumprir na manso, ocupava-se com outras coisas, como verificar 
os livros, a qualidade das mercadorias ou simplesmente escutar as pessoas e seus problemas.
    Foi nessa condio que ela se viu na loja do povoado certa tarde de sexta-feira, para analisar as contas dos cativos. Ao folhear o livro-razo.o nome John Ruark 
lhe chamou a ateno, e a curiosidade fez com que verificasse as colunas das contas dele. As cifras a assombraram.
    A coluna de compras era curta. Alm de apetrechos para escrever, um cachimbo, sabo, uma s garrafa de vinho e, ocasionalmente, um pacote de fumo. A coluna mais 
comprida era a que detalhava mudanas no ordenado dele e este - ela acompanhou com a ponta do dedo - havia sido aumentado muitas vezes, mais de 10, dos seis pennies 
de um cativo recm-chegado. Verificou tambm o saldo de crditos e, calculando rapidamente, descobriu que, no fim do ms, ele teria quase 100 libras. Outro item 
chamou a ateno de Shanna. Havia outros ganhos alm do ordenado. Do modo como ia, estaria livre talvez em um ou dois anos.
    A porta dos fundos bateu. O Sr MacLaird, o lojista, sara alguns instantes antes, e o som de passadas fez-se ouvir s costas dela.
    - Sr. MacLaird - disse ela sobre o ombro. - Temos uma conta aqui que gostaria de discutir com o senhor. Quer fazer o favor de...
    - O Sr. MacLaird est ocupado l fora, Shanna. Posso ajud-la em alguma coisa?
    Shanna rodopiou no banquinho alto, pois aquela voz era inconfundvel. Dentes alvos reluziram no rosto moreno, enquanto o sorriso franco de Ruark espalhou-se 
nos lbios dele.
    - Perturbou-se, meu amor? - Ele desafiou o olhar atnito da moa. - Fiquei fora tanto tempo que voc j no me reconhece? Posso prestar-lhe algum servio ou 
talvez... - mostrou um colar de conchas - oferecer uma quinquilharia  minha dama favorita? - Ele baixou o colar e deu um risinho desanimado. - Perdo, madame. Esqueci 
que a senhora  dona da loja.  uma pena e um desperdcio de outro de meus talentos.
    Shanna no pde conter um sorriso a essa brincadeira:
    - Tenho certeza de que tem talentos em abundncia, Ruark. Meu pai me disse que voc comeou a construir o novo engenho. Parece que o convenceu de que  necessrio 
e ser mais eficiente do que o que j temos.
    Ruark fez um sinal afirmativo com a cabea e disse:
    -  verdade, Shanna. Falei isso mesmo a seu pai.
    - Ento, por que est aqui? Tem  de se dedicar mais ao trabalho, em vez de ficar indo e vindo como faz. Ultimamente,  voc mesmo seu supervisor e quem determina 
seu expediente?
    A sobrancelha de Ruark ergueu-se quando ele a contemplou e respondeu
    - No roubo seu pai, Shanna. Nada temo. - Fez um gesto com o polegar para os fundos da loja. - Trouxe um carro cheio de rum l da destilaria, porque tinha mesmo 
de vir aqui, terminar uns desenhos para seu pai. O Sr. MacLaird est testando os barriletes. Se voc est atrs de um auxiliar, ele daqui a pouco estar de volta.
    Shanna apontou a pena para o livro-razo aberto:
    - Voc parece que est ganhando muito para ser apenas cocheiro. E h aqui outras quantias que me surpreendem.
    -  simples - explicou ele. - Nas minhas horas de folga, trabalho para outras pessoas da ilha. Em troca, elas me prestam servios ou me pagam em moedas. H uma 
mulher no povoado que lava minha roupa e...
    - Uma mulher? - interrompeu Shanna, com sua curiosidade aguada.
    Ruark a olhou e perguntou, com um risinho:
    - Ser que voc, meu amor, est com cime?
    - Claro que no! - retrucou ela, mas corando. - Estava apenas curiosa. Voc dizia...
    -  s a peixeira, Shanna. - Ruark no parou a. - Voc no precisa ficar triste.
    Os olhos claros estreitaram-se, com raiva:
    - Voc  incrivelmente convencido, Ruark Beauchamp.
    - Psiu, meu amor - censurou ele ligeiramente, e seus olhos brilharam. - Algum pode ouvi-la.
    - E o que voc faz para a Sra. Hawkins? - perguntou Shanna maliciosamente, irritada com a simples presena dele. Tinha vontade de gritar com ele! Bater-lhe no
peito com os punhos! Qualquer coisa que fizesse desaparecer o sorriso debochado dele.
    Ruark demorou para responder; ps o chapu no topo de uma pilha de mercadorias e tirou a camisa, atirando-a em cima da outra.
    - Na maioria, o que o prprio Sr. Hawkins poderia fazer se dispusesse a isto: consertar os barcos dela, este tipo de coisa.
    - Do jeito que voc est ganhando dinheiro, no vai demorar muito tempo conosco - observou Shanna.
    - Dinheiro nunca foi problema para mim, Shanna. Considerando os ltimos acontecimentos, eu diria que meu problema foram as mulheres, ou melhor ainda, mulher, 
porque meu problema  apenas uma.
    O olhar de Ruark foi direto, desafiante, quase insultuoso, olhando-a lascivamente desde os tornozelos harmoniosos, enfeitados com meias de seda branca, e que 
apareciam por baixo da bainha levantada de suas saias, e passando pela cinturinha apertada num vestido rosa e branco e depois, mais descansadamente, para o busto 
redondo. O decote do corpete era recatado, e na garganta havia delicado babado de renda branca. Ainda assim, Shanna sentiu-se nua, sob a fora do olhar insistente 
dele. Embaraada, puxou uma das rendinhas da manga volumosa.
    - Quer dizer que voc me considera seu problema?
    - De vez em quando, Shanna. - Seu semblante ficou srio ao olhar dela. - Eu a considero a mulher mais linda que j vi.
    - No consigo acreditar que sou seu problema, Ruark - disse Shanna, implicando com ele. - Mal o vi nas ltimas semanas. Acho que voc exagera.
    Ele no respondeu, mas seus olhos expressaram claramente o que queria. A ousadia desse olhar fez com que ela se sentisse queimar. Corou, e seus dedos tremeram 
quando lhe devolveu o olhar. Suave luz envolvia o corpo dele; era o Sol que se punha e lhe coloria o vulto esbelto e rijo. Ele era Apolo envolvido em ouro, e ela 
ficou to abalada por sua viso quanto pelo olhar que ele lhe dirigia.
    - Voc deve ter sido criado com os selvagens - retrucou ela, em defesa. - Parece ter averso por usar roupas.
    Ruark riu de mansinho:
    - s vezes, Shanna, a roupa pode ser um estorvo. Por exemplo - os olhos dele de novo a acariciaram dos ps  cabea - um homem as acha terrivelmente incmodas 
quando sua mulher as usa na cama. - O sorriso dele ficou malicioso. - Mas aquela coisinha com que voc dorme,  quase nada. No seria trabalhoso despir uma mulher 
que vestisse uma camisola igual.
    O rubor do rosto dela se acentuou e ela disse:
    - Voc  realmente ousado em ficar perambulando por baixo da minha varanda! - Abruptamente, Shanna deu as costas para a escrivaninha como se para mand-lo embora 
e virou uma pgina, que bem podia estar em branco, pelo pouco que ela viu.
    Luz branda brilhava de uma pequena janela na parede acima da escrivaninha, delineando o perfil da moa num fulgor que a fazia parecer clida, quase anglica. 
Os olhos de Ruark se concentraram no cabelo que descia em cascatas douradas pelas costas da moa. O simples fato de estar perto dela tinha o efeito de vinho embriagador. 
Observou o arquear delicado do cenho, a linha suave do nariz, a curva sensual dos lbios cheios que ele ansiava por acariciar com os seus, o queixo firme mas harmonioso 
e a garganta esbelta e alva onde seu cabelo no pousava. O sangue lhe ferveu, e seus ps pareceram mover-se independentes at o levarem para junto da moa.
    Shanna sentia a proximidade dele em todas as fibras de seu ser. Os odores msculos de suor, couro e cavalos invadiram os sentidos dela. Seu pulso se agitou e 
seu corao disparou. Ela quis dizer alguma coisa, fazer algo para distrair a ateno dele, mas sentia-se paralisada,  espera de que ele a tocasse. A mo dele aproximou-se 
dela, as pontas de seus dedos lhe tocaram o cabelo...
    Passos apressados ouviram-se nas tbuas da varanda da frente, e o vulto de uma mulher baixa assomou na janela, rumo  porta. Ruark se aprumou e afastou-se depressa, 
e quando Milly Hawkins entrou espavorida, ele fingiu estar escolhendo um chapu. A escrivaninha estava fora de vista, atrs de uma pilha de barriletes quando se 
entrava pela frente, e a moa no viu Shanna, ao relancear, apressada, pela loja. Viu as costas bronzeadas de Ruark e correu para ele, segurando uma trouxa com as 
roupas do cativo contra o peito. Ele no pde evitar confront-la, e ela apressou-se em explicar:
    - Eu o vi entrar na vila, Sr. Ruark, e pensei que lhe podia poupar o trabalho de ir apanhar suas roupas l em casa.
    - Passo sempre por sua casa a caminho de casa, Milly. Eu mesmo podia t-las apanhado. - Sorriu-lhe contrafeito e, por cima da cabea dela, viu o olhar inseguro 
de Shanna para os dois.
    - Oh, Sr. Ruark, no tem importncia. Eu no estava fazendo nada mesmo e pensei em lhe evitar o trabalho. - Milly mexeu no cabelo preto, e os grandes olhos dela 
o percorreram. Ousadamente, a jovem estendeu a mo e passou pelas costelas de Ruark.
    O olhar furioso de Shanna foi mais do que penetrante, quando ela olhou as costas da moa e viu os dedos magros acariciarem a pele morena. Distraidamente, Ruark 
afastou a mo de Milly.
    - O senhor est livre hoje  noite, Sr. Ruark?
    Este deu um risinho ao ouvir a abordagem pouco sutil da moa:
    - Acontece que tenho tarefas que me vo ocupar a maior parte da noite.
    - Poxa, aquele velho Trahern! - exclamou Milly, desesperada, pondo as mos nas cadeiras. - Ele sempre tem coisa para o senhor fazer!
    - Escute aqui, Milly - comeou Ruark, sem deixar de ver Shanna arquear as sobrancelhas. Ele estava tendo dificuldade em dissimular sua alegria, e isto ficou 
evidente em sua voz: - O Sr. Trahern no me pediu nada mais do que lhe posso oferecer. - Ele pegou na trouxa de roupas. - Agradea  sua me pelas roupas.
    Era fato sabido na vila que Milly Hawkins era das moas mais preguiosas do lugar. Ela e o pai gostavam de ficar de pernas para o ar o dia inteiro, queixando-se 
da precria situao financeira da famlia, enquanto a Sra. Hawkins trabalhava duro e era quem ganhava o po de todo dia. O dinheiro que ganhava, porm, era desperdiado,
porque o marido tinha uma queda por rum. Ruark sabia que no era a moa que lavava suas roupas, e no era de seu feitio mostrar-se grato onde isto no cabia, porque
a moa
    certamente se enfiaria em sua cabana com a desculpa esfarrapada de que ia cuidar da roupa.
    - Minha me disse que o senhor deve ser o homem mais limpo de Los Camellos - informou Milly, alegremente. - Ela v o senhor ir lavar-se no crrego toda a tarde 
e dali a pouco o senhor volta e d a ela sua roupa suja. Meu velho diz que no faz bem a gente tomar tanto banho assim, Sr. Ruark. Poxa, no tem ningum, talvez 
s aquela puta da metida da filha do Trahern e o pessoal dela l naquela casa-grande, que gasta tanto tempo para ficar limpo.
    As gargalhadas de Ruark fizeram a garota parar abruptamente. Shanna sentou-se ereta no banquinho, olhando para Milly com todos os sentimentos contrrios a carinho
ou afeto. A moa, espantada pela reao de Ruark, virou-se e deparou com o olhar irado de Shanna, frio o bastante para imobiliz-la na hora. A boca de Milly caiu
at o queixo, e ela ficou atnita e muda.
    - Agora, meu nome  Madame Beauchamp, Milly - corrigiu Shanna, glida. - Madame Ruark Beauchamp, como quiser, ou, se no quiser, a puta Beauchamp.
    Milly gemeu, humilhada, e olhou para Ruark, que estava mais tranqilo. Shanna fechou o livro-razo com estrpito e, atirando o chicote para o lado, saltou no
cho.
    - H mais alguma coisa que voc queira aqui, Milly, alm do nosso querido Sr. Ruark? - Shanna levantou as sobrancelhas, em desafio. - Ele no est  venda, mas 
todas as outras coisas aqui tm um preo.
    Ruark se estava divertindo imensamente e aproximou-se do banquinho deixado vago por Shanna, encostando-se nele e contemplando as duas mulheres. Shanna estava 
majestosamente orgulhosa e altiva, cheia de raiva. Os olhos azuis-esverdeados flamejavam de clera. Milly, por outro lado, andava devagar pelo aposento, quadris 
balouando e os ps descalos arrastando-se no cho de madeira. Era mais baixa do que Shanna, magra, pele morena que se bronzeava ainda mais sob o Sol. Era bonita, 
mas no era difcil imagin-la dali a alguns anos, com um punhado de moleques de cara suja agarrando-lhe as saias, enquanto um outro lhe sugava calmamente o seio.
    - Pela prpria lei do seu pai, um cativo tem a liberdade de escolher qualquer mulher que o queira - afirmou Milly, embora sua rplica a Shanna fosse suavizada
porque Los Camellos pertencia aos Traherns. Aborrecer um deles era desafiar o destino. - Ora, o Sr. Ruark pode at me escolher. No h muita mulher aqui na ilha.
    A surpresa de Shanna evidenciou-se apenas por um instante.
    - Ah, ? - Ela arqueou uma sobrancelha interrogativamente, para Ruark. - Ele j pediu sua mo?
    Ruark no fez nenhum sinal afirmativo com a cabea nem nenhum gesto de negativa, mas deu um risinho maroto para Shanna.
    - Poxa, ele ainda no teve tempo, trabalhando como trabalha!
    - Foi para isso que meu pai o comprou - retrucou Shanna sucintamente, irritada com a moa - e no para criar crianas, como voc pensa, certamente no para pr 
uma enfiada de pestezinhas no mundo.
    Antes que Shanna pudesse continuar sua tirada, o idoso Sr. MacLaird entrou pela porta dos fundos e informou a Ruark:
    - O rum  de primeira. Leve l para baixo para mim, sim, rapaz? Parou de sbito ao ver Milly: - Oh, no sabia que tnhamos fregus. Shanna, meu amor, veja o
que a mocinha quer, como uma boa menina. Daqui a pouco o taverneiro vem atrs da cerveja, e vou precisar fazer contas com ele.
    Shanna fez um sinal afirmativo gracioso com a cabea, mas por alguma razo desconhecida, sentiu-se cada vez mais irritada com a moa.
    - Voc quer alguma mercadoria, Milly?
    - Quero sim. - Mais tarde, poderia gabar-se s amigas de que, pelo menos por algum tempo, a arrogante Shanna a servira: - O Sr. MacLaird tinha uns perfumes que 
ele disse que vieram de longe. Eu queria levar um ou dois vidros.
    Como Milly no portava nenhuma bolsa nem moedas, no era difcil imaginar o estratagema, mas Shanna foi at o lugar onde eram guardadas as fragrncias. Milly 
demorou-se a cheirar os frascos de perfume at que Ruark entrou pela porta dos fundos, carregando um barrilete no ombro e um enfiado debaixo do brao. Sob a tenso,
seus msculos e tendes se salientavam como cordas retesadas, e os braos e o corpo reluziam com uma pelcula de suor, como se esfregados por fino leo. Milly arquejou,
e o desejo lhe surgiu nos olhos pretos quando ela sussurrou, pasma:
    - Deus! Ele parece uma esttua grega!
    Uma linha branca aparecia acima dos cales, e o estmago rijo exibia uma linha estreita de plos negros que vinham do peito forrado de negro. O olhar de Milly 
ficou to concentrado naquela faixa nua que Shanna teve vontade de socar a moa. Passando depressa por ela, Shanna pegou as chaves e correu para abrir a porta da 
adega para Ruark. Furiosa, ela acendeu uma vela e o precedeu na escada, iluminando a passagem. Usou as chaves para abrir a porta inferior. A adega era fria e seca 
e, uma vez l dentro, Ruark ps os barriletes no cho e parou para descansar por um instante antes de levantar um deles e olhar interrogativamente para Shanna. Ela 
indicou um espao mais adiante nos escaninhos prprios.
    - Ele vai envelhecer enquanto os outros so usados.
    Ruark voltou para pegar o outro barrilzinho e, com uma careta, Shanna enfiou um dedo na parte superior dos cales dele, o que fez com que Ruark a olhasse surpreso 
e interrogativo. Mostrando a cintura solta, censurou-o com sarcasmo:
    - Milly  uma moa simples e facilmente excitvel. Se voc mostrar mais, ela talvez no se controle e ento voc pode arrebatar-se..
    - Tomarei cuidado, madame - rosnou Ruark ao colocar o outro barrilzinho no lugar. - Pelo menos  bom saber - exibiu os dentes brancos - que estou a salvo com 
voc.
    Meses de tenso e irritao estavam condensados em Shanna, sob exterior aparentemente plcido. Ela se aproximou de Ruark e sua voz baixa, quase um sussurro, 
embora possessa, praticamente cuspiu todas as slabas:
    - Senhor, cheguei ao fim de minha resistncia. O senhor me insulta todas as vezes em que nos encontramos e alega que no sou mulher. O senhor censura minha falta
de honra, quando apenas tratei de lhe negar uma vantagem grosseira.
    - Voc concordou - retrucou ele, raivoso. - Voc me deu sua palavra e no vou liber-la.
    - No h nenhum trato - sibilou Shanna, com raiva frustrada. Voc, supostamente, est morto, e no tenho culpa de voc no estar.
    - Que estratagemas femininos a senhora me prepara, madame? Cumpri toda a minha parte. Joguei seu jogo e confiei na senhora. Eu poderia ter fugido ou, pelo menos, 
tentado, mas sua parte no trato me impediu. Sua voz era um murmrio rouco. - Provei de um prato delicioso, Shanna, que  o suave calor seu, e desde ento estou faminto 
pelo que  meu por direito do casamento. E vou consegui-lo.
    Shanna fechou os punhos e bateu no peito dele com raiva.
    - V embora! - soluou. - Deixe-me em paz! O que lhe posso dizer para convenc-lo de que no quero nada com voc? Eu o odeio! Eu o desprezo! No tolero nem v-lo!
    Shanna lutou contra as lgrimas e arfou  procura de ar e esticou os braos contra ele. As palavras dele a feriram:
    - E que sou eu? Algo menos do que humano? Inferior a qualquer homem porque voc me encontrou num calabouo e escolhi honrar uma dvida junto a seu pai? Represento 
mais mal do que lhe poder atingir na vida? O que sou eu, que a faz gemer e dizer que a culpa foi minha e negar que foi um trato justo? Mas vou dizer-lhe uma coisa.
- Baixou o rosto at ficar  altura do dela; seus olhos brilhavam de frustrao e raiva. - Voc  minha mulher.
    Os olhos de Shanna se arregalaram:
    - No sou! - murmurou.
    - Voc  minha mulher! - Rangeu os dentes e agarrou-lhe os ombros, antes que ela lhe desse as costas.
    - No! Nunca! - disse ela, arfante.
    - Voc  minha mulher!
    Shanna comeou a debater-se; ele a abraou com fora, abafando-lhe os movimentos num abrao de ao. Soluando, Shanna empurrou-lhe o peito em vo. Sua cabea 
inclinou-se para trs com o esforo, e a boca de Ruark esmagou a sua. A raiva logo se transformou em paixo. Os braos de Shanna se enrolaram no pescoo dele e os 
dois se abraaram freneticamente. Seus lbios se colaram aos dele, e toda a fora do desejo dela o inundou, at que a mente de Ruark estranhou o frenesi da reao 
dela. Havia esperado uma luta; em vez disso, encontrou a fria de um desejo ardente nos lbios dela, quente na boca de Shanna, arrebatador quando suas lnguas se 
cruzaram.
    Eles se separaram arfantes, ambos perplexos por seu ardor. Tremendo, Shanna apoiou-se nos barris empilhados, indefesa e exangue. Seus olhos se fecharam e o busto 
arfou no esforo para respirar.
    Com o autocontrole seriamente prejudicado, Ruark quase a tomou de novo nos braos, mas ocorreu-lhe que no deveria faz-lo numa adega escura! Ela valia muito 
mais para ele. E logo viriam e o levariam embora novamente. Pacincia! Pacincia, homem!
    Ruark conteve o desejo que o dominava, graas a uma vontade de ferro e, virando-se, subiu devagar a escada, para que o corpo e o crebro esfriassem. Ao abrir 
a porta, deu de cara com o Sr. MacLaird e ignorou a pergunta em seus olhos:
    - Ela est contando os barris.
    Quando Ruark entrou novamente na adega, Shanna tambm estava controlada, mas seus olhos o seguiram at ele voltar a seu lado, e ento sussurrou:
    - Obrigada.
    - No me agradea ainda - murmurou ele, e gentilmente limpou-lhe uma mancha no brao. - Teremos um lugar e uma ocasio mais favorveis do que isto aqui.
    Ruark foi buscar outra carga, e ao trazer os ltimos barris, Shanna estava sendo levada at  porta da loja pelo Sr. MacLaird. Milly continuava meio aparvalhada; 
o desejo lhe era evidente no olhar, e em vez de preocupar-se com a ateno da moa, Ruark fechou as portas da adega, pegou o chapu e a camisa e foi embora desnecessariamente 
apressado.
    A manh florescia em coloridos vibrantes que reluziam sobre as guas mudando-lhes a cor, tocando a agitada arrebentao com os rseos e dourados da aurora. O 
prprio ar parecia carregado de uma nvoa rosada, e o verde dos gramados e das rvores se espraiava a perder de vista at juntar-se ao azul do mar.
    Shanna permaneceu sozinha em sua varanda, banhada pelo ouro plido do Sol nascente. Seu roupo de cores suaves era como uma nuvem turbilhonando em torno dela, 
enfunando-se s brisas que agitavam a fragrncia da vinha florida que se enroscava na balaustrada. Seu rosto estava pensativo, olhos ansiosos, e os lindos lbios 
separados como  espera de um beijo. Seus braos lhe estreitavam a cintura esbelta como se buscassem substituir o abrao de um apaixonado. agora apenas uma lembrana 
do ontem.
    A glria da aurora desapareceu  luz brilhante do dia  medida que o Sol surgia no horizonte e comeara sua trajetria pelo cu. Suspirando, Shanna voltou  
cama e tentou dormir de novo antes que o calor chegasse a seu quarto e fosse obrigada a levantar-se. Fechando os olhos, tornou a sentir a quase dor de quando seus 
seios foram esmagados de encontro ao peito rijo de Ruark, e o calor da respirao dele contra seu rosto; uma vez mais viu a nsia em seu olhar dourado quando inclinava 
os lbios para os dela.
    Os olhos de Shanna se abriram, pois outra vez o despertar do prazer, profundo dentro dela, era forte e perturbador. E assim fora durante toda a noite. Quando 
descansava, a lembrana de sua prpria reao lhe atravessava o crebro, mergulhando-a numa quente excitao.
    - Qual a cura para este mal? - resmungou Shanna para si mesma. Por que se sentia to angustiada? Ela nunca ansiaria por um homem e no encontraria satisfao 
em nenhum? Suportara antes as atenes de homens muito mais nobres, senhoris, e no encontrara calmante para seu corao, apesar de que agora sua mente sempre visionasse 
o rosto daquele que a perseguia, esse Ruark, esse demnio, esse drago de seus sonhos.
    Suas plpebras pesavam de sono; lentamente ela sucumbiu, a mente navegando inquieta num mar agitado. L estava ele, o corpo lustroso de bronze, esperando por 
ela antes que pudesse alcanar seus sonhos, e sabia que se o tocasse ele seria real.
    Seus olhos encontraram o rosto dele e foram atrados por alguma satnica seduo. Os olhos a percorriam como garras douradas, enquanto ele a olhava de soslaio 
e escarnecia, e os lbios se moviam sem cessar, num murmrio:
    "Venha para mim. curve-se a mim. consinta... permita... venha!"
    Ela resistia, encastelada em seu medo. Ento o rosto comeou a mudar. O nariz cresceu, ficou um focinho de drago, com fumaa a sair pelas narinas. A pele se 
tornou verde e escamosa, e os olhos esbraseavam como lanternas douradas atraindo o olhar dela com seu brilho hipntico. As orelhas se destacavam como asas de morcego. 
Os dentes muito brancos se transformaram em colmilhos diablicos. Ento, com um rugido, ele resfolegou chamas que a engolfaram numa paixo ardente, latejando por 
todo o corpo, sabotando-lhe as foras, enfraquecendo sua vontade, retirando-lhe toda resoluo at que ela rastejasse em desamparado terror, implorando  fera que 
cessasse, chorando por piedade, lutando para respirar dentro das chamas sem ar.
    Shanna acordou tremendo de frio, embora o calor no quarto tivesse de fazer suar: a camisola e os lenis estavam midos. Lutava em busca de ar, ofegando para 
conseguir uma respirao profunda, como se alguma presena pesada a oprimisse. Em pnico, voou do leito para a varanda. L, voltou-lhe a razo e ela se acalmou. 
O mundo estava como sempre fora, o Sol um pouquinho mais alto, o dia um pouquinho mais quente.
    Desatenta, Shanna comeou a caminhar de um lado para outro no quarto, achando qualquer distrao melhor do que entregar-se s fantasias de sua mente. Teria de 
tomar medidas drsticas para aliviar essa loucura que a atormentava. No podia dormir. No podia comer. Sua vida era um torvelinho. Seu quarto se fechava em torno 
dela, e em cada canto ouvia o riso sardnico de Ruark e lhe via o rosto moreno, zombeteiro. Arrancando-se a essa tortura, voou para baixo, buscando o pai.
    Orlan Trahern se deteve, com uma colher de melo a meio caminho da boca. S algo importante o desviaria de suas transas com a comida: a viso da filha nessa
manh fez isso. O cabelo dela estava emaranhado e entrelaado, os olhos vermelhos e inchados, plidas as faces, e no estava vestida e preparada para enfrentar o 
dia. Inacreditvel que lhe aparecesse nesse estado. O fazendeiro devolveu a colher ao prato e esperou uma explicao.
    Ante o sobrolho carregado do pai, Shanna se irritou e viu a aflio dele quando o viu largar a colher. Deu-se conta de que ele esperava que ela falasse, mas 
as palavras no lhe acudiam, e no encontrou resposta pronta para a pergunta no formulada. Encheu de acar a xcara de ch colocada diante dela e estremeceu quando 
a quentura da bebida lhe queimou a lngua.
    - Desculpe, Papai, tive uma noite pssima e ainda no me sinto bem. No se aborreceria, se eu no fosse com voc hoje?
    Orlan Trahern ergueu a colher e mastigou enquanto considerava a solicitao da filha.
    - Ultimamente me acostumei com sua companhia, minha querida. Mas suponho que eu no ficaria totalmente desnorteado, se voc no me acompanhasse durante um ou 
dois dias. S lido com esse negcio h dez anos. - Levantou-se e apalpou a testa da filha, achando-a febril. - Eu ficaria muito triste se voc adoecesse - continuou 
ele. - V para seu quarto e descanse o resto do dia. Mandarei Berta atend-la no que for preciso. H assuntos urgentes que preciso resolver. Vamos, filha, levo voc 
l para cima.
    - No, Papai! - Shanna no conseguia suportar a idia de voltar. No se incomode. Vou fazer uma boquinha e depois vou.
    - Bobagem! - vociferou ele. - Vou bot-la na cama e providenciar para que nada lhe falte; depois, vou embora. Agora venha.
    Desanimada, Shanna suspirou e lhe pegou o brao, sabendo que havia errado, porque agora estava encurralada e passaria o dia nos seus aposentos.
    Trahern aconchegou a filha na cama antes de se despedir. Shanna no teve tempo de se levantar, porque em seguida chegou Berta, preocupadssima com seu bem-estar. 
A testa de Shanna foi apalpada de novo, sua lngua verificada, e o pulso tomado.
    - No sei bem, mas deve ser febre. Voc est quentinha. Um pratinho de canja e ch de louro lhe faro bem.
    Antes que Shanna pudesse negar ser preciso tomar essa providncia, a mulher saiu, voltando logo com uma bandeja. Shanna estremeceu com o gosto ruim do ch, mas 
a governanta no cedeu, e Shanna recebeu ordem para tomar todas as gotas da bebida. Quando finalmente pde mais uma vez ficar sozinha, enterrou a cabea debaixo 
do travesseiro e socou a cama, frustrada.
    - Maldito patife! Maldito patife! Maldito patife!
    O dia se transformou em noite, mas Shanna no se acalmou. Sua mente estava exaurida pela batalha e lhe deu a impresso de estar imvel em seu crebro, enquanto 
todos os argumentos percorriam as mesmas e conhecidas trilhas. A razo e a lgica no negada de seus prprios motivos declinaram sob a fadiga que a consumia; enquanto 
as inmeras ameaas criadas pelo fato de Ruark no ter sido enforcado a acossaram at que ela ficou aptica. Sem foras, desabou numa cadeira e atirou a cabea para 
trs. Tinha certeza de que no ficaria livre de Ruark Beauchamp. A cada dia ele ousava mais, e cada vez que os dois se encontravam, ele a confrontava mais abertamente. 
Sobrava-lhe muito pouca coisa de que se orgulhar no embuste em que transformara o desejo do pai. De todos os mais prximos a ela, Pitney era o nico a quem ela no 
enganara, e as mentiras no combinavam com ela. Havia sido criada em meio  verdade e lhe ensinaram a enfrent-la, e toda vez que fechava os olhos a viso de um 
rosto plido por trs da janela de barras do furgo a atormentava, e seus ouvidos
    doam com o lamento lgubre  noite. No conseguiu mais suportar a luta. Precisava livrar-se desse conflito ntimo.
    Com um soluo, Shanna foi, trpega, at a cama, onde desabou. Seu gemido desesperado foi abafado pelo travesseiro.
    - Pronto, pronto. Cumprirei o trato. Eu cedo.
    Shanna fechou os olhos temerosa, mas apenas a meia escurido confortvel estava presente; o sono chegou ento como onda muda e ela foi engolfada por sua paz.
    Hergus, a escocesa, era leal e rpida. Conduziu Ruark pelas ruas, parando sempre para certificar-se de que ele a seguia, mas ficando vrios passos  sua frente, 
levando-o em redor da casa da plantao e depois por estreita trilha atravs das rvores, no morro atrs da casa. Passaram por uma srie de chals no utilizados. 
O caminho foi dar numa cerca viva e, dali, a uma pequena clareira. L,  sombra, oculto da Lua, havia outro chal, maior e mais espaoso do que os demais, onde reluzia 
plida luz  janela.
    Ruark sabia que aqueles eram os chals de hspedes da manso. Eram, porm, pouco usados, porque a maioria preferia o luxo da casa-grande. Ruark desconhecia por 
que havia sido chamado ali. A mulher o procurou em seu casebre, e disse apenas que era Hergus e que ele devia acompanh-la. Sabia que ela fazia parte da criadagem 
de Trahern, mas no poderia imaginar que o latifundirio fosse convoc-lo daquela maneira excessivamente discreta.
    Com a curiosidade despertada, seguiu Hergus, usando apenas sandlias e cales. Ela o levou  varanda da cabana e segurou a porta para que ele entrasse na casa. 
Depois, bateu a porta e ele lhe ouviu os ps se afastando na noite. Perplexo, Ruark relanceou os olhos pela pequena sala de estar iluminada por uma nica vela que 
lanava uma luz pouco mais viva do que a da Lua. O aposento era confortvel e luxuosamente mobiliado. O tapete no qual ele pisava poderia facilmente pagar sua liberdade.
    Um rudo interferiu com o silncio, e uma porta se abriu. Ruark olhou atnito. Era Shanna, e seu nome escapou dos lbios dele, em tom interrogativo. Como plido 
fantasma na noite, ela se adiantou, vestindo uma tnica branca, longa e justa, os cabelos presos numa fita lhe caindo nas costas. Ao falar, sua voz estava rouca:
    - Ruark Beauchamp. Vigarista. Patife. Assassino. Enforcado. Morto. Enterrado numa sepultura. Voc me perturbou muito nos ltimos meses. Voc vive tagarelando 
sobre um trato, enquanto eu digo que ele no existe. Mas resolvi honr-lo e pagar minha dvida para que voc no tenha mais nenhum direito sobre mim. Desta forma, 
ficarei livre. Ento, como diz voc, durante esta noite e at a primeira luz da alvorada, vou desempenhar o papel de sua mulher. E depois no quero mais saber de 
voc.
    O riso dele terminou num bufar, e Ruark a olhou firme, sem acreditar. Perambulou pela sala e, sempre acompanhado pelo olhar de Shanna, verificou a ante-sala, 
a sala de jantar e at por detrs das cortinas de seda. Depois, se aproximou dela e Shanna devolveu-lhe o olhar petulante.
    - Onde est seu guardio Pitney? - perguntou ele. - Onde  o covil dele desta vez?
    - No existe ningum. Estamos ss. Voc tem minha palavra.
    - Sua palavra! - O riso dele tinha uma conotao debochada. - Isso, madame, quase me assusta.
    Shanna ignorou a ironia dos comentrios e apontou na direo do quarto.
    - No vai olhar debaixo da cama? Talvez sua virilidade precise ser recompensada e protegida.
    Ruark deu-lhe as costas. Pensava em fugir antes que o pior de seus temores fosse reconhecido. Seus ps, porm, pareciam de chumbo, e a idia de t-la em seus 
braos comeou a atorment-lo.
    - Temo que recomecemos o jogo - disse ele, rspido. - J sobrevivi a tanta coisa, que nem imagino o que voc estar preparando para mim.
    O riso de Shanna o cativou, quando ela estendeu o brao e lhe afagou as costas, percorrendo com os dedos os msculos rijos. Os joelhos de Ruark ficaram fracos 
de repente, quando a mo dela o tocou e lhe percorreu as costas com suavidade de seda, agitando-lhe as emoes a tal ponto que ele sentiu dor na boca do estmago. 
Ele rangeu os dentes e murmurou:
    - Os espinhos que vo para o diabo!
    Ele a encarou e a mo dela lhe esfregou de leve o peito. As narinas de Ruark tremeram e seu cenho enrugou-se. Ele ia experimentar o que ela suportaria.
    Deliberadamente, ele lhe soltou o lao da parte superior do manto. Shanna enfrentou-lhe o olhar zangado e apenas sorriu, quando as mos dele agiram at abrir-lhe
a tnica. Ela encolheu os ombros e a pea lhe caiu aos ps, revelando um pano branco e reluzente, semelhante a uma tnica grega. Um ombro macio e adorvel estava
tentadoramente nu, e o outro preso com os mesmos pregadores de seda que lhe enfeitavam o manto. A tnica no escondia nada, e Shanna viu lampejos de paixo nos olhos 
ambarinos que a olhavam extticos. Os seios redondos intumesciam contra a teia de gaze que lhes moldavam as formas e contra os bicos impudentes. A respirao de 
Ruark lhe ficou presa na garganta e ele no conseguiu controlar o tremor que lhe sacudia o corpo. J percebera que, debaixo das roupas, Shanna era tudo o que os 
homens sonhavam: uma viso de incomparvel beleza. Sua pele reluzia com brilho de cetim; atravs do tecido ele viu a curva de sua cintura, espantosamente fina em 
sua liberdade sem rendas,. as curvas redondas dos quadris, e a graa esbelta das pernas.
    - Minha inteno - disse Shanna suavemente -  ser sua mulher sob todos os aspectos, do jeito que voc quiser.
    A paixo h longo reprimida de Ruark explodiu, sufocando a raiva e deixando apenas pequena desconfiana em sua mente. Tambm isso ele eliminou. Aquela noite
valia todos os riscos.
    Entretanto, no conseguia compreender os motivos dela, e seus olhos se deleitaram enquanto se banqueteavam, famlicos, na beleza dela, examinando todos os encantos 
outrora ocultos a ele. Shanna sentia-se devorada, e custou-lhe um esforo o permanecer complacente sob seus olhos esquadrinhadores.
    - Venha. - apressou-o, e a voz no lhe parecia a sua. Puxou-lhe o brao: - Seu banho est pronto, Sr. Beauchamp.
    Ruark deixou-se conduzir como um animal at o quarto de dormir, onde um grande e macio leito de dossel ocupava a parede ao fundo. Havia um candelabro na mesa 
ao lado dele, suas luzes tremulando  brisa suave que ondulava as cortinas das janelas. Abaixo delas, copos e garrafas de cristal, com variadas bebidas, aguardavam. 
Cortinado branco e fino fora atado s colunas da cama, pesadas e adornadas, e ele viu que as cobertas haviam sido dobradas convidativamente e os travesseiros afofados.
    Shanna parou ao lado da tina que ficava em frente ao quarto. Uma candeia brilhava ao lado dela: sua luz lhe revelava a silhueta atravs da camisola, demonstrando 
toda a sua beleza. Como chegasse bem perto dela, os suaves olhos verdes da moa se ergueram e encontraram os dele, que estava quase subjugado pela proximidade dela, 
por sua doce e extica fragrncia.
    Seus seios se comprimiam ousadamente contra a gaze da camisola difana, quase a tocar-lhe o peito. Ruark fez o que podia para conter a urgncia que o inundava
e evitar um simples estupro.
    - Pensei que voc apreciaria um banho - murmurou Shanna. - Se no...
    Os olhos de Ruark varreram o quarto, mas no pde achar lugar onde assaltantes se escondessem, e decerto no o enorme Pitney. Estavam abertas as cortinas e janelas, 
e o ptio escuro e a mata por trs deles enviavam a seus ouvidos apenas os habituais sons da noite, o pipilar de passarinhos e o ocasional coaxar de sapos ou cricri 
de insetos. Voltou o olhar para Shanna, que esperava com pacincia sua resposta.
    - Tal riqueza pode embotar-me os sentidos. - Atirou fora as sandlias. - Mas quero sabore-la plenamente at que baixe minha condenao.
    Shanna sorriu, suave; seus dedos finos puxaram as presilhas dos cales dele.
    - Ainda no confia em mim..
    - Lembro-me de nosso ltimo encontro na Inglaterra - respondeu Ruark, secamente - e receio que interrupo igual possa tornar-me intil para qualquer mulher.
    Shanna passou as mos em suas costelas, porm sempre o olhando no rosto, enquanto ele atirava os cales numa cadeira.
    - No banho, meu drago sensual. No lance as suas chamas sem propsito. Estou aqui para cumprir o trato. No precisa mais temer-me.
    Ruark mergulhou o corpo na gua quente e relaxou por um momento nessa delcia. Como seu olhar fosse at ela, Shanna acariciou-lhe o ombro
    e lhe ofereceu um gole de conhaque. Ruark emborcou o copo de uma s vez, o que lhe soube muito bem. Tomando dele o copo vazio, Shanna serviu outra dose e lhe 
ps o copo na mo. Seu beijo foi to suave e rpido nos lbios dele como o de uma borboleta numa rosa.
    - Melhor tom-lo devagar, meu amor, e sabore-lo completamente. Ruark recostou-se contra a beira alta daquela espcie de banheira e fechou os olhos, saboreando 
a sensao da gua quente. Seus banhos no riacho tinham sido bastante bons no que se referia  limpeza, mas deixavam muito a desejar em matria de conforto e relaxamento. 
Abriu um olho para espiar Shanna pondo o copo de lado.
    - Esposa de verdade voc ser?
    - Por esta noite - disse ela, acenando com a cabea.
    - Ento, esfregue-me as costas, esposa.
    Atirou uma esponja e se inclinou para diante, esperando-a. Shanna foi at ele: suas mos eram gentis ao ensaboar o largo costado. Outra vez lembrou-se de um 
gato macio e forte enquanto suas mos deslizavam por ele, e no pde deixar de maravilhar-se ante a fora que ali jazia em repouso sob seu toque. Estranhamente contente 
com a tarefa, Shanna com todo vagar ensaboou-lhe os cabelos negros, secou-os e os escovou. Massageou-lhe o pescoo e os ombros, desmanchando qualquer fadiga que 
poderia haver ali. Ruark no podia lembrar nenhum outro momento em sua vida em que houvesse sentido tal beatitude. Depois, ela correu o dedo ao longo do queixo dele, 
raspando a unha comprida ao longo da barba curta. Shanna empurrou-o para trs at que ele se recostasse de novo na borda da banheira e, pegando navalha e sabonete, 
barbeou-o com cuidado; depois, bateu-lhe gentilmente no rosto com uma toalha quente.
    -  assim que fazem as esposas? - perguntou, quase hesitante. - Tenho tido to pouca prtica que no sei..
    Os olhos de Ruark encontraram os dela, brilhando com doura to perto acima dele. Tentou pegar-lhe a mo e atra-la para junto dele, porm ela o deixou e foi 
at a janela aberta, onde se encostou no peitoril e brincou com as borlas" das cortinas. Ruark relaxou para acabar seu banho. Vira o fugaz franzir de sobrancelhas
que lhe atravessara o rosto e ficou a cogitar que triste circunstncia arrancara Shanna de sua segurana. Decerto, no ataque dele, pois no se mexera para arriscar-se
a uma chicotada ou pior ao busc-la.
    Shanna tentou dominar a trepidao que havia surgido, e combateu a mar montante de frieza que se movimentava dentro dela. Ao encontrar os olhos de Ruark o choque
fora agudo, pois subitamente se dera conta de que se aproximava bem depressa o momento do encontro que preparara. Encontraria prazer ou sofrimento nos braos dele? 
Tarde demais para retirar-se dessa loucura. Como podia ela ter acreditado que um escravo, um colono que j havia provado no ser um cavalheiro, respeitaria sua feminilidade? 
Como podia ter-se jogado nessa confuso to temerariamente?
    Um som de chapinhar atrs dela: Shanna relanceou o olhar e o viu erguendo-se do banho. Muito tarde! Tarde demais!
    Ruark se erguera e apanhara uma toalha, percebendo a olhada de Shanna bem como, por um instante em seus olhos, o medo da completa nudez, antes que ela conseguisse 
escond-lo. Uma traio agora?, imaginou ele. Shanna daria o fora? Ou chamaria gente da pesada? Ruark esperou. Estava absolutamente vulnervel.
    Nervosa agora, Shanna afastou o olhar da viso terrvel do homem nu e foi esperar ao p do leito. Ruark a observava com cautela, enxugando-se; depois, encaminhou-se 
para ela. Os olhos da moa vacilaram sob o olhar direto do homem, seus dedos trmulos se entrelaaram. De repente, ela era como uma menininha num corpo de mulher 
plenamente desabrochado. Shanna convocou toda a sua determinao para falar, porm a voz era fina e fraca:
    - Ruark,  minha vontade que isto acabe.  minha vontade que o trato se cumpra. Sei que tem motivos para odiar-me, mas, Ruark... - seu lbio inferior tremeu 
quando ela o olhou, lgrimas a velar-lhe os olhos - por favor, no me machuque.
    Ruark ergueu um dedo e limpou uma lgrima que escorria pelo rosto dela; depois murmurou, pensativo:
    - Voc est tremendo..
    Voltou-se e atirou a toalha num canto. Shanna vacilou e retesou-se  espera do ataque, mas, em vez de ser assaltada, ouviu um risinho vindo das profundezas do
peito dele:
    - Na verdade, julga-me um animal, madame, algum drago vindo para despeda-la? Ah, pobre Shanna, moa sonhadora. Esta hora de amor no  hora de tirar e sim
de dar e partilhar. Voc me d esta noite da mesma forma que lhe dei meu nome, livremente, por nossa prpria vontade. Devo, porm, preveni-la de que voc talvez
encontre alguma coisa aqui que a ligar de modo mais eterno do que qualquer outra coisa em sua vida.
    Estaria ele se referindo a um filho? Shanna franziu o cenho e virou as costas a ele. Era uma idia que ela evitava. E se...
    Os braos de Ruark a envolveram com infinito cuidado, e ela se esqueceu de tudo. O rosto dele roou os cabelos dela, que recendiam  sua fragrncia de jasmins 
vermelhos e frangipanas, at que sua mente teve vertigens com o aroma embriagador. Ruark sabia que devia ir com calma, ou do contrrio o medo de Shanna destruiria 
o momento, mas precisou controlar-se muito para cortej-la cautelosamente. Shanna aplacou suas dvidas e venceu a tenso e a resistncia do corpo ao lembrar-se repetidamente 
que ele era, ao menos naquela noite, seu marido e que, com a alvorada, tudo terminaria e ela se veria livre dele.
    Levantando os cabelos dourados e pondo-os de lado, ela lhe ofereceu o ombro; os dedos compridos de Ruark habilmente desembaraaram-se das presilhas de seda e 
afinal a tnica lhe caiu aos ps. Sua pele contrastava com a morenice dele como uma prola translcida num canteiro de terra quente. Uma vez mais ele a abraou, 
fazendo com que ela tivesse contato ntimo com seu corpo esbelto. Shanna sentiu-lhe o corpo rijo e msculo e
    fechou os olhos quando os lbios ardentes de Ruark lhe percorreram a garganta e os ombros. As mos dele a acariciaram, lentamente excitando-a, afagando-lhe os 
seios e baixando at a barriga. Uma onda fervente e formigante de excitao a inundou. Ela ficou simultaneamente fria, quente e trmula. Sua mente girou bria e 
ela esqueceu de se repetir o que vinha repetindo. Um suspiro baixinho lhe escapou quando ela inclinou a cabea para trs sobre o ombro dele, espalhando a cabeleira 
sobre o brao dele. Ergueu o rosto para encarar o do homem; seus lbios trmulos se entreabriram quando a boca de Ruark esmagou a dela. Virou-a para si e os dois 
se juntaram como ferro forjado; seus beijos j agora eram selvagens e loucos, devoradores quando suas lnguas se encontraram e suas bocas se grudaram com faminta 
impacincia. A mo dele percorreu as costas de Shanna fazendo com que os quadris da moa se comprimissem mais contra ele. A paixo que o devorava explodiu dentro 
dele, e o fogo em seu rgo ameaou escapar a seu controle.
    Ruark dobrou um joelho na cama, puxando-a com ele, e ambos caram em cima dos lenis. A boca aberta de Ruark, quente e molhada, queimou os seios dela e os dentes 
brancos delicadamente mordiscaram a cintura e a pele macia da barriga de Shanna. Esta fechou os olhos, arquejante e sem poder respirar, flexvel s carcias dele.
Olhos ardentes e lascivos, Ruark baixou o corpo sobre ela, separando-lhe as coxas e comprimiu-se dentro dela. Shanna cedeu para receber as estocadas rijas; seu corpo
de mulher reagiu instintivamente  sensao nova, indescritvel, desabrochante e estilhavel que se formou, aos arranques, dentro dela. O prazer foi crescendo tanto 
que ela se perguntou se poderia toler-lo.
    Foi a magia do enlevo estonteante, lindo e enorme que a fez curvar-se contra Ruark com ardor louco equivalente ao dele. Um xtase selvagem os atingiu, unindo-os 
num caldeiro consumido de paixo. Agarrada a ele como se pudesse sug-la para dentro de si mesmo, Shanna sentiu as batidas irregulares do corao dele contra seus 
seios nus e lhe ouviu a respirao descompassada.
    O tempo pareceu chegar  beira da eternidade antes que Ruark levantasse a cabea. Shanna deitou-se no travesseiro, olhando-o de olhos arregalados e atnitos, 
fixos na imagem bonita dele. Os olhos ambarinos a olharam carinhosamente e ele sussurrou:
    - O drago se comportou bem, meu amor?
    Os lbios dele se comprimiram suave e ternamente sobre os dela e Shanna logo reagiu, retribuindo com beijos ligeiros e quentes enquanto respondeu:
    - Sim, meu drago Ruark, meu homem ferozmente animal, voc exigiu que o trato fosse cumprido, mas o pagamento no foi todo feito por voc.
    Ruark lhe alisou o cabelo despenteado e roou a boca pela garganta da moa, provando a fragrncia extica que parecia fazer parte dela, aquele aroma embriagador
que o havia atormentado todas as horas que passara na priso, todos os momentos de seus sonhos.
    - Est arrependida, meu amor? - perguntou ele, em voz rouca.
    Shanna sacudiu negativamente a cabea, e no estava mentindo. Todos os receios que havia esperado e as evasivas de um remorso - que a consumiria, segundo imaginara, 
simplesmente no existiam. Ainda mais assustadora era a sensao estranha de que ela realmente pertencia aos braos dele, como se l fosse seu lugar, como o mar 
na areia, uma rvore na terra. Essa sensao de contentamento a perturbou mais do que o remorso jamais conseguiria.
    Deliberadamente, Shanna desviou os pensamentos para outro caminho. Era o cumprimento da palavra empenhada que lhe satisfazia a conscincia, nada mais. Seus braos 
enlaaram o pescoo dele e pareceram seda deslizando contra ele. Ela riu de mansinho, mordiscando o lbulo da orelha de Ruark, tocando-o com a lngua.
    - Seu senso de justia foi aplacado, senhor?
    Os lbios de Ruark brincaram com os dela, enquanto ele lhe respondia:
    - Sim, mocinha. Pelas noites de tortura em que fiquei acordado pensando em voc, pelos dias em que no consegui tir-la do pensamento, pelos tormentos por que 
passei, sabendo-a perto e sem poder v-la nem acarici-la. Sim, agora provei a rosa. - Seu cenho se enrugou. - Mas, como o loto, no fundo desta flor existe uma semente 
que arma ciladas para a mente. - Os olhos dele a encararam. - Falta muito para a noite acabar, Shanna.
    Suavemente, ela passou os dedos pelas rugas da testa dele, abrandando-as.
    - Por esta noite - murmurou - sou sua mulher.
    Shanna pegou a mo dele e a levou aos lbios, beijando lentamente os dedos morenos e magros, enquanto os olhares de Ruark a devoravam. Ela riu maliciosamente 
antes de enterrar os dentinhos alvos na palma da mo dele.
    - Por todas as horas em que voc me atormentou, meu drago Ruark, vou providenciar um galante cavaleiro que me resgate. Voc abusou desta donzela em apuros.
    Ruark olhou-a de lado, cptico.
    - Quer dizer que a senhora ento me julga o terrvel drago de seus sonhos, madame? Devo ser afastado por seu cavaleiro prateado? Fale a verdade, senhora, realmente
abusei de sua pessoa de forma to cruel? Ou ser que ousei trat-la como mulher e no como uma moa altaneira num pedestal, uma rainha virgem que nenhum mortal pode
tocar?
    Os olhos de Shanna reluziram quando ela o olhou.
    - Quer dizer ento que finalmente reconhece que sou mulher, Sr. Beauchamp? - indagou.
    - Voc  mulher, Shanna - respondeu Ruark, com voz rouca. - Mulher feita para amar e para um homem, no feita para sonhar com cavaleiros, drages e donzelas
em apuros. Se eu for seu drago, Shanna,  melhor
saber logo que seu cavaleiro com sua armadura reluzente ter dificuldade para me vencer.
    - Voc me ameaa, monstruoso drago? - Os olhos verdes estavam arregalados e o olharam quase com medo.
    - No, Shanna, meu amor - sussurrou ele baixinho. - Mas acontece que no acredito em fbulas.
    Ele se comprimiu contra ela, o corpo reagindo  maciez do dela. A boca aberta procurou os lbios de Shanna, entreabrindo-os, queimando-os, devorando-os, como 
se no se fartasse da doura orvalhada que eles continham. Suas respiraes se fundiram e se transformaram em uma s. Shanna perdeu o contato com a realidade. Seu 
mundo enlouqueceu sob a urgncia selvagem dos beijos famintos dele, e ela o acompanhou, num turbilho de paixes. A mo dele resvalou at um seio dela, envolvendo-o 
antes que sua boca seguisse o mesmo caminho. Shanna perdeu o flego, enquanto um prazer irrefrevel voltava a invadi-la. Os beijos quentes e famintos de Ruark lhe 
cobriram a carne nua e,  luz bruxuleante da vela, os cabelos dele brilhavam como cetim negro, em contraste com a pele alva da moa. Os cabelos dela se espalharam 
em ondas reluzentes nos travesseiros, e seus olhos assumiram tom estranho e profundo de azul enfumaado. Ela era dele mais uma vez, e se deleitou no encanto da ventura.
    Num instante de mais calma, Ruark se afastou e encostou-se no espaldar macio, afofando o travesseiro s suas costas e aproximando Shanna. Serviu uma taa de 
Madeira da garrafa na mesinha-de-cabeceira e a entregou a Shanna:
    - Vamos partilhar esta taa - murmurou, beijando-lhe a garganta. Shanna ps-lhe a mo no peito para deter seu mundo em torvelinho e lhe respondeu quando seus 
lbios encontraram os dele e a lngua de Ruark os acariciou levemente.
    Provaram o vinho como amantes, bebericando do mesmo lugar na beira da taa e depois se beijando enquanto o sabor lhes permanecia na boca. Os olhos de Ruark a 
devoravam, embebedando-se com a beleza dela, e tocando-a em todos os lugares. Sua mo a percorria ousadamente, afagando-lhe as coxas e desenhando elaborados floreios 
em seu estmago. Os seios maduros de bicos cor-de-rosa e provocantes tremiam sob os suaves carinhos dele.
    Shanna o olhava de forma igualmente interrogativa. Seu dedo lhe roou a barriga at o ponto onde a pele clara era inundada por plos negros. Ruark susteve a 
respirao, quando ela traou a linha fina de plos que comeava no peito e ia at l embaixo, e mais uma vez o ardor da paixo foi incentivado.
    Por algum tempo eles dormitaram e para ambos foi um sono tranqilo. Shanna no sonhou com o que podia ter perdido, nem Ruark teve pesadelos do que ele tinha 
certeza haver perdido. Sentindo a quentura mscula a seu lado, Shanna despertou da profundeza do sono e virou a cabea para contemplar Ruark. Ele estava deitado 
de costas, um brao na cintura e o
    outro atirado para o lado; o peito subia e descia, com a respirao regular. Ela no pde resistir  tentao e estendeu a mo para pass-la nos plos do peito 
dele. Com algo semelhante a pasmo, ela lhe sentiu as costelas esbeltas e ficou atnita com a rigidez dos msculos do pulso de Ruark. Um dedo tocou-lhe ento o queixo 
e o ergueu at ela encarar os meigos olhos ambarinos. Eles no estavam sorridentes; achavam-se de tal forma intensos que ela quase estremeceu. Ficou surpresa com 
seu prprio abandono, pois mais uma vez ela se chegou a ele, comprimindo-se contra seu corpo, e reagindo  paixo dele com igual intensidade. Suspirou quando os 
lbios de Ruark encontraram seus seios e ele a conduziu de forma tal que os seios dela o acariciaram, excitando-o de tal maneira que seus lbios se abriram agnicos. 
As mos dele deslocaram-se para baixo dos quadris dela, levantando-a at ele, e mais uma vez os dois provaram a alegria plena de sua unio.
    Muito mais tarde, Shanna deitou-se no peito dele, o rosto repousando contra o pescoo dele. As janelas do quarto se abriam para leste e l eles podiam ver o 
primeiro tom rosado da luz da manh. Com um suspiro de relutncia, Shanna se levantou. Ruark a observou em silncio vestir a tnica e depois o manto e calar os 
sapatos.  porta, ela parou no limiar e disse:
    - O trato est cumprido. - Sua voz estava to baixa que Ruark mal a ouviu.
    Rpida, Shanna se virou e desapareceu. Ruark pendurou as pernas compridas do lado de fora da cama e ficou sentado, ouvindo os sons das passadas dela deixarem, 
apressadas, a casa. A voz dele quebrou baixinho o silncio:
    - Tem razo, Shanna, meu amor, o trato est cumprido. Mas, e as promessas que trocamos?
    Shanna voltou a ser a moa alegre e animada, apesar de na noite anterior haver dormido muito pouco. Era como se pesada carga lhe tivesse sido retirada e ela 
realmente admitiu que haver cumprido o trato e recuperado a honra realizara um milagre. Ruark j no lhe podia exigir nada, independente da lgica elaborada que 
adotasse. O assunto estava terminado. Concludo! Ela estava livre. Fora um interldio encantador, mas chegara ao fim. Ela agora podia pensar em assuntos mais importantes.
    Com o aodamento do dia, Ruark no foi lembrado por ela. Sentia-se alegre, animada e eficiente.  tarde, seu pai foi o rbitro de algumas querelas entre o pessoal. 
Shanna ficou a seu lado, anotando e aconselhando. Depois, houve um circuito dos depsitos e ela registrou os relatrios dos vrios administradores. A colheita foi 
rica, e enormes barris de rum e bebidas mais leves foram empilhados, esperando ser embarcados. Fardos de cnhamo cru trazidos de outras ilhas enchiam vrios depsitos. 
Havia barris de anil, valioso pelo corante azul que proporcionavam, e amplo sortimento de fumo, algodo nativo, linho e outras matrias-primas de que a Inglaterra 
precisava para suas fbricas.
    Shanna e o pai jantaram tarde e tranqilamente; quando ela foi para seus aposentos, sua conscincia aplacada lhe garantiu sono calmo e rpido. O dia seguinte
passou-se mais ou menos da mesma forma, e sua noite de rendio foi praticamente esquecida com a azfama.
    O quinto dia amanheceu como os demais, porm ficou nublado, com nvoas passageiras e ventinhos irregulares. Shanna e o pai percorreram vrios locais de carruagem. 
Abruptamente, Trahern resolveu dar uma passada no terreno do novo engenho, para ver o progresso da obra.
    Estranho som fez-se ouvir quando eles se aproximaram do lugar.
    Som alto e seco acontecia a Cada minuto e, quando passaram pela ltima curva, os dois viram de onde provinha. Os troncos lisos de rvores estavam sendo conduzidos 
pela terra por enorme pedra segura por polias, arrastadas por jumentos e em seguida soltos para cair nas calhas.
    A carruagem parou e Trahern observou, atnito. A mecnica do aparelho era simples. S havia necessitado de algum com boa cabea para faz-lo funcionar. Shanna 
sabia quem havia pensado naquela soluo, mesmo antes de o capataz se aproximar deles, trazendo o idealizador do sistema. Ruark aproximou-se do veculo pelo lado 
do pai de Shanna e, respondendo s perguntas do patro, comeou a explicar como as pilhas de madeira suportariam o peso de grandes cilindros quando o engenho estivesse 
pronto e como os cilindros seriam acionados para esmagar o caldo de cana.
    - O ferreiro est empenhado em fazer logo o que o Sr. Ruark mandou, patro. - O supervisor agitou o chapu para as obras. - Se o ferreiro entregar no prazo, 
a gente vai estar com a mquina pronta, quando chegar o novo carregamento de cana.
    Trahern estava escutando o homem em suas explicaes, quando Shanna levantou o olhar e deparou com os olhos ambarinos de Ruark. Um sorriso lento desabrochou 
nos lbios dele, em que havia algo de confiante, mas sem nenhuma ameaa nem zombaria. Era apenas um sorriso que a perturbou mais do que deveria. Ela o cumprimentou 
rapidamente com a cabea e deu-lhe as costas, esperando que isso fosse interpretado como sinal de rejeio. Seu pai fez uma pergunta, mas a resposta de Ruark no 
foi sequer ouvida por ela, porque sua mente se recusou a isso.
    Alguns instantes depois, Trahern e Shanna continuaram o trajeto de volta ao vilarejo e, em seguida, a casa. O incidente foi esquecido e,  hora do jantar, ela 
se sentia de novo despreocupada. Pitney reuniu-se a eles, e depois da refeio ele e Trahern foram jogar xadrez.
    Sentindo-se bem por haver realizado alguma coisa til durante o dia, Shanna retirou-se para seus aposentos e logo adormeceu tranqilamente. Passava da meia-noite
quando acordou e ficou olhando, aptica, para a escurido no quarto. Uma garoa constante batia nas folhas l fora, e as nuvens estavam pesadas e baixas, conferindo
 noite raro negrume. Ela percebeu ento o que a acordou. Sentira o calor de um corpo junto do seu, lbios clidos entreabrindo os seus e braos apertando-a. Tinha
havido tambm um toque de mos nos seus seios, um afago em suas coxas e as estocadas de um homem, duras e quentes, entre elas.
    Sua confuso advinha da incrvel sensao de prazer que lhe emanava do corpo. Que quebranto lhe lanara Ruark que ela desejava agora estar assim mais uma vez 
com ele? Estava sozinha no quarto, mas sabia que, se ele estivesse l, ela teria cedido, no, ter-se-ia agarrado a ele e lhe pedido que lhe desse mais uma vez o 
que ela desejava. Nunca se sentiu mais mulher do que quando foi esposa dele por uma noite. Mesmo agora, deitada na cama no quarto escuro, surpreendeu-se por no 
sentir nenhuma culpa nem vergonha que a condenasse por aquela noite ou por essa, na qual ela ansiava que ele viesse. Amadurecida e em ebulio em seu corpo de mulher 
a lembrana embriagadora dos momentos de amor com Ruark ficava cada vez mais intensa. Ela no conseguiu livrar-se das estonteantes iluses e ficou tonta com a recordao 
dos instantes partilhados por Ruark e ela.
    - Ele  apenas um homem - sussurrou ela no escuro. - No tem nenhuma qualidade excepcional em relao a outros homens. Vou encontrar um marido, e gozaremos dos 
mesmos momentos.
    Infindvel nmero de pretendentes que haviam sido desprezados por Shanna lhe reapareceram na mente. Nenhum deles a excitou, mas quando, em meio a eles, surgiu 
a imagem de Ruark, seu corao deu um salto to desordenado que a prpria alma da moa foi contagiada pela sensao.
    - Por que aquele sabujo  o nico que me diz alguma coisa? - sibilou ela entre as sombras. Aborreceu-se consigo mesma por permitir que ele voltasse a seus pensamentos. 
- No, vou esquecer-me dele. O trato foi cumprido. Nada mais acontecer entre ns!
    Independente da determinao que emprestou a esse pensamento, sabia muito bem que no resistiria, e sua debilidade lhe ecoou na mente. Quando o sono lhe voltou, 
no foi to tranqilo quanto antes.
    Na manh seguinte, j tarde, Shanna reuniu-se ao pai na sala de jantar, e viu, pelo nmero de pratos sujos, que mais duas pessoas haviam estado tomando o desjejum 
com ele. Trahern a cumprimentou e pareceu apressado em terminar a refeio.
    - Hoje, voc no precisa vir comigo, Shanna - informou ele ao bebericar o caf preto.
    Shanna ficou calada e relanceou o olhar pela mesa. Sentiu uma presena estranha no cmodo, e reparou ento num pequeno prato de porcelana ao lado de um dos pratos, 
onde havia cinzas negras como as de um cachimbo.
    - O Sr. Ruark esteve aqui de novo, no ? - afirmou categrica, certa do que dizia.
    - Esteve - rosnou o pai. - Mas no  preciso ficar aborrecida, filha. Ele j foi embora. Na verdade - Trahern limpou os lbios num grande guardanapo, tirou as 
migalhas do colo, levantou-se e, pegando o chapu e a bengala das mos de Milan, continuou - ele  o primeiro assunto de que vou tratar. Dei-lhe mais um aumento 
de ordenado e, como acho que preciso dele mais perto, ofereci-lhe escolher o chal em que quer morar. - Trahern
    deu um risinho maroto: - Ele escolheu o melhor, o que fica sob as rvores.
    - Trahern a olhou por um instante, e sua voz estava ligeiramente mais firme quando prosseguiu: - Como dona de minha casa, espero que providencie para que o chal 
esteja apresentvel.
    Shanna conseguiu olh-lo fixo, meio temerosa do que ele dizia, e tentando descobrir algum sentido oculto em suas palavras. Como no percebeu nenhum, fez um sinal 
afirmativo com a cabea e disse:
    - Vou mandar os criados l.
    O velho endireitou o chapu com alguns sinais de irritao:
    - Espero que voc pare de demonstrar o pouco apreo que tem por ele. Sua antipatia  evidente, mas ele me  extremamente valioso, e espero persuadi-lo a ficar 
conosco depois que sua dvida tenha sido paga. Venho jantar cedo. - Trahern parou  porta e a olhou, quase sorrindo, como se para abrandar suas palavras: - Bom-dia, 
filha.
    Shanna ficou olhando para o vcuo muito tempo depois que o pai se foi, mas s visualizava o corpo esbelto e moreno de Ruark na cama.
    Ele vai usar a cama que ns dois usamos! Vai usar novamente a banheira! Uma srie rpida de imagens lhe encheu a cabea, mas uma delas se fixou mais: a viso 
da alta cama de dossel acima deles, enquanto o prazer total a invadia.
    Se Milan a tivesse olhado ento, e no se mantivesse ocupado em preparar o desjejum de Shanna, teria visto o rosto corado e os olhos distantes e sonhadores da 
moa.
    O chal foi arrumado, e Ruark levou para l seus pertences espartanos naquela mesma noite. Tomou banho escaldante de banheira, nela se demorando enquanto imagens 
de Shanna num vu transparente branco o atormentavam: Shanna inclinada, sussurrando-lhe no ouvido, de p junto  cama como uma criana, depois nua e contorcendo-se 
em esplendoroso xtase, com ele em cima dela.
    Vestiu novamente a cala curta e, inquieto, percorreu os cmodos, mexendo em arcas e armrios vazios, folheando livros, buscando, enfim, distrair-se. Fracassou 
miseravelmente, pois nada em que pensasse o fascinava mais do que Shanna.
    O alvorecer despontou claro e esplndido. Raios de sol invadiram o quarto de Shanna, que despertou de seu precrio sono. Como costumava acordar tarde, Hergus 
no estava por perto, e pensativamente Shanna tentou dar aparncia de penteado ao emaranhado de cachos. No conseguiu definir seu estado de esprito, mas parou vrias 
vezes ao pentear-se deixando a escova no ar, enquanto se contemplava no espelho. Um suspiro melanclico lhe escapou, enquanto vestia uma camisola e a amarrava na 
cintura fina. Quando saiu dos seus aposentos, no sabia aonde ir e desceu, devagar, a escadaria, fazendo movimentos ondulantes  medida que as pernas se mexiam e 
deixavam o roupo entreaberto. Estava na metade da escada, quando ouviu vozes de homens no vestbulo de entrada e reconheceu o riso de Ruark, em resposta ao cumprimento 
jovial do mordomo que lhe abriu
    a porta. Shanna parou, seus olhos perderam a expresso distante e ficaram atentos ao mundo  sua volta. Ela escutou o timbre harmonioso e confiante da voz de 
Ruark e a entonao precisa da fala de Jason.
    - O patro j vem, Sr. Ruark. No quer sentar-se numa poltrona da sala de jantar enquanto espera?
    - Obrigado, Jason, mas vou esperar aqui no vestbulo. Cheguei cedo.
    - O patro Trahern gostaria de que o senhor ficasse  vontade, Sr. Ruark. Ele deve demorar s um instante.  difcil achar quem acorde mais cedo do que ele. 
Ele trabalhou duro a vida toda e parece que no tenciona ralentar o ritmo. Estarei nos fundos, Sr. Ruark. Se precisar, chame.
    Shanna ouviu os passos de Jason se afastando, debruou-se na balaustrada e espreitou o vestbulo. Vestido no traje habitual de cala branca curta, Ruark estava 
contemplando o retrato de Georgiana, e Shanna perguntou-se o que ele estaria pensando. Filha e me eram muito parecidas, embora o cabelo de Georgiana fosse mais 
claro e os olhos, suaves e de um cinzento sorridente. Shanna se perguntou se Ruark a estaria vendo na imagem a leo de sua me ou se estaria apenas admirando a figura, 
como tantos outros.
    Shanna no percebeu se fez algum barulho, mas, no curto espao de tempo em que ficou olhando para ele, algo se passou entre os dois e Ruark se virou, relanceando 
a vista para a escadaria como se soubesse que ela estava l. Shanna foi apanhada em flagrante e no pde fugir com dignidade. Esperou-o chegar com passos cautelosos 
at o primeiro degrau onde apoiou um p de sandlia, enquanto a contemplava, olhos devorando-a em todas as partes. O roupo turquesa plido flua sobre seu corpo, 
modelando-se contra ela como se relutasse em se separar, mostrando a plenitude feminina de seus seios e a curva graciosa dos quadris, enquanto revelava abertamente 
uma perna longa e esguia. Ela parecia fria e serena, como uma sacerdotisa descendo os degraus do templo.
    - Bom-dia - murmurou Ruark, e sua voz soou como uma carcia.
    - Bom-dia, senhor - respondeu ela, animada e alegre, quase risonha. - Fica para o desjejum?
    - Voc vai descer? - O cenho dele se franziu interrogativamente e sua frase soou mais como um apelo do que como uma pergunta.
    Shanna relanceou a vista para o traje dela e apontou-o ao responder.
    - Papai no aprovaria, com voc aqui.
    - Ento troque de roupa - instou ele. - Mas venha, sim?
    Shanna consentiu silenciosamente, e um sorriso se espalhou pelo rosto de Ruark, mostrando-lhe os dentes alvos e certos. Olhou licenciosamente para a camisola, 
e ela susteve a respirao enquanto o olhar dele ousadamente a analisava.
    - Independente da opinio de seu pai, madame, aprovo calorosamente seu traje. Estarei esperando.
    Abrupto, sem lhe dar tempo de responder, ele se virou e voltou para onde estava antes. Um momento depois a voz do pai de Shanna se fez ouvir no interior da manso, 
e Shanna subiu, apressada, a escada.
    Uma vez mais em seu quarto, a moa procurou apressada no armrio uma roupa adequada. Feliz, tirou um vestido, franziu a testa irritada ao reparar nas pregas 
amarrotadas e o atirou descuidadamente no tapete, esquecendo-se de sua disciplina habitual. Pouco tempo depois, Hergus entrou e a encontrou debaixo de uma saia enorme 
que flutuava a seu redor, enquanto pilhas de vestidos se amontoavam a seus ps. Shanna enfiou os braos nas mangas fofas, acomodou os metros infindveis de delicada 
cambraia amarela em cima das anquinhas-balo, e pediu a Hergus que a amarrasse bem apertado. O cabelo louro comprido foi preso com fitas amarelas e caiu s suas 
costas.
    Shanna entrou na sala de jantar como uma brisa de primavera, cruzando a porta rapidamente. Ruark levantou-se de imediato, apreciando-lhe a beleza estonteante 
e sorriu para o rosto radiante da moa. O cumprimento de Trahern foi mais abrupto. Passou a vida lutando por substncia e riqueza e perdeu a despreocupao da juventude. 
Nunca tivera um momento frvolo e em tudo via um objetivo ou uma vantagem. Isto lhe causava certa dificuldade em compreender a filha. Segundo ele, ela no tinha 
metas evidentes na vida, e parecia satisfeita em no ter marido e, portanto, no ter filhos. Na verdade, parecia que ela gostava mais de cavalgar como vento na garupa 
de tila ou em equilibrar-se numa onda.
    - Vou falar de negcios, filha. No me venha com seus ares de grandeza. Sente-se.
    Ruark apressou-se em ajud-la a sentar-se, puxando a cadeira e a segurando para que ela se sentasse. Shanna sorriu-lhe para demonstrar gratido e, quando Ruark 
voltou a seu lugar, Trahern murmurou, rabugento:
    - Ah, rapazes! Ficam de cabea virada  toa! Por qualquer mocinha bonita!
    Ruark levantou a sobrancelha e disse:
    - Senhor, se ela no fosse sua filha, no duvido que at sua cabea ficasse virada!
    - O senhor me lisonjeia em excesso, Sr. Ruark - respondeu Shanna, com meiguice. Olhou para o pai e levantou o nariz adorvel como se estivesse muito insultada. 
-  realmente raro que me faam elogios aqui.
    - Hah! - rosnou Trahern. - Se eu ainda fosse botar lenha na fogueira, a ilha inteira estaria logo incendiada. Agora, filha, se nos d licena, podemos continuar 
a tratar de negcios?
    - Claro, Papai! - Os cantos dos lbios de Shanna se levantaram deliciosamente e os olhos azul-esverdeados piscaram travessos. - Deus me livre de interferir com 
negcios!
    -  s o que voc est fazendo! - retrucou Trahern.
    Ruark ocultou um sorriso por trs da xcara de ch e, em seguida, conseguiu apresentar um rosto srio ao homem:
    - Qual foi mesmo sua pergunta, senhor? Creio que perdi o fio da meada.
    - Sei! - bufou o velho e virou o ombro de forma a ficar de costas para a filha. - Vou repeti-la. Quanto ao engenho, vai ser grande o bastante para comportar 
a colheita de outras ilhas?
    Ruark fez um sinal afirmativo com a cabea e a conversa desviou-se para as mincias. Shanna aceitou um prato de Milan e comeu silenciosamente uma cumbuca de 
frutas com creme, enquanto observava Ruark pelo canto do olho. A maneira pela qual o rapaz falava sobre assuntos completamente estranhos para ela a fascinava, e 
a moa percebeu nas palavras dele a inteligncia que tanto intrigava seu pai.
     noite, estavam na sala de visitas quando Trahern expressou sua esperana em relao a John Ruark.
    - Como sempre fui mais comerciante do que fazendeiro, Shanna, nem preciso dizer-lhe como preciso de algum com mais conhecimento do que eu para aconselhar-me
em relao a colheitas e engenhos. Desde que o Sr. Ruark chegou, tem feito muito para aumentar nossa fortuna. Depois que eu morrer, voc vai precisar de algum de 
confiana para orient-la nesses assuntos. Voc passou muito tempo fora, e como velho que sou, talvez no viva o suficiente para ensinar-lhe tudo o que deve saber. 
O Sr. Ruark tem capacidade para tal, e espero que voc lhe permita fazer isso.
    Shanna entristeceu. S lhe faltava essa, que Ruark fosse seu conselheiro e se ele algum dia tivesse o direito de aprovar ou no seus pretendentes, ela certamente 
acabaria viva. Suspirou mentalmente, mas o som escapuliu de sua boca.
    - Voc parece perturbada com minha sugesto, minha filha. Por que antipatiza tanto com Ruark?
    - Papai - Shanna ps a mo na dele e lhe sorriu rpida e tristemente - s quero ser dona de meu prprio destino. No tenho inteno de ser cativa desse homem.
    Trahern abriu a boca para reforar sua ordem, mas a moa se inclinou para a frente e suavemente lhe ps o dedo nos lbios. Seus olhos sorriram para os olhos 
zangados dele e, sob o efeito daquele olhar firme, o velho Trahern abrandou-se. Shanna falou pouco mais alto do que um murmrio:
    - Papai, no vou discutir com voc nem voltar a falar sobre esse assunto.
    Beijou-o rapidamente na testa e foi embora, com um rudo farfalhante de seda. Trahern continuou sentado, perplexo pelo fato de haver perdido uma discusso e 
haver gostado disto.
    O vento agitou a promessa de uma tempestade em pequenas e confusas ondas  medida que o Sol se refletia na superfcie da gua e a escurido invadia a baa. A 
noite chegou, com seu manto negro e ventos frios se instalaram na ilha, agitando os delicados aromas das trepadeiras em flor na sacada de Shanna. Olhou-se criticamente 
pela ltima vez no espelho, franzindo ligeiramente a testa  idia de ter de parecer espirituosa e encantadora para os convidados ao jantar, numa poca em que sua 
cabea estava num turbilho. Tudo lhe desagradava e at sua beleza impecvel, regiamente vestida de cetim branco e caras rendas, no lhe transformaram o mau humor. 
Indiferente, olhou para o espelho enquanto Hergus afetuosamente lhe alisava as madeixas tranadas com fios de prolas. Shanna ajustou o decote quadrado, cujas beiras 
eram guarnecidas pelo mesmo tipo brilhoso de prolas. O vestido lhe assentava de forma justa, realando-lhe as curvas generosas ao ponto de parecer que apenas estranha 
magia impedia que ele revelasse os cimos cor-de-rosa dos seios.
    - Voc est linda! - exclamou Hergus.
    Shanna era aquela beleza rara que quase nunca estava imperfeita. Mesmo de manh cedinho, cabelo desarrumado e olhos cheios de sono, Shanna tinha uma sensualidade 
capaz de encher de orgulho o corao de um marido, para no dizer encher de luxria. A escocesa resmungou em desaprovao:
    - O Sr. Ruark no vai conseguir tirar os olhos de voc e seu papai vai estar l entre vocs. , voc vai aquecer muito o sangue dele. - Hergus suspirou, desanimada. 
- Mas acho que  isso mesmo que voc quer. S escolheu esse vestido porque sabe que ele vai estar presente.
    - Hergus, pare de sermo! - pediu Shanna  mulher. - As damas que freqentam os sales franceses vestem-se com roupas muito mais ousadas. E garanto que no vou 
usar este vestido para agradar ao Sr. Ruark.
    - Claro que no! Que motivo voc teria para isso? - comentou Hergus, maliciosa. Shanna ps as mos nos quadris e, desesperada, encarou a outra:
    - Pare com isto, Hergus. Voc me anda dando indiretas desde que lhe pedi que levasse o Sr. Ruark ao chal.  bom dizer logo o que voc quer.
    Hergus fez um sinal afirmativo com a cabea:
    -  isso mesmo que vou fazer. Estou com voc desde que voc era beb, e a servi quando eu mesma era criana. Acompanhei seu crescimento at voc se tornar uma 
das moas mais lindas que j nasceram. Passei bons e maus momentos com voc. Fiquei do seu lado, quando seu papai quis que voc se casasse com um nome, no com um 
homem. Mas no entendo como pode sair s escondidas, para encontrar um homem na escurido. Voc freqentou timos colgios, teve sempre o melhor de tudo. Todos ns 
sempre quisemos o melhor para voc, mesmo o teimoso do seu pai. No entende que precisa casar-se e ter filhos? Oh, entendo o amor. Quando eu era moa, tive o Jamie, 
e trocamos juras, mas ele foi obrigado a ir para um navio de guerra de Sua Majestade. Meus pais morreram e precisei trabalhar para me alimentar. Nunca mais vi o 
Jamie. E entendo sua atrao pelo Sr. Ruark, porque ele  bonito e  mais homem do que todos os que j ousaram cortej-la. Mas o que est fazendo  errado e voc 
sabe. Desista dele antes que seu pai descubra e combine seu casamento com algum lorde idiota.
    Shanna gemeu sua frustrao e caminhou em passos largos pelo quarto. No podia confiar na mulher por medo de que seu pai descobrisse e os mandasse a todos embora, 
devido  conspirao. Mas a censura de Hergus a irritou.
    - No vou mais falar sobre o Sr. Ruark - declarou, por sobre o ombro. A criada a seguiu, resolvida a pr alguma parcela de sensatez naquela adorvel cabea.
    - E se voc estiver grvida dele? Reze pra isso no ser verdade. O que diria seu pai? Ele manda matar o Sr. Ruark, e voc no vai poder fazer nada. , voc vai 
ser me do beb dele, mas ainda no pensou nisso, no ? Por qu? - Hergus insistiu. - Voc espera que no esteja grvida. Se ele plantou sua sementinha em voc, 
vai ficar to gorda como um melo e sem marido.
    Shanna mordeu o lbio, controlando-se para no dizer a torrente de palavras que desejava. Era raro ficar muda sem retrucar a uma censura, pois era bastante atrevida 
para responder, a no ser a seu pai.
    - Se ele ainda no fez isso,  apenas questo de tempo antes que voc engravide dele. Pare com essa bobagem antes que seja muito tarde. Se no consegue controlar-se, 
eu falo com ele e peo que lhe deixe em paz. Embora duvide que ele concorde, porque est apaixonado por voc, e arrisca a vida e no se importa. No,  melhor parar 
com isso agora. Ele  quem vai sofrer mais, se seu pai descobrir tudo. - Hergus apertou as tmporas e, jogando a cabea para trs, resmungou aos cus: - Ah, que 
pena! Voc  viva faz to pouco tempo! Seu pobre marido est enterrado de fresco, e voc j se tomou de amores por um cativo! Ah, que vergonha!
    - Chega! - gritou Shanna, espalmando a mo. Essa mulher no lhe daria paz? - No vou mais v-lo.
    Shanna ficou olhando para a porta por muito tempo depois que Hergus saiu, perguntando-se se o caso com Ruark estaria realmente terminado. Ah, aquele ardente 
Ruark, to confiante em sua capacidade! Ele conhecia os segredos de seu corpo de mulher melhor do que ela. Com quantas virgens se havia deitado ele antes para saber 
tanto das coisas do amor? Sabujo vulgar! Seria esse o acar que ela mordiscava da mo dele? Pensaria ele que ela voaria para afag-lo suavemente, quando ele assobiasse? 
Sua mente se revoltou. No era nenhuma imbecil para ficar  disposio de um homem.
    - Ser que ele imagina ter algum poder sobre mim - sibilou ela para si mesma. - Que vou implorar seus favores como uma das moas dceis que ele conhecia em arruaas 
de tavernas?
    De sbito, pensou em Milly, que simplesmente babava por ele,  procura de migalhas da ateno de Ruark. Quantas outras moas da ilha teria ele cativado?
    - Meu drago de bronze, se pensa que me vai conduzir por uma correia, vai sentir o gosto de minhas presas em seu couro. - Os olhos dela se estreitaram com idias 
maldosas. -  s voc se aproximar, meu drago Ruark, que eu lhe mostro as ciladas que a rosa espinhosa pode armar. Antes que acabe a noite, estar suplicante a 
meus ps, implorando por migalhas de meus favores.
    Resolvida a agir, e com um objetivo em mente, Shanna endireitou o decote do vestido mais uma vez e passou um borrifo de perfume no vo entre os seios e atrs 
dos lbulos das orelhas.
    "Talvez eu permita que ele me toque", pensou ela, astuta e,  idia, uma sensao excitante lhe subiu at o busto." , vou dar uma volta na varanda e, conhecendo 
a luxria do desgraado, ele se juntar a mim, depois de dar uma desculpa esfarrapada qualquer." Saboreou a cena e lento sorriso lhe desabrochou, enquanto os olhos
reluziam como os de um diabrete travesso. "Vou primeiro fingir que estou disposta e, depois, me irritar e rejeit-lo. Ele, ento, implorar que eu o trate com mais
considerao."
    Primeiro, porm, ela o faria envergonhar-se at o mago pelas roupas ridculas, perante os oficiais da fragata espanhola que estava no porto, de forma que ele
jamais voltaria a usar aqueles cales sem se lembrar da vergonha por que passou. Ah! No havia dvida de que as moas o achariam atraente. Haveria mulheres suficientes
para o admirarem, porque a maioria dos comandantes dos navios de Los Camellos j havia partido, e suas mulheres e filhas mais velhas estariam presentes ao jantar.
As senhoras, porm, costumavam ser mais velhas do que os maridos e suas filhas eram bobinhas. Era verdade, porm, que havia gosto para tudo e que ele havia rapidamente
ido atrs daquela moa na taverna. Era possvel que gostasse de mais uma ou duas conquistas de virgens.
    Shanna passou pela sala de jantar e observou os arranjos de mesa. O aposento estava iluminado por luzes ofuscantes de infinitas velas, fazendo com que os prismas
de cristal dos candelabros, as taas e a porcelana na comprida mesa brilhassem. Buqus de flores espalhavam delicada fragrncia
    que parecia aumentada pela brisa suave carregada pelo cheiro de chuva que entrava pelas janelas abertas. O latifundirio sempre tivera o costume de tratar o
povo da ilha, quando jantavam na manso, com toda a pompa de lordes. s vezes, os convidados eram simples supervisores dos campos e suas mulheres, mas eram homenageados 
com um banquete digno da realeza. Naquela noite o grupo seria heterogneo; embora Ruark fosse o nico cativo presente, alguns dos supervisores mais antigos tambm 
haviam sido convidados. Quando se jantava na casa de Trahern, nunca se sabia quais poderiam ser os companheiros de mesa, escravos ou duques.
    Shanna parou do lado de fora da sala de estar e seus olhos percorreram o rosto dos convivas. As portas envidraadas estavam abertas para deixar entrar o frescor 
da noite. Pequeno grupo de msicos tocava msica de cmara, cujos sons flutuavam acima do burburinho de vozes. Os convidados estavam vestidos com suas melhores roupas: 
os oficiais espanhis resplandeciam em seus uniformes, e as damas estavam lindas, usando sedas, cetins e enormes saias. Havia tambm um estranho muito elegante que 
se parecia um pouco com Ruark, mas este no estava  vista. Talvez tivesse tido o bom senso de justificar sua ausncia. Trahern aproximou-se da filha e sorriu, orgulhoso.
    - Bem, minha querida, estava quase comeando a desacreditar que voc se viesse reunir a ns, mas como sempre deixou a melhor parte para o fim.
    Shanna riu ao elogio. Quando ele a conduziu para a sala, ela abriu o leque  frente do rosto e falou detrs dele:
    - Papai, voc no me disse que haveria outras pessoas aqui. - Ela fez um gesto por cima do ombro para o estranho. Pensou maliciosa que ele seria o primeiro com 
quem ela enciumaria Ruark. - Quer apresentar-me a ele?
    Trahern a olhou com expresso estranha, e Shanna percebeu que a sala de repente ficara silenciosa quando eles entraram. Ao relancear a vista, compreendeu que 
todos os olhares estavam postos nela. Os homens a contemplavam com admirao e as mulheres com inveja. Algumas das senhoras lanaram olhares preocupados para as 
filhas subitamente de peito chato e aparncia comum, e desejaram que Shanna Beauchamp encontrasse logo outro marido e deixasse o resto dos homens para serem disputados 
pelas moas menos dotadas.
    Shanna fez um cumprimento gracioso com a cabea e sorriu um cumprimento e ento, ao estilo de anfitrioa, virou-se para dar as boas-vindas ao novo...
    - Ruark! - O nome lhe irrompeu dos lbios e seu rosto demonstrou surpresa por um instante antes que ela se pudesse conter e comeasse a abanar-se, nervosa, enquanto
sentia o olhar dele, que vagarosamente a despia. Ele estava usando azul-marinho, que lhe acentuava a figura alta, esbelta e de ombros largos. Renda lhe caa sobre
as mos morenas, vinda dos punhos da camisa imaculadamente branca, e as meias de seda escura e a cala finamente talhada revelavam os quadris estreitos e as pernas 
longas e musculosas. ", "
    - Estava certo de que vocs j se conheciam - disse o pai a seu lado e, pelo som subjacente de alegria, Shanna percebeu que ele se estava divertindo.
    "E  minha custa", pensou ela, mas Ruark no escaparia to facilmente. Renovando o sorriso, Shanna deu um passo gracioso  frente e estendeu a mo quando Ruark 
se aproximou.
    - Sr. Ruark. - Seu tom foi to leve e animado como o de uma moeda nova, e ela ignorou o ligeiro tremor de prazer que lhe percorreu o corpo quando ele lhe pegou 
a mo. - No o reconheci assim to elegante. J estava acostumada a seus cales.
    O sorriso de Ruark foi arrebatador e seus modos, desembaraados. Exibiu a perna bonita quando fez uma reverncia para cumpriment-la e comprimiu os lbios no 
dorso da mo de Shanna, fazendo com que sua lngua tambm a tocasse. Shanna arfou e retirou depressa a mo. Corou ao perceber que todo o aposento tinha os olhos 
fixos neles. Ruark se aprumou e lhe lanou um risinho enviesado, que foi de encontro ao sorriso congelado da moa. Com esforo, Shanna se comps, e o pai, ao franzir 
o cenho como se a estivesse advertindo, reuniu-se a eles.
    - A roupa foi presente de seu pai, Madame Beauchamp - observou Ruark, como se lhe houvesse sido perguntado. A voz dele acariciou o nome como um tesouro, e os 
olhos mergulharam rapidamente nos seios dela. Nesse breve olhar, Shanna se sentiu quase marcada a fogo. Recatadamente, abriu o leque em cima do decote ousado, desejando 
estar usando um vestido que a protegesse mais de Ruark. - Com to pouco tempo para providenciar o traje - continuou ele, olhando-a - acho que foi o melhor que se 
podia fazer com um fio de linha e um pedao de pano.
    - Imagine! - interrompeu Trahern. - Se fosse assim, meu alfaiate me estaria roubando. - Falou como se estivesse sofrendo, e explicou o caso a Shanna: - Esse 
homem alegou pobreza at eu me oferecer para lhe pagar alguns trajes; depois, fui examinar a conta dele. Com o que j tem, daqui a pouco vai ser dono da ilha...
    -  mais fcil economizar uma moeda do que ganhar outra para substitu-la - disse Ruark, rindo.
    - E costumo perceber quando se trata de uma pechincha para meu opositor - disse Trahern. - Raras vezes me superam nesse jogo. Voc pode considerar-se um dos 
poucos que j me venceram.
    - Perdoe-me, senhor. - O tom da resposta de Ruark foi suave, mas, ao olhar para Shanna, suas palavras eram s para ela. - Mas sou nico.
    Era como se ele estivesse claramente anunciando sua inteno de ser o nico homem na vida de Shanna. A moa estremeceu ao olhar dele e ps a mo no brao do 
pai.
    - Com sua licena, Papai. Vou dar ateno a nossos outros convidados.
    Os dois homens a observaram afastar-se e ficaram perturbados,  sua prpria maneira.
    - No consigo entender essa gerao jovem - resmungou Trahern. - Parece-me que eles no tm bom senso. - Em seguida, fez parar um criado e mandou-o buscar rum 
e bitters para ele e Ruark.
    Shanna foi ficar o mais longe possvel de Ruark e sorriu seu agradecimento quando Milan lhe trouxe uma xcara de ch. Ao beberic-lo, mentalmente reuniu suas 
foras. Havia perdido a primeira batalha mas estava longe de perder a guerra. Observou Madame Duprey com o marido, conversando animadamente com vrios oficiais espanhis. 
Shanna resolveu ento dar incio  sua jogada. Que o imbecil soubesse que ela no era uma escrava que ele pudesse reivindicar exclusivamente. Tomou outro gole de 
ch e depois colocou a xcara de lado, abrindo o leque antes de se aproximar do grupo.
    - Cara Fayme! - Shanna sorriu. - Voc est linda!
    Na verdade, Madame Duprey era uma beleza. Shanna no conseguia entender por que Jean cortejava outras mulheres, tendo mulher to linda em casa. A moa achou 
que Jean estava meio nervoso, e que tinha razo para isso, o biltre!
    - Shanna! - cumprimentou Fayme, animada, com seu engraado sotaque. - E que dizer de voc? Est arrebatadora!
    - Muito obrigada! - Shanna riu e apontou com a cabea para os espanhis, que eram todos sorrisos, dentes e olhares. - No quer partilhar a companhia deles, Fayme?
    Fayme jogou a cabea para trs com descuidada graciosidade.
    - Ah, Shanna! Ns amos falar dos menos felizes. Mas voc no  um deles. Mas falando srio, fiquei muito triste quando soube de sua infelicidade! - Suspirou 
fundo. - Viva to jovem! Mas venha, vou apresent-la a esses homens. Eles esto ansiosos por falar com voc.
    Os oficiais e seu comandante reagiram com fervoroso entusiasmo e cumprimentos exagerados  beleza das mulheres de Los Camellos.
    - Shanna - disse Fayme. - Quem  aquele homem lindo ali? Aquele. Aquele que beijou sua mo?
    -  o Sr. Ruark, o cativo de meu pai.
    - Que homem! - exclamou Fayme, fazendo com que as sobrancelhas do marido se erguessem. - Voc disse que ele  cativo?
    - Oui, chre! - interrompeu Jean. - Ns o trouxemos na ltima viagem em dezembro. Acho que foi comprado do bloco dos devedores.
    - Mas Jean, e as roupas dele! Certamente ele no...
    - Oui, ma petit - respondeu o francs, irritado porque sua mulher estava achando outro homem fascinante, que no ele. No calculava que ela fazia isso de propsito 
para encium-lo; era mulher dedicada, mas estava farta das infidelidades dele. Jean endireitou o casaco escarlate e limpou os punhos. - O cativo caiu nas boas graas 
do Sr. Trahern e alguns dizem que ele fez por onde, embora haja sempre boatos em tudo. Sabe que tem gente que diz at que ele  homem culto e engenheiro competente? 
No acredite em tudo que ouve, ma chre.
    - Que coisa estranha, Shanna! - exclamou Fayme em voz alta. - Como  que um homem de tanto talento pode ser cativo? Ele  maravilhoso.
    Jean Duprey se irritou e ficou vermelho. Shanna reparou nisso com satisfao e de bom grado se uniu  conspirao. Talvez ele fosse menos namorador se percebesse 
que sua mulher tambm poderia ficar tentada. Para vingar-se e tambm porque sempre foi muito condescendente com aquele homem, Shanna teve vontade de aguar os receios 
de Jean.
    - Fayme - sussurrou ela, por trs do leque, alto o bastante para que Jean a escutasse - Ouvi dizer que ele tem o hbito de dormir nu.
    Fayme prendeu a respirao.
    - Que homem!
    Jean corou e pigarreou. Chamou um criado e pegou uma taa de champanha, cautelosamente olhando para a mulher enquanto bebericava. De repente, viu nela nova luz
e percebeu que o titulo "esposa" no a havia feito menos bonita.
    - Comandante Morei - disse Shanna, sorrindo amavelmente para o alto espanhol - fale-me da Espanha. H muito tempo quero ir l, mas infelizmente ainda no tive
tempo de realizar esse sonho.
    O homem, alto e moreno mas no propriamente bonito, virou-se e a olhou intensamente.
    - Senhora, eu mesmo a levaria l. Se a senhora me ordenar, vou j preparar o navio. Mas - falou com seu jovem tenente - precisaremos cobrir os olhos de todos
os homens para que a beleza dessa princesa no os cegue nem os distraia de suas obrigaes.
    - O senhor  encantador, Comandante, mas acho que me lisonjeia em excesso - disse Shanna, rindo por trs do leque.
    - Lisonja, senhora? Nunca falei to srio na vida - afirmou o homem de modo caloroso. Erguendo uma taa de champanha da bandeja que o criado segurava, o Comandante 
Morei a entregou a Shanna, com ligeira reverncia - Senhora, a glria dos cus se ofusca, ante sua beleza
    Shanna aderiu  brincadeira. Seu riso suave cativou os homens. Sentia-se alegre e encantadora, mas limitou seus flertes aos espanhis, porque eles partiriam 
logo, e ela no seria aborrecida com atenes indesejveis por muito tempo. O jantar foi servido e colocaram Ruark ao lado do pai de Shanna na extremidade da mesa 
e bem longe da moa. Num momento de calma depois que voltaram  sala de estar, Shanna ficou sozinha e seu olhar percorreu calmamente o aposento. Pitney e o velho 
Trahern estavam sentados a um canto da sala e discutiam, separados pelo tabuleiro de xadrez que haviam deixado preparado na vspera. Ela viu Ralston por perto, sozinho, 
como era de seu estilo. Ele baixou a cabea para cumpriment-la, e Shanna retribuiu com um sorriso distante. Ela bebericou ento de seu copo de Madeira. Em seguida, 
com uma rapidez que a fez estremecer, seus olhos encontraram os de Ruark. Este a olhava por cima dos ombros de dois homens que debatiam um assunto  sua frente, 
e a moa percebeu que ele a estava
    observando h tempo. Seu olhar expressava um desejo voraz. Embora no dissesse nada, ela lhe ouviu os pensamentos como se os tivesse gritado.
    Meu Deus! Shanna virou-lhe as costas e terminou de beber o vinho de um s gole. Estava com a mo trmula ao depositar o copo numa mesa prxima. De repente, a 
sala ficou quente e abafada e ela comeou a se sentir tonta. Havia muitos corpos se comprimindo a pouca distncia do dela. Sua alegria se desvaneceu, e Shanna sentiu 
urgente necessidade de ficar sozinha, pelo menos para controlar sua mente. O choque daquele olhar ambarino do outro lado da sala e o recado evidente que ele transmitia 
embaraou-a de tal forma que j no conseguia pensar direito. Seus seios formigavam e a virilha doa, mas a cabea tentou ignorar o mpeto inequvoco e ousado de 
seu corpo.
    Era como se ela se estivesse vendo a certa distncia. A mulher linda, plida mas calma, atravessou a multido, recebendo cumprimentos e conseguiu chegar a um 
canto deserto da varanda.
    "Desgraado! Maldito!", pensou. Seus pulsos agarraram o parapeito e ela arquejou, com falta de ar. "Ele me olha de mil direes ao mesmo tempo! Cruzo com ele 
num lugar, e quando olho para outro lado, l est ele de novo! Ele  apenas um homem! Um homem! Um homem!" A cada repetio, ela batia na balaustrada com o punho.
    Tentando recuperar a serenidade, Shanna respirou fundo algumas vezes. Sentiu-se um pouco mais calma e resolveu voltar ao salo e divertir-se, apesar de Ruark. 
Ele que ficasse l babando.
    Virou-se, j confiante, deu um passo e quase gritou.
    Ele estava l! Encostado calmamente no parapeito e sorrindo para ela. Todos os pedacinhos de coragem que ela havia conseguido reunir num instante se estraalharam.
    - Afaste-se de mim! - soluou Shanna. - Deixe-me em paz!
    Ps a mo nos lbios para impedi-los de tremer e fugiu. Passou por Jason  porta e subiu correndo as escadas, s parando quando estava a salvo em seu quarto, 
com a porta trancada.
    O aposento estava quente, embora ela se tivesse despido e vestido algo leve. Limpou o suor do lbio superior que tremia e sentou-se  beira da cama, tentando 
parar o tremor que lhe sacudia o corpo. Persistia, porm, uma sensao de que no se conseguia livrar. Sabia o que ele queria, e suas prprias entranhas palpitavam 
de desejo.
    A noite ficou estranha, sossegada. Os sons dos convidados se apagaram  proporo que iam embora. O quarto de Shanna estava abafado e a esmagava. Temerosa, levantou-se 
da cama, soprou a vela ao lado e comeou a andar de um lado para outro, resolvida a pensar em tudo menos em Ruark.
    tila! Ela montada nele! Galopando to rpida quanto o vento. tila! Um assobio penetrante. Ruark! Irritada, Shanna sacudiu a cabea e tentou de novo.
    O mar! Ela boiando em suas ondas. Mergulhando para observar os peixes. Indo sair na praia. Com areia macia e quente sob os ps. Uma sombra no penhasco. Ruark!
    Um passeio com seu pai na carruagem. Ruark!
     mesa do desjejum. Um jantar. Ruark! Ruark! Ruark!
    Shanna apertou bem os olhos e comprimiu os punhos contra as tmporas. Para todo o lugar onde se virava l estava Ruark.
    Mas no ali, no agora. Ela estava a salvo.
    Shanna descansou, deu um suspiro e abriu os olhos. Foi at o terrao do lado de fora do quarto. O vento era frio e pesadas nuvens passavam velozes pela face 
da Lua. Um grande halo brilhava em redor do disco de prata, o que era sinal certo de chuva. Apoiando-se na balaustrada, Shanna olhou em derredor, para uma rvore 
de cada vez, observando at que a Lua volvel se dispusesse a lanar uma luz fugidia em cada uma delas. Infelizmente, nenhuma mostrava a sombra de um homem encostado 
em seu tronco; estavam todas vazias..
    Sbito, Shanna enrijeceu ao perceber que estava procurando Ruark! O nome lhe queimou os pensamentos. Ficou irritada por ter to pouco controle sobre suas idias.
    Impulsivamente voltou para a cama, onde se atirou, pondo um brao na testa e fechando os olhos, resolvida a dormir. Havia, porm, provado o mais doce dos nctares, 
conhecia agora as coxas musculosas dele, seus msculos poderosos, a barriga lisa, a fora de seu corpo contra o dela. Seus olhos se abriram e Shanna se deu conta 
de estar espalhada, tensa, na cama.
    Com um gemido, levantou-se de novo e vestiu uma saia comprida e uma blusa solta, que era o traje usual das mulheres da ilha. Prendeu o cabelo num leno florido. 
Seu quarto j no era um cu, e Shanna dele fugiu ao subir na sacada e cair no cho. A grama fresca e mida sob os ps descalos lhe trouxe recordaes da infncia, 
quando ela corria nos gramados com despreocupao. Devagar, afastou-se da manso e suspirou ao contemplar a Lua. As nuvens estavam juntas e o vento corria mais, 
fazendo com que a saia subisse ao seu redor. A esmo, andou pelas rvores e adorou a privacidade que a escurido lhe proporcionava. Quando criana, gostava de passar 
despercebida, e costumava vestir-se como camponesa. Poucas pessoas davam mais de um olhar rpido a uma moa vestida comumente e, embora no conseguisse enfrentar 
um exame mais detalhado, conseguia, tomando certo cuidado, passar realmente despercebida. Agora, perambulava pelos jardins da manso quanto queria, parando cada 
vez que uma recordao marcava uma rvore ou uma trilha. S quando parou em frente a uma varanda e viu a luz de uma lmpada ardendo numa sala de estar, percebeu 
haver percorrido o caminho que sua mente lhe indicara tantas vezes ultimamente.
    Na calma do chal, estranha sensao se apossou de Ruark. A batalha pela ateno de Shanna de repente lhe pareceu insana e intil. Ela retribura
    as atenes dos outros homens e ignorara as suas. O trabalho realizado no calor do dia e a festa na casa de Shanna lhe consumiram a fora, e ele penetrou na 
mais absurda depresso. Deitou-se nu no quarto apagado e contemplou a escurido. Sua mente estava aptica e o prprio ar que respirava lhe parecia pesado e opressivo. 
Seus olhos se fecharam e algum sono se apossou dele. Era como se estivesse em densa neblina, enquanto lanternas coloridas se movimentavam  sua frente; depois, brilhou 
apenas uma luz e ele se apressou em sua direo, mas chegou a um jardim com muro de pedra, iluminado pelo Sol e rido a no ser por uma rosa de tal beleza que o 
fez parar para lhe admirar o porte. Ao fazer isso, a haste se dissolveu e a rosa flutuou livre entre neblinas reluzentes que obscureceram todo o resto. A flor de 
um vermelho profundo lhe encheu a mente. Em seguida, afastou-se, tremendo, estremecendo, mudando de forma. Era agora um par de lbios midos, suavemente entreabertos; 
acima deles, esmeraldas verde claro se tornaram um par de olhos da cor do mar e ansiosos, com uma profundidade que o atraiu. As nvoas em movimento se transformaram 
num rosto de beleza frgil, formado pela percia de um artista revelando todo o seu talento. Os olhos o mantinham hipnotizado. Os lbios formaram palavras mudas 
que lhe cativaram a alma.
    - Estenda a mo. Colha-me. Colha esta flor.  sua.
    Quando estendeu a mo, um espinho comprido e de ponta negra se lhe enfiou na carne e, com a dor, ele a recolheu. O rosto riu e atirou cachos reluzentes que flutuaram 
em redemoinho cor de mel misturado com dourado.
    O espinho se afastou at flutuar em meio a uma selva sem folhas e cheia de espinhos. O canto da sereia aumentou e ficou intenso, cegando-lhe a vontade a tudo 
menos  beleza que o convocava, chamava, apelava que ele a tocasse. Arremeteu para a frente imprudentemente. Seus dedos quase roaram as ptalas vermelho-sangue 
antes que as trepadeiras o pegassem, segurassem; com ansiedade cruel, os espinhos mergulharam fundo em seus membros e corpo at ele soluar de agonia e a brancura 
ardente da dor lhe tirar a viso. Ele tentou recuar, mas cada movimento reforara a tortura exttica. Em seguida, sentiu-se cair, mergulhar numa floresta verde e 
florida.
    Os olhos de Ruark se abriram e ele contemplou novamente a escurido,  medida que seus sentidos voltavam. Amaldioando a rosa, acendeu uma vela ao lado da cama 
e vestiu a cala curta. Ia trabalhar para aliviar a cabea, e no mais deixaria que as pirraas de Shanna o torturassem.
    Foi at a sala de jantar onde estivera trabalhando e sentou-se na beira da mesa. Um lampio a leo estava pendurado por cima, e sob sua luz ele olhou sem ver 
os papis e rascunhos espalhados na mesa. Mesmo ali, a lembrana de Shanna era muito forte para que ele tivesse paz.
    Devagar, Ruark pressentiu uma presena no aposento e, ao levantar os olhos, viu a sombra de uma mulher da ilha. Estava encostada na porta. Com movimentos fluidos, 
avanou at a luz e Ruark levantou-se imediatamente,
    ao reconhecer Shanna. Jogou a caneta na mesa e, sem dizer uma palavra, foi at o aparador, l servindo um clice de Madeira. Voltando a ela, ofereceu-lhe o clice, 
e ficou a seu lado, desejando mas no ousando toc-la. Seria mais um sonho que se desvaneceria, se ele tentasse peg-la?
    Shanna pegou o clice com as duas mos e bebericou enquanto os olhos verdes suavemente examinavam o rosto de Ruark. Este lhe tirou o clice e o olhar de Shanna 
o seguiu enquanto confuso lhe invadia a mente. Ela no conseguia encontrar palavras para quebrar o encantamento. A mo de Ruark lhe tirou gentilmente o leno da 
cabea e soltou os cachos compridos e espessos, derramando-os sobre os ombros macios e alvos. Ps o clice no canto da mesa e apagou o lampio. Os lbios de Shanna 
se entreabriram num gemido sem palavras, quando os braos dele a rodearam, trazendo-a contra seu peito cabeludo e musculoso. A boca de Ruark tocou a dela e lhe provou 
a suavidade dos lbios, brincando, aquecendo e excitando-a at que os braos dela lhe enlaaram o pescoo. Ele se inclinou levemente e seu brao foi para trs dos 
joelhos dela, levantando-a do cho. Um suspiro leve escapou dos lbios de Shanna quando ela ps a cabea no ombro do marido. Ruark caminhou rapidamente por entre 
os aposentos at chegar ao quarto pouco iluminado, onde, sem parar, virou-se e caiu de costas na cama, sempre segurando-a nos braos. Shanna arquejou ao cair e se 
apoiou num cotovelo para contempl-lo com surpresa. Abraando-a, Ruark beijou-lhe os lbios e o pescoo e, finalmente, o ombro nu. Shanna quis livrar-se do toque 
dele, mas essa vontade se desvaneceu frente s persistentes carcias dele. Shanna levantou-se ligeiramente acima dele e sacudiu a cabea at que seu cabelo formou 
reluzente dossel em redor dos rostos deles. Ao olhar os sedentos olhos ambarinos, ela se abaixou de novo e o beijou longa e ardentemente movendo-se devagar, e fazendo 
com que os bicos ardentes dos seios lhe roassem o peito. As mos dele foram at a cintura dela e lhe desabotoaram a saia. Com um puxo na blusa, ela caiu. Como 
uma gata selvagem, Shanna agachou-se de joelhos acima dele, tentando, com um beijo, um toque ntimo at que Ruark rolou e a puxou para baixo de si. Ento, com abandono 
feroz e total, ele a possuiu, arrastando-a at alturas inatingveis.
    Saindo de sono profundo, Ruark acordou como se de um transe, e por terrvel e curto momento temeu haver sonhado tudo. Entretanto, logo sentiu o corpo macio e 
quente enroscado no seu, e descansou. A lembrana da paixo de Shanna agitou-lhe a mente. Ela o havia provocado como uma vbora, tentado com sua suavidade, e feito 
amor com ele como se fosse uma mulher idolatrada. O efeito disso sobre ele foi total e completo, devastador quando desej-la s o levava  frustrao e agonia de 
mente e de corpo, lindo quando eles se uniram no amor e ela foi dele, por algum tempo. O perfume de Shanna lhe invadiu o crebro, e suas adorveis curvas estavam 
aninhadas contra ele, a coxa quente e macia descansando calmamente entre as dele, o brao dela contra seu peito.. Ela se mexeu e sua respirao
    lhe fez ccegas na nuca. Os lbios dela tocaram os dele e, quando ele a olhou, ela recuou, olhos sorridentes. Seus lbios se encontraram vrias vezes e cada 
beijo foi mais doce do que o anterior. O brao de Ruark enlaou-lhe os ombros e sua outra mo lhe acariciou a espinha dorsal e lhe comprimiu os quadris contra os 
dele. Eles se separaram e depois se juntaram com um fervor que os fundiu em um s corpo, e cada um deles se esqueceu de tudo, s querendo um ao outro. Tudo que aconteceu 
antes foi obscurecido pelo ardor da unio.
    Raios irregulares estalaram no cu de bano, e gotas de chuva salpicaram nas folhas dos flamboyants perto das janelas. Ventos errantes trouxeram o cheiro fresco 
da tempestade para dentro do quarto. Os dois estavam acordados, mas ficaram calados e perplexos pela felicidade que encontravam juntos. Shanna continuou deitada 
entre os braos dele. Seu dedo percorreu a orelha de Ruark, e ela roou o cabelo aparado dele.
    - Devo despedir-me de voc antes que meu pai descubra a nosso respeito - disse ela, baixinho. - Hergus tem medo do que acontecer.
    - E eu tambm devo abrir mo de voc? - indagou Ruark, dando um sorriso. - Dou-lhe minha palavra de que essa mulher  cega, ou veria que estou enfeitiado por 
voc.
    Shanna rolou a cabea para observar os raios que percorriam a escurido l fora. Era estranha a sensao de segurana que a invadia perto de Ruark, enquanto 
a tempestade abrangia o mundo alm das janelas. Sempre havia dormido sozinha, e em criana tinha medo dos ventos com troves e dos relmpagos cegantes que emprestavam 
aspecto lgubre a seu quarto, muito depois que a tempestade passava. Vrias vezes fugiu aterrorizada para a segurana do quarto dos pais, a apenas algumas portas 
do seu. Agora, com os ventos intensos do lado de fora, e os braos confortadores de Ruark, ela no desejava sair dali.
    Os dedos de Ruark roaram os cachos ligeiramente embaraados da nuca macia de Shanna, e seus beijos lhe percorreram livres a alvura. Shanna fechou os olhos, 
deleitando-se com a paz de seu contentamento. Um longo suspiro escapou de sua boca.
    - Acho que eu devia ir embora, antes que a tempestade piore.
    Os lbios de Ruark lhe roaram as tmporas e, em seguida, o rosto:
    - Fique at o amanhecer - sussurrou ele no ouvido dela. - At l, j passou tudo. Deixe que eu a fique abraando por mais algumas horas.
    Shanna virou o rosto para que seus lbios encontrassem os dele, e suas bocas voltaram a brincar com crescente intensidade, e em seguida ela murmurou:
    - Mas voc vai precisar descansar. E amanh? Voc tem de trabalhar.
    - Dou um jeito. - A boca de Ruark ficou insistente. - Fique, est bem?
    Shanna fez um aceno positivo com a cabea, e sua voz foi abafada pelos beijos dele.
    - Est bem, fico at amanhecer.
    A tempestade bateu contra a janela, e juntos observaram o cu danar suas danas gneas e minsculas estrelas surgirem entre as nuvens fugidias.
    O carrilho do relgio no vestbulo soou quatro horas. Ruark acordou e se deu conta de que Shanna estava enroscada contra ele, profundamente adormecida. Ele 
a beijou suavemente instando-a a acordar enquanto lhe dizia o nome. A moa gemeu com sono e passou um brao macio ao redor do pescoo dele. A boca de Ruark acariciou 
de leve os lbios entreabertos e ele murmurou, com voz rouca:
    - Vamos, amor, est na hora. Eu a levo.
    Procurando no escuro, Ruark acendeu uma vela que iluminou o quarto. Levantou-se e deu a volta na cama para apanhar as roupas dela no cho. Shanna enrolou o lenol 
no corpo, sentou-se na beira da cama e seus olhos o evitaram, quando ele lhe entregou as roupas.
    - Voc quer vestir a cala? - pediu baixinho, enquanto olhava para as mos cruzadas no colo. Ela o olhou furtiva e rapidamente e deu de ombros, em resposta ao 
olhar interrogativo de Ruark. -  porque voc est to nu a...
    O olhar dela moveu-se rapidamente para a parte inferior dele, e depois se desviou. Sentiu-se sem jeito, porque ele ficou olhando para ela esperando que continuasse. 
De forma intencional, Shanna ficou olhando para a janela e disse depressa:
    - Voc no  muito recatado. Voc... voc parece to  vontade assim...
    O cenho de Ruark se franziu interrogativamente, quando ele percebeu o rubor do rosto dela. Chegaria algum dia a entend-la? Cedeu ao pedido dela e vestiu a cala.
    - Madame, a senhora deve lembrar-se - disse prendendo a cala que  muito difcil fazer amor vestido, e realmente prefiro a coisa mais ntima. Acho que vai precisar 
habituar-se a me ver nu. Uma recm-casada s tem o direito de sentir acanhamento durante certo tempo.
    Os olhos verdes se arregalaram e se fixaram nele:
    - Voc acha mesmo que isso pode continuar? Ruark franziu a testa e perguntou:
    - E por que, madame, devo achar outra coisa?
    Shanna ficou abruptamente de p, largando o lenol no cho, e comeou a se vestir, esquecida de sua prpria nudez, e de seu efeito excitante sobre Ruark.
    - Isso... ontem  noite... aconteceu por acaso - disse Shanna, exaltada. - No deve continuar, para o seu bem e para o meu. Ainda no est satisfeito por eu 
haver cumprido o trato? Ser que no pode deixar de ser um patife lascivo que nunca se satisfaz? Se voc fosse um cavalheiro...
    A exploso de riso de Ruark interrompeu a torrente de palavras de forma brusca, e Shanna rodopiou, com olhos frementes.
    - Voc sabe censurar-me, como se no tivesse nada a ver com coisa alguma. No me pode culpar pelo que aconteceu aqui ontem  noite, madame
    E ainda fica a, toda macia, nua e tentadora e me reprova por olhar. Mulher volvel! - brincou. - Voc me provoca e depois me rejeita corno fez com todos os 
homens a quem ficou dirigindo olhares ternos.
    - Ooohh! - vociferou Shanna e depressa vestiu-se. - Voc  desprezvel.
    - Acha mesmo, madame? - Ruark a tomou nos braos e lhe beijou os lbios, o cabelo, o rosto. Comprimiu-lhe as costas na cama e sua boca foi at onde sua blusa 
deixava ver as curvas superiores dos seios, e depois baixou mais ainda, at quase a virilha. Shanna susteve a respirao e o fogo da paixo voltou a arder dentro 
dela. Um toque, um beijo, um olhar e ele a excitava. Que loucura era aquela?
    - Seu corao est batendo depressa demais para voc poder alegar desinteresse, meu amor.
    Os lbios dela tremiam, quando ele os reclamava ferozmente com os seus.
    - Prometa que me encontra mais tarde - arquejou ele.
    - No posso. No me pea.
    - Estou pedindo.
    - No, no posso. Preciso ir para casa, Ruark. Solte-me. - A cabea de Shanna girou vertiginosamente sob o ataque dos beijos dele, e sua voz ficou mais fraca. 
- Por favor. Ruark.
    - Voc decidiu atormentar-me - suspirou ele.
    Durante longo momento a boca faminta de Ruark buscou a doura da de Shanna. Ento, de repente, ele a soltou, fazendo com que a cama balanasse com a rpida exibio
dos msculos rijos. Com os lbios macios ainda palpitando pela presso dos dele, Shanna saiu relutante da cama, pois j quase no queria ir embora. Devagar, andou 
 frente dele quando saram do chal, sentindo-lhe a mo, de vez em quando, nos cabelos ou nos braos nus.
    Atravessaram a escurido rumo  manso. Os pssaros j acordavam com o arzinho frio do amanhecer e estavam testando suas vozes para ouverture; pareciam mesmo 
com as primeiras e hesitantes notas de flautas, obos e outros instrumentos de sopro. Silenciosa e introspectiva, Shanna caminhava ao lado de Ruark. A grama mida 
apresentava-se fria sob os ps descalos de Shanna, e as rvores borrifavam os dois com gotas de chuva enquanto a brisa agitava a folhagem luxuriante. Mantendo-se 
nas sombras mais escuras, os dois atravessaram depressa a clareira que levava  casa e logo chegaram debaixo da sacada de Shanna.
    -  melhor voc voltar agora - murmurou ela. - Vou dar a volta pela escada.
    Ruark olhou para cima para a varanda.
    - No seria difcil faz-la subir por aqui, se voc se arriscasse, Shanna o olhou cptica e disse
    - S se fosse para eu quebrar o pescoo.
    - Confie em mim, meu amor - disse Ruark, rindo. - Voc no  muito grande. Posso faz-la subir num instante. - Curvou levemente o joelho. - Vire as costas para 
mim, d-me as mos e ponha seu p aqui na minha coxa. Voc senta no meu ombro e ento estar quase na metade do caminho.
    Hesitante, Shanna fez o que ele disse e ficou surpresa com a facilidade com que a manobra foi executada. Quando parou no ombro dele, olhou para baixo e o som 
de sua alegria fervilhou na quietude da manh. Ela comentou maliciosa:
    - Para um cativo, voc sempre me ajuda quando preciso. Acho que vou querer conserv-lo a meu servio...
    De brincadeira, Ruark lhe mordiscou as ndegas, e Shanna, abafando um protesto, apressou-se em subir. Com uma das mos no traseiro dela e a outra lhe firmando 
a perna, ele a levantou at ela agarrar a parte inferior da balaustrada, ento alou-a mais alto at ela conseguir pr o p na trepadeira e subir sozinha da para 
a frente. Quando se viu na varanda, Shanna deu um risinho suave e satisfeito e debruou-se no parapeito para despedir-se dele.
    - Meus agradecimentos, Sr. Drago - disse, baixinho.
    Ruark riu satisfeito, ps o brao no peito e fez uma reverncia:
    - Fao qualquer coisa para lhe ser til, madame. - E se foi com o andar lento e cadenciado que dava a Shanna a impresso de um animal caador. Fascinada, Shanna 
observou-o at ele desaparecer. Virou-se lnguida e levantou o cabelo do pescoo ao sorrir para si mesma, olhos sonhadores e brilhantes. Foi para o quarto, endireitando 
a blusa e congelou quando um vulto saiu de detrs da cortina.
    - Francamente, Sr. Drago! - A voz demonstrou desagrado.
    - Hergus! - Shanna se assustou e tentou acalmar o ritmo acelerado do corao. - Voc me apavorou! Por que est acordada a esta hora e no meu quarto?
    - Estava preocupada com voc. Sei como tem medo de tempestade, por isso vim ficar aqui at a tempestade passar. Quando vi que voc no estava, esperei, com medo 
de que seu papai viesse aqui. Enfiei-me na sua cama para fingir que era voc dormindo, como deveria estar, se tivesse juzo.
    Ansiosa para ficar sozinha com seus pensamentos e lembranas das horas recentes, Shanna no estava com disposio para discutir com a criada.
    - Vou para a cama - afirmou. - Fique ou v, como queira. No faz diferena. Mas, de qualquer forma, mantenha-se calada. No vou ficar ouvindo voc a esta hora 
da manh.
    Shanna passou depressa por Hergus e foi at a cama, onde deixara a camisola. O amanhecer comeava a despontar no horizonte, mas a moa despiu a roupa de camponesa 
e deu as costas a Hergus, que estava em atitude irritada, braos nos quadris, e cenho franzido. Pela primeira vez na
    vida, Shanna sentiu-se constrangida pela nudez com a criada presente, embora a escocesa a ajudasse a se vestir desde bebezinha. Seria apenas o tom arroxeado 
do Sol que acordava que estava pintado no brilho rosado de seus seios ou seria marca do corpo de Ruark unido ao seu? A lembrana daquelas horas fez com que Shanna 
corasse fortemente e se apressasse em vestir a camisola curta.
    - J vou - suspirou Hergus, triste. - Mas s vou ficar satisfeita quando voc parar com essa loucura.  uma vergonha dormir com um homem, deixando-o fazer o 
que quiser sem haver nenhum compromisso entre vocs. Eu sabia que ia dar confuso quando voc ficou viva logo depois do casamento, porque  muito linda e tem sangue 
quente, d pra ver isso. Voc e o Sr. Ruark so iguais. Tm fogo demais.
    Shanna fez beicinho, enfiou-se na cama e observou Hergus de cenho franzido, enquanto a mulher apanhava as roupas de camponesa, dobrava-as e as punha cuidadosamente 
no armrio. Quando a criada foi embora, Shanna olhou mais uma vez com raiva para a porta. Depois, dando-lhe as costas, escorregou para dentro dos lenis de seda 
e ps-se feliz a dormir com a lembrana de braos fortes a enlaando e de lbios persistentes nos seus, marcando-lhe os sonhos.
    Chegou o Sab; uma capela na ilha servia aos que se sentiam inclinados a reunir-se para os servios religiosos. Era costume da famlia Trahern comparecer ao 
culto, e aquele dia no era em nada diferente nesse aspecto. A nica exceo naquela manh era a presena de Ruark. Ao entrar na igreja, Ruark se roou contra Shanna 
e antes mesmo de virar-se para ver quem era, ela j o sabia, por um estranho instinto. Seu olhar se transferiu, como se obrigada, para as costas do homem alto e 
esbelto, vestido de seda verde.
    - Al, Sr. Ruark! - exclamou jovialmente o latifundirio, e Ruark os encarou, como se surpreso por ver-se to perto da famlia Trahern. Shanna admirou-lhe a 
frieza. Ele foi to natural que ningum,  exceo talvez de Hergus, que estava a alguns metros atrs deles, poderia ter adivinhado que ele estava ali deliberadamente.
    Ruark retribuiu o cumprimento do patro antes que seu olhar se detivesse em Shanna para admirar-lhe a beleza por um instante; a moa estava sob um raio de sol, 
vestida de cambraia verde claro, to tentadora quanto qualquer guloseima que ele j vira. Sob a ampla aba do chapu, ela lhe sorriu friamente.
    - Sr. Ruark, parece que se est civilizando, usando roupas decentes e vindo  igreja. Mal posso acreditar no que vejo!
    Um sorriso maroto torceu a boca de Ruark:
    - No quis chocar o proco com minhas roupas miserveis.
    - Ah, ? - respondeu Shanna. - Pensei que nada o perturbasse. Sr. Ruark. O senhor no tem mostrado hesitao em usar aquela cala medonha na vila, onde todas 
as moas ficam babando para o senhor. Se fosse recatado, parece-me que o vilarejo seria o lugar onde deveria comear a usar roupas discretas para no botar idias 
ruins naquelas mentes inocentes
    Trahern apoiou-se na bengala e ficou olhando os dois,perguntando-se se a discusso se agravaria com insultos mais pesados. No conseguia entender a irritao 
da filha para com aquele homem.
    - Madame - disse Ruark, passando a mo morena no jab rendado e parecendo zombar de sua pobre justificativa - no tenciono abusar das mentes inocentes. - Encarou-a 
decididamente. - Nem desejo confundir as
    Mentes simplrias das moas. Mas sempre respeitei os religiosos e dei o devido crdito s palavras e votos trocados numa igreja.
    Os olhos de Shanna se estreitaram. Que patife, esse Ruark! Agora que o trato havia sido cumprido, ele poderia reivindic-la pelos direitos do matrimnio. Bem, 
ele que pensasse assim, porm ela estava com outras idias e no bancaria a mulher de cativo algum.
    - Sente-se conosco, Sr. Ruark - convidou Trahern, tentando evitar um vexame pblico, e logo percebeu o olhar raivoso que a filha lhe dirigiu.
    - Tenho certeza de que o Sr. Ruark prefere sentar-se com a Milly Hawkins - replicou Shanna, agressiva. Agitou o leque na direo da moa, que esticou o pescoo 
para observar Ruark por sobre o ombro da me. - Ela parece estar abobalhada com suas novas roupas, Sr. Ruark.
    Este relanceou o olhar na direo de Milly, e ela subitamente se iluminou, dirigindo-lhe largo sorriso.
    - Obrigado, senhor - disse ele a Trahern, ignorando Shanna. - Isso me agradaria muito.
    Trahern os precedeu, reprimindo o riso que lhe faria tremer a barriga. Mos cruzadas s costas, Ruark caminhou ao lado dele e ia fazendo um sinal afirmativo 
com a cabea  medida que Trahern falava. No reservado da famlia, Shanna sentou-se calada ao lado do pai e ignorou Ruark ao se ver o alvo dos olhares preocupados 
de Hergus.
    Os assentos no reservado dos Traherns eram macios, com espaldar alto e espacejados de forma tal que os braos esculpidos de madeira se tocavam, exceto pelo 
que pertencia ao prprio Orlan Trahern. Ele se sentava ligeiramente  parte, para que o corpo volumoso dispusesse de espao adequado. As outras cadeiras e as menores 
colocadas  frente delas, obviamente feitas para crianas, estavam reservadas para Shanna, seu marido e filhos. Shanna preferia morrer a revelar a Ruark que a cadeira 
que ele escolhera era exatamente a destinada ao homem que seria seu marido. O colono j reivindicara muitos direitos conjugais para que ela ainda se atormentasse 
mais. Observando-o de esguelha, Shanna viu os olhos de Ruark abarcarem os assentos menores e percorrerem os trs grandes, ocupados por eles. Como havia uma segunda 
fila de cadeiras atrs deles para convidados e ela se sentou entre o pai e Ruark, apenas uma concluso poderia ser deduzida. Shanna percebeu, pelo risinho maroto 
que ele revelou, que Ruark deduziu corretamente.
    Desviando o olhar, a moa analisou sutilmente a mo que estava ao lado da sua: morena contra o branco impecvel dos punhos pregueados, mas limpa, com unhas bem 
aparadas e tratadas, o que era extraordinrio para um cativo comum. Sim, John Ruark era um homem totalmente diferente de todos os que ela conhecia. Embora sabidamente 
um cativo, podia passar perfeitamente por um nobre.
    - Por que o senhor no encontrou ainda uma mulher nas colnias, Sr. Ruark? - perguntou Shanna, deliberadamente. - Existem poucas mulheres l?
    - No, senhora. Na verdade, l existem muitas mulheres lindas. Deu um risinho quando seus olhos encontraram os dela, em clida comunicao. - Embora nenhuma 
se equipare  senhora.  que o trabalho me ocupava muito e me deixava pouco tempo livre para buscar a companhia de uma dama. Isso atormentava meu pai, que achava 
que eu trabalhava em demasia. Na Inglaterra, porm, surgiu uma coisinha linda que realmente me cativou. Espero algum dia convenc-la de que seria um bom marido.
    - Aqui temos espao suficiente para uma famlia grande - observou Trahern, fazendo um gesto para as cadeiras. - No vejo a hora em que esses bancos estejam suficientemente 
cheios. Seria um milagre, se Shanna encontrasse um marido adequado.
    Shanna prestou pouca ateno ao falatrio do pai e recusou-se a admitir sequer estar ouvindo os comentrios de Ruark.
    - Ainda sou muito jovem - disse, com firmeza. - E sem dvida vou dar-lhe muitos netos para entret-lo na velhice, Papai.
    - Sei! - bufou Trahern. - J estou velho. Veja se encontra logo um homem que valha a pena, filha, mas se apresse, por favor!
    - Papai! - Shanna deu um sorriso ligeiro ao pai, que ele aceitou com uma expresso de raiva. - Tenho certeza de que estamos entediando o Sr. Ruark. Na verdade, 
ele parece estar precisando descansar.
    Trahern olhou para a filha e para o cativo, que ocultava a graa que achava da situao por trs de um bocejo.
    Salva de mais irritao pelo incio do culto, Shanna fez uma pequena prece de gratido pela pontualidade do proco. Durante todo o servio, porm, no deixou 
de perceber a presena de Ruark a seu lado. Enquanto o cravo tocava e a congregao cantava, ela vibrava com a linda voz de bartono dele e mal pde balbuciar as 
palavras da cano.
    Somente quando saiu da pequena igreja, Shanna conseguiu respirar  vontade. A tenso de precisar vigiar cada olhar e de tentar aparentar naturalidade devido 
 proximidade de Ruark e simultaneamente exibir uma fachada gentil, embora algo tensa, a seu pai, foi muito inquietante. Na carruagem, de volta a casa, ela no parou 
de duvidar de sua prpria sanidade mental por haver aceitado Ruark como marido. Ele era como uma fera selvagem, aparentemente domada mas perigosa para os incautos. 
Apesar de haver acreditado poder controlar Ruark, agora estava apavorada ao haver percebido o terrvel erro cometido.
    Pouco depois do almoo, sentindo a necessidade de cansar o corpo e a mente, Shanna mandou selar tila e foi procurar o pai no escritrio deste para convid-lo 
a acompanh-la no passeio.
    - Um pedao de couro amarrado ao lombo de um cavalo - disse ele com desdm - no  meu conceito de lazer. No tenho a menor vontade de ir batendo com o traseiro 
por esta ilha sempre que voc tem vontade de perambular por a. - Para suavizar suas palavras, acrescentou: - V e divirta-se, menina. Pitney vai logo chegar para 
jogarmos xadrez.
    Shanna foi, portanto, passear sozinha pelos lados do engenho. Numa das ruelas do vilarejo ela passou por Ralston, mas quando ele parou e bateu na aba do chapu 
para cumpriment-la, a moa acelerou o ritmo do cavalo, ignorando o homem e galopando no corcel at a estrada que levava ao morro.
    O dia estava agradvel, quase frio, com lufadas de vento que lhe agitavam a saia cinzenta e lhe espalhavam madeixas de cabelo no rosto. Quando se aproximou do 
local da construo, tila comeou a empinar-se um pouco, sacudindo a linda cabea e levantando as pernas elegantemente. Shanna era amazona experiente, mas naquela 
tarde prestou pouca ateno ao animal, cujo nervosismo, em qualquer outro dia, a teria avisado de alguma coisa. Um tilintar de sino e um roar nos arbustos ao longo 
da trilha mostraram um bode solto. O bicho correu para a estrada  frente deles, fazendo com que tila se empinasse de medo. Escoiceando o ar, ele sacudiu a cabea 
para no ser mordido. Pegada desprevenida, Shanna sentiu as rdeas lhe fugirem e precisou esforar-se para no cair. O cavalo, sentindo-se livre, preparou-se para 
correr. Nisto, ouviu-se um assobio agudo e forte. tila parou imediatamente e, to calmo quanto um potro domado, comeou a trotar na trilha em direo ao engenho.
    O cavalo s reagia daquela forma a uma pessoa: Ruark! Agarrada  crina de tila, Shanna relanceou os olhos  procura do homem e o viu esperando ao lado de um 
muro em construo. Mais uma vez vestia a cala curta. O torso moreno e forte contrastava nitidamente com a brancura da cala. Ao v-lo assim vestido, Shanna teve 
vontade de esbravejar.
    Ruark pegou as rdeas e as prendeu a uma cerca; ao falar, sua raiva foi evidente:
    - J que a senhora gosta de cavalgar este maldito animal, madame, deve tomar mais cuidado com sua segurana. Se vai cavalgar e ficar pensando na morte da bezerra, 
 melhor conseguir um animal castrado.
    Shanna no gostou de ouvir essas palavras, porque as sabia fundamentadas. tila no era o tipo de cavalo que uma dama devesse escolher para passear. O animal 
era fogoso e ansioso e precisava sentir que era comandado por mo firme.
    - Ser que meu pai  to severo que voc precisa trabalhar no Sab? - retrucou Shanna. - O que est fazendo aqui?
    - Queria dar uma olhadinha em algumas coisas sem que os homens estivessem por perto. - Ruark a segurou pela cintura fina e, ficando ao lado do cavalo, fez com 
que ela escorregasse para o cho contra seu corpo quase nu, at que seus olhos reluziram maliciosamente para ela, e disse: - At voc aparecer, meu amor, meu dia 
estava perdido.
    Colocou-a no cho e se inclinou para beij-la. Naturalmente, porm, como se no houvesse notado o gesto, Shanna tirou rpido o chapu, que colocou entre os dois.
    - E como foi, senhor, que eu lhe salvei o dia? - Havia uma frieza em sua voz que ela se esforou por conservar. Afastou-se de Ruark e ps o chapu
    no gancho da sela. Sentiu o corpo lhe arder onde o corpo dele tocara, e ainda guardava a presso dos dedos dele na cintura. - Vim apenas para ver como estava 
indo o engenho. Se soubesse que estaria aqui, teria procurado outra diverso.
    Ruark deu um risinho e estendeu a mo para acariciar o cabelo de Shanna, dizendo:
    - Meu amor, voc ainda tem medo de mim? Shanna aprumou-se indignada e lhe retirou a mo.
    - Acontece que tenho horror a ser olhada da forma pela qual voc me olha. O cumprimento do trato no lhe suavizou a luxria, no ?
    - Confesso que no, amor - disse Ruark, puxando-a para si. - Na verdade, at a atiou mais.
    Shanna ps o chicote de montaria entre eles, mas os dedos fortes e possessivos de Ruark a agarraram e ela no conseguiu debelar o estremecimento que lhe percorreu 
o corpo.
    - Tente controlar-se, Ruark - advertiu. - No vim deitar-me com voc, vim apenas ver o engenho. Acho que aqui no  lugar seguro para mim. Voc parece que nunca 
se satisfaz.
    Os olhos de Ruark arderam como brasas ambarinas sob as pestanas negras e ele disse:
    - Voc me provoca demais, Shanna!
    O olhar dele a perturbou, e Shanna desviou os olhos. Antes de Ruark ningum a fizera tremer por razo alguma, muito menos com um simples olhar ou palavras. O 
que teria aquele sabujo para excit-la tanto? Outros homens bonitos e vibrantes j lhe haviam suplicado que se casasse com eles. S haviam conseguido, porm, que 
ela se entediasse. Tinha havido alguns que ela considerava inteligentes, mas lhes admirava a mente, nada mais. Houve tambm rapazes imaturos; e ainda a idia de 
se casar e ter relaes com um velho lhe era repulsiva. Ruark era jovem, inteligente e a recordao de seus momentos de amor com ele a excitava tremendamente, deixando-lhe 
os seios quase doloridos pela vontade de ser acariciados, e suas entranhas famintas por serem consumidas pela paixo devoradora dele.
    Perturbadssima pelo que lhe ia na cabea, Shanna afastou-se. Seria ela alguma sirigaita, para viver ansiando pelo amor dele?
    - Quer mostrar-me o engenho? - pediu, relanceando o olhar para longe dele. - Mas vai comportar-se?
    - Eu lhe mostro o engenho - respondeu ele, sem se referir  segunda parte da pergunta.
    Foram andando devagar, enquanto ele apontava e dava explicaes. Shanna conhecia a operao pela qual a cana era introduzida nas rodas de pequeno engenho montado 
numa carroa e que era levado para o campo onde era necessrio. Contemplou, porm, com espanto e admirao a estrutura sendo erigida no vale.
    Os trs grandes cilindros haviam sido postos no lugar para esperar carroas cheias de cana, e havia uma cuba gigante para comportar o caldo.
    Duas alas saam da moenda: uma era equipada com grandes caldeiras de cobre para cozinhar o melao fino e transform-lo em melado, e a outra era para abrigar
as tinas de fermentao, e uma destilaria de lato que produziria vrios tipos de rum: o negro, que abasteceria os navios de Sua Majestade, e os claros, bem-vindos 
em qualquer mesa.
    Parte da mente de Shanna seguia as palavras de Ruark, enquanto a outra parte se centralizava no homem. "Aqui", pensou, "ele est no seu elemento." A voz dele 
tinha um tom autoritrio, e seus modos eram firmes e confiantes. Ele ficou em p numa viga que mal dava para seu p e caminhou tranqilamente at o meio, enquanto 
ia apontando e explicando detalhes. Shanna o via de todos os ngulos: por trs, quando ele a precedia num caminho estreito; por cima, quando ele a levantou at um 
lance inacabado de escadas; de lado, quando ele estendeu o brao para mostrar-lhe a simplicidade de seu plano; por baixo, quando ele subiu numa escada at uma plataforma 
elevada.
    Em silncio, Shanna o seguiu, percebendo o orgulho que ele dedicava s obras. Deu-se conta de que ele era um homem que s sabia fazer tudo bem, e que dava o 
melhor de si. Comprometia-se com todos os objetivos e os perseguia at sua consecuo. Seu espanto crescia ao analis-lo, e sua curiosidade aumentava rapidamente.
    Ela comeou a pensar que havia algo mais nele; no era um simples cativo. A resposta veio depressa. Ela sempre soubera isso. Ele nunca fora escravo de homem 
algum nem de mulher alguma.
    O semblante de Shanna ficou pensativo. Tentou imaginar que tipo de lar teria sido o bero de um homem daquele e que tipo de pessoa o havia criado.
    O riso macio de Ruark lhe afastou os pensamentos, e Shanna o olhou interrogativamente. Os olhos dele estavam pousados nela e brilhavam, divertidos.
    - Acho que desci a muitos detalhes. - O sorriso dele era ligeiramente apologtico. - Pelo menos, porm, voc vai ser capaz de responder a qualquer pergunta que 
lhe fizerem sobre o engenho.
    - J vi partes do engenho antes e ouvi pessoas o descreverem.  realmente maravilhoso.
    Shanna encostou-se num tronco para se apoiar, porque a altura era de entontecer e para controlar sua mente, porque a porta que estava na iminncia de abrir com 
suas palavras, poderia ocultar muitos tipos de espectros.
    - E que devo responder quando as pessoas me perguntarem a seu respeito, John Ruark? - continuou ela,, apesar do cenho franzido dele. Sei to pouco sobre voc. 
O que me diz de sua famlia? Hoje de manh voc falou sobre seu pai. Ele est a par do que aconteceu em Londres?
    - Espero que no. Peo a Deus que no. - Ruark olhou para longe, a fisionomia perturbada. - A resistncia dele seria submetida a dura prova, se os rumores lhe
chegassem aos ouvidos e ele me julgasse morto. Gostaria de poup-lo disso.
    - E sua me? - insistiu Shanna. - Voc tem irmos ou irms? Nunca falou neles.
    Ruark a encarou com um sorriso se esboando no canto dos lbios.
    - Como posso gabar-me deles, Shanna, quando somos todos um bando de sabujos imbecis?
    Shanna no se perturbou com a censura velada e desesperou-se, pois no ia conseguir saber mais sobre ele. Sequiosamente, contemplou os montes cobertos de verde
que os cercavam, abrigando o local do engenho. Uma nvoa azulada os rodeava  medida que uma nuvem lanava enormes sopros para cima como se estivesse respirando
repetidamente e se dilatando at poder evaporar tudo numa tempestade sbita. Duas guias-pescadoras voavam em crculos sob as nuvens, erguendo-se nas correntes de
ar at entrarem nas nvoas brancas. Alguns minutos depois, saram de novo com as asas dobradas do outro lado do morro. Pareciam estar brincando de passear pelas 
correntes do ciclone at serem por elas expelidas.
    Rindo alegremente, Shanna virou-se para chamar a ateno de Ruark para as cabriolas das aves, mas viu que ele contemplava as partes mais macias do corpo dela. 
Ao se apoiar no tronco, oferecia ousado perfil de seu busto redondo, retesado contra o corpete do traje. Ruark era homem de desfrutar todos os panoramas, embora 
ultimamente se limitasse a observar apenas Shanna.
    De imediato, Shanna se aprumou e o encarou, esperando que o olhar dele subisse e encontrasse o dela. At mesmo na igreja, de manh, ela se sentira a presa daquele
olhar de falco.
    - Seus olhos traem o que lhe vai na cabea - acusou, bruscamente, a moa. -  falta de educao olhar assim, e ainda pior: fazer isso na igreja-
    - S a estava admirando. - Os olhos ambarinos reluziram e o riso dele foi quase provocante. - Voc era a mulher mais linda na igreja, e como a maioria dos outros 
homens, eu apenas admirei sua beleza.
    - Voc  mais ousado do que os outros - repreendeu ela. - Sinto-me nua cada vez que voc me olha.
    O risinho de Ruark foi quase lascivo, e ele disse:
    -  que sabe ler meus pensamentos, madame. Costumo imagin-la nua nos meus braos.
    - Voc  um patife! Um patife nojento que s pensa em sexo! - gritou Shanna, com o rosto afogueado. - Estou desesperada com o que pode resultar disso tudo. E 
se eu estiver grvida? Ser uma calamidade!
    - S se voc fizer que seja, amor! - respondeu Ruark, suavemente.
    - Voc no tem jeito mesmo! - vociferou Shanna. - Nem toma conhecimento do meu dilema! Eu teria de enfrentar meu pai, mas tenho certeza de que voc encontraria 
alguma desculpa para proteger suas preciosas costas de umas chibatadas!
    Ruark a olhou detidamente e perguntou:
    - Voc j teve algum sinal de que est grvida, Shanna? Talvez este ms ainda no tenha recebido aquela visita?.
    Shanna sacudiu a cabea irritada e desviou o olhar dos olhos inquisitivos dele, algo embaraada:
    - No, ainda no tive sinal algum.
    Ruark estendeu a mo e lhe tocou o ombro.
    - Ento, talvez logo voc esteja mais descansada, meu amor. Shanna repeliu as carcias dele, dizendo:
    - Voc agora se mete at em minha vida? - Ela estava irritadssima. - Ser que no posso nem ter segredos para voc?
    Sob os dedos dele, o cacho macio do cabelo dela se desprendeu. Ruark pegou um punhado do cabelo e cheirou o delicioso perfume que ele liberava. Perto do ouvido 
da moa murmurou, segurando-lhe os cachos:
    - No deve ter segredos para com seu marido, meu amor. Se a semente j est em voc, s podemos aceitar o fato.
    Irada, Shanna virou-se para encar-lo, e Ruark pressentiu que havia ido longe demais.
    - Ah, ? E que faria voc, se eu estivesse realmente com uma criana na barriga, meu presunoso cavaleiro, meu amvel lorde e senhor? - escarneceu ela. - Voc
vai tirar a criana de minhas entranhas e dar-lhe seu nome?
    - Certamente, madame! - assegurou Ruark. - Mas h um problema. - Ele passou a mo no queixo cautelosamente. - Devemos cham-lo John Ruark, reconhecer que somos 
amantes e nos casarmos de novo? Ou devemos cham-lo Ruark Beauchamp, como seria correto, e depois confessarmos a histria toda, isto , que somos casados, e suplicarmos 
a piedade de seu pai?
    Escandalizada, Shanna bateu o p. Ele estava debochando de tudo, e rindo dela. Oh, como o odiava! Veementemente, ansiava por coloc-lo de volta em seu lugar.
    - Voc  grosseiro! - esbravejou, linda em sua ira, olhos chispando de dio. -  um brbaro do pior tipo! Zomba de meu orgulho e de minha honra. Voc me arrebataria 
a coisa que batalhei mais duro para ter: meu direito de escolher marido. - Agitou uma das mos no ar para enfatizar o que dizia, depois a baixou e o olhou com raiva. 
- Quer dizer que espera que eu carregue seus bastardos passivamente?
    O silncio inflexvel afinal lhe penetrou a percepo e o corao de Shanna saltou quase temeroso, quando os dedos fortes e finos de Ruark, atravessando-lhe
os cabelos, chegaram at a nuca, encaracolando-se na massa suave at que sua cabea foi puxada para trs e ela o encarou. Os msculos do queixo dele enrijeceram
quando os olhos ambarinos e frios, cheios de raiva, olharam para os dela:
    - Eles no sero bastardos, madame. Voc  minha mulher.
    Shanna se sobressaltou e sacudiu a cabea negativamente, tentando livrar-se. Fechou os olhos e os punhos como se, por meio de pancadas, pudesse negar as palavras 
dele.
    - O trato j foi cumprido! - arquejou. - Voc concordou!
    - E que me diz dos nossos votos? - rosnou ele. - Pensa que foram superficiais a ponto de serem ignorados s porque voc quer? - Como a moa permanecesse em teimosa 
recusa, Ruark continuou zombando. - Voc d menos importncia a algo que foi jurado num altar do que numa cela? Como explica ser viva, se estou muito vivo e em 
bom estado de sade, e isso voc mesma pode atestar? - As palavras dele foram cruis e ofensivas. - Ser que acha meu vigor deficiente, madame, e precisa de outro 
marido, para quem se possa espalhar  vontade e experimentar as delcias que ele lhe poderia dar?
    Shanna o olhou fixa e com estupefao, e Ruark riu, mordaz:
    - Eu disse "poderia", madame, "poderia". Talvez seja seu destino casar com algum lorde deficiente mas de nome tradicional, e passar o resto de suas noites ansiando 
por um verdadeiro homem. Ou ser que a senhora me convocaria para cortej-la, quando seu marido no pudesse?
    O tom rubro das faces de Shanna e o lampejo em seus olhos deram muda evidncia do efeito dessas palavras selvagens e cruis.
    - Animal! - Rosnou ela devagar, e levantou o chicote como se fosse lan-lo ao rosto de Ruark. - Voc quer que eu siga o que lhe vai pela cabea, mas me nega 
o direito de dar minha opinio sobre o assunto.  leviano quando existe pouca coisa a perder do seu lado. E  bem capaz de fugir e me deixar de barriga grande com 
um beb! - Livrou a cabea da mo dele.
    - Como todos os homens, voc s faz o que lhe d na telha, porque  livre.
    - Livre! - Ruark deu um risinho amargo. - No, madame, sou um cativo, e se meu patro quiser vender-me, minha vontade nada ter a ver com essa deciso. - Inclinou-se 
para ela e sua voz se ergueu, quando ele retrucou  dureza das palavras dela. - Fugir? Ser um renegado a vida inteira? Madame, posso garantir-lhe que no farei isso!
    - Voc  mesmo um renegado! - vociferou Shanna, pondo as mos nos quadris. - Mas sou eu que tenho tudo a perder.
    - Tudo a perder! Ah! - rosnou ele, e, aproximando-se mais ainda, berrou-lhe no rosto. - O que mais posso perder, alm do pescoo? Voc acha que tenho assim to 
pouco amor  vida que dou pouca importncia a seu estado, Shanna? Acha que desejo que o carrasco seja padrinho do nen?
    - Voc no passa de um imbecil metido a besta! - A voz de Shanna foi cortante.
    - E voc, de uma peste muito mimada! - gritou Ruark. - Acho que vou fazer o que seu pai no fez, e lhe dar umas boas palmadas.
    Os olhos verdes o olharam ameaadores:
    - Se me tocar, Sr. Ruark Beauchamp, tiro-lhe o couro dessa carcaa nua!
    Estavam bem acima do engenho em construo, nariz contra nariz numa plataforma estreita que tremia sob a raiva dos dois, mas nenhum deles reparou nisso. A pequena 
nuvem de tempestade soltou-se de sua amarrao na montanha e viajou direto pelo vale, conduzindo uma srie de pequenas nuvens do mesmo tipo.
    - Seu imbecil! - Shanna estava quase sufocada sob o efeito daqueles olhos ambarinos. - Seu idiota sem juzo! Seu patife grosseiro!
    Perto de onde estavam houve um relmpago ofuscante. Em seguida, o ensurdecedor rudo de troves os envolveu. Shanna estremeceu violentamente e, apavorada, caiu 
contra Ruark, as mos agarraram-lhe o brao nu, no qual os dedos enfiaram fundo e seus olhos mostraram todo o medo que a dominava. Logo em seguida, outra carga de 
raios cruzou o ar e Shanna, plida e trmula, encolheu-se como uma criana atemorizada. Ruark achou que devia haver poucas coisas no mundo que a assustassem daquela 
forma. Ela j mostrara muita coragem em face de diversas dificuldades. A raiva de Ruark se dissolveu depressa e ele a abraou pelos ombros, segurando-lhe a forma 
trmula enquanto a conduzia at a escada. As primeiras gotas geladas de chuva j caam sobre eles, e o vento chocalhava as tbuas soltas debaixo dos seus ps.
    - Cuidado, Shanna! - preveniu Ruark. - O lugar  alto e o caminho ngreme.
    O vento varreu qualquer resposta dos lbios dela, e Shanna teve que arquejar por ar. Ansiosa, comeou a descer aps Ruark. Quando chegaram ao patamar, Ruark 
precisou gritar-lhe ao ouvido.
    - Vamos para a cabana do supervisor. Fica l na estrada. Corra! - Ele a empurrou  sua frente e, levantando a saia, Shanna correu pela plataforma, desceu os 
degraus e correu at chegar  cabana que ele havia indicado. Arquejante, Shanna lanou-se contra a porta. Ruark estava um passo atrs dela e se inclinou para proteg-la 
da agora brutal fora da chuva, enquanto remexia na tranca da porta.
    Um raio cruzou o cu e um trovo lhes ribombou nos ouvidos. Shanna estremeceu temerosa, escondeu o rosto no peito de Ruark e se aninhou contra ele, enquanto 
as unhas se enterravam nas costas dele. O estrpito apavorante se desvaneceu e, depois de algum tempo, Shanna recuou e olhou para Ruark, sem se importar com as correntes 
de gua que lhe escorriam no rosto. Quando ele a olhou, seu olhar foi estranho. Devagar, abaixou a cabea e entreabriu os lbios quando encontrou a boca de Shanna. 
A chuva lhe caa intermitente nas costas, enquanto sua boca saboreava lentamente a dela. A mo dele mexeu a tranca da porta, que se abriu como se os estivesse recebendo 
de bom grado no interior escuro e protegido. Pegando-a em seus braos, Ruark entrou, empurrando a porta com os ombros para abri-la totalmente.
    O vento zunia, os troves se faziam ouvir, os raios corriam pelo cu e a cabana estremecia, no se sabe se da tempestade l fora ou l dentro. Depois de tudo, 
os dois deitaram-se no catre estreito que servia de cama ocasional. As roupas de Shanna foram penduradas numa cadeira em frente a um fogo que ardia na pequena lareira 
de cozinha, enquanto os dois permaneciam calados e abraados, tranqilos, pois haviam esgotado as emoes temporariamente.
    Com o rosto contra o ombro forte e moreno dele, Shanna acariciou o plo do peito de Ruark e a pele nua do brao e das costelas dele. O lnguido contentamento 
do instante recusava-se a ser perturbado. Ela no tinha inteno de ir para a cama com ele to resolutamente, mas, agora que estava l, no tinha vontade de sair.
    Shanna debruou-se no peito de Ruark para olh-lo fixo no rosto e contemplar-lhe o olhar clido. Os seios macios de Shanna pareciam veludo contra Ruark, e era
uma tortura deliciosa ter a pele queimada pelos bicos claros.
    - Voc j esteve apaixonado? - perguntou Shanna baixinho, passando os dedos nos lbios dele.
    Ruark olhou-a, com cenho franzido e disse:
    - Shanna - um sorriso lento lhe apareceu no canto da boca. - J lhe disse que voc  meu nico amor.
    - Fale srio - censurou ela. - Sei que voc j teve outras mulheres. No se apaixonou por nenhuma delas?
    Ele deu de ombros e levantou o cabelo dela do ombro da moa, alisando-o nas costas.
    - S tive uma paixonite quando era garoto, s isso.
    - Um garoto de quantos anos? Nove? Dez?
    - No to jovem assim - respondeu Ruark, rindo. - Eu tinha dezoito anos, e ela era uma viva moa, com lindos cabelos ruivos. Ela me ensinou muito sobre mulheres.
    A curiosidade de Shanna no se satisfaria com apenas fragmentos.
    - O que aconteceu? Voc fazia amor com ela?
    - Shanna, Shanna, minha ratinha curiosa. Por que quer saber isso? Foi h muito tempo, e at j esqueci.
    - Se no me contar, vou embora! - ameaou ela. - E voc pode deitar aqui e apodrecer.
    -  moa m! - brincou ele. - E acho que ciumenta tambm...
    - Da viva? Ha! - zombou Shanna. - Voc  bem convencido. - Houve um instante de silncio, ao fim do qual ela afirmou. - Voc deve ter amado muito essa moa.
Ela era bonitinha?
    - Era - concordou Ruark. - Alta, esbelta. Tinha vinte e quatro anos. Ela comprou um garanho e eu...
    - E voc ento virou o garanho dela - interrompeu Shanna e no conseguiu disfarar a irritao crescente. - No  mesmo, senhor? Ela era igual quela pequenina
rameira l da estalagem?
    Ruark lhe percebeu a zombaria nas palavras e tentou desvi-la do assunto, puxando-lhe a cabea para baixo. Shanna, porm, deu um guinchinho abafado e retirou 
o brao dele, sentando-se aprumada.
    - Diga-me logo, seu maldito! - gritou. - Ela era igual  sua prostitutazinha da estalagem?
    - Droga! - exclamou Ruark e ajoelhou-se  frente dela, franzindo a testa e forando-a a ficar de costas para a parede. - Nem me lembro mais
    como eram elas. - Ele baixou a voz quando seus olhos contemplaram a nudez da moa e, suspirando, tentou explicar cuidadosamente: - Eu era apenas um garoto, Shanna. 
A viva era experiente. Se voc  capaz de meter isto na sua linda e teimosa cabecinha, ela me seduziu. Durante algum tempo pensei que ela fosse tudo para mim, mas 
depois cresci e grande parte da empolgao desapareceu. Comeou a exigir muito do meu tempo. Alm disso, eu treinava cavalos e trabalhava em outros lugares. Ela 
se casou com um velho e rico lorde e, quando me recusei a continuar seu amante, ela se aborreceu e terminou o caso. Fiquei at aliviado. Foi s isso. Fiquei satisfeito 
por me livrar dela. E se voc pode acreditar em outra coisa, Shanna, desde ento no me envolvi com muitas mulheres. O que eu disse hoje de manh foi quase tudo 
verdade. Meu pai achava que eu estava casado com meu trabalho, e talvez fosse verdade.. at surgir voc.
    Shanna deu um risinho malicioso, e os olhos reluziram, travessos, quando Ruark ps um brao na parede atrs dela e lhe viu o sorriso maroto.
    - O que voc est tramando, mocinha? - perguntou. - Juro que no pode ser nada de bom.
    Shanna passou os dedos pelos plos negros no peito dele, enquanto dizia, em tom brincalho:
    - Quer dizer que, se eu quiser ver-me livre de voc,  s comear a lhe exigir muito..
    Ruark sorriu, confiante:
    - Tente fazer isso, madame. Mande chamar-me sempre que estiver livre, e vamos descobrir se voc pode aturar-me. Seria interessante verificar se voc tem a fora, 
se consegue ficar na cama tentando disputar comigo e me exaurir. Acho a idia excitante.  evidente, porm, que h algum perigo, e ns dois somos suscetveis. E 
se nossos coraes cismarem de gostar? E se voc se apaixonar por mim?
    Shanna desviou o olhar dos olhos dele, perguntando-se o que faria se apaixonasse por ele. O silncio se arrastou e ficou pesado, mas a mente de Shanna continuava 
a se debater num turbilho. Nenhuma resposta veio  superfcie. Ela estava quase temerosa de mergulhar nas profundezas turbulentas do corao, com medo do que descobriria. 
Nunca se apaixonara a no ser pelo homem de sua imaginao e, na verdade, antes de Ruark no se sentira atrada por homem algum. Isso era algo indito para ela, 
embora no quisesse reconhec-lo.
    A chuva parou. Seu rudo suave j no se ouvia no telhado. Os pssaros estavam calados, o vento desapareceu, havia o silncio, quase se podia cort-lo com faca, 
e Ruark esperou uma resposta.
    Ento, a distncia, ouviu-se o tropel de um cavalo que se aproximava rapidamente da cabana. Ruark praguejou e saltou do catre. Pegou a cala curta e a vestiu 
apressado. Era provvel que a porta fosse aberta de sbito, revelando o encontro, e Shanna s pde encolher-se debaixo da colcha de linho, num canto da cama. Os 
cascos do animal pararam do lado de fora da
    porta. Houve uma pausa, durante a qual Shanna trocou uma careta sofrida com Ruark. Ouviu-se ento um som esquisito de raspagem, e um sorriso lento abriu-se no 
rosto de Ruark quando olhou para Shanna. De sbito, o sorriso virou riso. Sob o olhar estupefato de Shanna, ele foi at a porta e a escancarou, apesar do protesto 
da moa:
    - No! Espere!
    Shanna deixou cair a mo estendida e olhou atnita para a porta. L, ocupando o espao claro, estava tila. Ele se havia soltado da corda. Agora, bufava e mexia 
no cho com a pata. Ruark pegou a camisa e enfiou a mo no bolso.
    - Foi assim que eu o treinei - explicou, abrindo a mo para que Shanna visse dois torres de acar-cande. - Ele gosta demais disso, e me esqueci de dar-lhe 
sua rao.
    - Oh! - suspirou Shanna debilmente e encostou-se na parede, aliviada. - Este animal vai dar-me cabelos brancos antes do tempo.
    O corcel mordiscou delicadamente os torres na mo de Ruark enquanto sacudia a cabea, satisfeito. Ruark fechou a porta e nela se apoiou, olhando para Shanna. 
A colcha havia cado, e Ruark devorou a moa com os olhos da mesma forma que tila havia devorado os torres. Os seios da moa reluziam como meles ambarinos  luz, 
e os membros esbeltos revelavam-se nus quele olhar inflamado. Vendo onde se concentrava o interesse dele, Shanna pegou a blusa e olhou acusadoramente para ele, 
antes de vestir a pea.
    - Se voc come com o mesmo apetite com que me olha - disse ela bem-humorada - logo sua cintura vai estar maior do que a de meu pai.
    Ruark passou-lhe o brao pela cintura, quando ela se levantou para pegar sua roupa.
    - Quisera eu que meu corpo debilitado se pudesse nutrir do alimento que encontrei em voc - murmurou ele com voz sensual, segurando-a perto dele e lhe tirando 
o cabelo do ombro. - Mas, se minha alimentao viesse com a regularidade de seu amor, h muito tempo eu j estaria morto de fome. Como comida, a necessidade que 
tenho de voc  diria, e os longos jejuns no aplacam meu apetite.
    - Diria, ? - Shanna encostou-se nos braos dele e distraidamente passou-lhe um dedo no peito. - Sua luxria  um drago insacivel que devora tudo que posso 
oferecer no momento. Se vivssemos como marido e mulher, creio que voc jamais sairia do quarto..
    O cenho de Shanna enrugou-se de sbito, quando ela contemplou o que havia desenhado com o dedo. Contra o bronzeado de Ruark, as marcas brancas sumiram quando 
ela as olhou, mas lhe ficaram gravadas no crebro. As palavras "Eu o amo" estavam incompletas, mas a decepcionaram com seu significado. Ela se encolheu como se estivesse 
sentindo dor, e comeou a vestir-se apressadamente.
    Confuso pela mudana abrupta que notou na moa, Ruark a observou, enquanto enrolava um de seus desenhos e brincava com o cilindro de pergaminho.
    - Eu pretendia passar a noite aqui - comeou ele, quase hesitante.
    - O Sr. MacLaird me deu uma carona at aqui, quando trouxe os apetrechos para o trabalho de amanh, mas deixei vrios rascunhos de que preciso l em casa. Voc 
me deixa voltar com voc?
    Shanna parou antes de pr o vestido e respondeu:
    - Ser um prazer - murmurou, passando os braos pelas mangas e ajustando o vestido nos quadris. Uma vez vestida, ela se acalmou e deu as costas a ele, segurando 
o cabelo.
    - Quer fazer o favor de me amarrar?
    Ruark acedeu devagar, apoiado num canto da mesa. Relutava em ver a tarde terminar.
    Shanna submeteu-se  demora com que ele cumpriu seu pedido, e uma vez se debruou sobre ele, pondo-lhe uma das mos na coxa, para ver vrios desenhos espalhados 
na mesa. Analisou-os, reconhecendo a caligrafia de Ruark rabiscada na parte inferior do papel. Quando ele terminou de dar os laos, ela se virou para ele:
    - Voc tem trabalhado mesmo! - comentou, esfregando-lhe as costelas para tirar uma mancha de tinta da pele morena.
    Ruark sorriu para dentro dos olhos cor de gua de piscina:
    - Como eu no tinha esperana de voltar a v-la hoje, Shanna, resolvi dedicar-me a algo menos atormentador.
    Shanna zombou dele, bem-humorada:
    - Faa-me a gentileza de dizer, senhor, como  que o atormento? Acha que sou alguma bruxa que s o perturba para se divertir? Como  que eu, uma simples mulher, 
como pode ver, consigo incomod-lo tanto?
    Sorrindo maliciosamente, Ruark abraou-a e a ps entre suas pernas, e roou os lbios na testa dela.
    - Sim, voc  mesmo uma bruxa, Shanna. Lanou um encanto to poderoso sobre mim que passo todos os momentos de minha vida ansiando por voc. - A respirao dele 
agitou os cachos perto dos ouvidos dela. - Mas voc tambm  um anjo, quando se deita ao meu lado, macia e quente, e me deixa am-la como quero.
    Shanna ps a mo trmula nos lbios dele e percebeu que seu pulso estava acelerado. O efeito que aqueles olhos ambarinos tinham sobre ela era total e devastador.
    - No diga mais nada, seu drago diablico!
    Ruark lhe beijou a palma macia, os dedos magros, e a aliana fina que ela usava. A suavidade dele acelerou o ritmo do busto de Shanna, que o olhou atnita, sem 
poder justificar a sbita ternura que sentiu por ele. De modo abrupto, ele franziu o cenho, pegou a mo dela e contemplou a aliana.
    - Qual  o problema? - perguntou Shanna, nada vendo de estranho em sua mo.
    O franzir da testa de Ruark se aprofundou:
    - Eu usava um anel numa corrente no pescoo, e estava l quando visitei a moa na hospedaria. Desde ento, no sei onde ele est. Como
    aconteceu muita coisa, s me estou lembrando agora do assunto. A aliana que voc usa me lembrou o caso. O anel devia ser seu
    - Meu? - Shanna ficou espantada - Mas voc nem me conhecia!
    - Era para minha mulher, quando eu me casasse. Foi da minha av.
    - Mas, quem o tirou, Ruark? A moa na estalagem? Ou os guardas, quando o prenderam?
    - Eles no foram, porque acordei no minuto em que me agarraram. A moa deve t-lo apanhado Mas se foi ela, eu devia estar dormindo.
    - Ruark - disse Shanna, baixinho - o que significa tudo isso?
    - No sei ainda, mas garanto que aquela cadela tinha inteno de me roubar. Talvez tenha posto alguma droga no vinho. - Ruark sacudiu negativamente a cabea. 
- No, ela tambm bebeu vinho. - Inclinou a cabea, tentando recordar-se. - Bebeu mesmo? Sou um perfeito idiota por no ser mais atento s coisas.
    Depois de muito tempo, desistiu de tentar lembrar-se dos acontecimentos e, suspirando, pegou as meias e as ligas rendadas de Shanna e as entregou a ela.
    -  melhor irmos antes que seu pai saia  sua procura. Da prxima vez, talvez no tenhamos a sorte de encontrar tila  porta.
    Shanna sentou-se novamente no catre e, sob o olhar admirador de Ruark, levantou as saias e alisou cuidadosamente a seda sobre os tornozelos. Quando terminou, 
sorriu para ele e perguntou:
    - Pronto?
    - Sim, amor! - disse Ruark, rindo e apanhando a camisa.
    A mo dele acariciou as costas de Shanna quando a acompanhou  porta. Ao fech-la, foi para o lado de tila e levantou Shanna, colocando-a no lombo do animal, 
e enfiando-lhe o p no silho. Colocando seu p no estribo, o rapaz montou atrs dela e lhe tirou as rdeas das mos. Sorrindo, Shanna encostou-se nele e desfrutou 
o passeio at o morro, longe da vila e de olhos perscrutadores. Paz silenciosa abateu-se sobre eles, ao verem o mar azul-esverdeado atravs das rvores.
    Naquele instante, s tinham olhos um para o outro, e no perceberam o vulto solitrio a certa distncia, que os observava. Ralston segurava firme as rdeas do 
cavalo para que este no lhe trasse a presena, e seu cenho se enrugou quando o casal trocou demorado beijo. Sua surpresa cresceu, quando o cativo John Ruark passou 
a mo pelos seios de Shanna. Em vez da sonante bofetada que ele esperava, a intimidade ousada de Ruark foi aceita normalmente, sem sequer uma tentativa de afastar 
a mo.
    - Parece que o Sr Ruark conseguiu as atenes da dama, quando no podia fazer isso. - murmurou Ralston para si mesmo. - Vou ficar de olho nele.
    As nuvens corriam sobre a ilha, parecendo introduzir-se nas velas enfunadas da potente embarcao que deslizava desembaraada no mar agitado, enrolando a gua 
de um azul cristalino sob a proa altaneira. O cu azul estava vvido alm dos fofos montes brancos e, contra o horizonte indistinto, o navio era como uma guia em 
vo, ascendendo graciosamente de asas estendidas mas imveis.
    - Que baita navio! - exclamou o Sr. MacLaird, quando Ruark levantou a luneta para olhar. - Consegue ver-lhe o nome, rapazinho?  ingls?
    -  das colnias, e leva a bandeira da Companhia da Virgnia - respondeu Ruark, olhando pela luneta. - O nome  Sea Hawk.
    - E ele se movimenta mesmo como um falco - concordou MacLaird. -  uma lindeza. To bom quanto qualquer navio de Trahern.
    Ruark baixou a luneta e, enquanto estavam observando, a embarcao entrou de velas enfunadas no porto. Quase ansioso, Ruark virou-se para o homem mais velho, 
que olhava pela janela com os culos pequenos e quadrados.
    - Aquela carroa carregada de rum ali. - Ruark apontou para a frente da loja. - Vai ser levada para um dos navios?
    O Sr. MacLaird desviou sua ateno para Ruark, levantando o nariz e o olhando atravs dos culos de aros metlicos.
    - Sim, rapaz, vai para o Avalon. A escuna est fazendo a ronda da ilha esta semana. Por que pergunta?
    - Eu talvez pudesse levar a carga para o senhor. Faz quase um ano que sa das colnias, e talvez consiga notcias de casa a bordo.
    O idoso dono da loja apontou o polegar nodoso para a porta e um brilho alegre lhe surgiu nos olhos azuis:
    - Ento v logo, rapaz, antes que o rum se estrague ao sol.
    Com amplo sorriso, Ruark concordou com a cabea e, ansioso, ps mos  obra. Colocou o chapu na cabea morena, saltou para a carroa e comeou a guiar a parelha 
de jumentos, lanando as rdeas contra os fortes lombos dos animais e fazendo com que corressem pela trilha que levava ao cais. Enquanto seguia, um sorriso estranho 
lhe brincava nos lbios, e ele comeou a assobiar.
    A tardinha trouxe uma brisa fria, e Shanna escapou do tdio de ler para dar uma volta montando tila. Levou-o para a praia onde outrora havia encontrado Ruark, 
pela mesma trilha que haviam seguido atravs dos bosques e parou na clareira para desfrutar sua serenidade. Os pssaros cantavam no alto e adejavam em redor das 
rvores; sapos coaxavam nos pntanos. Flores coloridas enfeitavam o tapete de verde luxuriante, e borboletas voavam com as asas de tons vibrantes, tocando os brotos 
das flores, empoleirando-se numa folha, e tecendo caminhos irregulares na brisa cheirosa e suave.
    Shanna suspirou, alegre com o dia. Todos os temores tinham sido postos de lado: ela no estava grvida; aqueles interldios agradveis com Ruark no a haviam 
deixado com sua semente. Daqui a algum tempo, haveria um homem que lhe daria tanto prazer quanto aquele ousado sabujo, e ela teria um filho dele, mas, at l, no
se arriscaria mais. Independente do que houvesse, ela manteria Ruark a distncia e se negaria a ele. No podia permitir que todos os seus planos fossem por gua
abaixo, num momento de paixo e fraqueza. Claro, era por fraqueza que ela se esquecia e caa na cama com Ruark, como qualquer rameirazinha. No o via desde aquele
Sab de tempestade, h quase uma semana, e propositalmente no se havia exposto nem se metido por lugares onde ele pudesse estar. Havia aprendido uma coisa: no
conseguia lidar com ele nem com a situao. Em todas as confrontaes, seus planos sempre fracassavam, e no se arriscaria a que outro impulso da natureza a impelisse 
para os braos dele, sem pensar nas conseqncias. Embora estivesse determinada a no mais dormir com Ruark, achava melhor no desafiar o destino.
    As flores eram as mesmas: coloridas, perfumadas, e as sombras eram frescas. tila revolvia o gramado impaciente, ansioso para correr, mas os pensamentos de Shanna 
estavam em outro lugar. Olhos ambarinos lhe invadiam a mente relutante e um calor se espalhou lentamente por seu corpo. Aqueles olhos foram at as profundezas de 
sua alma, agitando desejos inoportunos, enquanto lbios entreabertos se aproximavam cada vez mais e mais.
    - Saia da minha cabea! - gritou Shanna para as copas das rvores, fazendo com que um bando de pssaros se dispersasse. Bateu com o punho na sela, cheia de raiva 
frustrada. Cerrando os dentes, explodiu: - Saia da minha cabea, seu maldito drago! O trato j foi cumprido, conforme combinado! No o tra!
    Zangada, Shanna pegou as rdeas e fez com que o animal sasse dali, onde ela no tinha mais paz. No teve piedade do corcel, pois queria que ele voasse. Os cascos 
enfiaram-se na areia molhada da praia, levantando montinhos  proporo que passavam. O vento agitava mechas de cabelo na nuca da moa. Corria como se a floresta 
atrs de si estivesse em fogo e ela fosse morrer queimada se diminusse a marcha. Havia uma splica naqueles olhos ambarinos que a consumia.
    Logo tila comeou a se cansar, e Shanna percebeu que a resistncia do animal estava chegando ao fim. Ralentou a marcha e foi indo pela praia at chegarem a 
um lugar onde um riacho atravessava a praia. Shanna fez com que o cavalo chapinhasse na gua do riacho. A densa folhagem se abriu e revelou um penhasco, de cuja 
beirada mergulhava o riozinho, rindo como uma virgem enquanto tombava de pedra em pedra at cair numa poa esmeralda no fundo.
    Shanna se atirou do lombo do animal e tila patinhou com gua pela canela. Baixando a cabea, refrescou-se bebendo a gua e descansando. Shanna tentou arrumar 
o cabelo e lavou o pescoo com um leno que umedeceu nos borrifos gelados. Seu calor e excitao desapareceram e ela molhou mais uma vez o leno e o passou devagar 
no rosto at que a emoo se extinguiu e ela comeou a recompor a pose.
    Mais uma vez a serena filha de Trahern montou e conduziu o cavalo rumo ao vilarejo. tila gostou do passeio e o sangue ainda lhe corria quente nas veias. Lutou 
contra a mo de Shanna e se teria lanado em acelerado galope novamente, no tivesse ela segurado firme as rdeas.
    Foi assim que ela chegou  vila, e as patas do cavalo foram fazendo barulho nos paraleleppedos at o cais, o corcel malhado de cinza e focinho e tornozelos 
mais escuros, corcoveando, levantando as pernas e debatendo-se contra o controle de Shanna, cauda arqueada no alto e a crina agitando-se a todo movimento. Sobre 
seu lombo, uma viso de beleza rara, descansada e com pose altaneira, controlando o garanho com pulso experiente. Um chapu de abas largas e copa baixa lhe cobria 
os cabelos e a saia ampla de montaria a protegia e ao lado do cavalo, como o mantelete pregueado de galante cavaleiro.
    No foi de admirar que os marujos das colnias abandonassem o que estavam fazendo para observ-la avidamente. No achando desagradvel esse tipo de ateno, 
Shanna cumprimentou-os levemente com a cabea e dirigiu-se  rampa onde estava o navio recm-chegado. L, viu a carruagem do pai e foi a Maddock para perguntar onde 
estaria ele.
    - Est l no navio, madame - respondeu o negro, apontando o polegar para o navio imponente. - Acho que est falando com o comandante.
    Quando Shanna atirou as rdeas para o homem e comeou a desmontar, houve um tumulto: uma pequena multido de marujos se havia reunido, e agora eles se empurravam 
pela honra de ajud-la a descer. Com pacincia, ela esperou at que um jovem gigante, que faria Pitney parecer pequeno, abriu caminho a cotoveladas e, corando, ofereceu-lhe 
a mo para ajud-la. Ao apear-se, Shanna lhe concedeu um gracioso sorriso de agradecimento e se encaminhou para a prancha de desembarque, arrastando um coro de suspiros. 
Suas botas elegantes ainda no haviam tocado o convs do navio, quando outro jovem parou diante dela. Desempenado e portando um telescpio bem polido sob o brao, 
usava um tricrnio sobre os cabelos emaranhados. Lembrando-se de suas boas maneiras, tirou o chapu e fez um cumprimento, quase deixando cair o telescpio, ansioso 
por ser-lhe til.
    - Boa tarde, madame. Em que posso servi-la?
    - Obrigada. - Shanna sorriu enquanto o pobre jovem parecia haver engolido a lngua. - Poderia levar a meu pai um recado? Diga-lhe que se ele acabar logo com 
seus negcios aqui, eu gostaria de voltar para casa com ele.
    O jovem comeou uma saudao mas conteve-se. Ao invs, fez meia-volta e apontou:
    -  aquele seu pai, madame, com o Comandante no...
    Agarrou o chapu que ameaava voar borda afora e voltou a segurar bem o telescpio, livrando-o de um desastre certo. Segurando os dois apertados ao peito, sacudiu 
a cabea na direo dos dois homens:
    -  aquele, madame, com o Comandante? - murmurou, um tanto corado.
    Shanna acenou que sim, quando seus olhos pousaram no slido vulto do pai. Do outro homem s via as costas e uma espessa massa de cabelos ruivos amarrados em 
cauda de cavalo. O jovem perguntou:
    - Quem devo dizer que est a bordo, madame?
    Shanna riu ante a presena de esprito do rapazinho.
    Madame Beauchamp, senhor.
    - Madame Beau... - A voz do jovem oficial se arrastou, surpresa, e o homem alto com o pai dela voltou-se abruptamente e a fixou com um olhar penetrante sob as 
sobrancelhas franzidas, como se esperasse que alguma esperta feiticeira estivesse em seu navio. Sob aquele olhar penetrante, Shanna ficou paralisada, incapaz de 
mover-se ou falar.
    Lentamente, a carranca se desfez. Os olhos a percorreram toda, depois voltaram a seu rosto. Agora, havia em suas feies a sombra de um sorriso, e ele fez um 
lento aceno de cabea com o que pareceu uma aprovao.
    Shanna deu um suspiro, e se deu conta de haver estado sustendo a respirao desde que ele a encarou. Mesmo que sua vida dependesse disso, no poderia explicar 
por que a aprovao desse homem, a quem nunca vira, lhe agradava.
    Como o comandante atravessasse o convs, Shanna observou que era esbelto e se movimentava com a facilidade de experimentado homem do mar. O rosto era comprido 
e um tanto anguloso. Embora em seus olhos se notasse um brilho de humor, havia nos lbios traos de severidade, ou melhor: da firme determinao do homem habituado 
ao comando. Detendo-se diante dela, cruzou as grandes mos atrs de si, enquanto oscilava nos calcanhares e se curvava num breve cumprimento.
    - Madame Beauchamp? - As palavras lhe saram pachorrentas, embora tivessem a entonao de uma pergunta.
    Como uma onda a rolar para diante, Orlan Trahern veio juntar-se a eles. Colocando ambas as mos na extremidade nodosa de sua bengala, nela se apoiou pesadamente:
    - Sim, Comandante, gostaria que conhecesse minha filha, Shanna Beauchamp. - Algo estranho tremeluziu nos olhos do velho Trahern e, assim prevenida, Shanna se 
retesou. Nem assim o choque foi menor. - Minha querida, este  o Comandante Nathanial Beauchamp.
    As palavras foram lentas e deliberadas, e ele esperou que a inteira significao do nome elucidasse a filha. Abriu-se a boca de Shanna como se ela quisesse falar, 
mas nenhuma palavra saiu. Seus olhos se ergueram para o alto comandante, uma pergunta a arder neles.
    - Sim, Madame - de novo se fez ouvir sua rica voz. - Teremos de discutir isso com vagar.
    - Talvez mais tarde, Comandante. - Orlan Trahern atalhou qualquer conversa. - Tenho de ir-me. Desculpe-nos, senhor. E voc, Shanna querida, quer juntar-se a 
mim numa boa cavalgada at a casa?
    Meio entorpecida, Shanna acenou em concordncia, incapaz de um comentrio. Gentilmente, Trahern a levou at  amurada, ali se detendo enquanto chamava, por cima 
do ombro:
    - Comandante Beauchamp?. - Shanna se retraiu ao ouvir o nome. O pai continuou: - Enviarei uma carruagem para o senhor e seus homens mais tarde.
    Sem esperar resposta, o fazendeiro saiu do navio, levando ao brao sua filha muda e confusa. O comandante foi at  amurada, encostando-se nela enquanto observava 
o caleche sacudir e desaparecer na esquina de um armazm.
    Shanna se deteve do lado de fora da sala de visitas ao reconhecer a voz do Comandante Beauchamp respondendo a Pitney. Ralston interrompeu, abruptamente, porm 
aquela voz profunda era inconfundvel. Shanna apertou as mos trmulas, tentando acalmar-se, lanando um olhar para a porta da frente onde estava Jason, ereto e 
silencioso.
    - Jason - disse, maciamente - O Sr. Ruark j chegou?
    - No, madame. Enviou um bilhete por um garoto do engenho. Houve uns problemas, e ele precisar ficar por l.
    "Aquele desgraado!", pensou Shanna. "Deixou-me sozinha para debater-me em explicaes! Nem sei se ele  um Beauchamp de verdade. Pelo que sei, bem pode ter 
tomado emprestado o nome.. Ento, qual o nome daquele mendigo? E meu nome? Madame John Ruark?" Shanna gemeu intimamente. "Que Deus no o permita!"
    O pnico quase a fez voar como uma covarde para a segurana de seus aposentos, porm combateu os sentimentos corrosivos que lhe desmantelavam a compostura.
    Acalmando suas violentas emoes ao simples pensamento: "Sou Madame Beauchamp", Shanna alisou os muitos metros de cetim rosa plido combinando com o brilho iridescente 
de prolas. Delicada renda rsea, graciosa como os minsculos botes de rosa de cetim que prendiam a saia em tufos, cascateava at o cho por entre finas margens 
de franzidos. No meio
    do brao a mesma renda se reunia em tufos, e uma estreita fita de cetim estava amarrada em seu pescoo, onde a renda fora armada para emoldurar a pele sem defeito.
    Shanna estava retocando o elaborado penteado, quando o jovem oficial que a recebera a bordo veio  porta para reencher o copo numa mesinha existente ali. Quando 
seus olhos a descobriram, parou e ficou boquiaberto:
    - Madame Beauchamp! - Sorriu, recuperando-se. - Que linda... Seus olhos mergulharam nas curvas do peito dela que se exibiam acima do decote do vestido, e ele 
gaguejou, corou, e mais uma vez tratou de dominar-se: - Ah... que casa a senhora tem!
    Cessou a conversa na sala e, tendo sido assim anunciada, Shanna j no podia hesitar. Forando um sorriso, entrou graciosamente na sala, descansando as mos 
no amplo planejamento da saia para que ela no ondulasse demais. Era uma viso que homens lutavam por compreender como realidade, e era demasiado bvio que o jovem 
oficial do Sea Hawk fora atingido. Tropeou numa pardia de inclinar-se num cumprimento quando ela parou  sua frente, depois corou de prazer quando ela lhe concedeu 
o brilho de seu sorriso, ignorando sua confuso. Um longo suspiro lhe escapou ao voltar-se a moa para o pai que atravessara a sala para receb-la. No tomando conhecimento 
dos jovens que vieram com seu comandante, Orlan Trahern estava obviamente cheio de orgulho ao apresentar-lhes a filha. Durante as apresentaes, Shanna estava cnscia 
de Nathanial a observando com um olhar firme, e ficou admirada ao v-lo franzir o sobrolho, quando seu jovem oficial saiu do bando de admiradores para postar-se 
ao lado dela. Tambm estava cnscia de que a ateno de Ralston parecia mais aguda do que de costume, mas no lhe deu importncia, pois realmente pouco se lhe dava 
o que o homem pensava.
    Cumpridas as formalidades, e presa ao brao do pai, Shanna parou diante do comandante:
    - Senhor, muito me espanta que tenhamos o mesmo sobrenome. Tem parentes na Inglaterra, talvez?
    Nathanial Beauchamp sorriu, e os olhos castanhos cintilaram de humor ao olh-la:
    - Madame, tenho este nome muito honestamente, pois meus pais o deram a mim. O que na verdade temos a discutir : como a senhora o tem? Claro, todos os Beauchamps 
so parentes de uma ou outra maneira. Embora tenhamos tido nossos malandros, piratas, e um ou dois viles, o nome parece ocorrer com notvel regularidade.
    Os cantos da boca de Shanna se ergueram com brejeirice:
    - Perdo, senhor. No quero ser intrometida. Mas no deveria cham-lo de tio, primo, ou coisa assim?
    - O que lhe convier, madame. - Nathanial sorriu. - Mas seja bem vinda  famlia.
    Shanna acenou com a cabea e riu, mas no ousou insistir no assunto, pois o pai estava dando ateno demais  troca de palavras e parecia apreci-la.
    O jantar se passou com relativa tranqilidade, enquanto o Comandante Beauchamp e seus oficiais conversavam com Trahern sobre as possibilidades de comrcio entre 
Los Camellos e as colnias. Ralston no era a favor dessas permutas, e falou audazmente:
    - O que pode obter ali, senhor, que a Inglaterra e a Europa no lhe possam dar melhor? A Coroa no ficar satisfeita com o senhor fazendo negcios em outra parte.
    O comissrio de bordo do Sea Hawk bufou:
    - Pagamos bons impostos  Coroa, mas mantemos nosso direito de negociar onde quisermos. Desde que o dever seja cumprido, quem se queixa?
    O desdm de Ralston se traduzia em sarcasmo, porm seu tom era cuidadosamente polido ao falar a Trahern:
    - Decerto, senhor, no pode esperar ganhar muito negociando com colnias rsticas..
    Edward Bailey, o primeiro imediato, inclinou-se para diante em sua cadeira. Era de baixa estatura, apenas um pouquinho mais alto que Shanna, porm troncudo e 
com vigorosos braos e ombros. O pescoo curto era suporte de um rosto quase anglico por trs de um perptuo sorriso. As faces redondas e rosadas nunca perdiam 
o colorido vibrante, e quando estava encolerizado, como agora, escureciam ainda mais.
    - Est-se vendo que em suas viagens nunca foi s colnias, Sr. Ralston, do contrrio teria tomado conscincia das riquezas de l. Nos climas do norte, elas produzem 
ls e outros artigos que rivalizariam com os melhores da Inglaterra. Produzimos um rifle que pode acertar no olho de um esquilo a trinta metros. Existem fbricas 
de cordoalha e serrarias ao longo das costas sulistas que abastecem de cabos, pranchas e mastros de boa qualidade. O prprio navio em que velejamos foi feito em 
Boston, e parecidos com ele nunca tocaram o mar de outro pas.
    Trahern empurrou a cadeira para trs:
    - O que diz me fascina, senhor. Quero ver isso de perto.
    Com o sinal de que o jantar chegava ao fim, o oficial mais jovem apressou-se em ficar de p atrs da cadeira de Shanna, quase derrubando a sua na afobao. Ao 
inclinar-se para diante para levantar-se, Shanna pegou um breve olhar do Comandante Beauchamp e o cenho carregado que dirigia a seu terceiro imediato. Mas quando 
voltou a esquadrinhar o rosto da moa, ele apenas mantinha seu gentil meio sorriso. Teria sido apenas vexame pela falta de jeito do rapaz, cogitou Shanna, ou teria 
o comandante advertido o jovem? Fosse como fosse, da em diante ele se limitou a atenes de cortesia comum e pareceu muito constrangido.
    O sero aproximando-se do fim, Shanna retirou-se para seus aposentos, sentindo-se descontente. Sem saber o motivo desse descontentamento,
    sentou-se, quieta, diante de sua mesa de toalete, enquanto Hergus lhe escovava os cabelos. A criada sentiu o humor pensativo da jovem ama e segurou a lngua, 
dando-se conta do esforo de Shanna para evitar Ruark nos ltimos dias.
    Vestindo um roupo de seda pesada, Shanna caminhava de um lado para outro no quarto, j agora sem Hergus, iluminado por apenas uma vela. Sua mente divagava sem 
fixar-se em coisa alguma. Nomes a pressionavam de todos os lados, atormentando-a.
    Shanna Beauchamp? Madame Beauchamp? Comandante Beauchamp? Nathanial Beauchamp? Ruark Beauchamp? John Ruark? Sr. Ruark Beauchamp? Beauchamp! Beauchamp! Beauchamp!
    Mais e mais o nome lhe atravessava a mente at que, com um grito de frustrao, Shanna sacudiu a cabea, agitando selvagemente a cabeleira. Em busca de ar fresco, 
saiu para a varanda e tentou afastar as aguilhoantes dvidas.
    A noite era suave, morna, com uma doura s conhecida nas ilhas do Caribe. Muito alto, bem acima das rvores, a Lua namorava as nuvens brancas, beijando-as at 
brilharem com sua luz prateada, e depois escondendo a face por trs de suas sombras passageiras. Shanna vagueou pela varanda, passou a trelia que separava seu balco 
dos que pertenciam a outros quartos. Um rosto comeou a formar-se em sua mente... um olhar ambarino penetrou a noite.. Shanna resmungou consigo mesma.
    Ruark Beauchamp, drago de seus sonhos, pesadelo de suas horas despertas, por que a perseguia tanto? Antes de compr-lo no calabouo, ela era frvola e desinibida, 
at alegre; mas agora vagueava lnguida e sonhadora como uma solteirona aluada. Ela olhou para os gramados mosqueados de sombras.
    - Ruark Beauchamp - sussurrou, suave como a brisa - est a na escurido? Que feitio me lanou? Sinto sua presena perto de mim, e ela me toca atrevidamente. 
Devem minhas paixes devorar-me, quando minha mente diz no?
    Shanna se inclinou sobre a balaustrada e tentou controlar a vvida imaginao.
    - Que feitio esse homem me lanou? Por que no posso libertar-me e seguir meu caminho? Sinto-me apanhada na armadilha como se fosse sua escrava. Agora mesmo, 
est l sentado no chal, resmungando algum encantamento para arrastar-me para ele. Ser feiticeiro ou bruxo, para que me veja compelida a atend-lo? No, no farei! 
No posso!
    Afastando-se da balaustrada, Shanna continuou a vaguear, olhos baixos, mente ocupada com sua meditao. De sbito uma sombra escura a seu lado se moveu e ela 
foi envolvida numa nuvem de fumaa perfumada. O corao lhe palpitou na garganta.
    Ruark! O nome quase lhe escapou, porm conseguiu ret-lo.
    - Perdo, madame. - A voz rica e profunda de Nathanial Beauchamp lhe desgastou as preocupaes. - No queria assust-la. Estava apenas dando uma cachimbada ao 
ar livre.
    Shanna olhou, tentando penetrar a sombra que escondia o rosto do homem. Seu pai havia convidado o comandante para passar ali a noite, porm ela nem pensara nele, 
meditando sobre Ruark.
    - Esse cheiro. tabaco - falou, hesitante. - Meu marido... costumava...
    - Um hbito bem comum, suponho. Esse fumo cresce na estufa ao lado de minha casa. Os ndios nos ensinaram a fum-lo.
    - Os ndios? Oh, quer dizer... os selvagens? Nathanial riu, francamente.
    - Nem todos selvagens, madame.
    Shanna cogitou como ousaria abordar o assunto que lhe queimava a mente. O comandante quebrou o silncio que se prolongava:
    - Sua ilha  muito bonita, madame. - A mo que segurava o cachimbo surgiu por um momento ao luar, e a longa haste apontou para os montes alm das rvores e depois 
para a direo da cidade. - Parece que seu pai  dono da maior parte dela...
    - Los Camellos - murmurou Shanna, distrada. - Os Camelos, segundo a chamaram os espanhis. - Ela se virou e olhou diretamente para as sombras que o rodeavam. 
- Senhor, preciso fazer-lhe uma pergunta.
    - Estou s suas ordens, madame. - Ps o cachimbo na boca e deu uma baforada, que lhe iluminou as feies.
    Embora sua vontade de saber fosse grande, Shanna no achava maneira de formular o pedido.
    - Eu... conheci meu marido de forma bastante superficial em Londres, e nos casamos apenas alguns dias depois. Ficamos juntos pouco tempo, antes que ele me fosse 
arrebatado. Nada sei sobre a famlia dele, nem mesmo se chegou a ter uma. Gostaria muitssimo de saber se ele tem, isto , se ele tinha algum. - Sua voz sumiu, e 
a pausa ficou tensa enquanto lutava para encontrar as palavras adequadas. Foi o comandante quem respondeu  pergunta que ela no chegou a fazer:
    - Madame Beauchamp, conheo todos os membros de minha famlia imediata, e no creio ter nenhum primo nem parente distante pelo nome de Ruark Beauchamp.
    - Oh! - A voz dela denotou sua decepo. - Eu esperava.. - No conseguiu terminar essa frase tampouco, pois no sabia realmente o que esperava.
    -  um nome bem comum, e embora ns, Beauchamps, possamos normalmente encontrar traos de origem comum, no afiano que conhea a todos pelo nome. Talvez haja 
alguns com os quais eu no esteja familiarizado.
    - No importa, Comandante. - Shanna encolheu os ombros e suspirou. - Lamento hav-lo incomodado com minha impertinncia.
    - No foi absolutamente incmodo algum, madame, muito menos impertinncia.
    Com o polegar, calcou o fumo no cachimbo. Suas mos eram enormes, e embora parecessem ter fora para dividir uma bala de canho em duas eram surpreendentemente 
suaves, e o fino cachimbo de barro parecia um passarinho frgil entre elas.
    - O prazer foi meu, madame, e pode estar certa de que conversar com uma mulher numa noite enluarada no  jamais incmodo. E conversar com a senhora, Madame 
Beauchamp - sua sombra alta se inclinou brevemente - foi um prazer indescritvel.
    Shanna riu e agitou a mo, apontando para o cabelo solto e o robe que vestia:
    - O senhor  galante em elogiar minha terrvel aparncia, mas fez minha noite muito agradvel. Boa-noite, Capito Beauchamp.
    Nathanial parou um instante antes de responder:
    - Seja qual for o princpio ou o fim dele, neste momento acho que a senhora honra o nome. Boa-noite, Madame Beauchamp.
    Shanna continuava pensando sobre as palavras dele, quando percebeu que estava sozinha. Sem um som nem um movimento no ar, ele se tinha ido.
    As brisas da manhzinha passavam por entre as trelias intricadas, agitando as plantinhas nos vasos da sala de jantar informal. O ar com cheiro de mar trazia 
consigo a fragrncia de jasmins que floresciam na extenso da varanda, misturada ao provocante aroma de carne, po, caf e suculentas frutas frescas que adornavam 
a mesa para a refeio matinal e apresentaram ao Comandante Beauchamp, quando ele parou  porta, um cheiro divino, aps longos meses de passadio no mar.
    - Bom-dia, Sr. Trahern - cumprimentou Nathanial.
    Trahern desviou os olhos do Whitehall EveningPost, que ele recebia em pequenos amarrados, trazidos por suas embarcaes. Era o nico elo que lhe restava com 
Londres, aps anos de separao.
    - Um bom-dia para o senhor tambm, Comandante - retrucou, jovialmente, o velho. - Sente-se e me faa companhia no desjejum. - Fez sinal a Nathanial para que 
se sentasse a seu lado. -  horrvel comear o dia de barriga vazia, e falo por experincia prpria.
    - Concordo - disse Nathanial com um sorriso, aceitando uma xcara de caf fumegante que Milan lhe entregou. - Tambm  horrvel comear-se o dia comendo carne 
salgada j velha.
    Orlan Trahern apontou para o jornal  sua frente:
    - A poca de paz rapidamente separa os verdadeiros negociantes dos fomentadores de guerra. - O Comandante levantou a sobrancelha, e Trahern continuou. - Quase 
todos conseguem lucros altos durante a guerra, mas apenas os bons comerciantes sobrevivem quando o pas est em paz. Os que ganham dinheiro raspando os barris do 
rei e misturando areia  plvora da Marinha no tm condies de competir num mercado honesto.
    - Concordo com sua sabedoria sobre o assunto. - Nathanial reclinou-se na cadeira. - Nas colnias o tratamento que se d  desonestidade  severo, e embora seja 
preciso certa dose de precauo, raramente se depara com uma fraude.
    Agora foi a vez de Trahern reclinar-se na cadeira para observar o interlocutor:
    - Fale-me mais sobre as colnias. A idia de ir l me fascina. O capito brincou com sua xcara por um momento antes de falar:
    - Nossa terra fica nos arredores de Virgnia. No est ainda to colonizada quanto Williamsburg ou Jamestown, mas pode-se dizer muita coisa sobre ela. Existem 
verdes morros e florestas interminveis. A terra  rica de oportunidades para ricos e pobres. Meus pais criaram uma famlia de trs homens e duas gmeas no que a 
maioria das pessoas chamaria de terra incivilizada. Todos ns,  exceo do menor, que vai fazer dezessete anos no ms que vem, e uma das moas, que tem vinte anos, 
j nos casamos e, graas a Deus, criamos nossas famlias com igual sucesso. Fomos chamados de valorosos porque sobrevivemos. Talvez o sejamos mesmo. Mas foram o 
amor e o orgulho por nossa terra que nos fizeram vencer. Se pudesse conhecer nossa terra, senhor, tenho certeza de que compreenderia.
    Trahern concordou pensativamente com a cabea:
    - Vou conhec-la. - Deu um murro na mesa e riu com sua deciso: - Juro que vou at l para conhecer tudo.
    - Fico satisfeito, mas duvido que o senhor consiga v-la toda. - Nathanial Beauchamp estava eufrico. - Existe tanta terra que o homem pode andar um ano sem 
percorr-la toda. Contaram-me a respeito de prados como o mar, onde se o homem no marcar seu caminho, perde-se, pois s consegue ver capim. H um rio to largo 
no Oeste que  difcil ver-se o outro lado, e animais que no se encontram em nenhuma outra regio do mundo. Temos um estranho tipo de veado, mais alto do que um 
cavalo e com galhadas que parecem enormes ps. Afirmo-lhe, senhor, que minha terra tem maravilhas que no consigo descrever.
    - Seu entusiasmo  surpreendente, Comandante - brincou Trahern. - Sempre pensei que o pessoal das colnias fosse um bando aptico e desanimado.
    - No conheo outra terra to linda, senhor, nem to cheia de promessas - replicou Nathanial, mais calmo, algo envergonhado por sua exploso de entusiasmo.
    Os dois homens pararam quando a porta da frente da manso se fechou. Podiam-se ouvir passadas no cho de mrmore, rumo  sala de jantar. O som cessou no portal 
da sala, e Trahern girou na cadeira. Ruark estava com uma das mos no umbral, surpreso por encontrar o velho acompanhado. Murmurando uma desculpa, virou-se para 
ir embora.
    - No, John Ruark. Entre, rapaz. - Gritou Trahern, encarando o Comandante Beauchamp. - Eis um homem que o senhor deve conhecer. Ele vem das colnias como o senhor. 
E nos  muito valioso.
    Quando Ruark se aproximou da mesa, Trahern apresentou os dois, que apertaram rapidamente as mos. O comandante, com um sorriso enviesado, olhou abertamente para 
os cales usados por Ruark.
    - O senhor se adaptou muito bem ao clima. Eu mesmo, s vezes, tenho pensado em usar roupas assim, mas acho que minha mulher ficaria muito decepcionada se me 
visse por a como um selvagem meio nu.
    A barriga de Trahern sacudiu de riso, quando Ruark se sentou, lanando um olhar dbio ao comandante.
    -  verdade que o Sr. Ruark tem virado a cabea de algumas senhoras com seu traje. No se sabe ainda se por se sentirem chocadas ou se por aprovarem a roupa. 
Quando eu vir qual das mocinhas est com a barriga grande, talvez eu saiba a resposta.
    Sob o exame divertido de Nathanial, Ruark mexeu-se constrangido na cadeira. Aceitou prontamente uma xcara do caf fumegante que Milan lhe deu e prestou detida 
ateno ao criado que lhe encheu o prato. Enquanto o negro lhe foi trazer uma cumbuca de frutas, Ruark mudou de assunto e falou a Trahern.
    - Vim pegar os rascunhos da serraria, se j terminou de examin-los, senhor. Queremos comear a pr as primeiras pedras hoje  tarde. O engenho fica pronto no 
fim do ms e no vejo razo para mais delongas.
    - Est certo - afirmou Trahern. - Enquanto vocs comem, mando um garoto apanh-los no meu escritrio.
    A conversa tocou em um sem-nmero de tpicos, e mais uma vez veio  baila o assunto das colnias. s perguntas do latifundirio, Ruark respondeu no mesmo estilo 
do capito. Quando o desjejum terminou, Nathanial limpou a boca no guardanapo e se virou para Trahern:
    - Enquanto o senhor estiver nas colnias  conveniente ter a seu lado algum que conhea o pas, como aqui esse homem. Minha mulher e eu temos uma casa em Richmond, 
mas a casa de meus pais... tenho certeza de que vo querer conhec-lo, senhor. fica a uns dois dias de viagem de l. Se o senhor pretende mesmo ir, eu poderia mandar 
minha mulher na frente at a casa deles e depois enviar a carruagem de volta para apanh-lo. Evidentemente, os cocheiros conhecem o caminho, mas o senhor talvez 
queira levar um de seus homens.
    Ruark franziu levemente o cenho.- Pensava apenas em Shanna e em se separar dela. Se fosse s colnias e a deixasse para trs, a viagem no seria agradvel.
    - Claro! Claro! - concordou Trahern,entusiasticamente.-Boai dia. Sem dvida o Sr. Ruark gostaria de voltar  sua terra natal.
    Ruark lutou contra a sensao de tristeza que o invadiu, mas no conseguiu disfarar sua consternao. Nathanial Beauchamp no prestou ateno a Ruark e comeou 
a rir.
    - O senhor deve levar tambm sua adorvel filha. Ela certamente vai encantar todos os rapazes, incluindo vrios casados. Meus pais teriam enorme prazer em t-los 
a ambos como hspedes e a qualquer outra pessoa que
    o senhor escolhesse para levar. Na verdade, insisto em que convide quem desejar e permanea tempo suficiente para satisfazer sua curiosidade sobre meu pas.
    - Talvez em outubro - ponderou Trahern. - Ou por a. Seria depois da colheita nas colnias e ento eu poderia ver o que voc tm disponvel. - Levantou-se da 
cadeira e apertou a mo de Nathanial, e tambm este ficou de p. - Muito bem. Estaremos l.
    Quando Trahern e o comandante atravessaram o vestbulo e saram da casa, Shanna surgiu no topo da escada e esperou at Jason fechar a porta e voltar aos fundos 
da casa. Depois, voou escada abaixo, esperando pegar Ruark antes que ele se fosse. Sua preocupao era com o recato e a privacidade, pois havia despertado ao som 
da voz de seu pai mandando John Ruark entrar na sala e, na pressa, vestira apenas um roupo finssimo para proteger o traje quase transparente de dormir. Buscou 
essa oportunidade de falar com Ruark e o encontrou de costas para ela, assobiando baixinho enquanto separava pergaminhos numa pilha em cima da mesa.
    Ruark enrolou seus desenhos num cilindro e os ps debaixo do brao, virando-se para ir embora. Parou de modo brusco, e deixou at de assobiar. Shanna estava 
fechando a porta s suas costas, e o queixo mostrava-se determinado, assim como o olhar que ela lhe lanou.
    - Caramba! - imitou Ruark, com sotaque cockney. - Uma verdadeira ninfa que surge das paredes nuas para chamar minha ateno na sala de jantar. E uma ninfa quase 
nua!
    Momentaneamente, os olhos de Shanna adejaram para baixo, e um suave rubor lhe aqueceu o rosto quando ela se deu conta da ousadia de seu traje. Apressando-se 
para pegar Ruark, havia deixado o roupo aberto, e a transparncia da camisola no escondia nada do olhar dele. No obstante, ele havia visto mais do que isso, e 
na verdade vira mais do que ela exibia, e ela se sentiu apenas levemente acanhada pela anlise detalhada dele.
    - Bem, Sr. Ruark, est-se fazendo de difcil, no ? Senti sua falta ontem  noite ao jantar. - Ao falar, Shanna veio aproximando-se cautelosamente dele, como 
um gato faminto se aproximaria de um ganso grande, vendo a refeio que desejava, mas sabendo perfeitamente o perigo de chegar perto demais.
    Ruark sorriu devagar; os olhos brilharam ao fit-la em sua incrvel beleza e admirou a redondeza dos seios rolios, debaixo do traje transparente.
    - Foram as exigncias do meu trabalho, Shanna. O engenho est quase pronto. Embora eu quisesse muito estar perto de voc, minha presena era necessria na obra.
    - Claro! - Shanna o olhou com franca desconfiana. - Vi seu bilhete a meu pai. Foi muito conveniente, se houver alguma coisa entre voc e esse outro Beauchamp.
    - Como? - As sobrancelhas de Ruark se ergueram e espelharam sua pergunta.
    - Ou talvez haja muito pouca coisa entre vocs dois. - Shanna inclinou de leve a cabea, para contempl-lo. - Serei eu verdadeiramente Madame Beauchamp? Ou ser 
que fui apenas uma escolha conveniente para voc?
    Ruark deu de ombros calmamente.
    - No tenho como provar-lhe isso, Shanna, mas o juiz no poderia ter verificado o nome?  evidente que voc pediu ao Sr. Hicks meu nome antes de me ver, porque 
na ocasio eu no tive nenhuma escolha na questo de nomes. Chame-se Madame Beauchamp, mas se no consegue aceitar isso como verdade, ento chame-se Madame Ruark, 
ou o que quiser. Mas juro que...
    - Chega! - Shanna levantou a mo. - No jure. No me faa mais juramentos nem tratos. O ltimo que fizemos j me custou muito caro.
    Ruark a examinou atentamente e disse:
    - Ultimamente voc tem estado muito distante, Shanna. H alguma coisa que voc me quer dizer? - Ele deixou a pergunta em suspenso mas baixou o olhar abertamente 
para a barriga macia e lisa escondida pelo traje difano. Shanna entendeu.
    - No se preocupe, meu drago. - A voz zombou ligeiramente dele. - No tenho nenhum filho seu. Mas vamos  minha outra pergunta: - Voc conheceu o Comandante 
Beauchamp?
    - Conheci, amor. - Deu um risinho. - Tomamos caf juntos hoje de manh.
    - E voc diz que no  parente dele? - Ela quase sustou a respirao, esperando a resposta.
    Ruark a olhou to firme e ousadamente quanto ela a ele:
    - Madame, se ele fosse, pode me dar uma razo para eu continuar nesta ilha?
    A curiosidade de Shanna lentamente se transformou em perplexidade. Finalmente, baixou os olhos e deu as costas a ele.
    - No. - Sua voz estava baixa. - Isso me deixa atnita.  evidente que voc iria embora daqui e teria sua liberdade.. se pudesse.
    Ruark se aproximou e passou o brao por sob os seios dela, erguendo-os de forma tal que a camisola subiu, revelando ao olhar cpido de Ruark sua forma redonda. 
Shanna no resistiu nem se afastou, mas suspirou, trmula.
    - No me trate assim, Ruark. No me vou arriscar de novo, pois no valeria a pena.
    Os lbios dele lhe tocaram o ouvido e ele murmurou:
    - Ento a deixarei, minha ninfa virgem, e vou embora, mas a um preo.
    Shanna virou-se nos braos dele para encar-lo:
    - S um beijo, meu amor - brincou Ruark. - Uma coisinha -toa.  um pequeno suborno. Um docinho pequeno, para durar o dia inteiro.
    Shanna achou o preo baixo para livrar-se dele. Ficando nas pontas dos ps, ela tocou-lhe os lbios rapidamente e quis recuar, mas o brao dele a agarrou. Ruark 
suspirou, como se decepcionado.
    - Madame, a imaginao mais frtil no chamaria isso de beijo. - Sorriu ao censur-la levemente. - Vejo que voc voltou aos modos antigos.
    Shanna havia freqentemente bancado a coquete e irritou-se por ele voltar a acus-la de ser fria ou ingnua.
    Levantando os braos, abraou o pescoo de Ruark e o puxou para baixo. Mexeu ento o corpo sedutoramente, encostando as coxas nuas nas dele e acariciando os 
seios quase nus no peito dele. Havia aprendido muito com ele, e agora usava esse conhecimento de modo muito provocante, e lhe deu um beijo que incendiaria a Floresta 
Negra. Isso foi bastante para estimular a energia nos membros de Ruark. Entretanto, no foi apenas Ruark que se inflamou com o beijo; tambm Shanna foi vtima. Tratava-se 
de um nctar forte e intoxicante, que uma vez bebericado implorava para ser mais consumido. Quando ela finalmente afastou os lbios dele, no recuou, mas tentou 
firmar as pernas trmulas. Os dois ficaram assim unidos, saboreando sua proximidade.
    - Ah, Shanna! - suspirou Ruark. - Uma delcia dessas  mais uma tortura do que um prazer.
    Shanna suspirou de novo contra a garganta dele e seus dedos lhe acariciaram o cabelo curto e encaracolado.
    - Pois foi essa tortura que voc implorou, e foi mais um trato que cumpri. - Os olhos dela invadiram os dele com sua intensidade. - Mas como estou com vontade, 
vou pagar trs vezes o preo combinado, para que voc no me acuse de desonesta.
    Chegou os lbios entreabertos perto dos dele, e os mexeu devagar, tocando-os com a lngua. Debaixo do roupo, os braos de Ruark a abraaram com fora, e o beijo 
se intensificou enquanto ele colava a boca na dela, alimentando-se avaramente da doura de mel.
    - Humhum! - O som de pigarro estragou-lhe o momento.
    Shanna afastou-se depressa de Ruark; sua primeira reao foi de raiva por ser to grosseiramente interrompida. Em seguida, veio-lhe um frio de medo no estmago. 
O que ela mais temia, aconteceu. Foram descobertos. Ao encarar o Comandante Beauchamp, o frio cresceu a ponto de ela tremer. Querendo algo mais substancial para 
cobrir-se, agarrou o roupo, sabendo que era transparente. Sua mente ficou embotada, enquanto ela procurava uma desculpa qualquer. Passou-se um instante, antes que 
Nathanial falasse:
    - Perdo, Sr. Ruark. Madame Beauchamp. - Enfatizou os nomes de maneira estranha. - Esqueci o cachimbo e a bolsa de fumo.
    Sem esperar pela aquiescncia dos dois, atravessou a sala, foi at  cadeira que ocupara e apanhou os objetos em cima da mesa. Depois, parou  porta. Seu sorriso 
foi esquisito quando os olhou de novo. Com os dedos na testa, cumprimentou os dois:
    - Bom-dia, Sr. Ruark. - Com a cabea, fez um sinal para Shanna: - Madame Beauchamp.
    Sem mais uma palavra, virou-se e fechou silenciosamente a porta. Passaram-se uns segundos antes que Shanna recobrasse a voz, e quando falou, foi como se estivesse 
certa de suas palavras:
    - Ele vai contar a meu pai. Sei que vai. - Olhou firme para Ruark, o desespero estampado no rosto. - Tudo acabou. Todos os meus planos no vo dar certo.
    Uma sombra passou pelo semblante de Ruark, mas ele procurou acalmar Shanna:
    - Pareceu-me um camarada decente, Shanna, no o tipo que vai logo contar coisa. Mas tenho motivo para ir ao cais hoje. Vou ficar por perto e, se houver oportunidade, 
falarei com ele e tentarei explicar alguma coisa. - Deu de ombros e continuou: - No sei o qu..
    - Voc faz isso, Ruark? Faz mesmo? - Shanna se animou um pouco. - Talvez ele entenda, se voc falar direito.
    - Vou tentar, Shanna. - Pegou as mos trmulas da moa e lhe beijou os dedos. - Se ele se meter a engraadinho, vou tentar pelo menos preveni-la.
    - Obrigada, Ruark - sussurrou ela, agradecida. - Estarei esperando. Ele partiu ento, e Shanna voltou lentamente a seus aposentos. O resto do dia ela passou 
em ansiosa espera. A todo instante aguardava que o pai voltasse, derrubando portas at encontr-la; ou que Ruark lhe mandasse o recado de que deveria fugir, ou que 
o prprio Ruark dissesse que estava tudo bem, ou que todos eles, inclusive o comandante, a acusassem e o assunto fosse revelado publicamente. Pensou em todos os 
tipos de coisas, e no conseguiu sentar-se sequer para pentear-se. Com rara pacincia, Hergus esperou, por trs vezes que a patroa se sentasse, para que pudesse 
pente-la.
    No final do dia, Ruark voltou com o pai de Shanna, mas apenas fez um aceno ao passar por ela no porto da frente. S quando Ruark foi embora  noite, ela conseguiu 
ficar sozinha com ele por um instante e perguntar:
    - E ento?
    Ruark sorriu, maldosamente, e respondeu:
    - O comandante me assegurou que um cavalheiro no faz mexericos.
    Totalmente aliviada, Shanna foi para o quarto preparar-se para dormir, e s ento se deu conta de que Ruark a deixou sofrer at o ltimo instante.
    O comprido dia de agosto arrastou-se sob o cruel calor do Sol. A areia da praia estava quente demais para se poder caminhar nela, e at as crianas se haviam 
abrigado no refgio fresco de suas casas. A ilha ficou silenciosa  medida que seus habitantes mergulharam no torpor de demorada sesta. Ondas de calor se levantavam 
dos telhados e reluziam no horizonte distante. Um lnguido bater do mar na praia era o nico movimento que podia ser visto; nenhuma aragem movimentava a folha mais 
insignificante. O cu no tinha nuvens e parecia desbotado de seu tom normal de azul, apenas pelo calor do dia.
    Suspirando, Shanna saiu de sua varanda e entrou no frescor do quarto, tirando o vestido leve, quase insuportvel com aquele calor. Seu corpo jovem e firme brilhava 
com a transpirao sob a blusa curta, e a pesada massa dos longos cabelos estava mida. Por algum tempo, pegou preguiosamente numa tapearia, mas desistiu disso 
para espalhar-se nos lenis de seda da cama. O trabalho fora apenas pretexto para manter ocupadas a mente e as mos. Esta pea fora comeada havia anos: nunca tivera 
pacincia de termin-la. Era uma tarefa para ela, e assim uma coisa que odiava. Em seus tempos de escola a coisa fora ainda mais repugnante, sendo uma habilidade 
que toda menina tinha de dominar. As professoras procuravam ensinar bem, no compreendendo seus suspiros e resmungos de frustrao. Em acessos de mau gnio, rasgara 
muitos trabalhos, detestando os prprios erros e sem pacincia para corrigi-los. As carrancas disciplinadoras das professoras se transformariam em espanto, se soubessem 
de seu desejo de exercitar-se sob a direo do artista Hogarth, na St. Martin's Lane Academy.
    - Mas que horror! - E teriam tremido. - Dizem que esse jovem desenha segundo modelos ao natural: nuas!
    Shanna riu sozinha e sacudiu-se na cama. Elas mal adivinhavam que algumas de suas "crianas inocentes" se apresentavam como voluntrias para a tarefa, ou, se 
adivinhavam, cuidadosamente evitavam tais pensamentos.
    "Pelo menos os pontos de linha serviram a seu objetivo" pensou Shanna. "Fizeram com que deixasse de pensar naquele Ruark."
    Ficando de barriga para baixo, descansou o queixo nos braos cruzados, fechando os olhos na beatitude de suas lembranas. Ruark se tornara quase uma presena 
constante na manso. Estava presente  maioria das refeies e acompanhava Orlan Trahern em excurses. Dificilmente Shanna desceria as escadas sem encontr-lo, e 
sempre que isso acontecia os olhos dele a devoravam com uma audcia que a excitava. Mesmo isso ela podia suportar. De fato, gostava de suas atenes. Durante os 
momentos calmos, quando ningum os olhava,  que esses olhos dourados se viravam para ela com um desejo que quase lhe partia o corao, uma nsia to intensa que 
ela devia evitar olh-lo. Ento, se sua mente estivesse livre para vaguear, recordaria o toque excitante das mos dele, o calor de seus lbios sobre os dela, os 
sussurros.. a recordao das vezes que haviam partilhado o amor. Ainda podia ouvir-lhe os murmrios, lisonjeando-a, gentilmente a dirigindo pelos caminhos do amor, 
e relembrava o prazer de sua boca nos seios dela, insistente, quente, devoradora...
    Abriram-se de chofre os olhos de Shanna:
    "Santo Deus! Minha prpria mente me trai!"
    Seus seios latejavam de encontro ao fino tecido da blusa, e ela sentiu dores nos quadris. Levantou-se e pegou o bastidor com a tapearia, mas um momento depois 
chupou o dedo de onde a agulha extrara uma gota de sangue. Apertando as mos, ficou olhando a porta do quarto, sabendo que, se Ruark entrasse naquele momento, ela 
o acolheria com toda a avidez de seu corpo maduro de mulher. Lgrimas lhe inundaram os olhos.. em parte, lgrimas de raiva. Ela o desejava, e se odiava por essa 
fraqueza. Nas profundezas de seu ser havia uma paixo que s Ruark podia acalmar, e a luta era desesperada por conservar viva nem que fosse apenas uma partcula 
de raiva.
    Sbito, sentiu-se cansada, cansada por ter de evitar mesmo o mais breve momento a ss com ele. Mas tinha medo. O Comandante Beauchamp j os surpreendera uma 
vez. Na prxima, poderia ser algum de menor simpatia ou maneiras, talvez o prprio Orlan Trahern. A mente de Shanna planava em crculos sem-fim, enquanto tentava 
resolver seu problema. Tornou a estirar-se na cama; quando o sono a derrubou, ainda no conseguira resolver nada.
    Desceu a noite sobre a ilha; e o calor do dia foi debelado a ponto de se poder usar roupas. Leves brisas, mais tarde, reduziram o desconforto, quando a refeio 
foi servida. Na vspera, uma fragata inglesa, a caminho para as colnias, entrara no porto, e os hspedes do jantar dessa noite incluam pessoas desse navio: seu 
comandante, um major do Corpo de Fuzileiros Real, e um cavalheiro, Sir Gaylord Billingsham, que viajava como emissrio secundrio. Vrios dos supervisores haviam 
trazido suas mulheres, e Ralston, Pitney e Ruark preencheram os demais lugares  mesa.
    O grupo passou ao salo, onde as senhoras se reuniram a um canto, enquanto os homens se congregavam em outro, para fumar seus cachimbos e charutos. Depois que 
as senhoras falaram sobre amenidades, vrias
    delas puxaram de seus trabalhos de agulha assim como comearam, em voz baixa, a trocar receitas e fofocas. Exceto quando lhe eram dirigidas perguntas, Shanna 
permanecia silenciosa e, sob o disfarce de sua tapearia, observava Ruark enquanto ele vagarosamente fumava seu cachimbo e conversava com os outros homens. Usava 
um casaco castanho e cales cor de bronze, colete e uma camisa branca de peitilho franzido. Sua fortuna continuara a aumentar; pouco depois da partida de Nathanial 
Beauchamp, gastara parte dela em roupas, no to formais como as que Trahern lhe havia presenteado, mas no menos lisonjeiras para sua boa aparncia. Shanna tornou 
a atentar em seu trabalho, quando uma das senhoras se inclinou para falar-lhe de perto:
    - Shanna, esse jovem Sr. Ruark no  um belo homem? - murmurou a mulher por cima de seu bordado.
    - Sim, na verdade  bonito.
    Ela sorriu, com prazer. Por mais que apregoasse antipatia por ele, sentia um orgulho enorme quando algum elogiava Ruark.
    Prestando pouca ateno s fofocas, Shanna ouviu que Sir Gaylord Billingsham era solteiro, sem compromissos. Viajava para as colnias em busca de apoio financeiro
para um pequeno estaleiro em Plymouth que sua famlia tinha adquirido.
    "Ele  estranho!", pensou Shanna, observando-o. Era mais alto do que Ruark, ossos mais largos, e se movia com certa graa quase desajeitada, embora parecesse
apropriada para sua figura esbelta. O cabelo claro encaracolado ao redor do rosto comprido estava penteado numa peruca  Mozart, na nuca. Os olhos eram azuis acinzentados,
e a boca, sensual e expressiva. Seus modos iam da mais pura frivolidade  arrogncia mais petulante, mas estava pronto para rir de um gracejo e parecia gostar do
humor s vezes grosseiro dos supervisores. O gnio forte evidenciou-se brevemente, quando lhe informaram que partilharia sua mesa com um cativo. Embora se recuperasse
depressa, daquele dia em diante fez questo de evitar Ruark. Shanna achou isso estranhamente perturbador.
    Mesmo enquanto ela o analisava, ele clamava contra o "imundo costume" de fumar tabaco e, tirando do bolso do colete uma caixinha de prata, ps uma pitada da 
folha em p na palma da mo e delicadamente aspirou-a numa narina, depois na outra. Em seguida, espirrou no leno de rendas e, inclinando a cabea para trs, suspirou:
    - Ah, isto  que  coisa de homem! - Em resposta aos olhares que recebeu, explicou: - Deve-se tolerar o mau antes do prazer. - Fungando alto, dirigiu a prxima 
observao ao comandante da fragata: - Senhor, devo porm reconhecer que jamais seria um homem do mar na acepo da palavra. Abomino o espao exguo de um camarote 
quando o navio est em alto-mar, e no consigo toler-lo quando o navio est no porto. - Com um floreio da mo, dirigiu o olhar a Trahern e disse: - Bondoso senhor. 
- O nariz estava empinado para o alto. - Parece impossvel que no haja nenhuma taverna ou hospedaria decente onde eu possa hospedar-me durante
    os dias em que ficar aqui. Ser que nenhuma famlia amvel poderia acomodar-me? - Levantou a sobrancelha e deixou a pergunta no ar. Trahern sorriu e respondeu:
    - No ser preciso, Sir Gaylord - afirmou. - Temos mais do que espao amplo aqui, e ser um prazer para mim que o senhor fique conosco.
    -  muito amvel, Sr. Trahern! - O cavaleiro quase babou, com o sucesso de seu estratagema. - Vou mandar um homem pegar alguns objetos meus.
    Trahern levantou a mo e sacudiu a cabea:
    - No se preocupe, ns cuidaremos de suas necessidades imediatas e, se o senhor quiser mais alguma coisa, podemos mandar busc-la amanh. Ser nosso hspede 
pelo tempo que desejar.
    Embora Trahern soubesse que havia sido manipulado, estava satisfeito com a possibilidade de ser anfitrio de um nobre.
    Aps ouvir a troca de palavras, Shanna fez um gesto para um criado e, em voz baixa, mandou-o preparar o quarto de hspedes na ala do seu pai. Quando o criado 
saiu, ela viu que o pai a olhava e fez um sinal afirmativo com a cabea. Trahern voltou  sua conversa, certo de que as providncias estavam sendo tomadas e radiante
com a eficincia da filha.
    Shanna concentrou-se em sua tapearia, enrugando a testa quando se lhe deparava um ponto difcil. Sentindo que era observada, levantou os olhos e enxergou Ruark 
entre os homens. Para sua surpresa, ele no a olhava, e sim contemplava algo no outro lado da sala, testa enrugada. Acompanhando-lhe o olhar, ela deparou com Sir 
Gaylord Billingsham. Os olhos deste estavam cheios de interesse, porque ele obviamente a achava bonita. Os lbios cheios abriram-se devagar num sorriso que pareceu 
mais ldico do que outra coisa. Isto bastou para que Shanna ficasse contente por haver determinado que o quarto dele ficasse bem longe do seu. Rapidamente, desviou 
o olhar. Seus olhos percorreram o aposento e pararam em Ralston. Sorrindo de forma enigmtica, ele estava astutamente analisando Sir Gaylord.
    Antes que a noite terminasse, Orlan Trahern convidou todos os presentes e os demais membros do navio para participarem da festa de inaugurao do engenho. Explicou 
que, como todo o povo da vila estaria l, eles no tinham outra alternativa a no ser desfrutar das festividades do dia seguinte.
    A soneca de Shanna  tarde lhe atrasou o sono, e durante comprida e terrvel hora, rolou na cama, lutando contra a imagem de Ruark na cama a seu lado e esforando-se 
para debelar a insistncia de sua prpria imaginao, que ameaava impeli-la a correr at o chal dele. Conseguiu controlar-se e finalmente encontrou a vitria no 
sono, embora tambm este estivesse atormentado por sonhos que a fizeram tremer entre os lenis midos de suor.
    Na manh seguinte cedinho, Ruark chegou ao engenho, muito antes de todos os demais, e ocupou-se em prender seu jumento Old Blue bem
    longe do celeiro. O birrento jumento adorava implicar com os cavalos mais garbosos, mordiscando-os nas ancas ou nas orelhas. Isto geralmente degenerava em briga, 
coisa em que o velho arruaceiro era excelente. Muitos cavalos fortes saam mancando dessas rixas. Assim, para manter a paz com os cocheiros e capatazes, Ruark foi 
obrigado a esconder seu animal.
    O colono relanceou o olhar por sobre o ombro, quando Old Blue ps as orelhas para trs e, com a voz oscilante e rouca, comeou a desafiar os animais. Ruark enterrou 
o chapu na cabea, pois no queria participar de nenhuma confuso que resultasse. Abriu a portinha sob a tremonha e desapareceu da vista do jumento. Durante um 
instante, ficou no depsito para que os olhos se adaptassem ao escuro, enquanto saboreava o forte aroma das madeiras novas que formavam a maior parte da estrutura. 
Os tons vibrantes das superfcies virgens tinham ainda as marcas dos machados e dos enxs e refletiam o Sol, emprestando ao aposento misterioso tom castanho-dourado. 
Havia uma atmosfera de expectativa: tudo era novo, pronto, ansioso.
    Ali, onde se coletavam os caldos, achavam-se os enormes cilindros que moeriam a cana. Seis gigantescos tubos ficavam numa plataforma circular que poderia girar 
quando estivesse cheia. Ruark permitiu-se dar asas  imaginao e quase pde ver os tubos, enquanto gnomos, agachados s suas mesas, esperavam o primeiro sopro de 
vida para encher as taas com o doce nctar da cana. Ruark estalou as juntas contra o lado proeminente do tubo mais prximo para eliminar essas idias, e ouviu o 
eco do som oco no aposento.
    Enrugou levemente a testa. Ser que Shanna acharia que ele havia construdo o engenho para cair nas graas do pai dela?
    Foi at o lugar do cozimento, caminhando devagar entre as duas filas de grandes tachos de ferro, batendo com um graveto contra os lados de todos eles. Tambm 
eles pareciam esperar, como enormes duendes repousando as panas nos fornos de tijolos, onde os caldos seriam postos para serem transformados em melados grossos 
e castanhos.
    Ruark perguntou-se como estaria o humor de Shanna. Mostrar-se-ia como a vbora de lngua de fogo cujas palavras de recusa eram afiadas o bastante para cortar, 
ou a moa dcil e meiga, que ele via tanto ultimamente?
    Ruark chegou  extremidade do local, parou e olhou para trs, para escutar os sons de sua passagem desaparecerem como o coro de bronze dos sinos da igreja nas 
manhs de sbado. Um sorriso lento lhe aflorou aos lbios ao se recordar de uma noite, h tempos, em que ele e Trahern se retiraram para a sala de estar aps o jantar, 
e Shanna colocou-se ao lado das portas envidraadas, para pegar os ltimos raios da luz do dia, enquanto fazia sua tapearia. Foi uma noite idlica, em que se apreciou 
um bom cachimbo, conversa agradvel e a presena da moa, com sua beleza suave prxima, sempre que ele a olhava, iluminada pelo brilho rosado do Sol que se punha. 
Ele a imaginou em cena semelhante, mas com um beb nos braos
    e o rosto terno de amor. Foi uma coisa linda descansar e partilhar uma refeio com Shanna, linda e recatada do outro lado da mesa, mas o desejo ardente no 
o abandonou mesmo ento, pois, embora ela parecesse muito abrandada e serenamente agradvel, ele no havia passado nem um minuto sozinho com ela.
    Suspirou, bateu com o galho seco nas coxas vestidas de castanho claro, e continuou a percorrer a ala de infuso. Quase metade do local estava ocupada com grandes 
barris nos quais se poderia preparar o caldo e, com cuidadosos acrscimos, ele seria fermentado e se transformaria no rum novo. L, acima dos alambiques, canos de 
serpentina vermelha se contorciam em frenticas danas, congelados pela eternidade, e mergulhavam em seguida para gotejar a bebida esfriada, em barris enormes, para 
envelhecer e depois ser vendida. Aquele era o principal lugar de fermentao, seu reinado, onde seu talento e percia extrairiam o melhor da cana.
    A rea do engenho havia sido cuidadosamente escolhida. Ficava longe o suficiente da vila para que o fedor da fermentao no ofendesse os narizes do povo, mas 
localizava-se centralmente, perto de elevado planalto onde abundavam os canaviais. Sob os alicerces havia cavernas onde os barris de rum poderiam ser estocados para 
envelhecer. A gua era carregada em canaletas de fontes de gua potvel prximas, e havia abundncia de madeira na floresta circunvizinha. Outro fator importante 
era o fato de estar localizada em pequeno e protegido vale, a salvo das tempestades de vero, freqentes nas ilhas.
    O pulso de Ruark se acelerou quando ele sentiu a emoo do sucesso, logo amainado quando percebeu suas dvidas e pensou nas centenas de coisas que poderiam dar 
errado.
    "No  preciso que eu fique pensando no assunto", raciocinou. "Hoje vai ser o teste definitivo."
    Estreita escada conduzia ao sto, e ele subiu at onde pequena cpula havia sido construda no ponto mais alto do telhado do engenho, de forma tal que um homem 
poderia acompanhar a chegada e a sada de carroas durante o auge da colheita e com o conjunto de sinais poderia orientar os cocheiros para evitar os inevitveis 
engarrafamentos na estrada. Desse ponto, Ruark poderia aguardar a chegada da carruagem de Trahern.
    Longa fila de carroas, carruagens e carrinhos se aproximava da estrada da vila. Haviam sido providenciadas vrias carroas para a tripulao da fragata, e ele 
j via os uniformes coloridos dos oficiais. De um dos campos, Ruark observou a aproximao de cinco carroas carregadas de cana, e mais perto do engenho, empilhados 
numa carroa, estavam os inmeros cativos que fariam o engenho funcionar. A um grito de cumprimento do capataz, Ruark acenou e depois olhou novamente a estrada. 
No se podia ver ainda a carruagem de Trahern, e muito menos aquele arco-ris pelo qual os olhos dele ansiavam.
    Parecia que todas as almas na ilha estavam presentes para ver o engenho funcionar pela primeira vez, pois os ptios outrora vazios estavam ficando entulhados 
de gente. Ainda no havia, porm, sinal de Shanna.
    "Eu faria melhor se tivesse unido meu destino a um redemoinho", meditou desanimado Ruark, "em vez de estar to ligado a essa criatura caprichosa." Ela era realmente 
uma feiticeira que nele lanara seu encanto desde o primeiro instante na priso. Talvez ele tenha realmente cometido o crime contra a moa na estalagem, e seu castigo 
tenha sido este: Ter sempre Shanna como sua noiva, sem jamais desfrutar as alegrias do casamento. Se isso fosse verdade, deveria aceitar sua situao e conformar-se 
com um nico encontro marital venturoso e, durante o resto do ms, resignar-se  sua condio de cativo. Que terrvel destino! Como homem sem compromisso, ele havia 
feito o que quis entre os caprichos de moas ternas e encantadoras, e levianamente delas tirara o que lhes ofereciam; mas agora, casado com a mulher que ele teria 
sinceramente escolhido em qualquer circunstncia para se casar, era-lhe negada a condio do matrimnio e ele devia gozar apenas das horas ocultas entre o escuro 
da meia-noite e o romper da manh. Mesmo a, havia sempre a possibilidade de uma passada fortuita l fora, uma porta aberta equivocadamente, algum v-los juntos 
e, como crianas desobedientes, eles talvez fossem levados  presena do pai dela, para o castigo que ele determinasse.
    Um grito l embaixo lhe interrompeu os pensamentos, e Ruark viu a carruagem de Trahern entre as rvores que rodeavam a estreita estrada. Deixando o posto de 
observao, desceu apressado a escada e atravessou correndo o depsito vazio at a porta. Ao ver Shanna ao lado do pai, Ruark alegrou-se enormemente, mas isso durou 
pouco, quando reparou que Sir Gaylord estava no assento do lado oposto. Tinha inteno de cumpriment-los, mas agora, aborrecido e calado, Ruark recuou para uma 
sombra e observou o galante janota estender a mo para que Shanna descesse da carruagem. A irritao de Ruark cresceu ao ver que a mo de Gaylord demorou-se segurando 
o cotovelo de Shanna. Isto lhe era duplamente difcil de tolerar, quando ele mesmo no podia sequer toc-la em pblico. Ruark enfiou o chapu de brim branco na cabea 
e encostou-se no muro do engenho, totalmente frustrado.
    Considervel multido cercou a carruagem de Trahern, e logo o latifundirio estava alegremente apresentando seu nobre hspede aos vrios donos de loja e a outras 
personagens de importncia na ilha. Sir Gaylord foi forado a afastar-se de Shanna para receber cumprimentos e saudaes. A moa alisou o vestido e examinou os rostos 
das pessoas, tentando achar Ruark. Viu-o  sombra do prdio, braos cruzados no peito, e ombro encostado no muro. O chapu estava inclinado para a frente, cobrindo-lhe 
o rosto, mas a moa conhecia aquele vulto esbelto e alto. Ele estava vestido esportivamente, o que era o mais sensato a fazer, devido ao calor do dia. Uma camisa 
branca, aberta na garganta e de punhos pregueados, contrastava nitidamente com a pele morena. Ele era to moreno quanto qualquer espanhol e a estrutura magra e musculosa 
era acentuada pela cala justa e meias brancas.
    Shanna sorriu em pensamento. O alfaiate deve ter ficado satisfeito pela oportunidade de vestir figura to bonita. A maioria dos homens da ilha, que tinham dinheiro 
para os tecidos mais caros e a ltima moda, j era bastante idosa. Ruark, porm, tinha boa aparncia e corpo sem gordura, o que complementava a roupa mais modesta, 
mesmo aquela cala ousadamente curta. Ainda assim, Shanna desaprovou que a cala fosse to curta e que Ruark exibisse sua masculinidade aos olhares gulosos das mocinhas 
com paixonite por ele. Ela sabia, porm, que ele no tomava muito conhecimento de sua aparncia, ao contrrio dos janotas da corte. O prprio Sir Gaylord, vestindo 
renda e veludo, parecia com calor a ponto de explodir.
    Vendo Shanna momentaneamente sozinha, Ruark agarrou a oportunidade e dirigiu-se a ela, atravs da multido. Sua pressa e seu objetivo, porm, foram sua perdio, 
pois de repente seus braos se encheram do corpo macio de uma moa, e ele perdeu o equilbrio. Agudo guincho feminino lhe furou os ouvidos, e ele girou com o corpo, 
agarrando a moa para evitar que os dois cassem.
    - Que sangue quente, Sr. Ruark! - exclamou a voz estridente de Milly. - O senhor  muito impulsivo, para uma garota como eu.
    A desculpa saiu meio sem jeito da boca de Ruark:
    - Perdo, Milly. Eu estava com pressa.
    Ruark quis livrar-se, mas a moa o agarrou pelo brao, mantendo-o perto do pequeno busto.
    - D para perceber, John. - O uso familiar de seu nome no soou bem aos ouvidos de Ruark. De sbito, a voz dela pareceu alta o bastante para ser ouvida em toda 
a ilha: - Parece que, de algum tempo para c, voc est sempre com pressa.. - O risinho de Milly desafinou e ela continuou: - No precisa correr assim, John Ruark. 
Seja ela quem for, espera.
    Ruark tentou esconder a irritao. Torcendo o brao numa tentativa de se livrar, relanceou o olhar por cima da cabea da moa em direo a Shanna, que os observava 
tensa. A mo de Milly ergueu-se para acariciar o peito de Ruark, e os olhos negros sorriram para ele convidativamente.
    - Poxa, John! - suspirou ela. - Voc  to forte! S olhar para voc faz uma moa como eu se sentir fraca e indefesa.
    Ruark conteve a vontade grosseira de lhe perguntar onde ficava sua fraqueza, e tentou tirar-lhe os dedos de sua camisa.
    - Chega, Milly, estou com pressa! - rosnou.
    - Estou com uma cesta de provises, e uma coxa de carneiro, John - insistiu ela. - Por que no vem comer com a gente?
    - Lamento - disse Ruark, apressando-se a recusar o convite. - O Sr. Trahern me convidou para reunir-me a eles  mesa.
    Quase conseguiu soltar o brao, mas Milly ps outro estratagema em ao.
    - Ai! - gemeu, debruando-se pesadamente nele. - Acho que voc machucou meu p. Quer ajudar-me a ir at nossa carroa, benzinho?
    Uma sombra enorme reuniu-se a eles; os dois levantaram os olhos e constataram que a Sra. Hawkins estava  frente, braos nos quadris e com a testa to franzida 
que parecia a lmina de um machado.
    - Sei! - bufou a mulher, antes que algum dos dois pudesse falar. - P machucado! Eu a ajudo a ir at a carroa. Venha logo, sua sem-vergonha! Atirando-se para 
cima do Sr. Ruark desse modo! Voc devia envergonhar-se!
    A Sra. Hawkins pegou a filha pelo brao e, lanando um rpido olhar de desculpas para Ruark, levou a moa embora. Milly mancou at que a me lhe sapecou um tapa 
que fez a moa gritar. Esquecendo o p machucado, Milly conseguiu surpreendentemente chegar depressa  carroa.
    Ruark sorriu divertido ao presenciar a pressa da fuga de Milly, mas ficou srio ao se voltar para Shanna. Ela o contemplava com um sorriso misterioso nos lbios 
e a testa franzida. Ruark a conhecia bem o bastante para pressentir a tempestade prxima e apressou-se a aplacar-lhe a ira. Coitado! Ele no teria tanta sorte, pois 
com um grito de cumprimento, Trahern correu a intercept-lo, e Ruark foi varrido de lado pelo corpanzil de Trahern, no momento exato em que o rapaz chegava perto 
de Shanna. Mais uma vez Ruark viu seu brao preso e, para seu desgosto, Trahern o conduziu de volta ao engenho. Relanceando o olhar por cima do ombro, viu Sir Gaylord 
voltar para o lado de Shanna. O cavaleiro lhe pegou o brao e inclinou-se sobre o ombro dela para sussurrar um comentrio espirituoso.
    - Agora, Sr. Ruark - disse Trahern - vamos inaugurar logo esse engenho e deixar que essa gente boa se divirta. Minha filha vai cortar as bandeirolas, mas gostaria 
que o senhor partilhasse desse momento.
    Ruark ignorou o resto do que Trahern disse ao ouvir o riso de Shanna s suas costas. Esse som lhe cortou o corao como vinagre na garganta de um homem sedento.
    Numa saudao ao Rei George, beberam cerveja, rum e vrias outras bebidas, enquanto as mulheres bebericavam um vinho suave. A consagrao do engenho conduziu 
a uma srie de outros brindes, e quando Shanna foi levada at as amplas portas  frente do lugar, a animao era geral. Ela estava igualmente alegre, mas sua alegria 
tinha outra origem. Alguns goles de vinho no a teriam deixado to contente. No conseguia analisar as razes por se sentir to feliz enquanto se encaminhava para 
onde estavam as bandeirolas, mas subitamente compreendeu por que, ao ver Ruark ao lado de seu pai. Aquele engenho era uma realizao de Ruark, e ela estava esplendorosamente 
orgulhosa por isso. De repente, lgrimas lhe avivaram os olhos e ela sorriu at seus olhos secarem. Rindo feliz, deu um puxo firme na corda que prendia a massa 
de bandeirolas. Os ns se desfizeram, e os muitos metros de pano colorido caram na plataforma.
    A mo de Ruark uniu-se  dela para impulsionar o pesado ferrolho, e perante a vasta audincia, os dois tentaram ignorar o contato. Seus olhos se encontraram 
rapidamente antes de Ruark afastar-se para abrir as portas, e Shanna foi a nica a saber que seu rubor no era inteiramente devido  excitao do momento.
    Quando as portas foram abertas, o povo contemplou o enorme depsito que, vazio, dava mais a impresso de uma catedral. O barulho da multido se transformou em 
cochichos surpresos, e nesse instante um grito vindo do porto lhes chamou a ateno. Duas das carroas j estavam sendo colocadas no lugar acima da tremonha que 
levava a cana para baixo. Outro grito percorreu o ar, e uma parelha de bois foi impelida a se mexer numa trilha circular, o que ps em movimento um grande dente 
de engrenagem acima deles. Este se mesclava a grande roda raiada, que girava uma canaleta que, por sua vez, ia at o prdio. O homem que conduzia os bois acenou 
para um outro ao lado da tulha, e este inclinou as costas para impulsionar uma grande alavanca para a frente. Um barulho alto e surdo foi seguido por outro. E ento 
os cilindros comearam a rodar com lenta e serena majestade. Um estrondo pareceu fazer tremer o cho, o que fez o busto de Shanna arfar de excitao. Seu corao 
inchou tanto que parecia a ponto de sair-lhe do peito, e ela teve vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Um murmrio de vozes ergueu-se quando o povo assistiu ao 
primeiro basto de cana entrar nos cilindros. Esperaram todos, ansiosos, at que a alavanca se mexeu de novo, desta vez parando o movimento. O estrondo cessou, e 
fizeram parar os bois. O sbito silncio durou um tempo que pareceu a Shanna uma eternidade, e em seguida ouviu-se um chocalhar dentro do engenho. Devagar, um de 
cada vez, quatro grandes barris de caldo foram rolados para a plataforma, para serem experimentados por quem quisesse.
    Foi um feito estupendo! O que teria demorado uma tarde inteira a ser feito por um bando de homens, tinha sido realizado no tempo em que se poderia tomar uma 
xcara de ch. Um grito entusistico de aprovao foi berrado pelos espectadores. At Ruark sorriu, enquanto Sir Gaylord atravessava a plataforma e parava entre 
ele e Shanna, de quem pegou a mo estendida.
    Como o engenho era algo inteiramente novo na ilha, os habitantes tiveram licena de visitar-lhe o interior, agora que o esmagamento da cana colhida fora demonstrado. 
Durante muitas semanas, o povo se havia surpreendido com aquela coisa sendo construda nos morros acima de sua vila e agora, finalmente, sua curiosidade ia ser saciada. 
Estavam todos atnitos com a habilidade que havia criado aquele engenho, e muitas pessoas estavam contritas, porque haviam outrora dado tapas nas coxas em sua galhofeira 
descrena, quando informados de que a produo da moenda s era limitada pela velocidade com a qual a cana podia ser colocada na tremonha, e o que antes era um ms 
tedioso de trabalho estafante podia agora ser resolvido entre dois sbados.
    - Posso acompanh-la, Madame Beauchamp? - pediu Sir Gaylord. - Tambm estou curioso. Certamente foi um ingls que executou essa idia.
    Shanna sorriu divertida, reconhecendo a tpica mente inglesa. Se era bom, tinha de ser ingls.
    - Nosso cativo j me levou outro dia num esplndido passeio ao engenho, Sir Gaylord. Tenho certeza de que o Sr. Ruark se interessar por sua deduo, mas ele 
vem das colnias, no da Inglaterra.
    - Imagine! No me diga que foi ele que... - Gaylord estava claramente perplexo. Com arrogante pose, fungou ligeiramente contra o leno. - Bem, suponho que para 
um tipo simples de construo como este poderia ser usado um conhecimento bsico. Quanto a mim, abomino isso tudo. Prefiro um bom vinho a essa mistura selvagem. 
No  bebida para um cavalheiro.
    Shanna sorriu como uma gata que acabara de encurralar um rato:
    - Preciso informar meu pai sobre suas concluses, senhor. Na verdade, ele acha o rum muito gostoso.
    Sir Gaylord ps as manoplas nas costas e ficou pensativo:
    - Talvez seu pai se interessasse por investimento mais seguro, Madame Beauchamp. Minha famlia adquiriu um estaleiro em Plymouth que  muito promissor, e com 
a riqueza de seu pai...
    Mais uma vez o cavaleiro cometeu um erro crasso, como muitos outros antes dele, mas Sir Gaylord mal percebeu o que ia por trs do olhar enviesado de Shanna. 
De sbito ficou fascinado com a vantagem que sua altura lhe concedia. Ombros e cabea mais altos do que os de Shanna, tinha viso muito agradvel do que ficava debaixo 
do recatado corpete sempre que acontecia olhar para aquele lado, o que era freqente. A elevao dos seios leitosos era um panorama tentador para qualquer homem, 
e Sir Gaylord certamente apreciava a vista.
    Vendo o olhar do cavaleiro fixo em seu busto, Ruark ficou irritadssimo. Disfarou a raiva que o consumia com um caneco de cerveja, bebendo o lquido at a 
ltima gota. Aps testemunhar esse fato, Shanna o olhou interrogativamente, mas Sir Gaylord se meteu mais uma vez entre eles, pegando o brao de Shanna. Debruando-se 
sobre ela com um comentrio suprfluo, ele a afastou da presena de Ruark.
    Este no teve tempo de reagir, pois seu brao estava sendo agarrado pela manopla de Trahern. Ao ser arrastado para outro local, ouviu um fluxo de palavras ansiosas 
que comeavam assim:
    - Agora, quanto  serraria. Quando voc acha que...
    Ruark nem se deu conta do que respondeu, pois em sua lembrana o resto da conversa foi afetado por uma nvoa aborrecida atravs da qual ele s via as costas 
do ondulante Sir Gaylord.
    Trahern s deixou Ruark quando chegou um comboio da manso. Os vrios criados de Trahern saltaram dos veculos e comearam a montar uma longa fila de mesas que 
foram rapidamente cobertas por barris de cerveja preta e branca, e tonis menores de vinhos brancos e tintos, doces e secos. Abriu-se uma ltima carroa e coxas 
de carneiro ainda fumegantes, porco assado, aves de todas as espcies e frutos do mar foram colocados junto a vasto sortimento de molhos finos, para complementar 
as carnes e provocar o paladar. As senhoras da ilha trouxeram seus prprios quitutes
    para acrescentar ao banquete. Quando Shanna levou Sir Gaylord para inspecionar os pratos, ele abriu os braos encantado e riu ligeiramente:
    - Meu Deus, esta abundncia em ilha to pequena me deixa perplexo. Este banquete se equipara aos que meus parentes do na Inglaterra.
    Ele no percebeu os olhares raivosos de vrias senhoras e sups que o sorriso de Shanna fosse um incentivo. Trahern se aproximou a tempo de ouvir a ltima frase 
e apressou-se a apagar o erro da observao.
    - Ah! Sir Gaylord, acontece que o senhor ainda no provou as delcias que as senhoras prepararam, ou concordaria que nenhum banquete no mundo se compara a este.
    Ruark seguia devagar, escolhendo outra cerveja para bebericar enquanto contemplava o posudo Sir Gaylord. O cavaleiro passava vrias vezes o leno de renda na 
testa, dando a impresso de que estava sofrendo com o calor. Finalmente, com a presena de Trahern, Sir Gaylord olhou para algo menos atraente do que o corpete de 
Shanna:
    - Como est, John Ruark?
    Ralston o saudou com o chicote de montaria e dirigiu-se para ele, relanceando brevemente sobre o ombro de roupa escura em direo ao grupo de Trahern. Ruark 
parou para esperar o homem, embora seus olhos, sob cenho franzido, nunca abandonassem o pedacinho cor-de-rosa quase oculto pelo vulto alto e magro do cavaleiro. 
Ruark no percebeu que Shanna lhe retribua o exame, olhando atentamente enquanto sorria e concordava com a cabea com as bobagens que lhe dizia o cavaleiro. Ruark 
s viu Sir Gaylord lev-la novamente para a extremidade de uma mesa separada, onde os criados colocavam pratos.
    - John Ruark! - Ralston lhe exigiu a ateno em tom rspido e ficou rubro de raiva quando Ruark lhe respondeu lentamente, virando-se para encarar-lhe o olhar 
frio e penetrante: - Sugiro, Sr. Ruark, que tente manter seus desejos sob controle, embora eu compreenda bem a causa. - Ralston fez um gesto descansado na direo 
de Shanna. - Lembre-se de que  um cativo, e no pense que vai exceder essa condio, enquanto eu estiver por perto. H muito tempo que uma de minhas obrigaes 
 evitar confuses para os Traherns. Parece que o senhor est sem o que fazer. Sugiro que cuide dos assuntos urgentes. Seria lamentvel que os sumos se perdessem, 
pois esses primeiros devem tornar-se algo selecionado.
    - Com o devido respeito, senhor - o tom de Ruark foi contido e severamente controlado - o mestre cervejeiro aprovou todas as pedras aqui dispostas e j comprovou 
sua capacidade. Parece-me absurdo que eu, com menos experincia no assunto, supervisione o trabalho dele.
    - A mim parece-me mais do que evidente, Senhor Ruark - o ttulo foi dito em tom debochado - que ultimamente o senhor est achando demais. Faa o que lhe mando 
e s volte quando o servio estiver concludo.
    Passou-se demorado instante enquanto o arrogante olhar se deparou com o olhar fixo e aptico de Ruark. Em seguida, Ruark fez um sinal afirmativo com a cabea 
e afastou-se em longas passadas, para fazer o que lhe fora ordenado.
    Quando todos os convivas encontravam-se sentados  frente de seus pratos, Shanna descobriu que Sr Gaylord estava a seu lado e, perscrutando a mesa, surpresa, 
observou que o prato de Ruark havia sido alijado para a extremidade, longe de seu lugar habitual perto de seu pai, e que ele no havia ainda sido servido. Logo notou 
que Ralston chegara, e observou-lhe o sorriso malicioso nos lbios normalmente taciturnos.
    Ralston sentou-se no meio da mesa e contemplou com bvia satisfao o lugar vazio de Ruark. "Para variar" pensou, "o patife est onde pertence, fazendo o que 
devia, esforando-se para que seus superiores se divirtam."
    Levantando os olhos viu que Shanna o olhava de testa franzida. Apressadamente, Ralston concentrou sua ateno na comida, sem sequer reparar ou se importar de 
que no estava comendo uma simples refeio inglesa.
    O dia de Ruark atingira o auge com o sucesso do engenho. Da para a frente, comeou a afundar com uma srie de rpidos mergulhos e alcanou o ponto mais baixo. 
Esse ponto, porm, s foi atingido mais tarde, quando, ao voltar da tarefa que lhe fora ordenada, ouviu a Sra. Hawkins e o Sr. MacLaird discutindo as vantagens de 
a filha de Trahern casar-se com um lorde. Escutou durante certo tempo e, depois, afastou-se enojado, mas voltou a ouvir sem querer Trahern discursar sobre os benefcios 
que um lorde representaria como seu genro. A mar baixa foi realmente sentida quando Ruark escutou o comandante da fragata e o major dos Fuzileiros comentarem a 
deciso de Sir Gaylord de viajar s colnias com os Traherns. Baseavam-se na premissa de que o cavaleiro procurava uma mulher rica e estava resolvido a casar-se 
com a adorvel filha do latifundirio.
    Essa conversa ardeu na mente de Ruark. A cena estava preparada para que aquele idiota afetado e vaidoso pedisse a mo de Shanna em casamento. Quando Ruark secou 
a taa pela dcima segunda vez, rosnou para si mesmo que nem ela se havia mostrado indiferente ao cavaleiro; para dizer a verdade, havia sido at muito amvel com 
o lorde a tarde toda.
    Ruark no deu nenhuma desculpa para se retirar. Tirou uma garrafa grande da mesa, procurou seu velho jumento no qual montou e saiu cavalgando pelo morro.
    Como sempre, Shanna era o centro das atenes. Os oficiais da fragata vieram cumpriment-la e demoraram-se muito, gozando daquela viosa beleza feminina, aps 
longas semanas no mar. Msicos subiram ao tablado e tocaram, para o prazer da multido. Um jovem capito dos Fuzileiros danou um rigodo com Shanna, encorajando 
os outros oficiais a fazerem o mesmo. A noite devia deix-la alegre, porque Shanna sempre gostara de danar e da companhia animada dos homens. Contudo, naquela noite 
seu prazer estava estranhamente incompleto e, nos raros momentos em que ficou sozinha, Shanna estranhava o prprio humor. Os acontecimentos comearam a arrastar-se 
interminavelmente, e ela ficou entediada. O tempo todo, porm, mostrou-se sorridente, mas seu alvio foi enorme quando finalmente o pai sugeriu que os habitantes 
da vila ficassem sozinhos para se
    divertir e convocou sua comitiva para ir embora. Para Shanna, pareceu que a volta a casa no terminava, e nem a viso deslumbrante do mar iluminado pela Lua 
a animou. Quando chegaram  manso, ela rapidamente pediu licena a Sir Gaylord, o que o -fez enrugar a testa, e procurou a paz de seu quarto.
    Ruark acordou sobressaltado. Dormitava de vez em quando mas sem tranqilidade. No sabia por qu. Estava vigilante e em tima condio de sade, embora tivesse 
dormitado na cadeira onde experimentara a bebida de um jarro. Tirando a rolha, Ruark cheirou e depois fez uma careta provocada pelo cheiro penetrante e amargo da 
oleosa aguardente de melao. Jamais conseguira gostar daquilo: preferia as bebidas mais suaves.
    O comprido relgio do vestbulo atrs dele repicou uma nica vez. Ruark virou-se e verificou que era uma da manh. Franziu a testa, juntando as sobrancelhas 
negras. Levantou-se da cadeira e foi para perto da janela. Old Blue estava em seu pequeno quintal, embora o porto permanecesse aberto; o animal cochilava sob o 
abrigo aberto construdo por Ruark.
    Afrouxou a camisa de linho e a tirou pela cabea; depois, foi at a bacia em seu quarto e, no tendo nada para fazer, barbeou-se e tirou o suor do corpo. Lavou 
a boca para tirar-lhe o gosto amargo e vestiu uma cala curta antes de ir at a varanda refrescar-se com a aragem noturna. Embora levemente tonto, como se os efeitos 
do rum ainda o afetassem, sentia-se bem e tinha a cabea desanuviada.
    A Lua estava baixa e iluminava os topos das rvores. Onde o luar se refletia nos pontos elevados, iluminava a noite fria mas estranhamente tensa. Ruark sentia-se 
inquieto. A noite parecia cham-lo, as sombras o convocavam. Saindo da varanda, sentiu a umidade do orvalho sob os ps descalos. Passou pelos arbustos e vagou por 
baixo das altas rvores. A manso o atraiu. Seu enorme e escuro volume acocorava-se em meio s rvores mais finas. Todas as luzes da casa estavam apagadas, e ele 
compreendeu que os participantes da festa j se tinham retirado.
    Um volume familiar ressaltou a seu lado: esticando a mo, Ruark sentiu o tronco da rvore que ficava  frente da sacada de Shanna. Apoiou um ombro na madeira 
vigorosa e olhou para cima, para as portas do quarto dela. Sua imaginao vagou at se fixar numa cena de Shanna dormindo ao lado daquele desajeitado cavaleiro ingls. 
A viso foi profundamente desagradvel e Ruark a eliminou depressa da mente. Assim liberado, os pensamentos se concentraram na noite em que a contemplara dormindo, 
com os cabelos em tons dourados e de mel espalhados em descuidadas cascatas no travesseiro e emoldurando-lhe o rosto perfeito. Seus lbios se entreabriam ligeiramente 
com a respirao enquanto ela dormia confiante na cama dele. Houve uma ocasio no chal em que ela se ajoelhou nua e debruou-se para beij-lo, quando os seios macios 
lhe acariciaram o peito at que ele quase se dissolveu de felicidade. Certa vez, ela se aninhou perto dele, chegando o corpo bem prximo ao seu, e seu calor agitou 
nele paixes semelhantes s
    de um bando de codornizes que se lanassem em altos vos de um prado. O fogo dentro dele aumentou at virar tortura extica e ele se viu debaixo da sacada de 
Shanna, esticando-se para pegar a trepadeira.
    Shanna flutuava num poo fundo de sonho, no limbo, num vazio infinito. Nadava num mar suavemente ondulado de guas turquesas, que ele penetrava com suas braadas. 
Comeou a ficar apavorada ao perceber que no havia terra  vista, nem mesmo as grandes nuvens de tom esverdeado que refletiam a presena do mar, mas a o medo desapareceu. 
A seu lado, os braos de um bronzeado dourado de um homem harmonizavam-se com os seus prprios, braada por braada. O homem se virou, e seu rosto era o de Ruark; 
os dentes alvos reluziam num sorriso provocante. Os lbios dele se mexiam numa splica muda; ele se levantou e curvou as costas musculosas para mergulhar sob as 
ondas. Com riso brincalho, ela o seguiu e mergulhou fundo at onde a claridade se desbotava num verde escuro e incontveis gavinhas de algas marinhas se entrelaavam 
em redor deles, quando se uniram num beijo eterno. Ela no sentiu necessidade de respirar. Eles eram como duas ninfas flutuando num nirvana ocenico, cada vez mais 
fundo. De repente, ela ficou sozinha.
    O rosto de Ruark voltou em propores gigantescas em cima dela. Foi-se aproximando, mas Shanna no conseguia toc-lo. Piscou os olhos e mexeu a cabea, tentando 
eliminar a viso. Sbito, percebeu que estava acordada, e ele estava l. Os braos de Ruark, firmados nela, tremiam sob seu peso. Os lbios dele adejaram sobre os 
dela, e sua voz disse suavemente, quando ele suplicou como um garotinho:
    - Shanna, me ame; Shanna, me ame.
    Com um gritinho de alegria, ela estendeu os braos sedosos para atra-lo para ela; seu corao inundava seu corpo de clido contentamento. Foi como uma ocasio 
em que as coisas tinham de existir naturalmente como as rvores, a areia, o mar, o Sol e as estrelas. Foi como mil estrelas brilhando e se fundindo a um nico sol, 
o desejo voraz que os engolfou num redemoinho ao mesmo tempo doce e violento. Shanna arqueou-se contra ele, abrindo as coxas e recebendo-lhe as estocadas com todo 
o vigor de seu corpo trmulo, dando-se sem reserva. Os dois viraram um s, pertencendo e possuindo, dando e tirando.
    Saciados, ficaram deitados enlaados. Shanna sentia-se clida e segura nos braos dele, gozando a estranha paz que no havia encontrado antes. No sentia vergonha, 
nenhuma sensao de se haver transviado, nem o menor remorso por haver cedido mais uma vez. Em sua cabea, as palavras do proco proferidas h muito tempo numa igrejinha 
do interior da Inglaterra continuavam presentes. Ele lhes havia desejado casamento duradouro. Por alguma razo, essas palavras j no a assustavam.
    Shanna suspirou satisfeita e beijou o pescoo de Ruark, onde estava aninhada. A batida lenta do corao dele acalmava at mesmo as idias repousantes. e ela 
dormiu, aninhada nos braos dele.
    Na escurido imvel e negra que precede o romper do dia, Shanna acordou subitamente e percebeu que Ruark estava-se levantando.
    - Espere, vou acender uma vela - murmurou, sonolenta. A mo procurou o escuro para tocar Ruark na coxa dura e musculosa e ela se levantou, passando-lhe um brao 
pelo pescoo quando ele se debruou para ela.
    - Pensei que voc estava dormindo - sussurrou ele, beijando-a.
    - Eu estava, mas voc se mexeu - respondeu ela, baixinho, deixando escapar um suspiro anelante. - A madrugada chega to rpido!...
    - Tambm acho, amor. Rpido demais.
    Ela era como um frgil pssaro apoiado nele, e Ruark quase temeu mexer-se, pois ela poderia voar e ir embora. Os bicos macios e delicados dos seios dela lhe 
esquentavam o peito e, sabendo que devia deix-la e partir, Ruark era como um homem sendo torturado.
    Shanna afastou-se e acendeu uma vela na cmoda ao lado da cama. Em seguida, ajoelhou-se e sorriu para ele; seu cabelo desceu em cascatas pelo corpo nu.
    Ruark gemeu e suspirou, j saudoso:
    - Deus, voc  uma feiticeira! Uma linda e doce feiticeira!
    Sua mo tirou dos seios rosados de Shanna os densos cachos, para que sua contemplao no tivesse obstculos. Shanna riu ao se erguer nos joelhos; os olhos faiscavam 
felizes. Atirou os braos ao redor do pescoo dele e caiu sobre ele, em risonho abandono.
    - Sou uma feiticeira, no ? Devia envergonhar-se, senhor, por tirar o que tenho de melhor e depois me insultar.  assim que o senhor amealha suas moedas, exercendo 
sua virilidade em pecaminosos bordis e depois reclamando que foi enganado?
    Seus dentinhos alvos mordiscaram a orelha dele antes que ela o fizesse ficar de costas e levantasse o punho como se fosse atac-lo. Rindo, Ruark encolheu-se 
em zombeteiro terror.
    - Por favor, patroazinha, tenha piedade. J abusaram muito de mim esta noite.
    - Abusaram muito do senhor! - arquejou Shanna. - Sabujo, logo o senhor saber o que  abuso. Vou arrancar-lhe o corao do peito volvel - puxou alguns fios 
do peito dele, obrigando-o a fazer uma careta - e d-lo aos caranguejos. Como ousa chamar-me de feiticeira, quando a pequena Milly  to sorridente, meiga e condescendente? 
Garanto que o senhor vai perder mais do que o corao.
    Estranho tom de sinceridade nas palavras de Shanna fez Ruark olh-la interrogativamente, mas Shanna deu um risinho malicioso e o olhou de forma to travessa 
que quase o fez perder a respirao e lhe reacendeu o desejo. Satisfeita com a rapidez da reao dele, Shanna voltou  carga:
    - Apenas um olhar? Pode Milly gabar-se disso? Aquela garotinha magricela e sem busto provoca o drago Ruark? Ha! J vi adversrias com mais capacidade...
    Ruark descansou na cama e cruzou o brao debaixo da cabea. Parecia muito com a luzidia pantera com que a imaginao dela vrias vezes o comparava. Olhou-a lenta 
e minuciosamente, com o olhar que a fazia sentir-se devorada.
    - Voc  uma moa ousada, Shanna Beauchamp. Ousada o bastante para domar um drago.
    Ruark esticou um dedo e lentamente traou uma linha imaginria sobre a curva arquejante do busto da moa, analisando-lhe os olhos enquanto percorria o cimo, 
vendo-os escurecer e ficar lmpidos como piscinas sem fundo, olhando-o firme por trs das plpebras. A boca macia de Shanna se entreabriu de desejo, ela inclinou-se 
para ele e lhe beijou os lbios ansiosos, tocando-lhe a lngua. Os braos dele a rodearam, e puxaram-lhe o corpo esbelto sobre o seu e, mais uma vez, o tempo parou, 
embora no horizonte o cu ficasse azul escuro.
    Cantarolando melodia leve e ligeira, Shanna quase pulou de alegria ao descer para o desjejum. Chocou Berta ao cumprimentar a governanta com exuberante abrao, 
e a mulher quase ficou boquiaberta ao olhar sua jovem patroa. Era raro Shanna aparecer para o desjejum antes do velho Trahern e, principalmente, to alegre assim. 
O riso se lhe misturou s palavras quando Jason abriu a porta para John Ruark. Seu rosto brilhou to radiantemente quanto o prprio Sol que brilhava no cu. Atnita, 
Berta foi para os fundos da casa, sacudindo a cabea sem parar. Shanna no reparou na fuga de sua governanta e, com uma mesura brincalhona, dirigida a Ruark, aceitou 
seu clido olhar apreciativo como um cumprimento silencioso.
    - O senhor no parece ter sofrido nenhum mal em sua caa s bruxas, Sr. Ruark. - Os olhos de Shanna o analisaram. - Nenhuma cicatriz? Nenhuma ferida supurada, 
causada pelas presas da bruxa?
    Um risinho licencioso se espalhou pela boca de Ruark. Pegando-lhe os dedos finos, fingiu examinar-lhe as unhas compridas e cuidadosamente tratadas, enquanto 
Shanna observava divertida.
    - No, nenhuma  vista, senhora. Quando ela me arranhou s conseguiu tirar um pedao de pele.
    Shanna atirou a cabea para trs, achando graa, e livrou a mo.
    - O senhor diz bobagens. No me lembro de nada..
    - Devo dizer-lhe o que voc sussurrou no escuro? - interrompeu Ruark, falando-lhe baixinho ao se debruar junto dela. Seu sorriso era provocante ao contemplar-lhe 
os olhos admirados.
    - Eu no disse nada. - comeou Shanna defensivamente, mas ficou curiosa. Teriam seus pensamentos a trado? Teria dito palavras proibidas?
    - Dormindo, voc suspirou "Ruark, Ruark!"
    Leve rubor coloriu as faces da moa, mas Shanna desviou o rosto depressa, pois no queria que ele o notasse.
    - Entre, Sr. Ruark. Acho que ouvi Papai vindo pelo vestbulo. E logo o Sr. Ralston deve chegar. O senhor no precisar esperar muito.
    Evitando dessa forma que ele falasse, Shanna o conduziu  sala de jantar e l, instantes depois, cumprimentou o pai, beijando-o levemente no
    rosto, enquanto Ruark observava a cena, sem conseguir entender o humor de Shanna.
    Sir Gaylord costumava levantar-se tarde. A conversa  mesa da manh foi demorada e assinalada por vrias opinies quanto  serraria mas ele s apareceu muito 
depois que Ruark e Trahern saram para inspecionar a serraria em construo. Foi assim que o Sr. Ralston, aps ser friamente cumprimentado por Shanna, foi o nico 
a permanecer e cumprimentar o arrogante ingls quando ele chegou  sala de jantar.
    - Est um dia bastante quente - observou Sir Gaylord, pegando uma pitada de rap e espirrando no leno de seda. - Talvez eu convide a viva Beauchamp para dar 
um passeio. Sem dvida, deve estar ansiosa pela companhia de um cavalheiro, aps tantos meses de viuvez.  uma moa adorvel! Aquele rosto meigo me encanta.
    Ralston fechou os livros de contabilidade e estudou o homem. Um brilho interesseiro reluziu-lhe nos olhos pretos.
    - Permita-me sugerir um pouco de cautela no assunto, senhor. Conheo Madame Beauchamp h bastante tempo, e ela parece ter averso natural pela maioria dos homens 
que a cortejam. Posso falar-lhe muito sobre ela, embora considere-me na lista das pessoas que ela detesta.
    Gaylord enxugou o lbio superior, mido de suor.
    - Diga-me ento, bom homem, como pode ajudar-me, se no consegue sequer ajudar-se?
     boca fina de Ralston quase sorriu:
    - Se o senhor conseguir casar-se com a viva seguindo meus conselhos, estaria disposto a dividir o dote?
    Ralston calculou certo. Gaylord estava ansioso para fazer qualquer acordo que o fizesse tornar-se rico e ajudasse a endireitar as finanas da famlia. O cavaleiro 
tinha noo do montante da fortuna de Trahern, e estava resolvido a aproveitar-se disso, por meio do casamento com a encantadora viva ou atravs de negcios com 
Trahern. O estaleiro da famlia achava-se em m situao e precisava de bastante dinheiro para aprumar-se. Se Trahern lhe abrisse a bolsa, ele poderia dividir um 
simples dote com esse homem.
    - Como cavalheiros - disse Gaylord, estendendo a mo; e consumou-se o trato.
    - Em primeiro lugar, sugiro que impressione Trahern com sua importncia na corte e seu nome - disse Ralston. - Mas fique prevenido: se Madame Beauchamp desconfiar 
que sou seu conselheiro, tudo estar perdido. At mesmo se o senhor convencer Trahern de seus mritos, aquele erro no ser corrigido. Portanto, cuidado, meu amigo. 
Tome especial precauo em cortejar a viva Beauchamp.
    Um casal de guias-pescadoras estava aninhado no penhasco ao longo da praia leste da ilha. Shanna muitas vezes observava as aves pairarem com as asas imveis 
enquanto percorriam as correntes de ar acima da mar. Sua imaginao voava alto com elas. Mesmo tendo a certeza de no estar grvida, pouca importncia dava s conseqncias 
de deixar que Ruark lhe invadisse novamente os aposentos. Sua cabea achava-se cheia das agradveis lembranas de quando ele lhe chegou no escuro da noite e de quando 
deixou de existir o dia seguinte. Satisfazia-se em viver momento a momento, cercada por uma aura de felicidade. Estava em paz com o mundo e tinha uma sensao incrvel 
de tranqilidade e confiana de que tudo daria certo. Saber que isso era devido  presena diria de Ruark na manso no a perturbava como antes. Ela era como uma 
flor, uma rosa, desabrochando sob os raios clidos do Sol, enquanto se banhava no brilho dos olhos de Ruark.
    Quase uma semana se passou desde que ele a visitou no quarto. O dia amanheceu com pesadas nuvens negras ameaando engolfar a verdejante ilha numa tempestade. 
De p na varanda, Shanna contemplava o cu agourentamente negro que parecia comprimir os morros com terrvel pressgio.
    Relincho irado percorreu o ar, e Shanna girou o corpo, dando com alguns homens na alameda em frente  manso, esforando-se para dominar um cavalo que se erguia 
 frente deles, chutando o ar com as patas dianteiras. De onde estava, Shanna viu os talhes sangrentos que desfiguravam o reluzente plo castanho-avermelhado. Ficou 
irada ao pensar que animal to magnfico havia sido maltratado.
    - Cuidado com o animal! Ele j est ferido.
    A voz que berrou era desconhecida para Shanna, mas reconheceu o traje dos homens como sendo o de marujos - o maior deles usava um casaco com gales, e os outros 
trs vestiam uniforme de marinheiro.
    - Vocs a! - gritou Shanna da varanda. - O que significa isto? No se do conta do valor desse animal? Nasceram todos nas tbuas de um convs?
    Como um furaco, desceu a escada, cachos ao vento, e se aproximou dos quatro, olhando-os raivosa antes de se dedicar  tarefa de acalmar a
    gua. Falando carinhosamente, estendeu a mo para acariciar o nariz macio do animal e lhe tocar os flancos trmulos. Gradualmente, a gua se acalmou sob aquele 
toque suave e condescendeu em ficar parada, enquanto os homens, boquiabertos, demonstravam surpresa. Haviam espancado a gua desde a vila porque ela se havia recusado 
a se deixar conduzir.
    O homem alto e de suas deu um passo  frente e tentou justificar:
    - Tivemos problemas com o tempo depois que deixamos as colnias, e o navio jogou tanto que a gua se feriu na baia que construmos para ela. Garanto  senhora 
que ela no ficou assim por causa de maus-tratos.
    Shanna observou o homem e concluiu que ele falara a verdade.
    - Qual  seu nome, senhor, e qual a razo de ter trazido o animal para c?
    Ele inclinou ligeiramente a cabea e respondeu:
    - Comandante Roberts, s suas ordens, madame, da Companhia da Virgnia. O Comandante Beauchamp me encarregou de trazer a gua para o Sr. Trahern ou sua filha, 
em retribuio  generosa hospitalidade de que gozou aqui. A senhora  a viva Beauchamp?
    - Sou eu mesma. - Respondeu Shanna, concordando com a cabea. O comandante enfiou a mo no casaco, de l tirando uma carta lacrada que lhe entregou:
    - O Comandante Beauchamp lhe envia esta carta, senhora.
    Ao aceitar o envelope, Shanna observou o lacre de cera com ornamentado "B" estampado. Emocionou-se com o presente do Capito Beauchamp, de alto valor. Conhecia 
perfeitamente o valor dos cavalos. A cabea larga e pontiaguda da gua, os olhos grandes e expressivos e o pescoo graciosamente curvado traam sangue rabe, e ao 
ler a carta, Shanna teve certeza disso, pois Nathanial nela descrevia a origem do animal. A gua era corcel to valioso quanto tila, e sem dvida sua unio com 
tila produziria potros maravilhosos.
    A mensagem dizia tambm que os Beauchamps j esperavam sua visita, e Nathanial expressava esperana de que nada lhes atrasasse a viagem, pois se previa outono 
animado naquele ano.
    - No tnhamos ningum para cuidar dos ferimentos do animal, senhora - explicou o Comandante Roberts, interpretando erradamente o franzir de cenho de Shanna.
    - No importa - respondeu Shanna. - Aqui na ilha temos um homem que sabe como cuidar dessas coisas.
    Um garoto, talvez de seus 10 anos, saiu de onde estava e agitou no ar uma enorme trouxa e pegou na aba do casaco do comandante.
    - Para onde devo levar isto, senhor? - perguntou, exibindo a trouxa.
    - Senhora. - O comandante olhou novamente para Shanna. - Sabe onde o garoto pode encontrar um tal de John Ruark?
    - No sei bem - respondeu Shanna, surpresa. - Ele talvez esteja trabalhando na serraria, mas mora num chal atrs da manso. Posso ser-lhe til?
    - Isto aqui - o Comandante apontou para a trouxa -  para ele. Podemos entregar na casa dele?
    - Podem. - Shanna apontou para os fundos. - H uma trilha pelas rvores, depois que se passa pela manso. Siga-a.  o chal maior, depois dos outros.
    Quando os homens saram, Shanna esfregou carinhosamente o rosto no focinho da gua, satisfeita com o presente.
    - Os Beauchamps vo cham-la de Jezebel. Certamente, vai provocar o meu tila, pois no existe nesta ilha corcel mais lindo. Preciso buscar Ruark para cuidar 
de voc, pois s confio nele para isso. Meu drago tem um jeito especial de lidar com mulheres! - sussurrou ela, sorrindo anelante. - Sei que voc vai gostar dele.
    Ao perguntar na loja do povoado sobre o paradeiro de Ruark, Shanna fez com que o Sr. MacLaird desse de ombros.
    - No sei, moa. Ele veio aqui cedinho pra encomendar algumas coisas, mas depois disso no o vi mais. A senhora j foi  serraria?
    Na serraria, Shanna recebeu a mesma resposta imprecisa:
    - Parece que houve um problema l no alambique e ele teve de ir l.
    Mesmo l, ningum sabia dizer aonde o Sr. Ruark havia ido. Finalmente, j de tardinha, Shanna desistiu da procura intil e voltou  manso. O pai discutia com 
Sir Gaylord sobre estaleiros. Ao ouvir a voz do homem, Shanna caminhou cuidadosamente pelo vestbulo, mas o ranger da porta alertou Gaylord e ele gritou que ela 
o esperasse. Insistiu em que ela se reunisse a eles na sala de estar, e no aceitou sua desculpa de querer trocar-se para o jantar, afirmando peremptrio que ela 
estava encantadora. Silenciosamente, Shanna amaldioou sua falta de sorte, mas fez um sinal afirmativo com a cabea, sorriu sem graa e permitiu que o homem a conduzisse 
pelo vestbulo. Foi a noite mais tediosa que ela passou na vida, pois o homem parecia incapaz de discutir outra coisa que no fosse a aristocracia de sua famlia 
e teve a ousadia de ressaltar ao pai dela as vantagens que seu nome traria  fortuna de Trahern. S algum tempo depois do trmino da refeio, Shanna conseguiu escapar 
para seu quarto, onde imediatamente mandou que lhe pusessem um banho e despiu o traje de montaria. Depois que sua cama foi preparada e sua camisola posta na cama, 
mandou Hergus sair.
    Shanna mergulhou na gua quente e recostou-se no espaldar da banheira de porcelana, languidamente passando a esponja no ombro. Cachos de cabelo caam timidamente 
da massa luxuriante presa com travessas no alto da cabea. O calor do banho fez com que seu rosto adquirisse um tom rosado, iluminando os olhos azuis-esverdeados 
e as pestanas negras. Em meio a esse conforto, a boca fez um beicinho petulante e, ao ver-se no espelho atrs de uma cadeira, Shanna fez uma careta, enrugando irritada 
o nariz encantador. Primeiro, no achou Ruark e depois ele no foi jantar e isso a deixou deprimida. A simples presena dele  mesa fazia a monotonia desaparecer 
e ela se havia sentido abandonada. Ultimamente, ela no desfrutava
    de muita privacidade fora de seu quarto, e mal conseguia trocar uma palavra com Ruark, pois Gaylord parecia farej-la como um co fareja a cadela no cio. O cavaleiro 
estava sempre lhe pegando pelo brao e ela sabia perfeitamente que Ruark no gostava disso. Sempre que percebia em Ruark a testa franzida, afastava desdenhosamente 
as mos de Gaylord, mas o cavaleiro era persistente e insistia sempre.
    Shanna fechou os olhos e apoiou a cabea na beira alta da banheira; o banho quente lhe relaxaria as tenses. Era raro passar-se um dia sem que ela sequer vislumbrasse 
Ruark, embora ele sempre fosse solicitado quando surgisse um problema ou fosse necessria uma soluo engenhosa. O dia dela estava incompleto.
    As cortinas de seda s suas costas agitaram-se com as brisas noturnas. A noite estava quente e suave e a fragrncia estonteante de jasmins perfumava o ar. A 
ameaa de tempestade desaparecera aps alguns chuviscos suficientes para temperar o ar da noite com um aroma refrescante misturado ao cheiro de flores. De longe, 
a cano montona e aguda de um sapo fundia-se aos sons da noite. O relgio em seu quarto soou 10 horas e, na ltima nota, comeou uma nova melodia que Shanna jamais 
ouvira em seus aposentos. Seus olhos se abriram com um sobressalto e ela imediatamente viu a origem: grande caixa de msica, colocada na mesa a seu lado. Na cadeira 
prxima Ruark estava confortavelmente instalado, sorriso nos lbios bonitos e pernas compridas estendidas  frente e cruzadas calmamente nos tornozelos.
    Shanna sentou-se aprumada na banheira e o olhou boquiaberta. Um rpido relancear de olhos pelo aposento provou que ele se pusera  vontade. Seu chapu estava 
atirado na cama junto da camisa, e ele vestia apenas os cales. Um aceno de cabea acompanhou seu cumprimento.
    - Boa-noite, amor, e obrigado. - Seus olhos fixaram-se brevemente nos seios molhados de Shanna.
    - Voc realmente no tem modos - disse Shanna, mais alto do que a melodia. Porm, sob o olhar tranqilo dele, ela continuou menos spera, como se apenas levemente 
insultada: - Invade o banheiro particular de uma senhora e se aproveita disso para ficar bisbilhotando.
    Ruark riu, seu humor estava excelente.
    - Apenas exero meus direitos de marido, Shanna.  algo que acontece to raramente que estou sempre em desvantagem. Enquanto outros maridos contemplam seus tesouros 
todas as noites, eu, na grande maioria das vezes, tenho de confiar em minhas lembranas, e mesmo ento preciso dominar minha vontade, pois no posso muitas vezes 
aliviar o que me aflige.
    - Voc fala bobagens, Ruark. - Shanna se esfregou devagar com a esponja, e viu que os olhos dele acompanhavam detidamente suas mos. No tenho sido mais do que 
generosa em atender a seus caprichos?
    Ela o provocou sutilmente, recostando-se indolente na banheira e levantando os braos para que fios d'gua lhe escorressem pelos seios redondos.
    Os olhos dele devoravam tudo que ela fazia, e seu ardor a queimava em todos os lugares onde ele olhava. Perversa, Shanna pegou uma toalha para vedar-se dos olhares 
dele, sabendo muito bem que lhe aguava o apetite.
    - Suponho, Sr. Beauchamp, que tenha algum motivo para vir a meu quarto a esta hora - disse ela de repente, enquanto enxugava o brao.
    A mo dele apontou para a caixa de msica:
    - Eu lhe trouxe um presente. Shanna sorriu timidamente:
    - Obrigada, Ruark. - Um pensamento lhe veio  mente. -  das colnias?
    - Implorei ao Comandante Beauchamp que a mandasse comprar e enviasse para aqui - respondeu Ruark. - Voc gostou?
    Shanna esperou um pouco antes de reconhecer a melodia como sendo a que ela ouvira cantar a bordo do Marguerite.
    - Gosto muito. - Viu os dedos dele fecharem a tampa, interrompendo a melodia, e olhou-o inocente. - Existe outra razo para vir aos meus aposentos, Sr. Beauchamp?
    Um sorriso lento e provocante aflorou aos lbios dele e seus olhos a desnudaram:
    - Informaram-me que voc andou perguntando por mim na ilha, e s consegui deduzir que houvesse uma razo para essa urgncia. - Os dentes alvos reluziram. - Por 
isso, embora j fosse tarde, apressei-me a vir aqui na primeira oportunidade para assegurar-lhe que no fugi de minha responsabilidade de pai.
    Por um instante, Shanna ficou calada, para entender bem tais palavras. Quando compreendeu o que ele disse, vociferou:
    -Patife! Vbora! - retrucou. - Idiota presunoso! - Sua mo mexeu na gua. - Voc acha que eu ia brincar com isso na ilha? - E levantou a esponja gotejante para 
atir-la contra ele.
    - Ah! - Ruark riu perversamente a apontou o dedo para ela. - Tome cuidado, Shanna. Hergus no aprovaria essa baguna.
    - Que droga! - gemeu Shanna, dentes cerrados de frustrao. A esponja foi atirada para baixo d'gua.
    A toalha comeou a mexer-se para longe dela, e Shanna viu que Ruark puxava por uma ponta. Ela agarrou o pano, tentando pux-lo para si, mas ele foi inexoravelmente 
retirado, deixando-lhe apenas as mos para cobrir o busto. Fez um esforo para proteg-los, mas s agravou a situao, comprimindo-os e tornando-os mais provocantes.
    Ruark levantou-se da cadeira e se dirigiu a ela; seus olhos eram dois carves em brasa que prenderam o olhar da moa. Ele ficou acima dela, alto como um selvagem 
de bronze meio nu. O aposento estava silencioso,  exceo do tique-taque do relgio. A dana de sombras em relevo no torso de Ruark a fascinou, e seus olhos vagaram 
lentamente pelas veias compridas que corriam pelos braos dele. Ruark debruou-se at seu cotovelo
    apoiar-se na beira da banheira. Seu dedo fez uma trilha na gua e a paixo em seu olhar era to evidente quanto seu peito nu. Esse olhar despertou em Shanna 
o prprio desejo. O dedo indicador de Ruark percorreu o fundo porto entre o seios dela e entre as praias que se formavam e depois foram para seus ombros e para a 
base da garganta alva. A voz dele saiu rouca e macia, quase um sussurro.
    - Ser que eu todas as vezes preciso cortej-la, Shanna, como se voc fosse uma virgem, destruindo todas as pedras de sua fortaleza, e derrubando suas muralhas 
de resistncia at voc ceder ao que  inevitvel? Voc vive alegando sua viuvez, mas depois se entrega a mim com uma paixo que me abala o prprio juzo.
    Ao toque dele, Shanna quase estremeceu. Os dedos de Ruark a percorreram, abalando-lhe os nervos at ela ansiar para ser atrada para ele. Seus lbios se entreabriram 
com sua respirao ofegante, e ela semicerrou os olhos quando o rosto dele se aproximou. Esperou o beijo dele. Ento, o dedo de Ruark mergulhou de novo na gua e 
lhe tocou o nariz, deixando uma gota na ponta.
    Ruark aprumou-se e recuou um passo, rindo do espanto no rosto dela. Shanna esforou-se para se levantar na banheira e, com o lbio inferior, soprou a gota da 
ponta do nariz. Quando finalmente se sentou direito, olhou raivosa para ele e disse, meio brincando, meio triste:
    - Voc  um animal, Ruark Beauchamp.
    - Sou mesmo, amor, um animal.
    - Um drago! Do tipo mais irritante.
    - Sou mesmo, amor, um drago.
    Shanna o olhou firme, e um sorriso encantador lhe veio aos lbios.
    - E eu sou uma feiticeira.
    - Isso mesmo, amor, uma feiticeira. - Ele sorriu largamente.
    - E um dia desses vou roubar seu corao.
    - Isso, amor, voc j fez.
    Shanna baixou os olhos, confusa e encabulada ao mesmo tempo.
    - Venha, feiticeira! - A voz de Ruark foi suave, mas sorridente. - Saia logo de sua chaleira para enxugar-se.
    Ruark deu-lhe a toalha e esperou ao lado da banheira. Sob o olhar ardente de Ruark, Shanna levantou-se e envolveu-se com a toalha, enfiando a extremidade debaixo 
dos seios. Ele lhe ofereceu calmamente a mo para ela sair da banheira. Seguiu-a  penteadeira, admirando-lhe o ondular dos quadris por debaixo da toalha.
    - Por que me procurou, meu amor? - perguntou Ruark, encontrando os olhos dela no espelho, enquanto ela escovava os compridos cabelos.
    Lembrando-se de Jezebel, Shanna virou-se animada e pegou os dedos finos dele:
    - Ruark, o Comandante Beauchamp me deu um presente maravilhoso! Uma linda gua, mas que foi maltratada e precisa de cuidados.
    As sobrancelhas de Ruark se ergueram em surpresa:
    - Maltratada?
    - O Comandante Roberts disse que houve uma tempestade no mar e que ela foi jogada para l e para c. Instru o cavalario a fazer o que pudesse at voc se encarregar 
dela. - Os olhos azuis-esverdeados imploraram: - Ruark, voc vai fazer com que ela melhore, no vai? Por mim! Por favor!
    Ruark estendeu a mo livre para afagar os cachos dourados, e seus olhos estavam meigos e acariciantes:
    - Voc gostou tanto dela assim, Shanna?
    - Gostei, Ruark. Muito.
    - Farei o que puder por ela. - Ele sorriu. - Voc sabe que sou seu escravo mais ardente.
    Shanna afastou-lhe a mo em represlia  sua brincadeira e encarou o espelho mais uma vez.
    - E se voc fosse livre? - perguntou-lhe. - Voc me diria sim ou no? Ou iria embora daqui para fazer fortuna em outro lugar?
    - Que grandes tesouros me podem arrancar do seu lado, Shanna? - perguntou ele, brincando, enquanto lhe segurava um cacho. - Voc acha que eu quereria abandon-la? 
Que loucura me impeliria a isso? Meu amor, no confia em mim? - Os olhos dele brilharam. - Voc  meu tesouro, a jia rara de meus desejos.
    Shanna fez beicinho e ps a escova de lado:
    - Voc zomba, Ruark, mas quero saber a verdade.
    - Que verdade, senhora? - Ruark fez uma mesura perante a imagem dela no espelho e sorriu. - A senhora deveria recordar-se dos votos que fez perante o altar. 
Estou preso a voc at meu ltimo suspiro.
    Mexendo na vasta cabeleira com a mo, Shanna saiu do banquinho de veludo e caminhou em passadas largas pelo aposento. Estava bem a par do efeito que sua quase 
nudez causou nele. A toalha de linho era muito condescendente e mal cobria os seios de Shanna, enquanto deixava  mostra as pernas longas e bem-feitas, para alegria 
de Ruark. Seus movimentos eram lentos e lnguidos, graciosos e fluidos, enquanto ela o castigava severamente pela impertinncia em lembrar-lhe seus votos.
    - Voc adora atormentar-me com isso. Fica debochando e se posta nos meus aposentos como se suas posses deste mundo fossem mais do que a cala ridcula com que 
cobre sua virilha.
    - Se sou mendigo, madame, ento a senhora  mulher de mendigo - assinalou ele, com um risinho.
    - Voc  um lascivo nojento que usa qualquer pretexto bobo para invadir meu quarto - retrucou Shanna. - Preciso submeter-me a voc ou ento todo mundo vai ficar 
sabendo de meu segredo. O nome para o senhor  biltre. Algum que se utiliza de uma dama no serve nem para ser enforcado.
    Ruark andou  frente com passos calculados, e um sorriso hipnotizador nos lbios. Shanna recuou, sabedora de que era a caa, e tentou manter distncia entre 
eles.
    - Madame, devo admitir que a procuraria sob qualquer pretexto. Mas chamar-me de biltre  meio injusto. Minha vida ultimamente se compara  de um monge.
    - Sei!... - debochou Shanna. Arfou e esquivou-se enquanto ele avanava. O brao de Ruark s pegou o ar, embora a fragrncia do corpo clido e do cabelo molhado 
de Shanna penetrasse nas narinas do rapaz e lhe embotasse a mente. Ele no se perturbou e foi atrs dela. Tentando escapar, Shanna correu para trs da cadeira, rindo 
musicalmente e lembrando o rudo de um crrego de montanha. Momentaneamente salva pela cadeira, Shanna fez uma careta para ele, mas seus olhos brilhavam coquetes, 
desafiando e instando-o ao mesmo tempo.
    Os olhos dele flamejaram em resposta quando ele subiu na cadeira, mostrando que ela no era obstculo. Rindo, Shanna escondeu-se atrs de uma mesinha de tampo 
de mrmore, procurando abrigo.
    - Ruark, controle-se - advertiu, e tentou parecer severa. - Vamos acabar logo com isto.
    - Pode deixar que j vamos acabar com isto, madame - garantiu ele, e agarrou a beira da mesa, pondo-a de lado e provando que no era obstculo s suas investidas.
    A parede deteve a fuga de Shanna, e ela relanceou o olhar pelo aposento freneticamente.  sua esquerda, ficava a cama. Certamente l no era refgio.  sua direita, 
ocultas pelas cortinas de seda, ficavam as portas da varanda.
    Ruark foi rpido e pegou a extremidade de cima da toalha, e ento as cortinas lhe caram no rosto. Quando se aquietaram, ele se viu segurando o que havia apanhado: 
a toalha vazia. Quase exultou ao verificar a consternao de Shanna por ser apanhada nua na varanda. Movimento pequeno e furtivo na extremidade da cortina lhe chamou 
a ateno e ele cautelosamente se instalou l para captur-la, quando ela quisesse entrar. Estava acabando de se acomodar, quando a seda se agitou onde ele estivera 
antes. Shanna entrou correndo, atirou-se na cama, rolou e ficou de p com a camisola na mo. Jogou os braos para o alto, o que fez com que a pea lhe casse na 
cabea e, retorcendo-se com rapidez, ela conseguiu liberar os braos de novo. A camisola curta se enganchou em seu busto e ela a puxou para baixo, deixando que casse. 
No conseguiu, porm, cobrir as partes inferiores de Shanna, pois Ruark j estava com as mos em sua cintura. Comprimiu os quadris nus contra ele, deixando-a sentir 
o volume crescente de seu membro.
    De sbito, acabou a brincadeira. Seus olhos se encararam e seus pulsos se aceleraram. A cabea de Ruark se abaixou quando os braos dela lhe rodearam o pescoo, 
e seus lbios uniram seus corpos num abrao forte que os fundiu num mundo particular de paixo devoradora. O tempo parou e o momento pareceu arrastar-se deliciosamente 
at arrebentar-se como uma taa de cristal, quando de repente bateram  porta.
    - Shanna! - disse Orlan Trahern. - Voc est acordada, menina?
    A voz dela saiu grossa e rouca, como se tivesse estado dormindo, e ela respondeu:
    - Um momento, Papai, por favor.
    Shanna lanou nervosa os olhos pelo quarto, como se procurando escapar do apuro. Ruark ps-lhe a mo no ombro e, com um dedo nos lbios, mandou-a calar-se. Apontou 
para a cama e com a mo nos quadris dela, empurrou-a at l. Quando Shanna se virou para olh-lo novamente, ele desaparecera. Como uma lufada silenciosa de vento, 
ele sara do quarto. Depois que as cortinas voltaram ao lugar, aps a sada intempestiva de Ruark, Shanna se acomodou na cama e puxou as cobertas at o queixo.
    - Entre, Papai - disse.
    Shanna esperou para ouvir a tranca sendo aberta e as passadas do pai na ante-sala. Ento, apavorada, deu-se conta de que o chapu e a camisa de Ruark continuavam 
no p da cama. Rapidamente ela os ps debaixo dos lenis: quando o pai entrou no quarto, Shanna estava com as cobertas debaixo do queixo.
    - Boa-noite, menina. - Tentou suavizar a voz normalmente rabugenta. - Espero no a ter perturbado.
    - No, Papai. - Ela bocejou e afirmou, sem faltar  verdade: - Ainda no estava dormindo.
    O velho Trahern bateu na beira da cama e baixou o corpanzil quando Shanna chegou para o lado, fazendo espao para ele sentar-se. O velho tirou uma uva de um 
prato ao lado da cama e a mastigou por um instante.
    - Voc parece estar gostando de ter voltado para casa - comeou ele, meio hesitante.
    - Claro que estou, Papai! - garantiu Shanna, sorrindo abertamente. At ali, ela estava a salvo. - Acho que eu, como voc, no fui feita para pavonear-me na corte, 
e dou mais valor s maneiras e  liberdade desta ilha do que  pompa e ao esplendor.
    O peito de Orlan fez um rudo surdo, na sua verso de um sorriso, e ele estendeu a manopla para acariciar a mo delicada de sua filha.
    - Nunca suportei aquelas moas branquelas, com seus modos afetados e, como sua me, voc fica mais linda com a cor do sol no rosto e nos cabelos. Para dizer 
a verdade, acho que voc fica mais encantadora a cada dia que passa. E, para minha surpresa, descobri que tem uma vontade e uma cabea prprias. Mas existe alguma 
coisa a seu respeito que no consigo explicar. Ultimamente, voc est com ares de mulher.
    Shanna corou e baixou os olhos, subitamente temerosa de que ele pudesse descobrir a verdade. Que lhe teria feito Ruark, que at seu pai notava a diferena? Para 
ela mesma, continuava a ser a moa de sempre, e foi com um choque que recebeu a notcia de que havia mudado.
    - No se preocupe, Papai. - Shanna perguntou-se se Ruark teria saltado da varanda ou continuaria ali. -  improvvel que meu marido me tenha afetado muito, pois 
s passamos poucos dias juntos.
    O pai a olhou com expresso maliciosa:
    - Sabe que voc impressionou muito a Sir Gaylord? Shanna ficou glida. - Ele ficou choramingando a tarde toda, e depois que voc saiu da mesa, teve a ousadia 
de me pedir sua mo. - Orlan leu nos olhos de Shanna expresso subitamente assustada e apressou-se a aplacar-lhe o medo. - Falei-lhe que a primeira condio era 
que voc aprovasse; portanto, no tema, filha. Prometi a sua me que encontraria um marido de peso para voc, e no vou quebrar minha promessa. - Foi a vez de Trahern 
baixar os olhos, esfregando a palma desajeitadamente no sapato afivelado.
    - Voc est com algum problema, Papai? - perguntou Shanna, espantada, pois nunca vira o pai assim.
    - Sim, um problema que me apoquenta h algum tempo.
    O carinho de Shanna por aquele homenzarro, cujas palavras saam com dolorosa lentido era enorme.
    - Por minha culpa, eu lhe causei dor e sofrimento, apesar de no ter essa inteno. - Olhou-a direto nos olhos, e os ombros pareceram curvar-se em redor do pescoo 
taurino. - Estou velho, Shanna, minha filha, e ficando cada vez mais velho. - Levantou a mo para deter o protesto dela. - Tenho enorme vontade de ver minha dinastia 
perpetuada, com um bando de guris travessos. - O riso fez-lhe o peito tremer de novo. - Por minha vontade, seriam uns dez! Mas quero crer que a sabedoria que orienta 
nossos destinos saber o que fazer na ocasio oportuna. Aceito sua escolha, porque no encontrei nenhum homem digno de voc. No vou mais insistir no assunto, e 
peo-lhe que procure seu marido onde quiser.
    - Compreendo, Papai - falou Shanna, cheia de amor. - E muito obrigada por sua compreenso.
    Durante longo tempo, Trahern contemplou a filha e fungou alto antes de se levantar para postar-se onde seu rosto ficaria oculto pela sombra.
    - Chega deste papo - disse, resmungo. - J a fiz ficar acordada depois de sua hora.
    Um minuto se arrastou at que Shanna falou, voz tmida como a de uma criancinha:
    - Boa-noite, Papai. - Quando Trahern se virou para ir embora, mal escutou o que ela ainda disse: - Eu o amo.
    No houve resposta, apenas mais uma fungada alta antes que as passadas dele se apressassem a sair dos aposentos e ele fechasse suavemente a porta.
    Shanna ficou olhando para a sombra, olhos midos, a mente perdida em divagaes. Passou-se longo tempo antes que ela levantasse a cabea e encontrasse Ruark 
ao p de sua cama contemplando-a, sorriso estranho nos lbios:
    - Voc ouviu tudo? - perguntou ela, em voz quase inaudvel.
    - Ouvi, amor.
    Shanna aprumou-se na cama e esfregou os joelhos, apoiando neles a cabea. Anelante, suspirou:
    - Nunca percebi que ele era to solitrio.
    Foi um passo gigantesco da juventude egocntrica para a maturidade preocupada com os outros. A transio era grande e dolorosa, e Ruark ficou em silncio, deixando 
que ela a absorvesse  vontade. Shanna mergulhou na profundeza de sua recm-descoberta maturidade. Era uma nova experincia, e bastante agradvel. Teve a certeza 
de que seu pai a amava e isso lhe aqueceu o corao, embora ainda ardessem as lembranas de discusses speras e das palavras encolerizadas dele, que lhe incitavam 
a teimosia e a determinao. Sua viso de um lorde bonito ajoelhado a seus ps lhe beijando as mos ficou subitamente infantil e superficial. Em cotejo com a realidade, 
a imagem desapareceu-lhe da cabea. Rostos enevoados lhe percorreram a mente, obcecantemente vagos e imprecisos. Todos sumiram frente  recordao de seu pai sentado 
na sua cama, sozinho e apologtico. As diatribes dele s haviam estimulado a vontade dela ainda mais; porm, a afirmativa humilde dele fez com que ela se prendesse 
ainda mais  sua vontade.
    Ele a queria ver casada e com filhos. Quem escolheria ela? Sir Gaylord, afetada caricatura de seu cavaleiro sonhado? Nas sombras, atrs dele, surgia outro vulto, 
moreno e misterioso. A paz de Shanna dissolveu-se ento e sua mente lutou para compreender o significado de sua inquietao.
    Devagar, levantou o olhar at Ruark. O seu drago. Teria ele lhe roubado a paz de esprito?
    Ruark perambulava a esmo pelo quarto, parando para passar o dedo pela beira da mesinha-de-cabeceira onde ela deixava escovas, pentes, ps e perfumes.
    "A substncia exterior de uma mulher", pensou ele. "Cabelo macio, beleza, aromas provocantes. Porm, qual o grau de fascnio da mulher que usava aquilo tudo? 
Os humores que mudavam rapidamente, em reao ao mundo dela, o esprito caprichoso, que ia do riso  raiva a intervalos mnimos, a maciez do corpo e a fora insuspeitada 
quando necessrio, o incrvel calor de seus beijos e a ventura de ter os lbios dela nos seus."
    Ele se virou, e seu olhar dirigiu-se para onde Shanna estava encolhida, perdida em pensamentos. Parecia pequena e inofensiva, mas ele sabia que, se desafiada, 
ela se levantaria com determinao e avanaria com uma fria que eclipsaria a ira de um tigre ferido. Naquele instante ela era uma beleza plcida em repouso, e ele 
ansiava para dar-lhe um pouquinho de sabedoria que lhe aplacasse o turbilho mental.
    - Ele disse que estou livre para escolher o marido que quiser - murmurou Shanna, e Ruark percebeu que tambm ela o observava. - O que devo fazer com voc?
    Ruark chegou at o p da cama e disse:
    - No desejo procurar o carrasco, Shanna, mas tenho pouco medo da verdade.
    - Voc  bem calmo, no? - Shanna irritou-se com a atitude superficial de Ruark em relao ao assunto. - Mas, se meu pai se zangar novamente,  bem capaz de 
eu acabar casando-me com um janota qualquer.
    Ruark riu, acidamente:
    - Madame, se a verdade for conhecida, a senhora estar bem casada e com marido: eu! Assim, at que me estiquem o pescoo, no precisa temer outros homens. Na 
verdade, se meus servios tm valor para seu pai, ele pode at me conseguir um advogado de defesa. - Ruark debruou-se para a frente e riu maliciosamente. - Pense 
nisso, meu amor. Eu bem posso estar armando o estratagema de engravid-la, e assim meu sogro no permitiria que seus netos fossem filhos de um enforcado.
    - Como pode sugerir isso? - arfou Shanna, atnita. Sua raiva acendeu-se como um raio no cu escuro. - Voc  um patife! Um biltre! Um pilantra maldito!
    - Meu amor, seus carinhos me estimulam! - provocou Ruark. - S posso observar que suas splicas no calabouo eram mais amveis, e voc viu sua causa to difcil 
que cederia sua virgindade a quem mais vantagens oferecesse.
    - Seu desgraado infeliz! - vociferou Shanna, rosto escarlate, enquanto batia nos lenis com os punhos. Suas diatribes ofensivas terminaram e ela comeou a 
procurar outros eptetos. Isso era estranho, pois quando menina Shanna tivera acesso  linguagem rude dos marinheiros e outros trabalhadores, e era capaz de desfiar 
um rosrio de insultos que fariam corar qualquer moleque de rua.
    Ruark se debruou mais de perto e sua prpria raiva e frustrao comearam a revelar-se.
    - E agora voc me quer ter como seu amante ocasional, Shanna? - zombou. - Condenado a ficar escondido em seus aposentos e sem o direito de ficar a seu lado  
luz do dia? Vitupera seu destino e deplora um castigo imaginrio, mas eu, madame, tenho mais o que perder. Mesmo assim, se pudesse escolher entre enfrentar seu pai 
como seu marido ou me ocultar nos cantos escuros de seu quarto, madame, posso assegurar-lhe que preferiria ser seu marido, honrado, amado, idolatrado,  vista de 
todo o mundo. - Ruark virou-se de lado, e sua voz estava amarga. - Se houvesse outra coisa a ganhar alm de minha morte e seu dio imorredouro, eu procuraria seu 
pai e reivindicaria meus direitos, pondo um ponto final nessa zombaria.
    - Zombaria! - a voz de Shanna traa sua emoo. -  zombaria que eu procurasse evitar uma vida ao lado de um conde ou baro caqutico? Zombaria, que eu queira 
partilhar um homem de minha escolha?  zombaria que eu deseje mais do que isso na vida? - Seu tom assumiu um rosnar ameaador. - Voc zomba de mim, mas apenas procuro 
viver minha vida com alguma esperana de felicidade.
    - Voc tem certeza de que a vida comigo no lhe traria felicidade? - perguntou Ruark, olhando-a fixo, e esperando a resposta.
    - Ser mulher de um cativo? - o tom de Shanna denotou incredulidade. - Voc no tem dinheiro para comprar nenhum de meus vestidos.
    Ele enrugou a testa e disse:
    - No seria por muito tempo. Shanna riu, debochada:
    - , seu pescoo logo seria esticado e ento, sim, eu seria uma verdadeira viva.
    - Devo acreditar em voc e abandonar toda a esperana? - Ruark sorriu, tristemente. - Peo-lhe perdo, madame, se continuo, como a senhora, a procurar um fim 
melhor do que aquele que o destino me reservou.
    - Voc me est testando, com sua basfia enlouquecida. - O tom de Shanna foi duro, mas a moa no conseguiu olhar Ruark. - E me cansa com suas teorias. - Recostou-se 
nos travesseiros e suspirou, desviando o rosto.
    - Evidente, madame - falou Ruark com preocupao exagerada. Por gentileza, gostaria de ter minha camisa e meu chapu de volta. Dou valor a minhas parcas roupas, 
pois  tudo que pertence a John Ruark.
    Petulante, Shanna enfiou a mo debaixo dos lenis e atirou-lhe a camisa, sem dizer palavra. Teve mais dificuldade em encontrar o chapu. De sbito, lembrou-se 
de onde estava e, levantando-se, retirou-o de baixo de seu corpo. Jogou-o para Ruark e ficou de costas.
    Ruark pegou o chapu e examinou sua forma achatada demoradamente, antes de us-lo para fazer uma mesura.
    - Vou embora, senhora - zombou. - No vou mais incomod-la com minhas atribulaes.
    Shanna permaneceu imvel, escutando a partida dele. Afinal, rolou de costas e ficou surpresa ao ver que estava sozinha.
    Decepcionada, olhou para as sombras. Uma dor comeou a palpitar-lhe no peito, parecendo corroer-lhe a alma. De repente, teve vontade de chamar Ruark de volta. 
Mesmo quando brigavam, havia mais alegria do que o vazio que ela sentia agora. No havia felicidade no mundo: era frio e cruel, e nenhum calor lhe abrandava o frio 
no corao.
    Seus lbios tremeram, e lgrimas lhe enevoaram a viso. Com um grito agnico, enterrou o rosto no travesseiro e soluou como uma criana, batendo na cama com 
os punhos fechados para eliminar a solido que a afundava num poo de desespero.
    - Meu Deus! - gemeu, sentindo-se terrivelmente infeliz. - Por favor...
    Enquanto rezava, Shanna no conseguia determinar o qu queria. Sacudiu a cabea, lutando contra a depresso que a esmagava. Gemendo, saiu da cama e pegou um 
roupo branco no armrio. Seus aposentos j no eram celestiais; como um espectro, percorreu furtivamente os cantos da manso, procurando paz para seu esprito conturbado, 
mas no achou o que queria nos aposentos escuros. Aptica, desceu a escada e parou do lado de fora da porta da sala de estar; seu pai levantou os olhos dos papis 
que examinava e disse::
    - Shanna? - Sua voz denotou surpresa. - O que h com voc, menina? Eu j ia deitar-me.
    - Pensei em dar uma volta pelos jardins, Papai - respondeu ela baixinho, vendo que ele a olhava de cenho franzido. - J vou-me deitar. No  preciso que voc 
me espere.
    Orlan Trahern observou a filha afastar-se da porta e esperou em silncio na casa enquanto os ps descalos da moa percorriam o cho de mrmore. A porta da frente 
foi aberta e fechada, e o silncio voltou. Suspirando, Orlan ergueu o corpanzil da cadeira e lentamente foi para seu quarto.
    Shanna ficou no gramado, protegida pela noite. Estrelas brilhavam nas massas vagantes de nuvens, e a Lua apareceu brevemente antes de ocultar a face prateada 
por trs de rendado leque de vapores.
    Shanna andou por entre as rvores. Uma voz grave e rouca de paixo e olhos ambarinos a acompanharam a cada passo. Ela j estava a certa distncia da manso, 
passando pelos estbulos, quando ouviu um relinchar. Mexendo-se no escuro em direo ao som, arrastou os pequenos ps na grama orvalhada.
    Uma luz brilhava nos estbulos. Aproximando-se da porta, Shanna ouviu a voz de Ruark, baixa e carinhosa, acalmando a gua. O humor de Shanna animou-se. Parando 
 porta aberta, viu o perfil dele desenhado ao brilho da lanterna. As sobrancelhas negras estavam arqueadas para a frente e lhe enfraqueciam a linha do nariz reto 
e fino. Em seu queixo, um msculo se retesava irado. Ainda assim, os dedos longos e geis cuidavam dos ferimentos da gua com o mesmo toque macio a que a prpria 
Shanna tantas vezes reagira. O animal bufou e esfregou o focinho no ombro de Ruark; distraidamente, Ruark levantou a mo e acariciou o nariz macio da gua,, dizendo:
    - Agora no, Jezebel.
    Shanna estranhou que ele soubesse o nome do animal, pois no lho dissera.
    - Como  que sabe o nome dela?
    Ruark aprumou-se; os olhos percorreram a escurido atrs dos lampies. Limpou as mos quando Shanna se adiantou, e a acariciou com o olhar, como se o roupo 
no existisse.
    - O nome dela? - Esperou pela inclinao positiva da cabea de Shanna. - Foi o menino, Eliot, que me contou.
    - Ah! Sei. - A voz dela perdeu o tom de desafio. Shanna relanceou o olhar em volta, perguntando-se aonde teria ido o cavalario.
    Ruark apontou com o polegar para o depsito:
    - Ele s serve para limpar e cuidar de cavalos, no para curar ferimentos. Mandei-o para a cama.
    Shanna cruzou as mos nas costas e seu olhar percorreu os estbulos: ela no conseguia encarar Ruark.
    - O que  aquilo? - Apontou para uma pequena cumbuca de madeira, com uma mistura de cheiro terrvel.
    Ruark viu para onde ela apontava e, em seguida, a olhou. Sua resposta foi breve e incisiva:
    - Ervas e rum mergulhados em sebo quente. Limpa e cura feridas.
    - Sei...
    Ele mal a escutou. Depois de um momento de silncio, Ruark voltou s suas tarefas, e mergulhou a mo na horrvel mistura. s suas costas, sentada num banquinho 
alto, Shanna analisava o crculo amarrotado de palha em que se havia transformado o chapu dele. Ela o pegou e pendurou os ps descalos no degrau superior do banco. 
Lentamente, virou o chapu estragado nas mos.
    - Lamento quanto a seu chapu, Ruark. No tive inteno de destru-lo - disse ela, quebrando a quietude que descera sobre o estbulo.
    Ruark rosnou sua resposta sem parar de cuidar da gua:
    - Foi presente da empresa. Tenho outro.
    Shanna se irritou com os modos bruscos dele e replicou rispidamente:
    - Amanh de manh vou deixar um xelim no seu prato, para pagar o estrago.
    O riso de Ruark foi rpido e igualmente custico:
    - Realmente  uma mudana de situao, madame, que a senhora me pague por estragos feitos na sua cama..
    - Maldito seja, Ruark! - comeou Shanna encolerizada, e seu tom fez com que ele a olhasse. Sob o olhar calmo e ambarino, Shanna aplacou sua ira. Baixando os 
olhos, ela continuou, agora mais suave: - Lamento tudo o que houve, Ruark. Nunca tive a inteno de mago-lo.
    Ruark, ao lado da gua, mexia distrado na cumbuca.
    - Mesmo com a mais pura das intenes, madame, a senhora nunca deixa de me ferir nos pontos mais fracos. - Sorriu, tristemente. - Se duvida, meu amor, pergunte 
a qualquer um de seus pretendentes: eles sem dvida concordaro. O golpe mais leve desfechado por voc fere profundamente.
    - O que me diz de suas prprias palavras, senhor? - protestou Shanna. - Foram muito carinhosas, por acaso? O senhor me censura, embora eu tenha dado muito mais 
do que o que foi combinado no trato.
    - Dane-se o trato! - explodiu Ruark. Exasperado, voltou  gua e comeou a aplicar-lhe cataplasma no pescoo. - Acha que isso  alegria para mim? - perguntou 
bruscamente, por cima do ombro. - Eu era um homem condenado, com poucas horas de vida. O trato me trouxe doce paz, e eu me acalmava pensando no seu cumprimento. 
- Riu e perguntou: - O que mais podia eu esperar?
    O silncio que se seguiu fez Shanna virar o pescoo para ver Ruark, mas, devido s sombras na baia, no conseguiu. Pegando um dos lampies e andando at a prxima 
baia, ficou segurando a luz para ele. Ruark aceitou o gesto e no fez comentrios at terminar o que estava fazendo e se
    deslocar para fazer um curativo na pata traseira do animal. Agachado quase entre os cascos, fez um gesto com a cumbuca:
    - Um pouquinho mais para l - disse por sobre o ombro. Quando Shanna mexeu o lampio, ele disse: - Assim est bem.
    Ao primeiro toque do ungento, Jezebel bufou e comeou a empinar-se, o que assustou Shanna, que arfou.
    - Ruark, tome cuidado.
    Ele apenas estendeu a mo e bateu amistosamente nas ancas da gua, falando-lhe em tom baixo e suave:
    - Calma, garota. Calma, Jezebel.
    A gua se aquietou, mas quando Ruark voltou a colocar a cataplasma no corte, o animal bufou e deu para trs, cascos oscilando perigosamente perto da cabea de 
Ruark:
    - Recue! - gritou Shanna, aborrecida com a imprudncia dele. Ruark relanceou o olhar por sobre o ombro e disse:
    - Ela vai ficar boa, Shanna. S tem este corte um pouco mais fundo do que os outros. A princpio arde, mas depois vai suavizar muito a dor.
    Shanna quase resmungou:
    - Voc  mesmo um becio! - Mostrou os dentes para ele. - Saia debaixo dos cascos.
    Ruark passou uma ltima camada da mistura na perna do animal e esquivou-se logo, para evitar ser atingido pelos cascos. Colocou a cumbuca alto numa viga e saiu 
da baia, fechando o porto. Debruou-se num poste e olhou para Shanna, enquanto um sorriso lhe percorreu o rosto bonito.
    - Caramba, amor! - imitou. - Voc gosta tanto de mim assim?
    - Gosto, da mesma forma que gosto de idiotas e crianas - retrucou ela, cida, andando de volta. -  um milagre que seu anjo da guarda ainda no tenha passado 
mal, com todo o trabalho que voc lhe d!
    - Claro, senhora. - Ruark passou a falar com afetao como Sir Gaylord: - Mas o sujeito fez um trabalho realmente maravilhoso, no?
    Shanna no conseguiu reprimir um sorriso. Ao passar por ele, entregou-lhe o lampio e voltou ao banquinho, levantando os ps. Ruark ps a luz numa prateleira 
e comeou a lavar as mos num balde, usando grande quantidade de sabonete. Fascinada, Shanna estudou-lhe a dana dos msculos nas costas nuas at que ele se virou
e a encarou; ela aceitou o olhar atento mas rapidamente desviou o seu, pois ele poderia confundi-lo com a paixo mais profunda.
    - Serei um tolo ao pensar que voc j no deseja minha morte, Shanna? - sorriu ele.
    Shanna o olhou boquiaberta, olhos arregalados:
    - Jamais desejei isso! - defendeu-se com energia. - Como voc pde pensar isso?
    - O trato - comeou ele, mas a resposta de Shanna veio depressa, e foi um eco da dele:
    - Dane-se o trato!
    Ruark sorriu mansamente e dirigiu-se a ela:
    - Voc no disse que me abominava, amor? - provocou meigamente, olhando-a de perto.
    - E quando voc disse que me amava? - replicou Shanna. - Que man voc conferiu a meu corao? - Atirou uma das mos, e a violncia do gesto preveniu Ruark de 
que devia manter distncia. - Tenho lordes, prncipes e cavalheiros suplicando minha mo ou, pelo menos, um favor especial. Eles me assediaram com palavras ternas 
destinadas a comover meu corao ou fazer-me saber que eu era querida e at admirada. E voc? Onde esto as palavras que alimentam a vaidade feminina? Alguma vez 
j me segurou a mo e me disse que eu era... - encolheu os ombros e estendeu as mos, num gesto interrogativo - bonita? Mimosa? Sensual? Macia ou encantadora? No, 
voc me importuna com argumentos como uma criana impertinente que quer doces.
    Ruark riu, atirou a toalha num gancho e parou para meditar por um instante. Depois, dirigiu-se a ela como um orador perante uma assemblia, caminhando de um 
lado para outro apresentando seus argumentos e realando suas afirmativas com floreios das mos, como experiente advogado:
    - Madame, decerto a senhora est dizendo a verdade. Acontece que eu... - suavizou a voz e bateu no peito com um dedo - nunca me habituei a questionar o mtodo 
do sucesso. Onde esto esses imbecis janotas e babes? Cite-me um que no tenha fugido com o corao despedaado! - Inclinou-se para a frente e sua voz foi quase 
um murmrio: - O favor que voc me concedeu foi s meu, Shanna, meu amor. - Aprumou-se e olhou para o dorso da mo. -  claro que, desde ento, no posso garantir...
    Shanna ficou insultada com a insinuao:
    - Voc sabe muito bem que nenhum outro chegou onde voc chegou.
    Ruark enfrentou-lhe o olhar com igual raiva:
    - Agora parece que h um homem que a atrai demais. Shanna sacudiu negativamente a cabea: - E a afaga...
    - Ele s me pegou pelo brao - contestou ela, admirando-se da ira sbita de Ruark.
    - E a olha como se voc lhe pertencesse.
    - Sir Gaylord? - Shanna riu do ridculo das acusaes dele. - Ora, Ruark, ele  apenas um... - Interrompeu-se e assumiu expresso incrdula: - Ruark, voc est 
com cime!
    - Cime? - Sua expresso de surpresa declinou para uma de dolorosa realidade. Baixou os olhos e esfregou a palha sob os ps. - Ciumento?  verdade. - A voz dele 
saiu to baixa que ela mal lhe escutou as palavras. - De qualquer homem que fique a seu lado abertamente em pblico, que lhe toque um fio de cabelo que seja, e a 
olhe, quando eu no posso, e tenho que abafar o menor sinal de desejo por voc. - Rodopiou o corpo subitamente em ardente paixo. - Voc fala de palavras ternas. 
- Seus lbios estavam
    tensos. - Minha lngua as forma aos milhares quando fico deitado sozinho  noite, quase que sentindo o seu calor a meu lado. L, sem serem ditas, elas se contorcem 
sob minha carne at que a raiva as abafa. Ainda assim, as palavras sempre existiram entre ns, ardentes para serem faladas. E eu falei, trocando as expresses mais 
ternas de amor pelo que era ignorado, embora bvio. No encontrei tempo para lhe falar de amor, embora sempre o tivesse querido.
    - Ento diga-as agora - balbuciou Shanna, alegremente. - Vamos. - instou, contra a relutncia dele. - Finja que sou uma senhora da alta sociedade. - Ela se aprumou. 
Levantando o nariz, passou os braos pela massa de cabelos, levantou-os, e deixou-os cair, em glorioso esplendor. - E voc - apontou um dedo autoritariamente - vai 
ser meu pretendente, um lorde, que me vem fazer juras de amor. D-me um exemplo de seus versos.
    Ruark riu e, pegando o chapu amassado, colocou-o gaiatamente na cabea. Shanna reprimiu o riso.
    - A senhora parece uma grande cegonha branca com quatro pernas esguias de madeira - acusou-a Ruark, enquanto a olhava com um sorriso malicioso.
    Os olhos de Shanna estavam animados e cheios de alegria quando ela pegou a saia da camisola e lhe enfiou as dobras entre os joelhos, exibindo sem querer os delicados 
tornozelos, as barrigas das pernas e boa parte das coxas. Com rpido solavanco, Ruark tirou o chapu e o segurou com as duas mos  frente, como um cativo de repente 
confrontado pelo dono.
    - Como queira a senhora - murmurou. Quando sua voz se fez ouvir de novo, estava clida e profunda, com uma tessitura que quase podia sentir e uma fora que lhe 
traa a posio humilde: - Muitas vezes tenho perambulado louco no escuro, fascinado por uma viso de tal beleza que minha mente simplria no conseguia fazer desvanecer: 
a sua imagem, meu amor.  o seu rosto lindo que est sempre comigo. J viajei por muitas terras e lhes conheo bastante bem as mulheres. Se, porm, num momento de 
desatino, eu tivesse traado o retrato daquela que me faria postar-me louco a seus ps e me faria suplicar pelo mais leve toque de sua mo macia, ou um sorriso gentil 
ou de um breve afago, eu certamente desenharia os seus traos sublimes. "E se eu fosse acrescentar uma viso que me perseguisse em minha solido, indubitavelmente 
seria a sua. E se, em meus sobressaltos, uma forma de mulher surge,  a daquela que j conheci sensual e viva em meus braos e a que me faz gelar e tremer no sono 
mais profundo.
    Os seios de Shanna ardiam, e seus olhos ficaram midos ao ouvir as palavras que a fizeram vibrar como pequenas flechas lhe penetrando a carne.
    -  voc que eu temo encontrar diariamente, mas, ao mesmo tempo, no vejo a hora de rever. Sei que sofrimento me advir disso. Conheo as palavras sufocadas 
na minha garganta porque no so ditas. Conheo sua beleza, embora s de prov-la fique fraco e perca o juzo. Meu mundo  voc.
    Seu sorriso  meu Sol. Seus olhos, minhas estrelas. Seu rosto, minha Lua. Seu toque e suas carcias, minha Terra e meu alimento. ,  isso que voc significa 
para mim, Shanna - sussurrou - coisas que eu nunca disse a ningum.
    A moa continuou sentada, hipnotizada pelo calor comovente das palavras dele. Como se estivesse saindo de uma nvoa, deu-se conta de que ele estava a seu lado. 
O banquinho era alto, mas ainda assim ela precisou erguer os olhos para encontrar os dele, que a contemplaram suavemente. Confusa, Shanna s conseguiu devolver-lhe 
o olhar. Parte dela ansiava por abra-lo e lhe retribuir as palavras de amor. Havia tambm dentro dela a parte que vacilava entre o choque de sua quase descoberta
algumas horas atrs, mas no estava ainda preparada para entregar-se e, na verdade, temia at que ele a tocasse. Os modos dele a confundiram, porque ela no tinha
como saber se ele falava sinceramente ou se apenas recitava palavras que usara com freqncia. Para proteger-se, recorreu  brincadeira.
    - Generoso senhor, sua lngua  macia e defende muito bem sua pretenso. Lembro-me, porm, de uma pessoa que pegou as rdeas de minha montaria e me ameaou com
raiva nos olhos, e de outra pessoa que me perseguiu terrivelmente at que cedi a seu prazer. Peo-lhe perdo, senhor, mas essa pessoa no parece a mesma que me faz 
juras de amor. As palavras soam falsas, quando consideradas  luz do que se passou. Temo que seja apenas mais um embuste para me agradar os ouvidos, mas algo que
nada tenha a ver com a verdade.
    O sorriso de Ruark foi malicioso:
    - Peo  senhora que se apresse em sua deciso. Seu pai falou que dez moleques fariam a felicidade dele, e mesmo uma moa to jovem quanto a senhora precisa 
de tempo para realizar a tarefa. - Pondo-lhe as mos nas coxas, ele se inclinou para o rosto dela com uma expresso dissoluta. - No acha que devamos comear a
pr mos  obra?
    Shanna cuidadosamente tirou-lhe as mos.
    O senhor com certeza gostaria que minha barriga ficasse grande por eu carregar um filho a cada inverno, e ento na primavera com certeza quereria que eu acrescentasse
mais um filho  sua casa, at que sua demonstrao de potncia exceda a dos nobres mais prolficos da corte. - Virou-se para ir embora, mas fez meia-volta para censur-lo
ainda mais: - Diga-me apenas, senhor, se eu der  luz uma poro de crianas, por que nome sero elas chamadas?
    - A escolha  sua, meu amor. E dependendo de sua escolha, sua conscincia ficar em paz.
    - Voc  impossvel - repreendeu Shanna. - Oferece pouco para solucionar e muito para confundir.
    - Ento deixe o problema como est. - Ruark pouco se incomodou com as palavras dela. - Com o tempo e pela graa de Deus, tudo se solucionar.
    - Voc simplesmente se recusa a compreender. - Shanna bateu com os pulsos nos joelhos, em frustrao. - Por que no entende minha splica?
    - Talvez a entenda melhor do que voc pensa - disse ele com ternura. -  o mesmo problema que toda mulher enfrenta: quando desiste dos sonhos da infncia e enfrenta 
as realidades da vida.
    Pegou um cacho dos lindos cabelos louros e o contemplou antes de solt-lo. O olhar ambarino dele encontrou a profundidade dos olhos azuis-esverdeados da moa 
e os fixaram to meigamente que Shanna sentiu a mesma excitao que sentira quando ele lhe disse as palavras de vida admirao. Era como um feitio que ele houvesse 
lanado sobre ela, e a moa se debateu para livrar-se dele.
    - Afaste-se de mim! - A ordem dela foi sbita, mas carente de firmeza. - Mantenha-se a distncia, sabujo. Compreendo muito bem o que voc pretende. Mais uma 
vez tenta manobrar-me, para me dominar como se eu fosse uma idiota qualquer.
    Os lbios dele estavam prximos aos dela, mas Shanna ainda no estava pronta a entregar-se. Desviou-se do brao dele e foi refugiar-se numa manjedoura perto
da porta, mas ficou alerta, caso tivesse de sair dali rapidamente.
    Ruark pareceu desistir de seu intento e, levantando um forcado de comprido cabo de madeira, comeou a limpar fios de palha e feno do cho do estbulo.
    - Voc gosta mesmo da gua?
    - Gosto - respondeu Shanna, observando cautelosamente os avanos dele. -  uma pena que ela tenha sofrido tanto com a viagem.
    - , mas vai ficar logo boa - afirmou Ruark. - Ela  de boa raa, a Jezebel.
    A gua bufou e bateu com as patas ao ouvir seu nome. Ruark espreitou a baia de Jezebel, como se estivesse preocupado.
    - Ela parece estar irritada com a dor. - Ele se aprumou: - O que  isso?
    Desavisadamente Shanna virou a cabea, e Ruark aproveitou para atirar o forcado num canto. Com o barulho, Shanna se viu presa nos braos de Ruark. Gritou, mas 
nenhum grito seria capaz de acordar o cavalario. Alis, ela se debateu em silncio quase o tempo todo.
    - Ruark, solte-me.
    Ela conseguiu contorcer-se at que seus ps tocaram o cho empedrado, mas o brao dele lhe rodeou o corpo por baixo do roupo, e ela sentiu-lhe a mo nas ndegas 
nuas:
    - Pilantra! Isto no  lugar. Ele riu perto do ouvido dela.
    - Voc mencionou bobos e crianas. Se isso significa que voc me ama, no me interessa saber em que categoria me enquadro.
    Shanna conseguiu pr o brao entre eles e segurou o roupo na garganta, sabendo que estava quase nua e que a mo dele j se insinuava em suas costas.
    - Ruark, voc no pode fazer isso! Pare!
    Ele lhe mordiscou a orelha, e ela sentiu arrepios lhe percorrerem a espinha.
    - Ruark, estou-lhe dizendo que no podemos... no aqui! Pare!
    Shanna esforou-se por tirar a mo dele e quase conseguiu escapar-lhe. O rapaz, porm, segurou-a com mais fora quando ela tentou fugir. Com sbito puxo, Shanna
empurrou com toda a fora. O salto de Ruark ficou preso numa lajota solta e ele caiu numa pilha de feno. Por sorte, sua mo pegou a camisola de Shanna e ela se viu
tambm puxada para cima dele. Seus membros nus se misturaram, e o cabelo dela completou o entrelaamento. Shanna se debateu para levantar-se, quando sentiu a excitao
que a consumia, mas, com um risinho maroto, Ruark rolou junto com ela, aprisionando-a debaixo dele. O roupo dela se abriu e a luz bateu-lhe no estmago. Apoiado
nos cotovelos acima dela, Ruark sorriu:
    - , feiticeira, peguei-a. Quer transformar-se numa outra coisa e voar? Ou vai tocar seu canto de sereia at que minha pobre cabea confusa perca de vez o juzo 
e eu me atire sobre as pedras da praia? Meu olhar contempla uma serpente sob forma encantada, com olhos de sereia e seios de espuma do mar, que est sempre a me 
seduzir, levando-me a extremos e depois gritando no, no, no, ela voa e me deixa choramingando como uma criana.
    A voz de Shanna foi suave ao contemplar os olhos ambarinos que a hipnotizavam e lentamente lhe enfraqueciam a resistncia:
    - Quando o provoquei tanto e depois no cedi  sua luxria?
    - Voc , meu amor, a Circe de meus sonhos que, quando fecho os olhos, me faz sentir um porco asqueroso de ficar esmolando a seus ps por migalhas de seus favores.
    - Se lhe causo tanta dor, senhor - disse Shanna, rindo, com brilho nos olhos, e tirando do cabelo de Ruark um fio de palha - por que o senhor no vai embora?
Talvez quando a serraria esteja pronta, eu possa interceder junto a meu pai por sua liberdade e uma passagem grtis para as colnias. O senhor me deixaria aqui ento?
    Ela ficou sria de repente e o observou, esperando a resposta. Ruark ficou igualmente srio e, suave, alisou uma ruga na testa de Shanna.
    - No, madame - sussurrou. - Embora a senhora me mandasse para dez mil quilmetros daqui e construsse uma muralha para o caso de eu voltar, eu sempre viria, 
como uma mariposa, at a senhora, em busca de saciar minha sede e minha fome.
    Embora Shanna pretendesse sentir-se provocada pela negativa dele, em vez disso sentiu um sentimento repousante e estranha ternura formou-se em relao a ele.
    - E ento, gentil senhor - era realmente uma serpente demonaca que fazia Shanna tirar a ma da rvore e lhe arrancar pedaos - tambm proclamaria sua afeio 
por Milly e me deixaria sozinha?
    Ruark recuou, surpreso, at atnito por ser mencionado o nome da moa.
    - Milly! - exclamou. - Aquela sirigaita?!
    Fios de palha caram sobre eles, e ento um pequeno guincho feriu o ar, e uma chuva de feno quase os cobriu. Ruark ficou de joelhos cuspindo feno, enquanto Shanna 
ficou de p, fechando o roupo. A seu lado alguma coisa se debateu. O vulto se ajeitou e sentou-se. Mais uma vez o nome saiu dos lbios de Ruark, ainda mais alto:
    - Milly? Que diabos voc... - No conseguiu dizer mais nada. A moa sorriu delicadamente:
    - Ouvi-o dizer meu nome, por isso cheguei por aqui para ver o que era.
    Sob o olhar furioso e surpreso de Shanna, Milly pegou a blusa aberta e comeou a amarr-la  frente, para ocultar os seios nus e pequenos.
    - Alm do mais - continuou Milly, petulante, olhando irritada para Shanna. - J estava ficando cansada de esperar aqui, e no gosto de ser a segunda para ningum.
    - O qu??? - A palavra explodiu da boca de Shanna. Uma sbita e glida raiva lhe embotou a razo e fez seu rosto ficar lvido e os olhos faiscarem quando compreendeu
a implicao da presena de Milly.
    - Shanna! - Ruark tentou ficar de p, j prevendo o desastre que viria.
    Desvairada, Shanna estendeu a mo, procurando uma arma. Qualquer arma! Seus dedos roaram por arreios pendurados em ganchos. Um gemido furioso lhe escapou por
entre os dentes, quando ela atirou toda a massa de tiras de couro em cima dos dois na palha. O peso pegou Ruark nas costas e o jogou no monte de feno. Ele rolou
de costas e viu Shanna em p a seu lado, cabelo esvoaante, ps separados, braos levantados e roupo branco adejando como um redemoinho. Parecia uma antiga druidesa 
vingadora. Nunca a vira mais linda nem mais furiosa.
    - Brinquem no feno! - gritou, numa voz capaz de congelar uma mar. - Divirtam-se em primeira mo!
    Girou em direo  baia e, enquanto Ruark se debatia em meio ao emaranhado de palha, ela abriu o porto. Milly comeou a lutar com a teia de arreios, o que s 
juntou mais Ruark e ela. Shanna pegou o freio de corda de Jezebel e arrastou o animal da baia. Apoiando-se numa poro da crina, montou rapidamente e impeliu o animal 
pelo porto aberto.
    - Maldio, Shanna, pare! - berrou Ruark.
    Cavalo e amazona saram pelo porto como se tivessem asas, e logo desapareceram no escuro.
    Ruark debateu-se para livrar-se dos arreios, mas as contores de Milly o impediram. Ele rosnou, por entre os dentes cerrados:
    - Fique quieta, sua maldita! Milly congelou:
    - Eu s estava brincando - gemeu, temerosa da ira de Ruark.
    A nica resposta do rapaz foi um grunhido inarticulado. Finalmente, livrou-se e, ao correr a toda para a porta, esbarrou com o cavalario Eliot, que, esfregando 
os olhos, escolheu aquele instante para surgir.
    O atnito rapazinho foi derrubado no cho e, ao esforar-se para ficar em p, s conseguiu dizer:
    - Volte para a cama! - Estas palavras o feriram pela fora que carregavam, e Ruark saiu correndo, deixando Eliot olhando pasmo para a moa que parecia estar 
tentando usar vrios arreios ao mesmo tempo. Resmungando algo sobre pesadelos, Eliot voltou cambaleante para o catre, onde de manh se perguntaria como podia estar 
to cheio de contuses...
    Milly gemeu desesperada ao tentar livrar-se do emaranhado de tiras. Quando a sombra negra ficou sobre ela, a moa gelou e apavorada levantou o olhar.
    - Poxa! O senhor me deu um baita susto! - disse, aliviada. - Pensei que era o Sr. Ruark de volta.
    Certa mo enluvada de preto abaixou-se e livrou-a dos arreios, pendurando-os depois nos ganchos dos quais haviam sido tirados com tanto mpeto. A capa negra 
girou e revelou um homem alto e magro, que ajudou Milly a ficar de p. Ela se encostou nele, os olhos negros sorrindo timidamente para ele, e lhe esfregou o peito 
com familiaridade.
    - Eu disse o que o senhor mandou - murmurou, examinando-lhe o rosto comprido. Viu que o sorriso dele aumentou, embora seus traos estivessem obscurecidos pelo 
chapu de trs pontas. - Mas, por que o senhor me empurrou? Quase quebrei o traseiro daquele jeito. - Fez uma pausa e riu. - Se isso tivesse acontecido, sua alegria 
teria acabado. Se teria!
    O homem concordou com a cabea e ajudou-a a subir a escada que os levou mais uma vez ao sto, para continuarem a fazer o que faziam antes da chegada de Ruark.
    Shanna pulou do lombo da gua e correu para os degraus fronteiros da manso. Se Ruark viesse atrs dela, nenhuma porta trancada o impediria de entrar. Ela no
iria criar uma cena bem debaixo do nariz do pai, pois Ruark decerto revelaria a histria toda, se ela se recusasse a ouvi-lo. Precisava sumir antes que ele a alcanasse.
Primeiro, tinha de vestir-se. O estbulo ficava a certa distncia da manso, e Jezebel praticamente voara, mas Shanna sabia que devia apressar-se, pois Ruark parecia 
meio selvagem em certas coisas que fazia. Sua mente e seus ps eram igualmente rpidos e ele era especialista em surgir no se sabia de onde.
    Os ps descalos de Shanna mal tocavam a escada em caracol enquanto ela a subia correndo, tirando o roupo ao mesmo tempo. No perdeu tempo em trancar a porta 
da sala de visitas e correu at o quarto, onde abriu a porta do armrio, de l tirando seu traje de camponesa. Calou um par de mocassins, vestiu a saia e a blusa 
e ps um xale por cima, por recato. Passou uma faixa na cintura estreita e pegou rapidamente um manto preto no guarda-roupa, antes de ir at a sacada e de l pular 
para o cho.
    Jezebel estava esperando. Shanna se lanou sobre o lombo do animal e o impeliu a galopar pelo gramado onde o barulho seco dos cascos seria amortecido.
    Ruark chegou correndo, bem a tempo de ver os dois galopando em meio s rvores, j agora muito longe para serem apanhados ou para escutarem seus gritos. Profundamente 
frustrado, soltou palavres por entre os dentes cerrados e devagar deu a volta  manso, passou por baixo da ala de Shanna, pelos arbustos que cercavam seu prprio 
chal e alcanou a varanda. Depois, entrou em casa e logo se serviu de um gole de rum e olhou para o relgio do vestbulo, perguntando-se quanto tempo demoraria 
para Shanna esfriar a raiva e voltar.
    As palavras de Milly provocaram violenta reao em Shanna, como o tom agudo que estraalha uma pea de cristal. A exploso na cabea dela assemelhava-se  erupo 
de um vulco e demoraria para se aplacar, embora o primeiro estouro se tivesse concentrado agora num fluxo constante de raiva fremente que a impelia para a frente, 
sem nenhum destino especfico.
    A nvoa comeou a evaporar-se e a Lua prateada e brilhando, atravs de um halo esbranquiado, emprestava aspecto lgubre  ilha. Shanna cavalgava sob a plida 
luz e no sabia dizer para onde. Estava aptica. Conduzia a gua lassamente e esta, embora no conhecesse a ilha, vagava pelas trilhas e estradas com abandono. Aps 
haver passado uma viagem inteira por mar presa numa baia, Jezebel gozava agora de uma liberdade que a deixava eufrica. Ao encontrar um suculento campo, o animal 
parou para pastar um pouco. O vulto silencioso em seu dorso estava imvel, sofrendo tanto que seu corao parecia destrudo.
    Shanna quis negar que seu pesar significasse mais do que alguma considerao que tinha por Ruark.
    " que eu quase me dei a ele naquele monte de feno, como qualquer rameirazinha", ponderou, irritada: "E o tempo todo ele tinha aquela assanhada da Milly esperando, 
caso eu me recusasse." Embora estivesse sozinha, o rosto de Shanna ardeu  lembrana. "E com todo o meu cuidado, ele ia divertir-se, e com uma testemunha!"
    A afronta causada pela duplicidade dele comeou a invadi-la, e a dor foi esquecida. Ela soluou. Chorou. Amaldioou a noite e a desgraada moa que a escurido 
ocultara de seus olhos. A gua sentiu a intranqilidade da dona e comeou a bufar e a levantar as pernas para o alto. O arroubo de clera se desvaneceu, mas Shanna 
no conseguia deixar de sentir raiva.
    Shanna espicaou Jezebel com os saltos e, obediente, o animal comeou a andar. As duas desceram por uma encosta com pouca altura e foram dar na praia de areia 
branca onde batia a mar baixa. Logo adiante as ondas marcavam a beira d'gua. Jezebel entrou no mar e baixou a cabea para beber gua, bufou com o sal da gua e 
afastou-se enojada. Shanna murmurou-lhe palavras ternas e esfregou-lhe suavemente a mo no pescoo. A gua se acalmou e andou a meio galope, levantando jatos de 
salpicos com os cascos. Jezebel estava encantada com a liberdade e mais uma vez voltou a correr, no em disparada, mas em ritmo tranqilo ao longo da praia, fazendo 
pouco barulho na areia molhada.
    Um pescador tardio puxou a rede de dentro do mar. Estremeceu ao ver a moa montada no cavalo negro que no fazia barulho ao avanar pela praia alva. A moa era 
uma viso infernal: rosto mortalmente cinza ao luar e linda, pele branca ressaltada pela massa de cabelos, e o capuz negro. Parecia que no tinha rdeas para guiar 
a montaria nem sela para firmar-se no lombo do animal. Embora o pescador se ajoelhasse e comeasse a rezar, a amazona sequer o olhou. Sentada ereta e orgulhosa, 
continuou silenciosamente, como se impelida por funesta misso. Durante os meses seguintes, o pescador ps a culpa de todos os males que o afetavam no espectro noturno, 
e quando bebia, entediava os companheiros com relatos interminveis daquela viso.
    As luzes mortias do vilarejo adormecido  frente estimularam a mente de Shanna, e ela sentiu desesperada necessidade de companhia e de conversar. S havia uma 
pessoa em quem podia confiar, e ela resolveu procur-la.
    Entrou na vila e ralentou o ritmo do animal, passando pelas casas silenciosas como uma apario. Se algum olho desavisado tivesse visto aquele espectro passar, 
hesitaria em mencion-lo, de medo que o julgassem louco.
    Cavalo e amazona subiram o morro at a casa caiada de Pitney, encarapitada no penhasco como um posto de observao perscrutando o horizonte. Esse local era um 
paraso para Shanna, onde ela podia desabafar  vontade. Nenhuma luz iluminava as janelas, mas, ao ouvir-lhe o bater urgente na porta, surgiu o brilho vacilante 
de uma vela e uma voz sussurrou-lhe que esperasse um instante. Vrios lampies se acenderam antes que a porta se abrisse e o vulto enorme de Pitney surgisse. Um 
barrete tapava-lhe a cabea meio calva e ele havia vestido apressadamente uma cala por cima da camisola de dormir. Ficando de lado e esfregando os olhos de sono, 
convidou-a a entrar.
    - Entre, menina! - resmungou. - O que a traz aqui a esta hora? r,i Shanna evitou-lhe o olhar ao passar por ele:
    - Precisava falar, e como no havia outra pessoa...
    Devido  confuso de sua mente, Shanna teve dificuldade em exteriorizar o que pensava. Inquieta, caminhou pela sala, torcendo as mos; abriu a boca para falar, 
mas no conseguiu concatenar as idias. Pitney sentou-se num banco em frente  lareira apagada e comparou as horas de seu relgio de bolso com as do relgio na parede. 
Eram altas horas da madrugada. Abafando um bocejo, esfregou a mo contra os olhos sonolentos e estendeu as pernas para longe das pedras frias da lareira, esperando 
que Shanna tocasse no assunto. Ficou surpreso quando Shanna apanhou a corda no poo e, alando o garrafo de cerveja gelada, serviu-se de alentado gole, pegando 
a caneca de lato que ficava em cima da lareira. Alarmado, Pitney fez meno de levantar-se quando ela tampou novamente o garrafo e o recolocou cuidadosamente no 
poo. A corda se enrolou, mas no se ouviu rudo de vidro quebrado. Aliviado, Pitney voltou a sentar-se, emitindo longo suspiro.
    Examinando-a, ele esperou, enquanto ela bebericava delicadamente da caneca, franzindo o nariz para o gosto amargo da cerveja. Seguiu-se um inevitvel estremecimento. 
No foi surpresa para Pitney. Era muito estranho que ela sequer provasse a bebida, e o homem deduziu que a jovem devia estar com um grande problema. Fazendo uma 
careta, Shanna atirou a caneca para ele, e Pitney pegou o objeto e continuou a observ-la surpreso.
    -  seu pai de novo? - perguntou, cauteloso.
    Shanna sacudiu negativamente a cabea e ficou mais nervosa.
    - No  nada com ele. Na verdade - riu, ligeiramente - ele me liberou de qualquer exigncia de casamento at eu escolher o marido que quiser. - Seu cenho se 
franziu e Pitney chegou a lamentar a pessoa causadora daquelas rugas. -  aquele patife que trouxemos de Newgate que me persegue.
    - Entendo. - Pitney encolheu os ombros. - O Sr. Ruark. Ou Beauchamp. Seja l o que for. O seu marido.
    - Marido! - retrucou Shanna, olhando-o com raiva. - No use esse ttulo em relao quele biltre. Sou viva. - Acentuou a palavra. - Voc mesmo preparou o caixo 
e testemunhou o enterro. - Sua voz se excitou ao acrescentar: - Talvez se voc houvesse tido mais cuidado, me teria poupado muito sofrimento.
    - J expliquei tudo antes - disse Pitney, um pouco irritado. - No vejo necessidade de voltar ao assunto.
    Shanna suspirou e percebeu que no adiantava nada culpar Pitney. Seu problema era Ruark. Ela resmungou interiormente. Maldito Ruark! Maldito aquele pavo gabola! 
Envolvido com todas as moas da ilha s escondidas e depois afirmando que levava agora uma vida monstica..
    No poderia permitir que ele continuasse em Los Camellos, partilhando-lhe a mesa e freqentando a manso, onde ela seria forada a ver-lhe o sorriso zombeteiro. 
Ele a tinha usado como um brinquedinho que acrescentara  sua coleo. Quantas moas na ilha fariam parte dessa coleo? Era uma ilha de solitrias mulheres de comandantes 
de navios e de jovens casadouras. Ele devia achar que era o prprio paraso, encontrar tantas mulheres complacentes, entre elas a prpria Shanna. Agora, devia estar 
rolando de rir: a orgulhosa filha de Orlan Trahern tinha sido derrubada por um simples escravo. Essa idia a fez encolher-se toda. Aquele garanho nojento merecia 
naufragar e passar o resto de seus dias numa ilha deserta. Isso seria bom para ele compreender de verdade o que  a vida de celibatrio.
    Como, porm, poderia ela implorar a Pitney que fizesse o que ela queria? Ele j havia recusado um pedido seu antes, e isso poderia acontecer de novo, caso ela
no conseguisse convenc-lo de que sua necessidade era extrema.
    - Pitney! - Seu tom foi suave e lamentosamente suplicante. - Voc j me ajudou muito em assunto que eu sequer tinha o direito de lhe mencionar. No quero parecer 
ingrata.  que esse homem est-me perturbando demais a vida. Comeou a me atormentar..
    O cenho de Pitney se enrugou, interrogativo, e Shanna corou.
    - Ele afirma ser meu marido verdadeiro e quer que eu admita publicamente ser sua mulher.
    O grandalho continuou calado, mas sua expresso demonstrou preocupao. Acendeu o fogo e ps uma chaleira com gua para fazer ch.
    - Muitas vezes me perguntei - disse ele, por sobre o ombro. - Naquela noite depois do casamento, quando o tiramos de sua carruagem, ele lutou excessivamente 
para um homem que apenas cumprira um trato, e na cadeia as palavras dele indicaram que o haviam enganado e que lhe deviam algo mais. As palavras que disse em relao 
a voc no foram das mais gentis.
    Ele a encarou, esperando que ela respondesse, mas Shanna no teve como escapar. Seu rosto ficou quente, e ela sentiu que Pitney a observava de forma mais atenta.
    - Ele... ele no quis concordar - a voz dela saiu baixa e as palavras soaram hesitantes - a no ser que eu prometesse... - a ltima frase saiu apressada e ela 
fechou os olhos, envergonhada - a no ser que eu prometesse passar a noite com ele.
    Pitney bamboleou no banco e teve um ataque de riso:
    - E voc ainda se pergunta por que o rapaz a persegue? - Ele fez a sala tremer com outro ataque de riso. Shanna o olhou meio confusa, no vendo razo para aquela 
hilaridade. Afinal, Pitney se acalmou e disse: - Um trato desses torturaria qualquer homem e no posso culp-lo por isso. - Baixou os olhos e olhou fixo para o cho, 
ao mesmo tempo srio e pensativo. - Fui at mau para com ele. Realmente fiz com que ele penasse um bocado. Mesmo assim, sempre foi atencioso para comigo.  claro 
que um escravo no tem muita opo..
    - Voc fica do lado dele e contra mim? - perguntou Shanna, incrdula.
    O tom de voz de Pitney foi aptico e indiferente:
    - No sei qual  seu plano, mas no participarei dele.
    Os olhos de Shanna se encheram de lgrimas. Fungou baixinho e usou de astcia para reforar seus argumentos:
    - Vrias vezes ele me procurou e tentou reivindicar seus direitos de marido.
    - No o posso culpar por isso. Ele tem necessidade de ser homem, e no estou to velho a ponto de no conseguir compreender seus motivos.
    Shanna percebeu a inutilidade de seus apelos e ficou desesperada:
    - Quero que ele saia desta ilha! Esta noite! No me importa como, mas se voc no me ajudar, encontro quem me ajude.
    - Maldio! - rosnou Pitney. - No a vou ajudar! Nem quero que voc fique com essa culpa na conscincia. Antes, vou recorrer a seu pai.
    - - Ruark tentou fazer amor comigo no estbulo! - vociferou Shanna, lgrimas iradas lhe fulgindo nos olhos azuis-esverdeados. Totalmente surpreso, Pitney a olhou. 
-  verdade! - gritou Shanna, derramando-se em lgrimas ameaadoras. Seus lbios tremeram de vergonha ao recordar a paixo com que correspondeu quela investida. 
- Ele me derrubou no feno e... Agitando as mos, Shanna virou-se, sem poder continuar. No havia mentido, mas sabia que a omisso da verdade completa havia torcido 
o sentido de suas palavras.
    Distraidamente, Shanna forneceu a Pitney a comprovao do que dizia, pois fiapos de palha continuavam agarrados aos cachos que lhe caam em cascatas pelos ombros.
Pitney compreendia muito bem a paixo de Ruark pela moa, mas sua prpria raiva se insuflou  idia de Shanna ser maltratada por algum. A moa conseguiu dizer, 
entre soluos:
    - Eu o odeio. No tolero aquele homem. No posso mais voltar a velo. - Afastou-se e disse com veemncia: - Quero v-lo fora da ilha esta noite.
    Pitney no demonstrou hav-la ouvido. Jogou algumas folhas de ch na gua fervente e ps o bule de lado, enquanto pensava no que fazer. Naquela manh chegara 
um navio ao porto, vindo das colnias. Ele estivera nas docas, quando o comandante e alguns de seus homens conduziram um cavalo para os Traherns. Outra embarcao 
dos Estados Unidos aparecera, com a bandeira da Companhia da Gergia. Aparentemente, era um navio da mesma empresa que o primeiro, pois ancorou a alguma distncia 
e s mandou  terra um pequeno esquife com um punhado de homens que se retiraram para o botequim para passar o tempo. Trahern poderia revistar o navio  procura 
de seu cativo mais valioso, refletiu Pitney, mas se moedas suficientes fossem distribudas, talvez o comandante do outro navio pudesse ser persuadido a levar sua 
embarcao para onde no pudesse ser vista.
    - Vou tir-lo daqui para voc - resmungou Pitney, afinal. Tirou o barrete e o substituiu pelo chapu de trs pontas, e depois calou sapatos com fivelas de lato. 
- No vou permitir que voc seja maltratada.
    Fechou a porta quando saiu, e Shanna ficou olhando para o portal, sabendo que havia vencido, mas no sentindo prazer nenhum nisso. Compreendendo que devia manter-se 
afastada da manso at Pitney concluir sua misso, serviu-se de uma xcara de ch e sentou-se  mesa para bebericar a infuso; l ficou, at que as ltimas brasas 
do borralho virassem cinza. Na casa vazia, o bater do relgio parecia ecoar as palavras de Pitney: "Maltratada".
    De sbito, Shanna percebeu o absurdo de tudo aquilo, o sofisma inteiramente ridculo da palavra. Riso histrico lhe jorrou da boca, e se algum a tivesse ouvido 
ento, duvidaria de sua sanidade.
    Ruark estava estendido  vontade na cama, contemplando o dossel acima, quando ouviu cascos de cavalo do lado de fora da cabana. Estava a caminho da porta, quando
ouviu baterem de leve. Era Shanna, claro. Sua mente ficou aliviada. Ao abrir a porta, porm, Ruark s viu o rosto largo e zangado de Pitney. A noite explodiu ento 
num bilho de luzinhas antes que a escurido se abatesse sobre ele, com o baque surdo de seu corpo no tapete.
    A dor aguda na cabea de Ruark fez com que percebesse os movimentos lentos do cho a seus ps. Pareciam embal-lo num bero e, atravs dos sentidos ainda tontos, 
s ouviu um ranger. Percebeu estar amordaado e amarrado, com um saco ranoso enfiado na cabea e nos ombros. Viu ento que o cho em que estava deitado era o de 
um pequeno barco. Reconheceu o ranger de forguetes e o respingar da gua nos lados da embarcao. S havia isto e uma respirao pesada por perto, e ele compreendeu 
que estava sendo levado para o mar, no sabia ainda por que, mas tinha uma intuio de que havia mo de Shanna na histria. Sorriu amargamente na escurido de seu 
confinamento. Ela sequer quis ouvi-lo antes de julg-lo.
    - Acho que desta vez voc exagerou - disse a voz de Pitney, e Ruark se deu conta de que o homem estava resmungando sozinho. Continuou deitado imvel, fingindo 
estar desmaiado, e escutou as palavras que ecoavam em seu crebro dolorido. - No posso larg-lo aos peixes e talvez isso fosse at melhor, mas ela disse que queria 
que voc fosse embora de uma forma ou de outra, e  melhor eu me encarregar disso antes que ela encontre outro modo de se livrar de voc. - Longo silncio se misturou 
ao rudo dos remos, e em seguida Pitney suspirou. - Rapaz, voc devia ter tido cabea fria para deixar o barco correr. Eu o avisei uma vez, mas acho que voc esqueceu. 
H muito tempo que cuido da moa, e no permito que ningum abuse dela, nem voc.
    Ruark praguejou mentalmente e tentou soltar as cordas dos pulsos, mas estavam muito apertadas. No havia sentido em tentar livrar-se. No imaginava que Pitney 
lhe tirasse a mordaa para que pudessem dialogar, no quando Shanna havia convencido o homem a agir daquela forma.
    O remar ficou mais lento e uma voz gritou para o barco. Pitney respondeu e, alguns minutos depois, Ruark foi atirado por cima do ombro do homenzarro e levado 
para o convs do navio, onde foi atirado sem cerimnia. Ruark susteve um gemido e permaneceu imvel, embora parecesse que seu corpo palpitasse, com a dor na cabea. 
No conseguiu compreender as palavras na troca de vozes, mas ouviu o tilintar de vrias moedas sendo contadas. Rudo seco de passadas atravessou o convs, e Ruark 
percebeu que Pitney estava indo embora. Algum tempo depois, o saco foi tirado da cabea de Ruark e a mordaa arrancada de sua boca. Para seu desagrado, jogaram-lhe 
um balde de gua fria do mar e ele foi posto de p rudemente. Foi ento amarrado a um mastro. Uma lanterna segura por um rosto medonho se aproximou dele:
    - Quer dizer que o rapazinho est voltando a si, no ? - Debochou uma voz rouca. - Vai ficar quietinho aqui at a gente poder cuidar de voc.
    A lanterna se afastou. Entre ordens firmes, as velas foram enfunadas e levantou-se a ncora. Logo uma brisa refrescante atingiu o rosto de Ruark e a escuna comeou 
a singrar as ondas. Ruark virou o pescoo e observou as luzes de Los Camellos desaparecerem de vista. Finalmente Shanna conseguira tir-lo da ilha.
    Suspirando, Ruark se conformou e encostou a cabea no mastro. Ele encontraria jeito de voltar e reivindicar seus direitos de marido. O que lhe estava acontecendo 
agora no mudaria nada. Ela continuava sua mulher. Primeiro, porm, ele precisava sobreviver  situao.
    Ruark passou a primeira noite a bordo amarrado ao mastro. A escuna j tinha perdido a ilha de vista, quando a ncora foi mais uma vez largada no mar e, com as 
velas soltas, a embarcao parou.  exceo do marinheiro que vigiava no tombadilho, a escuna se achava inanimada. S quando o Sol estava no horizonte h umas duas 
horas  que um tripulante passou por perto de Ruark e, a seu pedido, parou. O homem deu de ombros e foi at a frente, de onde alguns instantes depois um ingls troncudo
    apareceu e, aps debruar-se no parapeito por algum tempo, viu Ruark e se aproximou.
    - Parece-me, senhor - comeou Ruark - que no h motivo para eu estar amarrado assim, porque no lhe fiz nenhum mal, nem penso faz-lo. No ser possvel soltar-me 
para que eu possa satisfazer minhas necessidades?
    - Bem, rapazinho - falou, arrastado, o ingls. - A gente no tem razo para v-lo assim to desconfortvel, mas tambm no tem para confiar em voc.- Olhou de 
esguelha para Ruark. - Eu no o conheo.
    -  um problema simples de resolver - retrucou Ruark. - Meu nome  Ruark. John Ruark, ultimamente um cativo de confiana de Sua Majestade Lorde Trahern. - Foi 
a inspirao que fez com que um trao zombeteiro se incorporasse  sua voz: - Sei que o senhor recebeu boa soma para me ter a bordo, e creio que, como passageiro 
pago, devo pelo menos ter liberdade a bordo. - Indicou o horizonte com a cabea. - Como o senhor deve perceber, no tenho nenhuma possibilidade de deixar o barco.
    - No vejo mal nisso. - O homem cuspiu na direo do vento, pegou uma faca e testou a lmina com o polegar. - Meu nome  Harripen. Comandante do meu barco quando 
estou a bordo dele. E Harry para meus amigos. - Debruou-se para a frente e, com movimentos rpidos, cortou as cordas que amarravam Ruark ao mastro.
    - Minha gratido, Comandante Harripen. - Ruark preferiu usar o ttulo mais respeitvel, enquanto esfregava vigorosamente os pulsos, para restaurar a circulao. 
- Sou seu eterno devedor.
    - Muito bem - rosnou o outro. - Porque eu no devo nada a homem nenhum. - Mais uma vez olhou para Ruark de esguelha. - Voc fala bonito demais para um cativo. 
- Embora fosse uma afirmao, era tambm uma pergunta. Ruark deu um risinho.
    - Afirmo-lhe que  uma condio temporria, Comandante. Na verdade, ainda no sei se me devo virar contra os que me condenaram ou se devo agradecer-lhes. - Apontou 
com a cabea para o castelo de proa. - Se me d licena, Comandante, preciso satisfazer certas necessidades prementes. Eu lhe ficaria mais grato ainda se conseguisse 
que eu falasse com o comandante da embarcao mais tarde.
    - Pode deixar, rapazinho. - O homem cuspiu de novo e, com o dorso da mo, limpou a saliva do queixo barbado.
    Ruark aliviou suas necessidades e conseguiu comida e uma caneca de cerveja. Esta parecia ser a mais abundante mercadoria a bordo. Aps tomar o desjejum, procurou 
um rolo de corda num local sombrio e deitou-se, caindo rapidamente no sono que havia deixado de dormir durante a noite.
    Quase ao crepsculo, ele foi acordado e levado ao camarote do comandante e, l, sujeito a exame longo e detalhado pelos homens sentados ia mesa - Ruark jamais 
vira grupo mais desprezvel. Um mulato estava sentado  frente na cadeira, com os fortes braos em cima da mesa, olhando raivosamente para Ruark.
    - Voc diz que  cativo? Como  que pode?
    Ruark pensou na pergunta, olhando para o grupo terrvel e com expresses preocupadas. Se aqueles eram os representantes de qualquer sociedade, ento ele na verdade, 
era um beb inocente.
    - Foi por assassinato. - Os olhos dele contemplaram o grupo;nenhuma surpresa foi demonstrada por eles. - Tiraram-me da priso e me fizeram trabalhar para pagar 
a dvida.
    - Quem o tirou da ilha? - perguntou Harripen, palitando os dentes com as unhas.
    Ruark coou o peito e sorriu triste:
    - Uma senhora que no gostou da mocinha que me esperava no celeiro.
    O ingls riu, divertido:
    - Acredito nisso, rapaz. Deve ter sido uma dona rica, pelo dinheiro que pagou pra v-lo sumir.
    Ruark deu de ombros, cauteloso.
    - O que o velho guarda nos depsitos? - O rosto com cicatrizes do comandante chegou mais  frente: - Riquezas? Sedas? Especiarias?
    Ruark deu um risinho e esfregou a barriga:
    - Estou h muito tempo sem comer, senhor. - Estendeu um polegar para as travessas que ainda enchiam parte da mesa. - Posso comer um bocadinho?
    Empurraram-lhe uma coxa meio comida de um pequeno animal e uma caneca de cerveja quente. Ruark pegou uma cadeira e sentou-se para jantar.
    - E que nos diz dos depsitos? - insistiu o homem moreno e com cicatrizes.
    - Quer passar o po, por favor? - Ruark limpou a boca com o dorso da mo e bebeu cerveja. Arrancando um pedao do po que lhe foi atirado, molhou-o no molho 
e agarrou uma camisa pendurada no espaldar da cadeira, onde limpou as mos.
    - Voc agora j encheu a pana - rosnou o mulato. - O que h nos depsitos?
    - Tudo. - Ruark deu de ombros e riu. - Mas no tem valor para vocs. - Voltou a rir para os homens, que o olhavam com a testa franzida. - Vocs jamais conseguiro 
entrar no porto. - Mergulhou o dedo na cerveja e desenhou um crculo incompleto na mesa, deixando as extremidades abertas. O dedo aumentou o fundo do crculo numa 
poa enquanto ele dizia: - Esta  a cidade onde esto os depsitos - acrescentou, para responder ao mulato. - Aqui - desenhou um X numa ponta do arco - e aqui - 
desenhou outro X em frente ao primeiro - ficam canhes. Para entrar no porto, vocs precisam passar bem entre eles. - E traou uma linha atravs da abertura.
    Ruark recostou-se na cadeira, examinou os rostos  frente e deu um risinho suave.
    - Vocs seriam explodidos antes de se aproximarem dos depsitos.
    Ruark havia apenas julgado que eles poderiam ser piratas, mas o desapontamento estampado em seus rostos naquele instante provou que eram mesmo. O ingls Harripen 
reclinou-se na cadeira e voltou a palitar os dentes com a unha.
    - Voc est muito alegre, meu rapaz - resmungou. - Ser que no est escondendo nada na manga?
    Ruark cruzou os braos nus e no respondeu  pergunta durante algum tempo, em que pareceu meditar sobre algo.
    - Bem, companheiros - deu um risinho enviesado - se eu tivesse mangas, isso poderia ser dito, mas como podem ver, s estou usando uma velha cala curta. Assim, 
na minha pobreza, tudo que tenho  muito valioso e tem preo. - Riu ao ver as expresses subitamente irritadas. - Como vocs, no fao nada de graa. H muito tempo 
estudo as debilidades da ilha de Trahern e descobri um meio de acabar com pouco prejuzo e a possibilidade de muito lucro. - Ruark debruou-se para a frente e ps 
os cotovelos nas mesa, aproximando-se num gesto de confiana. - Posso dizer-lhes qual a maneira de entrar l e tambm onde ficam os valores todos de Trahern.
    Os piratas conseguiriam moedas suficientes naquelas burras, mas Ruark sabia que Trahern levava a maior parte do dinheiro para guardar num cofre-forte na manso.
    -  claro - Ruark recostou-se na cadeira e pareceu ignorar os olhares vidos dos piratas - se vocs quiserem as estopas de calafete e os fardos de cnhamo dos 
depsitos, podem ir l tambm. - Esperou um pouco, deu de ombros e abriu as mos. - Tenho pouco mais para negociar, cavalheiros. O que me dizem?
    O comandante de origem francesa abriu a lmina de uma faca e passou a mo pela beira.
    - Voc fica com sua vida, cativo - rosnou.
    - , isso eu tenho - lembrou Ruark. - Devolvi o favor ao avis-los sobre os canhes. Vou dizer mais: o Hampstead, com vinte excelentes canhes, est ancorado 
no porto. Se vocs chegarem ao porto interno, tero de enfrent-lo, e quanto tempo poderiam agentar o fogo?
    - Sem dvida voc vai querer uma parte de comandante pelo seu plano - debochou o comandante - enquanto - ns arriscamos o pescoo.
    - Uma parte de comandante est timo para mim, obrigado - afirmou Ruark, ignorando a zombaria. - No sou muito cobioso. Quanto aos pescoos, eu os levarei e 
tambm estarei arriscando o meu.
    - Combinado! Voc receber a parte de comandante, se conseguirmos o dinheiro - brincou Harripen. - Agora, desembucha, cara. Qual  o seu plano?
    A expectativa podia-se sentir no ar. O grupo era todo ouvidos para as mincias do plano.
    - Perto da extremidade leste da ilha - improvisou Ruark enquanto falava - a gua  funda, e pode-se chegar o barco bem para perto da praia.
    - E a oeste? - perguntou o mulato, desconfiado.
    -  raso! - replicou Ruark. - No mximo, quatro ou seis metros, e h um recife para o alto-mar. O mais perto que vocs conseguiriam chegar seria uma ou duas 
milhas. - No queria que eles desembarcassem perto da manso, mas suas palavras foram quase todas verdadeiras, embora no citasse os homens que patrulhavam a praia 
 noite.
    - Deixe-o falar! - vociferou Harripen impaciente, e o mulato cedeu, embora relutante.
    - No morro existe um canho de sinalizao - recomeou Ruark.
    - , a gente sabe. A gente ouve quando chega ao porto - concordou o holands.
    - Um tiro quer dizer que se avistou um navio - disse Ruark - e dois tiros  um aviso. Vocs podem levar para a praia um grupo pequeno, e eu mostro onde conseguir 
a melhor parte do dinheiro do jeito mais silencioso, sem acordar a ilha inteira.
    As cabeas se aproximaram e Ruark exps-lhes seu plano. Sabia que a arma detonaria e que  noite um tiro significava aviso da mesma forma que dois tiros. No 
local onde ele faria os piratas desembarcarem, seria possvel ao vilarejo ficar com mais de uma hora para se preparar e nenhum dos barquinhos que ele vira no convs 
levaria mais do que um punhado de atacantes. Mesmo se baixassem dois botes, no poderiam embarcar mais de 30 homens, e vrios precisariam ficar para vigiar o barco. 
Trahern no teria dificuldade em despachar o grupo de terra e, com a tripulao da escuna reduzida, o Hampstead no teria problema para dominar os corsrios.
    No lhe seria fcil escapar para a terra, mas Trahern certamente ouviria suas explicaes antes de qualquer castigo. J no se sentia obrigado a guardar o segredo 
de Shanna, e falaria o que fosse necessrio.
    Os piratas pareceram satisfeitos com o plano e deixaram que Ruark voltasse  sua cama de cordas. Foi na hora mais escura da noite que eles resolveram partir. 
A embarcao mal comeou a se mover, quando Ruark viu que o ingls e o meio francs, Pellier, estavam a seu lado, apontando-lhe pistolas.
    - Fizemos duas mudanas no plano. - O francs riu. - Voc fica a bordo como refm, e ns escolhemos o lugar do desembarque.
    Ruark os olhou firme, e um medo terrvel comeou a invadi-lo.
    Era quase de manh quando Shanna voltou a seus aposentos, vindo da casa de Pitney, e quase imediatamente mergulhou exausta no sono, que s durou algumas horas, 
antes de ser acordada pelo grito do pai dando uma ordem que ecoou pela manso inteira:
    - Maldio! Encontre-o para mim!
    Saltando da cama, Shanna vestiu-se apressada e correu para baixo, onde teve o cuidado de diminuir a marcha antes de entrar na sala de jantar,
    onde havia enorme nmero de homens. Capatazes, vrios cativos, Eliot segurando o chapu achatado de Ruark, Ralston e at Pitney estavam em volta da mesa encarando 
Trahern, que parecia tudo menos feliz.
    - Papai, o que ? - Shanna fingiu inocncia ao se aproximar da cadeira do pai. Trahern olhou-a de relance e franziu a testa, berrando:
    - O rapaz! Ele sumiu, desapareceu! Shanna encolheu meigamente os ombros:
    - Papai, de que rapaz voc fala? H pelo menos uns vinte...
    Trahern interrompeu com outro grito:
    - O rapaz valioso, o John Ruark. Ele desapareceu.
    - Oh, Papai! - Shanna riu levemente. Seu desempenho foi notvel. - O Sr. Ruark no  rapaz.  um homem. J discutimos isso h meses.
    - No acho que seja hora de gracinhas! - vociferou Trahern. - H trabalho a ser feito. E nada aqui pode ser feito sem o Sr. Ruark.
    - Papai, certamente - Shanna ps a mo no brao do pai - estes senhores so to competentes quanto ele. No podem fazer o trabalho do Sr. Ruark at ele ser encontrado?
    - Ele sumiu! - A afirmativa de Ralston foi feita em seguida. - Escapou do compromisso da escravido. S ser apanhado se enviarmos uma frota atrs daquele navio 
das colnias que ancorou l fora ontem de manh. - Ralston apressou-se em lanar a culpa em outro lugar, antes que algum se lembrasse de que foi ele que trouxera 
Ruark para Los Camellos.
    Pitney bebericava com vagar uma mistura de rum e permaneceu friamente distante, enquanto observava pai e filha.
    - Eliot encontrou o chapu dele no estbulo - informou um dos capatazes. - Ele estava cuidando da gua.
    -  - debochou Ralston. - Uma gua por um cativo.  isso que esses traioeiros homens da colnia acham que  uma troca justa? Levaram o Sr. Ruark bem debaixo 
dos nossos olhos.
    - Acalme-se, Sr. Ralston. - O latifundirio olhou o homem magro com olhar crtico. - No o culpo pela presena dele nem por este problema. Para dizer a verdade, 
todos ns nos beneficiamos do talento do Sr. Ruark.  que temos um projeto sendo executado e precisamos dele para isso.
    Ralston no gostou desse enfoque, pois talvez o Sr. Ruark voltasse e no fosse molestado, e isso ia fortemente contra o que ele queria. No conseguiu pensar 
em nada para dizer e ficou em silncio.
    Foi no meio da discusso que Sir Gaylord entrou calmamente, parecendo bem-disposto, faces rubras.
    - Parece que h muito que fazer. - Olhou para o cenho momentaneamente franzido de Shanna. - Posso ajudar em algo?
    Shanna s faltou rosnar-lhe no rosto, mas sabia que seria insensato fazer isso na frente do pai. Resolveu pegar uma xcara de ch e dizer:
    - Parece que levaram o Sr. Ruark. O senhor saberia onde anda ele? As sobrancelhas de Gaylord se ergueram, surpresas:
    - O Sr. Ruark, o cativo? Caramba! Desapareceu? No o vejo desde... - deixe-me ver... - h duas noites atrs, aqui nesta mesa. Meu Deus, ele desapareceu h j 
duas noites?
    Trahern suspirou, impaciente, e controlou-se muito para responder:
    - Ele devia ter estado aqui hoje de manh. Nunca se atrasa.
    - Talvez esteja doente - sugeriu Gaylord. O senhor j mandou algum  casa dele...
    - O rapaz no est l - interrompeu, bruscamente, Trahern. - J mandei procur-lo na ilha inteira, mas ningum o viu.
    Gaylord ficou perplexo:
    - No consigo compreender como  que um homem pode sumir assim, especialmente numa ilha como esta. Ele  dado a... perambular? Ao ver o cenho levantado de Trahern 
e o olhar interrogativo de Shanna, ele pigarreou e pediu desculpas  moa: - Perdo, cara senhora, por ser to ousado em sua presena, mas, sendo viva, a senhora 
deve estar ciente de que h homens que ocasionalmente... bem... gostam da companhia de uma mulher. Talvez ele esteja... retido.
    A xcara de Shanna caiu no pires e ela quase derramou parte do lquido quente no colo antes de se recuperar. O azar de Gaylord foi haver Berta chegado  porta, 
a tempo de ouvir a ltima observao. Ela entrou apressada para revidar  altura:
    - Ela  pouco mais do que uma criana, seu desajeitado, uma criana, e lhe agradeo se guardar esses comentrios para si mesmo.
    Pitney bebericou o ch e espreitou Shanna, enquanto Gaylord se apressou a desculpar-se humildemente com as duas mulheres. Trahern bufou e ignorou Gaylord:
    - Dou crdito ao rapaz por saber a diferena entre trabalho e prazer. Temo que alguma coisa de ruim lhe tenha acontecido, seno ele estaria aqui.
    - Sim - concordou Ralston, indeciso. - Ele deve ter-se abrigado no navio que partiu ontem  noite. Que outro motivo teria o comandante para partir, a no ser 
para levar um biltre que deve ter feito alguma bobagem? O senhor s ver o Sr. Ruark de novo se estabelecer uma recompensa. Acho ento que, se ele for apanhado, 
deve ser enforcado para dar exemplo, ou uma poro de outros cativos faro o mesmo que ele.
    Trahern suspirou fundo:
    - Se ele no puder ser encontrado, devo supor que partiu de vontade prpria. Se for este o caso, prometo cinqenta libras a quem o capturar.
    Ralston sorriu por ver sua sugesto acatada, e lanou um olhar para Shanna:
    - O que acha, madame? No concorda que um renegado traioeiro deva ser enforcado?
    Shanna ficou atnita, e no soube responder. Seus pensamentos estavam totalmente confusos. Mesmo em sua imaginao mais desvairada, no julgara que caariam 
Ruark como se ele fosse um animal raivoso. Seus olhos perceberam a expresso debochada de Pitney, acusador e agourento, e no soube o que dizer.
    A busca por Ruark continuou  tarde. Shanna retirou-se para o quarto e tentou eliminar o pavor que comeou a invadi-la. Dando a Hergus a desculpa de no querer 
vestir-se, buscou mais uma vez o conforto de sua cama e tentou recuperar algumas horas do sono perdido durante a noite. A exausto finalmente a venceu e ela mergulhou 
em doce esquecimento. Os sonhos comearam, ento, a invadir-lhe a paz do sono.
    Estava feliz, cercada por crianas de vrias idades, enquanto aninhava um beb junto ao peito. Os guris riam, e um nenenzinho correu entre as pernas de seu pai, 
que o pegou nos braos fortes. As cabeas morenas se uniram, e o pai se transformou em Ruark, que se aproximou rindo dela e lhe ofereceu os lbios.
    Shanna acordou sobressaltada, o corpo molhado de suor. Era mentira! Profunda tristeza a percorreu. O sonho jamais poderia ser realidade! Uma sensao opressiva 
e dolorosa de solido a dominou e ela encolheu-se sob seu peso esmagador, enterrando o rosto no travesseiro. Devido  sua atitude, nunca reveria Ruark, jamais sentiria 
novamente o calor meigo e acariciante dos lbios dele nos dela, nem voltaria a ser consolada pelos braos protetores dele.
    J estava escuro quando Hergus trouxe uma bandeja de comida. Shanna ocultou os olhos inchados e o rosto manchado de lgrimas atrs das pginas de um livro, e 
pediu  mulher, com voz dbil, que deixasse o prato na mesa, sem sequer perguntar por que ela o havia trazido. A criada, porm, explicou por que, enquanto examinava 
desconfiada a jovem patroa:
    - Seu pai mandou dizer-lhe que Sir Gaylord acha que viu uma pessoa parecida com o Sr. Ruark na vila, e seu pai foi  cidade procurar e levou todos os homens 
da ilha com ele, para ver se podem encontrar o Sr. Ruark. No h nenhum homem aqui em casa agora. Seu pai est resolvido a achar o Sr. Ruark. Onde ser que ele se 
meteu?
    Shanna ficou muda e, quando a mulher saiu, no tinha mais nenhuma informao do que quando entrou.
    Para Shanna, o tempo passava agonicamente devagar. No conseguiu forar-se a comer sequer um pedao da comida no prato. Vestiu uma camisola limpa e um roupo 
leve e ficou sentada olhando para um livro de poesia no colo. No conseguiu concentrar-se; em todos os versos via o heri, esbelto e moreno, homem meio nu e de aparncia 
selvagem e olhos ambarinos. Com um gemido, jogou o livro para o lado e se atirou na cama, onde ficou olhando o vcuo. O relgio marcou 11 horas. Logo depois ela 
ouviu um barulho l embaixo e deduziu que fosse o pai voltando, evidentemente derrotado. Em seguida, seus ouvidos captaram o barulho de vidro quebrado. Seria seu 
pai, tendo um acesso de raiva? Ela entendia. Ele gostava de Ruark. Devia estar pensando que havia sido trado.
    A batida de uma porta fez com que ela enrugasse a testa e se levantasse. Pegou uma vela e foi at o vestbulo. Hergus dissera que seu pai levara todos os homens. 
Se ele estava de volta, ento os criados tambm
    estariam. A casa, porm, estava escura e, pela primeira vez na vida, lhe pareceu estranhamente ameaadora.
    - Quem est a? - gritou Shanna, do alto da escada, e tentou enxergar na sombra l embaixo.
    No obteve resposta, apenas o silncio opressivo e abafado. Corajosamente a moa comeou a descer a escada devagar, prestando ateno, esperando que algum som 
conhecido lhe aliviasse a tenso. Um arrastar de ps quebrou a calma lgubre, fazendo com que as costas de Shanna se arrepiassem. Reunindo toda a coragem, ela apressou-se 
agora a descer, protegendo a vela com a mo.
    - J perguntei quem est a. Sei que voc est a.
    Havia descido apenas mais dois degraus, quando certa mo peluda saiu da escurido e lhe roubou a vela. Shanna arfou e girou com o corpo. A luz revelou um rosto 
marcado por varola, onde uma cicatriz em toda a sua extenso puxava o canto de um olho. Um sorriso malvolo revelou dentes escuros e irregulares. Naquele instante 
de terror e pesadelo, pareceu que o demnio havia assumido forma humana.
    Parte dois
    Quando ouviu tiros de canho vindos da ilha, Ruark ficou inquieto, esperando que Harripen e a tripulao se voltassem contra ele. Estavam amontoados no tombadilho,
contemplando a ilha, e pareciam hav-lo momentaneamente esquecido. Como no tomaram atitude ameaadora contra ele, continuou ocupando-se de suas cordas, tentando
afroux-las em volta dos pulsos. Algum tempo depois ele foi, mais uma vez, interrompido por Harripen, que chamou vrios homens para se unirem a ele e apontou para 
a terra. Ruark no conseguia ver nada do que ia em terra, mas ficou aliviado por estar sendo posto de lado. Redobrou seus esforos, mas os ns estavam bem firmes.
    Harripen continuou a andar para l e para c no convs da escuna, e Ruark no obteve muito xito com os ns. A noite ficou silenciosa; os nicos sons que se 
ouviam eram os do ranger da embarcao, o barulho das ondas contra o casco e, de vez em quando, uma voz abafada. No havia atividades na ilha de Trahern.
    Quase duas horas se passaram quando se ouviu um grito do vigia e informou-se que o grupo vinha voltando. Embora a notcia estivesse longe de sua expectativa, 
Ruark suspirou de alvio. Com a graa de Deus, ele talvez sobrevivesse.
    Essa idia, porm, durou pouco, e ele se preparou para o pior, quando Harripen veio correndo do tombadilho, desembainhando a adaga. Ruark acalmou-se ao perceber 
que o golpe do homem no era contra ele e, ao contrrio, lhe cortou as amarras. Ruark desembaraou-se rapidamente das cordas enquanto o capito pirata se apressou 
de novo a voltar  balaustrada, dizendo por cima do ombro:
    - Voc nos disse a verdade, rapazinho. Nossos homens vm a.
    A escuna foi saudada com um assobio na noite, e logo os piratas estavam em toda parte, trazendo sacolas e arcas cheias de despojos. Ruark aproveitou-se da distrao 
geral e se recolheu  sombra, esperando o instante de se atirar na gua e nadar para terra. Estava tirando as sandlias, quando um ba grande e esculpido, com tranca 
especialmente trabalhada, foi iado para bordo. Ficou preocupado ao reconhecer a pea como sendo a que ficava debaixo do retrato de Georgiana na manso. Foram precisos
    seis homens para al-lo, e o ba foi posto no convs com um barulho que indicava seu peso. Ruark se aproximou, comeando a ficar apavorado.
    Dos barcos abaixo, um guincho abafado cortou o ar de repente, arrepiando Ruark. Esperou tenso enquanto o meio francs Pellier escalou o lado do navio e trouxe 
um vulto que se debatia, coberto dos ps  cabea por grosso saco de aniagem, firmemente preso. Tornozelos finos e ps pequenos e descalos saam pelos fundos e
deixavam ver um traje branco.
    - Ruark praguejou tenso e caminhou em largas passadas para a luz do lampio, enquanto os laos eram soltos e o saco retirado. Ele se viu ento fixando os olhos 
esverdeados mais furiosos que j vira.
    - Voc! - - arfou Shanna. - Voc. seu patife! - Pegou um remo e, antes que algum pudesse mexer-se, dirigiu-o com toda a fora contra a cabea de Ruark. Ele 
se desviou com facilidade e o objeto bateu contra o mastro atrs. Shanna gritou, e o remo lhe caiu das mos inertes. Lutando contra lgrimas de dor, ela olhou com 
dio para ele.
    - Seus idiotas! - - rosnou Ruark, detendo o riso debochado de Pellier. - Sabem o que fizeram? Esta  a filha mimada de Trahern, e ele vem atrs de vocs para 
se vingar.
    - Sim, e vou providenciar para que ele enforque voc primeiro - bramiu Shanna. - E depois vou rir, quando ele jogar sua carcaa aos tubares.
    Perante esse acesso, Ruark fez-lhe uma mesura zombeteira. Ele bem sabia a precariedade da situao em que ambos estavam metidos. Antes, era s consigo mesmo 
que se tinha de preocupar, e a fuga teria sido relativamente simples, mas livrar os dois requeria planejamento mais cuidadoso.
    Trs outros prisioneiros foram iados a bordo, e Ruark os reconheceu como sendo cativos. Foram atirados brutalmente no convs contra o parapeito e amarrados 
juntos. Ruark deduziu que eles continuariam como escravos, mas agora sob o chicote de patres menos humanos.
    Ruark andou em torno de Shanna, pavoneando-se. Analisou-a apreciativamente, como se estivesse com idias lascivas. No momento, Pellier e Harnpen achavam-se mais 
interessados nos tesouros que estavam sendo iados para bordo e deixaram sua adorvel prisioneira vigiada por vrios homens.
    - Seu traidor! - sibilou ela para Ruark.
    - No sou traidor, senhora. - A voz dele estava baixa e s foi ouvida por ela. - Sou uma simples vtima do destino e dos caprichos de uma mulher. Dano conforme 
a msica, e aproveito ao mximo o que ela oferece.
    Shanna ficou furiosa. O remorso da atitude que tomou em relao a Ruark desapareceu, devorado pela raiva.
    - Seu patife desgraado sem me! - rosnou ela. - Seu bastardo infeliz e velhaco!
    Ruark riu sardonicamente. O roupo dela estava aberto e a camisola curta no prejudicava o olhar minucioso de Ruark. Percebeu que ela estava
    causando rebulio  tripulao, pois os homens comeavam a se aproximar, de todos os lugares da embarcao, para melhor contemplar aquela beleza arrebatadora, 
cujo cabelo caa em magnfico desleixo nos ombros e brilhava como uma lanterna acesa. Ruark tinha difcil tarefa  frente.
    Sbito, Shanna sentiu a mo ousada de Ruark em seus seios, acariciando-a grosseiramente, e, engasgada de raiva, tirou-a violentamente e fechou a camisola com 
fora em redor da cintura. Viu o desafio nos olhos dele e sua fria aumentou.
    - Desta vez voc traiu meu pai - disse, entre os dentes cerrados. - Ele vai persegui-lo como o co danado que voc .
    - Tra! - Ruark riu acidamente, e continuou: - No, madame, rogo-lhe que reconsidere. Apenas busquei os favores de minha mulher. Foi ela quem indignamente traiu 
minha confiana e...
    - Seu cafajeste nojento! Seu vagabundo atrevido! - Lvida de ira, Shanna se arremessou contra ele, tentando apagar-lhe o sorriso debochado, odiando-o com todas 
as fibras de seu ser. Zombando, Ruark pegou-lhe os pulsos e a puxou contra ele de forma brutal. Shanna gemeu de dor, sentindo a fora terrvel daquele corpo magro 
e rijo, e sua prpria vulnerabilidade. Suas costelas rangeram com o esforo, e at respirar ficou difcil para ela. Embora tentasse reunir todas as foras, no conseguiu 
escapar e finalmente caiu em cima dele. Lgrimas lhe escorreram por entre as pestanas, e Ruark a ouviu murmurar, em amargo desafio:
    - Hicks devia ter enforcado voc. Eu s queria que tivesse...
    Pegando-lhe o queixo adorvel, Ruark forou-a a olhar-lhe os olhos ambarinos. Seu rosto moreno estava rgido e suas palavras a feriram terrivelmente:
    - No posso dizer que graas a voc consegui sobreviver  sua ltima traio. E acrescentou, maldosamente: - Se minha sorte continuar, este assunto tambm vai 
terminar com minha vitria.
    Ele a empurrou para as mos ossudas de Gaitlier, o mirrado criado do Comandante Pellier:
    - Vigie a moa, e no deixe que faa bobagens - ordenou Ruark. Foi ao parapeito e subiu nos enfrechates para observar o vilarejo. - Pellier, d-me sua luneta 
- disse, aps um instante. Recebeu logo o instrumento e com ele examinou o porto.  luz vvida do luar, viu os mastros escuros de um navio e algum movimento a bordo. 
Devolveu a luneta ao francs e disse:
    - J esto preparando o Hampstead. Logo vocs estaro sendo apresentados a seus canhes.
    Ruark conhecia a destruio que uma artilharia podia fazer a um navio. Sabia que a ira de Trahern impeliria carga total ao ataque. Se Trahern j tivesse conhecimento 
de que haviam seqestrado sua filha, agiria com cautela, mas Ruark no podia arriscar-se. O GoodHound tinha dois canhes de proa e dois de popa, e vrios falconetes 
em rodinhas. Os canhezinhos no seriam preo para os canhes, mas a escuna era gil e poderia escapar, com as velas escuras. Ruark desceu do parapeito e encarou 
o grupo silencioso:
    - A no ser que queiram fazer a ltima viagem, queridos, acho melhor nos pormos a caminho.
    Harripen era mais decidido do que os outros e berrou:
    -  isso mesmo que a gente vai fazer.
    O ingls ps os marujos a trabalhar com uma srie de ordens:
    - Ponham os barcos a bordo. Voc a, Pinch - gritou para um marinheiro mais idoso que estava de vigia no castelo de proa. - Ice logo a maldita ncora. Barrow, 
prepare todos os centmetros de velas negras que encontre. - Virou-se ento calmamente para Pellier e riu para o rosto marcado do outro: - Desculpe, Pellier. O barco 
 seu. Se quiser estabelecer o rumo at Mare's Head, a gente segue de boa vontade.
    O francs olhou com raiva para um dos homens que haviam ido  terra com ele:
    - A gente podia ter sado sem ser notado, se voc no tivesse deixado aquela desgraada fugir da manso.
    Sua vtima guinchou e tropeou, ante a investida do outro:
    - No fui eu quem deixou aquela velha escocesa sumir. Foi Tully! Ela deu um chute nos ovos dele e se mandou para a vila.
    - Vou mandar cap-lo - ameaou Pellier, adiantando-se. Tully, um homem tmido, examinou seu comandante.
    - Comandante, se no fosse por ela - disse para Pellier - a gente no tinha pegado esses trs, que fazem tudo que ela quer.
    Suas palavras foram ignoradas quando o capito pirata ps a tripulao a trabalhar. Rapidamente, a escuna singrava os mares escuros. S depois que a vela quadrada 
do navio de Trahern ficou perdida no horizonte  que os saqueadores voltaram a verificar os despojos. Abriu-se pesada caixa de ferro, que continha moedas de ouro. 
A carga, logo passada para o camarote do comandante, foi posta numa arca, para ser depois repartida. Havia vrias sacolas enormes de placas de ouro e de prata e 
um barril de peas de porcelana cuidadosamente embaladas. Estas, de nenhum valor para os piratas, estavam destinadas ao prefeito de Mare's Head, assim como alguns 
caixotes de vinhos e iguarias. Ficou ento apenas a grande arca, e todos suspenderam a respirao, porque esta prometia ser o maior tesouro.
    Pellier olhou astutamente e se gabou em voz alta:
    - A filha do Trahern disse que aqui h um tesouro que nenhum homem pode contar.
    Shanna se aproximou; nos lbios macios, havia um sorriso triste. Ruark a olhou e compreendeu que ela tramava algo na cabecinha linda. Por precauo, ficou por 
perto, observando os preparativos, mas sem deles participar. Uma machadada cortou o ar e arrancou o cadeado. Pellier gritou e abriu a tampa. Os olhos pretos brilharam 
ao ver uma divisria cheia de bolsinhas de couro:
    - Jias! - exclamou. - Estamos ricos!
    Avaramente, pegou uma amostra, puxou o fio para abri-la e derramou o contedo na mo; depois ficou olhando mudo de surpresa, pois a
    grande riqueza que segurava no passava de um gatilho, um cadeado e a coronha de uma espingarda. Frentico, pegou nos saquinhos todos e s encontrou peas de 
ferro. Ele e Harripen levantaram a pesada divisria e puseram de lado uma pele de animal, que revelou fileira aps fileira de canos de mosquetes harmoniosamente 
dispostos em encaixes de madeira. Harripen levantou uma tira, perplexo e a examinou.
    - Macacos me mordam! - comentou. - So apenas mosquetes e at sem coronhas. No passam de umas porcarias de mosquetes!
    Shanna no se conteve e riu escarninha:
    - Claro, seus tolos. O que mais pensavam?
    O som de sua zombaria elevou-se acima dos murmrios dos homens e lhes abalou o orgulho:
    - E mesmo que vocs tivessem as coronhas dos mosquetes - zombou a moa - elas no adiantariam nada, pois a arca foi jogada no convs e todos os canos esto tortos. 
Meu pai os guardou como lembrana de seu nico fracasso comercial. Isso sempre o irritou, mas agora tenho a certeza de que vai ser motivo de riso.
    Ruark lamentou a infantilidade dela, pois suas palavras bem poderiam provocar um derramamento de sangue. Pellier girou ao redor dela e a xingou:
    - Voc jurou que a arca guardava um tesouro incontvel.
    - Claro! - respondeu Shanna docemente. - E no  verdade? - Ela mexeu a cabea, e os cabelos se agitaram por sobre seus ombros.
    Enraivecido, Pellier lhe pegou o brao e o torceu cruelmente at Shanna gritar de dor e ajoelhar-se aos ps dele. O francs tirou um punhal da bota e o exibiu 
para ela. Nos olhos de Shanna, percebia-se agora certo medo.
    - Vou ento cravar o preo na sua preciosa pele, sua cadela. Sbito, Pellier sentiu o pulso agarrado fortemente. Devagar, contra sua vontade, a lmina foi afastada 
de Shanna e ele encarou o rosto sorridente de Ruark.
    - Sei que voc  impetuoso, meu amigo, mas acho que no a este ponto.
    Pellier deixou Shanna estatelar-se no convs. Sua mo livre fez meno de pegar a arma que estava no cinto, mas Ruark tambm lhe agarrou o brao. O mestio lutou 
com Ruark, mas seus braos estavam presos de forma tal que nenhum membro da tripulao nem os comandantes podiam ver a luta. Quanto mais Pellier se tentava livrar, 
mais forte Ruark o agarrava, e finalmente ele ficou entorpecido. Seus olhos buscaram o rosto do seu captor e nele reconheceram uma fora e uma determinao que ignorava 
existirem at ento. Em sua cabea nasceu a idia de que ele s poderia descansar quando esse fulano servisse de alimento para os peixes. Sem ter alternativa, acabou 
com a luta intil, mas continuou sendo agarrado.
    - Tenho muito amor a meu pescoo e no quero v-lo na ponta do mastro do Hampstead - continuou Ruark, descontrado. - Vocs j enganaram
    Trahern, mas ser que querem que a vingana dele se abata sobre ns todos? H tambm um outro fator a considerar: o proveito que vocs podem tirar da carne da 
moa ser muito minguado e terminar logo, mas o pai dela tem loucura pela filha, porque  a nica, e sem dvida pagar resgate compensador a quem a devolver s
e salva.
    Reconhecendo lgica nessas palavras, Pellier relaxou e Ruark o soltou.
    - Oui, voc diz a verdade - rosnou, relutante, os olhos de falco postos em Shanna que, embora machucada e abalada, mostrou desprezo no olhar que dirigiu  imunda 
pessoa de Pellier. Com um sorriso licencioso, ele deu uma risadinha e falou: - Mas foi Pellier que a trouxe aqui, no ? Ela ser minha enquanto o resgate no for 
totalmente pago.
    A respirao de Shanna lhe ficou presa na garganta. Estava insultada e chocada e olhou para o homem horrorizada. O exame lascivo dele invadiu-lhe as roupas, 
fixando-se nos seios redondos e nos quadris. Shanna no conseguiu reprimir um estremecimento de desdm e fechou o fino roupo at o pescoo. Quando viu Ruark a bordo, 
pensou que ele havia planejado sua captura, por vingana ou desejo. A idia, embora a tivesse aborrecido muito, era pelo menos remotamente aceitvel como destino, 
e ela calculou que poderia tolerar o fato. Agora, um pavor glido e repugnante do que estava  sua espera comeou a se fazer sentir. Aquele bruto, Pellier, era totalmente 
asqueroso a Shanna. Era um homem imundo e nojento, sem a menor noo de decncia. Se lhe fosse dado escolher entre submeter-se a ele ou saltar n'gua, ela no hesitaria 
pela segunda hiptese. Na verdade, em questo de alternativas, Ruark era seu nico refgio. Mas como a havia trado antes, podia muito bem faz-lo de novo.
    Os modos de Ruark estavam quase calmos ao observar o exame que Pellier fazia de Shanna, obviamente j saboreando o que havia chamado de seu. Um homem mais observador 
que o mestio repararia no endurecimento das feies de Ruark e no olhar frio que lhe lanava, e se teria prevenido.
    Deliberadamente, Ruark pegou o pulso de Shanna e, apesar da resistncia da moa e de seus esforos para se soltar, ele a empurrou para o comandante. Ignorou 
os olhos verdes que faiscaram de dio e, com um dedo sob o queixo dela, levantou-o at perto da lanterna, de forma que Pellier pudesse claramente ver a beleza fina 
e delicada.
    - Posso dar-lhe mais um aviso, Comandante Pellier. Se seus olhos enxergam bem, ho de ver que a moa  realmente de rara beleza. - Os dedos de Ruark acariciaram 
a garganta frgil de Shanna. Sob esse toque, Shanna estremeceu, e ele se perguntou que emoo a estaria traindo. Acontece que ela se machuca  toa, e depois que 
voltar a casa, sua vingana pode ser ainda pior do que a de Trahern. Ela  a coisa mais valiosa para ele, e Trahern far tudo que ela quiser para se vingar. Para 
ser o tesouro que voc quer, ela precisa ser tratada com muito cuidado at o dia em que vocs tenham recebido o resgate.
    Ruark largou a mo de Shanna, mas antes lanou um aviso aos olhos da moa. Ento, cumprimentou tranqilamente Pellier, passou por Shanna e foi ao castelo de 
proa, onde se debruou na amurada e observou o mar iridescente l embaixo.
    Com a testa franzida interrogativamente, Shanna o analisou e se perguntou se esse homem, que sempre marcava sua vida, seria sua libertao ou seu fim.
    - Prendam a moa! - ordenou Pellier.
    Gaitlier correu pelo convs, pegou o pulso de Shanna e a arrastou junto, enquanto ela olhava vrias vezes para o vulto solitrio junto  amurada.
    A madrugada coloriu o cu com tons acentuados de roxo antes que o Sol, erguendo-se dourado no horizonte, o desbotasse para um tom cor-de-rosa em sua luz dourada. 
A manh despontou plena. O cu ficou azul claro, e a gua marinha transparente que ia e vinha em movimentos lnguidos transformou-se no mar. Velas triangulares se 
enfunaram com o vento, e a escuna singrou as guas como uma gaivota num vo desembaraado.
    Amarrada com os demais prisioneiros  base do mastro principal, Shanna estava bastante desconfortvel. Conseguiu cochilar, mas acordava sempre que se aproximavam 
passos. Normalmente, era Pellier que se aproximava, pernas separadas e braos nos quadris. O rosto moreno se contorcia em risinho malvolo, quando os olhos negros 
a perfuravam. Shanna tremia de apreenso porque sentia nele um desejo de vingana de v-la contorcendo-se de agonia como se a possusse de forma sdica.
    Finalmente, veio o meio-dia, e Shanna se abrigou  sombra das velas, protegida do Sol abrasador, que j lhe havia bronzeado o nariz e as faces. O cabelo comprido 
era agitado por suave brisa e rodopiava em redor do seu rosto, pontas enroscando-se em abandono.
    Os homens de Pellier paravam vrias vezes para observ-la, mas conheciam seu comandante e o temiam profundamente. Tinha acessos de mau gnio quando menos se 
esperava, e sua percia com armas lhe granjeara um respeito prximo do temor. H muito tempo tinham aprendido a ficar longe dele e do que lhe pertencia. Era apenas 
Gaitlier que trazia a Shanna um pedao de queijo ou po e um gole de gua, e mesmo isso costumava ser desaprovado por Pellier.
    Ruark mantinha sua prpria vigilncia a certa distncia, observando Shanna atravs de plpebras semicerradas, enquanto dava a impresso de dormir, calmamente, 
costas apoiadas na amurada e pernas estendidas.
    Nas sombras demoradas da tardinha, a escuna enfunou as velas e passou cuidadosamente por uma fileira de ilhotas pantanosas, pouco mais do que recifes cheios 
de areia, ciprestes e grupos de palmeiras. Alou-se uma bandeira preta e vermelha com uma barra preta e a embarcao passou por uma ilha um pouco maior, onde, numa 
praia plcida e alva, uma s cabana podia ser vista sob um teto de folhas de palmeira. Uma superfcie reluzente refletia a luz do Sol declinante, e o sinal foi respondido 
com acenos dos
    piratas na escuna. Shanna e os outros refns foram soltos e agrupados perto da prancha de desembarque. Ruark levantou-se de onde dormitava e olhou para os recifes, 
anotando os detalhes.
    Quando o Good Hound alcanou o fim da ponta da ilha, chegou a uma extenso aberta de gua rasa com ondas que assinalavam recifes.  frente, havia uma ilha muito 
maior com um morro baixo que dava para uma enseada rasa e meio protegida. Podia-se ver tambm uma fila de cabanas em runas. No centro e em cima da duna havia uma 
estrutura outrora caiada, cercada por um muro baixo de pedra com um quintal. Atrs do porto e durante vrios quilmetros de ambos os lados, estendia-se um pntano 
com mangues, que combinavam com os recifes alm da praia e oferecia cerca de um quilmetros de proteo contra ataques.
    Harripen uniu-se a Ruark na amurada e debruou-se a seu lado. O rosto do ingls se revelou num sorriso afetado, quando ele enviesou o olhar para o homem mais 
moo:
    - Bem, meu rapaz, este  o nosso cu: Mare's Head. O que voc acha? Observou Ruark detidamente, mas este s deu de ombros, de forma discreta.
    - Parece seguro.
    -  mesmo. - O brao de Harripen se esticou em direo a um local onde se viam partes quebradas de um navio. - V aqueles destroos? Era parte de uma frota espanhola 
que tentou colocar um galeo perto para bombardear nossa cidade, mas as correntes da mar alta so fortes e traioeiras. - Riu calorosamente e cofiou a barba no 
queixo com cicatrizes.
    - Quando o navio parou aqui, a gente ps um canhozinho num esquife e acabou com ele.
    Ruark observou a euforia com que o homem contou o caso e disse:
    - Se um sujeito resolvido protegesse seu navio com outro e fosse cuidadoso, poderia dar certo, e outros barcos poderiam interceptar algum tentando fugir. Voc 
ficaria encurralado l.
    - Pois , rapaz. - Harripen riu. - Poderia, no ? Mas acontece que o rato mais esperto procura sempre proteger seu buraco antes que outro entre nele.
    Ruark espreitou o pirata com a testa franzida. Harripen deu um risinho furtivo.
    - No caso de os cachorros quererem com-lo. Ruark deu-lhe corda:
    - Precisaria ser mesmo um rato muito esperto para se safar dessa.
    - Enquanto houver um navio por perto, a gente est a salvo, rapaz. - explicou o ingls ansioso. - H um canal atravs do pntano e no h recife algum do outro 
lado. Os espanhis  que vieram aqui antes. - Olhou fixo para Ruark, que ficou silencioso. E preveniu: - Um homem deve conhecer o caminho, e a me natureza o mantm 
bem escondido. - O pirata grisalho virou-se e foi ocupar-se com os preparativos para o desembarque; Ruark o ficou olhando, muito curioso.
    Uma multido estava reunida na praia: eram prias do mundo encurralados naquela forma atrasada de vida, com pouca esperana de levar uma existncia mais digna. 
Na verdade, o povoado no se conseguia manter sozinho e sobrevivia com os servios que prestava  frota de corsrios. Vendedores ambulantes vinham com cestas, apregoando 
seus artigos, na esperana de que os guerreiros estivessem eufricos com a vitria e partilhassem parte dos despojos comprando uma quinquilharia qualquer. Meretrizes 
espalhafatosas e imundas procuravam um olhar favorvel; as mais ousadas gritavam convites  tripulao, enquanto exibiam bustos fartos e coxas gordas, pavoneando-se 
com os braos nos quadris. As crianas - poucas - tinham o olhar desesperanado ou j revelavam a malcia e a licenciosidade. Os mendigos eram cheios de feridas 
e cicatrizes, testemunhas da misria predominante na ilha; eram os mais felizes. Os mais infelizes eram aqueles que haviam sofrido ferimentos profundos em batalhas 
e no tinham um brao ou uma perna, e morriam lentamente em seus buracos infernais. Essas pobres runas, cujos corpos mutilados traziam sempre um esgar de dor no 
rosto, e as mulheres, que eram usadas e maltratadas at parecerem bruxas de contos de terror, ficavam afastadas em muda resignao, enquanto as outras mulheres, 
que ainda mantinham algum vigor, amontoavam-se na esperana de pegar uma moeda, um objeto qualquer, um pedao rejeitado de comida, e algumas partilhavam o que havia 
a ser partilhado. Tripulantes jogavam moedas de cobre do alto da embarcao e riam-se, enquanto rapazes e homens esqulidos esparramavam-se no cho para peg-las.
    O estmago de Shanna se revoltou com a crueldade daquelas cenas. Ela sempre se havia considerado uma mulher viajada e instruda, mas nada do que vira ou lera 
a preparara para aquele horror. Comeou a perceber por que seu pai se esforara tanto para que seus seres amados jamais conhecessem a pobreza. Nos rostos atormentados 
das crianas, visualizou o desespero do pai quando criana, e algo se agitou fundo em sua memria, mas Shanna estava muito cansada para pensar.
    Um murmrio interrogativo foi proferido pelos cativos ao lado dela. Aquele lugar os assustava tanto quanto a ela, e eles amaldioaram o destino que os tinha 
feito cativos. Escravido era a nica coisa que podiam esperar dali e achava que sua prpria sorte no seria melhor do que a da filha de Trahern. Quando Shanna ergueu 
o olhar em sua direo, com expresso cptica em seu rosto, eles calaram os resmungos. Um homem xingou e desviou o rosto, enquanto outro observou acidamente:
    - So uns malditos de uns selvagens. O prprio diabo. Deus nos salve a todos.
    Shanna sucumbiu, deprimida, e lhes deu as costas. Sabia que eles manifestavam uma apreenso que tambm era a sua. Desajeitada, afastou uma madeixa de cabelo 
do rosto, com as mos amarradas. Estava indiferente a todas as emoes, a no ser um pavor que lhe roa as entranhas e esmagava a coragem que ela procurava aparentar. 
Resolveu-se a no se mostrar assustada, mas seus joelhos no deixavam de tremer, e um estremecimento incontrolvel
    ps por terra sua determinao. Quando conseguiu parecer serena, seu queixo tremeu e lgrimas lhe vieram aos olhos. Apesar de sua demonstrao de autocontrole, 
embora tensa, sentia um medo enorme, sem saber qual seria seu destino, mas convencida de que os bandidos planejavam um fim cruel para a filha de Trahern. Os olhares 
constantes dos piratas e seus risos debochados a enervavam muito. Machucada e faminta, exausta pela falta de sono, estava aptica e confusa. Sua cabea doa devido 
ao Sol implacvel.
    Insegura, Shanna olhou para Ruark. Ele estava perto da proa do navio observando a embarcao avanar para o ancoradouro primitivo que formava o cais. O cabelo 
negro agitado pela brisa e os ombros largos e morenos reluziam, suados. Parecia um estranho, um homem que ela no conhecia, distante, testa franzida, como se suas 
preocupaes fossem excessivas. Sentiu enorme decepo pela forma superficial com que ele a havia tratado, mas admitiu tambm a loucura da raiva que fizera com que 
ela o tivesse feito expulsar da ilha. Se houvesse esfriado a cabea e esquecido a vingana imediata, poderia hav-lo feito pagar 1000 vezes pelo deslize. Ela era 
a nica culpada pelo acontecido, e ele tinha o direito de buscar o desagravo.
    Teve medo de que Ruark estivesse disposto a v-la maltratada e injuriada por todos os homens a bordo, e essa certeza comeou a apavor-la. Suas reservas de fora 
j estariam exauridas, se o biltre do Pellier quisesse atac-la. Era melhor, porm, no pensar nas degradaes que precederiam o ato final, e Shanna combateu o desespero 
que ameaava reduzi-la a uma runa soluante e lamuriosa.
    Como toda a sua fortuna se concentrava nele mesmo, Ruark no tinha muito com que se preocupar. Estava satisfeito por no haver despido a cala antes da visita 
de Pitney, ou era bem possvel que agora se encontrasse totalmente exposto ao ar. Embora os comandantes piratas lhe houvessem prometido parte dos despojos, ele acreditava 
que Pellier no gostara de sua interferncia quanto a Shanna. Considerando a ateno possessiva do mestio, ela precisaria ser vigiada intensamente. Ruark achava 
tambm que, se parecesse ansioso por defend-la, isso poderia despertar desconfiana. Ele precisava ganhar a confiana dos bandidos, ou pelo menos algum respeito, 
ou fugir seria duplamente difcil. Por outro lado, no conseguiria tolerar que ningum pusesse a mo em sua mulher, e sabia que, se eles espicaassem Shanna, ela 
poderia muito bem arrasar o orgulho deles com sua lngua ferina, o que acarretaria terrveis castigos.
    "Pode acontecer que eu precise lutar contra eles todos", ponderou Ruark para si mesmo. "E em favor da mesma moa que no aceita minha proteo, porque acha que 
eu estava bancando o engraadinho com outra. De qualquer modo, estou resolvido a escolher o caminho que nos tirar deste inferno quer Shanna me aceite, quer no."
    Durante certo tempo, Ruark contemplou o mar azul-esverdeado que reluzia l embaixo e pensou na semelhana que havia entre ele e aqueles
    olhos que o haviam levado quele canto do universo e ainda o excitavam com a promessa de uma recompensa alm de sua compreenso.
    A escuna deslizou contra o cais e, quando as cordas foram presas, Harripen caminhou em largas passadas pelo convs, batendo palmas e gritando:
    - Uma recompensa pela primeira mulher, camaradas. Que tal? Uma libra por Carmelita.
    Um grunhido ntido ouviu-se da proa:
    - No tem olhos na cabea, cara? Aposto todo meu dinheiro na filha do Trahern. Vai ser preciso batalhar muito pra conseguir o traseiro dela, e todo o resto.
    -  - respondeu um bufar escarninho. - Se voc a conseguir antes de Robby, vai dar-se mal, hein?
    Shanna continuou imvel, sem demonstrar estar afetada pela grosseria dos homens, mas internamente estremeceu. Sua noite j havia sido bastante desagradvel,
mas percebeu que apenas seu valor potencial como refm havia evitado que ela passasse a noite no camarote do comandante ou nos alojamentos dos tripulantes, quando 
no nos dois lugares. Pelo menos por isso ela devia agradecer a Ruark.
    Este prestou pouca ateno  brincadeira dos marujos. Achou que os homens estavam apenas brincando, pelo menos naquela hora. Desde que Pellier continuasse vivo, 
Ruark sabia que a verdadeira ameaa era ele. Cautelosamente, observou o francs aproximar-se de Shanna e ficou andando de um lado para o outro quando o homem colocou 
comprida correia de couro na garganta da moa. Sbito, sem aviso, Ruark se viu impedido de andar pelo peito peludo do imediato de Pellier e por trs marinheiros. 
Ruark tentou desviar-se, mas com um sorriso largo que exibiu dentes irregulares e podres, o imediato ficou  sua frente e, por sobre seu ombro forte, Ruark viu o 
sorriso malvolo de Pellier.
    - Bem, cara - disse o imediato, sorrindo maldosamente. - J que voc quer ser um de ns, vamos ver como  que se faz para ancorar um barco.
    A rampa de desembarque tocou o cais e o comandante pirata comeou a movimentar-se para o caminho aberto. Nesse instante um calafrio percorreu a espinha de Shanna 
e seus olhos dirigiram um ltimo e desesperado apelo  sua nica esperana, Ruark. Ela o viu junto a vrios tripulantes, e ele no fez meno de se aproximar. A 
testa franzida de Ruark enrugou-se ainda mais ao v-la, mas ele parecia disposto a deix-la nas mos daquele pirata nojento.
    " assim que ele d importncia a seus altos ideais e aos votos do matrimnio", pensou Shanna, amargamente.
    A falta de ao da parte dele a irritou. Seus olhos se encontraram e, diante da ameaa de cair no choro, Shanna levantou o queixo num gesto desafiante de desprezo. 
A correia apertou em seu pescoo e ela saiu aos tropees atrs de Pellier. ",, (
    Shanna desfilou atrs dos capites piratas como parte da pilhagem desembaraada aps ela, a nica exceo sendo a grande arca, que foi deixada no convs. Os 
pulsos de Shanna estavam presos  sua frente, e o cabelo comprido caa despenteado em seus ombros, ocultando-lhe o rosto dos olhos curiosos dos habitantes da vila. 
O dio que ela sentia por ser exibida assim era intenso, embora lhe recordasse Ruark, ao haver sido iado para bordo do Marguerte em correntes.
    Algumas rameiras a cutucaram com dedos sujos e lhe puxaram impiedosamente os cachos louros. Shanna desviou-se irritada, mas isso s fez com que as mulheres implicassem 
mais ainda. Maldosas, comearam a beliscar-lhe as pernas, braos e ndegas, xingando-a de vrios nomes, muitos dos quais Shanna s podia deduzir o que significavam.
    Quando conseguiu livrar-se das marafonas, Shanna estava uma triste viso. Sua aparncia j no era a de uma moa de alta classe. Sua camisola se achava rasgada, 
os restos de uma manga caam estraalhados do ombro e os ps descalos estavam feridos pelas pedras da rua e em bolhas, pela areia escaldante. Ainda assim, caminhou 
com a dignidade de uma Trahern e permitiu que o dio lhe mascarasse a dor e as apreenses.
    Um suspiro de alvio quase lhe escapou, quando a deixaram em paz. Cautelosamente, ergueu o olhar para a grande estrutura caiada  sua frente. Ampla varanda estendia-se,
e uma vulgar figura de proa esculpida  semelhana de uma sereia de seios grandes pendia de um poste acima de suas cabeas. O lugar estava maltratado e em runas 
e precisava de reparos urgentes, mas Shanna deduziu que a maioria dos que l viviam era pouco mais do que parasitas, que faziam o mnimo possvel de trabalho honesto.
    Sob a ninfa que sorria timidamente, um homem enorme, da mesma altura e porte de Pitney, cumprimentou os vencedores. A careca reluzia de suor e as suas estavam 
enfeitadas por fitas berrantes nas pontas.
    - Muito bem, seu porco ladino! - gritou a voz de tenor. - Voc foi mesmo  ilha de Trahern, e voltou inteiro, hem? - Deu um risinho ao observar os caixotes e 
os bas sendo descarregados na varanda. - E trouxe tambm uma bagagem de classe.
    Um rpido puxar na corda, e Shanna foi impelida  frente do gigante enquanto ele a analisava grosseiramente. Tremeu de nojo quando o homem lhe pegou o queixo 
e lhe virou a cabea, inspecionando-a como se fosse um animal.
    -  uma mocinha muito bonita, embora Trahern me tenha deixado poucos meios para apreci-la todinha. Mas por que traz-la aqui? - perguntou aos companheiros.
    Pellier riu, astuto:
    - Esta  a menina dos olhos de Trahern,  a filha dele. Ela vai trazer um monto de moedas para a gente.
    - Sim, se a gente viver o bastante para desfrut-las - bufou Harripen.
    -  impossvel para ele fazer um navio grande passar pelos recifes sem afundar. A gente est a salvo aqui - afirmou Pellier.
    O gigante mordeu os lbios e contemplou o horizonte, parecendo ficar nervoso.
    - Trahern no demora, isto  certo - disse, em tom preocupado. Fez um gesto para os prisioneiros ocultos atrs de Shanna e resmungou: - Se Trahern der as caras 
a gente vai precisar de gente extra. Tragam a moa para dentro, caras, e vamos tomar um gole.
    O Sol estava no horizonte e a noite logo estenderia seu manto de veludo sobre a ilha. Ao ser levada para dentro, Shanna relanceou o olhar,  procura de Ruark, 
mas no o viu. Sentida, perguntou-se se ele j estaria de namorico com alguma mulher no cais.
    Alguns degraus conduziam a uma taverna onde lampies foram acesos para eliminar a escurido da noite. As pedras grandes e chatas sob os ps de Shanna estavam 
frias e foram um alvio, depois da areia escaldante. Pellier cruzou o aposento comprido, arrastando-a com ele, e foi reunir-se ao homem a que chamavam de Me, junto 
 mesa. Quando seu anfitrio berrou pedindo cerveja e deu um soco nas tbuas, Shanna se assustou. Imediatamente surgiram duas mulheres e, recorrendo a barris enfileirados 
na parede, foram enchendo os imensos caneces. Harripen acariciou os seios bovinos de uma delas e lhe sorriu.
    - Carmelita, voc est to bonita como nunca, mulher. Que tal uma trepadinha?
    Uma voz riu alto na extremidade da sala:
    - Ele apostou em voc, Carmelita. E est querendo ganhar a aposta. Agitando a cabea morena e com um sorriso malicioso, Carmelita empurrou uma caneca para as 
mos pegajosas do ingls, derramando parte do lquido na cala dele.
    - Isso  para esfriar seus ovos enquanto trabalho, seu patife. Vou para a cama com quem quero, mas isso no quer dizer que v com voc, seu cafajeste nojento.
    Risadas altas e zombeteiras percorreram a mesa at que Harripen olhou feio para os companheiros e os fez calar. Ansioso para demonstrar sua habilidade com as 
mulheres, Pellier passou um brao pela cintura de Shanna e procurou atra-la para um beijo e um carinho h muito desejado. Com violento reflexo, Shanna girou as 
mos presas, pretendendo manter o corpo nojento e suado longe. O golpe atingiu o homem abaixo das costelas. Surpreso e sem ar, o mestio cambaleou para trs. Ao 
lutar por equilbrio, com um p oscilando precariamente no ar, Shanna viu sua oportunidade. Com o p, chutou violentamente o calcanhar dele. Pellier girou com o 
corpo e caiu de cara no cho empoeirado.
    A menor das garonetes, mulher sem graa e de modos negligentes, que se havia aproximado para encher o caneco de Pellier, abriu a boca horrorizada. Shanna percebeu 
o perigo do que havia feito. A alegria dos corsrios sacudiu o local, e ela se deu conta de haver envergonhado Pellier perante todos os outros, o que para ela era 
bem feito, mas talvez significasse sua morte.
    Harripen conteve as risadas e disse:
    - Robby, levante-se! No adianta nada voc ficar a sozinho. Voc esqueceu de levar a moa.
    A dignidade do francs ficou seriamente abalada, para no mencionar suas costas, j que ele se estatelou no cho. Seus olhos estavam manchados de sangue, e o 
rosto, escarlate de raiva quando ficou de p, fuzilando Shanna com o olhar. As palavras se lhe engasgaram na garganta.
    - Sua cadela metida a besta, eu a ensino a ser uma amsia como quero, que atende rpido a meus chamados.
    Selvagemente, pegou a correia de couro, quase desequilibrando Shanna e fazendo-lhe um vergo na garganta. Arrastando-a atrs de si, ele caminhou em largas passadas 
pelo aposento, at chegarem a um grande buraco aberto no cho. Pellier tirou uma faca da bota e, para surpresa de Shanna, cortou-lhe as amarras, livrando-a da correia 
e das cordas. Shanna franziu o cenho interrogativamente, mas, com um sorriso afetado, ele chutou uma escada para dentro do buraco e fez um gesto para que ela descesse.
    - A no ser que voc queira minha ajuda - debochou ele, tentando peg-la, mas Shanna evitou-lhe o toque e obedeceu. Desceu para o buraco ftido e escuro e levantou 
a vista para saber o que esperavam dela. A escada foi retirada e ela viu Pellier debruar-se nas sombras perto da parede. Pesada grade- de ferro foi baixada para 
cobrir o buraco. Atnita, Shanna relanceou os olhos em derredor. Alguma luz vinha de cima, e ela percebeu estar numa pilha de detritos, debaixo da abertura. Teria 
Pellier a inteno de assust-la de isolamento e escurido? A idia era ridcula, porque Shanna tinha pavor era das atenes odiosas daquele homem.
    Um rudo de roar no escuro gelou a confiana de Shanna como um jato de gua fria. Um guincho perto dela quebrou o silncio e ela olhou para baixo a ponto de 
ver um rato passar a seus ps. Seu grito fez Pellier rir gostosamente. Ansiosa, Shanna esforou-se para pegar a grade acima de sua cabea, mas o pirata colocou pesado 
barril em cima da grade para que a moa no conseguisse desloc-la. Um rudo de corrida fez-se ouvir s suas costas, e Shanna girou o corpo e viu vrios dos animais 
cinzentos e peludos agachados  beira da luz. Seus olhos brilhavam, estranhamente vermelhos e cruis, como se pensassem em devor-la. Arfando, Shanna esgueirou-se 
para longe deles, e afundou mais ainda numa pilha de lixo.
    O fedor do buraco a sufocou e a fez quase vomitar. Shanna deduziu que os piratas usassem aquele lugar para satisfazerem suas necessidades. Os animaizinhos de 
olhos vermelhos ficaram mais ousados. Mais de seis deles a espreitavam, arrastando-se mais para perto sempre que ela desviava o olhar. Shanna recuou mais um passo, 
e seu p se enterrou at o tornozelo na sujeira. Um rato correu para ela e, sufocando um grito, Shanna deu-lhe um pontap que o fez voltar guinchando para junto 
dos outros. Mais ratos continuavam a se esgueirar na escurido, e comearam a avanar juntos. Um soluo trmulo escapou de Shanna, quando ela recuou at se ver com 
gua podre at os joelhos. Ouviu ento um riso sarcstico e uma cdea de po e pedacinhos de carne foram atirados pela grade.
    - Tome, minha senhora - zombou Pellier. - Eis seu jantar! - Ele riu perversamente. - Isto , se a senhora conseguir salvar alguma coisa de seus amiguinhos gulosos. 
Tome alguma coisa para aplacar sua sede, senhora. - Ele riu alegremente ao derramar cerveja pela grade. O lquido borrifou os ratos, que agora brigavam pela comida 
atirada. - No sinta saudades minhas. Seus amigos lhe faro companhia at eu estar pronto para a senhora.
    Suas pisadas desapareceram do pequeno mundo de Shanna e ela, embora faminta, limitou-se a olhar para os gulosos roedores. As gotas da cerveja que caa lhe deram
sede. O fedor ptrido de dejetos a fez tossir. Os ratos, brigando pelo ltimo pedao de comida, viraram-se ao mesmo tempo para olh-la. Alguma coisa esbarrou em 
suas pernas, e Shanna abaixou-se e pegou um pedao de madeira. Era firme e verdadeiro, ao contrrio do que lhe parecia a maioria das coisas que a rodeavam. A fome 
lhe doa no estmago, a sede lhe queimava a garganta, o cansao lhe consumia a vontade, e o medo lhe enfraquecia a determinao.
    Teve receio de desmanchar-se em lgrimas a qualquer momento e de suplicar que a tirassem daquele inferno. Mesmo enquanto encarava os rpidos animais, imaginava-se 
pequena, tendo de driblar os bichos entre os ps ou outras coisas que lhe resvalassem entre as pernas.
    Os ratos experimentaram a beira d'gua mas relutaram em entrar. Ento, um mais ousado saltou e comeou a nadar na direo de Shanna. A moa controlou-se e esperou 
tensa, segurando-se  borda. Mais um momento apenas! Com um soluo, bateu com o pau no animal, e no o viu mais. Cautelosos, os outros recuaram para uma distncia 
segura e continuaram a encar-la, olhos vermelhos brilhando enquanto murmuravam coisas e tramavam contra ela.
    Shanna comeou a tremer violentamente, e mesmo o fato de haver liquidado o rato no a animou. Se pelo menos houvesse um lugar seco e a salvo para onde ela pudesse 
fugir!... A tbua lhe caiu das mos. Os ratos se aquietaram e a observaram com malvola ateno. Ela teve vontade de soluar mas sabia que desastre maior a esperava 
se fraquejasse. Estava to cansada, to faminta, to sedenta, to fraca!
    Olhos malignos a olhavam no escuro, cada vez mais perto.
    "Algum me ajude!", gritou ela, mentalmente. "Qualquer pessoa! Ruark!"
    Por sobre o ombro do imediato, Ruark viu Pellier levar Shanna pela rampa de desembarque e misturar-se com ela na multido, at desaparecer. Voltou sua ateno
para os quatro que o rodeavam.
    - Tenho coisas mais importantes com que me ocupar do que varrer um convs - disse ele grosseiramente.
    - Poxa, esse sujeito  corajoso! - zombou o imediato. - Ele quer comear de cima. Bem, cara - os olhos pequenos se estreitaram - para ser comandante, voc tem 
que ter um navio e tem que ser melhor do que todos os seus tripulantes. A gente no tem muito por que achar que voc  bom, pois at aqui s fez comer nossa comida 
e beber nossa cerveja.
    Ruark recuou devagar at sentir a amurada. Seu p tocou em um balde de areia mantido preparado para pequenos incndios. Sua mo encontrou um buraco onde as malaguetas 
compridas de carvalho eram estocadas. Os piratas no usavam pistolas, mas, com bvio encantamento, passavam o dedo no punho das espadas enfiadas nos cintos. Ruark 
deduziu que Pellier houvesse deixado ordem para que ele no recebesse a parte dos despojos que lhe havia sido prometida. O mestio sem dvida planejara acabar com 
ele, mas Ruark tinha outros planos.
    Seus olhos depararam com a porta entreaberta do camarote do comandante, e Ruark lembrou-se de uma pilha de armas que viu quando o haviam interrogado. Debruou-se 
calmamente na amurada e olhou para os homens. Havia bancado o inexperiente e bobo junto a eles, para que relaxassem a vigilncia. Devia ter lembrado que eram chacais, 
que o devorariam sem a menor contemplao. Ruark quase sorriu e pensou: "Vamos ver quando esses chacais enfrentarem um homem mesmo."
    No vendo vantagem em esperar mais, Ruark inclinou-se e, com um movimento rpido, atirou-lhes no rosto o balde de areia, que caiu liberalmente sobre os quatro. 
Quando os homens tropearam para trs, xingando e limpando a areia dos olhos, Ruark rapidamente pegou uma malagueta e deu com ela na cabea do mais prximo. Lanou 
um soco nas costelas de outro e aparou o giro desordenado do imediato que estava com a espada na mo. Atingida pela espada, a malagueta foi quase partida em duas. 
Sua utilidade como arma ficou seriamente prejudicada, e Ruark a atirou no
    rosto do quarto homem, que se desviou para evit-la e foi de encontro ao imediato. Conseguida a vitria, Ruark correu para o camarote e fechou a porta, enquanto 
vrios homens a foravam do outro lado. Passou a tranca e levou alguns instantes  procura de uma arma. Deixou de lado uma espada enfeitada e ps a mo no punho 
de um sabre comprido. Tirou a arma da bainha; a lmina brilhou com um tom azul  luz mortia. Embora resistente, seu equilbrio era tal, que quase no lhe pesou.
    Voltando  porta, Ruark cronometrou os pesados golpes desfechados contra ela. Em seguida, numa pausa entre golpes, soltou a tranca e esperou. A porta foi logo 
aberta e o peso dos homens os levou de cabea para dentro do camarote. Ruark chutou o traseiro do ltimo homem que entrou, e este foi de encontro ao grupo estatelado. 
O imediato ficou de p e atacou, com um grito de raiva, desembainhando a espada. A pesada lmina foi contra a beira do sabre e espatifou-se numa coluna de ferro. 
O sabre curvo e comprido voltou com a velocidade de uma cobra e abriu o ombro do imediato e a frente de seu casaco quando ele cambaleou para trs.
    Com o brao pendurado e intil, o imediato olhou boquiaberto para o peito, onde uma linha fina e vermelha comeou a transudar gotas de sangue. Os demais homens 
se reuniram em torno de seu lder impotente como se o corpo dele os fosse escudar da lmina ameaadora. Um deles ergueu hesitante a espada, e Ruark a espatifou com 
o sabre, passando a lmina afiada pelo antebrao do homem, onde deixou uma trilha vermelha. O pobre sujeito berrou como se o corao lhe houvesse sido arrancado. 
O adversrio que tinham pela frente no era nenhum imbecil desarmado que suplicaria clemncia; era, sim, um combatente, determinado a no ceder a vida sem lutar 
ferozmente.
    O menor dos quatro homens resolveu que j havia provado sua coragem suficientemente e, correndo pelo camarote, atirou-se contra as janelas da popa. Pobre infeliz! 
O vidro espesso e a pesada estrutura tinham sido feitos para suportar a fora de mares enfurecidos, e ele caiu no cho, onde ficou rolando e gemendo, sangrando na 
cabea e segurando o ombro. Outro homem teve a presena de esprito de soltar a tranca e abrir as vidraas antes de se jogar. Seu sucesso fez com que os companheiros 
o seguissem. O imediato fugiu pela janela com uma agilidade surpreendente para sua idade e, quando Ruark se aproximou, o homem no cho viu que seria bem melhor fugir 
apressadamente. Tambm ele atirou-se pela janela e alcanou a gua, nadando para terra com um brao apenas.
    Ruark debruou-se na janela para confirmar que os homens haviam fugido e viu um vulto comprido e escuro deslizar sob a proa. Uma barbatana enorme passou pela 
superfcie, e o grito do imediato anunciou que tambm ele havia visto o tubaro. Como apropriado, ultrapassou seus homens para conduzi-los  terra, e logo todos 
desapareceram no pntano, deixando apenas quatro trilhas molhadas na praia, para assinalar sua passagem.
    Ruark examinou o camarote com menos urgncia, embora a necessidade de ir atrs de Shanna o fizesse apressar sua inspeo. Encontrou duas
    timas pistolas na mesa do comandante e examinou-as cuidadosamente. Ficou satisfeito por ver que as duas couberam perfeitamente em sua cintura. Um chapu de 
abas largas de palha feito com tcnica invejvel lhe atraiu a ateno. Experimentou-o e lhe ficou to bem que Ruark resolveu confisc-lo. Pegou tambm um gibo de 
couro sem mangas, um cachimbo de barro e uma bolsa de fumo de uma prateleira. A bainha do sabre foi pendurada num talim de pano sobre seu ombro e, assim equipado, 
Ruark foi para o convs e abriu caminho pelo ancoradouro at a praia. No havia visto o caminho trilhado pelo comandante e seu grupo, mas sups que a estrutura branca, 
sendo a maior  vista, fosse o alojamento deles.
    Pela trilha, atravs de uma confuso de decrpitas habitaes, Ruark se viu alvo de muitos olhares, embora ningum se mexesse para det-lo. Algumas das mulheres 
o olhavam mais ousadamente e paravam para v-lo passar, colocando-se em lugares evidentes, mas franzindo o cenho porque ele no lhes dava ateno. Atravessou a cidade, 
e afinal parou em frente  estalagem e olhou para a carranca que oscilava no suporte. De dentro vinha o barulho de farra animada. O berro de Pellier pediu mais cerveja, 
e Ruark entrou no lugar, mantendo-se  sombra.
    A baderna o agrediu. Os cheiros de corpos imundos e suarentos comprimidos no aposento se misturavam aos aromas de cerveja e ao de um porco sendo assado. Ele 
notou Me, que ps a caneca vazia na mesa e esperou em silncio enquanto a baguna a seu redor continuava. Quando o gigante falou, dirigindo o olhar para um canto 
escuro, murmrios irritados se ouviram, e muitas mos tentaram pegar as armas.
    - Venha tomar um gole com a gente - convidou Me. - E me diga o que est fazendo a no escuro.
    Pellier ps o copo com estrpito na mesa e olhou surpreso para Ruark, que caminhou em passadas largas e aceitou a caneca de cerveja. Lentamente, Ruark aplacou 
a sede, fazendo-os esperar, e suspirou ao depositar o caneco na mesa. Seu olhar percorreu o aposento, demorando-se ligeiramente nos rostos expectantes. Ento sorriu 
e deu de ombros.
    - No  culpa minha estar aqui, mas foi mais ou menos por opo. Parece que existe um pequeno problema de um dbito pendente com esses senhores. - Indicou os 
comandantes com a mo e prosseguiu: - Eu no insistiria no assunto - desculpou-se, ironicamente - se no estivesse sem um xelim, e parece que at mesmo aqui existe 
pouca coisa de graa.
    Ruark reparou que muitos olhos focalizaram o sabre e as pistolas cujos punhos ele segurava.
    - Droga! - rosnou Pellier. - D-lhe uma ou duas libras e resolva logo o caso.
    - Uma libra? - bufou Ruark. - Voc deve ter prometido isso a seu imediato. O que ele fez por voc vale isso ou at menos. - Sorriu com escarninho. - Nunca vi 
um homem gostar tanto de gua como ele. - Dirigiu-se aos demais. - Creio que vocs se lembram de que me prometeram uma parte integral de comandante, e entendo vocs 
me quererem privar disso.
    Acontece que, no fosse eu avis-los, vocs teriam sido alvejados pelos canhes de Trahern. - lembrou-lhes Ruark, arrogantemente. - Os homens dele poderiam t-los 
afundado muito antes de vocs se aproximarem do povoado.
    Ele tem razo - reconheceu de m vontade um dos comandantes. - Ele nos falou a verdade sobre os canhes.
    - E se vocs tivessem aterrado fora de vista, como sugeri - continuou Ruark, tranqilamente - poderiam ter voltado com tesouros realmente valiosos. - A ltima 
afirmativa no correspondia plenamente  verdade, pois ele havia estado no posto de observao e sabia que todo o litoral era visvel de l.
    - Rapazes! - interrompeu Harnpen - No tenho estmago para este tipo de bate-boca. - Pegou um saquinho de moedas da sacola e o atirou a Ruark. - Tome a, cativo, 
pegue uma moa e se divirta. Quando a gente pegar o ouro, voc vai receber uma quota inteira.
    Ruark sopesou o saquinho e calculou que a soma era razovel. Agradeceu com a cabea, mas Pelier bufou enojado e voltou a caneca.
    A palavra "cativo", Me observou o recm-chegado com mais ateno e debruou-se para a frente.
    - Voc disse "cativo"? - Seus olhos reluziram  luz mortia - Voc servia a Trahern como cativo?
    - Servia. - respondeu Ruark. - Minha alternativa era ser pendurado numa corda ou virar cativo, por isso me embarcaram da Inglaterra para Los Camellos. - Apoiou 
um ombro numa viga slida e talhada e estudou francamente os homens sentados  mesa. - Ha um outro assunto que quero resolver, mas pode esperar.
    Me riu e o cumprimentou com a cabea.
    - Ento, temos um vnculo. Eu mesmo fui cativo de Trahern. h anos A filha dele era uma garotinha ainda. - Bebeu mais cerveja e observou em voz alta. - Lutei
com um sujeito numa luta limpa e o matei. Trahern disse que eu precisava fazer o trabalho do sujeito e o meu at que a dvida do cara fosse paga. - Afundou na cadeira
e franziu o cenho. - Tentei fugir, mas eles me pegaram. E me chicotearam  vontade, para dar exemplo. O capataz adorou fazer isso, e depois que minhas costas estavam 
que era sangue puro, ele ensopou meu peito de sangue e depois me golpeou l embaixo. - Me esvaziou a caneca e a atirou na parede da taberna. - Ele me fez virar 
um maldito eunuco! - Seu pulso abateu-se sobre a mesa para enfatizar a ltima palavra. Escorregou na cadeira e o pescoo sumiu entre dobras de gordura. Seus olhos 
fuzilavam de raiva, enfiados nas rbitas. Riu baixinho. - Mas ele no vai mais me pegar. No vai mesmo.
    Harnpen levantou-se para esticar as pernas e, ao passar, esbarrou em Ruark com o cotovelo, apontando com a cabea para o grandalho.
    - Esse  nossa querida Me. - Riu. - Ele toma conta da cidade,  uma espcie de prefeito daqui.
    Ruark contemplou o eunuco, afundado numa caneca de cerveja. Me no era o que esperava, mas no fez nenhum comentrio sobre isso. Havia
    visto muitos homens em suas viagens, mas aqueles camaradas fariam os desgraados de Newgate parecerem crianas bem-educadas. Me e Harripen eram amistosos em 
suas atitudes, considerando-se os ladres que eram, mas Ruark no tinha dvida de que, se sua forma de vida fosse ameaada, eles se transformariam em inimigos com 
a ferocidade de lobos.
    Os olhos de Ruark vagaram pela sala. No havia sinal de Shanna nem dos demais prisioneiros. Mas Pellier estando presente, ela no podia estar em grande perigo. 
Mesmo assim, ele se tranqilizaria se pudesse saber o paradeiro dela. Pellier resfolegou e ficou de p.
    - Porra! Esta cerveja est-me azedando as entranhas. - Pegou o brao da mocinha encabulada que servia a seus companheiros, fazendo-a encolher de medo. - Sua 
rameirazinha imbecil, v apanhar carne e vinho para todos.
    A moa assentiu rpido com a cabea e escapuliu para cumprir a ordem. Pellier a olhou libidinosamente, e voltou a sentar-se, esfregando as mos com a expectativa. 
Trouxeram travessas enormes de porco e frango; Carmelita entregou-lhe um garrafo de vinho, e distribuiu vrios outros pela mesa. Ao oferecer um a Ruark, encostou-se 
nele e sorriu sedutoramente para seu rosto indiferente. Afastou-se rebolando e voltou com uma bandeja de finas taas de cristal. Dando-lhe uma, esfregou-se nele, 
e enfiou a mo na cala de Ruark, para afag-lo.
    - Eita, ela est querendo voc, rapaz! - Harripen caiu de rir e ficou observando a moa rebolar enquanto distribua as taas. - Mas calminha a, rapaz. Essa 
dona tem um gnio desgraado.
    Ruark no fez comentrios mas concluiu que devia evitar a moa, na presena de Shanna. A mulher era capaz de fazer Shanna quebrar-se ao meio. Levantou a saia 
e exibiu os ps descalos; a blusa solta pendia precariamente de um ombro, e a outra manga lhe caa pelo brao. Como Ruark j havia observado, ela no usava nada 
por baixo, e os seios de bicos escuros oscilavam acentuadamente com seus movimentos. Seu cabelo era negro como piche, e a pele, morena. Tinha aparncia de espanhola, 
embora seu falar fosse bem "temperado" como o de Harripen. Ela era de fato atraente, para um homem que estivesse querendo uma aventura.
    Pellier franziu o cenho ao observar como Carmelita provocou o cativo. Foi uma afronta a seu orgulho mestio que ela jamais houvesse feito o mesmo em relao 
a ele, e mais um motivo para odiar o cativo. Carmelita ps os copos ao lado dele: Pellier baixou o prato abruptamente e agarrou-a, pondo-a no colo, e grosseiramente 
lhe acariciou os seios fartos.
    - Ande, Carmelita - falou ele, mansamente. - Divida um pouco disto com um velho amigo.
    Ela lhe enfiou o calcanhar no dorso do p e se afastou dele, girando o corpo e dando-lhe sonora bofetada. Atnito, Pellier ficou olhando para ela, boquiaberto:
    - Que velho amigo coisa nenhuma! - debochou ela. - Voc bate com toda a fora em minha porta. - Ela ficou de pernas afastadas, brandindo
    o punho contra ele. - Voc me conta de todos os duelos que j lutou e de todos os homens que matou, e depois adormece, de porre. - Riu para o rosto avermelhado 
dele e balanou a mo, dirigindo-se aos demais. - Ele  como um polvinho que pega um peixe grande e no sabe o que fazer com ele!
    A mulher proferiu este ltimo insulto para o francs por sobre os ombros e, dirigindo-se a Ruark, tirou-lhe uma garrafa aberta das mos e lhe serviu vinho, antes 
de colocar-lhe um pedao de carne na boca.
    Pellier fez um barulho esquisito; Ruark virou-se para olh-lo, surpreso. O mestio pegou uma junta inteira de porco e estava ferozmente arrancando a carne, e 
enfiando-a na boca, at que seus olhos deram a impresso de que iam estourar. Ficou mastigando de boca aberta e depois bebeu um gole de vinho e, em seguida, repetiu 
o ato. Ruark no podia acreditar no que via. Pellier pegou trs bananas maduras e as enfiou na boca, engolindo-as sem mastigar. Harripen deu um sorriso de escrnio.
    - Ele  um bastardo de Saint-Domingue, meio francs, meio ndio. Tentou fazer-se passar por cavalheiro, mas seus modos  mesa o denunciaram. - Aps um instante, 
Harripen continuou, ridicularizando o outro: - Robby  um bocado grosseiro para comer, mas tem um jeito especial com as armas. Todo mundo sabe disto. Por isso ele 
est com a gente. Poupou muitos rapazes franceses em So Domingos, usando a arma. Os franceses arriscavam o pescoo  toa. Ele salvou gente  bea. - O ingls bebeu 
um gole e olhou para Ruark. - Ele detesta qualquer cara bonito e jovem que desafie o poder dele com as mulheres. - Harripen riu. - , a gente tem uma poro de 
caras esquisitos por aqui, e olhe que esta  a nata da colnia. Espere at ver o resto.
    Ruark concluiu que podia esperar a vida inteira para isso. Naquele momento tudo que ele queria no mundo era saber onde aqueles cafajestes haviam posto Shanna. 
Provou o vinho tinto italiano e perguntou-se de que cargueiro teria sido roubado. Sem se virar, dirigiu uma pergunta a Harripen.
    - Como  que vocs resolvem as pequenas diferenas? Se houver uma discusso em torno de alguma coisa que dois homens reivindicam, como se decide quem fica com 
ela?
    Harripen deu um grunhido risonho:
    - Com um duelo, amigo. E se um morrer, o vencedor leva tudo.  por isto que Pellier  o sujeito mais rico dentre ns. Ele matou a maior parte dos caras.
    Ruark aquiesceu com a cabea. Era tudo que queria saber. Espreguiou-se como um gato, pendurou uma perna sobre um brao de cadeira, nela apoiando o brao enquanto 
espreitava os piratas, um de cada vez, at eles se inquietarem com seu exame. Quando a tenso atingiu nvel aceitvel, ele rompeu o silncio:
    - Bem, queridinhos, vocs ficam perdendo tempo bebendo enquanto as oportunidades passam.
    At Pellier se deteve e o olhou interrogativamente.
    - Quanto tempo vocs vo dar a Trahern para persegui-los?
    Os homens resmungaram e trocaram olhares confusos, pois a pergunta de Ruark os deixou perplexos. O colono explicou, tranqilamente:
    - No seria melhor mandarem avisar a Trahern que esto com a filha dele, e que ela est a salvo? Talvez a gente devesse at j informar o resgate. Vamos raciocinar. 
- Esfregou pensativamente o brao. - Ela deve valer umas... cinqenta mil libras. - Ele lhes despertou a imaginao, e os olhos dos homens faiscaram. - Isso seria 
o bastante para qualquer um de vocs ter vida descansada, depois, evidente, de pagarem um dzimo a Me e talvez mil a mim. - Aqueles homens entendiam a cobia, e 
at desconfiariam de algum que no pedisse seu quinho. Mesmo assim, ele se apressou a acrescentar: - Minha parte seria pequena, porque s indiquei o caminho, e 
foi a ousadia e a coragem de vocs que pegaram a moa. - Parou e os observou, enquanto parecia meditar. - Conheo Trahern - afirmou, cautelosamente. - Ele vai pr-se 
no encalo de vocs com todos os seus recursos, e vai ser difcil entrar em acordo, quando estiverem sob a mira dos canhes dele.
    Embora Pellier tivesse virado de costas, fingindo no ouvir, os outros prestavam muita ateno.
    - Se alguns dos prisioneiros quiserem voltar, por que no mand-los com nossa mensagem? - Houve um murmrio de aprovao, e Ruark continuou, inocentemente: - 
Onde esto os homens? Quero falar com eles.
    Antes que os outros pudessem negar esse pedido, o enorme comandante mulato foi at a extremidade do aposento, e abriu uma porta, depois de retirar espessa tranca 
de carvalho.
    - Todo mundo fora, seus porcos nojentos - rosnou para o interior, postando-se de lado.
    Ouviu-se uma confuso desordenada, e os trs homens que haviam sido feitos prisioneiros junto com Shanna saram e ficaram piscando para a luz. Agacharam-se juntos, 
temendo seu destino. Ruark caminhou em largas passadas at eles e os examinou. Virou-se e, separando os ps, ps as mos nos quadris e indagou:
    - Onde est a moa?
    Pellier deu um riso escarninho:
    - Engraado! Ele quer ver o corpo da mulher de novo. Ele s estava pensando nisso o tempo todo.
    Resmungos aborrecidos foram proferidos pelo grupo, mas a voz de Ruark fez-se ouvir como um chicote:
    - Fique quietinho, imbecil. Pellier ficou retesado na cadeira, ao insulto.
    - Voc quer mandar esses homens a Trahern para dizerem que a moa no est viva? Onde est ela?
    - Onde a cadela que ela  vai aprender a ser uma escrava - rosnou Pellier. - E isso no  da sua conta.
    - Minha necessidade  da minha conta. - O tom de Ruark foi cido. - S quando Trahern souber que estamos com a filha dele e ela est a salvo  que ns tambm 
estaremos seguros. Se ele tiver alguma dvida, vem at aqui para verificar.
    O mestio ps o p na mesa e recostou-se para sorrir debochadamente para Ruark:
    - Voc  que  imbecil, se pensa que vou deixar que governe esta ilha.
    Os olhos de Ruark se estreitaram perigosamente. Ele estava a ponto de desafiar abertamente o biltre, quando se ouviu um rudo e um guincho abafado. Nesse instante, 
Ruark viu que os olhos de seu adversrio se fixaram na grade em cima da qual havia enorme barril. Ruark praguejou ao atravessar o aposento:
    - Seu manaco desgraado! - O rosto contorcido por um franzir de cenho, lbios cerrados, Ruark chutou o barril, que rolou pelo cho at se espatifar na parede.
- Ns vamos ser enforcados por causa de sua brincadeira idiota!
    Armado com a pistola, eliminou quaisquer idias de interferncia que o grupo pudesse ter. Ningum se mostrou disposto a det-lo. Na verdade, Harripen olhou para 
Pellier e pareceu gozar na expectativa de luta. Como se fosse uma mesa de jogo, Ruark retirou a grade e a jogou para o lado. Sua atitude foi saudada com um murmrio, 
logo seguido por silncio. Sem deixar de manter o olho nos piratas, Ruark gritou:
    - Senhora!
    Ouviu-se um rudo na gua e Shanna estendeu-se na pilha de detritos. Um gemido abafado de dor escapou-lhe quando ela rolou, e ele lhe viu o rosto plido  luz 
mortia, abatido e triste, e cheio de medo. Seus olhos se arregalaram ao reconhecer Ruark e ela lutou para ficar de p, soluando o nome dele. Ruark proferiu violenta 
imprecao e seu olhar zangado percorreu com desprezo os homens  mesa, especialmente Pellier. Prometeu a si mesmo que o mestio pagaria por aquilo.
    Ruark ficou de joelhos e descansou a pistola  beira do buraco, enquanto estendeu a mo  moa, que tambm levantou as suas, em muda splica. Shanna lhe agarrou 
os pulsos com as duas mos, desesperada, e Ruark sentiu que seria preciso uma barra de ao para soltar os dedos dela. Ele a ergueu como se ela fosse uma plantinha 
e a ps no cho de pedra. Trmula, agarrou-se a ele, soluando baixinho contra seu peito. Viu ento os rostos licenciosos dos piratas a olhando, e decididamente 
se afastou de Ruark e ficou de p sozinha. Contudo, o esforo foi demasiado para suas pernas fracas e, como se fosse uma marionete cujos cordes tivessem subitamente 
sido cortados, ela escorregou at o cho. Seu choro abafado torturou a mente de Ruark. Ele s ficaria satisfeito quando a vingasse.
    - Viram? - debochou Pellier. - Ela j perdeu parte de seu orgulho  la Trahern.
    A pistola na mo de Ruark foi rapidamente mirada para o comandante corsrio, e nele permaneceu por longo instante. Sob essa tremenda ameaa, mesmo o corajoso 
mestio gelou, e o riso debochado desapareceu-lhe do rosto cheio de cicatrizes.
    O fogo gelado nos olhos de Ruark traa a fria que o assolava. Ele se controlou com muito esforo, esperando sua ira esfriar. Sobrou-lhe uma vontade intensa 
de ver Pellier na ponta de seu sabre. Esse sujeito no era homem, era um animal raivoso cuja mente deturpada havia maltratado a mulher de um Beauchamp.
    - O plano mais elementar no  compreendido por vocs - provocou Ruark. - Sua inteligncia  to escassa que vocs no percebem que um objeto valioso deve ser 
tratado com cuidado?
    Pellier zombou dessas palavras e no quis discutir:
    - No se intrometa, patife. Tomo conta da cadela Trahern. Shanna levantou a cabea e olhou com tanto dio para o pirata que um pntano se transformaria em areia 
seca!
    Afastando-se um nico passo, Ruark permitiu ao homem um olhar de relance para a beleza desgrenhada de Shanna, mas dirigiu um apelo ao resto deles:
    -  certo que Trahern vai pagar o resgate, mas, quando vir a filha neste estado, duvidam de que ele encontre uma forma de se vingar de todos vocs?
    Os piratas o olharam fixo, mas cautelosamente no deram sinal de que concordavam com esse raciocnio. O perigo de atrair a clera de Pellier era bvio. Tudo 
o mais eram consideraes futuras e, portanto, duvidosas.
    Pellier se levantou e suspendeu a cala:
    - Acho que a moa precisa ficar mais tempo no buraco.
    - Ruark! - gemeu Shanna, apavorada, e lhe apertou a perna de modo frentico, comprimindo-se contra ele.
    - Senhora! - zombou Pellier. - Ser que os alojamentos no esto  sua altura? - Deu alguns passos em direo a ela, mas parou como se estivesse pensando. - 
Talvez a roupa de cama no seja to limpa quanto a senhora gostaria. - Seu tom de voz virou um rosnado nojento: - Ou talvez seus pequenos amigos consolem mais a 
senhora do que a gente. - E rosnou: - De volta ao calabouo, rameira!
    Aps dar a ordem, avanou para agarrar Shanna, mas ela se atirou por trs de Ruark. Talvez Pellier no acreditasse que outro homem ousasse meter-se com ele. 
Fosse qual fosse a causa, ele ignorou Ruark, e isso o perdeu. Nem chegou a ver o p que foi lanado  sua frente quando passou por Ruark. No obstante, experimentou 
mais uma vez a dureza do cho de pedra, e desta vez com o rosto.
    Um silncio quase mortal tomou conta da sala; os que observavam sustaram a respirao na expectativa do que sabiam viria. Pellier rolou no cho, cuspindo p, 
e os olhos negros e raivosos se fixaram em Ruark. De
    forma natural, este pegou o espaldar de uma cadeira e a girou para pr o p no assento. Debruou-se para a frente e, colocando um cotovelo no joelho, sacudiu 
a cabea e censurou levemente.
    - Aprende muito devagar, amigo. Tenho mais direito  moa do que voc. Era eu que a via perambular pelos terrenos enquanto dava duro trabalhando para o pai dela. 
Fui eu que o levei at a ilha. Se no fosse por mim, voc estaria servindo de comida para os peixes no fundo do porto de Trahern.
    O olhar irado de Pelier se transferiu para Shanna, acuada ao lado de Ruark, buscando a proteo dele. Deliberadamente, Pelier se levantou e se limpou da poeira. 
Estava estranhamente calmo, embora houvesse nele certo aspecto mortal.
    - Voc j me sacaneou duas vezes, cativo. - comentou, arrogante.
    - Precisa aprender umas lies, meu bom homem. - As palavras de Ruark castigaram o orgulho de Pelier, apesar de sua suavidade. - Pode ser que eu consiga ensin-lo 
a respeitar seus superiores.
    - Desde o incio me est chateando. - rosnou Pelier, esforando-se para controlar-se. - Voc e um nojento! Um porco das colnias! E no gosto de gente das colnias.
    Ruark ignorou o insulto e disse simplesmente:
    - A moa  minha.
    - A rameira Trahern  minha! - berrou Pelier, perdendo o controle. Aquilo era demais! No podia permitir que sua autoridade continuasse a ser posta em jogo, 
se queria manter sua posio de comando dos demais piratas.
    Pulou  frente, esperando pegar o adversrio desprevenido, mas a cadeira atingiu-o dolorosamente nas canelas. Em seguida, Ruark lhe agarrou a camisa pela frente, 
e seus dedos dos ps roaram o cho quando ele quase foi levantado no ar. A mo espalmada de Ruark esbofeteou-o nos dois lados do rosto. Em seguida, Ruark sacudiu 
o pirata demoradamente.
    - A bofetada  um desafio. - disse ele em voz alta a Pelier, para que todos o ouvissem. - A escolha de armas  sua.
    Ruark soltou o homem. Pelier cambaleou de costas e foi de encontro  mesa, onde se estendeu inapelavelmente antes de cair em uma cadeira. Rosto vermelho, ps-se 
de p e endireitou o colete com um safano. Um brilho calculista lhe reluziu nos olhos quando ele considerou as armas disponveis, e comeou a saborear o gosto de
ver o cativo estendido morto numa pilha inerte. As pistolas estavam penduradas no espaldar de sua cadeira, mas ouvira falar da tcnica que os egressos das colnias
tinham em relao a armas.
    - Voc tem uma espada, seu porco? - rosnou. - Sabe us-la? - J havia matado muitos homens com espada, e tinha a maior confiana em sua prpria percia com ela.
    Ruark assentiu com a cabea e, colocando a cadeira contra a parede, fez com que Shanna se sentasse. Tirou as pistolas e, engatilhando ambas,
    colocou-as em cima de um barrilete, ao alcance da moa. Por um instante, ele a contemplou. Shanna ardeu de vontade de dizer alguma coisa amvel no que talvez 
fosse sua ltima oportunidade, mas ainda sentia uma amargura em relao a ele que a fez calar-se. No conseguiu olh-lo nos olhos.
    Carmelita encostou-se na porta que dava para a sala dos fundos; seus olhos estavam vidos pelo derramamento de sangue. Atrs dela escondia-se a moa magra, cautelosamente 
imvel. Os outros piratas prepararam-se para o espetculo, e a mesa foi empurrada para trs para deixar espao para o duelo. Apostas foram feitas. S Me se absteve. 
Analisou detidamente o rapaz que ia lutar.
    Ruark tirou a espada da bainha e a segurou firme. Uma bainha solta e oscilante havia sido responsvel por muitas mortes e era, em si mesma, uma arma cheia de 
truques. Ao sacar o sabre, a longa lmina reluziu em tons azuis, e ele ficou satisfeito por haver escolhido cuidadosamente arma to boa. Cortou o ar com a lmina: 
o equilbrio era soberbo, e ela estava afiada.
    Os olhos de Ruark se encontraram com os de Harripen, quando este trocava peas de ouro com o holands.
    - Desculpe, rapaz - riu o ingls, dando de ombros - mas preciso recuperar meu prejuzo. A bolsa que era sua vai para o vencedor, assim como todas as posses do 
perdedor.
    O homem grisalho completou sua aposta com prazer. Somente Shanna estava apreensiva pelo que iria acontecer agora. Seu olhar seguia todos os movimentos de Ruark. 
Em sua mente, 1.000 pensamentos se confundiam incrivelmente. Esse homem, que se preparava para defend-la, era o mesmo com quem ela havia feito amor apaixonadamente 
e a quem expulsara, raivosa. Sua ira parecia uma recordao de outro tempo, irreal e irracional, agora que ela temia por ele.
    A espada leve de Pellier no estava  altura de competir com o sabre, por isso ele pegou uma espada pendurada junto com suas pistolas, no espaldar da cadeira. 
Era uma pea pesada, pouco menos longa do que o sabre de Ruark.
    - Isto  que  arma de homem! - debochou. - Esta mata de verdade.  morte, cativo!
    Saltando de junto da mesa, atacou imediatamente. Suas investidas eram perigosas e intensas, mas Ruark assumiu posio cmoda e aparou todos os golpes com facilidade. 
Durante muito tempo dependera das decises alheias para sobreviver, mas agora podia confiar em sua prpria percia. Fosse qual fosse o resultado da luta, mais uma 
vez em sua vida ele dependia de si mesmo. Fez investidas e girou a espada para atacar. Estudou o adversrio e logo viu que no era nenhum nefito. Pellier era objetivo 
e gil, mas,  medida que as espadas se chocavam, Ruark percebia que o brao do adversrio no tinha muita destreza. Atacou quatro vezes seguidas e uma pequena falha 
surgiu no colete de Pellier, como por mgica. Pellier recuou, surpreso.
    A espada de Pellier era mortfera, mas tambm pesadona e mal-feita. A lmina aparava bem os golpes de Ruark, mas esbarrava sempre no timo ao do sabre. A vitria 
no ia ser to rpida quanto pensava Pellier. Seu adversrio no era nenhum sabujo criado em fazenda. O esforo de girar a espada desequilibrada comeou a pesar 
e, quando apanhada, Pellier precisava sacudi-la com safanes firmes para poder continuar a obstruir as estocadas de Ruark.
    Vendo uma brecha, Ruark aprofundou o golpe, atingindo o ombro de Pellier e fazendo jorrar sangue. Foi um corte superficial, mas o homem recuou, preparando-se 
para um contra-ataque fulminante. O desafio de Pellier no era ameaa boba. Pegou a espada com as duas mos e arremessou. Shanna encolheu-se apavorada, esperando 
ver Ruark cortado ao meio, mas ele susteve o dorso do sabre e agentou o golpe galhardamente. O ao de sua arma foi de grande ajuda. Durante um momento, os dois 
homens ficaram cara a cara, com as espadas cruzadas acima de suas cabeas e os msculos retesados. Pellier recuou rpido, e Ruark pulou para trs, para escapar a 
um golpe que mirava sua barriga. Contra-atacou, e Pellier mal se recuperou a tempo de aparar a estocada.
    A batalha j estava cansativa. As espadas se encontraram vrias vezes, em golpes fortes. Pellier arremessou e, quando Ruark aparou, uma chanfradura na lmina 
da espada pegou o dorso curvado do sabre. A grossa lmina foi virada de lado e, j enfraquecida, quebrou, enquanto Pellier lutava para solt-la. Surpreso, tropeou 
para trs e ficou olhando o cabo da espada. Estendeu as mos como para defender-se. Teria sido assassinato atac-lo nesse instante, e Ruark comeou a embainhar o 
sabre.
    O grito de Shanna o alertou. Levantou rpido a cabea no momento em que Pellier baixou a mo at a bota, de onde retirou comprido estilete, e levantou o brao 
para jog-lo. Ruark estava muito afastado para atacar, mas volteou o sabre, fazendo com que o dorso da arma atingisse o rosto do pirata. Pellier xingou e tropeou 
mais uma vez, e sua faca estatelou-se no cho. O francs equilibrou-se, encarou Ruark e lhe compreendeu o olhar.
    Entregaram-lhe rapidamente uma espada de dois gumes, e Pellier defendeu-se com toda a tcnica de que era capaz. Ruark no mais sorria nem estava gostando da 
brincadeira. Compreendia as regras. A morte era o destino. No deixou mais de atacar. Ruark poderia recorrer a defesa mais leve, mas ento abriria o flanco e no 
poderia recuperar-se para aparar a pesada espada. Seu sabre vomitava fogo azul, e tocava sempre a arma de Pellier. Ruark no podia dar espao que permitisse um ataque 
a Pellier. Forou suas prprias arremetidas. Seu rosto era duro e ele comeou a sentir o esforo no brao, mas no diminuiu o ritmo. Certeiro golpe abriu a camisa 
de Pellier. Outra arremetida pegou a coxa e sangue vermelho escuro lhe manchou a cala. Outro ataque de Ruark pegou Pellier debaixo do brao. A ponta do sabre aprofundou-se 
na carne de Pellier, e a arma chegou a sibilar, com a fora do golpe. Pellier caiu para trs, levando a arma de Ruark. O corpo do mestio arqueou-se contra o cho 
e ficou imvel.
    O rosto de Ruark estava srio, quando ele relanceou o olhar e viu que os demais piratas o olhavam atnitos. Nenhum ousou desafi-lo. Ele recuperou o sabre e 
o limpou no colete de Pellier. Embainhou-o, apoiou a ponta da arma no cho e debruou-se nela, voltando a encarar os homens. Olhou para Me, que estava sentado imvel 
em sua estranha pose curvada.
    - tima arma - observou Ruark. - Serviu-me muito bem. Me fez um sinal afirmativo com a cabea e disse:
    - Ser que voc entende o que vai acontecer?
    Ruark encolheu os ombros, indiferente, e pendurou a arma na cintura. Harrpen levantou-se e deu a volta  mesa, para segurar o ombro de Ruark:
    - Grande luta, rapaz! E voc ganhou um dinheirinho.  claro que o Good Hound  seu, e todos os pertences de Robby, o quinho dele no saque e... - Virou-se e 
consultou os companheiros: - O que vocs acham, camaradas? Ele merece?
    Risos irreverentes e um coro escandaloso de "Merece!" responderam ao ingls.
    - Fez-se justia! - gritou Me. Apoiando os punhos gordos na mesa, levantou-se: - O escravo do Trahern vai ter a moa de volta!
    - Combinado! - anunciou Harripen. - Voc fica com a moa at a gente resolver o problema do resgate.
    Trouxeram novas canecas de cerveja e Ruark riu, sua tenso diminuindo. Fizeram um brinde  sua vitria, enquanto o corpo de Pellier era arrastado para fora sem 
a menor cerimnia. Ningum pareceu lamentar a morte dele, muito menos Shanna, que ficou sentada com as mos cobrindo o rosto, soluando baixinho de to aliviada. 
No conseguiu ocultar sua gratido e, quando Ruark voltou a seu lado para pegar as pistolas, ela conseguiu sorrir debilmente antes que as lgrimas voltassem a inundar-lhe 
o rosto.
    Ousadamente, Ruark dirigiu-se com largas passadas aos trs outros prisioneiros e perguntou:
    - Algum de vocs quer ficar?
    Nenhum deles lhe respondeu; entreolharam-se encabulados, sem ousar tomar a dianteira e dizer o que queriam.
    - Quer dizer que preferem a escravido  liberdade aqui? - deduziu Ruark em voz alta, e perguntou: - Se deixarmos que vocs partam, vo informar a Trahern que 
a filha dele est a salvo e que ser mantida como refm at o pagamento do resgate?
    Os trs fizeram um sinal afirmativo com a cabea, o que fez com que Me comentasse com deboche:
    - Eles so idiotas de trocar isto pela canga de Trahern.
    - Amanh de manhzinha a gente os manda na chalupa - sugeriu Harripen. - At l, vamos deixar que os desgraados encham a pana. E a moa tambm, poxa! Ela vai 
precisar estar forte, se vai cavalgar com esse fanfarro.
    Shanna o olhou raivosamente, mas aceitou um prato trazido pela moa magra. Em meio  confuso, ela queria aplacar sua fome. Praticamente ignorava as chacotas 
de que ela e Ruark eram alvo. Harripen encontrou um pedao de seda vermelha, da qual cortou uma tira comprida. Com muita fanfarra e pompa, ele e o holands fizeram 
uma laada e a colocaram em redor do pescoo de Shanna. Com olhares licenciosos, levaram-na at Ruark e colocaram a outra ponta no pescoo dele, declarando que dali 
em diante ela era serva dele. Ruark colaborou com a brincadeira e ergueu a laada para que todos a pudessem ver. Com um riso insano, ele a puxou para si e a beijou 
ardorosamente. Sua mo acariciou-lhe impudentemente as ndegas e subiu, enquanto Shanna protestava contra estas demonstraes pblicas de afago. Seu rosto ferveu
de afronta quando ele a ps nos ombros, roubando-lhe a respirao. A forte palmada que ele lhe deu provocou-lhe um guincho de raiva e risos debochados dos homens.
    Seguindo instrues de Harripen, Ruark levou-a pelas escadas at os aposentos que at aquele dia eram de Pellier. O holands segurou a porta mantendo-a aberta,
e Ruark tirou Shanna dos ombros e a ps no cho, de p. Com a mo nos quadris dela, ele a empurrou para dentro. Os homens fizeram meno de segui-lo, mas Ruark parou
na soleira, bloqueando a passagem e desafiando-os com um olhar malicioso at que todos baixaram os olhos e foram embora, resmungando seu desapontamento. Quando os 
dois foram embora, Ruark fechou a porta, colocou a tranca e encostou-se nela, aliviado.
    No vazio escuro do aposento, Shanna ficou onde havia parado, relutando em avanar, pois poderia deparar com um pesadelo pior do que o do calabouo. Suas narinas 
perceberam o fedor do local, o que lhe lembrou a fossa onde estivera. Meio em pnico, tateou  procura de Ruark, pois precisava da certeza da fora dele para sustent-la 
por mais algum tempo, at ela saber o que enfrentava. Os dedos fortes dele comprimiram os dela suavemente, enquanto seu outro brao a rodeava. Os temores monstruosos 
que a invadiam relutantemente se afastaram para suportvel distncia e a deixaram esgotada, membros pesados de exausto. No crculo protetor dos braos de Ruark, 
ela desabou.
    - O chiqueiro de Pellier - observou ele, com desprezo. - Deixe-me procurar uma vela. Talvez no seja to mau aqui como sugere o fedor. Ele a sentiu cambalear. 
- No quer sentar-se?
    Shanna estremeceu:
    - No ouso, antes de saber o que existe aqui.
    - Est bem - concordou Ruark tristemente. - Acho que h alguma coisa morta em Mare's Head e talvez a gente a tenha achado.
    Depois de encontrar um toco de vela, Ruark esvaziou os cartuchos de uma das pistolas e, colocando um pouco de fiapos de tecido em seu lugar, acionou o gatilho 
at que uma chama cintilou no escuro. Soprando-a, ele a levou ao pavio da vela. Uma luz fraca e suave espalhou-se no aposento, enquanto a vela bruxuleava.
    O aposento era uma confuso de roupas, garrafas vazias e arcas e barricas, sem dvida roubadas de mercadores desprevenidos. Uma cama pesada e esculpida parecia 
boiar num mar de lixo. Vrias camadas de carrapatos estavam empilhadas sob roupas manchadas, enquanto redes imundas pendiam transversalmente do dossel da cama. O 
p da cama estava oculto por pilhas de roupas sujas. Havia um armrio alto no qual se viam trajes de seda e cetim, ricos casacos e togas, relaxadamente pendurados 
nas portas. No havia cadeiras vazias, todas estavam empilhadas com entulhos variados. Pesadas cortinas de veludo vermelho empoeiradas e gastas pelo tempo cobriam 
as janelas. Enorme banheira de porcelana continha frascos, garrafas e jarros de vinho. Os ps descalos de Shanna quase pisaram num caco de vidro. Havia muitos espelhos 
no quarto, todos de frente para a cama. Um urinol era o maior responsvel pela fedentina ambiente.
    Shanna teve nsias de vmito e afastou-se do urinol, enquanto Ruark agiu mais objetivamente. Puxou as cortinas, abriu as persianas para que as brisas marinhas 
refrescassem o aposento, e atirou o urinol pela janela, no quintal que ficava embaixo. Em seguida, cobertores e roupas de cama imundas tomaram o mesmo caminho e 
logo uma pilha considervel de roupas de Pellier - distinguveis principalmente pelo fedor - comeou a se formar debaixo da janela. Garrafas que estavam na banheira 
arrebentaram-se nas pedras embaixo; tudo que lhes pudesse ameaar o conforto foi tirado do quarto. Ruark passou o brao por cima da mesa para atirar os restos ressequidos 
de muitas refeies num lenol que ele havia arrancado da cama. Amarrou tudo e jogou o lenol pela janela. Embora o ar ainda ofendesse os sentidos, ficou finalmente 
respirvel. Ruark soprou um cntaro que estava no lavatrio e recebeu um jato de poeira no rosto.
    - Parece que Pellier tinha averso a banho - comentou com desprezo.
    Shanna estremeceu de nojo ao pegar as dobras sujas e manchadas de sua roupa. Ansiava por um banho e pelo conforto de uma cama limpa que pudesse fazer seu corpo 
extenuado descansar. Ruark a observou e compreendeu o que ela desejava, mas reparou que havia um silncio quase expectante no aposento abaixo. Aproximou-se dela 
e, quando a moa levantou o olhar, ele fez seu pedido:
    - Grite.
    Os olhos de Shanna o olharam sem entender.
    - Grite. E bem alto - mandou ele.
    Entretanto, Shanna franziu o cenho e ficou calada, olhando-o fixo.
    Quase lentamente, Ruark estendeu as mos e as ps nos tecidos finos que cobriam os seios de Shanna. Com um simples puxo, rasgou a camisola fina de alto a baixo,
e ela ficou totalmente exposta a seu exame rapidamente excitado.
    Desabafando a raiva, os temores e frustraes controlados, Shanna deu um guincho perfurante que fez os espelhos tremerem. S parou para respirar e gritou de
novo. Desta vez Ruark aproximou-se e interrompeu a manifestao com a mo. No silncio que seguiu, eles ouviram os acessos de riso que chegaram do aposento de baixo.
    Ruark a abraou, esmagando-lhe os seios nus contra seu gibo de couro, e Shanna sentiu-lhe o riso comprimido no peito.
    - Isso vai distra-los por algum tempo.
    Entretanto, parte da energia de Shanna voltou. Irritada, ela se afastou dele.
    - Tire as mos de cima de mim! - rosnou. Andou para interpor a cama entre eles e esforou-se por fechar os farrapos da camisola, em tardia manifestao de recato. 
- Se voc quer brincar, v procurar uma vagabundazinha, mas no vou bancar a mulher expectante.
    Ruark contraiu os msculos do queixo, mas se manteve teimosamente calado, sem dar confiana s acusaes dela atravs da justificativa de sua inocncia.
    - Voc banca muito bem o garanho - disse ela, irada. Olhou-o lentamente e com desdm, e tremeu de raiva e cansao. - Voc  muito forte, muito viril, muito 
criativo na cama. Acha que vou ficar esperando, enquanto voc dorme com qualquer rameira que aceite uma aventura com voc9
    Ruark manifestou sua frustrao.
    - Por que, diabo, voc est soltando a matraca? - expressou seu orgulho ferido. - Fico sentado vendo-a com seu elenco de homens e mordo a lngua para no gritar
que voc  minha.
    - Sua! - Shanna olhou-o incrdula e avanou para ele. - Voc acha que sou sua escrava? - Tirou a seda vermelha da garganta e a pisou num acesso de raiva. - Sua
coleira de escrava vale isto, Sr Beauchamp. O senhor no  meu dono.
    - Acha que devo tolerar ver mos lascivas a pegarem e ficar calado? - retrucou ele, tirando o colete e o jogando do outro lado do aposento. - Maldio, mulher!
Voc  minha! Minha mulher!
    Esta frase provocou Shanna.
    - No sou sua mulher. Sou viva! E no quero mais que me apoquente com sua luxria inconstante!
    - Minha luxria inconstante! - Ruark riu, acidamente. - Madame, j vi a senhora rebolar os quadris em meio a um grupo de homens e deix-los cortej-la, frementes 
de antecipao de algo. , a senhora com certeza deve ter necessidade de ficar junto a seus pretendentes indceis e tem dificuldade para limitar sua ateno a seu 
marido.
    O queixo de Shanna caiu, mas a moa se recuperou rapidamente, com um guincho.
    - Voc me acusa, quando  voc quem perambula pelos montes como um bode no cio e dorme com tudo que  mulher?
    Os olhos dela o esquadrinharam de novo e ela se encheu de tormento, sabendo que ele havia recebido outras mulheres nos braos e a usava como uma moa qualquer 
que podia encontrar num bordel. Atacou para se defender e explodiu, meio histrica.
    - Por que no me livro de voc? Sua insistncia no termina? Os olhos ambarinos replicaram depressa.
    - Voc tem tentado livrar-se de mim! Mas a alma simples de Pitney no  dada a assassinatos! Por isso, aqui estou eu, para voltar a jogar seu joguinho mais uma 
vez. Matei um homem por sua causa, mas voc me agradece? No! Se no fosse pelo medo que voc tem de que os outros a violentassem, era capaz de me mandar matar.
    - Voc  um demnio! - soluou ela. - Um filho de Sat enviado para me torturar!
    - No, Shanna! O tom de sua voz foi cortante. Sua raiva lhe trouxe luzes douradas aos olhos e ele a pegou bruscamente pelos ombros. Ela o contemplou abertamente, 
vendo a ira naqueles olhos e sua prpria raiva se abrandou. Ruark sacudiu-a com dio: - No, Shanna,  que senti a picada da sua traio por duas vezes! Sou seu 
marido, de direito e de fato, e a quem voc expulsou, no de acordo com a lei, mas com meu sangue em suas mos!
    A mente exausta de Shanna no conseguiu tolerar esse ataque de Ruark, e as palavras dele a deixaram  beira de um colapso. Seus olhos ficaram desvairados, e
ela gemeu enquanto se debatia para livrar-se dele. Ruark praguejou e a sacudiu com fora, at que os dentes da moa rangeram e seus olhos recuperaram alguma sanidade.
    - Voc ser minha escrava! - disse ele, entre dentes.
    Shanna abriu a boca, mas ele impediu que ela expressasse sua recusa.
    - Quando houver gente por perto, voc ser minha escrava. E me obedecer. Voc ser suave e carinhosa, para enganar aqueles pobres idiotas. Apontou para a porta 
com a cabea e prosseguiu, mais spero: - E se desobedecer, vou trat-la como uma escrava desobediente, entendeu? - Sacudiu-a de novo, desta vez menos rigidamente. 
- Voc ser minha escrava enquanto estivermos aqui.
    Shanna o olhou aptica enquanto ele esperava uma resposta e, no silncio, a tmida batida  porta ecoou sonora. Ruark olhou raivosamente por cima do ombro para
a porta, aborrecido com a interrupo, virou-se e encarou Shanna mais uma vez. A cabea da moa pendeu, aptica, e ela no teve foras para manter-se de p; simplesmente 
desabou nos braos dele, ignorando a camisola aberta. Parte da raiva de Ruark se dissipou e, com carinhosa ateno, ele a ps numa cadeira, onde ela ficou sentada 
imvel, mos cruzadas, como uma doente mental. Ruark cobriu-lhe a nudez com uma colcha antes de se dirigir em largas passadas  porta.
    Tirando o sabre da bainha, levantou a tranca e abriu a porta. Gaitlier surgiu, curvado sob o peso de dois baldes cheios de gua. Sob o olhar raivoso de Ruark, 
o homem se atemorizou e rapidamente explicou, olhando-o por cima de um par de culos de aros de metal:
    - Senhor... eu... fui criado do Comandante Pellier, e agora me disseram que o senhor  meu patro. Comandante, eu trouxe gua. Talvez o senhor queira tomar banho. 
- sugeriu desajeitado, o olhar agora pousado em Shanna, adormecida na cadeira. Bruscamente, Ruark fez um gesto para que o homem entrasse, o que ele se apressou a 
fazer. Ruark o observou de vis, baixando o sabre e se apoiando nele.
    - Como  possvel voc ser criado de piratas? - perguntou. - Voc fala como um homem instrudo.
    Gaitlier parou e o olhou hesitante, antes de responder:
    - Eu era professor em So Domingos. Quando o Comandante Pellier era moo, eu lhe ensinei alguma coisa. H alguns anos, eu estava numa pequena embarcao a caminho 
da Inglaterra que foi apresada por ele. - Parou e esfregou nervosamente as mos. - Foi por ordem dele, Comandante Ruark, que fiquei sendo seu criado. - Fez um gesto 
com a cabea em direo a Shanna. - Existem outras como essa moa, trazidas  fora e obrigadas a ficar. - Gaitlier suspirou. - O senhor deseja mais alguma coisa 
esta noite?
    Ruark fez um gesto em redor do aposento:
    - Talvez amanh voc tenha tempo de limpar isto aqui. O lugar no  adequado para um homem, muito menos para essa senhora, que no est habituada a viver num 
chiqueiro.
    - Muito bem, senhor. Amanh, vou limpar isto aqui para o senhor. Se precisar que sejam feitas tarefas femininas, por uma ou duas moedas a moa Dora ter prazer 
em cumpri-las. - Respondendo ao olhar interrogativo de Ruark, ele explicou: -  a mocinha magra que serve vinho, senhor.
    Quando Gaitlier saiu, Ruark fixou sua ateno na cama. Pellier satisfazia certos confortos a seu corpo. Ruark atirou duas fronhas sujas pela janela e finalmente 
encontrou uma razoavelmente limpa. Tirou roupa limpa de cama de uma arca e fez a cama do melhor jeito que pde. Sua experincia no inclua a feitura perfeita de 
camas.
    Afinal, pegou um balde, sentou-se aos ps de Shanna e cuidadosamente tirou a colcha e as roupas imundas e jogou-as pela janela. Mergulhou um pano na gua morna, 
levantou o rosto de Shanna e o limpou, tomando cuidado carinhoso para no irritar as faces rosadas. Ao lavar-lhe as mos e os braos, seu queixo se contraiu ao ver 
as vergastadas vermelhas em seus pulsos e as feridas que evidenciavam os belisces e socos de seus captores. Felizmente, ele conseguira dar um fim merecido a um 
desses patifes.
    Colocou os pezinhos dela no balde e lavou-lhe os tornozelos e as coxas e os enxugou. Passou um momento admirando-lhe o corpo amado. Embora ela tivesse sido maltratada, 
sua beleza conservava um sabor provocante que o excitava. Franziu ligeiramente o rosto ao ver que o cabelo de Shanna estava todo emaranhado, mas no podia resolver 
isso agora. Levantou-a nos braos, levou-a  cama e a cobriu com um lenol. Demorou-se ento a contempl-la, sempre de testa franzida.
    -  triste, meu amor, que voc prefira aceitar uma mentira como verdade indubitvel. Acredite-me, no a tra.
    Foi como se ela o tivesse ouvido, pois sua expresso se abrandou e ela rolou de lado, encolhendo-se sob o lenol e pareceu mais contente em seu sono.
    Ruark ps uma cadeira resistente em frente  porta e as pistolas numa mesa ao lado e pegou um banquinho, onde colocou os ps. Sentou-se, apoiou o sabre nos joelhos, 
relaxou e procurou dormir.
    O despertar foi acompanhado por uma claridade quase dolorosa. A mente de Shanna comeou aos poucos a dar-se conta do brilho perturbador. A claridade encheu o 
aposento e, embora ela estivesse de costas para as janelas, a luz ainda incomodava e lhe penetrava as plpebras fechadas e o crebro. Ela pegou o travesseiro, levando-o 
at  cabea, e voltou a adormecer. Agitou-se letargicamente quando certa mo comeou a acariciar-lhe as costas, afastando a rigidez que ela percebia mais do que 
sentia. Espreguiou-se como uma gata contente e ficou de barriga para baixo para permitir que os dedos pudessem trabalhar mais  vontade. Emitiu um gemido rouco 
e arqueou as costas, apreciando a massagem, que lhe amainava as dores. A mo lhe subiu agora at os ombros, fazendo com que ondas de prazer lhe percorressem a espinha. 
Lnguida, rolou para a fonte de seu prazer at que suas costas comprimiram um peito peludo e musculoso. Sua cabea recostou-se indolentemente no ombro musculoso, 
e ela esfregou a face na pele macia e quente. Sua mente recobrou ento a plena conscincia. S uma pessoa em sua vida inteira havia partilhado uma cama com ela, 
e ningum, nem mesmo Hergus, lhe havia esfregado as costas. Seus olhos se abriram e todas as recordaes a inundaram, quando ela viu os olhos ambarinos sorridentes
de Ruark.
    - Oooohhh! - O gemido lhe escapou quando ela caiu sobre o estmago e colocou o travesseiro mais uma vez na cabea, apertando-o contra os ouvidos. Mesmo assim,
ouviu a voz macia dele, com um tom risonho:
    - Bom-dia, madame. Espero que o sono lhe tenha feito bem.
    - Nunca - disse ela com raiva, abafando o desapontamento - o cu virou inferno to depressa!
    -  a realidade, madame - zombou Ruark -  uma triste realidade. Parece que adotamos os costumes locais, porque reparo que o Sol est a pino e que  quase meio-dia. 
Acho que dormimos a manh toda e, embora meu pobre e ansioso corpo queira muito ficar perto do seu, devo pedir-lhe que se levante para evitar que nosso covarde antagonista 
nos passe  frente e estrague nosso dia.
    Shanna tirou o travesseiro da cabea e arfou, percebendo que estava inteiramente exposta ao olhar cpido de Ruark. Ainda mais humilhante
    era saber que ele devia t-la despido e a posto na cama. Com um gemido desesperado, pegou o lenol e se enrolou nele, mas parou subitamente, ao ir de encontro 
ao peito de Ruark mais uma vez. Recostou-se de lado, cabea escorada na mo, puxando a maior parte do lenol com o corpo. Enquanto seus olhos brincaram com os dela, 
reluzindo maliciosos, seu brao a rodeou amorosamente, e a mo lhe acariciou as costas.
    - Shanna, meu amor - disse, baixinho. - Estamos quase no final da manh para essas demonstraes passionais de esposa, mas no ouso recus-la.
    Seus lbios comearam a se aproximar dos dela. Um seio macio esmagou-se contra o peito musculoso dele, suas coxas se entrelaaram, e Shanna logo se deu conta 
de que ele estava mais do que disposto, estava pronto, a fazer com que os dois demorassem mais ainda a se levantar.
    Conseguiu afastar-se dele, deixando-lhe o lenol para o que ele quisesse fazer. Era mais fcil lidar com sua nudez do que com os arroubos amorosos de Ruark. 
Levantou-se da cama e procurou abrigo, sabendo que devia vestir-se ou enfrentar a perspectiva de violao. Ruark permitiu-se observar calmamente a fuga de Shanna.
    Apressadamente, Shanna pegou o gibo de couro de Ruark - que oferecia alguma proteo - e o vestiu; chegava-lhe aos joelhos. Era grande, e no tinha nenhum fecho 
acima ou abaixo da cintura cintada.
    Devagar, Ruark deu um risinho ao olh-la, demorando-se nas curvas cheias entre as lapelas. Levantou-se da cama e andou nu at a cadeira ao lado da moa, para 
pegar a cala, o que fez com que Shanna o olhasse desconfiada.
    - Seu traje  digno de admirao, madame - comentou ele. - No me importo de dividir meus objetos com a senhora, mas sugiro que seja mais discreta entre os piratas. 
Sem nenhum aviso, a senhora talvez se veja com as adorveis costas no cho, empurrada por algum patife mais excitado.
    Os olhos de Shanna o olharam fixos e transmitiram uma indireta.
    - Isso me exclui, evidentemente, madame.
    Shanna revirou os olhos incrdula.
    - Tem certeza de que vai chegar o dia em que o senhor vai resistir  vontade de precipitar-se sobre mim?
    - Isso no ser possvel nem quando eu estiver com oitenta anos, madame - garantiu ele, alegremente. - Com a senhora perto de mim, eu precisaria dos frgidos 
mares do Norte para me esfriar o sangue.
    -  verdade - concordou ela com a cabea. - E isso acontece tambm em relao a todas as moas que voc conhece.
    Ruark aprumou-se e a olhou, questionando-lhe o insulto:
    - Com todas? Poxa, mulher, permita-me ter alguma discriminao. O queixinho de Shanna se levantou, arrogante:
    - Voc podia ter tido mais, porm isto j no importa. Est tudo acabado entre ns.
    - Quer dizer que voc planeja torturar-me. - Ficou ao lado dela, mos nos quadris, e a cala  sua frente. - Madame, v-la nua na minha cama faz minhas entranhas 
arderem. V-la vestida com meu gibo faz minhas entranhas arderem tambm. S pensar na senhora faz minhas entranhas arderem. Madame, se a senhora no ceder em pouco 
tempo, vou passar o resto de meus dias enclausurado, como um velho curvado pela idade. A senhora no tem piedade? Shanna Beauchamp, voc  uma feiticeira, uma criatura 
m, para ficar desfilando assim. - Pegou a cala com ambas as mos e a vestiu, enquanto Shanna ria dele.
    - S mesmo uma mente pervertida, meu amo e senhor, confunde o movimento mais resignado com andar arrogante. Para dizer a verdade, quanto a andar empertigado
preciso aprender muito com o senhor. - Encaixou o chapu de palha na cabea e curvou-se, um joelho para a frente e uma das mos no quadril. - O Pirata Capito Ruark, 
conquistador de tudo que v, seja virgem, adolescente ou prostituta de busto grande. Rogo dizer-me, senhor, suas conquistas por acaso lhe embotaram tanto o crebro 
que o senhor ignora a deformao das palavras que causa esta mudana em seu destino? O senhor vive falando de juramentos, juras e tratos. E que me diz do senhor? 
Por acaso possui um padro especial pelo qual no se acha obrigado a manter seus compromissos?
    - Shanna, meu amor! - Ruark verificou as pistolas e as pousou de novo. - Voc est sempre dizendo que no sou seu marido e que voc  viva. Se  mesmo assim 
- debruou-se para ela e lhe perguntou, com um riso escarninho - voc no tem nada a reivindicar de mim, meu amor. Por que me censura em bom tom por haver supostamente 
dormido com outras? Voc no me deu o direito de defesa e mandou logo seu guarda-costas atrs de mim. Tudo que veio depois disso, amor, cabe  sua bonita cabecinha, 
porque, se eu no tivesse sido expulso por causa de sua raiva, nada disto estaria acontecendo. Um grupo de homens estaria na sua casa para proteg-la, e perto haveria 
mais homens para pegar em armas e afastar esses patifes de l. O que tem a dizer a isso, querida? Sou seu marido ou sou um homem livre? Se a ltima hiptese  verdadeira, 
por que voc, sempre que pode, vira-se contra mim como uma serpente ciumenta de seu macho? Devo desgarrar-me de voc? Ou serei um brinquedo puxado numa corda que 
s deve desempenhar certas tarefas quando a senhora resolve, mas sempre amarrado na corda?
    A raiva de Shanna se aplacou e ela tentou em vo substitu-la pela lgica:
    - No so os votos matrimoniais que reivindico.  o aspecto que toda mulher odeia, o de procederem levianamente comigo, ser levada para a cama e l ouvir juras 
de amor e devoo e depois ter de escutar outra mulher reivindicar aqueles mesmos sentimentos. Como posso deitar com voc, terna e amorosa em seus braos, quando 
sei que h outras que viro usurpar meu lugar e, com seus agrados, tornar vulgar algo a que dou o maior valor?
    - Voc disse bem. - Ele caminhou pelo aposento e voltou para perto dela. -  tambm meu conceito de algo que deve valer a pena conservar. , realmente, algo 
do maior valor, minha querida. Que se barateia quando no recebe o devido apreo. E voc acaba de me dizer isso mesmo.  um tesouro. - Fez um aceno positivo com 
a cabea. - Sim, tenho necessidade de ouvir isso de voc.
    Foi  janela e l ficou olhando pensativo para a ilha. Desnorteada, Shanna franziu a testa. Havia querido espicaar-lhe o orgulho, mas lhe dera uma arma contra 
ela.
    Aproveitou-se da ateno desviada de Ruark e foi at o armrio. Livrou-se do gibo, que caiu a seus ps. Tirou um vestido de veludo preto pendurado na porta, 
vestiu-o e ajeitou-o com um torcer de corpo. O decote fundo lhe chegou at o umbigo e laos se entrecruzavam na pele nua. O tecido mal conservava os tons rseos 
dos seios em seus limites. Shanna apertou os laos em frente ao espelho mais prximo, e l parou, atnita, ao ver que o vestido exibia mais seu corpo do que o escondia.
    Viu na sua imagem uma moa meio desgrenhada, cujo cabelo caa at as costas e os seios comprimidos provocavam at o mais severo misgino. O vestido de veludo 
no fechava, e revelava o branco de sua barriga. Shanna olhou novamente para o armrio, perguntando-se o que teria esquecido na pressa de vestir-se. Devia haver 
mais uma pea naquele traje, uma blusa, um colete..
    Franziu o nariz, preocupada, e pelo espelho viu Ruark. Ele j no examinava a ilha: contemplava-a atentamente. Um risinho malicioso esboou-se no canto da boca 
bem-feita e ele se sentou no parapeito da janela, braos cruzados no peito nu. No disse nada, ficou s olhando.
    - Este traje no pode estar completo - disse ela, perplexa. - Deve haver outra pea.
    Ruark deixou a janela e veio-se aproximando pensativo dela, esfregando o queixo enquanto a olhava fixo. Calmamente comentou, ao olhar o busto transbordante:
    - No parece haver espao para muito mais coisa.
    - Deve haver pelo menos um colete - argumentou Shanna.
    Ruark ficou ao lado do espelho para meditar sobre a situao. Sem deixar de olh-la, assentiu com a cabea:
    - Harripen vai gostar. Acho que o holands tambm.
    - Ruark! - Olhou-o horrorizada de que ele a obrigasse a usar o traje, mas de repente percebeu-lhe o olhar risonho. Em exasperada impacincia, bateu com os ps, 
ps as mos nas cadeiras e soltou as pontas dos laos. Ruark susteve a respirao quando a beleza esplendorosa da moa quase saltou da roupa. Quando ele avanou, 
Shanna o olhou aborrecida e esforou-se para se cobrir.
    - Madame. - A voz de Ruark estava estranhamente tensa. - Nunca me ofereci para dormir com uma senhora nem forcei minha vontade alm da fora de resistncia de 
uma moa. - Seu olhar estava fixo nas curvas
    protuberantes, que pareciam ansiosas por explodir. Ele suspirou, trmulo. - Mas h ocasies na vida de um homem em que ele  tentado alm de sua vontade. - Quando 
ela o olhou interrogativamente, ele foi mais cru: - Madame, a violao tem suas recompensas, mesmo se unilateral. E se estou  beira de uma coisa dessas, acha que 
os piratas se controlaro? Sugiro que encontre um traje que no os provoque, e que, portanto, evite que eu me empenhe em novas lutas.
    Petulante, Shanna procurou nas arcas, pea aps pea, mas nenhuma lhe servia direito. Quando o tamanho era certo, o decote mostrava-se muito ousado, e quando 
o estilo estava bom, o tamanho era grande o bastante para atrapalhar os movimentos de Shanna.
    No fundo de uma grande arca ela encontrou um tesouro que lhe despertou a ateno, e ela mal pde disfarar a alegria. No conseguia calcular como um vestido 
estilo puritano foi parar numa arca pirata, mas ficou to feliz como se tivesse recebido um presente precioso. Era de l negra, decote alto e mangas at os punhos. 
A gola era grande e engomada e os punhos, dobrados. Sob a comprida saia havia uma touca to desenxabida quanto o vestido.
    Shanna olhou por sobre o ombro para certificar-se de que Ruark no estava prestando ateno. Ele estava virado de costas, preparando a navalha no lavatrio para 
se barbear. Pegou as peas e fez uma trouxa e se meteu atrs de um espelho, onde estaria fora do olhar dele. Despiu o veludo negro e o substituiu pela espessa l. 
Como no havia achado nem blusa nem colete, o vestido lhe irritou a pele macia de modo terrvel, pondo-lhe certas idias na cabea. Sentia necessidade de continuar 
a provocar Ruark e, com maliciosa expectativa, cuidadosamente endireitou o vestido na cintura fina e no busto cheio. Foi at Ruark e lhe pediu:
    - Quer fazer o favor de me amarrar?
    - Claro, amor - respondeu ele prontamente, pousando a navalha, ainda sem encar-la. De repente, ficou aflito. Seus olhos a contemplaram devagar e seu tom refletiu 
sua opinio negativa do traje:
    - Onde  que voc desencavou isto?
    Inocentemente, Shanna deu de ombros e apontou para a arca:
    - L. - Alisou o vestido na cintura, onde estava meio solto. - Estou bastante coberta?
    Como resposta, Ruark apenas bufou. Shanna fez um beicinho e se defendeu:
    - Foi tudo que consegui achar. - Levantou as madeixas compridas do pescoo e deu as costas a ele, onde o vestido desabotoado revelava a maciez de sua nudez. 
Passou-se algum tempo enquanto Ruark fazia o que ela lhe pediu. Nesse momento, Shanna refletiu nas vantagens de ter um marido. Havia entre eles uma tranqilidade 
quase domstica, alis, uma trgua, naquele instante em que ela precisava da ateno dele.
    - Voc encontrou uma escova para o cabelo? - perguntou ele.
    Shanna sacudiu negativamente a cabea, sabendo que seu cabelo estava horrvel. Passou a mo nele para amaciar o bolo emaranhado, e se afastou, pois no queria 
que Ruark sentisse repulsa pelos cachos desgrenhados.
    Prendeu os cabelos no alto da cabea, e foi at a cama, onde se encarapitou na beira. O calor do dia havia aumentado, e estava desagradavelmente quente. A comicho 
de l contra sua pele macia enquanto ela prendia foi um aviso do que viria. No pde evitar uma contoro e relanceou o olhar para Ruark, para ver se ele havia notado. 
Ele estava novamente se barbeando, e os olhos dela contemplaram as costas fortes dele. Desviou o olhar e se contemplou nos espelhos. Com desdm, pensou: "Mulher 
de um puritano." Esse fim seria infinitamente mais aceitvel do que o que os piratas pretendiam para ela. Tentou imaginar o tipo de vida que uma mulher levaria com 
roupas puritanas, seguindo costumes dos puritanos. Imaginou um pequeno terreno, uma cabana no mato, Ruark atrs de um arado e ela, grvida, seguindo atrs dele, 
espalhando sementes. Shanna tencionava zombar da idia, mas estranhamente o pensamento no lhe pareceu to desagradvel, e ela ficou atnita. Para justificar seu 
estilo de vida em Los Camellos, ela teimosamente concluiu que logo estaria suspirando por luxo.
    Ruark acabou de se barbear, e Shanna o observou preparar-se para o papel de pirata. A corrente de seda vermelha foi posta no ombro dele, e caiu pelo peito. Ele 
deu um n na fazenda, que virou uma espcie de faixa, na qual pendurou o pesado sabre. Escolheu um punhado de medalhas no armrio para lhe enfeitar o colete e, no 
chapu, enfiou uma pluma vermelha e comprida. Estendeu os braos para que Shanna pudesse ver como estava, e ela gemeu. Estava parecendo realmente um pirata.
    - Madame, devo parecer um pirata. - Examinou suas armas. - Falta alguma coisa?
    - No, Capito Pirata - suspirou ela. - Nenhum galo empinado poderia abafar seu brilho.
    - Obrigado, Shanna. - Os dentes reluziram num sorriso. - Vamos pr mos  obra? - Dando largos passos at a porta, ele ps a mo na tranca, olhou para ela e 
fez um gesto autoritrio com o dedo. - Vamos, madame. Ande um ou dois passos atrs de mim, como faria uma boa escrava.
    Antes que Shanna pudesse rosnar uma resposta, ele j estava no vestbulo, abrindo caminho com petulante confiana. Shanna apressou-se a segui-lo humildemente 
pela escada, pois j no tinha nimo para discutir, em face do desconforto do vestido de l.
    O grupo j estava bebendo aguardente no salo e, durante alguns momentos, Shanna e Ruark foram o centro de risos. Ruark desempenhou seu papel com perfeio. 
De braos abertos e suposta alegria, cumprimentou a todos. Tocando as medalhas, contou histrias incrveis de como as havia conquistado. Seu desempenho foi to convincente, 
que em pouco tempo os piratas se contorciam de rir. Shanna permaneceu calada e encolhida, enquanto
    os homens jogavam piadinhas. Quando o alarido escasseou, Ruark berrou por comida e bateu na mesa com fora at que Dora, atemorizada, apressou-se a cumprir a 
ordem. Da carcaa que lhe trouxeram, ele arrancou uma coxa de cabrito assado, pegou um po e jogou um pouco de ambos para Shanna. Dando-lhe estrepitosa palmada, 
mandou-a ficar num canto, onde ela se agachou e devorou a comida, observando Ruark com olhar apaixonado. Ele no ficou sentado; percorreu a mesa, gracejando com 
os homens entre mordidas de carne e goles de aguardente. Finalmente parou, ps um p num banco e fez um gesto para que os homens se aproximassem. Shanna no conseguiu 
ouvir o que ele disse, mas deduziu que fosse alguma coisa licenciosa, pois os piratas se debruaram para a frente ansiosos enquanto ele falava e dobraram de rir, 
quando Ruark terminou de falar. Ruark sorriu e acenou com a mo, para que se dispersassem. Estalou os dedos, quando passou pelo canto de Shanna e ela rapidamente 
se levantou e o seguiu.
    Longe da sombra fresca e escura da estalagem, Shanna sentiu as conseqncias de sua loucura. O tecido preto se grudou em seu corpo e a incomodou quase tanto 
quanto a areia escaldante. O vestido era muito recatado e no permitia espao para seus seios redondos ficarem  vontade. De l caa em massa reta e solta que se 
alargava numa saia ampla e pesada, que girava quando ela tentava acompanhar o ritmo do andar dele. As pernas compridas dele e seu andar rpido exigiram muito dela. 
Desesperada, pegou a saia e tentou mant-la imvel, com medo de que o busto e os quadris ficassem machucados.
    Ruark caminhava como se estivesse dando um passeio vespertino. Pegou um galhinho e, com uma faca, ajeitou-o at virar um cajado e,  medida que caminhava, ia 
esmagando tufos de grama e gravetos. Ia tambm assobiando desafinadamente. Aparentemente, ignorava a moa que lutava para acompanh-lo.
    A gargantilha lhe esfolava o pescoo, e Shanna comeou a remov-la mas achou a l ainda mais desconfortvel. Os punhos engomados lhe roavam os pulsos e ela 
tinha de estar sempre levantando os braos para que voltassem ao lugar. Entraram no vilarejo e os seixos que marcavam as trilhas entre as choas esqulidas eram 
mais quentes do que a areia. Ela quase gemia de dor, mas, vendo a despreocupao de Ruark, controlou o impulso e jurou no lhe pedir nenhum favor que pudesse amainar 
seus problemas.
    Ela ia pensando, com raiva: "Ele quer que eu me arraste e suplique, mas no vou fazer isto! No vou! Eu posso sangrar, mas no vou dar-lhe o prazer de saber 
disso."
    O Sol estava inclemente. No havia sombra, e a maioria dos habitantes estava em casa, para tirar a sesta. Sob pequeno abrigo coberto de sap, uma velha esmurrada 
dormitava entre pilhas de legumes e frutas. Quando Ruark a acordou para lhe pedir uma prova do que vendia, ela ficou muito irritada, mas se acalmou quando viu a 
cor da moeda que ele exibiu. Enquanto
    ele e a velha pechinchavam, Shanna se sentou num fardo de cnhamo para aliviar os ps queimados e rispidamente recusou a oferta de Ruark para almoar. Quando 
continuaram a marcha, ela se levantou e cerrou os dentes com um esforo. O ritmo de Ruark diminuiu enquanto ele mordiscava as bananas-figo maduras e pequenas e pedaos 
de polpa de coco. Shanna no teve dificuldade em acompanh-lo, mas j estava cansada. O suor comeou a escorrer-lhe pelas costas. Teve desesperada vontade de coar-se, 
mas suas mos estavam ocupadas com a saia e os punhos. Quando passaram por um matagal, ela puxou os punhos e os atirou nos arbustos, com cuidado para que Ruark no 
visse. O alvio foi pequeno, pois as mangas ficaram cheias de suor e se agarraram a seus braos, irritando-lhe a pele.
    Eles observavam a extremidade da praia numa direo e viram o comeo do pntano naquele lado. O Sol se movimentava no cu, enquanto eles reconstituram seus 
passos at o cais e seguiram a praia na direo oposta. Foi a que Shanna se permitiu entrar na gua, onde o marulho suave da mar tocava a areia. Fez uma careta 
quando o sol atingiu os inmeros pequenos cortes e arranhes nos ps. Ansiava para rasgar aquele traje idiota que vestia e correr para o mar gostoso e esticar os 
msculos e limpar o corpo nas ondas tpidas. Diminuiu o ritmo e viu que Ruark estava a certa distncia. Relutante, levantou a pesada saia e correu atrs dele.
    Ruark parou num montculo e ficou pensativamente examinando aquela extremidade da praia e o pntano de mangue que se estendia enquanto a viso alcanava. Ouviu 
Shanna aproximar-se e virou-se, pronto para fazer-lhe uma pergunta, mas calou-se ao v-la mancar em sua direo, as pesadas saias se lhe enrolando nas pernas, dificultando-lhe 
o andar. Seu rosto estava corado e a respirao arquejante. O cabelo j no estava preso no alto da cabea. Ao cair sobre pequena moita de capim, Shanna olhou-o 
raivosamente e mal conseguiu levantar o p para tocar o calcanhar, no qual um espinho estava enfiado.
    - Permita-me, Shanna - ofereceu-se ele, denotando real preocupao. Tirou a faca e fez meno de ajoelhar-se aos ps dela.
    - Afaste-se de mim! - O tom rspido da voz da moa o deteve. - Voc me arrasta para um passeio neste lugar onde o diabo perdeu as botas sem providenciar sapatos 
para mim nem uma sombra para me proteger. Ai!
    A exclamao foi devido a ela arrancar o espinho do calcanhar. Ruark abaixou-se junto a pequeno arbusto, de onde tirou vrias folhinhas estreitas e as torceu 
at formarem massa mida.
    - Comprima as folhas no local - instruiu ele. - Vo arder um pouco, mas retiram a dor e qualquer veneno.
    Shanna fez como ele disse e quase guinchou quando o sumo das folhas lhe penetrou a pele. Quase de imediato, porm, a dor comeou a abrandar e logo seu calcanhar 
estava entorpecido. Ruark sempre a surpreendia. Seus recursos ultrapassavam a compreenso da moa, e o conhecimento da vida inclua pequenas informaes como aquela. 
Ruark voltou a encarar o pntano e falou, olhos ao longe, e voz terna:
    - Voc disse que esta nossa sada no adiantou nada, Shanna. E para os homens tambm deve ser essa a impresso. Mas  por ali que temos probabilidade de fuga. 
- Ele a olhou objetivamente: - Os espanhis abriram um canal atravs do pntano, mas Me escondeu a entrada e no revela a ningum seu segredo. - Apontou com a cabea 
para a vegetao rasteira. Ouve os pssaros? - perguntou. Do pntano, vinha um murmrio incessante. - Existem pssaros, querida, e outras coisas tambm. Jacars, 
lagartos e todos os tipos de cobras.  impossvel atravessar a p, e mesmo que o consegussemos, depois do pntano existe mar alto. Vamos precisar de um barco de 
tamanho razovel, e  pena que o Good Hound no possa ser manejado por ns dois apenas. - Ruark deu de ombros. - Mas no adianta ficar conversando. Vamos encontrar 
o que precisamos. Talvez seu pai pague o resgate e tenha voc a salvo e de volta a casa antes de muito tempo. Os cativos que os piratas mandaram voltar  manso 
devem chegar a seu pai hoje  noite ou amanh cedo. Seu pai certamente vir depressa.
    Ruark a contemplou, compreendendo que, se conseguisse faz-la voltar a Los Camellos, isto talvez significasse que ele seria pesadamente castigado. Trahern levaria 
a mal sua ausncia como, alis, j deveria ter levado, e Ruark perguntou-se se Shanna permitiria que ele fosse espancado ou se diria a verdade ao pai. De qualquer 
forma, ele no momento s se preocupava em sair daquele inferno. Tirou a faca da bainha e ajoelhou-se ao lado dela.
    - Pobre Shanna! - Sorriu meigamente, embora a moa continuasse a olh-lo com raiva. Ele encolheu os largos ombros. - S quis examinar a terra, caso fosse preciso 
conhec-la bem. - Inclinou-se para ela e, quando a moa recuou, ele ordenou. - Fique quieta.
    Sua ordem foi obedecida. A faca cortou a manga do vestido at o cotovelo. Abriu ento a bainha por dentro de forma tal que pequeno pedao de tecido ficou pendurado 
do ombro dela, recatado mas fresco e solto. Repetiu a operao na outra manga e sentou-se no cho, analisando o busto comprimido antes de se inclinar mais uma vez 
para a frente. A pala engomada pulou para a moita, assustando um bando de pssaros. Em seguida, tirou um pedao de seda da sacola e enrolou-a sob a gola do vestido 
de Shanna, e franziu o cenho ao ver que o pescoo estava em carne viva.
    - No vou permitir que maltrate minha propriedade, madame. Ordeno-lhe que se cuide melhor.
    Shanna ignorou-lhe a tirada, mas, envergonhada de sua prpria tolice, prendeu a lngua e permitiu que ele continuasse a tratar dela. Abriu com a faca os pontos 
externos das costuras e ela sentiu o corpete se afrouxar no busto. A voz abafada de Ruark lhe chegou aos ouvidos:
    - Procurei uma aliana com voc, Shanna, e tentei conduzir-me com sensatez e fazer sempre o melhor do que me fosse oferecido. Meu objetivo  entreg-la a salvo 
a seu pai e, para chegar a esse objetivo, imploro-lhe que pare de se maltratar e procure tratar do seu bem-estar. Isto vale para ns dois, meu amor. Pelo menos durante 
algum tempo. Pronto!
    Ficou de p e recuou um pouco para contemplar Shanna, que pde respirar  vontade pela primeira vez, desde que se enfiou naquele traje.
    - O que sobrou das costuras - disse ele, indicando o corpete - deve agentar at voltarmos a nosso quarto. Voc agora est confortvel?
    - Tanto quanto se pode esperar - respondeu ela, mais agressivamente do que tencionava.
    Ruark deu-lhe as costas e sua voz tambm se mostrou rspida:
    - Se voc for capaz, podemos voltar agora.
    Shanna testou seu calcanhar, e ficou surpresa ao ver que no estava doendo. Ficou ainda mais surpresa ao ver o brao de Ruark  sua disposio para ajud-la. 
Ela o aceitou e se encostou nele at enxergarem o povoado, quando ento ela voltou a sua posio anterior. Ele assobiou e girou o cajado novamente, para dar a impresso 
de que estava dando um passeio. Seu andar diminuiu o ritmo e de vez em quando ele olhava para Shanna, para ver como a moa estava.
    Passaram pela vila e se aproximavam da estalagem, quando Ruark saiu da trilha j gasta e explorou um outro caminho estreito que passava por dunas com moitas 
de capim e arbustos baixos, e foram parar numa lagoa. Um bando de cabritos se espalhou quando eles se aproximaram e fugiram para os arbustos que ocultavam o osis. 
Era um vale bem escondido. Pequena fonte alimentava o pequeno lago, o qual, por sua vez, por uma fenda se ligava ao mar. O ar estava imvel ali, e o Sol batia impiedoso, 
fazendo com que o local parecesse um forno.
    Ruark falou em voz baixa a Shanna e se afastou a pouca distncia, enquanto a moa ficou meio aturdida, sem saber onde poderia satisfazer suas necessidades, pelo 
menos com mais privacidade do que Ruark. Ela nunca tivera de enfrentar tal situao e no estava disposta a comear agora. Determinada, andou pela beira do laguinho 
em direo a espessa moita perto da extremidade, mas parou abruptamente quando Ruark gritou:
    - No v longe.
    As costas de Shanna se enrijeceram e ela permaneceu de punhos fechados, silenciosamente furiosa. Sem se virar, perguntou irritada:
    - No tenho direito a nenhuma privacidade, meu amo e senhor! Ruark riu macio:
    - Se voc for muito longe, meu amor, talvez encontre companhias indesejveis. Estamos muito perto da hospedaria para voc ficar perambulando por a sozinha.
    Shanna ignorou a observao e disse, entre dentes cerrados:
    - Ento d-me licena de v-lo de costas, senhor. Imploro-lhe pelo menos essa privacidade.
    - Concordo.
    Ela olhou, cautelosa, por cima do ombro para ver se ele realmente havia cumprido seu pedido. Vendo que sim, correu para se proteger sob as rvores. Voltou depressa 
e encontrou Ruark chapinhando na gua. Ele havia tirado as armas e o gibo e deixado as sandlias e o chapu ao lado.
    - Quer tomar banho comigo, amor? - perguntou, rindo laconicamente.
    O nariz bronzeado pelo sol de Shanna arrebitou-se. Contudo, a lagoa oferecia o nico alvio  vista, e a tentao de se reunir a Ruark era quase esmagadora. 
Enfiou um dedo na gua e observou sub-repticiamente enquanto Ruark procurava a parte mais funda. Com movimentos lentos e precisos ele atravessou a lagoa, voltou 
mais uma vez  parte rasa perto de Shanna, e a olhou ansioso.
    - E ento? - Ele saiu da gua e ficou ao lado dela. - Voc no vai entrar? - Bateu na cala encharcada que lhe cobria os quadris estreitos, sacudindo-as, enquanto 
Shanna se crispava debaixo da roupa de l. Gotas d'gua pendiam da pele bronzeada de Ruark e gotas menores brilhavam no peito moreno e peludo.
    Shanna deu de ombros, indiferente. Interpretando sua resposta como afirmativa, Ruark foi mais uma vez para a parte mais funda at que a gua lhe alcanou o peito. 
Shanna resolveu-se. Ps as mos nas costas para desamarrar os laos, mas parou ao ouvir o barulho de um sino. Um par de cabras com grandes tetas surgiu, com cabritinhos 
balindo atrs. No longe deles, cantarolando, vinha Carmelita. Vendo o par que a precedera, deu um grito para cumpriment-los:
    - Ei, Chefe, o senhor  que sabe viver! Bem, mexa-se, rapazinho, porque a vou eu.
    Suas roupas pareceram voar e aterraram num arbusto prximo. Com total abandono e falta de pudor, com os enormes seios nus, ela mergulhou com estrpito e foi 
parar na at ento superfcie espelhada da lagoa, levantando tamanha gua que o cabelo de Ruark escorreu por seu rosto e orelhas, e ainda molhando a chocada Shanna.
    Ruark nadou at a parte mais rasa e ficou arfando e tirando o cabelo molhado dos olhos. Quando olhou, viu que Shanna desaparecia na trilha. Gritou por ela e 
ouviu o que pensou fosse um bufar de cabra em resposta. Apressou-se a calar as sandlias, resmungando:
    - Idiotazinha! Ela ainda vai meter-se em encrenca.
    Pegou rapidamente o resto de seus pertences e tentou vestir um brao no gibo enquanto corria no rastro da moa. Atrs dele, uma decepcionada Carmelita, os enormes 
seios de bicos escuros boiando  frente como duas bombas, recostou-se e tocou a gua.
    - Malditos e grosseiros! - resmungou. - No quiseram ficar para se divertir um pouco. Bem, ele estava mesmo de cala.
    Ruark alcanou Shanna. Ps a sacola ao ombro, endireitou a espada no quadril e ps o chapu, recuperando a imagem folgaz.Ela andava rpido e ele precisou esforar-se 
para tomar-lhe a dianteira. Shanna caminhava em passadas largas e em silncio, lbios apertados pela irritao, e olhar fixo  frente. Ruark chegou  porta da estalagem 
antes dela, mas ao parar l dentro ela o empurrou e, sem diminuir a marcha, subiu a escada e fugiu para o quarto. Felizmente o salo estava vazio,  exceo de Me, 
que cochilava
    na cadeira. O homenzarro se assustou e acordou, quando olhou para Ruark e, rapidamente, voltou a dormir.
    Shanna ficou junto  porta quando Ruark a fechou, examinando o aposento, surpresa. Havia sido limpo e cheirava a sabo. O cho de madeira mostrava manchas midas 
por haver sido recentemente esfregado, e todos os mveis reluziam. As fronhas manchadas da vspera tinham desaparecido e, em seu lugar, havia fronhas limpas, e lenis 
impecveis estavam na cama. Grandes e macias almofadas achavam-se tambm na cama, e todas as peas de roupa haviam sido postas no lugar. At a banheira foi esfregada 
e brilhava como uma jia na extremidade do aposento. Uma mesinha estava cheia de roupa branca e toalhas e, perto, outra mesinha exibia variado sortimento de leos 
perfumados, essncias de rosas, perfumes e sais. Um urinol limpo havia sido colocado embaixo do lavatrio, e o jarro no lavatrio continha gua fresca ao lado de 
uma bacia que havia miraculosamente perdido a camada de sujeira.
    Shanna sobressaltou-se como se estivesse voltando  realidade e esticou a mo para trs do pescoo, para desamarrar o lao. Um movimento dianteiro dos ombros 
fez com que o vestido se soltasse e casse no cho. Ignorando Ruark, ela livrou-se da roupa, chutando-a com um resmungo. Andou calmamente at o lavatrio, onde ps 
gua na bacia, enfiou as mos no lquido refrescante e lavou os braos, deixando que a gua fria lhe escorresse por eles. Suspirou fundo e, pegando um pano macio 
e um sabonete, comeou a lavar-se com indisfarvel prazer. Pondo o queixo  frente, exibiu o pescoo longo e suavemente lavou a rea avermelhada onde a gargantilha 
havia esfolado. Aps um instante, abriu os olhos e, pelo espelho, notou que Ruark a olhava. Voltando-se um pouco, dardejou-lhe olhar fulminante.
    - Satisfaa seus olhos, seu burro paspalho. Talvez sua Carmelita ainda esteja esperando na lagoa.
    Ruark tirou o chapu da cabea e, com um gesto irritado, atirou-o na cama. Depois disse spero e agressivo:
    -  bvio que voc no perdeu sua capacidade de apoquentar, meu amor. - Tirou a sacola do ombro e parou ao lado do vestido de l, erguendo-o com a ponta do sabre. 
- Devo arejar seu vestido, senhora? - zombou. - Talvez a senhora queira us-lo amanh.
    - Boa idia, senhor - disse ela em tom escarninho, a voz to amorosa e cordial quanto antes. - Areje-o para fora da janela - apontou com o queixo na direo 
- com o resto do lixo.
    Conforme sua vontade, o traje foi jogado pela janela. Quando desapareceu, ouviu-se um vozerio debaixo da janela. Ruark apoiou as mos no parapeito de ferro e 
viu dois pirralhos que no teriam mais de 10 anos. Discutiam animadamente e brincavam de cabo-de-guerra com o vestido. Ao v-lo, pararam a brincadeira e levantaram 
os olhos e, talvez temerosos de que ele quisesse o tesouro de volta, saram correndo pelo gramado e se embrenharam na mata, segurando desesperados o vestido preto. 
A surpresa de
    Ruark foi ilimitada, pois l embaixo, onde antes havia uma pilha de roupas abandonadas, cobertores velhos, etc., s havia alguns cacos de vidro. At o imundo 
urinol havia desaparecido. Ruark balanou a cabea. No se dera conta de que aqueles objetos asquerosos teriam valor para os habitantes do vilarejo.
    Um fiozinho d'gua lhe correu pelo pescoo vindo do cabelo e, atirando a espada e o gibo numa cadeira, pegou uma toalha ao lado da banheira e comeou a enxugar 
o cabelo. Shanna continuava a lavar-se e, por entre as dobras da toalha, ele pde observ-la sem ser notado. O busto jovem e cheio lhe atraiu o olhar e os montes 
macios eram to atraentes que ele no conseguiu resistir a um impulso e, estendendo a mo, deles tirou um pouco de espuma e em seguida pegou os seios. Uma dor aguda 
lhe atingiu as costelas e Shanna preparou o cotovelo para atacar novamente. Desta vez ele gemeu, e retirou a mo errante para esfregar a carne machucada. Shanna 
o encarou, riso escarninho nos lbios:
    - Tire as mos de mim. Voc no  meu dono.
    - Tenho ento sua permisso, senhora, de buscar em outra o que a senhora no me concede? - escarneceu ele.
    - No lhe concedo nada - disse ela rapidamente e, queixo para a frente, ps-lhe um dedo no peito e devagar o enroscou num cacho de cabelo-a no ser um soco na 
barriga, se voc voltar a me tocar. Afaste-se.
    Tirou abruptamente a mo de cima dele, fazendo com que ele gemesse de dor ao ter o cabelo repuxado, ignorando-o como se ele no existisse. Ela pegou tranqilamente 
um lenol e se embrulhou nele, enfiando-o debaixo dos braos e cobrindo cuidadosamente os frutos tentadores cobiados por ele.
    Shanna voltou a lavar o rosto e, com um resmungo aborrecido, Ruark acabou de secar o cabelo. Desfez-se da toalha, apanhou um pente esculpido em concha que estava 
em cima da roupa branca e tentou dar ao cabelo uma aparncia geral de ordem. Revirou o pente nas mos para admirar o cuidado com que foi feito, mas de repente o 
objeto lhe foi tirado e Shanna postou-se a seu lado, olhando fixo para o pente, esquecida da vingana.
    - Onde encontrou isto? - perguntou surpresa.
    - L. - Apontou para a pilha de roupas. - Estava ao lado da escova. Com um grito de alegria, Shanna pulou e pegou a escova tambm.
    Comprimiu-os contra o peito como se fossem um tesouro.
    - Oh! - gemeu baixinho. - Obrigada, Galtlier. Voc conhece bem as mulheres.
    Ruark a olhou firme, com orgulho ferido.
    - So apenas um pente e uma escova - observou, rabugento.
    - Apenas! - Shanna o olhou surpresa, e sorriu suavemente para os objetos. - Seu sabujo, voc se sairia melhor em seus ardis se tivesse metade da compreenso 
daquele homem.
    Feliz, Shanna se meteu na cama. Sentando-se como um buda, disps o pente e a escova  sua frente, como se eles pudessem quebrar-se ao menor
    toque desajeitado. Pegou o pente, ignorou o carrancudo Ruark e comeou a desembaraar as madeixas, imersa em pensamentos, frente aos vrios espelhos.
    No final do dia, Carmelita e Dora levaram lamparinas e as penduraram em cima da comprida mesa do salo quando a escurido invadiu o aposento. Barulhenta alegria 
aumentou  proporo que Harripen e os outros comandantes bebiam. Ruark sentou-se  sombra, afastado das brincadeiras grosseiras e da baderna, observando os piratas 
se animarem com rum e aguardente. Experimentou a mistura e olhou algumas vezes para o topo das escadas, esperando que Shanna aparecesse. A higiene dela fora demais 
para ele, que se refugiara na segurana dos nmeros para que a luxria no o vencesse e ele a atacasse.
    Harripen afastou-se do grupo escandaloso reunido perto de sua cadeira e aproximou-se de Ruark:
    - Homem,  voc mesmo que eu quero ver - murmurou, com voz enrolada. - Sabe de uma coisa? Estou curioso em relao  moa.
    Ruark levantou o cenho interrogativamente. Sob a parca luz, seus olhos pareciam pedras, olhando fixo para o homem de modo frio.
    - Ser verdade, rapaz? Um dos cativos de Trahern disse que a moa no era virgem coisa nenhuma, que ela era viva.
    - Ela ficou viva faz alguns meses - disse Ruark, dando de ombros. - De um sujeito chamado Beauchamp.
    - Ah, ? - exclamou Harripen, a luxria lhe assomando aos olhos. - Uma viuvinha recente adoraria receber o calor de um macho na cama.
    Deitou-se na mesa e berrou sua alegria para as tbuas do teto. Seus companheiros se agruparam perto, e Ruark sentiu os msculos de seu estmago se retesarem. 
Se o assunto da conversa continuasse a ser Shanna, isso s poderia representar problemas.
    Hawks sentou-se  mesa e debruou-se para seu comandante, reunindo os outros como se fosse partilhar um segredo, mas sua voz soou alto o bastante para Ruark 
ouvir claramente o que disse:
    - Se um cara j d para agradar  moa - disse, sarcstico - no  certo que dez agradem muito mais? Acho que cada um de ns deve provar daquela gostosura de 
cada vez, porque a gente  justo e no  certo que s um sujeito - apontou o polegar para Ruark - tenha esse prazer. Digo que a gente deve dividir tudo igualmente. 
E ele j acabou com o pobre Robby.
    Todos concordaram com a cabea, e sorrisos licenciosos se abriram nos rostos em redor da mesa, o que demonstrava que os patifes estavam ansiosos para entrar 
em acordo. Harripen refestelou-se mais uma vez na cadeira. Sempre rindo, espreitou Ruark, mas seus olhos reluziram enquanto ele tramava ser o primeiro na cama de 
Shanna.
    Ruark recostou-se na cadeira. Sua tenso se transformou em estado de alerta, para uma luta que parecia iminente. Enfrentou o olhar de Harripen enquanto bebericava 
tranqilamente aguardente.
    - Onde  que est a moa? - perguntou Harripen. - Ela est sempre grudada em voc..
    Ruark apontou a caneca para a escada e disse:
    - Ela est no quarto, mas previno que...
    - Voc no vai prevenir a gente de nada, seu ianque fanfarro - ousou dizer o comandante mulato. O rum lhe havia emprestado dose incomum de coragem. Agitando 
o punho rolio, ele se afastou da mesa e anunciou: - Vou trazer Madame Beauchamp para cumprimentar seus iguais.
    Rindo alto, dirigiu-se com andar cambaleante para a escada:
    - No se preocupem se eu demorar - disse ele, rindo, por sobre o ombro e ps o p no primeiro degrau.
    A exploso na sala confinada entorpeceu os ouvidos de todos, e o mulato gelou quando voou reboco onde antes havia enorme bola na parede, quase lhe atingindo 
o nariz. Irado, virou-se e viu Ruark baixar a pistola ainda fumegante. Rosnando uma imprecao, o homem tirou o sabre da bainha e saltou, para buscar vingar-se de 
seu atacante. Seus ps mal tocaram o cho quando ele parou abruptamente. O cano da segunda pistola parecia duplamente maior do que o da primeira, e estava mirado 
em seu peito. Percebeu que o gatilho estava pronto para atirar e sua raiva desapareceu rapidamente. Ficou logo sbrio. Olhou fixo para os olhos ambarinos da morte, 
que reluziam por trs da arma como globos gmeos, e seu rosto moreno ficou lvido. Devagar e cautelosamente, reps o sabre na bainha e se aprumou, tentando ao mesmo 
tempo sorrir amarelo:
    - Eu... - gaguejou - minha inteno no era m, Comandante. Eu estava brincando, sabe?
    A pistola afastou-se de seu peito e Ruark fez um aceno duro com a cabea:
    - Aceito suas desculpas. - O olhar de Ruark foi at o topo da escada, onde se encontrava Shanna. Estava vestida com um traje recatado de propores semelhantes 
ao de Carmelita. O vestido lhe caa quase reto dos ombros, mas sua dona anterior no tinha altura suficiente para permitir ao traje cobrir os finos tornozelos e 
os ps descalos de Shanna.
    Nas sombras ao lado da saia, reluziu algo, e ele reparou na pequena adaga de prata que ela segurava, sem dvida encontrada entre os objetos de Pellier, quando 
a moa havia procurado roupas condizentes. Era uma arma minscula, mas, conhecendo Shanna, Ruark calculou que ela estava preparada para combater o mundo.
    O mulato tomou lugar na extremidade da mesa para se manter cautelosamente longe de Ruark, apesar de que este j havia enfiado a pistola carregada novamente no 
cinto.
    - Junte-se a ns, Madame Beauchamp, por favor! - gritou Ruark, dando uns dois passos  frente, e lhe indicando um lugar a seu lado. - Venha ficar aqui.
    Antes de descer  vista de todos, Shanna enfiou a arma numa prega da saia. Quando ela chegou, Ruark encarou os piratas e deliberadamente
    recarregou a arma bem  vista deles. Meteu a plvora devagar e apoiou a vareta no ombro de Shanna, quando ela se aproximou. Ela estava muito plida, pequena 
e obediente.
    - Isto  meu - rosnou ele, e at Shanna se assustou com o som de sua voz, alto na sala. Ele foi at a mesa, onde ps a coronha da arma e, com um rudo firme, 
a arma estava pronta para ser disparada de novo. Ps o p no banco e apoiou o cotovelo num joelho, deixando que a pistola balanasse solta em sua mo. Com calma, 
perscrutou os rostos  sua frente.
    - Vocs falam de partes nos despojos - disse, zombeteiro, com tom de voz perigosamente suave. - Eu podia reivindicar as partes de vocs. Apontou para o comandante 
mulato com a arma. - E a sua tambm. - Olhou firme para Hawks e passou o polegar pelo co da arma. - Ou at a sua. - Sorriu para Harripen, depois riu cinicamente 
e falou. - Parece que Me  a nica pessoa que no disputa meus direitos  senhora, Madame Beauchamp.
    Abandonando a pistola, Ruark sacou do comprido sabre e ps a ponta da arma na mesa em frente aos homens.
    - Se algum contesta meu direito a qualquer coisa, vamos resolver aqui e agora o problema.
    Seus olhos arrasaram com o orgulho de todos eles e, pouco a pouco, os homens desviaram os olhos ou sacudiram a cabea, recusando a disputa. Ruark devolveu o 
sabre  bainha e disse:
    - No pensava mesmo que algum quisesse lutar.
    Voltou para o lado de Shanna e comeou a falar em tom complacente, como se estivesse dirigindo a um bando de meninos:
    - Vocs podem considerar que Madame Beauchamp  uma mercadoria que, pelas prprias regras de vocs, foi passada para meus cuidados. Ela  um tesouro valiosssimo, 
cujo resgate poderia fazer com que vrios de vocs pudessem ir para as colnias como homens ricos. - Pegou um cacho do cabelo da moa e o exibiu. - Uma tapearia, 
ou um quadro,  uma coisa de grande beleza e valor, mas se maltratada e ferida, seu valor  o mesmo de um trapo, que no  til a ningum. Pensam em trocar uma filha 
violentada com um pai amoroso, por uma rica recompensa? J ouviram falar em Trahern? - Ele resmungou. - Eu j! E Me tambm. Ele confirmar o que lhes digo. Se a 
filha de Trahern lhe for devolvida com menos um fio de cabelo do que tinha, ele os vai perseguir at o fim do mundo, se for preciso, e vai faz-los danarem num 
lais de verga como vingana.
    O salo ficou silencioso enquanto os homens pensavam no que lhes foi dito. Me se levantou da cadeira, e a mesa estalou quando ele apoiou seu peso nela.
    - Ouam o que ele diz, rapazes - ordenou a voz de tenor. A cabea calva reluziu sob a luz, e os rabichos tranados balanaram quando ele mexeu a cabea para 
olhar cada um deles. - O homem fala bem, e mesmo que vocs o matassem, no sobraria metade de vocs para andar pelo convs. Precisamos de todos os homens disponveis, 
e dele tambm.
    Murmrios relutantes fizeram-se ouvir e, depois de um instante, Harripen bateu com a caneca na mesa:
    - Carmelita! Dora! Tragam comida! - berrou. - Minha barriga est doendo de fome de comida e de mulher.
    Quebrou-se a tenso e os corsrios voltaram a beber. Ruark indicou com a cabea um banco nas sombras atrs de sua cadeira, e Shanna rapidamente foi at l, joelhos 
fracos e trmulos. Olhou para Ruark, quando ele se sentou a seu lado, mas mesmo naquele instante teve dificuldade em demonstrar gratido. Sem querer encar-lo, desviou 
o olhar.
    Os homens pilheriaram e trocaram piadas como antes, mas, de vez em quando, Ruark percebia um olhar raivoso. Era melhor que Orlan Trahern chegasse depressa para 
buscar sua filha, porque ele, Ruark, no sabia quanto tempo mais poderia fazer frente aos piratas. Na maioria, eram criminosos fugitivos da lei, marginais abjetos. 
Enfrentavam a morte com descuidado abandono, pois isso representava apenas o fim de uma existncia sem sentido. Mutilao era o que mais temiam, pois, assim como 
lobos, precisavam ser fortes e saudveis para perambular  vontade. Uma vez aleijados, teriam que implorar migalhas aos companheiros implacveis e cruis.
    Parecendo tranqilo e confiante aos outros, Ruark esticou as pernas compridas e apoiou o brao na beira da mesa. S Shanna sabia que fervilhava nele algo semelhante 
 fora dos animais selvagens. Nunca se podia ter certeza do humor dele, e devia-se trat-lo sempre com o respeito devido a um animal perigoso.
    Ela pensou: "Deus tenha pena do mundo, se ele virar um verdadeiro pirata. Seria um corsrio espetacular. Tem capacidade para liderar homens", seus olhos se estreitaram 
quando Carmelita andou vagarosamente perto de Ruark, com uma travessa de carne assada, "e mulheres."
    Dora mantinha-se o mais longe possvel dos homens, enchendo as travessas de comida, e os jarros de aguardente e vinho, tirados de enormes barris. Depois de colocar 
comida e bebida numa mesa baixa, deixava Carmelita servir, tarefa que ela cumpria com o maior prazer. Conseguia habilidosamente equilibrar uma grande bandeja de 
carnes com uma das mos, pegar canecas cheias com a outra, e caminhar rebolando. Rindo alegremente, desviava-se de braos que a queriam pegar e mos que estavam 
ansiosas por lhe acariciar o corpo. Empinava-se e exibia a funda separao do busto farto com incrvel imparcialidade, embora ao lado de Ruark se demorasse mais 
e lhe esfregasse a coxa. Curvava-se de forma a que ele no deixasse de ver seus abundantes dotes fsicos, e se inclinava sobre o brao dele para lhe reabastecer 
a caneca de aguardente. E quando se afastava, seu busto acariciava o brao dele de forma acintosa.
    Shanna ficou encolerizada porque Ruark no tentou evitar os afagos da mulher. No notou o cenho franzido e preocupado com que ele olhava Carmelita, ansiando 
para pr o p naquelas ndegas rijas.
    Carmelita se afastou para distncia segura, para buscar mais uma rodada de comida e bebida, permitindo a Shanna esfriar o nimo um pouquinho.
    Quando Ruark virou a cadeira e ofereceu a Shanna seu prato, para que ela se servisse de algo, percebeu-lhe o queixo retesado e o nariz para o alto, enquanto 
ela escolhia o que queria.
    Sbito, Me bateu o caneco na mesa e olhou raivosa e acusadoramente para todos:
    - Esta sala est fedendo - disse ele, com riso escarninho - a ricos e arrogantes. - Fez todos se calarem ao varrer pratos e canecos de cima da mesa, com um empurrar 
de mo. -  um cheiro de chicote, sangue e suor.  um fedor de riqueza e justia contrariada. Cheira a...
    Seu olhar percorreu rpido o local e fixou em Shanna. Ela o encarou e, se estivesse sozinha, sem Ruark a seu lado, se teria escondido, apavorada. Com movimento 
sbito, Me esticou o brao forte e apontou um dedo acusador para ela:
    -  o cheiro de uma Trahern - gritou, e Shanna estremeceu quando todos a olharam. Ruark enrijeceu imperceptivelmente e baixou o copo. O riso alto de Me ecoou 
no salo. - Descanse, Sr. Ruark. Ningum aqui disputa seu direito a essa serpente. O senhor sabe muito bem que no tenho condies de querer a moa para mim. Mas 
acho que ela deve servirmos como servimos ao pai dela.. como escrava.
    Gritos de concordncia vieram de todos os lados, e Carmelita sorriu afetada e acrescentou sua opinio:
    - , vamos deixar que a mocinha trabalhe para viver. Me agitou o brao para Shanna e sugeriu:
    - Ela que trabalhe como qualquer escrava.
    Ao olhar interrogativo de Shanna, Ruark fez um ligeiro aceno afirmativo com a cabea. Confusa, ela se levantou, sem saber o que esperavam dela. Seu olhar percorreu 
os rostos debochados e se fixou no de Me. O gigante sorriu macio e disse:
    - Faa o favor, Madame Beauchamp, de me dar um pouco de vinho, que vai matar minha sede por um tempo.
    Um jarro foi atirado na mo de Shanna por Carmelita, que a olhou com olhos pretos e maliciosos e um sorriso satisfeito. Com dedos trmulos, Shanna agarrou o 
jarro, sentindo o peso dos muitos olhares e dos olhos manhosos de Me. Encheu a caneca do eunuco e,  medida que os outros a chamavam erguendo as canecas vazias, 
ela se mexeu hesitante em redor da mesa e foi cuidadosamente servindo a bebida espessa.
    Harripen recostou-se na cadeira, observando os movimentos da moa, e as curvas suaves escondidas sob o vestido desproporcional. Com um gesto ligeiro, Shanna 
tirou do rosto um cacho de cabelo e o olhar excitado do pirata concentrou-se no corpete solto em redor dos seios da moa. Pensativo, fixou o olhar na robusta Carmelita, 
que cortava carne com movimentos enrgicos, o que fazia seus seios balanarem. Ele bebericou o vinho e recomeou a comer, aps resolver que, na hora conveniente, 
ele satisfaria suas necessidades biolgicas mas no com a rameira.
    O mulato no demonstrou tanta pacincia. Quando Shanna se aproximou, ele lhe agarrou os pulsos, fazendo com que ela lhe derramasse vinho nos joelhos. Com medo, 
Shanna tentou livrar-se, mas ele a puxou para si at deparar com o olhar de Ruark. Ficou gelado, ao ver os olhos ambarinos demonstrarem a mesma frieza penetrante 
que havia visto antes quando o colono estava com a pistola. Com um sorriso pesaroso, ele a soltou, e Shanna apressou-se em afastar-se.
    Ruark esperou todos estarem servidos e fez um gesto a Shanna, que veio depressa. Debruou-se para pr vinho na taa dele e, descuidada, roou levemente os seios 
no ombro dele, onde o colete sem mangas deixava a carne  mostra. O contato os pegou desprevenidos, fazendo com que estremecessem com a rpida excitao que lhes 
invadiu os corpos. Seus olhos se encontraram e as faces de Shanna se ruborizaram. Confusa, ela se endireitou e ps o jarro contra o busto, em dolorosa confuso.
    Havendo testemunhado o encontro, Harripen irrompeu em altas casquinadas e agarrou a camisa do holands, que ficou alegre tambm quando o ingls apontou para 
Ruark e Shanna, chamando a ateno de todos:
    - Sr. Ruark, treinou-a bem, hem?
    Ruark passou um brao pelos quadris de Shanna e ps a mo no traseiro da moa, ao mesmo tempo em que ria para os licenciosos:
    - , mas ainda falta muito para ela aprender.  como treinar uma gua. No se pode deix-la sozinha por muito tempo. - Sentiu Shanna enrijecer e calculou que 
suas palavras deveriam t-la exasperado.
    -  isso mesmo - gritou Harripen. -  assim que se faz. Moa, Carmelita pode ensinar-lhe umas coisinhas!
    Carmelita veio  frente ansiosa, balouando os largos quadris, e recostou-se na cadeira de Ruark, ignorando Shanna, que comeou a enfurecer-se ao ver os dedos 
morenos da outra se enfiarem no cabelo negro de Ruark. Ao ver o olhar raivoso de Shanna, Carmelita riu:
    - Calma, benzinho. Ele tem o bastante para agradar a ns duas. Quanto mais melhor,  o que sempre digo.
    Os olhos de Shanna se estreitaram quando a mulher caiu rindo no colo de Ruark, fazendo com que ele soltasse uma exclamao. O rapaz se debateu para sentar-se 
reto sob o peso da mulher e pareceu aflito, quando Carmelita lhe beijou vorazmente o rosto e o peito. Contorcendo-se em seu colo e lhe falando baixinho ao ouvido, 
ela pegou a mo dele e a ps no seu busto, enquanto colocava sua mo no smbolo de virilidade de Ruark.
    Alguma coisa dentro de Shanna estalou e, como um graveto seco debaixo de um p pesado, ela deu um guincho de raiva, esticou o brao e deu um empurro to violento 
em Carmelita, que a mulher caiu estatelada no cho, onde ficou, confusa pelo ataque da suposta dama. Os acessos de riso dos piratas, contudo, no poderiam deixar 
essa afronta passar em brancas nuvens, e logo uma lmina comprida e estreita apareceu na mo de Carmelita.
    """ Ruark ficou de p porque pareceu que teria de intervir mais uma vez, porm um barulho de vidro quebrado lhe desviou a ateno para Shanna. Ele franziu a 
testa surpreso, ao ver que ela enfrentava o mulhero com um pano passado no gargalo de um jarro quebrado. Tirou a cadeira e a si mesmo do caminho de Shanna, embora 
no se afastasse muito. Ela ficou firme, brandindo o vidro pontiagudo enrolado na toalha. O instrumento era excelente clava. A linha mimosa do queixo da moa mostrava 
a mesma determinao que ele conhecia. Teve de admirar a beleza selvagem que a fria de Shanna provocava, enquanto o cabelo cor do sol e desalinhado compunha viso 
de beleza.
    Carmelita recuou um passo; sua insegurana estava refletida no rosto. Mesmo se conseguisse retalhar Shanna, as beiras denteadas do jarro estraalhado poderiam 
danific-la para o resto da vida e, naquele lugar em que ela precisava dos homens para sobreviver, no podia dar-se ao luxo de perder a parca beleza de que era aquinhoada. 
Viu a determinao nos olhos de Shanna, o fogo naquelas profundezas azul-esverdeadas. Nunca fora derrotada em lutas, mas achou mais prudente, pelo menos no momento, 
recuar.
    Guardou a faca, e Shanna fez o mesmo. Harripen soltou um risinho e deu pancadinhas aprovadoras no traseiro de Shanna, mas quase engoliu a lngua de surpresa, 
quando levou violenta bofetada da moa. Ruark susteve a respirao,  espera da reao do ingls, mas Harripen, aps o choque, teve um ataque de riso.
    - Macacos me mordam, queridinhos, ela  to danada quanto o prprio Trahern!
    O holands estava animadssimo devido ao rum que bebera. Aproximou-se de Shanna e, antes que ela pudesse reagir, deu-lhe um abrao de urso, enquanto rosnou-lhe 
risonhamente ao ouvido:
    - Esse tal de Harripen no tem sorte com mulheres. Garota, o velho Fritz Schwindel vai proteg-la dos piratas safados.
    O joelho de Shanna encontrou um local propcio, e o holands cambaleou e gritou de dor, enquanto sua mo gorda girava para bater na cabea de Shanna. Esta foi 
mais rpida do que o obeso holands e desviou-se de sua manopla, mas os dedes dele se enroscaram na parte de trs do vestido dela, abrindo-o at a cintura. Ela 
lhe pisou os dedos com os calcanhares e afastou-se dele, agarrando a frente do vestido, para proteger sua nudez. Virou-se para Ruark e, numa frao de segundo, uma 
enxurrada de emoes passageiras a imobilizou: sua vontade de se atirar nos braos dele e implorar-lhe que a tirasse daquele inferno; sua raiva por ele a haver exposto 
a tanto deboche; sua humilhao espicaada, e seu medo do que estava por vir reduziram tudo a confusa miscelnea de sentimentos. Lgrimas brotaram, prontas para 
escorrer de seus olhos, mas conseguiu compreender rapidamente a situao.
    Um esgar contorcia o rosto de Ruark. Ele se agachou e se encolheu como uma cobra pronta para atacar. Precipitou-se  frente, como um tigre
    pronto para saltar. Herr Schwindel continuava pulando de dor, tentando segurar os dedos dos ps e aplacar a virilha atingida ao mesmo tempo, quando Ruark foi 
de encontro a seu peito. A agresso fez com que o holands recuasse e batesse contra a parede, e, quando voltou, Ruark empurrou-o com os ps. O gordo se precipitou 
contra o cho e, ainda girando o corpo, escorregou para baixo da mesa.
    O sabre sibilou sua cano agridoce ao ser tirado da bainha, e o holands foi desordenadamente para o outro lado da mesa, derrubando cadeiras e homens, em sua 
nsia de fuga.
    - Nein! Neinf - balbuciou. - Der recht ich nicht haben! - Vendo que suas palavras no tiveram efeito sobre Ruark, ele se debateu com o correspondente em ingls: 
Eu no tenho direito! - Eu desisto! Desisto!
    Ao ver o covarde encolhido debaixo da mesa, Ruark recobrou o controle, e devagar relaxou e guardou a espada. Olhou para os rostos dos corsrios e no viu nenhum 
desafio. No precisou dizer nada. Finalmente, eles compreenderam a fora de sua reivindicao  moa e que ele no toleraria que lho usurpassem. Deu-lhes as costas 
afrontosamente. A um gesto dele, Shanna andou  sua frente e ele a seguiu com passos lentos e medidos at fechar e trancar a porta do quarto de ambos.
    Ruark encostou-se na porta e respirou pesadamente, para aplacar a tenso em suas costas, formada com cada passo que ele deu ao se afastar da mesa, e estava certo 
de que,  possvel exceo de Me, todos os outros l embaixo ansiavam por ter coragem de lhe enfiar uma faca entre as costelas. Viu Shanna ir at a janela, onde 
ficou, contemplando silenciosamente a escurido, por entre as venezianas. Ele deduziu que ela continuasse enfurecida por causa de Carmelita e no quisesse nada com 
ele.
    Suspirou de frustrao e alvio por estar vivo.No se rebaixaria a pedir o perdo de Shanna por algo de que era inocente, mas desejava a ternura que suas explicaes 
talvez motivassem  moa. Ansiava por um olhar compreensivo, pelos lbios dela nos dele, por seu corpo sedoso dentro de seus braos, mas sabia que sempre faltaria 
algo, se no houvesse confiana mtua.
    Uma vela achava-se acesa ao lado da cama. Ele calculou que Gaitlier provavelmente a havia acendido. A cama estava convidativamente preparada. No se lembrava 
de haver visto o homenzinho l embaixo ou na escada. Deduziu que ele deveria ter ido e vindo pelos fundos.
    Ruark perambulou a esmo pelo quarto e se despojou das armas e do gibo, deixando-os ficar no lugar mais  mo, quando ele acordasse de manh. Shanna no o olhou 
e continuou em sorumbtico silncio. Ruark parou ao lado da banheira e, ao ver que estava cheia, sorriu. Gaitlier realmente conhecia as mulheres, especialmente Shanna.
    Ruark se aproximou de sua mulher e, com suavidade, lhe pegou um cacho no ombro, dizendo:
    - Shanna!
    Ela rodopiou, olhos cheios de raiva e com o desafio nos lbios.
    - Cale a boca - disse ele, antes que ela falasse, e lhe ps o dedo em cima da boca. Pegando-lhe a mo, levou-a at a banheira. L estava escuro e ela s entendeu 
o que ele queria quando Ruark acendeu uma vela. A surpresa da moa o animou, mas ela o empurrou e rapidamente preparou uma cortina improvisada entre dois espelhos 
com um lenol. Logo em seguida, Ruark sorriu ao ouvir um barulho na gua, seguido por demorado suspiro de alvio. Foi at a janela, ps uma perna no parapeito e 
nele se sentou, olhando para a escurido terrvel da ilha.
    Algum tempo depois, Ruark se virou e reparou que a vela de Shanna fazia sua sombra refletir-se no lenol. Logo esqueceu de observar a escurido e concentrou-se 
na moa. Ela se levantou e estendeu a mo at o armrio, e sua silhueta apareceu em detalhe contra o lenol. O sangue de Ruark se aqueceu, sentindo o desejo inund-lo. 
Lembrou-se de certa noite em que ela o procurou e se entregou a ele com uma paixo que ele jamais conhecera numa mulher. Teve enorme vontade de que se repetisse 
a experincia. Com passos lentos mas decididos, foi at a cortina e a levantou, assustando Shanna. Os olhos dele acariciaram tudo que tocaram. Os seios redondos 
dela reluziam com gotinhas d'gua que pareciam pequenas estrelas  luz da vela. A gua rasa no escondia nada dele, e sua paixo se inflamou ao ver a moa daquele 
jeito. O olhar de Shanna tambm estava meigo e sua respirao ofegante, quando ela o olhou. Ento, os olhos dela baixaram e algo que no era desejo se acendeu neles. 
Ela puxou um pano para proteger o busto e perguntou:
    - Senhor meu Comandante, est-se intrometendo. No tenho direito  privacidade?
    Ruark riu escarninho:
    - Shanna, meu amor, voc  mesmo deslumbrante, mas ultimamente sinto muita raiva em voc. Por que devo suportar isso, quando no tem motivo para tal?
    - , realmente no tenho motivo! - retrucou Shanna. - Voc se pavoneia com cala curta e costas nuas, perambula pelas ruas mais sujas e depois aparece na minha 
sacada para procurar meu amor. Voc me acha idiota? Ou simplria? Para eles - fez um sinal em direo  porta - vou bancar a escrava imbecil, mas no se engane, 
meu Comandante patife. Neste quarto aqui voc vai dormir sozinho. Ou se quiser bancar o pirata, poder ter-me pela fora, e s assim.
    - Shanna! - Ruark determinou-se a discutir. - Por que faz assim? Eu...
    - Quer fazer o favor de endireitar minha cortina - interrompeu ela - e me deixar em paz por um momento?
    Shanna recostou-se na banheira e, levantando a perna bem-feita, comeou a lav-la tranqilamente. Ruark lutou contra o impulso de lhe arrebatar a toalha e pr 
um fim  indiferena que ela fingia. A paixo dele o exigia, mas sua mente lhe dizia que seria loucura. Sabia que Shanna, confrontada com a fora, lutaria com a 
energia de um felino ofendido e s
    cederia exausta. Onde estaria o prazer de possu-la assim? J conhecera a alegria das reaes espontneas dela. No aceitaria nada menos.
    Aborrecido, endireitou a cortina e estendeu-se na cama para observar a sombra da moa. Sua silhueta desapareceu quando ela saiu da banheira. Passou-se algum 
tempo. Ruark tirou a cala e foi para baixo do lenol. Esperou impaciente, sabedor de que Shanna no teria foras para ignor-lo quando entrasse na cama. J havia 
notado que os travesseiros de pena tinham um jeito de uni-los. Mesmo se esforando ao mximo, ela no resistiria. Ele afofou mais o lado dela na cama, para que ela 
ficasse bem confortvel. A vela ao lado iluminava o quarto com seu parco brilho. Ele continuou esperando. Finalmente, a luz foi apagada e o lenol puxado. Shanna 
estava totalmente vestida, mas de que modo! Uma saia longa e negra, alegremente bordada por flores coloridas estava arrumada como a saia de Carmelita e mostrava 
uma coxa bem-feita. Uma blusa solta e fina, vrios pontos acima do seu tamanho, mal ficava nos ombros e nos seios da moa. Seu cabelo dourado estava amarrado para 
trs com uma fita e lhe caa em cascatas nas costas. Os olhos azuis-esverdeados brilhavam travessamente, quando ela rebolou os quadris e passou a mo neles.
    - Este estilo agrada ao meu capito pirata?  vulgar o bastante para seu gosto?
    Ela se aproximou lentamente da cama, agitando os quadris como um barco em meio a uma tempestade. Os seios se mexiam indecorosamente quando ela andava, ameaando-lhe 
a segurana do recato enquanto a blusa enorme escorregava para baixo.
    - Meu capito pirata deseja uma companheira de cama bastante ardente para passar a noite? - perguntou ela, docemente.
    Parando ao p da cama, bamboleou os quadris, convidativa, e sua expresso era provocantemente sedutora, lbios abertos e midos em misterioso sorriso. Ruark 
fechou a boca ao se dar conta de que estava boquiaberto. De sbito, os olhos de Shanna fuzilaram de raiva e ela, majestosamente furiosa, foi at um ba e de l tirou 
pesado cobertor, que dobrou num rolo comprido e voltou  cama. Colocou-o cuidadosamente no meio da cama, debaixo do lenol de cima, e dividiu o leito em duas metades. 
Apoiando as mos na cama, debruou-se para a frente, sem nenhum recato. A blusa se afastou totalmente do seu corpo, e Ruark viu-lhe at o umbigo. Os frutos que ele 
desejava acariciar pendiam maduros, prontos para serem provados. Fascinado, contemplou a exibio da moa, e afinal levantou os olhos para os dela. Fulminante sorriso 
escarninho se espalhou devagar por seu rosto, e a jovem o contemplou detidamente.
    - Ento, meu capito pirata pode ir procurar outra cama e outra prostituta! - rosnou ela.
    Empertigada, deu-lhe as costas, tirou a blusa e a saia e soltou o cabelo. Afofou o travesseiro, meteu-se debaixo do lenol e ps a cabea no travesseiro de plumas. 
Olhando para depois do p da cama, viu Ruark lhe sorrindo marotamente. O rosto malicioso a provocou, mas os espelhos a
    detiveram. Levantou a cabea e eliminou os pensamentos maus. Uma dzia de Ruark a contemplou como se um apenas no fosse capaz de resistir-lhe. Ela resmungou 
e, umedecendo o dedo na lngua, apagou a vela.
    Proferindo baixinho uma imprecao, Ruark socou o travesseiro, arrancou o lenol para se cobrir e sentiu a aspereza do cobertor nas costas. Algum tempo depois, 
sua voz foi ouvida no escuro
    - Mulher - resmungou. - Voc  doida! (
    A noite foi desconfortvel para Ruark; no dormiu bem e teve pesadelos. Rolou inquieto na cama e no conseguiu encontrar paz de esprito. Embora o cobertor grosseiro 
separasse Ruark de Shanna, ele no deixou de lhe sentir a presena. O brilho prateado da Lua atravs das persianas abertas lanava sombras e,  sua luz, Ruark levantou-se 
para pegar uma dose forte de rum. Ficou vagando pelo quarto, sorvendo liberalmente a bebida e lanando olhares mais do que ocasionais para o vulto suavemente curvilneo 
na cama.
    Em humilde frustrao, ele vestiu a cala curta, encheu um cachimbo de fumo, destrancou a porta com cuidado para no acordar a mulher adormecida. Desceu at 
o salo, que estava vazio,  exceo de Me. O eunuco no emitiu nenhum rudo que pudesse indicar a Ruark se estava acordado ou dormindo. Ruark aproximou-se silenciosamente 
da lareira e de l tirou pequeno graveto carbonizado, soprou o carvo na extremidade para que voltasse  vida, e o levou ao cachimbo. Soprou at que o fumo se acendeu, 
e sentou-se  mesa para desfrutar o cachimbo.
    - A noite est quente, Sr. Ruark.
    Este olhou surpreso para Me e viu que os pequenos e atentos olhos o observavam  luz opaca da lanterna.
    - Est - disse Ruark e justificou-se: - Nunca me acostumarei a este calor.
    Um riso divertido fez com que as camadas de banha de Me balouassem e ele disse:
    - A moa do Trahern esquentou o senhor um pouquinho, no ? Ela sempre foi danadinha, mesmo quando criana. O homem que quiser os favores dela vai ter um trabalho. 
Cuidado para que isso no lhe acontea, meu companheiro.
    Ruark resmungou e desviou o rosto. Tragou e lentamente soprou fina coluna de fumaa no ar, e inclinou a cabea para trs para observar a espiral.
    - No fui sempre pirata. - Me lhe interrompeu os pensamentos e Ruark contemplou-o  luz mortia, surpreso porque a voz do outro j no tinha os tons guturais 
nem a rudeza de antes. - No auge de minha profisso,
    eu era um jovem - recordou Me. - Um professor em Portsmouth. A nata dos nobres ia ouvir minhas conferncias, mas um dos hipcritas torceu minha exposio, e 
fui acusado de traio. Meu julgamento foi rpido e acabei na priso. Depois, fui alistado como um simples marinheiro.
    Parou e contemplou as cinzas fumegantes da lareira. Ruark esperou, interesse despertado, at que o eunuco resfolegou e continuou a narrativa.
    - Tenho marcas nas costas, Sr. Ruark, porque aprendia devagar e no me adaptei ao mar to bem quanto o imediato achava que eu deveria. - Bebericou de uma caneca 
certa quantidade de rum para molhar a garganta antes de suspirar pesadamente. - O comandante achou que eu era intil e me vendeu a Trahern como cativo. Por causa 
de Trahern  que estou aqui metido com esses homens marginalizados. Tenha cuidado para no ser vtima da vingana daquele homem. A filha dele  seu orgulho, e ele 
vai mandar cap-lo por hav-la usado. Nunca se consegue voltar a Los Camellos sem perder certa parte da vida, se no a prpria vida. Dou-lhe este conselho de graa. 
No deixe que a moa lhe suba  cabea, rapaz, ou ficar tentado a desafiar o destino para possu-la de novo.
    - Nada disso! - exclamou Ruark de forma rabugenta, e desempenhando seu papel  altura. - Uma saia  igual a outra. Aposto que me canso dela antes que o pai pague 
o resgate.
    -  a atitude sensata a tomar. - Me aquiesceu com a cabea ao que ele mesmo disse e continuou. - Sei que o senhor no  um ladro vulgar. E tambm sei que no 
ficar muito tempo entre ns.
    Ruark quis negar a afirmativa, porm Me levantou a mo e o deteve:
    - Os homens decidiram mat-lo no momento conveniente. Por isto Harripen lhe deu a bolsa com to boa vontade. Porque esperava recuper-la rapidamente. Mas o senhor 
matou Pellier, o que todos eles queriam, e se tornou um deles, granjeando certo respeito e liberdade. Todos esperam que o senhor v embora. J verificamos que homens 
jovens e fortes no demoram muito por aqui. S esperamos que sua partida no nos custe caro, e a maioria deles vai ficar satisfeita ao v-lo partir, porque o senhor 
lhes est sempre a lembrar o vigor e a juventude que perderam. Siga seu caminho, jovem companheiro, mas no confie em ningum, nem em mim, e no nos pressione a 
dar mais do que podemos. Como j deve ter percebido, nossas prprias vidas no valem muito neste buraco. Eu mesmo s estou passando o tempo e prezo minha liberdade 
at o dia em que a morte me libere desta existncia insignificante. Talvez por isso ousemos desafiar o perigo e a morte; pelo luxo que ambicionamos ter.
    Ruark no conseguiu negar nem fazer nenhuma observao sobre a percepo de Me e sentiu certo respeito pela inteligncia encurralada naquele corpo pavoroso. 
Pensativo, olhou para o cachimbo em sua mo. Me no disse mais nada e, segundo Ruark percebeu, caiu no sono, aps haver esgotado seu momento de sanidade. O colono 
levantou-se, considerando-se mais feliz do que qualquer outro homem, apesar de que poderia haver quem julgasse ser azar ele haver sido aprisionado por assassinato 
e vendido
    como escravo. Na verdade, se ele no tivesse estado na priso, no se teria casado com Shanna e julgava que todos os maus-tratos sofridos at ento justificavam 
aquele fato. Ainda havia assuntos a serem resolvidos, mas tinha confiana em Deus de que seriam logo solucionados da melhor forma.
    Pensativo, subiu a escada e trancou a porta. Despiu-se com cuidado para no acordar Shanna e sentou-se no seu lado da cama, costas apoiadas no espaldar barroco 
esculpido, brao passado no joelho. Durante muito tempo contemplou a mulher adormecida, satisfeito por no precisar deix-la quando o Sol chegasse. As madeixas douradas 
da moa espalhavam-se como um leque no travesseiro e lhe tocavam os ombros brancos. Sua mo magra estava no meio do cabelo e,  luz suave do luar, a aliana de ouro 
em seu dedo reluzia.
    - Voc  minha mulher, Shanna Beauchamp - sussurrou ele. - E vou t-la nessa condio. Chegar o dia em que orgulhosamente anunciar ao mundo seu casamento. 
Com a graa de Deus, voc vai fazer isso.
    O calor que chegou com a manhzinha era um pressgio insidioso do que trariam as horas mais tardias. Shanna estava dormindo com o lenol lhe cobrindo o corpo 
inteiro menos a cabea, e Ruark mais uma vez saiu da cama. Vestiu a cala e desceu ao salo, para ver o que poderia encontrar como alimento para eles dois. Sabia 
que Shanna no havia podido comer muito antes da ordem rspida de Me. Dessa vez, providenciaria para que um pouco de paz acompanhasse a refeio.
    A farra da vspera havia deixado o lugar em runas, situao que Dora, a jovem garonete, estava tentando remediar. Me, cochilando pesadamente sob uma srie 
de roncos barulhentos na cadeira, era a nica outra pessoa presente. Harripen havia explicado que h muito tempo, o eunuco no dormia em cama. Me achava que, se 
dormisse como todo mundo, seu grande peso o incomodaria demais e temia ficar de alguma forma encurralado. Ruark ponderou que isso era um pesadelo vivo.
    Concentrou sua ateno na moa magra e ossuda, de cabelos castanhos desgrenhados e um rosto comum que tinha certo encanto quando ela sorria, o que era raro. 
Gaitlier dissera que ela faria alguns servicinhos por uma ou duas moedas, e Ruark se perguntou se ela preferiria esse mtodo de ganhar a vida ao de Carmelita.
    Ruark parou ao lado da garota e lhe pediu uma bandeja de comida. s primeiras palavras, os roncos pararam abruptamente. Sob a sombra do cenho hirsuto, Me fixou 
os olhinhos neles. Ento, com um resmungo, tirou o corpo obeso da cadeira e saiu oscilante da sala.
    A porta bateu quando ele saiu e Dora correu para apanhar o que Ruark pediu. Logo voltou com frutas, pes e carnes, e comeou a preparar um bule de ch. A demonstrao 
de pacincia de Ruark naquela manh a espantou, porque na vspera ele quase a havia matado de susto com seus berros. Ele era bonito e andava como num sonho, mas 
j o havia visto matar um homem e ameaar outros na vspera, embora essa no fosse uma ocorrncia incomum na ilha. Mesmo assim, ela o temia e se esforou ao mximo
    para no lhe provocar raiva. Entretanto, devido  presena assustadora dele, ela foi mais desajeitada e, na pressa, derramou a chaleira quente, quase se queimando 
quando a gua fervente esguichou como um giser.
    O corao de Dora bateu disparado e quase parou, quando Ruark se aproximou, mas, para sua surpresa, ele perguntou como estava e lhe tirou a chaleira das mos 
trmulas. Ela lhe garantiu no estar ferida e voou para reabastecer a chaleira e a pendurou novamente num gancho acima da lareira. Enquanto cortava a carne, os grandes 
olhos se fixaram onde ele estava sentado fumando cachimbo e franziu o cenho, confusa. Os outros piratas a teriam maltratado por sua falta de jeito. Estavam sempre 
prontos a castig-la com um punho violento ou lhe dar um pontap no traseiro. Desde que a haviam feito prisioneira h nove anos,  idade de doze anos, havia sofrido 
e sido muito maltratada por eles, inclusive por Carmelita e aquele malvado do Pellier.
    Apenas Gaitlier e alguns habitantes da vila eram bondosos para com ela, mas seus dias eram passados em servido queles animais e marcados pelas agruras que 
os piratas lhe infligiam. Haviam matado seus pais e a violentado antes de ela ser mulher. Deleitavam-se em tudo que era perverso e cruel, e h muito ela resolvera 
que seu propsito na vida era fugir daquele bando de renegados. Invejava a moa feita prisioneira em Los Camellos e, ao mesmo tempo, tinha pena dela por precisar 
submeter-se  luxria daquele homem. Pelo menos Trahern era rico e podia resgatar a filha daquele inferno. No havia ningum no mundo que soubesse ou se importasse 
que ela, Dora Livingston, estava viva, quanto mais que era escrava de loucos.
    Ruark a olhou e ela definhou de encabulamento, quando ele apontou para sua blusa com o cachimbo. Indiferente, quase esperou que ele a mandasse despir-se.
    - Conhece um lugar onde eu possa encontrar uma blusa assim para a moa Trahern?
    O medo de Dora se transformou em desconfiana, mas aquiesceu com a cabea e respondeu, insegura:
    - H uma velha que as faz para ganhar a vida. Ruark procurou a bolsa pendurada no cinto:
    - Pegue vrias delas para a moa e algumas peas do que se usa por baixo. E, por favor, um par de sandlias. - Olhou para as de Dora e apontou com o cachimbo. 
- No muito grandes. Mais ou menos do seu tamanho. E pode ficar com o troco.
    Ele lhe jogou vrias moedas e ela as pegou, meio surpresa. No sabia como reagir  bondade porque todas as pequenas demonstraes de generosidade de seus captores 
eram sempre seguidas por depravao. Ela o olhou, com apreenso perplexa:
    - Mas senhor, na arca de Pellier h muito vestido luxuoso. L no quarto, senhor.
    A voz de Ruark soou escarninha ao responder:
    - Meus gostos diferem dos trajes de bordel de Pellier, e preciso que a moa Trahern continue viva para entreg-la ao pai. S traria problemas se ela desfilasse 
por a meio nua.
    Dora baixou a cabea, envergonhada:
    - Sempre que as mulheres estavam com o Comandante Pellier, ele as obrigava a usarem aquelas roupas. Ele pegava a velha bruxa que vende frutas na vila e a mandava 
vestir as roupas e andar por a toda prosa, enquanto ele ria dela. - O rosto de Dora ficou escarlate e seus olhos baixaram at as mos contorcidas. - At eu ele 
obrigava a fazer isso.
    A vergonha da moa era evidente e Ruark lhe teria dito uma palavra de consolo, mas seu papel de pirata no permitia demonstraes gentis.
    - Eu espero, enquanto voc apanha as roupas para a moa. Apresse-se. Ela pode ficar inquieta, se eu demorar muito.
    Quando Ruark voltou ao quarto com as roupas trazidas por Dora, trancou a porta e colocou a bandeja com comida na mesa ao lado da cama com estrpito proposital, 
e assustou Shanna, que dormia. Ela se sentou na cama, alarmada, e puxou o lenol para debaixo do queixo.
    - Calma, amor.  apenas o seu patro que vem trazer a refeio matinal para sua linda escrava - brincou ele, sorrindo malicioso e a olhando cupidamente.
    - Oh! Ruark! - A voz dela estava trmula de medo, e Shanna esfregou a mo na testa, como se para clarear a mente. Recompondo-se, relembrou a situao de seu 
relacionamento com Ruark ao passar os dedos pela juba emaranhada: - Sonhei que voc me deixou aqui com eles e fugiu para as colnias para ficar em liberdade.
    O lenol estava cuidadosamente ocultando-lhe o busto, e preso debaixo dos braos, mas Shanna no se deu conta de que Ruark devorava com o olhar o reflexo de 
suas costas nuas nos espelhos.
    - Os sonhos viram realidade, cativo? - perguntou ela. Os olhos azuis-esverdeados se fixaram nos dele. Ruark deu de ombros.
    - s vezes, Shanna, mas principalmente quando se quer que eles virem realidade e se faz alguma coisa para isso. - Preparou-lhe um prato de comida e o colocou 
 frente dela, e sentou-se a seu lado na cama. Estendendo a mo, acariciou-lhe os cachos amarfanhados pelo dormir, e deu um risinho maroto: - Voc sabe que nunca 
a abandonarei, Shanna, nunca!
    A moa tentou ler-lhe os olhos, sem saber se ele brincava ou falava srio.
    - Trouxe-lhe um presente - disse ele de repente, levantando-se da cama e pegando o embrulho de roupas na cadeira ao lado da porta. Em seguida, entregou-o a ela, 
com uma mesura. - Isto aqui  mais apropriado do que as roupas que o cavalheiro Pellier deixou.
    - Pellier no era cavalheiro - retrucou Shanna, bebericando ch.
    - Falou corretamente, meu amor - concordou Ruark. A testa morena se franziu como se ele estivesse meditando, e disse: - Nunca se pode
    afirmar que um homem  cavalheiro pelos bens que possui, pelo nome ou pela falta de um. Seu pai, por exemplo. Ele  basicamente um homem bom, um cavalheiro segundo 
qualquer conceito, mas o pai dele foi enforcado. Que grande prejuzo seu pai sofreu? Ele  um homem honesto, rico e poderoso. Voc o considera inferior a lordes 
e duques, Shanna?
    - Evidente que no!
    - E quanto a voc, meu amor? Neta de um celerado, mas tem aparncia de duquesa. Entretanto, se eu tivesse um ttulo ou sangue de nobre, no a acharia inferior 
a mim. Talvez se tivssemos filhos, isso seria bom para eles, no mau. - Parou quando a viu arfar indignada e, debruando-se para a frente, olhou-a fixo e continuou 
firme: - Suponhamos, meu amor, que eu fosse rico e viesse de uma famlia de excelente nome; voc poderia ento me amar e ficaria satisfeita de carregar em seu ventre 
os frutos de minha devoo, dando vida a filhos nossos, lindos e honrosos produtos de nosso amor?
    Shanna encolheu os ombros, sem querer responder.
    - Se... se voc tivesse sido honesto comigo... suponho que... Ora! - exclamou. -  bobagem ficarmos falando de coisas que sabemos impossveis. No se pode ser 
mais do que se .
    - E que sou eu, madame? - insistiu ele.
    - Voc pergunta a mim? - retrucou ela irritada, desviando o olhar daqueles olhos ambarinos que pareciam perfur-la. - De todas as pessoas, voc  a nica a saber 
responder.
    - Quer dizer que a resposta, madame,  que a senhora de bom grado me aceitaria se eu fosse rico e tivesse um ttulo? No teria nada contra mim, se eu tivesse 
essas caractersticas, e no as que tenho hoje?
    Shanna contorceu-se, embaraada:
    - Voc pe as coisas muito cruamente, Ruark. Mas suponho que eu pudesse suportar ser casada com voc, se tudo o que voc disse fosse verdade.
    - Ento, minha cara Shanna, voc  uma esnobe pedante.
    Ele disse isso to suavemente, exibindo os dentes brancos, que s quando pronunciou a ltima palavra Shanna lhe percebeu o sarcasmo. Engasgou ento, boca cheia 
de ch, e o olhou firme e muda, insultada.
    - Faa o favor de vestir suas roupas, madame - sugeriu ele, virando-se para tomar um desjejum.
    Petulante, ela se ergueu, pegou com pressa as roupas que ele trouxe e as vestiu. Tirou a saia negra bordada que usou na vspera, embora dessa vez no com um 
repelo. Amarrou a faixa apertada na cintura e vestiu a blusa branca de cigana; depois, fez tranas que lhe caram at o meio das costas.Por ltimo, calou as sandlias 
de couro e amarrou os cordes nos tornozelos.
    Sua aparncia era to bonita que momentaneamente deixou Harripen e alguns homens do salo completamente atoleimados. Naquela manh no houve papo com os piratas, 
porque Ruark achou necessrio retir-la da
    vista deles. Pegando-lhe o pulso, Ruark a puxou atrs de si, pretendendo estar aborrecido com a lentido da moa.
    - V andando, garota. Pensa que a nica coisa que tenho a fazer  esperar por voc?
    - Isso mesmo, rapaz! - exclamou Harripen, rindo. - Conserve-a assim mesmo, na cama e fora dela!
    Casquinadas soaram no salo, quando Ruark e Shanna escaparam depressa do aposento.
    - Eles s pensam em fazer amor? - perguntou ela, relanceando o olhar por cima do ombro.
    Ruark a olhou e apressou-se a corrigir:
    - No  amor que eles fazem na cama, Shanna. Eles no aprenderam essa arte gentil. Simplesmente liberam um impulso com a mulher que escolheram para passar a 
noite, como animais. Acreditam-se amantes por causa do grande nmero de mulheres que j levaram para a cama. Mas um touro pode fazer o mesmo. Amor  quando duas 
pessoas se do devido a uma profunda emoo entre elas. Descartam-se de todos os outros e procuram quem escolheram para com elas passar a vida, e ao lado de quem 
ficaro at a morte.
    -  estranho que voc fale assim, Ruark - disse Shanna friamente e virou o rosto para o mar, enquanto perambulavam pela rea do cais. A aragem agitou fios de 
cabelo em redor do rosto da moa, emoldurando-o com seus cachos. Ele franziu a testa e respondeu:
    - No sou eu, meu amor, e sim voc, que no se consegue resolver por um homem s.
    Shanna arrebitou o nariz, com desdm, e disse:
    -  que ainda preciso encontrar o companheiro adequado. - Ruark deu um riso escarninho e replicou:
    - Madame, devo lembrar-lhe mais uma vez que sou seu companheiro, adequado ou no.
    Ela o ignorou deliberadamente e continuou:
    - Meu pai espera que eu logo escolha um marido. Ele quer netos, e no posso decepcion-lo.
    As entranhas de Ruark doeram com a frieza do tom de Shanna:
    - Maldio, Shanna! Voc acha que, se tivesse sido eu a escolher, teria escolhido voc?
    Perplexa com essa frase, Shanna o olhou firme. Ruark fez um gesto amplo com o brao, abrangendo a rea que se estendia indefinidamente at o horizonte e escarneceu:
    - O que era voc? A Deusa Shanna do Monte Olimpo, criada no pedestal erigido por voc mesma, para que todos os homens que se aproximassem de voc ficassem abaixo 
de seu nvel. A arrogante, pura, linda e intocvel Shanna, que s est na terra por um capricho e suspira por um cavaleiro montado num corcel, aquele homem perfeito 
que a arrebatar deste mundo terrvel para lev-la para algum den oculto e l, com tons piegas
    de adorao, atender servilmente a todos os seus desejos. Hah! - bufou Ruark. - Tome cuidado, meu amor. Esse homem perfeito pode tambm estar  procura de uma 
mulher perfeita.
    Virou-se, expresso enfurecida, enquanto Shanna o contemplava confusa e ignorando a razo daquele ataque.
    - Voc no sabe o que diz - retrucou ela, irritada pelas acusaes. - Eu apenas me guardo para o homem de minha escolha e, se Deus quiser, hei de encontr-lo.
    Ruark rodopiou e a olhou, atnito:
    - Voc se superestima, Shanna.  claro que todos os homens tm defeitos. Quando voc o encontra, voc o rejeita. Quer fazer o favor de me dizer o que voc fez 
de si mesma? Voc por acaso  uma mulher perfeita? Acho que no. Voc  uma moa meiga, disposta a partilhar a vida com um homem? No! Voc  a imperial Shanna. 
Um desafio para qualquer homem, um objetivo para uma noite de amor, uma mulher que vale bem uma brincadeira amorosa. O homem que conseguisse derrubar sua barreira 
de gelo seria um heri para qualquer solteiro. Voc era a fortaleza inexpugnvel que foi conquistada certa vez, mas de nada valeu. Era um tesouro a ser conseguido, 
mas de valor como esposa? Um homem digno procuraria uma dama suave que lhe trouxesse paz e valor  vida. Voc fez isso  minha? Fui entregue como escravo a piratas, 
por ordem sua. Agora seu pai acha que sou no s um cativo fugido mas um pirata e com toda a certeza minha cabea est a prmio. Se for capturado pelos homens dele, 
talvez meu final seja ter minha cabea pendurada na ponta de uma corda como recompensa. E isso tudo por sua causa, querida esposa.
    Shanna reagiu a essas palavras dando-lhe as costas, e assumindo posio empertigada.
    - Voc diz que a verdade vir  tona. Mas por acaso admite amar-me? Ruark abriu os braos, encarou a brisa e respondeu:
    - Madame, neste momento a senhora  a ltima pessoa a quem eu admitiria meu amor. - Era uma verdade deturpada, porque ele certamente a amava, mas muita coisa 
precisava acontecer antes que ele depusesse essa arma nas mos dela.
    Relanceou por cima do ombro para ver a reao da moa, mas viu que ela se afastou andando devagar, cabea ereta, vento lhe esvoaando a saia, passos cuidadosamente 
medidos. Teve vontade de correr at ela, tom-la nos braos ou rastejar a seus ps e lhe falar do desejo crucial que o consumia por inteiro, mas deixou que ela se 
fosse, esperando que o desafio de sua negativa provocasse na moa novas opinies sobre ela e ele.
    Shanna caminhou pela praia para a beira d'gua, longe da vila e da estalagem. De onde ele estava no desembarcadouro, Ruark a observou srio, sentindo-se bastante 
inseguro. No pde evitar de se perguntar como ficaria o humor de Shanna. As palavras que ele lhe disse encontrariam eco ou ser que ela se ressentiria do orgulho 
ferido e rejeitaria os esforos de Ruark para ajud-la? Ela o olhou de novo, mas seguiu em frente. Abaixou-se,
    pegou a bainha da saia e a enfiou entre as pernas e depois na cintura, como a mulher de um pescador. Tirou as sandlias e as pendurou nos ombros. Chapinhando 
no raso, chutou a esmo as cristas das ondas e revolveu mariscos e pedras com o dedo, enquanto Ruark continuava a observar, sem poder minorar a dor que lhe ia no 
peito.
    Algum tempo depois, soou um grito s suas costas. Virando-se, Ruark deparou com Harnpen e vrios tripulantes, que remavam at o Good Hound. O pirata acenou, 
e Ruark retribuiu o sinal, perguntando-se o que quereriam eles. Harripen e outro homem subiram na escuna e a chalupa se posicionou atrs da popa. A tripulao agarrou 
a extremidade do cabo que Harripen lhes atirou e, remando com rapidez, comeou a balanar o barco estreito de forma tal que sua popa ficou virada para o cais. Harripen 
rosnou uma ordem e o outro homem soltou o fecho do cabrestante. Os homens na chalupa se esforaram com os remos e lentamente o Good Hound comeou a se mover rumo 
 rampa de embarque, repuxando o cabo da ncora.  medida que o navio se aproximava do ancoradouro, a chalupa girava; brandeando o reboque e deixando que o prprio 
impulso do Good Hound a carregasse at ela esbarrar levemente nos pilares. Roou de lado neles e Harripen atirou um cabo com um n na ponta, que Ruark prendeu ao 
cunho. Depois, correu pelo cais para pegar outro, do homem no castelo de proa. Harripen gritou para que ele subisse ao convs e Ruark relanceou o olhar para saber 
de Shanna. Ela estava com as mos protegendo os olhos do Sol e observando o navio, mas, quando o olhar dele a encontrou, ela continuou seu passeio  sombra. Tranqilo, 
porque ela estava bem  vista e no to longe que ele no pudesse alcan-la rapidamente, Ruark subiu na escuna. Achava que Shanna precisava ficar sozinha algum 
tempo para pr os pensamentos em ordem. Passou as pernas pela amurada e encontrou Harripen  espera, apoiado nos cotovelos, enquanto contemplava o vulto solitrio 
na praia.
    - Poxa, cara, aquela mulher  boa demais - rosnou o ingls. - At l longe ela me d calor nos ovos.
    Ruark franziu o cenho, mas seu tom de voz foi suave quando ele respondeu, falando a verdade:
    - , no d vontade mesmo de ficar longe dela. Mas no vamos falar dela, Harripen. O que voc pretende fazer com meu barco?
    - . bem,  claro que ele  seu, rapaz, agora que Pellier morreu. - O homem coou o queixo pensativamente. - A gente fez uma votao. Porque  barco maior, sabe? 
- Fez um gesto, e apontou para as embarcaes menores que balouavam nas amarras. - A gente pensou que podia ir botando umas coisas a bordo, suprimentos, esses troos, 
caso o tal de Trahern chegue aqui com seus capangas. A gente acha que ele deve aparecer por aqui hoje  noite, e no est querendo que afundem o barco com a gente 
dentro.
    Ruark fez um gesto com a cabea para os destroos no recife:
    - Mas se a frota espanhola no conseguiu...
    - Ha! - interrompeu Harripen. - Eles eram um bando de idiotas, que s tinham um monte de gales e bandeirinhas. Mas Trahern  outra conversa, e se tem algum 
que pode fazer mal  gente  ele, se cismar.
    Ruark concordou silenciosamente. O ingls debruou-se na amurada, e Ruark, seguindo-lhe o olhar, viu duas carroas grandes, penosamente puxadas por dois jumentos, 
aproximando-se do cais. Quando pararam, Ruark reparou que a primeira continha vrios barriletes de gua e duas vezes mais barris de rum e aguardente. A segunda estava 
cheia de carnes salgadas e farinha, e de caixotes transbordando de prata, placas de ouro e outros despojos. Ao lado de Hawks, no assento do cocheiro, havia a pequena 
arca de moedas de ouro. Foi o primeiro artigo a subir a bordo. O tesouro foi rapidamente alado para o camarote do comandante, enquanto todo o resto foi levado para 
o convs para ser amarrado fora do caminho, para no interferir com o funcionamento dos pequenos canhes. Ruark viu divertido que a grande arca cheia de canos de 
mosquetes continuava no convs. Quando tudo estava a bordo, Harripen se voltou para ele e disse:
    - Bem, rapaz, se voc fizer o favor de soltar o barco, a gente o leva de novo para o meio da baa.
    Ruark parou; o homem grisalho o encarou com olhar estranho.
    - Vou deixar dois homens a bordo pra vigiar as coisas. Voc j deve ter notado que a arca do dinheiro est trancada, e  mais pesada do que qualquer cara pode 
suspender. - Deu um riso maroto e prosseguiu: - E Me est com as chaves. Assim, ele protege sua parte. Mas ele  o cara mais honesto aqui, sem falar em voc e eu. 
- O homem se inclinou para trs, rindo calorosamente de sua piadinha, e depois, ficando srio, limpou o nariz no brao. - Bem, sua madame est esperando, rapazinho.
    Assim dispensado, Ruark no teve alternativa seno descer at o ancoradouro de paraleleppedos e soltar as amarras, conforme solicitado por Harripen. Os tripulantes 
foram enviados para a chalupa e, com montona cadncia, comearam a andar em volta. O fragor do cabrestante fez-se ouvir, e o cabo da ncora se retesou. gua comeou 
a cair dele enquanto o Good Hound lentamente se encaminhou para guas mais profundas.
    O Sol estava no horizonte, quando Ruark caminhou em largas passadas pelo cais e foi at onde Shanna o esperava. Ela estava formal e arrogante, embora evitasse 
olh-lo. Andou vrios passos atrs dele, aps colocar a saia no lugar e ficar descala na areia.
    De volta ao salo, Ruark parou para tomar uma cerveja, mas Shanna passou depressa por ele e subiu correndo a escada at o quarto. Apaticamente, encostou-se na 
porta, fechou-a e sentou-se no parapeito da janela, abrindo as persianas. Nuvens negras comearam a se formar e, com o calor pegajoso, ela reconheceu os sinais agourentos 
de uma tempestade. Suspirou e comeou a soltar a trana, passando os dedos pelas madeixas enquanto contemplava o quintal l embaixo, onde uma criancinha corria atrs 
de um leito. O cabelo negro do menino reluzia com os ltimos raios de Sol,  semelhana do cabelo de Ruark sob a luz de vela. Sfrega, ficou
    observando o garoto at que seus guinchos animados denunciaram seu sucesso. O menino inclinou-se e aprisionou o animal nos bracinhos rechonchudos e caminhou 
alegre para a vila. Quando ele desapareceu na distncia por entre rvores estreitas e cercadas de mato, Shanna sorriu tristemente e, no silncio do quarto, a lembrana 
das palavras de Ruark lhe invadiu o crebro:
    "Lindos e honrados produtos de nosso amor."
    - Mas ele no me ama! - gritou ela, atirando as sandlias para o outro lado do quarto. Petulante, pinicou os lacinhos da blusa enquanto andava para l e para 
c.
    - Arrogante Shanna! Rainha Shanna! Shanna no amada!
    As lgrimas lhe esquentaram o rosto. Ela largou a saia e a tirou.
    Uma brisa fresca, a primeira do dia, agitou as cortinas e ela acendeu uma vela na mesinha ao lado da banheira. Penetrou no banho morno preparado por Gaitlier 
e pegou um jarro, de onde despejou alguns gramas de sais de banho. Eles se misturaram ao lquido e se dissolveram como estrelas ao amanhecer.
    - O senhor  um homem estranho, Sr. Beauchamp -refletiu em voz alta. - Trata-me como amante e depois me censura como se eu fosse criana e apresenta mal seus 
argumentos ao dizer que eu seria sua ltima escolha para mulher.
    Recostou-se na janela e se perdeu em pensamentos. As palavras de Ruark a marcaram fundo, mas continham uma verdade corajosa. Os que haviam parecido mais ansiosos 
em casar-se com ela foram os que mais precisavam da fortuna de seu pai.
    Seu olhar fixou-se num espelho prximo, e ela estendeu a perna bem feita at poder mirar-se toda. Examinou calmamente o que viu, e reparou no tom dourado de 
seu rosto oval. Nos olhos azuis-esverdeados de clios longos e espessos que os emolduravam. Eram o que tinha de mais bonito e costumavam funcionar em qualquer situao 
em que ela quisesse ganhar uma discusso ou encantar um homem. Mechas esbranquiadas, recentemente descoradas pelo Sol, enrodilhavam-se em meio  massa dos cabelos. 
De modo geral, estava satisfeita com sua imagem. Seus seios eram altos e cheios e tinham suaves tons rosa e branco. Sem ser magra, sabia que sua cintura era mais 
fina do que a da maioria das mulheres, e suas pernas eram compridas e bem torneadas.
    Sorriu para si mesma, e dentes brancos e uniformes reluziram para ela no espelho.
    - Bem, caro Capito Pirata Ruark, se fui eu que o conduzi a caminhos lgubres onde seu pescoo pode ser perdido, voc deve tambm dar-se conta de que sou a chave 
para o perdo de meu pai. Seria bom para voc que providenciasse a minha volta em segurana at ele. E ento, meu adorado, estaremos empatados.
    Quando Ruark finalmente voltou, o quarto j estava escuro. Shanna retornou a suas cortinas improvisadas junto aos espelhos e se ocupou demoradamente em vestir-se. 
Ela o ouviu fuar nas arcas e, alguns instantes
    depois, o silncio que se seguiu lhe acendeu a curiosidade. Quando espreitou pela cortina, viu-o  mesa, com uma grande folha de pergaminho  frente, que analisava 
detidamente, e onde fazia anotaes com uma pena. Voltando a seu abrigo, Shanna comeou a chupar o dedo e, com sbita deciso, foi ao armrio, de onde tirou um vestido 
de seda vermelha e ousado decote, que vestiu. Dava a impresso de que a usuria anterior era espanhola, pois o corpete era comprido e o vestido lhe caiu bem nos 
quadris, de onde se espalhava at a bainha, que reunia tiras de anguas multicoloridas. O espao entre os ombros e o decote era assustador e muito atraente. As costas 
do vestido eram tambm fundas e revelavam muito das curvas suaves do corpo da moa. Shanna passou a mo do busto s cadeiras, alisando a seda macia.
    Meditou astutamente: "Este vestido vai mostrar a esse garanho errante a diferena entre uma dama e uma rameira vulgar." No lhe passou pela cabea que sua aparncia 
pouco tinha de refinada. Entretanto, ela no parecia uma prostituta tampouco.
    Shanna abriu a cortina e encaminhou-se para Ruark, balouando provocantemente os quadris, cabelo solto nos ombros de forma que demonstrava o cuidado que ela 
teve ao pente-lo. Era o que Ruark esperava: mais uma agresso a seus sentidos. Esforou-se para voltar a concentrar-se no pergaminho, e no deu nenhuma indicao 
de que a trama de Shanna para perturb-lo tivera xito.
    Shanna perambulou pelo quarto, ocupando-se com coisas insignificantes, num esforo para atrair a ateno dele, mas, para sua decepo, ele estava completamente 
concentrado no que fazia e no reparou nela.
    Ouviu-se leve batida  porta e a voz hesitante de Gaitlier perguntou se podia entrar. Ao aceno positivo de Ruark, Shanna destrancou a porta e ficou encantada 
ao ver o homem com grande bandeja cheia de frutas, pes, aves assadas e legumes cozidos. Havia at uma garrafa de vinho Borgonha francs. A boca de Shanna se encheu 
d'gua com o cheiro perturbador, e ela mal conteve sua nsia em provar a comida.
    - Oh, Gaitlier! - exclamou. - Voc  um amor!
    Sorriu para o homem, que corou de prazer e no percebeu o cenho franzido de Ruark.
    - Foi Dora quem preparou tudo - observou Gaitlier, tmido, olhando cautelosamente para Ruark. Apressou-se a depositar a bandeja na mesa ao ver que Ruark empurrou 
os papis de lado, e permaneceu por perto, esfregando os ps e olhando hesitante para o mapa enrolado. Ruark achou que o homem fosse falar algo e se reclinou na 
cadeira para esperar, mas o criado perdeu a coragem. Fazendo um aceno com a cabea para Shanna e Ruark, saiu do aposento.
    Aps trancar novamente a porta, Shanna se sentou em frente a Ruark e comeou a mordiscar nacos de comida tirados da bandeja, enquanto ele abria o vinho e o servia 
nas taas.
    - O que voc est fazendo? - Perguntou ela afinal, quando ele retomou o mapa e comeou a analis-lo enquanto comia.
    - Estou tentando achar uma pista que indique o canal atravs do pntano - respondeu ele, sem levantar os olhos.
    A refeio continuou, embora os dois no estivessem apreciando muito o que comiam. Ruark bebericou o vinho e provou a comida sem sequer olhar na direo de Shanna. 
Aps certo tempo, afastou o prato meio cheio, pois havia perdido o apetite devido ao esforo estico para ignorar Shanna.
    Bastante decepcionada, Shanna levantou-se, suspirando. Pegou pequena fatia de melo e foi  janela. Um rudo distante de trovoada imitou seu humor. Uma lufada 
de vento penetrou no quarto, agitando as cortinas e embaralhando os mapas de Ruark, enquanto ele os segurava para no voarem. Preocupada, Shanna empurrou as persianas 
e encostou-se no parapeito para observar a borrasca noturna que se aproximava da ilha. O crepsculo ficou momentaneamente em tons esbranquiados por um raio que 
fez Shanna arfar e recuar assustada. As nuvens de tempestade se amontoavam no cu e as primeiras gotas de chuva molharam a areia sedenta. Em pouco tempo, detalhes 
mais distantes ficaram perdidos na nvoa da chuva.
    Os braos de Ruark prenderam os mapas para que no se extraviassem. Ele levantou os olhos at a janela. Susteve a respirao ao ver a viso que l estava. Shanna 
achava-se meio sentada, meio inclinada no parapeito, coxa levantada  beira, e seu perfil se destacando enquanto ela contemplava as nuvens negras. A difusa luz fazia-a 
parecer uma esttua clssica de ouro, vestida de vermelho vivo. O cabelo, quase transparente, caa como uma catarata cor de mel at a cintura. O vestido estava grudado 
em seus seios, que provocariam qualquer homem. Enquanto ele a olhava, um raio atravessou o cu e, a esse reflexo, a moa se transformou numa escultura de mrmore 
branco, e seu traje adquiriu tom rosa suave. As nuvens negras enfraqueceram a claridade do cu; ao esmaecer, a pele de Shanna pareceu um carvalho de uma carranca 
de navio, e seu cabelo, espirais emaranhadas de bano. O rosto dela estava pensativo, e seu sorriso, triste. Apenas os olhos tinham tom mais claro de brilhante verde-mar, 
arrastados pelo torvelinho da tempestade.
    Ruark gemeu internamente, esttico  mesa pela contemplao daquele inocente panorama: "Meu Deus, ser que ela sabe que  linda? Ser que sabe que me tortura?"
    A mente dele rodopiou: "Como  que ela pode provocar e atormentar como uma serpente ardilosa e me negar aquilo que desejo com todas as foras? Que ardil infernal 
estar ela me preparando agora? No deve acreditar que eu possa ignor-la durante muito tempo. Talvez queira que eu fique violento para que ela tenha razo para 
me odiar."
    A chuva caa firme, e Shanna se transformou num camafeu, numa obra de arte, mas nenhum artista jamais tocou num pincel de forma a retratar beleza to sem jaca. 
A escurido chegou, com seu manto negro, e a moa ficou desenhada ao brilho da vela. Mais uma vez se transformou na misteriosa beleza vestida de vermelho-escarlate 
que lhe revelava todos os movimentos. Ruark forou-se a desviar o olhar e concentrou-se no papel subitamente em branco, sem nenhuma marcao. Sua mente vagou e ele 
analisou que tipo de apelo poria fim  raiva irracional da moa.
    Deveria ele abord-la como um cisne amoroso? No, nada disto. Ela ficaria mais irritada ainda. Mas que esperava dele? Ruark estava desorientado. Perplexo. Se 
ela soubesse o que lhe estava acontecendo, teria pena? Um simples toque, um dedo que ela lhe pusesse no brao, bastaria. Sua mente berrou, agnica: "Apenas um olhar. 
Qualquer coisa!"
    Nada aconteceu, porm. Nenhum toque. Nenhum beijo. Ele afastou o olhar, desesperado.
    Os olhos de Shanna viraram-se lentamente para Ruark, que parecia ainda debruado sobre os mapas. A garganta lhe doeu um pouco, pelo esforo das lgrimas reprimidas 
e ela sentiu intenso desejo de ser abraada por algum. Abatida, foi at a cama e l ficou olhando as costas bronzeadas dele, enquanto 1.000 idias lhe passavam 
correndo pela cabea, e iam sendo rejeitadas. Um desejo desesperado comeou a se formar dentro dela, uma necessidade de passar os dedos por aquele corpo e sentir 
os msculos de Ruark flexionarem sob suas mos.
     frente de Ruark havia uma folha com nmeros, anotaes feitas por ele, mas sua cabea j no conseguia raciocinar direito, embora ele tentasse. Finalmente, 
comeou a dobrar os papis. Shanna viu-lhe o movimento, e seus pensamentos voaram:
    "Ele vem para a cama! Que fao agora? Talvez eu ceda, se ele me pressionar um pouco."
    "No, ele que se dane!" Sua ira reacendeu-se. "Ele aceita uma rameira vulgar debaixo do meu nariz, logo aps me haver jurado amor e fidelidade. Vou ensinar-lhe 
o que  amor e fidelidade. Antes que acabe com ele, vai arrastar-se pelo cho."
    Ruark levantou-se e se espreguiou, e flexionou os braos acima da cabea para amainar a cibra em suas costas, por haver ficado tanto tempo sentado. Shanna 
saiu ligeiro da cama e foi refugiar-se em sua alcova improvisada. Com o cenho franzido, Ruark viu-lhe o ondular dos quadris at ela sumir de vista. Reprimindo uma 
imprecao, ele terminou de um s gole o vinho que restava na taa. Ps a cala nas costas de uma cadeira e, relutante, enfiou-se debaixo dos lenis para esperar 
que Shanna voltasse. Sabia que ento comearia a batalha de sab-la prxima e, no obstante, to longe.
    Depois de alguns momentos, Shanna voltou, enrolada numa toalha de linho. Pegando o cobertor, ela evitou o olhar de Ruark; enrolou mais uma vez o agasalho para 
transform-lo numa barreira, e o ps no meio da cama.
    Isto era demais! Bufando de raiva, Ruark tirou o cobertor da cama e se levantou. Com um nico pulo, chegou  janela e de l atirou o cobertor at embaixo. Quando 
ele se voltou, sua ira estava no auge, e sua nudez lhe aumentava a beleza. Shanna o contemplou, entre temerosa e admirada.
    - Madame, no agento mais! - Ele se aproximou da cama e a olhou firme. Seu olhar demonstrava determinao.
    - Ah, voc no agenta mais! - escarneceu Shanna, recuperando o controle. - Tem a ousadia de reivindicar que eu seja sua mulher e de fazer-me compreender que 
isso no deve jamais estorv-lo de alguma forma.
    - Quando eu estava no calabouo passava cada hora do dia marcando o tempo que faltava para o meu fim - comeou Ruark, argumentando. - O carcereiro me azucrinava 
a vida, mas eu o enfrentava. - Ergueu a mo dramaticamente. - Para dizer a verdade, eu  que azucrinava a vida dele.
    - Que arrogncia! - Shanna fez um gesto de zombaria e o viu enrolar uma toalha nos quadris. Ruark no prestou ateno s palavras dela, e continuou falando:
    - E ento, no meu mundo de trevas e horror, chegou uma luz e um calor que eu at j esquecera que existia. O trato que ela fez ultrapassou meu sonho mais louco, 
e uma vez mais meu mundo era mais do que quatro paredes de pedra, teto e cho e uma estreita porta de ferro para impedir minha fuga.
    Ela falou como se no o tivesse ouvido:
    - E quando eu fui a voc, confusa e nervosa, voc nem parou, foi me atirando na cama e mais uma vez se aproveitou de mim.
    Ruark parou de andar e apontou um dedo acusador:
    - Foi sob minha honra que representei meu papel e servi a seu prazer. Mas, ai de mim! Vi minha ltima esperana roubada, e fui mais uma vez atirado ao meu buraco.
    - E voc se arrastou at meu quarto na calada da noite e se aproveitou do sono de que eu estava possuda. - Shanna girou o corpo e comeou a andar pelo quarto, 
irritada.
    - Mais uma vez, madame, o destino me favoreceu. - Ruark ficou vibrante em suas palavras e esfregou um pulso na palma da mo. - O carrasco foi enganado, e me 
vi atirado  vida da minha bela por puro acaso. Minha raiva era enorme. Minha necessidade de vingana fazia meus joelhos tremerem.
    - Voc no perdeu oportunidade para tentar engravidar-me e, assim, ver seus objetivos cumpridos. Calculo - Shanna olhou raivosa para ele - que o defeito da moa 
de Londres  que ela estava carregando um filho seu na barriga.
    Ruark cofiou, pensativo, o queixo.
    - Mesmo assim, levaram-me por caminho mais suave. Vi um busto macio desnudo  minha frente e fez-se a promessa de um erro corrigido e selou-se o trato. Desesperei, 
pois j no podia reclamar nada e a beleza do que havia visto me apoquentava em todas as ocasies. Eu no tinha a menor oportunidade de fugir de minha palavra. Mas, 
ento a moa voltou e excedeu o trato, e a fui eu quem virou devedor. Mesmo assim, ela me recebia bem quando eu mais precisava disso. O destino, porm, foi contra 
mim, e o boato mais vil me eliminou. Outro nome foi ligado ao meu atravs de lnguas de trapo.
    - Pobre Milly! - suspirou Shanna. - Ela caiu por voc to facilmente quanto eu, embora ela no tenha ainda descoberto a inclinao brutal de sua natureza, Ruark.
    - Uma moa cuja ignorncia eu mal tolerava supostamente se enamorou de mim e, segundo os boatos, levou-me para um colcho de palha. Fez-se de um lamentvel incidente 
um obstculo  pequena felicidade que eu tinha.
    - Foi apenas a ignorncia desajeitada dela que fez com que ela percebesse que voc estava  cata de mulher. Infelizmente, sendo pobre, ela no tinha bens materiais 
que o pudessem atrair. Ela certamente vai terminar como a moa da Inglaterra.
    - Eu seria capaz de procurar a dama para dar-lhe todas as explicaes, mas a jaz a desgraa terrvel. - Comeou a irritar-se. - Fui mais uma vez trado e tive 
de me deparar com o punho ossudo do bom Pitney.
    - Mesmo assim, voc me assedia com a ousadia de um patife, de um pirata. - Shanna bateu o p e acusou: - Voc faz com que a crueldade desses homens l embaixo 
parea suave.
    - Voc nega seus votos. Nega meus direitos. Maltrata meu orgulho e no me deixa nada de si. Afasta-me de voc como se eu fosse um bajulador. Voc me trai sempre 
que pode.
    Shanna enfrentou-lhe o olhar furioso e replicou ferozmente:
    - Voc roubou meu corao com toda a firmeza e depois, sem dvida encantado com seu sucesso, dedicou-se a ser infiel.
    - Infidelidade s  cometida por maridos. Voc faz o mesmo comigo, mas diz que no sou seu cnjuge.
    - Voc argumenta que  meu marido e se mortifica com os pretendentes que me vm cortejar.
    - Claro! - vociferou Ruark. - Seus pretendentes se amontoam em volta de sua saia como cadelas no cio, e voc lhes concede mais do que a mim.
    Shanna parou  frente dele, possessa:
    - Voc no passa de um cafajeste!
    - Eles bolinam voc  vontade, mas voc no lhes afasta as mos.
    - Biltre! Patife!
    - Voc  uma mulher casada!
    - Eu sou viva!
    - Voc  minha mulher! - gritou Ruark, para ser ouvido acima do vento l fora.
    - No sou sua mulher!
    - !
    - No sou!
    Os dois se enfrentaram, com um metro de distncia entre si, mas com um oceano a separ-los. Cada qual estava firme em sua convico, e no se inclinava a ceder. 
A raiva lhes contorcia o rosto de tal forma que pareciam a encarnao de um esprito mau. No prestaram ateno  fria
    crescente que se aproximava da ilha, 1000 palavras lhes afloravam aos lbios. Um monte de vituprios lhes enchia a mente. Para os dois, era uma causa por demais 
justa para ser perdida sem muita luta. Mas, a noite enfurecida j ouvira ameaas e apelos demais.
    Um raio coriscou, fazendo com que o quarto ficasse negro e branco durante o perodo de um respirar. Muito antes de se apagar, o aposento se encheu de um rudo 
tonitruante de trovo, que fez ouvir sua voz at que as paredes do quarto pareceram tremer. Estava ainda ressoando quando outro relmpago bramiu l fora e,  sua 
luz mortal, o rosto de Shanna mostrou pavor, e sua boca ficou imvel, num grito mudo de terror. O trovo soou mais uma vez e pareceu jog-la para Ruark. Sbito, 
seus braos estavam em volta do pescoo dele, e seu rosto enterrado na garganta dele. Um gritinho contestador e agudo saiu-lhe dos lbios, quando ela irrefletidamente 
procurou o refgio que Ruark podia oferecer. Raiva esquecida, Ruark a abraou e tentou aquietar o tremor do corpo de Shanna, agarrado ao dele. Uma lufada de vento 
atingiu a estalagem e abriu as persianas, fazendo com que chuva e vento invadissem o quarto e apagassem as velas.
    Ruark ps a trmula Shanna perto da cama e trancou as persianas contra as rajadas violentas. A noite foi agredida com um lampejo de raio to demorado que pareceu 
tocar todos os pontos da ilha. O trovo se seguiu com seu rudo aterrador. Toda a ilha foi varrida por ventos infernais que estremeceram os beirais de telhados e 
as cornijas e fustigariam qualquer insensato que se aventurasse em seu caminho. A chuva batia como chumbo na janela, j castigada pela fria do furaco.
    Shanna encolheu-se no escuro. Os bruxuleios de luz mostraram a Ruark o rosto de Shanna, e seu corao ficou contristado pelo que viu. Os olhos dela estavam arregalados, 
e lgrimas lhe escorriam pelas faces. Ela se agachou como se procurasse um abrigo da tempestade. Quando ele a tomou nos braos, ela lhe agarrou o peito e pediu baixinho:
    - Ame-me, Ruark.
    - Mas eu a amo, meu amor - sussurrou ele, com pena.
    O quarto brilhou de repente em luz branca, e ele viu que a cabea de Shanna rolou de um lado para o outro. Seus olhos estavam fechados, embora lgrimas persistissem 
entre as plpebras, e seu rosto se contorcesse num esgar de medo. Ela apertou as mos contra as orelhas para bloquear o rudo do trovo que se abateu sobre eles 
como uma vaga enorme na praia.
    - No! No! - guinchou ela contra o estrpito, e pegou no brao de Ruark. - Possua-me! Possua-me agora!
    Ela aceitaria qualquer coisa para bloquear o barulho e liber-la da torrente de medo que a atacou de todos os lados, at de dentro de si mesma.
    Shanna despencou na cama, e puxou Ruark junto. Em outro claro de raio, ele lhe viu a nsia no rosto, quando ela se comprimiu contra ele. Seu sangue esquentou, 
e ele esqueceu tudo o mais.
    A tempestade poderia ter sido contida no quarto, mas eles no teriam prestado ateno a isto. Entre eles havia aquele vendaval de paixo que cegava como se fosse 
um relmpago e os ensurdeceu to completamente quanto os troves que bramiam l fora. Cada toque era fogo, cada palavra, ventura, cada movimento de sua unio era 
uma rapsdia de loucura que crescia a ponto de parecer que todos os instrumentos do mundo estavam combinados para fazer com que a msica de suas almas fosse num 
crescendo que os deixou imveis e calados, e clidos como os ties de um holocausto universal. Shanna continuou deitada, lassa e sonolenta nos braos dele, rosto 
ainda corado pelo prazer, respirao mansamente agitando os plos do peito dele. Mesmo que o mundo inteiro batesse  porta naquela hora, Ruark duvidava que tivesse 
foras para levantar um dedo para defender-se. Com esforo estupendo, ele virou a cabea e enterrou o rosto no cabelo dela, apreciando-lhe a fragrncia.
    Alguns minutos depois, Shanna perguntou baixinho e hesitante:
    - Serei eu to deficiente que voc precise procurar outras?
    - Nunca houve outras depois de voc, Shanna - disse ele.
    Shanna encostou a cabea no brao dele e tentou distinguir-lhe os traos no escuro:
    - E Milly?
    O fulgor de um raio iluminou o rosto dele, que encarou Shanna firmemente e respondeu:
    - Aquela cobrinha imaginou uma travessura, amor, e usou-a para apoquentar voc. Nunca houve nada entre ns, juro.
    Shanna ficou de costas, esmagada por sua prpria loucura e o que ela fora capaz de fazer. Envergonhada, cobriu o rosto com um brao e indagou:
    - Por que voc no me disse?
    Ruark se apoiou num cotovelo e debruou-se sobre a moa, pondo-lhe a mo na barriga.
    - Voc nunca me deu a oportunidade, Shanna.
    Ela emitiu um gemido infeliz, e lgrimas comearam a lhe marcar a face. Suavemente, Ruark tirou-lhe o brao do rosto e lhe beijou a boca trmula, silenciando 
os soluos que a sacudiam. Ela sussurrou, preocupada:
    - Voc me odeia muito, meu Capito Lorde Pirata Ruark?
    - Odeio - murmurou ele, asperamente. - Eu a odeio, quando se nega a mim. Mas meu dio s dura at receber seu primeiro beijo.
    Selvagemente, Shanna agarrou-se ao pescoo dele e comeou a distribuir vorazes beijos misturados a lgrimas salgadas no rosto e nos lbios dele, meio chorando, 
meio rindo at que seus temores quase aplacados, desapareceram totalmente. Mais confiante do que nunca, ela se aninhou no conforto dos braos dele. E assim, mesmo 
com os perigos que abalavam a ilha e com a loucura da natureza, os dois se refugiaram no mundo do sono.
    Ventos uivantes continuavam a fustigar as janelas e torrentes de chuva se abatiam contra as persianas barulhentas, enquanto o cu clareou para
    um tom plmbeo. Shanna no prestou mais ateno  tempestade ao se agitar no sono, pois, enquanto isso continuasse, eles no precisariam sair da cama, e Ruark 
permaneceria em seus braos. Seus olhos, meigos e acariciantes, contemplaram o rosto comprimido em seu busto, e ela sorriu calidamente ao recordar as horas passadas, 
to doces em sua mente quanto qualquer nctar em sua lngua. Com um suspiro de satisfao, voltou a dormir.
    Ao meio-dia, Gaitlier lhes trouxe comida mas apressou-se a ir embora aps depositar a bandeja na mesa, vendo que Shanna franziu o cenho para ele por sobre o 
lenol que apertava contra si, e Ruark, cabelo desgrenhado e cala vestida apressadamente, esperava do lado de fora da porta, impaciente para que o criado fosse 
embora.
    Quando o homem saiu do quarto, Ruark se encostou na porta e a fechou, e logo olhou para Shanna. Quando ela lhe sorriu amorosamente ele foi at a cama e se deixou 
cair sobre ela, abraando a moa e lhe esfregando meigamente a garganta, enquanto sua mo se meteu debaixo do lenol para explorar os lugares mais macios do corpo 
dela. Shanna deu um risinho e lhe mordiscou a orelha, e lhe retribuiu a carcia, curvando o corpo sedutoramente sobre ele.
    - Madame, a senhora tem a astcia de uma vbora - brincou ele. Diga a verdade: voc  sedutora ou seduzida, violadora ou violada, feiticeira ou enfeitiada?
    - Ora,  claro que sou tudo isso - respondeu Shanna, rindo e se afastando dele. - O que prefere que eu seja, senhor? A seduzida?
    Ruark contemplou-lhe o corpo macio e sinuoso, plido sob a luz do dia enfurecido. Ela era excepcionalmente adorvel. Sentindo-se excitado, Ruark tentou peg-la, 
mas, com um risinho surdo, Shanna desviou-se da mo estendida e ficou de joelhos.
    - Ou talvez queira que hoje eu seja a sedutora? - Empurrou-o para que ele ficasse de costas e descaradamente se inclinou de forma a que seus seios tocassem o 
peito musculoso e moreno, e beijou-o com tamanha paixo que Ruark tremeu de to excitado. - Ou ser que voc prefere uma feiticeira?
    Shanna atirou a cabea para trs e agitou os cabelos e fingiu que sua mo era uma pata e lhe passou as unhas levemente nas costelas.
    Com um gemido baixinho, Ruark se levantou e, subitamente, ela estava debaixo dele. Os olhos da mulher estavam brincalhes, mas Ruark havia perdido toda a vontade 
de brincar e estava srio quando seus lbios encontraram os dela.
    No vestbulo do lado de fora do quarto, ouviu-se um rudo de botas, e a voz tonitruante de Harripen gritou:
    - Ruark! Ruark! Ateno, Comandante Ruark!
    Com uma imprecao, Ruark se atirou para o outro lado da cama e pegou a pistola e o sabre. Shanna freneticamente ficou debaixo do lenol e o puxou at o pescoo. 
A porta se abriu e, com um estalo, bateu na parede.
    Nesse instante Harripen se viu olhando para um homem colrico, que segurava uma pistola engatilhada e lhe mirava a testa. A bainha vazia resvalou para o cho 
e esbarrou nas pernas da mesa. Preocupado, Harripen levantou os braos e gritou:
    - Calma a, rapazinho! Muita calma
    - Maldito seja, cara! - rosnou Ruark. - O que voc quer?
    - Estou desarmado. Vim conversar.
    Harripen ficou imvel at Ruark baixar a pistola e coloc-la, ainda engatilhada, na mesa-de-cabeceira.
    - Desarmado? - debochou Ruark, apontando com o sabre para o alto das botas de Harripen, onde se via o cabo de um punhal. O ingls deu de ombros e baixou os braos.
    - Se eu fosse um homem honesto, companheiro, no seria pirata.
    Os olhos do homem se dirigiram a Shanna e brilharam um pouco mais do que Ruark gostaria. Ao perceber a luxria naqueles olhos cinzentos, Shanna tremeu e agarrou 
mais forte o lenol.
    - No sabia que vocs estavam ocupados - debochou Harripen. - Lamento ter incomodado.
    - Saia imediatamente daqui! - ordenou Ruark. - Em poucos minutos deso.
    O ingls fez um gesto de paz:
    - Calma, rapazinho. Minha inteno no era estragar nada. Pensei que vocs estavam comendo, s isso.
    Encolheu os ombros para desculpar-se da intruso, deu largas passadas at a bandeja de comida e, pegando um meio frango com mos gordurosas, comeou a comer.
    -  que estou querendo discutir um assunto importante com voc, rapaz.
    - Em minha opinio, no precisamos discutir nada - respondeu Ruark, nervosamente.
    Harripen riu alto e se aproximou do lado da cama onde estava Shanna. Os olhos pequenos e cinzentos no deixaram de olh-la. Ignorou o franzir de cenho de Ruark 
e deixou-se cair pesadamente na cama, sorrindo meloso para Shanna ao pegar um pedao de frango e enfi-lo na boca. Shanna afastou-se dele enojada, e arrancou a ponta 
do lenol de sob as botas sujas. Depois, refugiou-se depressa nos braos de Ruark. Este achava-se meio sentado, meio ajoelhado, apoiado na beira da cama e diretamente 
em frente a Harripen. A lmina do sabre completava o crculo ao redor da moa, e a beira afiada apontava para o outro comandante. Ressentindo-se do olhar cpido 
do ingls, Shanna teve medo, e subiu mais o lenol, enquanto se comprimia contra o peito de Ruark. Ele estava to duro quanto uma pedra, e sob a cabea ela sentia 
o msculo do ombro dele se enrijecer.
    Harripen tirou um pedao de galinha do queixo.
    - , essa dona  mesmo gostosa. E parece que est bem caidinha por voc, do jeito que bateu em Carmelita. O que voc vai ganhar com ela? Ela
    no vale todo esse trabalho, rapaz. - O velho pirata se debruou para a frente selvagemente, e os olhos avermelhados reluziram, traindo-lhe a vontade de altercar. 
Inclinando a cabea, riu e piscou um olho: - Preste ateno, companheiro. Eu lhe dou mais uma bolsa de moedas, se voc me deixar passar trs noites com ela.
    - Pode ser que chegue a sua vez - respondeu Ruark, cauteloso. Mas, por enquanto, ela  minha.
    - , voc j deixou isso bem claro - suspirou o homem. - Mas... Harripen no resistiu e estendeu a mo gordurosa para acariciar os lindos cachos de Shanna, mas 
parou de repente ao perceber que, se estendesse mais a mo, ficaria com menos um dedo, pois a lmina do sabre de repente lhe bloqueou o caminho. Seus olhos fixaram-se 
em Ruark, e se arregalaram. Haviam-se deparado com um sorriso ao mesmo tempo tranqilo e mortalmente paciente e estranho, que fez a pele da nuca de Harripen eriar. 
Teve a imediata certeza de que poderia morrer ali mesmo.
    Harripen retirou a mo como se tivesse tocado em fogo e levantou-se depressa da cama, pondo um espao considervel entre si e Ruark.
    - Maldio, voc  um bocado irritvel, poxa! - rosnou. - Mas no vim falar sobre a moa.
    Atirou a galinha meio comida na mesa, mas errou. Olhou o reflexo de Ruark no espelho, e os olhos ambarinos o impressionaram como os de um falco cauteloso. Virando-se, 
Harripen ps as mos nas costas e equilibrou-se nos saltos antes de comear, de forma quase delicada:
    - Meu barco  um pouco menor do que o de Robby, mas faz muito tempo estou de olho no Good Hound. No quero provar a ponta de sua espada por causa disso, mas 
talvez a gente possa fazer um acordo. Voc  novo aqui e no conhece nossos costumes. Eu podia fazer uma fortuna para ns todos com um navio como o Good Hound e 
no ficaria perdendo tempo com homens como Trahern. Acho que minha parte no ouro e meu barco seriam uma troca justa por seu navio.
    Parou, parecendo ter esgotado o que tinha a dizer. Ruark levantou-se da cama e chegou at sua extremidade, apoiando um ombro na pesada coluna. Descansou a ponta 
do sabre no cho, afastando-a de Harripen, e assinalando a trgua entre eles. Demorou antes de responder:
    - Preciso pensar no assunto. No tenho dvida quanto  minha capacidade em manejar uma embarcao como aquela, mas grande parte do que voc disse  verdade. 
E embora eu tenha minha prpria parte e a de Pellier, continuo precisando de bens. Vou pensar e logo lhe informarei. Deu alguns passos  frente, pegou o brao de 
Harripen e o conduziu lentamente  porta. - H uma coisa que lhe quero pedir. Esta porta  slida. - Bateu na porta com a ponta da espada. - E um punho que bata 
nela faz um barulho alto. Sabe - olhou fixo para Harripen - quase que voc no tem oportunidade de declinar sua proposta. Sugiro que daqui para a frente bata  porta 
e no me assuste de novo.
    Harripen concordou, quase ansioso, com a cabea e saiu. Ruark fechou e trancou a porta. O pirata limpou uma gota de suor do nariz e respirou fundo. Ruark havia 
sido quase gentil, mas seus olhos derrubavam a alma de um homem, quando ele estava zangado. Harripen desceu e ficou satisfeito por no estar ferido.
    Ruark comprimiu a orelha contra a porta e ouviu as botas de Harripen descerem a escada, enquanto Shanna apressadamente se vestiu. Ruark mal se afastou da porta, 
quando ouviu um bater leve. Abriu cauteloso a porta e encontrou Gaitlier, agachado. O homenzinho se aprumou e enfrentou o olhar de Ruark por cima dos culos.
    - Posso entrar por um instante, senhor? - Sua voz era quase um sussurro.
    Aturdido pela presena e pelos modos do criado, Ruark abriu a porta e fez-lhe sinal para entrar. Gaitlier remexeu na mesa por alguns instantes e pegou a galinha 
no cho. No gesto nervoso j notado por Ruark, esfregou um p no outro, parecendo desorientado. Ruark o estudava da ponta da cama onde estava sentado com o p no 
anteparo, esperando Gaitlier falar, e afinal procurou saber de que se tratava.
    - E ento, homem! - instou. - Diga logo o que .
    Shanna se ajoelhou ao lado de Ruark e apoiou o queixo no ombro dele, to intrigada quanto ele, e duplamente curiosa. O homenzinho arrastou os ps e olhou para 
o teto, como se procurasse inspirao divina. Encarou-os e, respirando fundo, comeou a falar, como se estivesse entrando num mar gelado:
    - Sei que vocs dois so marido e mulher! - Sua frase foi curta e fez Shanna arfar e Ruark rosnar. Gaitlier continuou: - Tambm sei, senhor, que seu passado 
oculta algo que o senhor teme e que o senhor , na verdade, cativo de Trahern. - Apontou para pequena abertura no alto da parede, que passara despercebida e explicou: 
- Um orifcio de escuta e um quarto de criados. - Sob os olhares atnitos dos dois, prosseguiu: -  a forma de um criado saber, antes de entrar, o que  inoportuno 
e o que ele no deve interromper. Coisa necessria com o Comandante Pellier.
    Shanna corou constrangida e esperou ardentemente que a tempestade lhes houvesse acobertado a paixo. Gaitlier percebeu o cenho franzido de Ruark rumo  porta 
e o tranqilizou:
    - Aqueles idiotas no sabem da existncia do orifcio e jamais deduziriam para que serve. Acredito que a idia  originria do Extremo Oriente. De qualquer forma, 
 bastante til. - Respirou, pausadamente. - Tenho um trato a lhe propor, e espero que seja mais honesto do que o do Comandante Harripen. Conheo o caminho pelo 
pntano. - Parou para que a importncia do que disse fosse avaliada, e a nica indicao de que isso realmente aconteceu foi que Ruark redobrou a ateno. - Eu seria 
morto se qualquer um deles - apontou para a porta com a cabea - sequer desconfiasse que sei disso.
    Durante alguns segundos, os nicos sons audveis foram o vento e a chuva batendo nas telhas. Gaitlier tirou os culos e limpou as lentes com a camisa.
    - Claro que essa informao tem um preo - arriscou, timidamente. - Quando o senhor fugir, quero ir junto, assim como Dora. - Recolocou os culos e olhou firme 
para os dois, dizendo em seguida, com objetividade: - Vou ajud-los de todas as formas e irei com vocs para indicar a entrada do canal.
    Ruark olhou detidamente para o criado. Nunca avaliara a coragem daquele homem e estava meio surpreso. Franziu a testa por um instante, e Gaitlier o interpretou 
mal:
    - O senhor no conseguir obrigar-me a contar o segredo - preveniu, com determinao. Ruark sorriu e acariciou o cano da pistola. Olhou para Gaitlier e perguntou:
    - E o que o faz pensar que planejamos fugir?
    - Se o senhor no est pensando nisso, deveria. - O olhar de Gaitlier no vacilou, e ele explicou. - A chalupa voltou de Los Camellos ontem  noite, antes da 
tempestade. A Jolly Bitch por pouco no foi interceptada por uma fragata quando estava passando os cativos para uma baleeira. A chalupa quase foi a pique, atingida 
vrias vezes antes de fugir.
    - Um patacho - riu Ruark.
    - Era o Hampstead! - exclamou Shanna. - Claro que no era uma fragata.
    - Seja l o que for - exclamou Gaitlier. - Os piratas esto duvidando de sua orientao, Comandante, e esto agastados com a perda de vrios bons homens. S 
esperam o momento adequado para mat-lo, e a dama vai ter destino bem pior, se metade do que eles planejam se realizar.
    Ruark analisou as informaes; Shanna manteve-se calada "para deix-lo pensar. Ele ficou olhando demoradamente para o cho e, em seguida, assentiu com a cabea. 
Levantou os olhos e os fixou em Gaitlier.
    Evidentemente, voc tem razo. Precisamos avaliar nossas oportunidades e aproveit-las. - Virou-se para olhar para Shanna, e seu queixo enrijeceu. - Vamos fugir 
daqui na primeira oportunidade.
    Ansioso, Gaitlier pegou uma cadeira e se sentou, debruando-se para a frente.
    - Mesmo com os ventos de oeste soprando, o canal  difcil de atravessar, mas depois que uma grande tempestade passa, os ventos se inclinam para o norte e sopram 
leves por um ou dois dias. Seria a melhor ocasio para um pequeno grupo atravessar com um barco.
    - Temos de providenciar certas coisas. - Ruark se acalmou, mas seus olhos brilharam de excitao. - Voc pode voltar quando estiver escuro? Precisamos arriscar-nos 
mesmo com a tempestade, mas ningum deve saber.
    Gaitlier fez a ltima pergunta:
    - O senhor tambm vai levar a Dora?
    - Claro! - garantiu Ruark. - Seria abominvel deixar uma inocente aqui.
    - Ento, estarei aqui. Tarde ou, se a tempestade amainar, mais cedo. Vou dizer a Dora que pegue tudo de que vamos precisar.
    - Combinado!
    O quarto transformou-se num mundo, um cu contra o temvel furaco que assolava a ilha e lanava seus ventos contra as arrogantes construes erigidas pelo insignificante 
homem. Era o pntano que absorvia a fora das ondas e deixava a pequena duna intocvel. A estalagem se encolhia sob o topo do morro e, com suas slidas paredes e 
telhado macio, abrigava os que estavam dentro.
    A porta de carvalho protegia Shanna e Ruark contra os animais bbados e vorazes do salo. Vrias vezes durante a tarde, os piratas subiram a escada e bateram 
na porta do quarto, implorando a Ruark que levasse a moa para danar para eles ou para fazer algo melhor que ajudasse a passar as horas. Apenas sua ameaa de usar 
a pistola e a espada os manteve afastados. Eles saam escabriados, resmungando imprecaes e terrveis ameaas, mas desciam, porque nenhum deles tinha a coragem 
de provar a percia de Ruark, e os clculos que faziam de poder venc-lo no eram favorveis.
    O tempo passou, e a noite chegou. As persianas continuavam a gemer e chacoalhar com a violncia da tempestade. Shanna estava agradecida pelo barulho e a fria 
da borrasca. Isso lhe dava uma trgua porque, enquanto a natureza estava furiosa l fora, eles se achavam encerrados no quarto, e lhe parecia que a presena de Ruark 
era o fator que ela sempre havia procurado. Ele andava sempre por perto. Se ela se virava, ele erguia os olhos para ela e lhe sorria. Se ela cochilava um pouco e 
depois acordava, continuava deitada e imvel para ouvir os sons que ele fazia, enquanto se movimentava ou mexia nos mapas. Embora a tempestade ameaasse varr-los 
at o mar, Shanna j no a temia, e chegou a pensar que nunca mais teria medo de raios ou troves.
    Mesmo assim, foi um alvio quando Gaitlier bateu  porta. O suave homem empurrou uma sacola grande para dentro do quarto e, depois que colocou a bandeja de jantar 
na mesa e cuidadosamente fechou aporta, abriu a sacola com bvio orgulho, e exibiu uma escada de corda. Seria til na fuga.  sada, parou  porta e sacudiu a cabea, 
preocupado.
    - Dora precisou esconder-se na copa para fugir  ateno de Harripen e dos outros. Carmelita j lhes serviu comida e bebida e muito mais, mas eles se cansam 
dela e procuram novo divertimento.
    A noite avanou. O estrpito, fora, j estava enfadonho e a farra de bbados l embaixo amainou de tal forma que apenas um ou outro rudo se ouvia.  medida 
que as horas passavam, Ruark ficava inquieto. Andou para l e para c no aposento, acariciou as pistolas e repetidamente verificou os gatilhos, e desembainhou o 
sabre para testar a ponta.
    Mudana lenta e sutil aconteceu no bramir da tempestade. O vento deixou de uivar to alto e a chuva virou uma nvoa fina. Pouco depois que eles dois se deram 
conta disso, uma batida leve  porta fez-se ouvir, e Ruark deixou entrar um sorridente Gaitlier.
    - Vamos mostrar uma coisa a esses camaradas - disse, esfregando as mos alegremente. - Que tal um ou dois golpes para nos vingarmos?
    Ruark no participou da ansiedade do homem e seu cenho se franziu:
    - Acho que vou ter de abrir mo de nossa viagem, pelo menos por esta noite - afirmou solene, e o rosto do criado mostrou decepo. - Os piratas esto inquietos, 
e pressinto que estejam preparando uma traio. - Parou perto da porta e prestou ateno. - Eles esto silenciosos demais para o meu gosto.
    Gaitlier riu eufrico, e os olhos brilharam por detrs dos vidros dos culos.
    -  que eles esto atoleimados. Carmelita se cansou das brincadeiras de todos e lhes serviu apenas aguardente da mais braba. Vai levar horas para eles se recuperarem.
    Ruark observou o homem por um instante. Abriu a porta e andou sub-repticiamente at o topo das escadas para comprovar a histria. O salo estava escuro, e havia 
apenas alguns tocos de vela como iluminao, mas conseguiu distinguir uns 12 vultos espalhados em ridculas posies de sono. Me estava largado em cima da barriga, 
corpo inteiro na mesa, e roncava alto, misturando resmungos e assobios.
    Satisfeito, Ruark voltou, trancou a porta e empurrou pesada arca de ferro contra ela. Fez um aceno com a cabea e Gaitlier comeou a passar a escada de cordas 
para o lado de fora da janela. Ruark despiu-se completamente,  exceo da cala. Aps mais uma vez examinar as pistolas, colocou-as engatilhadas na mesa, onde estariam 
bem  mo, caso Shanna precisasse. Tambm Gaitlier ficou s de cala e pendurou uma adaga no cinto de corda. Ruark pegou a faixa do sabre e os dois esfregaram fuligem 
dos lampies no corpo. Shanna estava escovando o cabelo e Ruark, postando-se perto dela em frente ao espelho, espalhou o material preto e gorduroso no rosto. Ela 
riu ao v-lo assim e, entusiasmada, ajudou-o a lambuzar-se no peito e nos braos.
    - Sempre achei que voc era moleque. Agora isto  evidente. Ruark passou-lhe um dedo no nariz delicado para vingar-se e riu quando ela arfou, fingindo-se insultada 
e esfregou com fora a mancha de fuligem.
    Apagaram as velas,  exceo de uma, num lampio de navio, que colocaram na mesa. Ruark beijou Shanna levemente e fechou a porta levando
    a lanterna e deixando o aposento no escuro. Apertando a mo de Shanna, Ruark saiu e ela ouviu a escada sendo usada. Esperou at ter certeza de que os dois j 
tinham ido e depois recuperou a escada, conforme instrues de Ruark, enfiou-a na arca e fechou as persianas antes de acender a lanterna.
    Agora era apenas questo de esperar. Ruark lhe havia tentado contar o que planejavam, mas a moa estava por demais preocupada com a segurana dele e no prestou 
ateno  maior parte do que ele dissera; s se lembrava de que tinha algo a ver com o depsito de plvora dos piratas e com a coleta de mato no barranco. Sem pensar, 
Shanna imitou os gestos de Ruark e verificou as pistolas, examinou-lhes os gatilhos e depositou-as na mesa mais uma vez. Examinou o gume da pequena adaga e a colocou 
na cintura. Inquieta, andou para l e para c, e a nica diferena foi que, bem ao estilo feminino, aproveitou para arrumar um pouco o aposento.
    O gibo de Ruark estava pendurado no brao de uma cadeira e, ao peg-lo, ela alisou o couro macio. Era estranho como a pea j parecia parte integrante de Ruark, 
 semelhana da cala curta. O gibo estava at impregnado do cheiro dele. Esfregou o rosto na pea, apreciando o cheiro msculo do couro.
    "Em que me transformei?", admirou-se. "Numa mulher que espera o marido? Ser sempre assim com as mulheres? Ser que elas pegam uma pea de roupa masculina e 
revivem momentos de felicidade, enquanto aguardam o tempo passar?"
    Relanceou o olhar pelo quarto e ficou atnita com sua disposio: "Estranho, sinto a partida dele.  isso que est fazendo falta aqui. Nunca senti tanto a presena 
dele quanto sinto sua ausncia."
    Subitamente, ocorreu a Shanna que ela achava a vida incompleta, a no ser que pudesse estender a mo e toc-lo.
    "No vou cair nessa armadilha", garantiu-se ela, pendurando o gibo no espaldar de uma cadeira. Tinha arranjado uma ampulheta para marcar o tempo, pois no havia 
relgio no quarto, e agora reparou que s estava pela metade. Suspirou fundo para acalmar a saudade que a invadiu e recomeou a andar pelo aposento.
    Uma lufada de vento fez as persianas se agitarem e a fez dar um pulo. Grandes gotas de chuva recomearam a cair, e o vento numa cornija gemeu baixinho. A hospedaria 
estalou, quando a tempestade renovou seu ataque  ilha. Os olhos de Shanna se fixaram na ampulheta, e ela desanimou ao perceber que s havia pequena quantidade de 
areia na parte superior. "J se passou quase uma hora! Ser que alguma coisa saiu errado?" Nervosa, comeou a roer unha. "Ser que foram descobertos? Ou talvez tenham 
encontrado algum problema insupervel?"
    Os gros de areia se precipitavam ligeiros no fundo da ampulheta. "Ser que ele est morto, com a tempestade lhe ensopando o corpo?" Estremeceu ao pensamento. 
"Preciso acalmar-me. Daqui a pouco ele chega."
    Deliberadamente, Shanna ps as mos nos quadris, porm elas se abriram e logo se crisparam de novo um sem-nmero de vezes. Pela milsima
    vez, andou pelo quarto mas voltou para observar os ltimos gros de areia carem no fundo da ampulheta. Estendeu a mo para virar o objeto e recomear a contagem 
do tempo, mas ficou gelada ao ouvir um rudo interferir com o barulho da chuva e do vento; enquanto escutava, outra pedra foi atirada contra a janela.
    Sufocando um grito de alegria, Shanna girou o corpo e voou para abrir a janela, mas de repente lembrou-se haver esquecido de apagar a vela. Correu de volta  
mesa, depois foi at a janela e atirou a escada para baixo, aps apanh-la na arca. No conseguia enxergar nada. Por precauo, manteve-se  sombra, mirando uma 
pistola para o alto da escada, at reconhecer o cabelo negro e os ombros largos de Ruark. Este pulou pela janela e voltou-se para puxar Gaitlier por cima do parapeito. 
Shanna s pretendia tocar o brao de Ruark e perguntar-lhe se havia tido xito, mas quando ele se virou para ela, seus braos o cercaram e ela se agarrou a ele com 
toda a fora de que dispunha. Ruark lhe sentiu o corpo trmulo contra o seu e a abraou, apertado. Levantou-lhe o queixo para beij-la, ignorando Gaitlier, que se 
ocupou em recuperar a escada, fechar as persianas e acender o lampio.
    Os dois finalmente se separaram, e Gaitlier entregou uma toalha a Ruark e comeou tambm a se enxugar. Foi como se a chegada deles tivesse impulsionado toda 
a fria da tempestade, mas Shanna j no se importava. Aninhou-se numa cadeira, enquanto os homens se debruaram sobre os mapas e falavam em voz baixa. O rosto dela 
pousou no gibo de couro, e seu cheiro lhe penetrou a cabea. Vago sorriso lhe aflorou, e seus olhos brilharam com um calor que ningum podia explicar, muito menos 
Shanna.
    Quando os dois terminaram de parlamentar, Gaitlier- se vestiu, murmurou suas despedidas e foi embora. Ruark trancou a porta e Shanna se levantou e ficou ao lado 
da cama. Seus dedos tentaram abrir os laos do vestido, e de repente dedos ansiosos por ajud-la se fizeram sentir. Quando a saia e a blusa estavam cadas no cho, 
Shanna se virou para abraar Ruark e lhe passou os braos pelo pescoo, buscando-lhe os lbios com febril abandono.
    Chegou a manh; e Shanna sentiu quando Ruark saiu da cama. Escutou-lhe os movimentos enquanto ele se vestia. Havia alguma coisa errada. mas Shanna no sabia 
o qu. Abrindo os olhos, contemplou as paredes descascadas onde a sombra dele aparecia distorcida sob os fortes raios de Sol que batiam nas janelas.
    Era isso! O Sol estava forte! O aposento se achava mais silencioso do que nos ltimos dias. No havia vento, nem tempestade bramindo. Ela ficou de costas e viu 
o cu azul por entre as persianas abertas. Um monte ocasional de nuvens estragava um cu quase imaculado e emprestava um contraponto de branco ao azul cristalino. 
Ruark se aproximou da cama, j plenamente trajado como pirata. Ps duas armas na mesa: duas pistolas sendo uma enorme.
    - Gaitlier confiscou estas armas dos piratas enquanto dormiam. Esto carregadas e prontas para disparar - advertiu, cuidadosamente. - Preciso ir colocar os estopins 
para que tudo fique pronto para hoje  noite.
    Sua testa se franziu de preocupao. No gostava da idia de deix-la, mas Gaitlier no sabia lidar com plvora. Durante a borrasca, ele e Gaitlier haviam preparado 
uma engenhoca que - esperavam - distrairia a ateno dos piratas e lhes permitiria fugir. Tudo que faltava fazer era colocar o estopim lubrificado e a plvora debaixo 
de arbustos no barranco acima do fortim, que era usado como depsito. Os arbustos eram mantidos no lugar atravs de finas estacas. Esperavam que esse mato, incendiado 
pela plvora e ajudado pelos grossos troncos, rolaria contra a parede do depsito quando o estopim fosse aceso e causaria alarme geral. Ele no podia testar o plano, 
mas simplesmente confiar na sorte.
    - Gaitlier est vigiando a porta, e os piratas continuam dormindo l embaixo. Vou sair por algum tempo, enquanto est em boa hora.
    Debruou-se sobre ela, e a beijou ardentemente. Acariciou-lhe o brao e o apertou para transmitir-lhe segurana. Relanceando os olhos por cima do ombro pela 
ltima vez, ele pulou pela janela e caiu no cho. Seus olhos examinaram o cais. A escuna continuava na baa. Pelo menos, o Good Hound estava agora em melhor posio 
para seus objetivos do que antes. Ruark foi rapidamente para os fundos do prdio. Na pressa, no reparou no vulto solitrio escondido nas sombras da porta dos fundos. 
Passaram-se minutos e Ruark no voltou. A silhueta cambaleou e surgiu  luz do Sol. Era um homem de olhos vermelhos e inspidos, que olhou de esguelha para a trilha 
e piscou angustiado:
    - Macacos me mordam! - resmungou o pirata mulato. - O falco voou do ninho e deixou a avezinha pronta para ser depenada...
    Shanna encolheu-se no canto da cama ao ouvir as vozes abafadas no vestbulo. Alguns instantes antes, Gaitlier murmurou atravs da porta que havia escutado que 
os piratas estavam planejando invadir o quarto e agarr-la. Um deles vira Ruark se afastar. Ela mandou que o criado fosse correndo atrs de Ruark, pois o corpo magro 
de Gaitlier s conseguiria deter os marginais por pouco tempo. Aps examinar a pesada barra da porta e o peso da arca posta por Ruark para bloquear a passagem ainda 
mais, ela verificou que eram ambos robustos sustentculos para proteg-la. Ainda assim, estava preparada para o ataque. A menor das duas pistolas, junto com a adaga, 
foi para baixo do travesseiro. Ela ficou com a pistola grande na mo, o cano comprido na cama  sua frente. Preparou-se para o que de pior os piratas poderiam oferecer-lhe.
    Um teste furtivo da porta, seguido por um rudo da madeira como se algum encostasse nela o ombro, logo provocou um punho forte batendo nas tbuas quando o homem 
l fora viu que a porta estava trancada e havia um objeto pesado encostado nela. Fazendo sua voz parecer que acabara de acordar, Shanna gritou:
    - Quem ?
    Um pigarro antecedeu a resposta: -
    -  o Comandante Harripen, senhora. Peo que abra a porta. Tenho uns assuntos para discutir com a senhora.
    Shanna no deu crdito ao grosseiro ardil:
    - No acredito em nada do que disse - respondeu. - Mas se quiser experimentar um pouquinho de chumbo, est s ordens.
    Mal acabou de falar, um barulho violento sacudiu as tbuas da porta. As trancas, a barra e as dobradias gemeram em protesto. Comeou ento uma sucesso de empurres 
contra a porta, sempre mais fortes. Com mais um golpe potente, a madeira comeou a rachar e a sair das dobradias e parafusos.
    A barra deu um pulo e comeou a ceder sob o impacto dos empurres. Com mos trmulas, Shanna levantou a pistola e a mirou na porta. Fechando os olhos com fora, 
apertou o gatilho. A arma bramiu de tal forma que ela ficou surda. O tiro pareceu despedaar a porta, que deu de si com estrpito. Embora um dos piratas fosse atirado 
contra a parede oposta, os demais atacaram. Era o mulato, Harripen e o holands; logo seguidos por mais dois.
    Shanna atirou a arma intil contra ele e se atrapalhou com os dedos entorpecidos, e, antes de poder apanhar a outra pistola, eles estavam em cima dela. A moa 
rosnou, guinchou de raiva e lutou como um demnio, dando pontaps, arranhando e mordendo, mas, desesperada como estava, no tinha condies de prevalecer contra 
os cinco homens que a dominaram.
    O holands agarrou-lhe os longos cabelos, e ela foi cruelmente atirada na cama. Mos vidas lhe estenderam os braos e pernas na cama. Harripen lhe tampou a 
boca com uma toalha para lhe sufocar os gritos e debruou-se at seu hlito de aguardente a abafar:
    - Estamos aqui pra pegar nossa parte, moa. A gente tirou a sorte para ver qual de ns fica com voc primeiro. E desta vez no tem nenhum Ruark para salv-la. 
A gente j providenciou isto.
    Os olhos de Shanna se arregalaram de horror. Sua mente agitou-se de medo. Teriam matado Ruark? Foi isso que ele quis dizer? Debateu-se sob as patas dos celerados, 
para lhes escapar das grosseiras carcias.
    - Segurem-na! rosnou um rapaz, quando o joelho de Shanna lhe atingiu as partes baixas. Afastou-se do lado da cama onde havia tentado trepar na moa e olhou raivoso 
para os. companheiros. - Ela  um trocinho de nada e vocs no conseguem segur-la!
    - V tomar banho, guri! Afaste-se e deixe um homem de verdade mostrar-lhe o que fazer - disse Harripen.
    - Voc no quer mais nada, no ? - vociferou o rapaz. - Segurem-na!
    Mos gordas feriram os pulsos e tornozelos de Shanna, e a fizeram deitar-se. Os piratas a olharam com volpia, e o fedor que deles se desprendia
    quase fez Shanna vomitar. O mulato de pele escura retirou-se da refrega e foi para perto da porta, enquanto o rapaz, aps se haver gabado a noite inteira de 
suas proezas com as mulheres, comeou a se despir, enquanto, risonho, no parava de se gabar:
    - No precisa fingir que no est querendo, madame. Vou faz-la esquecer aquele sacana daquele cativo.
    - Ande logo com isso! - rosnou Harripen. - Ou voc fica por ltimo. - Tem tempo que estou de olho nessa dona.
    - O azar  seu, Harripen, de ter sido o ltimo no sorteio - disse o holands, rindo alto.
    Shanna guinchou, quando o rapaz estendeu a mo para a blusa dela. Embora tentasse desviar-se, os outros trs a seguraram, e ela no conseguiu mexer-se. O som 
do pano sendo rasgado lhe atravessou a alma, e ela se encheu de pavor nauseante. Mais uma vez tentou gritar, quando os dedos vidos do rapaz comearam a lhe rasgar 
a blusa e a levantar-lhe as saias. De sbito, ele foi levantado como se por mo de um gigante e atirado para fora da cama. Antes de ele tocar o cho, o aposento 
ecoou o estalo ensurdecedor de um tiro, e todos os olhos se concentraram em Ruark, quando ele se arremessou pela porta e ergueu a outra pistola, atirando a vazia 
para o lado e fazendo meno de pegar o sabre. Obviamente, Gaitlier o havia encontrado na hora H. O mulato saiu de detrs da porta e atirou uma malagueta nos ombros 
de Ruark, que caiu para a frente e largou a pistola. O sabre ficou preso sob ele e, meio tonto, Ruark tentou rolar com o corpo e liberar sua lmina, mas os quatro 
comandantes lhe caram em cima. Foi uma confuso terrvel. Ruark esforou-se para ficar de p, mas foi erguido e preso  parede. Harripen ficou livre e pegou sua 
espada, levantando-a para golpear Ruark.
    Um gemido terrvel escapou dos lbios de Harripen e a lmina lhe caiu das mos. Horrorizado, olhou por cima do ombro, onde a ponta da pequena adaga de prata 
se salientava. Ergueu os olhos e viu o cano da pistola que Shanna segurava. Ela os encarava irada.
    - Recuem!
    A voz dela continha um aviso, e Harripen tropeou de costas e, inesperadamente, se viu sentado numa enorme arca. A pistola mirou ento o mulato. Vendo que ela 
estava determinada a se vingar, o homem recuou cauteloso. Ruark enfiou o punho na barriga do holands e pegou a pistola carregada antes de desembainhar o comprido 
sabre. Foi para o lado de Shanna, e seu olhar frio encarou lentamente os piratas.
    - Parece que a prpria lei de vocs no deu certo, mas, se querem test-la, o prazer  meu.
    Alou a sobrancelha interrogativamente e levantou o sabre, ameaando Harripen. O ingls deu de ombros, tirou a adaga do ombro e a jogou aos ps de Ruark.
    - Estou ferido - resmungou, e continuou sentado.
    O sabre foi at o holands, que estava com os braos no estmago. Sacudiu negativamente a cabea com tanto vigor que as gordas bochechas tremeram. O mulato enrugou 
a testa e fez meno de reagir, mas olhou para a pequena pistola que Shanna continuava a apontar contra ele, e recuou devagar at a porta. Os outros apressaram-se 
em segui-lo e, quando todos saram, fez-se silncio mortal na estalagem.
    Ruark parou ao lado da porta e descarregou a pistola nela, ouvindo o tiro gemer ao ricochetear no corredor. Riu de satisfao ao ouvir o som de botas correndo.
    - Por causa desta moa - gritou ele - vocs perderam mais do que qualquer tesouro. Corram, meus bons amigos. Fujam dela.
    Imprecaes abafadas foram proferidas, quando pelo menos um dos corsrios tropeou na escada, com a pressa em que ia. Ruark voltou-se para Shanna. Ao notar a 
preocupao nos olhos dele, a moa sacudiu negativamente a cabea e enfiou a blusa na saia.
    - Resisti muito melhor do que eles - garantiu. - E agora, meu Capito Pirata Ruark?
    Este embainhou o sabre e examinou os estragos enquanto recarregava as pistolas. O jovem pirata estava deitado de costas, olhos revirados para cima; a porta estava 
destruda e j no oferecia proteo. Outro pirata era um monte inanimado no corredor.
    - Precisamos partir - disse, secamente - antes que eles se recuperem e renam foras.
    Os preparativos estavam todos prontos. Ruark retirou da arca a escada de corda e a atirou sobre o estreito parapeito da janela, amarrando a ponta superior com 
um n que poderia ser solto l debaixo; Shanna pegou a trouxa de roupas trazida por Gaitlier.
    Ruark examinou o quintal antes de atirar a trouxa. Fez um gesto para que Shanna fosse at a janela e a ps no parapeito. Quando ela desceu, ele ficou no parapeito 
e fechou a janela por fora. Era uma dissimulao insignificante, mas que obrigaria os piratas a procur-los nos outros locais da hospedaria antes de persegui-los 
l fora. Shanna agarrou as trouxas conforme instruda por Ruark, e dirigiu-se aos fundos da estalagem e para a beira do pntano. Ruark, aps descer, deu um puxo 
na corda, e a escada caiu a seus ps. Ele a arrastou na areia para apagar as pegadas enquanto caminhava, seguindo a trilha de Shanna. Quando chegou  densa vegetao, 
com suas rvores mirradas e retorcidas pelo vento, escondeu a incmoda escada numa ravina atrs de um arbusto e se reuniu a Shanna, tirando-lhe a trouxa. Pegando 
a mo da moa, levou-a em ritmo vertiginoso por cima do morro, de onde desceram at estarem com gua coberta de limo pela altura do joelho. O pntano estava escuro, 
pois, embora o Sol estivesse a pino, filtrava-se pouca luminosidade pela densa folhagem. Cheiro ptrido emanava da gua, recentemente turbada pela tempestade e Shanna, 
puxada por Ruark, teve nsias de vmito.
    Ouviram estranhos borrifos e pancadas na gua, um ou outro adejar de asas entrecortados por grunhidos assustados, quando as criaturas do charco fugiam daqueles 
intrusos que lhes perturbavam os domnios. Shanna arquejava; seu peito doa quando Ruark finalmente parou, levantou-a para fora da gua e a ps no tronco retorcido 
de enorme cipreste. Foi para junto dela, e os dois descansaram encostados no tronco que se erguia s suas costas como gigantesco baluarte. Passou-se algum tempo 
antes que ambos conseguissem respirar normalmente.
    Gritos soaram no morro acima, e eles esperaram em silncio, espantando sanguessugas e insetos. O barulho da perseguio foi diminuindo, quando os piratas compreenderam 
que a tentativa de procur-los no pntano era intil.
    Ruark abriu a trouxa e tirou uma cabaa de gua, cujo lacre de cera quebrou, e passou o receptculo a Shanna. Ela deu um bom gole e engasgou quando percebeu 
que a gua estava misturada com rum. Bebericou ento devagar e at gostou do sabor. O grogue lhe aplacou a garganta seca e ajudou-a a relaxar. Ruark lhe deu um pedao 
de carne-seca ressecada mas que, naquele momento, lhes pareceu muito gostosa. Shanna deu outra mordida na carne, seguida por Ruark, que tambm saciou a sede. Enquanto 
comia, ele olhava para o Sol, para marcar sua passagem.
    - Gaitlier e a moa devem estar-nos esperando - disse ele, e continuou mastigando antes de engolir. Tomou um ltimo gole da bebida para refrescar a garganta. 
- Nossos amigos no so nada pacientes e sabem que devemos acabar saindo do pntano, mas acham que isto no se dar antes de amanh ou depois. Devem estar agora 
lambendo suas feridas e afogando as mgoas na bebida. Vamos trocar de roupas em solo seco. - Pegou de novo a trouxa. - No estaro procurando por dois marinheiros. 
Voc j est descansada o bastante para viajar?
    Shanna aquiesceu com a cabea e esforou-se por engolir um pedao da carne; acabou recorrendo ao grogue, como fez Ruark. Este se abaixou na gua e, pondo a trouxa 
no ombro, levantou-se para erguer Shanna. Ela enrijeceu o corpo, porque seus ps romperam a superfcie espumosa e se afundaram no limo. Os dois andaram mais devagar, 
porque qualquer som poderia denunci-los. Mais acima, encontraram pequena clareira em meio a um monte de arbustos onde trocaram de roupa. As roupas que Gaitlier 
havia encontrado eram camisetas listradas de marinheiros, cales at os joelhos, chapus desengonados e sandlias. O problema de Shanna logo se evidenciou, pois, 
mesmo usando a camiseta folgada e os cales curtos, sua condio de mulher era bvia.
    Ruark deu um risinho e fez com que ela voltasse a vestir a saia. Rasgou o pano da trouxa em faixas largas e passou-as em volta- do busto de moa at seus seios 
ficarem o mais chato possvel. Com mais pano enfiado na cala curta para disfarar-lhe os quadris, ela passou a dar mais a impresso de um marujo, embora ligeiramente 
volumoso. Shanna enfiou os cabelos no chapu e puxou a aba sobre o rosto. Ruark acrescentou-lhe um
    cachecol colorido para ocultar-lhe as linhas delicadas do pescoo e recuou para analisar os efeitos.
    - Encurve os ombros - recomendou. - Ande um pouco. - Logo depois, resmungou: - Nenhum marujo anda assim.
    Shanna o encarou, enviesou um ombro, ps o queixo um pouco de lado e balanou o p como se tivesse levado uma cacetada. Ruark riu e disse:
    - Muito bem, Pirata Beauchamp. Ningum adivinharia sua verdadeira condio.
    Shanna tambm riu e tropeou ao se aproximar, pegando no brao de Ruark para equilibrar-se. Seus olhos procuraram a aprovao dele. Ruark no pde resistir ao 
vulto moleque absurdamente emoldurado pelo chapu deselegante e pelo leno colorido. Puxando-a para seus braos, ele a beijou. A reao da moa foi clida e vida, 
e Ruark demorou para se afastar daquela boca.
    - Gaitlier deve estar esperando - lembrou-lhe ela e entregou-lhe o gibo, que ele havia jogado num arbusto.
    Ruark abriu o gibo e colocou nele a comida que restava, a adaga prateada de Shanna e a pequena pistola. Entregou o resto das roupas debaixo de um arbusto e
em seguida o lenol da trouxa. Colocou as pistolas na cintura, o que era comum na ilha. Ruark fez um bolinho de lama e esfregou-o nos braos e pernas de Shanna, 
para disfarar-lhes ainda mais a graciosidade feminina. Analisou o sabre durante longo momento, relutante em desfazer-se da excelente arma. Finalmente, escolheu 
um pau do mesmo comprimento, amarrou os dois com tiras de pano, e esfregou lama no pacote. Ficou estranho, mas uma vez disparadas as pistolas, sua providncia provaria 
a utilidade.
    Foi assim que um marinheiro baixo, sujo e de formas estranhas para no mencionar o p aleijado, passou a caminhar com outro, este alto e bonito, mas que mancava 
e se apoiava num basto torto. Lentamente, o par passou pela encosta do morro, cumprimentou com a cabea um homem idoso e de culos, e finalmente moveu-se lentamente 
para um local estranhamente prximo  escuna. Deitaram  sombra de uma palmeira e pareceram cochilar.
    A ilha estava silenciosa, sofrendo os efeitos do calor da tardinha.
    No cais, um homem de culos estava perto de uma moa que se achava sentada, e, se algum se detivesse a observ-los melhor, pareceria que o homem freqente e 
nervosamente olhava para cima do morro, onde um olho alerta poderia perceber fina trilha de fumaa no ar. Ouviu-se ento um rudo surdo, e a fumaa engrossou. A 
impresso era que toda a encosta estava em chamas. Espalharam-se fagulhas, e a fumaa negra cresceu.
    Vozes da vila transformaram-se em gritos quando uma enorme bola de fogo se separou do resto e violentamente rolou o morro at parar, espalhando chamas contra 
o depsito de plvora. Gritos de alarme ouviram-se quando todos os habitantes do povoado correram para aplacar o fogo. Formaram-se brigadas com baldes de gua tirados 
do riacho prximo e cobertores foram usados para abafar os arbustos em chamas.
    Ningum reparou no homem que ajudou a moa a entrar num barco de pesca no cais. Ambos comearam logo a remar para a escuna. Quando os guardas a bordo do Good 
Hound foram para o outro lado do navio de onde se aproximava o casal, os dois vultos adormecidos sob a palmeira ficaram de p num pulo, atiraram os chapus num arbusto, 
desfizeram-se das sandlias e comearam a correr na praia.
    Ruark tinha liberado o sabre e feito uma tipia do pano de forma que este agora estava entre suas espduas, com o punho atrs do seu pescoo. Percebendo estar 
sozinho, parou e virou-se exasperado: Shanna freneticamente tentava tirar um pedao de pano debaixo da saia. Fez meno de pux-la pelo brao mas a moa se desviou.
    - No posso respirar - arquejou ela - quanto menos nadar assim.
    Com um ltimo puxo forte, o pano se soltou e Shanna respirou fundo, enquanto Ruark enterrou a fazenda na areia molhada. Juntando as mos correram para a gua, 
mergulharam e subiram ao mesmo tempo  superfcie. Nadaram depressa at se aproximar da escuna. Diminuram ento o ritmo e tomaram cuidado para fazer o menor barulho 
possvel. Ao lado do casco, Ruark se esticou e conseguiu, cauteloso e com fora, agarrar as correntes. Abaixou-se ento at que as mos de Shanna lhe pegaram os 
pulsos. Os msculos de seus ombros e braos cresceram quando ele a levantou pouco a pouco, tirando-a da gua para que nenhum rudo alertasse os guardas. Os dedos 
dos ps dela encontraram um apoio e ela se ps a salvo.
    Ruark subiu at poder examinar o convs por sobre a amurada. Dois guardas estavam debruados  beira no lado oposto, contrariando a alegao de Gaitlier e seus 
repetidos apelos de que eles eram necessrios em terra para ajudar a apagar o fogo. Com o maior cuidado, Ruark pulou a amurada e caiu silenciosamente no convs. 
Com passos silenciosos de um lenhador, ele ultrapassou o espao at os guardas. Sem aviso, um homem de repente sentiu um ombro s suas costas, e logo guinchou ao 
ser arremessado para fora do navio. O outro voltou-se surpreso, levou um soco violento e num momento reuniu-se ao companheiro. Arquejantes, os dois comearam freneticamente 
a nadar em direo  terra.
    Ruark pegou a corda amarrada  proa do barco de pesca e puxou a embarcao para o lado do casco. Em seguida, jogou a escada de corda por sobre a amurada. Shanna 
lhe gritou o nome e ele se voltou, seguindo o olhar da moa at o tombadilho. O enorme mulato, nu a no ser por uma pistola e um sabre nas mos, vinha correndo do 
camarote do comandante. Ergueu a pistola e Ruark sacou o sabre, percebendo que suas armas de fogo estavam molhadas e inteis. O pirata mirou para disparar no instante 
em que um vulto quase o atropelou. E a voz de Carmelita soou:
    - Ei, que merda est aconte...
    O tiro explodiu, mas atingiu o massame, sem danificar ningum. O homem escuro rosnou sua ira e girou a arma, atingindo Carmelita e fazendo com que ela voltasse 
ao camarote. O mulato girou de novo e atacou com o sabre.
    Ruark sabia que o tiro atrairia ateno de todos na terra, e no havia tempo para duelos. Sacou uma pistola encharcada com a mo esquerda e a jogou no rosto 
do mulato, estonteando-o. Ruark levantou o sabre e o girou com toda a fora. O pirata, com o golpe, recuou cambaleante e largou o sabre da mo entorpecida. Sem parar, 
girou o corpo, jogou-se por cima da amurada e caiu na gua.
    Ruark debruou-se no parapeito, enquanto o mulato se dirigia  terra. Olhou para a beira d'gua e viu que os gritos dos dois marujos haviam atrado muitos outros 
para a praia. Alguns correram para um depsito no cais onde Ruark sabia haver quatro canhes velhos, bem protegidos e sempre carregados.
    Um som s suas costas fez Ruark girar o corpo, pronto para lutar de novo, mas dessa vez era apenas Carmelita, que trazia um lenol de linho enrolado no corpo. 
Ela viu o sabre ameaador imaginou o pior. Comeou a recuar em direo  outra amurada, com a mo erguida suplicante.
    - No fiz mal nenhum ao senhor. Poupe-me! - suplicou. Ento, virou o gordo traseiro rosa e se jogou por cima da amurada com os demais.
    Gaitlier ajudou Dora no convs e apressou-se a obedecer  ordem gritada de Ruark:
    - Corte o cabo da frente! Solte o barco!
    O prprio Ruark correu pelo tombadilho. Pegando um machado, atingiu violentamente o cabo da ncora da popa. Levantou o machado e golpeou mais uma vez o pesado 
cabo, que se partiu. A embarcao comeou a oscilar e afinal se soltou, quando, com um ltimo golpe, tambm Gaitlier cumpriu sua tarefa.
    Ruark olhou brevemente para o povoado. As portas do depsito estavam abertas e, com ameaadora lentido, surgiu a boca de um canho. Um lampejo chamuscou e uma 
nuvem de fumaa cresceu e tampou o depsito. Segundos depois um giser de gua surgiu, quando uma bala passou, mas longe da popa. Foi um tiro exploratrio. Os outros 
atingiriam mais perto do alvo. A mar baixa estava impelindo o Good Hound para mar alto, porm muito devagar. Ruark berrou:
    - Enfunem uma vela! Qualquer uma! Uma das dianteiras!
    Gaitlier encontrou o cabo apropriado e o soltou, e Shanna e Dora se uniram a ele para emprestar seu peso  tarefa. Todos se esforaram ao mximo, e lentamente 
a vela comeou a levantar-se. A aragem bateu firme na lona e a frente do navio comeou a oscilar. Formou-se uma ondulao na gua, quando a escuna se moveu  frente, 
sempre devagar.
    Ruark girou o leme, esperando que a gua batesse para que ele pudesse manejar o barco com segurana e afast-lo do porto. Dispararam outro canho, e dessa vez 
um giser vomitou gua perto da popa, molhando Ruark com os borrifos. Os canhes foram preparados para a travessia do canal atravs do recife, de onde se podia esperar 
um ataque. L poderiam explodir qualquer navio, mas dentro do obstculo dos bancos de areia, era possvel alcanar a beira do pntano e, atravessando finos arbustos, 
entrar no canal. se conhecesse o local. E Gaitlier conhecia.
    A primeira vela foi iada e Gaitlier deu volta ao cabo, enquanto Shanna desatava outro. Com isto, eles puderam alcanar o cabrestante do convs e logo outra 
vela estava sendo levantada.
    O canho disparou de novo, e dessa vez Ruark desviou-se quando a amurada do tombadilho se partiu e o tiro fez com que o mastro casse ao mar. Ruark sentiu um 
golpe na coxa, mas conseguiu recuar cambaleante para o leme, peg-lo e, debruado na bitcula, fazer a escuna retomar seu caminho.
    Enfunou-se a segunda vela, e uma terceira foi solenemente estendida enquanto a pequena tripulao se esforava no convs principal. Formou-se uma espiral de 
espuma sob a proa. Um canho disparou de novo logo seguido por outro, mas os dois tiros passaram zunindo pela popa. O barco entrou agora na linha de fogo, mas os 
pesados canhes no conseguiam ser manobrados com velocidade suficiente para alvejar a escuna. Um ltimo lampejo e a bala levantou gua longe da popa.
    Ruark verificou o rumo e fez com que a embarcao se mantivesse em estibordo. Relanceou os olhos para o cais e viu que os piratas tinham abandonado os canhes. 
Vrios botes estavam com homens remando para as outras escunas e chalupas. Com trs velas firmemente enfunadas no Good Hound, Ruark acenou para a tripulao e todos 
pararam de trabalhar. Com Dora ao lado, Gaitlier andou desajeitado  frente para poder orientar o caminho atravs do canal, e Shanna foi at a proa reunir-se a Ruark.
    A escuna saiu da baa, e Ruark cautelosamente observou os bancos de areia  direita, quando fez com que a embarcao ficasse paralela  praia. Faixa estreitssima 
de gua azul-marinho estendia-se  frente; Ruark compreendeu que devia manter o navio no meio dela at que Gaitlier lhe fizesse sinal para virar.
    Ao subir ao tombadilho, Shanna parou de sbito, e Ruark a olhou rapidamente. Com a boca aberta e horror nos olhos, ela olhou firme para a perna dele.
    Ruark acompanhou-lhe o olhar e no pde reprimir um estremecimento, pois, enfiada em sua coxa, havia uma farpa de carvalho da amurada. Tinha uns trinta centmetros 
de comprimento, e sua largura era de dois centmetros.
    Shanna arfou e correu para o lado dele. Estendeu a mo para retirar a farpa, mas ele lhe afastou a mo:
    - Agora no - rosnou. - O sangue  pouco e no est doendo. Estou bem. Preciso conseguir nossa liberdade antes que voc cuide do ferimento. - Gaitlier estava 
de brao esquerdo estendido, instruindo para que Ruark virasse o navio naquela direo. Ruark manobrou o leme devagar, e a escuna reagiu levemente. Aproximaram-se 
da praia; Ruark precisou segurar-se porque parecia que eles iam acabar encalhando com a embarcao.
    Gaitlier baixou o brao e apontou para a esquerda. Ruark girou o leme, e o navio virou. Com um rudo alto, as velas drapearam e cresceram  medida que a escuna 
ia sendo impulsionada pelo vento.
    Nenhuma guinada violenta lhes estorvou o avano, apenas ligeira raspagem no casco quando quantidades de refugos de madeira e de rvores cobertas de trepadeiras 
surgiam  frente do Good Hound, fazendo com que oscilasse levemente. A embarcao atravessou esses obstculos e entrou num canal estreito que mal tinha largura para 
ela.
    Uma bala zuniu perto dos mastros; Ruark espreitou na direo da popa e viu as velas da chalupa do mulato rumar rapidamente para eles, com a vela enfunada ao 
mximo. O Good Hound ainda no estava livre. Com uma tripulao completa para manej-la, a chalupa poderia ultrapass-lo velozmente. Embora a escuna fosse bem armada, 
Ruark duvidava da percia de Gaitlier com os canhes. Parecia apenas questo de tempo antes que fossem dominados.
    Estavam agora a vrias centenas de metros da entrada do canal; ao relancear a vista em volta, Ruark teve uma surpresa: A chalupa tentava entrar a todo pano. 
Ao fazer a volta, o pequeno barco virou de querena por causa do vento. Seu gurups saiu da rota, e ficou preso no emaranhado de madeiras. A embarcao adernou lentamente, 
com o costado na entrada do canal, presa no ponto flutuante enquanto seu cutelo e o cordame da mezena se emaranharam no mangue que marcava a extremidade oposta. 
Nada mais largo do que um pequeno barco de pesca poderia passar pelo canal, e levariam horas para que pudessem soltar a embarcao.
    O pequeno canho soou de novo, mas foi rapidamente preparado para fazer pontaria e a bala estraalhou as rvores longe da casa-mestra. A escuna rodeou uma curva 
rasa e o outro navio ficou fora de vista.
    Ruark concentrou-se em fazer passar o navio pelo estreito canal. O pntano tinha vrios quilmetros de extenso, e eles levaram mais de uma hora para atingirem 
gua mais profunda. At se livrarem do pntano, um erro poderia encalh-los como o outro barco. Seria impossvel para eles o soltarem. Mesmo que os piratas no os 
pegassem estariam condenados  morte demorada do pntano.
    Shanna tirou alimentos do camarote do comandante; deu parte a Dora e a Gaitlier, e levou uma bandeja com po preto, carne, e um grande naco de queijo para Ruark, 
ao leme. Equilibrou-a na bitcula e, enquanto ele se concentrava na direo, ela o alimentava.
    - Estavam dando um banquete l embaixo. - Ela tentou rir, mas sua testa se franziu de preocupao. - Pelo menos no vamos passar fome. - Os olhos dela se fixaram 
na perna dele, onde a farpa continuava saliente.
    - O que  isso a na garrafa? - perguntou Ruark.
    - Acho que rum. Estava junto das coisas.
    Ruark pegou a garrafa e tomou um gole. Sua recompensa foi um fogo instantneo que o queimou por dentro, enquanto ele sufocava. Era rum dos mais fortes.
    - gua! - pediu arfante, quando a respirao lhe voltou; Shanna logo lhe estendeu uma garrafa tirada das trouxas trazidas por Gaitlier. Ruark bebeu gua  vontade, 
e o fogo amainou at virar um calorzinho em seu estmago. O rum serviu para entorpecer a dor que comeava a sentir na coxa ferida.
    Shanna ps a bandeja de lado e tirou um pacote da cintura. Abriu-o, exibindo uma latinha de pomada e gaze. Colocou tudo no convs e falou por cima do ombro:
    - S achei isso no camarote. - Levantou-se e o olhou firme; a preocupao f-la franzir a testa. - Me deixaeu cuidar de sua perna agora?
    Ruark olhou para o ferimento. Um crculo de sangue seco aparecia em sua cala. Havia um fio escorrendo. Sacudiu negativamente a cabea; enquanto permanecesse 
de p e alerta, poderia conduzir a embarcao.
    - No, amor, agora no. S quando estivermos longe deste pntano.
    - Sorriu para suavizar suas palavras: - Depois que estivermos em alto-mar, voc poder fingir que  barbeira.
    Shanna desfez a testa franzida, tentando ocultar a ansiedade; sab-lo sofrendo a angustiava muito.
    O Sol baixou, mas o calor no amainou. Uma infinidade de insetos desceu sobre eles e comeou a picar, morder e roer, torturando-os. A brisa chegou a um ponto 
em que a embarcao mal se movia. O suor escorria pelos corpos de todos, ensopando-lhes as roupas e fazendo com que grudassem em sua pele.
    O ar era abafado, e o fedor do pntano chegava a entupir-lhes as narinas. O cu estava esverdeado, como se refletindo o lodo que cobria as guas nas quais eles 
navegavam.
    De repente, o cu pareceu mais azul. Ruark relanceou os olhos em torno. Havia menos rvores, o canal se alargou, desapareceu o limo, ondinhas batiam contra o 
casco. Havia certa brancura na gua, quando eles passaram por um banco de areia raso. Ruark susteve a respirao. Um leve arranhar no casco, um arranco no leme, 
e ficaram livres, singrando o azul profundo do Caribe. A rota foi mantida at que o pntano se tornou apenas uma mancha no horizonte.
    Ruark virou ento o barco para leste, navegando ao longo do lado sul da fieira de ilhas. Depois que passassem por elas, uma rota ao norte os levaria a Los Camellos 
em um ou dois dias.
    Gaitlier aproximou-se, e desta vez havia risos em todos os rostos.
    - Acha que consegue erguer a vela principal? - perguntou Ruark. - Ns iramos mais depressa, mas creio que  tarefa rdua demais para a tripulao.
    Gaitlier ficou ansioso em atend-lo, e levou Shanna para o convs principal. Logo estavam manejando o cabrestante, enquanto a enorme vela do mastro principal 
rangia lentamente para cima.
    Subir ao topo do mastro para equipar a vela de cima era impossvel, por isso Ruark ps o barco na rota desejada e mandou Gaitlier prender o leme. Ruark rejeitou 
a idia de ir para o camarote do comandante, pois no tinha confiana em sua capacidade de voltar, por isto Shanna e Dora pegaram cobertores para improvisar uma 
cama e prepararam um espao para
    Ruark contra a amurada, enquanto ele instrua cuidadosamente Gaitlier quanto  rota, indicando-a no mapa, e dava instrues sobre como alcanar a ilha de Trahern.
    Era o melhor que Ruark podia fazer. O Sol estava baixo, a claridade duraria talvez mais uma hora. Agora, ia cuidar de si. Cedendo aos apelos de Shanna, Ruark 
aceitou-lhe a ajuda e estendeu-se na cama. Indiferente ao que poderia acontecer  embarcao, os trs ajoelharam-se ao lado dele, preocupados. Ruark pegou a garrafa 
de rum e espalhou o lquido liberalmente na perna, depois deu um grande gole e lhe vieram lgrimas aos olhos enquanto o bebia. Enfiou um chumao da camisa na boca, 
cerrou os dentes e agarrou a viga acima de sua cabea. Fez um ligeiro aceno de cabea para Gaitlier. As mos do homem pegaram suavemente a farpa, mas a dor foi tamanha, 
que Ruark teve de se controlar ao mximo, enquanto se apoiava na viga.
    - Agora! - gritou Gaitlier, e puxou com fora.
    Ruark ouviu Shanna arfar. Uma exploso de dor se fez sentir em sua cabea e, quando terminou, s havia uma escurido piedosa.
    Parecia que ele havia acordado s pouco tempo depois. Os tons vermelhos e dourados tinham desaparecido do cu, mas o Sol continuava baixo. Ruark sentiu calor 
no brao direito e virou a cabea: Shanna estava aninhada debaixo do cobertor que cobria a ambos. Seus olhos estavam fechados com o sono, mas sua respirao o tocava 
suavemente, como a de uma criancinha. Cuidadosamente, mexeu o brao at abra-la e, suspirando de leve, ela se abrigou mais perto dele. Ruark levantou os olhos 
at os altos mastros balouando contra o cu azul, e percebeu:
    - J  de manh!
    Ele havia dormido a noite inteira. Sua mo apalpou a pesada atadura em sua coxa. Para se tranqilizar, mexeu os dedos do p e o prprio p. Tudo estava bem, 
a no ser por persistente dor, uma dor imprecisa no ferimento.
    Shanna se agitou. Ele levantou-lhe o rosto, beijou-lhe de leve os lbios e lhe amarfanhou os cabelos, aspirando-lhe a suave fragrncia. A mo dela acariciou 
o peito de Ruark e ela ps a cabea em seu ombro, e os olhos buscaram os dele calorosamente.
    - Eu ficaria aqui para sempre, se voc ficasse comigo - suspirou Ruark no ouvido de Shanna. Ele a beijou de novo, e seus lbios saborearam os dela por demorado 
e feliz momento, enquanto sua mo lhe pegava os seios por baixo da blusa. Shanna passou o brao pelo pescoo dele e subiu o cobertor at o ombro de Ruark, para que 
as carcias no fossem vistas pelos outros. Suas faces se esquentaram e coraram com o prazer que ele despertou nela, quando o polegar dele acariciou o bico macio 
que, excitado, enrijeceu.
    - E sua perna? - perguntou ela, baixinho. - Como est?
    Ruark relanceou a vista para o castelo de proa, onde Gaitlier e Dora passaram a noite. Estavam comeando a acordar, e ele acenou com a cabea na direo deles. 
-
    - Se no tivssemos convidados, eu demonstraria minha sade a voc com a maior boa vontade.
    O risinho de Shanna teve um tom de desafio, quando ela se aninhou mais perto dele e lhe murmurou no ouvido:
    - Gostaria de ir l para baixo, milorde? Conheo um local particular no camarote do comandante.
    - Voc me tenta demais - resmungou Ruark. Ps a mo dentro dos cales soltos de Shanna, e encontrou a maciez feminina de seu rgo. As plpebras da moa baixaram 
e sua respirao arquejou, por entre os lbios abertos.
    Porm, Gaitlier se aproximou, e acabou com a brincadeira. Agitada e encabulada, Shanna afastou-se e sentou-se de frente para Ruark, apertando o cinto de corda 
em redor da cintura. Ruark a observou, e foi incapaz de resistir a lhe passar a mo pela coxa uma ltima vez. Cautelosa, Shanna olhou por cima do ombro para ver 
o que aconteceu a Gaitlier e viu que ele caminhava em direo a Dora, em resposta a uma pergunta feita com voz tmida. Shanna virou-se e, colocando a mo na de Ruark, 
sorriu em ntima e meiga comunicao. Debruou-se para ele, apoiando-se nos cotovelos, indiferente ao fato de que a blusa solta revelava todos os detalhes do busto 
tentador. Ruark, contemplando-a, sorriu maliciosamente e disse:
    - Voc  uma perversa tentadora, Shanna Beauchamp.
    O dedo da moa enrolou um cacho do cabelo dele e ela reconheceu:
    - Sou, mas s com voc, meu Capito Pirata Ruark.
    - Ento est bem, meu amor. - Relutante, ele se ergueu nos cotovelos, e sua voz firme disse: - Preciso cuidar do navio seno ele vai acabar dando no litoral 
africano.
    - Ah, Ruark, no se levante! - suplicou Shanna. - Fao o que for preciso. Fique quieto.
    - No posso, Shanna. Preciso movimentar-me. Minha perna melhorar depois que eu andar um pouco.
    Shanna viu que ele estava resolvido, embora tenha estremecido ao mexer a perna, e que se levantaria se ela se recusasse a ajud-lo. A perna estava dura e dolorida, 
mas Ruark conseguiu, com certa dificuldade, ficar atrs do leme. Shanna relutou em deix-lo e permaneceu a seu lado, enquanto ele verificava a rota na bitcula. 
Ele ergueu a cabea e examinou as velas. O vento havia mudado um pouco e logo ele precisaria fazer as necessrias correes. Ele no sabia a distncia que haviam 
percorrido. Se o vento tivesse soprado com fora, eles j teriam passado pelas ilhas h muito e precisariam voltar a elas. Com o pouco vento que soprava, seria uma 
tarefa difcil, que ele duvidava que a tripulao de trs pudesse realizar. Mas onde...
    Seus olhos buscaram o horizonte, e Ruark levantou-se o mais alto que pde.
    Ah, l estavam! Nuvens baixas com sombra escura por baixo. Aquilo anunciava uma ilha. Sentiu a mo de Shanna em suas costelas e viu que ela o olhava com expresso 
preocupada.
    - Logo estaremos l - garantiu ele, sem entender por que a moa estava preocupada. - No tema.
    Shanna abriu a boca para esclarecer o motivo de seu cenho franzido, mas calou-se. Como poderia explicar-lhe seus prprios sentimentos que at para ela eram um 
mistrio?
    Ruark olhou para o busto de Shanna e disse:
    - Esse traje fica bem em voc, mas me parece inadequado. Em minha opinio  meio masculino.
    Shanna alisou a camisa amarfanhada e endireitou os cales soltos nos quadris.
    - Se me lembro bem, Carmelita partiu sem roupas. Talvez elas pudessem ser apertadas e...
    - Eu as atirei ao mar ontem  noite - interrompeu Shanna. - Voc acha que eu usaria alguma coisa dela?
    Deu-lhe as costas e levantou o nariz atrevido para examinar o mar. Ruark estendeu a mo e lhe puxou uma madeixa at que ela o encarou de novo. Dentes alvos reluziram 
na escurido de sua pele, quando ele sorriu malicioso.
    - Voc  um demnio, Ruark Beauchamp! - afirmou Shanna, mas esfregou o rosto contra os dedos dele. Ficou na ponta dos ps e roou um beijo nos lbios de Ruark. 
- Voc deve estar com fome. Vou ver o que sobrou no camarote.
    Quando ela se afastou a largas passadas, Ruark a contemplou afetuosamente, observando-lhe o rebolar gracioso dos quadris.
    Raciocinou ento que no havia jeito de um homem so pensar que aquelas curvas fossem de um homem. Isto s deixava duas possibilidades: ou os cidados de Mare's 
Head eram cegos, ou malucos.
    Achando graa em seus pensamentos, Ruark tirou a corrente que prendia o leme e se debruou sobre ele, girando-o e colocando a escuna contra o vento. O navio 
mergulhou no mar suave e, quando ele recolocou a corrente para manter a embarcao na nova rota, Gaitlier saiu do lado de Dora e aproximou-se de Ruark.
    - Comandante! - O homem estava perplexo. - Trahern  mesmo to mau quanto Me dizia? Tambm serei considerado cativo? Vou servir a que patro: ao senhor ou a 
ele?
    - No vai ter patro, Sr. Gaitlier - replicou Ruark. Ele mesmo no sabia de seu destino, mas podia garantir a esse homem a volta  dignidade. - Talvez goste 
da ilha e queira ficar. Se no, tenho certeza de que Trahern lhe dar uma passagem para qualquer porto de sua escolha. Ele ficar agradecido por sua ajuda em salvar 
a filha, e  possvel at que o recompense muito bem financeiramente.
    - E o senhor? - Gaitlier fez uma pergunta direta, mas Ruark preferiu fingir no lhe haver entendido o significado.
    - No preciso de dinheiro. - Olhou para o homem. - Mas h uma coisa que lhe gostaria de pedir, Sr. Gaitlier.
    O outro assentiu com a cabea e disse:
    - Qualquer coisa, senhor, qualquer coisa. Ruark passou um polegar no rosto barbado:
    - Trahern sabe apenas que sou seu cativo. A no ser que a Sra. Beauchamp diga outra coisa ao pai, peo que fique calado quanto a eu ser casado com ela. Para 
o pessoal de Los Camellos, sou John Ruark, e a senhora  Madame Beauchamp, viva.
    - No tema, senhor. Dora e eu no falaremos nada sobre o senhor e a madame. Dou-lhe minha palavra.
    Os quatro partilharam tranqilo repasto em redor da cama improvisada de Ruark. Shanna foi incansvel, afofando-lhe o travesseiro, enchendo-lhe o prato e pegando-lhe 
a caneca de vinho quando ele se esticava para coloc-la no convs. A mo dele apoiou-se possessivamente na coxa de Shanna, sentada de perna cruzada a seu lado, enquanto 
ele explicava a Gaitlier o manuseio da embarcao. Foi um interldio tranqilo e descansado, e quando terminou, Ruark foi mancando de novo at o leme. Pegou o telescpio 
de lato e estudou a ilha ainda distante. Era a ltima da cadeia, na extremidade leste; altos penhascos mergulhavam no mar. Quando passassem por ela, rumariam a 
Los Camellos.
    Voltando  cama improvisada, ele se estendeu novamente. A perna doa, e o msculo comeou a saltar em sua coxa, fazendo com que espasmos de dor lhe percorressem 
o corpo. Esfregou o quadril e a coxa para aplacar as pontadas e viu que Shanna lhe afastou a mo e retomou o que ele estava fazendo. Sob os ternos cuidados dela, 
ele cochilou e sonhou com lbios macios acariciando os seus.
    A ilha estava baixa no horizonte atrs deles, e o Sol a pino quando Ruark ajustou o rumo para Los Camellos e voltou cambaleando ao leito no convs. Gaitlier 
havia preparado a cama  sombra, e Shanna partilhou o local fresco com ele. Sua perna doa demais, e cada vez que ele se levantava, o esforo era maior. Ruark bebeu 
rum de novo, mas desta vez o fogo do lcool pouco fez para amenizar-lhe o desconforto.
    Ps a cabea no colo de Shanna, e com a mo ela suavemente lhe acariciou os olhos e a testa at que ele comeou a relaxar e a dor se aplacou. Sentada segurando-lhe 
a cabea, Shanna cantarolou algumas notas de uma melodia que lhe passou rpido pela cabea, e a potente voz de bartono de Ruark comeou baixinho a cantar a letra. 
Shanna parou de cantarolar e escutou atenta. Sbito, ela reconheceu a voz que lhe havia chegado aos ouvidos a bordo do Marguerite numa noite estrelada e enluarada, 
enquanto ela navegava de volta a Inglaterra.
    - Oh, Ruark! - murmurou baixinho, e beijou a testa quente em sua mo.
    Ouviram um grito no convs e se levantaram. Ruark cambaleou e se apoiou na amurada para equilibrar-se.Viu Gaitlier saracoteando no convs, agitando os braos, 
com Dora atrs.
    - Barcos! Barcos  frente! gritou o homem, e correu para Ruark e Shanna. - Dois grandes!
    Sem poder acalmar-se, Gaitlier pulava para cima e para baixo, fazendo gestos com os braos. Ruark riu quase insanamente e se esforou para pegar o leme e a luneta. 
Apoiou o instrumento numa malagueta da roda do leme, centralizando-o nas velas que brilhavam ao Sol e se aproximavam com cada aragem. Focalizou a luneta na penugem 
colorida que flutuava no mastro principal. Ficou indistinta por um instante. Todos esperavam. Finalmente, clareou.
    - Bandeira inglesa! - berrou. - So ingleses! Mas h outra bandeira tambm. - Olhou de novo pela luneta. Aps um momento, virou-se e riu para Shanna. -  seu 
pai! So o Hampstead e o Mary Chrstian.
    Um grito de alegria escapou dela, e Ruark lutou para equilibrar-se, quando ela atirou os braos em redor do pescoo dele. Ele a abraou e instruiu Gaitlier:
    - Solte as velas! Solte! Vamos parar e esperar por eles.
    O homem no precisou ser instigado. Pulou na amurada, pegou o machado e, com um s golpe, cortou o pau da vela principal. Esta se precipitou com estrpito no 
convs e ficou imvel, espalhando a lona em redor. Gaitlier andou com esforo pela enorme vela at o tombadilho e l, com igual energia, derrubou a vela de espicha.
    Ruark liberou o leme e o girou para bombordo. A escuna gemeu e rangeu e enfiou a proa nas ondas,  medida que ralentava a marcha e virava de bordo at ficar 
com a popa de frente para as embarcaes que se aproximavam. O Hampstead aproximou-se. Ao lado do graveto vestido de preto que era Ralston, havia um vulto volumoso 
vestido de branco que s podia ser Trahern. Shanna deu um grito de alegria e correu para o convs onde se reuniu a Gaitlier e Dora na amurada. Ruark tambm quis 
reunir-se a eles, mas sua perna no lhe agentou o peso. Quando a grande embarcao que era o Hampstead ficou lado a lado, Ruark se agarrou ao leme. Abriram-se os 
resbordos e surgiram os canhes. Atrs das enormes bocas de fogo negras, ele pde ver os rostos ansiosos e lvidos da tripulao, alerta para qualquer sinal de hostilidade.
    Arpes foram lanados na proa e na popa, quando os dois barcos se encontraram. Ento, ouviu-se um grito do imediato e um destacamento de homens se amontoou por 
trs da amurada do Hampstead e saltou para o convs do Good Hound, com pistolas e espadas prontas como se esperassem uma batalha. O Mary Chrstian ficou com os resbordos 
abertos, e os quatro pequenos canhes prontos para a batalha.
    Depois que qualquer possvel resistncia havia sido dominada, Ralston cautelosamente reuniu-se aos homens na escuna e de forma ousada comeou a dar-lhes ordens 
antes de pavonear-se at a proa com seu andar zangado, aos solavancos, como o de uma cegonha.
    Um dos marujos, no observando qualquer ameaa na tripulao, ps a espada de lado e deu a mo a Shanna, quando ela quis ir para o Hampstead.
    Mal ps os ps no convs, correu at a rampa de embarque e de l para o tombadilho. Quando deparou com o pai, arremessou-se contra ele e lhe atirou os braos 
em redor do pescoo, soluando de alegria e alvio. Trahern precisou esforar-se para no perder o equilbrio. Seu brao a apertou por um instante, e sua respirao 
ficou estranhamente entrecortada. Depois, dando uma pancadinha nos ombros dela, Trahern a afastou para poder observ-la.
    - Voc  mesmo minha filha - brincou ele, meio em dvida. - E no uma maltrapilha qualquer querendo enganar minha boa f.
    Shanna riu alegre e abriu a boca para responder, mas seu olhar se desviou e ela recuou, com um solavanco, engasgando-se com as palavras que tencionava dizer 
e se decepcionando ao olhar o convs da escuna ao lado.
    Ruark estava disposto a cumprimentar at mesmo Ralston como seu salvador e estendeu a mo para apertar a mo do homem magro que se aproximava, mas Ralston ignorou 
o gesto e chegou mesmo a golpear o ar com a ponta do chicote de montaria. O golpe pegou o rosto de Ruark com tal violncia que ele rodopiou para fora do leme, virou 
de querena a bitcula e caiu pesadamente no convs. Quando Ruark se debateu, tonto, para se levantar, Ralston ps grosseiramente um p em suas costas e o forou 
a continuar deitado contra as tbuas cheias de farpas. O homem magro gesticulou imperativamente para dois latages. Sem cerimnia, os dois puseram Ruark de p, amarraram-lhe 
os pulsos nas costas e, quando ele recuperou a percepo, lhe enfiaram um pano na boca para lhe abafar as imprecaes. Ralston caminhou arrogantemente at o topo 
da escada e ficou olhando raivoso para trs, enquanto esperava que o prisioneiro fosse trazido. Os homens atiraram Ruark  sua frente. Ele no conseguiu andar sozinho, 
e se esborrachou no cho, contorcendo-se para proteger a perna ferida. Quando foi de novo posto grosseiramente de p, um ferimento profundo se havia formado em sua 
testa, do qual escorria sangue. Eles o arrastaram e Ralston ia liderando o cortejo, em pleno gozo de sua vitria.
    Aterrada, Shanna virou-se para o pai, mas ele no lhe quis ouvir os apelos e lhe deu as costas, afirmando por cima dos ombros:
    - Logo que voltarmos a Los Camellos, ele ser enforcado por pirataria. Os trs cativos soltos pelos piratas me falaram o bastante sobre o nosso Sr. Ruark. - 
Orlan comeou a descer do tombadilho e foi receber o grupo que veio da escuna.
    - No! - gemeu Shanna, passando pelo comandante e pelo timoneiro, para correr atrs do pai. Quando chegou ao convs, viu Pitney debruado na amurada, braos 
cruzados no peito, enormes pistolas no cinto, e o rosto franzido. Olhou fixo para Shanna por algum tempo e, com um rudo da lngua, virou as costas, como se no 
conseguisse olh-la. Ouviu-se um gemido abafado quando os carrascos de Ruark o atiraram no convs, enquanto o homem magro se pavoneava, gozando o poder que conquistara.
    - Este escravo  culpado de inmeros crimes - berrou Ralston. Pendurem-no no lais de verga. Gesticulou freneticamente para os que estavam por perto. Os dois 
marinheiros que haviam pegado Ruark atiraram uma corda e, esticando os braos de Ruark para cima, amarraram-nos em cima da cabea dele. Ento, seguindo ordens, o 
levantaram at que seus dedos dos ps mal roavam o convs.
    Mais uma vez Shanna apelou desvairada ao pai e de novo ele a ignorou quando Ralston parou  sua frente. Em vez do tom cinza habitual, o rosto do homem estava 
corado. Ele pigarreou, cobrindo a boca com a luva, e argumentou, audacioso:
    - Se um marinheiro ingls pode ser vergastado por desobedecer a um oficial, certamente este homem aqui merece umas cem chibatadas. Vamos providenciar para que 
ele pague pelo menos por alguns de seus vergonhosos pecados, um dos quais  o rapto de sua filha, Sr. Trahern. A justia, para fazer jus ao nome, deve ser rpida. 
Contramestre! - gritou, resolvido a no ter nenhuma piedade. - Pegue seu aoite e vamos fazer esse desgraado gemer.
    Trahern continuou calado, pois em sua opinio o outrora homem de confiana merecia o que estava recebendo. Arrogante, Ralston foi a Ruark e levantou-lhe a cabea 
pendida com a mo enluvada.
    - Agora, meu bom homem - escarneceu Ralston - voc vai constatar a loucura que foi sua tentativa de fuga. Vai sentir a justia nas costas e isto vai servir de 
exemplo para os outros escravos.
    Retirou a mo, e a cabea de Ruark pendeu entre os braos. Ralston tirou a mordaa e, falando perto do rosto de Ruark, debochou:
    - O senhor no tem nenhum comentrio, milorde? Nenhuma defesa? Nenhum apelo por piedade?
    A lngua de Ruark estava grossa e ele no conseguia amainar a dor cruciante que lhe subia da coxa e parecia encher-lhe o corpo todo. Um vermelho mais vivo comeou 
a marcar a perna esquerda de sua cala curta. O esforo dos ltimos dias lhe havia consumido as foras. No tinha condies de lutar contra mais essa farsa.
    Shanna, quase desvairada, relanceou os olhos em redor. No havia ningum para ajud-la?
    O contramestre surgiu do convs inferior, brandindo os nove ns do aoite. As pequenas bolas de chumbo presas na extremidade sacolejavam quando ele agitava o 
cabo. Pitney afastou-se da amurada e endireitou sua cala. J vira o bastante daquela pardia e no permitiria que continuasse. Antes de agir, olhou para Shanna 
e parou. O rosto dela era um esgar de ultraje como ele jamais vira.
    Ralston viu o contramestre se aproximar, e suas tendncias sdicas o levaram a novos excessos. Afrontou Ruark, olhando-o fixo, e estendeu o brao.
    - Eu mesmo me encarrego do castigo - gabou-se - para garantir que os golpes sero o que ele merece, e que se far justia. D-me o chicote.
    Um momento depois, Ralston guinchou de dor quando os ns de chumbo lhe rasgaram as mangas e lhe atingiram o brao. Atnito, girou o corpo e encarou a furiosa 
Shanna. Rosnando, ela lanou o chicote para trs e o preparou para outro golpe. Parecia um animal selvagem, cabelo nos ombros como a juba de um leo.
    - Eu  que vou chicote-lo, seu milorde bastardo, se tocar mais uma vez nesse homem!
    O contramestre tropeou  frente,  guisa de desculpas, e estendeu a mo para tirar o aoite de Shanna, mas de repente parou e abriu a boca. Pitney tirou a pistola 
do cinto e a arma estava agora a menos de dois centmetros do nariz do marujo. Ralston teve vontade de avanar, indignado, mas controlou seu herosmo porque Pitney 
sacou de outra arma e, com um sorriso tranqilo, a engatilhou:
    - Baixe-o! - O rosnado irado de Shanna rompeu o silncio, e o aoite agitou-se em direo aos dois homens que haviam iado Ruark.
    Apressaram-se a cortar a corda e Ruark caiu enroscado no convs. Shanna ansiou para correr para seu lado, mas se controlou, com medo de que ele fosse subjugado 
de novo. Ficou firme em frente ao pai, enquanto Pitney mantinha a distncia quem ousasse interferir. Uma das pistolas apontava para o peito de Ralston, que olhou 
boquiaberto para o ameaador cano negro.
    - O senhor teria cometido terrvel engano, Papai - disse Shanna, falando formalmente. - Foi o Sr. Ruark que nos salvou das mos dos piratas, como essa gente 
boa aqui pode confirmar. - Fez um sinal com a cabea para Gaitlier e Dora, que haviam acompanhado tudo de olhos arregalados, temerosos de que aquela tambm fosse 
a recompensa que receberiam. - Na verdade - murmurou Shanna - foi o Sr. Ruark quem providenciou para que - ela parou, indecisa, mas por um motivo que ningum sabia 
e continuou, mais cautelosa - eu me visse livre daqueles malditos bandidos, com risco da prpria vida. Estou como estava, intocada, e devo isto a ele.
    Ralston deu um risinho de mofa e os olhos frios da cor do mar se voltaram contra ele, mas Shanna prosseguiu em sua defesa, embora no encarasse o pai nem conseguisse 
encarar Pitney tampouco.
    - O Sr. Ruark foi levado a Mare's Head vindo de Los Camellos contra a vontade dele e, graas ao plano que arquitetou, conseguimos todos fugir. Se o senhor insistir 
em castig-lo, ter que passar por cima de mim primeiro, pode estar certo.
    Ruark gemeu e ela largou o chicote, correu e ajoelhou-se ao lado dele.
    - Busquem o mdico! - ordenou Trahern. - E depois vamos para Mare's Head!
    Shanna ps a cabea de Ruark no colo e tirou-lhe o cabelo amarfanhado da testa. Quando Pitney se inclinou para colocar Ruark em posio mais confortvel no convs, 
ouviu Shanna dizer com voz baixa e terna:
    - Est tudo bem, meu amor. Tudo bem.
    Ruark fechou os olhos e mergulhou em piedoso esquecimento.
    Na manh seguinte, Ruark j pde ficar junto a Trahern no tombadilho do Hampstead. Apoiou-se na incmoda bengala do velho senhor que lhe havia sido emprestada 
e que fazia as vezes de muleta. Shanna ficou entre eles agarrada ao brao do pai, sem deixar de observar seu amado. O mdico havia retirado vrias farpas e pedaos 
de pano da perna de Ruark, passara pomadas ardidas e ervas no ferimento e o tampara com ataduras. Embora febril e meio tonto, Ruark recusou-se a ficar deitado. Quis 
pegar a brisa fresca do tombadilho e saboreava o prazer de ver de novo Mare's Head. No convs principal, os tripulantes j haviam verificado os compridos canhes 
de ao, e quando o Hampstead ancorou perto do recife da ilha dos piratas, os canos cinza-prateados estavam carregados e prontos.
    Quando tudo estava preparado, o Hampstead entrou na enseada depois do recife. A cena que viram foi catica. Barcos comearam a partir para os navios no porto.O 
mulato havia conseguido tirar sua chalupa do pntano, e a embarcao estava agora no cais. Havia febril atividade na chalupa e no depsito de armas que ocultava 
os canhes. Mesmo antes de o Hampstead estar na linha de tiro, um lampejo e uma nuvem de fumaa surgiram na chalupa, e uma coluna d'gua subiu de repente a menos 
de duzentos metros da proa. Foi um ineficiente tiro de aviso, porque denotou o alcance mximo dos velhos canhes dos corsrios.
    O som do canho foi abafado pelo estrondo de um dos canhes do Hampstead e, um segundo depois, pelo do outro. Comeou assim a batalha. Um giser quase atingiu 
a chalupa, e enorme coluna de p formou-se no morro acima do vilarejo.
    Na vila toda e qualquer atividade cessou, quando soaram os canhes, pois de repente todos compreenderam que a ilha no estava a salvo como supunham. Sbito, 
as pessoas comearam freneticamente a correr entre as casas, enquanto iam pegando seus pertences e tentavam lev-los para lugar seguro.
    Os grandes canhes recomearam seu dueto em staccato, e dessa vez pedaos de madeira e escombros elevaram-se na vila. Ruark viu com desprazer inocentes fugindo 
da barragem que se abatia impiedosa sobre eles. As guarnies do Hampstead no tinham muito conhecimento de armas de primeira categoria, mas eram peritos quanto 
a armas de ferro e lato. Ruark soltou uma nica imprecao e dolorosamente comeou a dirigir-se para onde as guarnies se atarefavam. Os canhes expeliram fogo 
mais uma vez, e de novo um nmero enorme de destroos se espalhou por sobre o vilarejo. Entrementes, a chalupa do mulato tinha seu cabo da ncora iado, e suas velas 
estavam sendo enfunadas.
    Ruark usou o cajado de Trahern para afastar os chefes das guarnies e, pegando de um deles a barra de cabrestante, ele mesmo mirou os canhes. Recuou, levantou 
seu brao e dois homens se aprontaram nos ouvidos.
    Nota de rodap:
    Orifcio por onde se comunicava fogo s peas de artilharia nas armas antigas. (N. do T.)
    Fim da nota de rodap.
    Ruark deixou a mo baixar e o convs saltou por baixo dele, quando os dois canhes dispararam ao mesmo tempo. O convs da chalupa virou runa, quando o tiro 
duplo o acertou e arrasou com o mastro da frente e o cordame. Ruark instou as guarnies a recarregarem depressa e mirou os canhes de novo. A um sinal seu, ambos 
foram mais uma vez disparados. Dessa vez, o mastro principal da embarcao do pirata caiu, e o barco adernou violentamente quando se abriu considervel buraco em 
seu lado a estibordo. Homens mergulharam no mar, quando a chalupa rodopiou de proa contra o cais e comeou a afundar no porto raso.
    Ruark mudou a direo dos canhes, e dois dos barcos menores comearam a afundar quando os tiros lhes abriram buracos no costado. Fumaa surgiu de um deles, 
e o outro foi de encontro  praia; e sua tripulao fugiu para o pntano. Dispararam-se mais tiros at que a pequena frota virou uma espiral fumegante de destroos 
flutuantes. Ruark mirou ento mais cautelosamente, mas foram precisos mais trs tiros para que o depsito de armas explodisse. Mais uma vez ele mudou o alvo, e se 
concentrou na Hospedaria de Me. Dispararam quase 20 tiros antes que a fachada comeasse lentamente a desmoronar, deixando o interior  vista.
    Ainda uma vez, Ruark ordenou  guarnio que recarregasse os canhes e ele mesmo ajustou a mira. A um sinal de sua mo, ouviram-se tiros e Shanna viu a parede 
a leste e o quarto onde os dois se haviam abrigado dissolverem-se numa nuvem de p. Do convs principal, Ruark gritou a Trahern:
    - A no ser que o senhor queira matar inocentes, os estragos j so grandes. Vai demorar meses antes que um barco possa zarpar da. Os responsveis pela captura 
de sua filha esto mortos ou fugiram. Aguardo sua deciso, senhor.
    Trahern agitou um brao e, virando-se para o Comandante Dundas, ordenou:
    - Mande os canhes pararem de disparar. Vamos rumar para Los Camellos. J vimos bastante deste lugar. Com a graa de Deus, no veremos mais.
    A atividade exauriu as foras de Ruark. Baixou a cabea e se apoiou debilmente na barra de cabrestante. Um dos chefes das guarnies dos canhes deu-lhe a bengala 
de Trahern, e o colono, aps peg-lo, deu um passo  frente, na direo de Shanna. Sua boca estava parcialmente seca, e os braos e o rosto estavam quentes. O Sol 
comeou a executar curvas estonteantes nos mastros acima. Viu Shanna correndo em sua direo, mas logo depois o convs estava junto de seu rosto, e o cheiro de plvora 
era intenso. O dia escureceu e desbotou mais ainda. Sentiu mos frescas no pescoo, e estranha umidade no rosto. Julgou haverem dito seu nome l longe, mas estava 
muito, muito cansado. A mais negra das noites o abarcou.
    O mdico resmungava e xingava enquanto tentava firmar a perna ferida do homem contra os safanes da carruagem.
    - Tenha pacincia, Herr Schauman. - A voz de Shanna Beauchamp era suave e firme. - Falta s um pouquinho.
    Ela segurou a cabea de Ruark no colo e lhe ps um pano mido na testa. Trahern, sentado em frente  filha, observava-a, surpreso. Reparou que ela estava mais 
confiante e tranqila. Um pequeno punhal de prata e uma pistola to pequena que era quase intil estavam cuidadosamente embrulhados no gibo de couro aos ps da 
moa. Com um s objetivo e uma ternura que no havia demonstrado por nenhum outro homem, ela agora cuidava daquele cativo a quem outrora odiava.
    - A perna est com pssimo aspecto. - A voz do mdico interrompeu os pensamentos de Trahern.
    O velho afastou o que pensava e prestou ateno no mdico.
    - Precisa ser amputada. Agora, antes que ele acorde. Quanto mais tempo esperarmos, mais difcil ficar.
    Shanna olhou, silenciosamente, para o mdico e sua mente se encheu da terrvel viso de Ruark se debatendo para montar um cavalo, com a perna cortada no quadril.
    - Isto vai salv-lo? - perguntou, baixinho.
    - S o tempo poder responder - afirmou, bruscamente, Herr Schauman. - Todas as possibilidades so de que ele viva.
    Shanna olhou Ruark por longo tempo. O rosto dele estava mortalmente plido, e ela no tinha coragem para concordar com a deciso do mdico, mas, quando falou, 
sua voz foi suave e firme ao mesmo tempo:
    - No, acho que o nosso Sr. Ruark tambm vai lutar por sua perna. Talvez ns dois consigamos salv-la para ele.
    Os dois homens consideraram definitivas as palavras dela, e no disseram mais nada. A carruagem parou ruidosamente  frente da manso e, antes de os cavalos 
terminarem de parar, Pitney, que havia ido na frente, pegou Ruark nos braos enormes com o maior cuidado. Logo, Shanna ficou a seu lado:
    - Por favor, Pitney, leve-o para os aposentos ao lado dos meus.
    As sobrancelhas de Trahern se ergueram exageradamente. Ela se mostrara ansiosa para ver Sir Gaylord alojado do outro lado da casa, e agora levava o cativo para 
sua prpria ala.
    Sir Gaylord segurou a porta aberta para o grupo que voltava. Quando Trahern entrou, sendo o ltimo do cortejo, parou e examinou o p com atadura do cavaleiro.
    - Bem, Sir Gaylord - rosnou. - Vejo que seu tornozelo est muito melhor.
    - Claro que sim - respondeu o homem, calorosamente. - Lamento muito no ter podido acompanh-lo, mas o maldito animal se afastou quando eu... Bem, ele me derrubou 
e depois passou em cima do tornozelo. Mas dentro de pouco tempo estarei bom. - Gaylord levantou a bengala e cambaleou quando experimentou o p.
    Com um rosnado, Trahern passou por ele, controlando-se para no sorrir de escarninho.
    - Suponho que o destino dos corajosos seja este - disse Trahern por sobre o ombro, ao seguir em frente.
    -  isto mesmo - retrucou, depressa, o homem. - Tem toda razo. Eu o teria acompanhado se isto no tivesse acontecido no ltimo momento, mas, como eu no sabia 
se era grave, minha presena de nada adiantaria numa luta. E vejo que houve luta. - Fez um sinal afirmativo com a cabea para o homem ferido sendo levado pela escada. 
- Vejo que capturaram o tal de Ruark. Que coisa horrvel ele fez, fugir daquela maneira e raptando sua filha, Sr. Trahern!  um homem desprezvel, esteja certo. 
Faa com que ele fique logo curado para ser enforcado.
    A sorte de Gaylord foi Shanna estar falando com o mdico e no o haver ouvido. O grunhido em resposta de Trahern foi neutro; ele saboreava a idia de deixar 
sua filha esclarecer direitinho Sir Gaylord. No tinha dvida de que isso logo aconteceria, sem que ele precisasse interferir.
    - Tome uma dose de rum comigo, enquanto eles pem o Sr. Ruark na cama - convidou Trahern, subindo as escadas aps o grupo. - Vai ser interessante ver o que vo 
fazer para que ele viva e possa ser enforcado.
    O cavaleiro claudicou atrs do vigoroso anfitrio da melhor forma possvel, porque ningum parou para ajud-lo. Quando, no alto da escada, Pitney levou o cativo 
na direo dos aposentos de Shanna, Gaylord conseguiu dissimular sua preocupao at certo ponto. Apressou-se a emparelhar com Trahern e levar o assunto  sua considerao.
    - O senhor acha sensato deixar esse renegado to perto dos aposentos de sua filha? Quero dizer, se esse sujeito ainda no fez o pior at agora,  bem capaz de 
tentar, no acha? Ele  malandro, e uma dama como Shanna deve tomar certas precaues ou ser avisada dos perigos, quando no consegue distingui-los.
    Trahern replicou, com um toque de humor:
    - Creio ser sensato de minha parte no negar nada  minha filha neste momento.
    - Mesmo assim, senhor! - Gaylord mostrou-se atrevido. - A futura mulher de um cavaleiro no pode ter aposentos na mesma ala de um patife sem que alguma lngua 
de trapo espalhe que o nobre foi passado para trs.
    Trahern parou subitamente e encarou o homem. Seu bom humor desapareceu e um lampejo de irritao lhe brilhou nos olhos verdes:
    - No questiono a virtude de minha filha, nem acreditaria em mexericos transmitidos por um pretendente rejeitado ou uma reles prostituta. Minha filha sabe o 
que quer e tem perfeita noo de decncia. No abuse de minha hospitalidade ao insinuar algo diferente.
    Um grito de Pitney fez com que Berta e Hergus corressem na frente para os aposentos indicados por Shanna, e quando ele entrou com sua carga, as duas j haviam 
disposto os lenis em camada dupla, para que pudesse ser colocada a perna machucada de Ruark.
    O quarto virou um lugar fremente. Pitney foi logo seguido pelo mdico, que ficou de lado para permitir que Shanna entrasse  sua frente. Trahern reuniu-se a 
eles, com Gaylord logo atrs, e os dois observaram a atividade postando-se perto da porta. Shanna instou as criadas a cuidarem de Ruark, quando ele foi posto na 
cama. Tiraram-lhe a camisa de linho e as meias. O mdico mandou que uma mesinha fosse colocada perto, para as facas e os instrumentos. Hergus apressou-se a esgueirar-se 
para perto, olhando ansiosa para Shanna, que mergulhou um pano numa bacia d'gua e comeou a pass-lo levemente no rosto e no peito de Ruark. A cala foi cortada 
na perna ferida at o quadril, e quando Herr Schauman arrancou a atadura grudada, a criada conseguiu ver o ferimento empapado de sangue gotejante. Desabituada a 
ver carne aberta, Hergus girou o corpo e saiu correndo do quarto, mo comprimindo a boca. Shanna a olhou atnita. Hergus sempre fora corajosa e firme, sem a menor 
inclinao para chiliques.
    - Mulheres! - resmungou o mdico. Fez um gesto irritado para a cala manchada de Ruark, escurecida por plvora e que estava com o mesmo cheiro cido. - A no 
ser que voc se sinta muito ofendida moa, sugiro que o livre desta cala.
    Berta ficou atnita ao ouvir a recomendao, mas Shanna no hesitou. Com o pequeno punhal, abriu a costura da cala e s havia cortado um pedacinho quando Pitney 
lhe afastou as mos e pegou sua enorme faca. Abriu a roupa at a cintura de um s golpe e fez o mesmo com a outra perna da cala.
    Shanna virou-se exasperada, quando Berta puxou-lhe a manga pela terceira vez. Pitney estava tirando a cala dos quadris estreitos de Ruark, e a governanta ergueu 
a mo trmula para tampar-lhe os olhos. Seu rosto anglico ficou escarlate quando ela cuidadosamente encarou Shanna e sussurrou:
    - Venha, criana. Acho que aqui no  lugar para voc. Isto  coisa para homem.
    - Isto mesmo, Madame Beauchamp - concordou Gaylord dando um passo  frente, depois oscilando e se apoiando pesadamente na bengala. - Permita-me lev-la daqui. 
No  lugar para uma dama.
    - Ora, no seja idiota! - retrucou Shanna. - Sou necessria aqui, posso ajudar.
    O queixo de Gaylord caiu, e ele bateu rpido em retirada, esbarrando em Trahern, que havia tido o bom senso de deixar a filha sozinha. Berta, porm, tentou de 
novo, embora sua advertncia se tenha reduzido a um gaguejar confuso, quando, pelo canto do olho, viu Pitney jogando a cala de Ruark no cho. Percebendo a aflio 
da mulher, Shanna ps a mo no ombro gordo dela para consol-la e disse meigamente:
    - Berta, eu... eu j fui casada. - Shanna empalideceu um pouco ao perceber que havia quase deixado escapar o segredo e continuou, mais cuidadosamente: - No 
desconheo os homens. Agora, por favor, saia do meu caminho.
    Berta considerou-se liberada de estar ali e apressou-se em aplacar seu recato ultrajado no ar fresco do lado de fora do quarto. Shanna debruou-se na cama e 
segurou o lampio a leo para o mdico, que estava mais uma vez examinando o ferimento.
    A perna foi posta num travesseiro para que o mdico pudesse ter melhores condies de trabalhar. Retirou mais farpas e, cuidadosamente, um pedao de pano do 
tamanho de uma moeda. Ruark gemeu e se contorceu. Continuava inconsciente, mas no imune  lancinante realidade da dor. Shanna se encolheu; quase podia sentir a 
agonia de Ruark. Ajudou a limpar o novo fluxo de sangue, sabendo que o pai a olhava atento, perplexo com sua preocupao. Ela no conseguiu ocult-la, nem sequer 
tentou. Se ele achasse que havia algo mais em sua ansiedade alm do que parecia adequado, ela responderia mais tarde a isso. Tudo que importava agora era que Ruark 
ficasse bom.
    Parte da peonha foi eliminada com o sangue, e Herr Schauman limpou a carne doente e espalhou liberalmente seus ungentos e pomadas. Em seguida, fez uma atadura 
de largas faixas de pano at praticamente imobilizar a perna.
    -  o melhor que posso fazer - suspirou. - Mas, se no der certo, vamos ter de amputar a perna. Sem sombra de dvida. J est bastante infeccionada. D para 
ver pelo tom arroxeado e pelo vermelho, que se espalha alm do ferimento. Vou precisar sangrar o homem, claro.
    Pegou o brao de Ruark de forma tal que o membro ficou pendurado do lado da cama, e comeou a preparar seus instrumentos e cumbucas.
    - No! - exclamou, rispidamente, Pitney. - Ele j sangrou bastante e j vi muitos morrerem numa tigela de barbeiro.
    O alemo recuou, irado, mas controlou-se quando Trahern apoiou Pitney:
    - No vai haver sangria nenhuma aqui. Tambm j testemunhei a morte de um ser amado por uma faca, e no acho conveniente enfraquecer ainda mais uma alma debilitada.
    Os lbios do mdico ficaram lvidos e se comprimiram quando ele atirou seus instrumentos de volta  maleta e a fechou:
    - Ento, no h nada mais que eu possa fazer - retrucou, spero. - Se precisarem de mim, estarei na vila.
    Shanna estendeu um lenol fresco de linho sobre Ruark e encostou-lhe a mo na testa para sentir sua temperatura. Os lbios dele se mexeram e sua cabea foi devagar 
de um lado para outro. Ela foi tomada por medo repentino. E se ele delirasse e comeasse a falar ou dissesse seu nome ou revelasse coisas que era melhor permanecerem 
em segredo? Ela se virou depressa e expulsou todos do quarto:
    - Vo embora - mandou: - Deixem-no dormir. Ele precisa de toda a energia que puder reunir. Vou ficar aqui um pouco.
    Quando Pitney e Trahern foram para o corredor, Gaylord parou  porta. Embora Shanna tentasse fech-la, ele no se abalou com a ansiedade da moa em se livrar 
dele. Tirando um leno de renda do bolso e delicadamente aspirando uma pitada de rap em cada narina, ele voltou ao quarto e olhou em volta de modo autoritrio.
    - Madame, a senhora realmente est praticando uma bela ao, depois de tudo o que esse sujeito Ruark a fez passar.
    Shanna deu de ombros, irritada, e tentou mais uma vez faz-lo ir embora.
    - Sei que a senhora deve ter sofrido atrocidades pavorosas nas mos dos piratas. - Mais uma pitada de rap, um espirro e o leno delicadamente tocou o nariz. 
- Entretanto, desejo assegurar-lhe, madame, que minha proposta de casamento est de p. Na verdade, aconselho que apressemos as npcias, para abafar os boatos que 
indubitavelmente se espalharo sobre seu rapto e suas provaes. Talvez a senhora conhea uma mulher na ilha que nos possa ser til, caso a senhora esteja carregando 
a evidncia de sua violao.
    Shanna ficou perplexa e, por um instante, aceitou a afronta com atnita descrena.
    - Fique certa, porm, de que no revelarei sua desventura  minha famlia. J ser difcil convenc-los de sua herana bastante duvidosa.
    Shanna ficou possessa:
    - O senhor  muito piedoso, mas sejam quais forem os frutos de minha desventura, como o chamou o senhor - ela sorriu meigamente - no permitirei que sejam abortados!
    Sir Gaylord tirou o p do punho e continuou a demonstrar sua magnanimidade, que sem dvida impressionaria aquela plebia:
    - Mesmo assim, minha cara, devemos casar-nos antes que voc caia em desgraa. Se estiver grvida, negaremos todos os boatos e assumirei a paternidade da criana. 
- Relanceou os olhos para Shanna para ver o efeito de sua lgica inatacvel, mas viu-lhe apenas as costas eretas. No tinha como saber que os lbios dela estavam 
apertados e brancos de raiva. Deduziu que ela estivesse completamente arrasada pela generosidade da oferta. Ousou ento afirmar:
    - Qualquer patife que lance uma calnia sobre seu nome ter de se ver comigo.
    Shanna estendeu o brao, e seu dedo tremeu ao indicar a porta da rua:
    - Foooora! - Sua voz era um guincho meio estrangulado.
    - Claro, minha cara - murmurou Sir Gaylord, sem perceber que estava a ponto de ser agredido. - Compreendo. A senhora est perturbada. Podemos discutir o assunto 
mais tarde. - Deu vrios passos antes de tropear na bengala e, demonstrando excelente memria, de repente lembrou-se de mancar com o p enfaixado. Se no tivesse 
dado um pulo rpido, a porta teria batido nele.
    Shanna encostou-se na porta e alguns minutos se arrastaram antes que ela conseguisse tirar da cabea a afronta das propostas de Sir Gaylord. Foi um gemido de 
Ruark que eliminou sua raiva e fez com que fosse correndo para o lado dele.  luz mortia, viu-lhe o rosto corado e moreno. A cabea dele ia de um lado para outro 
com mpeto desconexo. Ansiosa, sentiu-lhe a temperatura e no se tranqilizou. A pele dele ardia, o que a fez apavorarsse.
    Silenciosamente, Shanna amaldioou a educao que lhe dera timo conhecimento de como fazer reverncias e comportar-se entre aristocratas, como compor poemas 
inteis, ou como ficar sentada horas a fio dando pontos numa tela de bordado, mas que a havia deixado totalmente ignorante da maioria das habilidades necessrias 
no dia-a-dia. Ela no conhecia pomadas nem curas medicinais nem sabia tratar de doentes ou feridos. S podia basear-se em seu senso comum. Quando Ruark tinha febre 
e seu cenho parecia um pergaminho torrado, ela o lavava com gua fria. Quando delirava, ela falava baixinho e lhe acariciava a fronte at ele se acalmar. Mandou 
que trouxessem ao quarto um caldo, e o manteve aquecido ao lado da cama. Quando Ruark ficou em estado meio consciente, ela lhe comprimiu colheradas do caldo entre 
os lbios secos. Havia pouco mais o que fazer.
    - To pouco! - rosnou baixinho, em crescente frustrao. Sua viso se toldou de lgrimas e uma sensao esmagadora de impotncia se abateu sobre ela, destroando-lhe 
a esperana e a confiana. - Meu Deus, por favor! - sua splica foi quase um lamento na quietude que os envolvia. - No permita que ele morra.
    As sombras negras da noite chegaram furtivamente  ilha, e a Lua surgiu no horizonte como uma flor de laranjeira. Ergueu-se at esvair-se num tom azul-prateado 
e refletir esse tom em tudo que iluminou. Para Shanna, as horas escoaram-se devagar; quando Ruark se aquietou, num sono febril, ela se enrodilhou numa cadeira ao 
lado da cama, e s vezes cochilava, s vezes ficava olhando para ele. Aptica, viu a Lua percorrer lentamente o cu acima dos topos das rvores e ouviu o delicado 
relgio marcar as horas.  meia-noite no suportou a recusa de sua vinda. Ela chegou, se foi, e Shanna continuava velando.
    Ruark comeou a resmungar e a murmurar mais violentamente, em delrio de febre, e o corao de Shanna pulou quando ele emitiu um gemido entrecortado. Temeu que 
ele tentasse levantar-se, e sabia que no teria fora para det-lo, mesmo ele estando debilitado. Forou-o de volta ao travesseiro e sentou-se na cama ao lado dele, 
enquanto sussurrava palavras ternas e lhe acariciava a testa. Ele no reagia s perguntas meigas que ela lhe fazia. Comeou roufenhamente a cantar uma modinha infantil, 
mas parou de repente, contorcendo-se. Uma careta horrenda o desfigurou e seus olhos se abriram. Agarrou-a pelos ombros e fez com que ela ficasse junto dele, machucando-a 
com a fora de seus dedos:
    - Maldio! - rosnou. - Nunca vi a moa antes! Por que voc no acredita. - Com um grunhido, afastou Shanna e deitou-se, olhando aptico para as portas da sacada. 
Um ricto de tristeza lhe contorceu os cantos da boca, e ele comeou a dizer, monocordicamente: - Quatro paredes, teto, cho, porta. Conte as pedras, faa com que 
se mexam. Conte os dias, um por um. Mas como, caro rapaz, se voc nunca v o Sol?
    Sua cantilena virou um resmungar incoerente, e ele fechou os olhos com fora. Shanna julgou que ele estivesse com dor, pois parecia atormentado. Estendeu a mo 
para pegar o pano da bacia d'gua, mas se deteve quando as palavras dele ficaram claras. Agressivas e zangadas, elas se harmonizavam com o riso escarninho que lhe 
surgiu na boca:
    - Ento, tome tudo! Tome minha vida! Que me importa, agora que a moa foi embora? Maldita seja ela! Maldito seja seu corao volvel! Ah, camarada, eu a odeio! 
Mulher volvel! Ela me provoca, me seduz, me engambela, me atia e me abandona quando eu ardo de desejo. Ser que j no tenho vontade prpria?
    A voz dele ficou entrecortada, e ele soluou e escondeu o rosto sob um brao. Shanna sentiu um n na garganta e no soube como aplacar a dor que lhe veio ao 
peito. Seus olhos ficaram cheios de lgrimas, procurou acalmar Ruark. Este no ouviu seus apelos, mas levantou as mos e as ps  frente dos olhos e virou-as e as 
olhou fixo como se nunca as tivesse visto.
    - Mesmo assim, eu a amo. Eu poderia obter a liberdade e ir embora, mas estou muito ligado a ela. - As mos dele viraram punhos lassos que se fixaram em seus 
quadris quando ele gemeu indiferente. - No posso ficar. Nem posso ir embora. - Fechou os olhos, e logo recaiu em sua lassido.
    Sufocando um soluo, Shanna curvou a cabea, sentindo-se terrivelmente infeliz. Ela fora muito descuidada ao tecer a teia em redor dele. No tinha pretendido 
encurral-lo, nem a si mesma. Naquela noite fria na priso de Londres ela no poderia haver previsto esse fim. Jogara um jogo, um desafio para exceder seu pai em 
astcia, e provar ser to ladina quanto qualquer homem, e desconsiderara integralmente os sentimentos e as emoes de outras pessoas.
    Lgrimas lhe caram nas mos pousadas no colo, quando ela deu vazo a seu pesar. Estava profundamente envergonhada e de corao contrito. De todos os homens 
a quem havia ferido com o gume afiado de sua lngua, Ruark era o nico a quem ela jamais pretendera magoar. Agora, porm, ele estava quase  morte por sua causa. 
E ela nada podia fazer, a no ser ficar a seu lado e vel-lo enquanto as peonhas implacveis sugavam a outrora exuberante vitalidade dele.
    - Maldio! - exclamou ela, frustrada. Levantou-se, torcendo as mos. Andou de um lado para outro no quarto, tentando desesperadamente lembrar-se de algo que 
a pudesse ajudar. Sua me havia tido febre e ha-" via sido sangrada. Isto de nada adiantou, pois Georgiana morreu muito debilitada. E se ela cedesse aos argumentos 
do mdico e permitisse que ele amputasse a perna de Ruark? Se a ferida que ele tinha agora podia aumentar, o que dizer da carne viva de um toco de perna? Se a perna 
fosse amputada, ele talvez morresse mais depressa. E ela jamais se perdoaria.
    Shanna no obteve respostas, embora se esforasse ao mximo para conseguir algo. Sua mente ficou entorpecida de preocupao e cansao, e chegou ao ponto de no 
conseguir mais ser lgica. Maquinalmente, tratou de Ruark, banhando-o e acalmando-o, e lhe dando caldo com uma colher por entre os lbios ressecados. Mesmo assim 
ele continuava a delirar e se agitava como se possudo pelo demnio.
    - Isso no vai ter a menor importncia para mim - murmurou ele. No insista mais. Ela vai ter o dom de...
    Foi uma tarefa exaustiva. A noite se esvaiu e afinal raios de luz do Sol da madrugada penetraram no quarto atravs das portas envidraadas. Na cadeira, Shanna 
cochilava aos sobressaltos, mente beirando o limite agitado do sono, enquanto a cabea pendia languidamente contra o ombro. Tinha vaga percepo da porta se abrindo 
e fechando s suas costas. Com um sobressalto, acordou, grito meio preso na garganta, como se esperasse reconhecer Pellier, que teria vindo atorment-la. Para seu 
enorme alvio, era Pitney. Respirou fundo e relaxou novamente na cadeira, esfregando a mo no cenho.
    - Sabia que voc no confiaria em outra pessoa.
    A voz dissonante e profunda a emocionou, mas continha uma pitada de sarcasmo. Shanna estava indefesa e olhou aptica para Ruark.
    - Isto  intil. - A manopla de Pitney apontou para o quarto. - Voc j no pode ser til a ele nem a voc mesma. V dormir em seu quarto. Eu fico vigiando.
    No ouviu os protestos dela e a arrastou da cadeira e a levou at as portas da sacada. Com a mo nas costas da moa, ele a empurrou para fora e, quando ela o 
encarou tentando argumentar, ele a ignorou.
    - V! - Seu tom foi severo, mas suavizou-se ao ver a preocupao estampada no rosto dela. - Vou tomar conta do seu marido e dos seus segredos.
    Shanna no teve alternativa seno obedecer. Completamente exausta, foi aos tropees para sua cama e, sempre vestida com o traje que seu pai lhe levara a bordo 
do Hampstead, estendeu o corpo exaurido nos lenis de cetim e penetrou no vrtice profundo do sono.
    Parecia que apenas um momento se havia passado, quando Hergus a sacudiu para acordar:
    - Vamos, Shanna - instou a mulher. - Coma alguma coisa. Shanna sentou-se sobressaltada e olhou para o relgio: eram quase trs da tarde. Aflita, pegou uma fatia 
de bolo de aveia da bandeja e voou para a sacada, esgueirando-se depressa por entre as portas-janelas que separavam os dois aposentos. Pitney estava-se distraindo 
com um baralho numa mesinha quando Shanna apareceu. Relanceou os olhos para ela e se recostou na cadeira, reparando que ela estava toda desarrumada:
    - Seu pai deu um pulinho at aqui. - Fez um gesto para as cartas. - Ele acha que isso faz mal e no tolera jogo, mas entre dois. - Pitney fez um gesto de cabea 
para Ruark, que continuava agitado e murmurando. - Achei que estas cartas no fariam mal algum.
    Shanna no teve palavras para responder e apressou-se a aproximar-se de Ruark. A fronte no estava menos quente. Levantando o lenol, ela arfou ao ver manchas 
vermelhas que chegavam quase ao quadril de Ruark e lhe marcavam acentuadamente a parte inferior da perna. Pitney ficou ao lado dela, e franziu a testa quando estendeu 
um dedo e examinou a carne inchada.
    -  provvel que ele perca a perna - comentou, tristemente. J ouvira falar muito sobre os casos escabrosos de cirurgia do mdico. Era uma pena ver esse tipo 
de coisa praticada contra um homem. -  lamentvel que o seu Ruark no seja um cavalo. Poderamos experimentar algumas de suas curas nele mesmo. A gua est bem 
cicatrizada, e quase no se v marca nenhuma em seu corpo.
    Shanna franziu o nariz, recordando a viso e o cheiro do ungento da gua:
    - Remdio de cavalo - zombou ela. - Aquele negcio seria at capaz de tirar a perna dele. Rum e ervas capazes de fazer um homem uivar.
    Parou de repente ao lembrar-se de algo. As folhas que Ruark tinha apanhado para seu calcanhar haviam ardido quando aplicadas no corte, mas a dor logo amainou 
e ele dissera que a peonha desapareceria em pouco tempo. Com o queixo mostrando sombria determinao, Shanna encarou Pitney e ordenou:
    - Mande buscar Eliot. Ordene que ele pegue algumas das folhas com que Ruark preparou o emplasto. Acrescentaremos rum a elas. - Quando Pitney se dirigiu rpido 
 porta, ela disse por cima do ombro: - E mande Hergus pegar roupa de cama limpa e gua quente.
    A porta bateu quando o grandalho saiu, e Shanna debruou-se sobre Ruark e lhe desenrolou cuidadosamente as ataduras da perna. Surpreendeu-se com a prpria calma 
e o objetivo lcido, enquanto suavemente lavava a rea em redor da carne ferida. Em nome do pudor de Hergus, ps um pano em cima dos quadris de Ruark. J bastavam 
os barulhinhos desaprovadores de Berta; ela dispensava os chiliques de Hergus.
    Aps intolervel demora, Pitney voltou com as folhas apanhadas por Eliot. Acrescentaram-se carves novos ao banho-maria, e Shanna esmagou as folhas numa quantidade 
pequena de gua e as ps para ferver. Em pouco tempo, o aposento estava impregnado de um cheiro acre. Mergulhou-se panos na gua quente antes de coloc-los na ferida 
para absorver o sangue coagulado. Isto fez com que Ruark se agitasse de novo, quando a dor penetrou em seu delrio. Pitney ps as manoplas na perna e a firmou, enquanto 
Shanna limpava as cavidades.
    Rezando, Shanna misturou as ervas e o rum e aplicou o emplasto quente na perna. Isto teve imediato efeito em Ruark. Ele gritou quando o emplasto lhe tocou a 
pele e se contorceu de agonia  medida que as ervas custicas e o rum quente lhe penetravam a carne dilacerada. Shanna agia rapidamente, enquanto Pitney segurava 
Ruark e Hergus misturava ervas na chaleira. Shanna fez escorrer rum da garrafa na perna toda e repetiu o processo. Inmeras vezes, ela limpou a cataplasma quando 
esfriava, e a substitua pela quente. No contou as horas em que ficou ao lado dele repetindo aquela operao. Comeou a sentir dor nas costas por estar sempre inclinada 
e suas mos ficaram vermelhas de tanto aplicar o emplasto quente na ferida. A noite j ia adiantada quando ela parou e reparou que Ruark estava mais calmo. Seus 
lbios cessaram de murmurar incessantemente e ele j no se contorcia como se estivesse sendo torturado. Ela lhe tocou a pele e percebeu que a febre cedera.
    - Pegue minha agulha e linha forte - ordenou Shanna  criada. - Pela primeira vez na vida, compreendo a necessidade de dar uns pontos.
    Hergus ficou perplexa, mas apressou-se a cumprir a tarefa, voltando em seguida. Ficou ento na extremidade da cama, observando Shanna laboriosamente fechar as 
feridas com a linha embebida em rum. Foi com certo orgulho por sua esplndida habilidade que ela concluiu o servio e observou:
    - Ele no vai ficar com nenhuma cicatriz.
    - Como se voc devesse preocupar-se com uma cicatriz na perna de um homem! - grunhiu Hergus.
    - Deixe a cataplasma esfriar na perna dele - sugeriu Pitney. - Ele j passou pelo pior.
    Shanna concordou: cobriu o ltimo emplasto com tiras limpas de linho em volta da perna de Ruark e empilhou toalhas dos dois lados para impedi-la de se movimentar.
    - Vou ficar mais um pouco - suspirou Shanna, e desabou exausta na cadeira mais perto. Hergus sacudiu a cabea, exasperada.
    - Voc no pode nem tomar banho e comer um pouco? Est s pele e ossos porque aqueles malditos piratas no lhe davam comida. Se esse homem acordasse agora ia 
assustar-se ao v-la.
    Contrafeita, Shanna correu os dedos pelo cabelo embaraado, percebendo que no se penteava nem cuidava de sua aparncia desde que estivera no Hampstead. Parecia 
j uma eternidade.
    - Seu pobre pai est l embaixo impaciente para v-la, mas sem dizer nada. O mocinho a j est fora de perigo. Cuide de voc e troque umas palavras gentis com 
seu pai. Ele quase teve um ataque quando soube que voc tinha sido raptada por aqueles piratas.
    - O mais provvel  que Papai tenha explodido de raiva - corrigiu Shanna, com jovialidade.
    Pitney franziu as sobrancelhas e retrucou rabugento:
    - Sim, e ele prometeu enforcar o Sr. Ruark quando os cativos voltaram contando histrias.
    Shanna fez uma careta temerosa e perguntou:
    - O que foi que eles disseram?
    - Que ele lutou por voc e disse que voc era dele - apressou-se Hergus a responder. - Disseram que ele at matou um homem para poder ter voc.
    - S isso? - perguntou Shanna, cautelosamente.
    A criada olhou de soslaio para Pitney e, mais relutante, acrescentou:
    - Bem, eles disseram mais coisas. Pitney foi mais brusco:
    - Todos ns presentes ouvimos quando os cativos afirmaram que, se voc fosse estuprada, o culpado seria o Sr. Ruark.
    Esperou para ver o efeito de suas palavras, observando Shanna atentamente e vendo os olhos azuis-esverdeados se arregalarem de pesar. Ento deu de ombros e foi 
at a porta.
    - Mas os cativos tambm admitiram que no podiam ter certeza, porque o Sr. Ruark levou-a para o segundo andar. - Pitney passou a mo no queixo e acrescentou: 
- Mas, se ele no tinha inteno de dormir com voc, por que lutaria por voc?
    Shanna gemeu desesperada e afundou mais na cadeira:
    - Talvez seja melhor eu descer... - seu sorriso foi dbil e sofrido. - e explicar tudo a Papai.
    As saias de Hergus chegaram a fazer barulho na sua pressa de seguir Pitney para fora do quarto:
    - Vou providenciar seu banho, Shanna.
    Entrando em seu quarto, aps assegurar-se de que Ruark dormia pacificamente, Shanna deu de cara com a teimosa Hergus, que lhe ordenou:
    - V para o banho!
    Fez questo de que sua ordem fosse obedecida e levou a moa at a banheira, esfregou-lhe as costas e lavou-lhe o cabelo, secou-o e penteou-o.
    - Seu pai est subindo - informou a criada, quando trouxe a camisola e o roupo de Shanna, em vez do vestido que a moa esperava. - Ele no pensou que voc ia 
ficar de p em claro para fazer companhia a Sir Gaylord. Vou buscar uma bandeja para que voc no deixe de jantar. Vai precisar de fora para enfrentar seu pai.
    Shanna demonstrou sua irritao com o olhar, mas a mulher encolheu os ombros, indiferente.
    -  bem feito, rebaixando-se e dormindo com um prisioneiro, quando tem uma poro de lordes que j imploraram sua mo. Olhe, no tenho nada contra o Sr. Ruark. 
Ele no pode evitar de se apaixonar por voc. E ele  um homem realmente bonito e foi muito bom para voc, mas...
    Shanna murmurou algo enquanto amarrava o cinto na cintura fina, mas a criada no ouviu ou ignorou a atitude ingrata e continuou, sem prestar ateno ao cenho 
franzido de Shanna:
    - Voc s vai receber dele uma barrigona, porque nome.. qual seria? Ruark? - Hergus franziu o nariz, repugnada. - Parece irlands, e voc sabe que nesse povo 
no existe ningum que valha a pena, so todos biltres, briguentos e no amam ningum. Se tivesse juzo, procuraria um escocs de uma tima famlia para se igualar 
ao de seu pobre marido falecido e sossegaria.
    Shanna suspirou exasperada:
    - No espero que voc compreenda minha ligao com o Sr. Ruark, Hergus, mas estou morta de fome e voc prometeu trazer-me comida. Quer que eu morra de fome, 
enquanto fica a fazendo sermo sobre decoro?
    A criada finalmente cedeu e trouxe a refeio noturna; e quando Shanna se sentou para comer  sua mesinha, o pai bateu levemente e entrou. Parecia meio desnorteado 
e, aps cumpriment-la secamente, comeou a andar em largas passadas pelo quarto, mos cruzadas nas costas.
    Um ou dois grunhidos emitidos do fundo de sua garganta foram ouvidos por Shanna, quando ele parou ao lado de um objeto de arte raro e para examinar um livro 
de poesias. Com a ponta do dedo indicador, levantou a tampa decorada da caixa de msica que Ruark dera  filha e escutou um pouco a melodia antes de fech-la cuidadosamente, 
como se temeroso de quebrar a caixa.
    - Que engenhoca-!
    Shanna manteve-se em silncio, percebendo que algo o preocupava. Ficou observando os rodeios do pai, enquanto continuava a comer, mordiscando a comida e bebericando 
o ch, mas mal beliscando qualquer coisa.
    - Sua provao no a afetou em nada, filha - afinal comentou ele. - Na verdade, se isso  possvel, voc est ainda mais adorvel. O Sol lhe fez bem.
    - Obrigada, Papai - conseguiu dizer, refreando-se de outros comentrios atrs de sua xcara.
    Trahern viu o gibo dobrado na cadeira e a adaga e a pistola em cima dele. Pegando a pistola, olhou de esguelha para ela por cima do ombro, e Shanna s fez encolher 
os ombros e dizer:
    - Serviu a seu objetivo.
    Trahern aproximou-se dela, e Shanna descansou a xcara, cruzou as mos no colo e levantou o olhar para encar-lo.
    - Voc se alimentou bem? - perguntou ele, preocupado.
    - Sim, Papai - respondeu a moa, resolvendo trat-lo mais formalmente, e se preparou para o interrogatrio que se seguiria.
    - Nenhum dos piratas tocou em voc? - perguntou, rabugento.
    - No, Papai. O senhor ouviu dizer que o Sr. Ruark matou um homem por minha causa. Para dizer a verdade, ele matou dois. S sobrevivi devido  habilidade dele 
com armas. Se ele no tivesse estado l, eu no estaria aqui hoje.
    - E esse Sr. Ruark. - Ele deixou a pergunta em suspenso, enquanto procurava as palavras para falar do assunto que o perturbava intensamente.
    Shanna ficou subitamente de p. No conseguiu encar-lo e, dirigindo-se s portas envidraadas que davam para a sacada, abriu-as para que a brisa noturna entrasse, 
porque de repente o aposento ficou abafado.
    - O Sr. Ruark  homem muito honrado. No me fez nenhum mal, e no estou em nada diferente de quando parti. - Encarou-o com um sorriso meigo e falou sinceramente, 
pois nada do que disse era falso. - Meu maior problema no momento, Papai,  o bem-estar dele e mesmo isso parece estar melhorando.
    Durante muito tempo, Trahern a olhou firme, enquanto meditava sobre o que ela dissera. De modo abrupto, balanou a cabea afirmativamente, disposto a aceitar 
a histria dela.
    - Est certo. - Satisfeito, dirigiu-se  porta, mas a voz de Shanna o deteve.
    - Papai!
    Trahern virou-se e levantou as sobrancelhas interrogativamente.
    - Eu o amo.
    Encabulado, ele gaguejou "boa-noite" e relanceou o olhar pelo aposento, como se houvesse esquecido algo. Suas mos se colocaram nos quadris e ele bufou:
    - Ah, ele est com a maldita bengala. -  porta, parou para relancear os olhos uma ltima vez e disse: -  bom t-la em casa de novo, filha.
    Foi o som de seu nome sendo chamado que fez Shanna acordar plenamente. Por um momento, continuou deitada, perguntando-se se a voz era real ou se era o espectro 
de um sonho. Novamente, a voz soou, dessa vez claramente:
    - Shanna! Shanna! No se v!
    Parecia um grito agnico, solitrio no silncio da noite, e ela no se equivocou ao identificar a voz. Voou da cama e foi at a sacada, sem parar para pegar 
o roupo, e entrou no quarto de Ruark. Ele se debatia na cama e lutava contra amarras invisveis. Sua testa estava pontilhada por gotas de suor, e a roupa de dormir 
que haviam conseguido vestir-lhe achava-se mida de transpirao. Shanna quase riu de alvio ao limpar-lhe o rosto com uma toalha. A pele dele mostrava-se fresca. 
A febre cessara.  luz da nica vela, a moa viu que os olhos dele estavam abertos e a olhavam surpresos.
    - Voc est mesmo a, Shanna? Ou ser que meu sonho est-me confundindo a viso? - Os dedos dele se fecharam suaves sobre o punho dela e o levaram at os lbios 
secos. Ao beijar-lhe a pele macia, ele murmurou:
    - Nenhuma moa dos meus sonhos poderia ser to suave assim. Shanna, Shanna! - suspirou. - Pensei hav-la perdido.
    Ela se debruou para comprimir os lbios trmulos contra os dele.
    - Oh, Ruark! - sussurrou. - Eu  que pensei hav-lo perdido.
    Ele passou o brao pelo pescoo da moa e a puxou para baixo, buscando-lhe os olhos sob o brilho opaco:
    - Vou machucar sua perna assim! - protestou Shanna, preocupada.
    - Venha c! - ordenou ele. - Quero saber se isto  um sonho ou algo mais embriagador.
    Os olhos dele ficaram mais amorosos, fazendo com que ela se sentisse tonta, e houve suave unio de lnguas e lbios que pareceu demorar eternamente.
    - Acho que a febre passou - murmurou Shanna, aconchegando-se a ele. - Mas deve t-lo deixado zonzo. Seu beijo fala muito mais de paixo do que de dor. - Ps 
a mo dentro da roupa de dormir dele e lhe acariciou o peito peludo, adorando a fora que sentiu nas costelas musculosas.
    - Fiquei zonzo mesmo! - Ele sorriu e suspirou. - Devo suportar para sempre as censuras de uma recm-casada desiludida?
    Shanna correu o dedo pelo ondulado do peito dele.
    - No seu delrio, voc disse que me amava - murmurou, encabulada. O bom humor de Ruark desapareceu, e o sorriso abandonou os lbios da moa quando ela continuou:
    - Voc disse isso antes tambm. Quando houve aquela tempestade, pedi que voc me amasse, e voc concordou. - A voz dela era um sussurro.
    O olhar de Ruark se desviou do dela, e ele esfregou a atadura na perna antes de responder:
    -  estranho que o delrio possa dizer uma verdade, mas foi o que sucedeu. - Encarou os olhos dela. - Sim, eu a amo. - A dor do desejo pungente marcou-lhe o 
rosto de momentnea tristeza: - E isso  uma loucura, para falar a verdade.
    Shanna levantou-se e sentou-se de pernas cruzadas, olhando direto para ele:
    - Por que voc me ama? - Seu tom era cptico. - Eu o ataco sempre que posso. Rejeito-o como meu marido. Pelos meus atos, voc virou escravo. No h nenhuma lgica 
no que voc diz. Como pode amar-me?
    - Shanna, Shanna, Shanna! - suspirou ele, pondo os dedos na mo dela e suavemente percorrendo as Unhas dos dedos finos. - Que homem pode gabar-se de amar sensatamente? 
Quantas vezes este mundo j ouviu dizerem: "No me importa, eu amo." Devo relacionar seus defeitos e pecados numa lista? - Contemplou a chama tmida da vela. - Estou 
pensando numa moa de cabelos claros e rosto comum, cuja virtude foi destruda antes que ela soubesse de sua existncia. E num homem de certa cultura que foi maltratado 
como escravo. Penso no bom Gaitlier e na sua Dora. - Olhou para Shanna, mas a moa no o encarou. - Eles ficam de mos dadas contra o escarninho geral e fecham os 
olhos e bradam: "No faz diferena. Ns amamos!" Os homens costumam falar da forma inteligente por que escolheram o objeto de sua devoo? Ou, se lhe perguntassem, 
voc no acha que o jovem namorado rstico daria de ombros, estenderia as mos e diria mansamente "Eu amo aquela moa"?
    Ruark ps a perna no travesseiro e tocou a atadura como se isso pudesse aplacar-lhe a dor.
    - Sonho com uma suavidade incrvel. Lembro-me de um ardor a meu lado suficiente para me inflamar o corao. Vejo no escuro,  minha frente, olhos lquidos e 
transparentes, ora ternos num momento de amor, ora reluzentes de desafio e raiva, ora escuros e azuis com a agitao que sei que causei, ora verdes, alegres e risonhos. 
Houve uma forma dentro de meus braos que abracei e toquei ternamente. Houve tambm um vulto cuja paixo se equiparou  minha e que me deixou arfante.
    Ruark acariciou o brao de Shanna e virou-lhe o rosto para encar-lo, desejando que ela visse a verdade em seus olhos.
    - Minha adorada Shanna. No consigo pensar em traio, quando penso em amor. No consigo pensar em rejeio, quando a abrao apertado. S espero pelo dia em 
que voc me dir: "Eu amo."
    Shanna ergueu as mos como se fosse apresentar seus argumentos, e depois deixou-as cair desanimadas nos joelhos. Lgrimas lhe escorreram nas faces, e ela implorou, 
indefesa:
    - Mas no o quero amar. - Comeou a soluar. - Voc  um colono. No  nobre,  um assassino condenado, um patife, um escravo. Quero que meus filhos tenham um 
nome. Quero muito mais de meu marido. - Revirou os olhos, subitamente confusa. - E no quero mago-lo mais.
    Ruark suspirou e desistiu temporariamente. Estendeu a mo e suavemente enxugou as lgrimas que caam no rosto dela.
    - Shanna, meu amor - sussurrou, ternamente. - No suporto v-la chorar. No vou insistir no assunto por enquanto. S lhe digo que a viagem mais longa  feita 
passo a passo. Meu amor pode esperar, mas no vai capitular nem mudar. - Sua voz ficou mais animada, seus olhos brilharam com manchinhas douradas e maliciosas: - 
Voc j sabe que sou um sujeito determinado. Minha me dizia que eu era decidido, e meu pai, mimado.
    Shanna fungou e sorriu debilmente:
    - , reconheo que isso  verdade.
    - Mas, meu amor, no se preocupe mais - disse ele, rindo. - Deite aqui a meu lado e deixe que eu sinta seu calor e sua maciez. Se voc no consegue declarar 
seu amor, pelo menos seja complacente com um homem doente.
    Shanna cedeu, aninhou-se ao lado dele e descansou a cabea em seu ombro. Ela ouviu um riso vindo do fundo do peito dele e levantou o olhar, surpresa:
    - No consigo descansar, porque estou me sentindo desconfortvel, e no sei o que  pior. - Ela se apoiou no cotovelo e ele explicou: - Se a dor na perna ou 
l embaixo.
    - Seu macaco libidinoso! - disse ela, rindo e pondo a cabea no vo do brao dele. - Nenhum homem doente se excita desta maneira ao menor sorriso.
    Ruark a abraou e lhe beijou a orelha antes de lhe procurar a maciez dos lbios. Sua boca permaneceu muito tempo l, gozando o gosto doce de mel. O quarto ficou 
silencioso, e para Shanna estar nos braos dele era a coisa mais natural. Entretanto, muitas pessoas na casa ficariam possessas se os encontrassem entrelaados e 
na cama.
    Berta trouxe a bandeja com o desjejum; Ruark se estava aprontando para comer o primeiro alimento slido depois de vrios dias, quando a porta se abriu e Pitney 
entrou, com uma bandeja repleta com um servio completo para caf. Atrs, vinha Orlan Trahern. Logo, uma xcara de caf fumegante foi colocada na mesinha pelo latifundirio:
    -  cedo, mas  a melhor hora para lhe agradecer, sem a interferncia de minha filha. - Trahern fez um sinal com o polegar por cima do ombro. - Ela ainda est 
dormindo, portanto fale baixo, ou daqui a pouco estaremos sendo apoquentados.
    Ruark mastigava, meio indeciso de sua situao. Olhou apreensivo para Pitney, ao p da cama, braos fortes cruzados no peito. O homem retribuiu-lhe o olhar com 
um franzir de advertncia na testa.
    - J afirmei a Orlan que conheo um cara que o viu ser arrastado para bordo do navio dos piratas. Ele estava meio zonzo na hora, pode-se dizer at confuso, e 
no ousou falar nada.
    Ruark fez um sinal afirmativo com a cabea e bebericou o caf, que descobriu estar misturado a conhaque. Ergueu a xcara num agradecimento silencioso a Trahern 
e saboreou o estonteante aroma da mistura.
    Pitney disse o que tinha a dizer e se contentou com o silncio de Ruark. Trahern recostou-se na cadeira ao lado da cama e cruzou as mos na pana, quando Pitney 
pegou uma cadeira e nela se escarrapachou, apoiando os braos grossos no espaldar. O aposento ficou silencioso por alguns instantes, e Trahern falou:
    - Voc quer contar-me tudo? Tenho de formar certas opinies, e o que sei  muito pouco.
    Enquanto comia, Ruark comeou sua narrativa. Contou do ataque  ilha. Falou francamente da armadilha que preparou para os piratas, mas que acabou no dando certo, 
com resultados desastrosos; ressaltou que os trs homens capturados quiseram voltar quando tiveram oportunidade. Deixou que Trahern lhe perguntasse quanto ao perodo 
em que Shanna ficou no buraco com ratos e quanto ao fato de ele t-la tirado de l. Evitou os detalhes dos dias e noites que passou com Shanna, e deu a entender 
que haviam sido apanhados juntos pela tempestade. Citou de passagem os dois homens que matou e os motivos. Falou tambm do episdio em que Shanna matou um homem. 
Narrou o plano e a execuo da fuga, omitindo mincias insignificantes, mas ressaltando a participao de Dora e Gaitlier. Fez com que Pitney e Trahern rissem, ao 
referir-se ao valor de Shanna face  adversidade.
    Os dois homens mais velhos ficaram satisfeitos com a narrativa e riram aliviados quando Ruark lhes garantiu que nenhum mal maior havia sido praticado contra 
Shanna. Trahern ficou alheio a tudo, pensando, durante algum tempo. Pitney olhou para Ruark e sorriu, aprovando com a cabea. Abruptamente, Trahern levantou-se e 
deu um tapa no joelho, com sbita jovialidade.
    - Com a breca! - Riu e baixou a voz, olhando furtivamente para a sacada. - No vejo outra forma de compensar os trs cativos seno dando-lhes um bnus por seu 
servio.
    Ruark pigarreou e, quando Trahern se calou, tocou em outro assunto:
    - Senhor, o Sr. Gaitlier e D. Dora arriscaram as vidas em idntica proporo  dos prisioneiros. Se vamos discutir recompensas, eles certamente precisam ser 
considerados. Acho que eles se vero em grandes dificuldades devido ao esforo que fizeram.
    - Pode ficar sossegado que no esqueci, e eles sero generosamente recompensados. - Trahern tossiu e relanceou o olhar para Pitney. - Foi me observado, embora 
eu j tivesse pensado no assunto, que voc me prestou grande servio ao trazer-me minha filha de volta, s e salva. Quando estiver bem de sade, vou dar-lhe seus 
papis, liberando-o. Voc  um homem livre.
    Esperou uma reao alegre, mas Ruark franziu a testa e olhou primeiro para um dos homens, e depois para o outro. Ruark observou que Pitney era o mais inquieto 
e deduziu a razo. Trahern, porm, surpreendeu-se com a demora do cativo em reagir.
    - Senhor, acha que eu aceitaria recompensa apenas por haver praticado um ato decente em relao a outra pessoa? - Ruark desdenhou qualquer argumento. - Prestei 
a mim mesmo um servio ao escapar daquele bando de marginais, e no podia ter deixado outros inocentes para trs. No posso aceitar pagamento por isso.
    Havia duplo sentido em suas palavras, mas Ruark no queria aceitar nenhuma recompensa por salvar Shanna. Ademais, ser um cativo lhe d boa razo para permanecer 
na ilha junto da moa.
    - Que bobagem! Voc fez mais do que juz  sua liberdade ao construir os dois engenhos - retrucou Trahern.
    - Eles seriam seus, se eu tivesse sido contratado como homem livre para trabalhar para o senhor. Os engenhos no so meu mrito. Apenas servi a meu empregador 
o melhor que pude.
    Orlan Trahern o olhou surpreso, mas Pitney evitou encar-lo.
    - Se no tivesse sido forado a adquirir roupas caras - recordou Ruark ao proprietrio, com o olhar brilhando - eu j teria economizado quase o bastante para 
comprar minha liberdade.
    Traherm protestou como qualquer bom comerciante ofendido:
    - Paguei muito mais por seu traje do que voc!
    Ruark deu um risinho e ficou srio. Olhou de soslaio para Pitney ao falar e reparou nas gotas de suor que marcavam a testa do outro, enquanto o grandalho se 
irritava com o duplo sentido da frase de Ruark.
    - Sempre fui conhecido por pagar minhas dvidas integralmente. Desviou o olhar e encarou Trahern. - Quando depuser a quantia total de minhas dvidas em suas 
mos, no haver dvida de que minha liberdade no  presente de outro homem.
    - Voc  um homem raro, John Ruark - suspirou Trahern. - No o consideraria um comerciante, pois desprezou uma recompensa a que fazia jus. - Levantou-se com 
esforo da cadeira, parou e analisou Ruark detidamente. - Por que me sinto como se tivesse sido levado aos limites de minhas posses?
    Sacudiu a cabea e se encaminhou para a porta, deixando que Pitney o precedesse. Antes de sair, olhou para Ruark:
    - Minha intuio de comerciante est ultrajada. Fui ludibriado, John Ruark, mas no sei de que maneira.
    Orlan Trahern tomou um desjejum leve e, rapidamente, levantou-se da mesa para evitar conversar com Sir Gaylord. O cavaleiro tinha o hbito de se reunir  famlia 
na refeio matinal. Ele no era to tedioso quanto parecia. A questo  que os assuntos relacionados a dinheiro, finanas, o mar, a Inglaterra, a guerra, a paz 
e a possibilidade de navios, gua, comrcio, naes, vento ou chuva sempre terminavam com uma afirmativa dele sobre a sensatez de investir num pequeno estaleiro 
que poderia fornecer centenas de chalupas e escunas pelo preo de um nico navio. Sua gama de assuntos era muito limitada, embora ele fosse incrivelmente hbil em 
pegar qualquer tpico e us-lo como entrada para o seu.
    Foi assim que Trahern lanou um ltimo olhar piedoso  sua filha, ignorou-lhe o apelo silencioso e foi embora com uma rapidez que contradizia sua idade e sua 
pana. Franzindo o cenho pelo desapontamento, Shanna viu o pai afastar-se e conseguiu sorrir tolerantemente para Sir Gaylord, que prestou efetiva ateno ao prato 
cheio  sua frente. Suas maneiras no lhe permitiam falar de boca cheia, o que agradou muito a Shanna, mas ele ficou olhando com admirao o vulto esbelto  frente.
    A moa pediu licena com uma inclinao rpida de cabea e, a caminho da sala de estar, pediu baixinho a Berta que lhe trouxesse ch, que pretendia saborear 
em paz. Pobre iluso! Logo que se instalou no sof, Sir Gaylord entrou, limpando os lbios e em seguida enfiando o guardanapo na manga. No fosse pelo "T" estampado 
no pano, o guardanapo serviria como delicado leno. O cavaleiro parecia ter especial inclinao por qualquer coisa com uma letra gravada, haja vista a profuso de 
Bs que lhe decoravam as roupas. At mesmo seus casacos tinham o monograma, onde pudesse ser usado sobre o corao. Quando Berta trouxe as xcaras e aprontou-se 
para servir o ch, ele se levantou e a mandou parar.
    - Isto realmente no  tarefa para homens, minha cara - disse pomposo a Shanna - mas  uma arte que deve ser realizada com a tcnica que no se costuma encontrar 
fora da Inglaterra.
    Ergueu o bule de ch com um floreio, encheu duas xcaras com o lquido castanho at a metade, acrescentou leite e mexeu at que as xcaras mostraram uma mistura 
espessa que no se parecia em nada a ch. No reparou na exclamao horrorizada de Berta e ps vrias colheres de acar em uma das xcaras e parou em relao  
outra, levantando a sobrancelha para Shanna:
    - Uma ou duas, minha cara? - perguntou, solcito.
    - No quero leite, Sir Gaylord, obrigada. Apenas o ch e uma pitada de acar.
    - Oh! - exclamou ele desconcertado, e parou para provar seu ch. Est delicioso, minha cara. Voc deve experiment-lo assim.  a moda em Londres.
    - J experimentei - disse Shanna sem maldade, debruando-se para frente e se servindo de ch, ao qual acrescentou uma colherinha de acar.
    Gaylord sentou-se numa cadeira de espaldar reto e cruzou as pernas antes de bebericar mais o ch.
    - Ah, bem, no importa. Espero que tenha a vida inteira para ensinar-lhe as etiquetas dos nobres ingleses.
    Shanna levantou rpido a xcara e baixou o olhar, enquanto Berta parou o que fazia e olhou raivosamente para o cavaleiro.
    - Shanna, minha cara - Sir Gaylord recostou-se e a contemplou - no tem idia do que a simples proximidade de voc faz at a um nobre do reino. Meu corao sofre 
por passarmos to pouco tempo sozinhos. Mais tempo tivssemos, eu lhe falaria da paixo que me invade a alma.
    Shanna estremeceu levemente e se justificou, ao ver que ele reparara:
    - Acho que pus acar demais. - Renovou o lquido na xcara e no ousou olhar para Berta. A governanta ficou  porta que dava para o vestbulo e passou os dedos 
em fina estatueta, enquanto semicerrava os olhos de forma estranha. A velha pareceu tomar uma deciso e avanou abruptamente:
    - Tenho coisas a fazer - informou a Shanna, trazendo uma expresso de desespero ao rosto da patroa e um brilho de esperana aos olhos de Gaylord. - Se precisar 
de mim,  s chamar.
    Antes que Shanna pudesse protestar, Berta lanou um ltimo olhar irado e crtico a Gaylord e foi embora. O aposento ficou silencioso quando Shanna acompanhou 
a sada da governanta, e quase deu um pulo quando o cavaleiro pigarreou e se levantou da cadeira para ficar  sua frente de novo. Ele a olhou baixo e resolveu fazer-lhe 
a corte:
    - Minha cara Shanna, h muitas coisas que precisamos conversar.  to raro eu encontrar algum disposto a compreender as necessidades da elite! Voc  linda, 
rica e... desejvel. Ningum mais pode resolver minha situao. Estou apaixonadssimo.
    Aproximou-se mais, e Shanna se viu num dilema. Estava temerosa de que ele lhe pegasse a mo e que ela comeasse a rir. Deve ter demonstrado sua inquietao, 
porque ele continuou a andar de um lado para outro.
    - Imploro-lhe que no se preocupe, minha cara. Nada do que aconteceu afetou de qualquer forma o respeito que lhe tenho - garantiu ele.
    Shanna quase ficou frentica. A lgica a abandonou e no conseguiu esboar nenhuma justificativa lgica. Sentiu-se encurralada, mas Gaylord interpretou-lhe a 
intranqilidade como indeciso e ousou mais. Seu joelho comeou a dobrar como se ele fosse ajoelhar-se  frente dela, quando seus olhos vaguearam e ele de repente 
enrijeceu:
    - Bom-dia. - A voz soou alegre da porta. - E  mesmo um lindo dia.
    Arfante, Shanna virou-se e deu de cara com Ruark, a ltima pessoa que esperava viesse salv-la.
    - Sr. Ruark! Tem certeza de que pode estar andando por a? - Forou ao mximo o tom de preocupao na voz, para que o alvio que a invadiu pudesse ser dissimulado. 
- E sua perna? Melhorou?
    Melhor do que ningum, ela sabia que trs dias de descanso e emplastos haviam realizado maravilhas. Na vspera  noite, o mdico trocara o curativo e afirmara 
que o ferimento estava a caminho de recuperao. Ela percebeu o suspiro de desapontamento de Gaylord, quando este se resignou ao destino bvio de continuar  espera.
    Ruark mancava apoiado na bengala de Trahern e se sentou no sof, ao lado de Shanna. Sob o olhar irritado de Gaylord, seu sorriso estava mais animado e afvel, 
embora um brilho gaiato estivesse presente nos olhos ambarinos que to depressa refletiam suas mudanas de humor. Shanna apressou-se a se levantar e a pegar um banquinho 
onde ele pudesse colocar a perna confortavelmente. Ao debruar-se para pr uma almofada sob o tornozelo dele, no prestou ateno ao seu decote nem  maneira pela 
qual exibiu o busto a Ruark. Contudo, Gaylord irritou-se ao ver o olhar do outro vagar livremente pelos seios, da mesma forma que ele, Gaylord, estava olhando. Foi 
apanhado desprevenido quando os olhos de Ruark se levantaram e os dentes alvos do cativo reluziram em amplo sorriso de evidente prazer.
    Como estava admirando a aparncia de Ruark, Shanna no percebeu a troca de olhares entre os dois homens. Ruark vestia uma camisa branca larga e cales cor de 
mostarda, meias brancas e, surpreendentemente, sapatos castanhos com fivelas de lato. Ela estremeceu internamente  idia da dor que ele devia ter sentido ao calar 
o p esquerdo. Em cima da camisa, usava o gibo comprido de couro que usara como capito pirata. Em contraste seu rosto estava mais moreno e magro, os olhos mais 
vivos, os dentes mais alvos e os cabelos mais negros. Nunca o vira mais bonito, nem conseguiu esconder o brilho suave que lhe ardia nos olhos, quando o olhava.
    - Madame Beauchamp!
    Shanna estremeceu, surpresa, percebendo que Gaylord exigia que ela lhe prestasse ateno.
    - Perdo, mas no ouvi..
    - Obviamente, madame, pois tive de repetir a pergunta.Perguntei se a senhora gostaria de dar um passeio no jardim. De repente, ficou meio abafado aqui dentro.
    - Ento, eu abro as portas. - Ela correu e abriu as portas, sem responder  pergunta de Gaylord, e ficou um instante gozando a suave e fresca brisa matinal. 
- Est fresco - informou aos dois homens, mas, quando se virou, seu olhar fixou-se em Ruark. - O final de setembro sempre  acompanhado por ventos mais frios e chuvas 
 tardinha. As nuvens se juntam no lado sul da ilha a tarde inteira e, pouco antes de escurecer, elas vo at a serra e formam chuvas.  a poca em que a cana-de-acar 
mais cresce.
    As portas envidraadas emolduravam-na magnificamente, e o luxuriante verde dos gramados lhe acentuava a beleza de tal forma que Ruark sentiu quase dor ao olh-la. 
Ela estava um quadro de raro encanto. O vestido turquesa era de tom ligeiramente diferente do de seus olhos, e lhes ressaltava o tom e as pestanas espessas; Ruark 
ficou fascinado.
    Sbito, os trs se assustaram com um rudo de vidro se quebrando vindo da varanda. Cenho franzido, Shanna virou-se e foi at a varanda a tempo de ver Milly passar 
roando de leve por uma cadeira, na pressa de abandonar um vaso quebrado que havia sido deslocado de seu lugar junto s portas da sala de estar.
    - Milly! O que est fazendo? - perguntou Shanna.Deu-se conta, admirada, de que a moa deveria ter estado escutando atrs da cadeira, o que no era de estranhar, 
pois j o havia feito no estbulo. Shanna se perguntou o que a garota quereria agora.
    Milly deu uma volta com o corpo e se ps imediatamente na defensiva.
    - No fui eu que o quebrei. A senhora no me pode culpar.
    - Sim, realmente o vento est um pouco forte - retrucou Shanna, com uma ponta de sarcasmo. - Mas no se importe com isso. O que voc quer aqui? Trouxe peixe?
    - Eu... - Milly desviou os olhos de Shanna e olhou para dentro da sala de estar, e disse impetuosamente: - Ouvi falar que o Sr. Ruark estava ferido, e vim ver 
se h alguma coisa que eu possa fazer por ele.
    - Voc est meio atrasada, mas pode entrar. Ele est aqui.
    Shanna conduziu a garota  sala e fez sinal para que se sentasse ao lado de Ruark, evitando o olhar interrogativo do rapaz. Apesar de ele sempre afirmar no 
ter nada com Milly, Shanna se irritava pela garota no conseguir deix-lo em paz. Sir Gaylord levantou-se quando a moa entrou, e ela ensaiou uma reverncia cmica.
    - Eu sou Milly Hawkins, Chefe - apresentou-se a moa, de modo atrevido, antes de sacudir o traseiro e se sentar. Olhou, arrogante, para Ruark e disse: - Ouvi 
dizer que se deu mal, Sr. Ruark. Espero que no tenha sido nada srio.
    Shanna fechou os olhos para no ver Milly, e Ruark se esforou para conter a vontade de rir. Quando recuperou a pose, ele sorriu para Shanna e disse:
    - Graas aos cuidados de Madame Beauchamp  que estou vivo, Milly.
    - Ah, ? - perguntou Milly, virando os olhos negros arregalados para Shanna. - Ela ento deve estar menos furiosa com o senhor desde a ltima vez que vi os dois 
juntos. Ela bem que arrasou o senhor naquela vez.
    Gaylord demonstrou vivo interesse por essa frase e indagou:
    - Arrasou como? O que voc est dizendo?
    - No importa - disse Shanna, depressa. - Algum quer ch?
    - Berta prometeu que me traria uma bandeja aqui - disse Ruark. - Quando ela vier, tomarei uma xcara.
    Subitamente, Shanna deduziu por que a governanta sara to apressada. Com certeza, vira Ruark entrar na sala de jantar, vindo do vestbulo.
    Para variar, Sir Gaylord insistia no mesmo assunto. Berta mal conseguiu servi-lo com civilidade, mas desdobrou-se para com o cativo ferido. O enorme Pitney s 
falou com ele o exigido pela condio de cavaleiro do reino de Gaylord, mas deteve-se em todas as frases ditas pelo colono Ruark. Mesmo Orlan Trahern, embora no 
pudesse ser acusado de desrespeito, manteve-se reservado, e s se mostrou loquaz em relao a Ruark, que havia provado ser mais do que uma pedra no sapato do corajoso 
Sir Gaylord.
    Berta voltou a ser a pessoa alegre de sempre, enquanto ajudava Milan a servir a Ruark sua refeio matinal, e Sir Gaylord ficou  margem do grupo, irritado. 
Sentia-se como se houvesse acabado de ouvir uma piada cuja graa lhe houvesse escapado, enquanto os demais riam. Foi quase mais do que um cavalheiro poderia suportar 
e, para tornar as coisas ainda mais insuportveis, ele no podia sequer tomar satisfaes em referncia  presena do cativo na sala de estar de Trahern.
    - J vou indo! - Milly bateu nas coxas, aps demorado silncio e se levantou. - No ia mesmo me demorar. S vim ver como o senhor estava passando, Sr. Ruark. 
E tambm no posso bater papo direito com o senhor porque tem muita gente em volta.
    A moa rebolou os quadris ao se dirigir  porta, fazendo com que Berta sacudisse a cabea, enquanto seus olhos azuis reviravam. A governanta afobou-se para sair 
junto com Milan, e Milly virou-se  porta que dava para o vestbulo e disse:
    - Pode deixar que acho o caminho. No, quero ir pela varanda, porque posso cortar o p. - Remexeu os dedos dos ps, que concentravam a ateno geral. Esqueci 
de novo as sandlias.
    Saiu lentamente, no sem antes acenar timidamente para Ruark, e fechando a porta de modo firme. Shanna quase suspirou aliviada, mas se conteve ao ver que Gaylord 
a olhou de repente, cruzou as mos atrs das costas e se inclinou levemente para frente.
    - Agora, Madame Beauchamp, quanto quele passeio... Shanna animou-se:
    - Claro, Sir Gaylord! - E levantou-se, alisando o vestido de cambraia por cima das anquinhas. - Gostaria de nos acompanhar, Sr. Ruark? Acho que um passeio lhe 
faria bem.
    O rosto do ingls mostrou imediato desagrado e seu cenho se franziu quando ele disse:
    - Se eu fosse ele, no iria. Poderia escorregar e quebrar a outra perna.
    Ruark ficou de p com uma habilidade que surpreendeu Shanna, e dirigiu ao emburrado cavaleiro um sorriso malicioso de incrvel alvura:
    - Pelo contrrio, concordo em que o exerccio me faria bem. - Fez uma meia reverncia e disse: - Aps a senhora, madame, evidentemente.
    - Vamos pela frente - sugeriu Shanna. - Ser mais fcil para o Sr. Ruark descer as escadas com a balaustrada para ajud-lo.
    Ela deslizou at a porta da sala de estar e parou recatada, esperando que a porta fosse aberta. Gaylord foi rpido e, curvando-se galantemente, segurou-a aberta 
para ela. Fez meno de se colocar ao lado da moa, quando foi interrompido:
    - Obrigado, Sir Gaylord.- disse Ruark, passando rpido por ele e ficando atrs de Shanna. - O senhor  muito atencioso.
    Gaylord no teve alternativa seno ir atrs como um criadinho. At a viso de Milly ainda no corredor no alterou a sensao de alvio de Shanna por haver sido 
mais esperta do que o nobre.
    - Obrigada, Chefe! - A voz de Milly ecoou na imensido do vestbulo, quando ela pegou a moeda que Ralston lhe atirou. Imediatamente, prendeu-a no corpete, foi 
caminhando devagar at a porta e disse: - Estarei l hoje.
    Ralston cumprimentou os trs arrogantemente e, na presena de Shanna, mal fez um aceno com a cabea para Ruark. Seus olhos passaram pelo rosto de Gaylord, e 
ele apressadamente dirigiu o olhar para Shanna.
    - Vim pegar uns papis no escritrio de seu pai. A senhora me d licena, madame?
    - Claro - concordou Shanna, friamente. - Devo pedir a Jason que o ajude a encontr-los?
    - No  preciso, madame - retrucou o homem de modo severo. - Seu pai j me orientou sobre a localizao deles.
    O pequeno grupo foi at o prtico, enquanto Ralston observava, rosto cheio de dio. Seu punho estava enredado em seu chicote como se ele ansiasse por us-lo 
no duvidoso Sr. Ruark, e demorou algum tempo para que ele se virasse e se dirigisse ao escritrio deTrahern. Sentou-se na cadeira do latifundirio e comeou calmamente 
a separar papis e esboos espalhados na enorme escrivaninha. Estudou atentamente os desenhos dos dois engenhos. A construo da serraria havia entusiasmado Trahern, 
e Ralston reparou em anotaes recentes no pergaminho que s poderia haver sido feitas pelo cativo. Sem dvida, o ansioso proprietrio se havia apressado a ir at 
a cabeceira de Ruark para discutir o projeto antes que outra coisa o atrasasse. Nos ltimos dias, Trahern no saa do canteiro de obras, onde substitua o construtor 
ao mximo.
    Embora Ralston cuidadosamente seguisse todas as linhas e lesse todas as anotaes, compreendeu pouco do plano e ignorou as plantas como arma para desacreditar 
o projetista. Arrogante, recostou-se na cadeira que parecia diminuir-lhe o tamanho franzino e meditou no sucesso de John Ruark. Irritava-lhe o prprio sentido de 
auto-importncia que o outro tivesse chegado a tal condio de valor junto a Trahern que este o julgasse indispensvel. Ralston se prometeu que um dia teria a oportunidade 
de lidar com o cativo da forma que ele julgava merecida.
    Sir Gaylord tambm achou difcil enfrentar John Ruark e sua interferncia. Embora o homem estivesse realmente mancando, dera um jeito de se interpor entre a 
dama e ele. Gaylord ansiava por um momento a ss com Shanna para poder cortej-la, e sentiu-se profundamente agastado ao se ver sempre falando atrs do arrogante 
biltre. Finalmente, pediu licena para retirar-se.
    - Escravos e criados arrogantes! - resmungou Gaylord baixinho, ao cruzar os gramados com seu porte magro e desengonado. - Todos eles deveriam ser vergastados. 
- Deu um risinho escarninho. - Depois do casamento, eles aprendero o que  ser um bom criado.
    Ruark debruou-se na bengala e observou o homem se afastar.
    - Pelo menos, aquele paspalho sabe quando  indesejvel.
    Ao olhar para Shanna, ela j se afastava, caminhando entre os arbustos, retirando uma folha seca, parando para arrancar ptalas fenecidas de um broto, inclinando-se 
para extirpar uma erva daninha do solo harmoniosamente tratado. Ruark a seguia, tentando ajeitar-se com a perna enrijecida, depositando o peso cuidadosamente sobre 
ela antes de dar um passo, e dependendo ao mnimo da bengala.
    Quando ficaram sozinhos, Shanna teve dificuldade em sequer manter um ar sereno. Seu corao bateu acelerado e ela se sentiu uma garotinha apaixonada pelo primeiro 
namorado. Cautelosamente, evitou olh-lo e concentrou-se nas flores e nas folhagens. Pelo canto do olho, viu-o andar com dificuldade e, relanceando o olhar para 
o rosto dele, viu-o fazer uma careta de dor antes que pudesse disfarar. Sua pose empertigada desapareceu na hora, e num segundo ela estava ao lado de Ruark.
    - Sua perna! - exclamou, como se a agonia fosse sua. - Deve estar doendo demais!
    Ruark levantou os olhos e a encarou, e o tempo parou. A mo de Shanna apoiou-se suavemente no ombro do rapaz e, ansiosamente, ela lhe examinou o rosto em busca 
de uma indicao. Ambos ficaram imveis, tocando-se, desejando, querendo, e os lbios macios o atraam cada vez mais...
    Shanna respirou esbaforida. Nervosa, recuou e esfregou a mo, como se estivesse com cibra por hav-lo tocado. Fez um gesto para a coxa dele e, com voz dbil, 
disse:
    -  bom irmos voltando. Voc no est acostumado a isso.
    -  verdade - concordou Ruark com aspereza. - No estou habituado a ficar perto de voc, e voc  um desafio terrvel ao meu controle.
    Shanna virou-se para no olh-lo. Ficou brincando com um broto grande de flamboyant. Ruark a observou detidamente por um instante, meio perplexo, sentindo a 
incerteza da moa, mas no a entendendo. Ele no podia saber que o pulso dela estava acelerado. Foi para trs dela e ps a mo em sua cintura fina. Shanna estremeceu 
como se a houvessem queimado e repudiou-lhe o abrao.
    - No! - exclamou, debatendo-se num esforo para controlar-se. - No me toque. - Tentou rir alegremente, mas o riso saiu forado e sufocado. - Devo lembrar-lhe, 
senhor, que no estamos acompanhados. Mantenha distncia. - As palavras soaram vazias e pesadas, em vez de leves e divertidas conforme ela tencionara.
    - Foi alguma coisa que disse ou fiz? - perguntou Ruark, brandamente.
    - No. - Shanna tentou sorrir para aqueles olhos indagadores, mas o esforo fracassou. Inibida, arrancou um broto e o girou entre os dedos, inquieta.
    - Faz trs noites que voc... ficou comigo - murmurou Ruark, com voz baixa e suave. - Ouo-a se movimentando no quarto  noite, como se estivesse nervosa. Est 
zangada comigo?
    - No! - A resposta foi muito rpida, curta e agressiva. Shanna meneou negativamente a cabea, lbios cerrados.
    Ruark inclinou-se para a frente para acariciar um cacho do cabelo dela no ombro. Sua voz saiu rouca e entrecortada.
    - Posso tocar s um pouquinho?
    Ela no respondeu, e esmagou o broto nas mos, que se entrelaaram para no tremer.
    - Quero voc. - O sussurro dele crepitou como fogo nos ouvidos dela.
    - Ruark, no diga isso! - As palavras irromperam num meio soluo. - No posso.
    A mo dela comprimiu os lbios trmulos e seus olhos se fecharam, quando ela lutou contra a torrente de emoes que derrotavam todas as suas intenes. A flor 
caiu no cho sem ser vista.
    - No tocar? No dizer? - O tom de Ruark foi severo. - Shanna, est com medo de mim?
    Os olhos dela se arregalaram e perceberam o brilho raivoso nos olhos dele.
    "Sim! Sim! Sim!" Sua mente gritou at seu crnio doer, mas sua voz desapareceu, e as mos ficaram grudadas nos quadris, enquanto ela o contemplou muda. "Sim", 
pensou ela, "tenho medo de voc. Tenho medo de que voc me toque e eu desmorone. Tenho medo de que voc diga Eu a amo! e eu me derreta a seus ps. Tenho medo de 
j no conseguir resistir-lhe. No compreende? Estou indefesa. Voc me conheceu bem demais, e eu o conheci de forma ardorosa demais. Cuidei de suas mgoas e acalmei 
seus desejos, e voc fez o mesmo por mim. Esperei temerosa por uma palavra de esperana de seus lbios e o observei dbil e indefeso na cama. No posso mais negar 
sua importncia para mim."
    Para Ruark, porm, ela conservou o cenho franzido e sofrido, prejudicando-lhe a beleza, contorcendo as mos e lambendo os lbios subitamente secos.
    - Eu... meu pai vai chegar logo. - A voz dela estava aguda e retesada como a corda de um arco. - Preciso providenciar o almoo dele.
    Foi uma desculpa esfarrapada, quase intil, mas bastou, e Shanna saiu correndo do jardim, deixando Ruark voltar sozinho.
    De repente, as palavras de Ruark lhe voltaram, e Shanna parou onde estava, percebendo que mais uma vez ele estivera andando de um lado para outro em seu quarto. 
A semana passou e havia sete torturantes noites que ela no estivera com ele. Sua determinao, porm, ia desmoronando. Os olhos dele a perseguiam, e ela os via 
no espelho, de sua prpria paixo e seus desejos. Agora que Ruark havia recuperado certo grau de mobilidade, estava sempre perto, observando-a, esperando. O nico 
alvio do olhar dele era quando alguns dos capatazes vinham da serraria para obter detalhes ou esclarecimentos sobre os esboos, e ela ento ficava a salvo dos olhares 
cpidos que ele lhe lanava.
    Tentando pegar no sono que desejava to intensamente, Shanna lanou mo de tudo: banho quente, leitura, comeu alguma coisa, leu poesia, e chegou a tomar um copo 
de leite trazido por Hergus. Apesar de tudo, porm, continuava inquieta. A cama parecia excepcionalmente grande e os lenis frios. Embora o relgio houvesse soado 
11 horas, ela no tinha vontade de dormir. Na verdade, sentia um novo despertar dentro de si, to agudo e pungente que era quase fsico. Desde sua volta, ela prestava 
mais ateno a seu relacionamento com Hergus e  natureza afetuosa e suave de Berta e  afeio s vezes brusca de Pitney, e at de seu pai. Nunca demonstrara especialmente 
seu amor em relao a nenhum deles, mas em criana reagia com afeio, quando eles lhe agradavam e tinha acessos de raiva quando isso no acontecia.
    E havia Ruark. Sua perna estava cicatrizando com rapidez quase mgica, e embora Shanna se esforasse por esfriar o relacionamento, sempre e cada vez mais o comparava 
com outros homens, e j no pensava no cavaleiro imaginrio. Temia sequer questionar o significado disso, pois no queria admitir coisas em que ela se recusava a 
pensar.
    A passos lentos e medidos, Shanna foi at a sacada. A brisa fresca estava meio fria e ela ficou contente por estar vestindo uma camisola mais grossa depois do 
banho. Meio sentada na balaustrada, enrolou as pregas em volta do corpo nu e olhou anelante para o cu sem Lua. As estrelas mostravam-se brilhantes e claras contra 
o veludo negro da noite. O brilho nublado da Via Lctea revelava-se magnfico de horizonte a horizonte.
    Shanna comeou a andar para l e para c de novo, e se viu em frente s portas envidraadas do quarto de Ruark. Estaria ele dormindo? Estaria acordado? Ele dissera 
que costumava escut-la andar de um lado para outro. Sentiu imperiosa necessidade de satisfazer sua curiosidade e seus ps delicados a levaram para frente, contra 
sua vontade. Ele estava l. Pde ver-lhe o vulto debaixo do lenol e seu peito moreno e nu. Percebeu ento que os olhos dele estavam abertos e que ele a observava.
    Suas mos desamarraram o cinto e o roupo escorregou para o cho. Sua pele alva e macia brilhou ligeiramente na escurido antes que ela levantasse o lenol e 
se enfiasse debaixo dele. Os braos de Ruark a envolveram e sua boca comprimiu a dela, insistente, exploratria, voraz, acendendo chamas que haviam ardido s ocultas 
em grau insuportvel de xtase naquele instante. Era a ventura de estar  vontade, o estrondo da paixo renovada, a doura de um acordar na primavera, e a dor da 
rendio, tudo misturado em um s elemento e fundido aos movimentos rtmicos mtuos de seus corpos, quando ele sequiosamente a possuiu. A combinao foi explosiva 
e fez com que os dois virassem um s; depois os lanou s alturas, num vo profundo e intenso, at os dois ficarem sem flego e exaustos.
    - Ruark - sussurrou ela, aninhada no peito peludo.
    - Que , meu amor? - disse ele, beijando-lhe a fronte. Houve demorado silncio.
    - Ah, nada. - Ela se aconchegou mais, e sorriu em meio  sonolncia que a envolveu antes que dormisse.
    E assim foi. Os ltimos sedimentos dos sonhos de Shanna comearam a romper-se sob o mpeto do amor de Ruark. Achava seus aposentos solitrios, quando Ruark no 
estava l. Quando ele cavalgava com Trahern at a serraria, Shanna esperava ansiosa que o marido voltasse, exatamente como esperara a volta do pai em criana. Em 
algumas ocasies os capatazes vinham depois do jantar discutir problemas da serraria que s Ruark podia esclarecer. Nessas horas, para evitar a companhia insistente 
de Sir Gaylord, Shanna buscava a privacidade de seu quarto. L, esperando por Ruark, o pndulo do relgio parecia ficar parado. Mais de uma vez, o livro de poesias 
pendeu em suas mos enquanto o sono a dominava. Em seguida, despertava e sorria sonolenta quando os fortes braos a envolviam e o corpo musculoso e quente se comprimia 
contra o seu. Uma voz rouca murmurava-lhe ento ao ouvido "Eu a amo", os minutos voavam e o som do relgio virava uma cantilena que ela gostaria de fazer cessar.
    O lago to essencial para a serraria ficava depois da vila, mas perto de onde os troncos podiam ser alados da baa, logo abaixo, ou boiavam pelo riacho. A represa 
ficou pronta e o fluxo do regato reduziu-se a um mero fio e a ravina estava cheia de gua salpicada de pedras. A prpria serraria se achava situada num local acessvel 
s carroas que transportariam a madeira para longe dali. Um canalete alto carregava a gua e os troncos para a serraria, vindos do lago, onde eram coletados. Tudo 
isso estava esboado na planta, mas muitos detalhes, no. As horas de Ruark eram ocupadas com as constantes solicitaes de Trahern e as perguntas dos capatazes. 
As manhs eram ocasies de grande agitao, quando os feitores traziam problemas para Ruark resolver. Era freqente chegarem  hora do desjejum e comearem imediatamente 
a discutir os planos.
    Naquela manh, aps haver acompanhado o ltimo capataz at a porta, Ruark se viu sozinho na enorme manso, a no ser pelos criados.
    Quando ele se sentava, Milan ou Berta ficava por perto, desejando agrad-lo com algum pequeno servio. Quando ele andava de um lado para outro, Jason se postava 
perto da porta principal para abri-la caso o hspede resolvesse sair. Ruark comeou a perceber que perturbava a rotina da casa, o que aumentou sua agitao. Estava 
irritado porque Shanna sara para andar a cavalo com Sir Gaylord. Era um osso duro de roer: ter de ver os outros prestarem homenagem  sua mulher, enquanto ele no 
podia reivindicar seus direitos mais insignificantes como marido. A casa se transformou numa cmara de torturas e, vestindo o gibo de couro, ele deixou a manso 
para os criados.
    tila se agitava no estbulo, desacostumado a ser deixado para trs, e nervosamente aceitou os torres de acar da mo de Ruark. Desde que havia sido feito 
prisioneiro pelos piratas, Ruark no montava o corcel, mas estava inquieto e resolveu testar sua perna.
    - Vamos, sua cabea de purunga - acariciou o nariz macio e bem feito do animal. - Vamos divertir-nos um pouco.
    Segurou o cavalo por certo tempo, para testar a resistncia de sua perna. Como achou que estava razovel, sacudiu as rdeas e conduziu o animal pela estrada 
que levava ao engenho.
    O final da manh estava ventoso e quente, mas quando Ruark atravessou a crista do pico da ilha, o vento lhe borrifou o rosto com uma nvoa fina, e antes que 
ele descesse at o pequeno vale onde ficava o engenho, sua camisa estava ensopada nos lugares no cobertos pelo gibo de couro. O passeio foi revigorante. S faltava 
Shanna para partilhar sua alegria.
    Os rolos dos trituradores estavam silenciosos, aguardando a nova safra, e havia poucos supervisores por ali. O restante dos homens trabalhava na serraria, apressando-se 
a conclu-la, antes que Trahern viajasse s colnias. Ruark entrou no engenho pela cozinha e cumprimentou, alegre, o homem que testava e alimentava as caldeiras 
de melao.
    - Sr. Ruark, o que est fazendo aqui?
    - Dando uma olhada nas coisas - respondeu Ruark. - Algum problema?
    - No, senhor - replicou o homem, com uma risadinha de satisfao. - O senhor fez uma construo muito boa. Mas o capataz vai informar melhor o senhor sobre 
isso. Ele est provando o rum.
    Quando entrou na ala de destilaria, Ruark se impressionou com a sensao de serena atividade que predominava ali. O estalar do fogo sob as enormes caldeiras 
se misturava ao rudo de gotejar dos tubos e ao sibilar de vapor pelos canos, o que enchia o local de tons sutis. A sombra de um homem se repetia no cho empedrado 
onde o Sol se derramava pelas janelas no fundo do aposento. Ruark fez uma pergunta ao mestre fermentador, e comeou a abrir caminho por entre as caldeiras atarracadas 
que reluziam sob as espirais de cobre das serpentinas. O calor era quase insuportvel, e subia vapor da camisa e da cala ensopadas de Ruark. O suor lhe escorria 
de todos os poros, e ele vagamente se perguntou se o homem havia sido cozinhado vivo no ar mido e quente, ou se havia ficado surdo. Ao ultrapassar uma viga, o p 
de Ruark escorregou no cho mido de pedra e ele se debateu para no se desequilibrar. O sbito esforo na perna enfraquecida provocou uma pontada que o fez soltar 
imprecaes raivosas. Agarrou a viga para apoiar-se e esperou a dor desvanecer-se.
    Subitamente, um rudo alto de metal soou no local e uma parte de tubo, do tamanho de um brao, atingiu violentamente a viga na qual ele estava, espalhando vapor 
e mistura escaldantes por toda a parte. Ruark cambaleou para trs e ps um brao sobre o rosto, para proteger os olhos. Sua perna ainda estava muito dura para permitir 
tal movimento e ele se estendeu de costas sobre o cho, mas conseguiu rolar para longe do giser que vomitava aguardente quase pronta.
    Distantes caibros do telhado eram obscurecidos pela nuvem de vapor acastanhado que rolava. Ruark verificou que, se tivesse dado mais um passo  frente, teria 
sido apanhado no meio do inferno que jorrava do cano e no teria tido oportunidade de escapar. Apenas a rpida pausa que fez o salvou da agonia, at da morte.
    Um grito ouviu-se s suas costas e, ao relancear os olhos, percebeu um operrio agachado  porta, esforando-se para espreitar atravs da espessa nvoa. Quando 
Ruark respondeu, o homem veio agachando-se at ficar a seu lado.
    - O senhor est bem? - A pergunta foi gritada contra o chiado estrondoso da presso que escapava.
    Ruark fez um sinal afirmativo com a cabea, e o sujeito se inclinou para frente.
    - H uma vlvula aberta. Vou ver se fecho. - E desapareceu na nuvem densa antes que Ruark lhe pudesse dizer que o mestre fermentador estava l exatamente para 
esse tipo de coisa. Aps longo instante, o som sibilante comeou a diminuir e finalmente desapareceu.
    - Meu Deus, que foi que houve? - O berro veio da porta e as sobrancelhas de Ruark se ergueram em surpresa, quando ele reconheceu a voz do mestre fermentador. 
Ele se levantou imediatamente.
    - Soltou-se um tubo. Foi um acidente.
    - No foi acidente, senhor. - Outro operrio avanou por entre a nvoa. - Olhe isto aqui. - Exibiu pesado martelo. - Algum cretino bateu na junta com isto.
    - Minhas caldeiras! Meu rum! Tudo estragado! - O mestre fermentador torceu as mos ao se lamentar. - Vai levar dias at eu limpar essa sujeira toda. - Seu tom 
elevou-se num grito de raiva. - Se eu pegar esse desgraado, toro-lhe o pescoo!
    - Deixe um pedacinho do pescoo para mim, Timmy - disse Ruark tenso, curioso para saber de quem era a sombra que havia visto. - No fosse por esta viga, eu teria 
virado cinza.
    O homem olhou para Ruark como se o visse pela primeira vez e ficou estupefato.
    -  - concordou o primeiro operrio. - Algum cretino tentou ferver o Sr. Ruark. Sempre verifico todas as juntas e tubos antes de acender as caldeiras. Esta que 
explodiu comeou a funcionar hoje de manh. No tinha jeito de ela explodir sozinha.
    - Talvez o sujeito no me quisesse fazer mal, s fazer uma sujeirazinha. Seja qual for a inteno dele, vamos deixar o assunto como est, a no ser que encontremos 
um motivo. - Ruark silenciou-lhes as objees com a mo levantada. - Se algum quis realmente me fazer mal, j estou prevenido e daqui para frente vou tomar mais 
cuidado. Ps o assunto de lado e explicou ao mestre fermentador: - Vim ver se estava tudo bem. O senhor tem algum problema?
    - No - replicou o homem, bufando. - S esse de hoje.
    - Espero ardentemente que o senhor no tenha mais nenhum problema semelhante - falou Ruark. - Vou embora. Fique descansado; no lhe invejo o trabalho. - Com 
um ltimo e melanclico olhar para o cano gotejante, saiu do local.
    Ruark abriu a pequena porta, saiu e encostou-se no muro pesado de tbuas para inalar ar fresco, enquanto massageava a dor que lhe lancinava a coxa. No havia 
maneira de algum no o haver percebido na destilaria; portanto, ele s podia deduzir que algum queria realmente fazer-lhe mal.
    Seus olhos examinaram o ptio  procura de algum sinal de seu atacante. A pequena distncia, perto do alimentador, havia dois homens, um alto e magro, vestido 
de negro. Era simplesmente Ralston! O homem com quem ele estava falando era um dos operrios, um sujeito troncudo, de braos fortes. Quando seus olhos deram com 
os de Ruark, Ralston enrijeceu. Girou rpido o corpo e saiu em largas passadas at seu cavalo, deixando o operrio embasbacado.
    Ruark franziu o cenho. Pensando bem, ele se lembrava de haver ouvido o rumor de cascos de cavalo a certa distncia na trilha, quando ele se dirigia ao engenho. 
Teria Ralston o seguido j premeditando fazer-lhe algum mal? Talvez tivesse medo de que Ruark contasse a Trahern a verdade sobre a aquisio de cativos na cadeia, 
mas Ralston deveria entender que tambm Ruark precisava guardar segredo a esse respeito, pois tinha mais a perder com o n da forca em seu pescoo.
    Ruark atiou as rdeas de tila e ps-se a cavalgar. O corcel estava em rara forma, e Ruark deixou-o estender bem os msculos antes de dirigir-se para a manso.
    Havia arrumado a sela e os arreios no lugar adequado no estbulo e estava enxugando o suor das ancas de tila com um pano, quando ouviu, ou percebeu, pequeno 
movimento s suas costas. Olhou rapidamente para evitar que lhe acontecesse algum desastre. Era Milly, do lado de fora do estbulo. Por um instante, a garota pareceu 
que ia fugir, mas reuniu coragem, aprumou os ombros e se dirigiu a ele rebolando no que ela esperava fosse um andar provocante. Ruark continuou a tarefa, sem saber 
se deveria sentir-se aliviado ou apreensivo.
    A jovem encostou-se no pequeno porto, observando-o, e disse devagar, mastigando uma haste de feno:
    - Bom-dia, Sr Ruark. Vi o senhor vindo pela estrada montado nessa beleza de bicho a. - tila resfolegou e cutucou o ombro de Milly com o focinho. - Tambm tenho 
jeito com animais. - Ela riu. - A gente no  to diferente assim.
    Ruark resmungou algo a guisa de resposta e estendeu o pano para secar. Em seguida, comeou a pentear a longa crina e a cauda.
    - Bem, John, meu boneco. - A voz de Milly ficou rspida. - Pode ignorar-me, se quiser, mas foi voc mesmo que eu vim ver.
    Ruark parou e olhou para ela com uma sobrancelha levantada, em atitude inquisitiva.
    - Pois no, mocinha. - Quando queria, ele imitava exatamente a forma de falar da gente do povo. - Quer falar comigo, no? E que assunto to importante a trouxe 
a um estbulo to fedorento?
    Jogou um punhado de plos de tila no cho e lhe levantou uma perna para ver se havia pedrinhas na ferradura.
    - Aqui  o nico lugar em que eu posso falar com voc, sem que aquela grudenta da Madame Beauchamp me apoquente.
    Ruark riu e disse:
    - Omessa! - brincou ele. - Parece que voc tem uma coisa importante para resolver.
    - E tenho mesmo! - retrucou ela, com surpreendente rancor. - Eu tenho  que mostrar a essa putinha da Shanna o lugar dela.
    Ruark largou a ltima ferradura de tila e olhou para a moa por cima do lombo do animal.
    - Olhe aqui, mocinha, vou avisar-lhe uma coisa. Aquela mulher tem um gnio desgraado e  bem capaz de virar bicho quando souber de um comentrio desses. - Deixou 
tila e pousou o brao no alto da baia. - Se fosse voc, tomaria mais cuidado com as coisas que diz por a.
    Milly firmou as pernas e debruou-se para frente, dedo apontado para o peito, e riu arrogante.
    - Eu estou esperando beb.
    Cada palavra foi enfatizada, e Ruark ficou imediatamente de mau humor. De repente, o assunto era mesmo srio. Antes de ela pronunciar as palavras seguintes, 
ele sabia quais seriam:
    - E voc - apontou o dedo para ele. -  o pai.
    Os lbios de Ruark viraram uma linha fina e irada e seus olhos reluziram de dio. Ele estendeu a mo e disse:
    - Milly, voc acha mesmo que eu me deixo ser engambelado to facilmente assim?
    - No. - Ela recuou e voltou a debruar-se para frente, sempre mastigando um pedacinho de palha. - Mas tenho um amigo que me vai ajudar a mentir E sei de tudo 
sobre voc e a Madame Metida a Besta. O pai dela no vai aceitar um escravo dormindo com a filhinha dele. Isso deve valer umas moedinhas, e eu podia chegar at a 
dizer que voc nunca a viu mais intimamente. Pra dizer a verdade, pode ser at que ela mesma desse dinheiro para eu mentir. E a gente podia ter a vida que pediu 
a Deus, Benzinho.
    Ruark a olhou fixo, e compreendeu que ela falava srio. Seu cenho se franziu e a expresso ficou assustadora:
    - No conseguem coagir-me to facilmente assim, Milly, nem vou bancar o pai de um guri fruto de um caso seu com algum marinheiro. - Sua voz estava baixa, mas 
continha um tom rspido que feria mais do que palavras.
    - Juro que o beb  seu - afirmou ela.
    - Voc sabe muito bem que nunca tivemos nada. Voc espalha essa mentira que daqui a pouco todo mundo vai saber, hem?
    - Vou fazer voc casar comigo!
    - No me caso com voc!
    - O prprio Sr. Trahern vai mandar.
    - No posso casar-me com voc - rosnou Ruark. Milly o olhou, admirada.
    - J tenho mulher. - Foi  nica coisa que ele podia dizer que a faria deter-se. A boca da moa ficou aberta, e ela recuou, cambaleante, um passo, como se tivesse 
sido atingida.
    - Uma mulher! - Deu um risinho breve e seco. - Uma mulher!  claro que voc podia ter-se casado na Inglaterra. Uma mulher! E aposto que tambm tem filhos. A 
Dona Metida a Besta vai ter um ataque. - Ela relanceou os olhos em derredor e comeou a rir alto e desordenadamente. - Uma mulher! Meio soluante, ela saiu correndo.
    Shanna estava cavalgando Jezebel de volta ao estbulo e ia passar pela porta aberta, quando a gua relinchou e recuou. Milly, saindo correndo do local, quase 
foi parar debaixo das patas do animal. Quando viu os cascos quase em cima, gritou de pavor. Jezebel empinou e Shanna precisou esforar-se para ficar na sela. Depois 
que aquietou Jezebel, Shanna concentrou sua ateno em Milly, que a contemplava a distncia com um sorriso estranho.
    - Que diabo voc est aprontando, Milly? - perguntou Shanna, irritada com a falta de ateno da moa.
    - A est ela! soluou a assustada Milly, enquanto as lgrimas lhe escorriam pelo rosto. Passou roando de leve a porteira do estbulo e Shanna, como se ambas 
fossem algo a ser evitado. - A prpria Dona Metida a Besta! A D. Shanna Trahern Beauchamp! Quer dizer que a senhora tem um cara, no ? Sempre fica com o melhor, 
no ? Agora, tem o homem mais bonito dessas redondezas se arrastando em sua cama. Bem, tenho uma notcia para a senhora. Ele no precisa da senhora. Ele no pode 
casar com ningum. Porque ele j  casado.
    Horrorizada, Shanna tentou acalmar a moa furiosa.
    - Milly, Milly! Voc no sabe o que diz! Acalme-se!
    A moa no quis escutar nada. Estendeu as mos e virou a cabea, enquanto ria alto.
    - Ah, espere at todo mundo saber disso-! - gemeu. - Todo mundo que pensa que a senhora  um lrio de pureza. Espere s at eles ouvirem isso!
    Shanna saltou do lombo de Jezebel e disse:
    - Milly, por favor, no faa isso! - pediu. - Voc no sabe o que est dizendo, Milly!
    A moa danava em crculos, chutando nuvens de poeira, o que fez Jezebel empinar-se de novo.
    - Quieta, eginha! - exclamou Shanna, sacudindo, irritada, as rdeas.
    - Quem diria, hem? - debochou Milly. - D. Shanna foi conquistada por um cativo. Todo mundo que ficou preocupado de a senhora estar sendo comida pelos piratas! 
Espere s at todo mundo saber disso!
    - Milly! - exclamou Shanna, em tom de advertncia.
    - A senhora, Dona Tem Tudo, nunca precisou trabalhar para ganhar nada. A senhora nunca quis coisa nenhuma. Agora, conseguiu um homem. A senhora no  melhor 
do que eu. Andando com um homem casado! Aposto que est grvida tambm.
    O rosto de Shanna ficou escarlate, ao ouvir o ltimo comentrio de Milly. No conseguindo tolerar mais os insultos, vociferou:
    - Voc pensa que ele  casado com quem? - To logo disse essa frase, Shanna deu-se conta de sua precipitao. Apavorada, ps a mo para tampar a boca, como se 
isso fosse trazer de volta as palavras, mas j era tarde. O rosto de Milly expressou sua lenta compreenso, at ela ficar boquiaberta.
    - Voc! - rosnou. - Voc! Oh, no! - A exclamao virou um lamento fnebre. Soluando violentamente, Milly girou e saiu correndo pela trilha.
    Debilmente, Shanna deixou a mo cair ao olhar para a moa, reconhecendo apavorada que revelara a Milly o segredo que ocultara durante muitos meses. Gemendo de 
desespero, Shanna bateu os ps, irritada com a tolice que havia feito. Virou-se, aptica, e ia conduzir Jezebel para o estbulo, quando deu de cara com um divertido 
Ruark.
    - Madame, a senhora acabou de contar o segredo para a maior lngua de trapo da vila.
    - Oh, Ruark! - Shanna se atirou contra ele, sentindo-se muito infeliz. - Ela vai direto contar a meu pai. E ele vai ficar to possesso que no vai querer saber 
de nada. Vai mandar voc de volta  Inglaterra para ser enforcado!
    - Calma, amor, calma. - Ruark a abraou e murmurou baixinho! No adianta preocupar-se. Se ela contar, ns admitiremos que seja verdade. Seu pai  um homem razovel. 
Pelo menos nos ouvir.
    A calma e a confiana dele comearam a tranqiliz-la, e Shanna refugiou-se nos braos fortes dele, indiferente ao fato de estarem ao ar livre, onde seria fcil 
algum v-los. Estranhamente, a possibilidade de precisar confessar seu casamento no era to repugnante como antes.
    - Pelo menos Milly vai deix-lo em paz agora - disse ela, ironicamente.
    Ruark protegeu os olhos com as mos e perscrutou os gramados distantes.
    - Onde est o bom Gaylord? Sei que voc saiu com ele.
    Ao pensar nas pobres qualidades de cavaleiro de Gaylord, Shanna riu, alegre.
    - Na ltima vez em que o vi, estava s voltas com seu cavalo. Isso foi logo depois que samos do estbulo, e ele deve estar at agora lutando para manobrar o 
cavalo e voltar para casa.
    - Ultimamente, ele ocupa grande parte do seu tempo. - A frase soou mais rspida do que ele tencionara.
    - Ruark - Shanna recuou e esfregou a ponta do chicote na lapela do gibo de Ruark, sorrindo-lhe timidamente. - No me diga que est com cimes de Sir Gaylord!
    Franzindo a testa, Ruark ficou meio de costas para ela, e seu tom moreno mostrou-se mais saliente ainda.
    - Acontece apenas que no tolero os modos de janota daquele sujeito - disse ele. Sendo mais sincero, porm, admitiu, rispidamente: - E no tolero ningum se 
fazendo de engraadinho com voc nem a olhando fixo. - Os tons dourados dos olhos dele a emocionaram, com um calor cheio de promessas. - Esse privilgio, madame, 
reivindico para mim apenas.
    - Isso  bvio, senhor - respondeu ela, implicante. Um sorriso lhe surgiu nos lbios, quando ela se inclinou para frente e murmurou confidencialmente. - E o 
senhor o demonstra com grande percia.
    Shanna olhou-o maliciosamente por cima do ombro e passou rpido por ele, conduzindo Jezebel ao estbulo. Resmungando baixinho, Ruark estendeu a mo e lhe agarrou 
a ndega, fazendo com que Shanna desse um risinho agudo, e quando a mo dele se demorou acariciando-a, a moa desviou-se e fez uma careta.
    - Seu biltre-! - disse ela. - Quer aprender a se comportar?
    - Nunca! - afirmou Ruark, olhando libidinosamente os quadris ondulantes da moa. Aproximando-se, Ruark tirou de suas mos as rdeas da gua e, passando o brao 
pelo pescoo de Shanna, ele a puxou para si.
    - Prometo que, quando estivermos sozinhos, vou descontar todas as vezes em que olho para voc e no posso toc-la.
    Deslizou a mo at o seio macio de Shanna e logo sua boca faminta estava sobre a dela, devorando-lhe a doura. O beijo foi um vinho embriagador que lhes tirou 
as foras e, de repente, uma paixo desvairada os invadiu, como um rio transbordante. A voz de Ruark estava rouca, quando ele murmurou, perto dos lbios trmulos 
da moa:
    - Seu pai s vai chegar bem tarde. Venha comigo at o chal.
    No encontrou resistncia. De boa vontade, Shanna concordou com a cabea e quase tonta, sentiu o brao dele solt-la. Cheia de calor sensual lhe invadindo o 
corpo, ela se encostou a uma viga, enquanto ele apressadamente cuidava da gua, e ao mesmo tempo no tirava o olho de Shanna, como se no se cansasse de v-la. Em 
seguida, fechou a porta da baia, e pegou a mo dela.
    Era quase hora do crepsculo, quando Shanna chegou  manso e subiu rapidamente a escada. Esforou-se para pentear o cabelo num coque, mas as madeixas douradas 
lhe escaparam dos dedos e ela no conseguiu pleno xito. Suas faces estavam ainda rosadas de paixo. O cheiro msculo de Ruark permanecia nela, e seus olhos eram 
lagos transparentes de tom turquesa. No foi surpresa que Hergus, que a esperava no quarto para pr-lhe no banho, arquejasse logo que viu a patroa:
    - Voc esteve com ele de novo! - acusou a criada. - E em plena luz do dia! No tem vergonha de ficar farreando com o Sr. Ruark debaixo do nariz de seu pai?
    Shanna titubeou e suas faces se esquentaram.
    - No use essa palavra.
    - , voc no quer que lhe lembrem o que faz. - A voz da mulher comeou a adotar seu pesado sotaque escocs, o que sempre acontecia quando ela se irritava. - 
Voc era uma verdadeira dama, at ele aparecer. Agora no consegue resguardar-se dele. Este homem parece um animal, que a vive cheirando, e no perde oportunidade 
para dormir com voc. J lhe estou vendo de barrigo, com um beb no ventre. Ele deve ser muito prosa com o que aquela cala esconde, para usar tantas vezes em voc.
    - Hergus, chega!
    - Sim, acho que chega mesmo. - A criada suspirou fundo. - No adianta falar com voc. - Hergus tentou um ltimo apelo. - Moa, voc sabe que gosto de voc, mas 
no agento mais isso. Estou aqui desde que voc era um beb e eu, uma garota. Eu tinha oito ou dez anos. - Fungou. - E agora a vejo se entregando a um cativo qualquer. 
Meu Jamie e eu...
    - seus olhos ficaram frios - a gente vem de um cl muito pobre, e a gente fez o mesmo que vocs dois fazem. Mas voc! - Sua ateno voltou a Shanna e ela disse, 
com exagero: - Shanna, minha menina, voc nem liga para o que est fazendo. No tem nenhuma vergonha?
    Shanna levantou o queixo. Estranhamente, no achava estar fazendo nada de errado e se perguntou por que no sentia o menor remorso. O que havia quando ela estava 
no conforto dos braos de Ruark, que fazia com que tudo parecesse certo? Amor? Sim, ele a amava. Havia afirmado que sim. E ela, porm? Ela o amava? Quando se reconhecia 
o amor? O que a fazia abrir mo de tudo, se no por amor a Ruark? Por paixo? Sim, havia amor, mas havia tambm mais do que isso. Porm, frente ao olhar interrogativo 
de Hergus, ela no conseguiu encontrar respostas.
    - No. - Ela sussurrou to baixo que a criada precisou esforar-se para ouvir. Shanna deu as costas  mulher e comeou a afrouxar o corpete do traje. - No sinto 
vergonha nenhuma. Ele me ama e eu... - Shanna franziu a testa e sacudiu a cabea. Que loucura havia percebido um instante atrs, e agora temia admitir? Ela suspirou. 
- H muitas coisas em relao ao Sr. Ruark e a mim que voc no entende, Hergus. Se Milly agir como  de se esperar, tudo ser revelado.
    - Que  que Milly sabe?
    - Demais, creio - replicou Shanna, triste.
    Para Hergus, uma coisa era ela criticar as aes da patroa, mas era coisa inteiramente diferente outra pessoa erguer a voz para fazer algo que no fosse elogiar 
Shanna. Sua lealdade permanecia intocvel, e ela disse:
    -  melhor que aquela leviana fique de matraca fechada. Shanna a olhou surpresa, e Hergus deu de ombros:
    - Seu pai est l na sala de visitas com o Sr. Ralston, o Sr. Pitney e o tal Sir Billingsham. Acho que nem Milly tem coragem de falar com ele numa hora dessas. 
 melhor voc aparecer depressa por l. Seu pai chegou faz tempo e j perguntou por voc. Vou dizer-lhe que voc voltou, e  melhor no se demorar muito.
    Hergus espanou uma prateleira com objetos antigos que estava impecvel e limpou os dedos de uma poeira imaginria, ao olhar para Shanna.
    - Ouvi Sir Billingsham perguntar onde voc estava. Ele viu seu cavalo no estbulo, mas voc saiu sem dizer para onde. Acho que, na opinio dele, seu pai devia 
vigi-la melhor. - A mulher pensou um pouco. - Talvez seu pai esteja comeando a achar esquisito voc ficar aqui a alguns passos de distncia do Sr. Ruark. Mas.. 
- Hergus fungou alto - acho que ele confia em voc.  uma pena voc o trair.
    Ignorando as censuras da criada, Shanna comeou a despir-se. Porm, como seu corpo continuava rosado de paixo e afogueado, ela no conseguia separar-se de sua 
blusa. A criada entendeu e saiu, fazendo um ltimo comentrio por cima do ombro.
    - Volto para pentear seu cabelo.
    Prendendo as espessas madeixas no alto da cabea, Shanna mergulhou na gua perfumada do banho e comeou a se lavar, indolentemente passando a esponja nos braos 
e ombros. Foi um banho demorado, e sua cabea estava cheia de pensamentos fantasiosos. Reclinada na banheira decorada, fechou os olhos e o calor a relaxou. Estava 
quase cochilando quando ouviu um assobio alegre no corredor, junto  sala de estar. Sorriu suavemente, sabendo que s podia ser Ruark, e se inebriou com as lembranas 
da tarde que passaram juntos. O dossel acima do rosto moreno dele havia brilhado com uma aura de luz que invadiu o chal. Com as cortinas ocultando a cama, seus 
corpos nus se haviam banhado com a claridade do dia por entre as cortinas brancas. Os olhos ambarinos de Ruark a contemplaram com tal paixo que ela havia tremido 
e perdido o flego. As mos dele, com suavidade lenta e contagiante, lhe haviam arrancado soluos de prazer. Seus beijos lhe percorreram o corpo alvo, e ela fremiu 
de ardor. Com um risinho, fez com que ela ficasse em cima de seu corpo, membros entrelaados, bocas vorazmente se beijando. Os dedos magros do homem haviam acariciado 
o tom dourado do cabelo dela, e ido at a nuca, e os lbios dele haviam traado uma trilha em sua garganta.
    - Shanna, adorvel Shanna! - murmurara ele, com voz rouca. - Seu esplendor cega este pobre mendigo. Como voc  linda, meu amor!
    Trmula, ela lhe dera um beijinho no rosto, emocionada demais para poder falar.
    As iluses desapareceram rapidamente, quando Hergus a chamou da sala de visitas, bateu  porta e entrou. Apressada, Shanna se levantou e, enrolando uma toalha 
no corpo, foi para trs do biombo para se enxugar. Hergus ficou ofendida com isso e censurou:
    - Voc se esquece que eu a visto desde que era um beb e h anos que fao isso. Desde que est com esse sujeito, parece que s confia nele para ver seu corpo. 
No  certo ficar desfilando nua na frente dele e sentir vergonha de mim, que a conheo to bem quanto sua me.
    Shanna olhou preocupada para as portas envidraadas e corou, levemente. Se Ruark podia ouvi-la andando de um lado para outro, certamente devia ter escutado essa 
troca de palavras. Vestindo a tnica, saiu de detrs do biombo e olhou sria para a criada, entregando-lhe uma escova e dizendo:
    - Se veio pentear-me, mos  obra. Se no, encontro uma tarefa  altura de sua disposio, tal como esvaziar urinis na mar da manh.
    Os ps de Shanna desciam to levemente as escadas que nem pareciam tocar os degraus. Sentia-se uma mocinha, temerosa por causa de seu atraso, corada e sem flego 
e, na sua pressa, ignorava estar exibindo os delicados tornozelos que apareciam sob as saias levantadas. Hergus mal pde prender-lhe os cachos antes que Shanna se 
desse conta da hora. Se havia uma coisa que enfurecia seu pai era ter de esperar desnecessariamente para dar incio a uma refeio.
    Jason estava alto e ereto em seu posto ao lado da porta da frente. Ele parecia examinar a parede oposta, e o rosto escuro estava todo enrugado. No prestou ateno 
 pressa desenvolta de Shanna. Como nos dias de sua adolescncia, Shanna sentiu-lhe a censura e parou, deixou as saias irem at o p e alisou o vestido azul. Depois, 
levantou a cabea orgulhosa e continuou a andar, com uma graa tal que fez com que o negro sorrisse aprovando, e fizesse uma mesura.
    - A senhora est encantadora esta noite, madame. Ela inclinou a cabea graciosamente e disse:
    - Obrigada, Jasonn.
    Da sala de visitas, ecoou a voz do pai:
    - Berta, veja por que essa menina est demorando! - Passa meia hora do horrio do jantar.
    Shanna se acalmou um pouco ao reconhecer um toque de bom humor no tom de Trahern. Foi at a porta e respirou fundo, sentindo-se como Daniel na cova do leo. 
Shanna pensou, porm, que se Milly tivesse tido oportunidade de contar o segredo ao pai, ele estaria agora possesso. Exibindo sorriso falsamente sereno, entrou na 
sala e parou quando os homens se levantaram. Pitney j estava ao lado de Trahern, e os dois se viraram ao mesmo tempo, cada qual com um clice de bebida na mo.
    - Cavalheiros, sentem-se, por favor - pediu Shanna suavemente, olhar percorrendo a sala.
    Ruark estava elegantemente vestido de azul-rei e sua graa esbelta e mscula fazia com que o vulto comprido e desajeitado de Sir Gaylord parecesse uma girafa 
sem coordenao, quando os dois se aproximaram ao mesmo tempo. Ralston fez um breve aceno de cabea, a guisa de cumprimento a Shanna.
    - Desculpe meu atraso, Papai - murmurou Shanna em tom meigo. - No me dei conta da hora.
    Trahern repeliu a desculpa da filha. Em vista de seu resplendor quase infantil, e no pde deixar de achar que, na verdade, a falha fora mnima.
    - Tenho certeza de que os cavalheiros concordam que a espera valeu a pena, minha cara. Estvamos discutindo a viagem s colnias.
    - Elas so semelhantes  Inglaterra? - perguntou Shanna a Ruark, usando seu encanto. - Suponho que na poca estar frio.
    - Frio?  verdade, madame. - Ruark sorriu e no conseguiu reprimir o brilho no olhar ao contempl-la. - Mas no creio que seja muito parecido com a Inglaterra.
    - De forma alguma! - interferiu Sir Gaylord. Fungou uma pitada de rap, que aspirou do dorso da mo, e delicadamente levou o leno monogramado  narina plida. 
Os olhos azuis acinzentados lacrimejaram quando ele aspirou ao rap. -  uma terra selvagem, no apropriada a uma dama. Fortes toscos, em regies indomadas. Meu 
Deus, v-se de tudo por l. Ouso arriscar que estaremos em constante perigo.
    Ruark levantou a sobrancelha e indagou:
    - O senhor parece autoridade no assunto. J esteve l?
    Gaylord olhou fria e raivosamente para o cativo e disse:
    - Falou comigo? - A inflexo da voz tinha um tom surpreso, como se no pudesse acreditar que um escravo lhe tivesse dirigido a palavra: - Ruark conseguiu aplacar 
a zombaria e, com pretenso pesar, replicou:
    - Na verdade, no sei por que fiz isso.
    Gaylord sacudiu a cabea, sem perceber o sarcasmo do tom de Ruark.
    - Ento, preste mais ateno. J  odioso ter de partilhar um lugar  mesa com um cativo, sem ser interrompido por ele. - Sentindo-se mais forte do que o outro, 
Gaylord escarneceu: - Acho, meu bom camarada, que voc tem muito de biltre. No creio que esteja inocente no plano pirata para roubar os tesouros do Sr. Trahern, 
independente dos boatos que correm, e, se eu fosse ele, ficaria de olho enquanto voc est nesta manso. Talvez agora esteja  procura de recompensa mais valiosa. 
- Seu olhar desviou-se um pouco para que Ruark pudesse notar que se dirigia a Shanna. - Um patife no se detm perante nada para conseguir dinheiro.
    Ruark enrijeceu ao ouvir a calnia, e seus olhos encararam Gaylord da maneira mais fria possvel. Ralston sorriu afetado ao ver o cenho franzido de Ruark e no 
pde ignorar a oportunidade. Aproximou-se dos dois, e seus olhos olharam com desprezo para o rapaz, embora ele dirigisse um comentrio a Gaylord:
    -  muito incomum que um simples cativo questione o conhecimento de um cavaleiro honrado.
    O cavaleiro se empavonou e assumiu arrogante pose ao se dar conta da verdade escondida sob a sugesto velada de Ralston.
    - Por sobre o ombro, Shanna chamou a ateno do pai e inclinou a cabea para Ralston, franzindo ligeiramente a testa. Ele imediatamente compreendeu o que a filha 
queria.
    - Sr. Ralston - chamou Trahern. - Posso dar-lhe uma palavrinha? Ralston bufou e relutantemente afastou-se dos dois homens. Havia comeado a divertir-se, e esse 
era um jogo que ele adorava. Mesmo assim, no podia desobedecer a seu patro. Quando chegou perto, Orlan Trahern baixou a taa da qual bebia e censurou-o brandamente:
    - O Sr. Ruark  hspede em minha casa. - Sua voz estava baixa, de modo que s Pitney o ouviu. - Necessito que haja paz e tranqilidade em minha casa. Insisto 
em que o senhor, que  igualmente um empregado pago, trate meus convidados com considerao.
    Ralston corou e ficou rgido de indignao:
    - O senhor est-me chamando a ateno na frente de outros?
    - No, Sr. Ralston. - O sorriso de Trahern foi frio. - Apenas estou relembrando sua situao. O Sr. Ruark j provou seu valor. No diminua o seu.
    Ralston comprimiu o mpeto de contestar-lhe irritado. Estava acostumado  rica casa que tinha no povoado e sabia da enorme fortuna de Trahern, aliado a poder, 
mas achava que Trahern no notaria a ausncia de algumas centenas de libras de vez em quando, e assim, nos muitos anos em que trabalhava para o latifundirio, Ralston 
j havia posto de lado soma considervel. Suas contas, portanto, jamais passariam sob um exame acurado. Ele estava tambm a par de que Trahern, com seu sentimento 
plebeu de desforra mesquinha, o castigaria severamente, se a falta do dinheiro fosse notada.
    Com o tato de um diplomata experiente, Shanna havia resolvido evitar mais confrontos entre Ruark e Sir Gaylord. Colocando-se entre os dois homens e sorrindo 
calorosamente para Ruark, ficou de costas para ele e falou direto a Sir Gaylord:
    - Gentil senhor. - Seus olhos piedosos conferiram a suas palavras o gosto do mais puro mel. -  mesmo uma pena estarmos to longe de Londres e o senhor no possa, 
assim, encontrar ningum  sua altura para manter uma conversa. Deve ser doloroso a seus ouvidos escutar as conversas mundanas e vulgares sobre coisas rotineiras, 
to comuns aqui na... fronteira.
    O cavaleiro ouviu o tom quente da voz da moa e ficou fascinado pela beleza que se encontrava  sua frente.  medida que ela prosseguia, ele comeou a achar 
que a havia magoado de alguma forma.
    - Tambm j ouvi os elevados ideais expressos na corte e conheo a solido que deve acoss-lo em seus assuntos nobres. Deve, porm, lembrar-se de que todos ns, 
inclusive meu pai e eu, somos de origem plebia. Peo-lhe, portanto, que seja caridoso em suas opinies. - Shanna riu como se no acreditasse em suas prprias palavras. 
- No me diga que o senhor eliminaria meu pai e eu de sua companhia, no ?
    Sir Gaylord ficou igualmente incrdulo:
    - De forma alguma, minha cara dama. Seu pai  quem manda aqui e a senhora, como filha dele - suspirou, melanclico -  muito atraente.
    - timo! - Shanna tocou o brao dele com o leque e disse confidencialmente: - Tenho certeza, por hav-lo constatado, que o Sr. Ruark foi levado da ilha contra 
sua vontade. Peo-lhe que compreenda por que devo trat-lo com certa deferncia. - Em seguida, olhou de vis para Ruark e sorriu maliciosa.
    O cavaleiro s conseguiu balbuciar sua concordncia, embora no estivesse ainda convencido da lgica das palavras dela.
    - O senhor  muito generoso! - Ela fez uma graciosa reverncia e deu a mo a Ruark. - Vamos ento jantar. - Shanna olhou para o pai por cima do ombro e perguntou: 
- Papai, est pronto para jantar?
    - Certamente!
    Trahern riu internamente e, percebendo que acabara de testemunhar um ardil feminino em sua forma mais brilhante, quase sentiu pena dos inmeros pretendentes 
que se haviam deixado convencer pelas palavras de Shanna. Com estranho sentimento de orgulho, observou a pose aprumada da filha, ao lado do cativo. Os dois formavam 
belssimo par. Que lindos filhos ela teria se eles...
    "Que loucura!" Trahern sacudiu a cabea para espantar o pensamento. "Eu lhe dei uma mentalidade que jamais a faria aceitar um cativo como marido."
    Shanna adotou os movimentos lentos e ritmados que lhe davam ar de frieza e distncia. Sua mo apoiou-se levemente no brao de Ruark, e ela sorriu para aqueles 
reluzentes olhos ambarinos. Os dois conduziram o cortejo at a sala de jantar, onde Milan j comeava a irritar-se com a demora, pensando no estrago das iguarias 
que a cozinheira tentava manter quentes. Quando Shanna entrou na sala, o rosto do homem demonstrou alegria repentina, e ele bateu palmas, como sinal para que os 
jovens criados trouxessem a comida. Finalmente, serviu-se o jantar.
    - Sente-se aqui, Sr. Ruark - sugeriu Shanna, indicando a cadeira ao lado da sua, na extremidade da mesa.
    Ralston deixou vago o lugar em frente ao cativo para que Sir Gaylord nele se sentasse e acomodou-se vis--vis a Pitney, perto de Trahern. Se havia alguma confuso 
a ser fomentada, ele seria o fomentador mestre, e faria com que a mistura atingisse a melhor fermentao possvel.
    A conversa no incio da refeio foi meio afetada. Gaylord s olhava para Shanna, e quando a ateno da moa se desviava, o cavaleiro permitia que seus olhos 
contemplassem com admirao o busto onde o justo corpete comprimia as curvas, e as exibia tentadoramente. Irritado pelos olhares lascivos do ingls, Ruark precisou 
controlar-se. Ralston, incomumente loquaz, dirigiu-se a Trahern:
    - Reparei que trouxeram o Good Hound para que o casco fosse limpo. O senhor pretende levar a escuna em viagens s colnias ou us-la aqui, para negcios entre 
as ilhas?
    Trahern parou de comer e fez um gesto para Ruark:
    - Pergunte ao jovem ali. A escuna  dele.
    Ralston e Gaylord viraram-se estupefatos para olhar fixo para Ruark, que calmamente declarou:
    - Cavalheiros,  permitido pela lei inglesa que um cativo tenha bens. Ganhei a escuna numa luta justa, como Madame Beauchamp poder confirmar.
    - Isto  inaudito! - exclamou Gaylord. Perturbava-o enormemente que um cativo possusse uma embarcao, enquanto ele, um nobre, estivesse tentando obter financiamento 
para um estaleiro.
    -  possvel - disse Ruark, rindo. - Mas a escuna  minha e assim ser, a no ser que eu prefira ced-la em troca de minha liberdade. Acho, porm, que me levaria 
mais tempo para ganhar o bastante para comprar um barco do que para pagar minhas dvidas. O Tempest ser emprestado ao Sr. Trahern para a viagem, em troca do custo 
de total reforma do barco. Achamos que  uma troca justa.
    - O Tempest! - indagou Ralston, arrogante.
    - Sim, mudei o nome da embarcao - explicou Ruark, calmo. - Ultimamente, gosto de tempestades porque elas sempre me trazem algum bem, e achei que o nome era 
apropriado.
    - Minha filha tem averso a tempestades - comentou Trahern distrado, sem reparar que Shanna enrubesceu ao ouvir as palavras de Ruark. - No entendo a causa, 
mas comeou quando ela era pequenininha.
    - Talvez eu j esteja superando isso, Papai - disse Shanna meigamente, sem ousar encarar o marido. - Afinal de contas, foi graas a uma tempestade que escapamos 
dos piratas.
    Seu pai ouviu com a boca cheia de lagosta e, depois de engolir, resmungou:
    - Ainda bem. J  hora. Algum dia voc vai ter filhos. No seria bom incutir esse medo neles.
    - Isso mesmo, Papai - concordou Shanna em voz baixa.
    - E quanto ao tesouro dos corsrios a bordo da escuna? -escarneceu Ralston. - Pertence tambm ao Sr. Ruark?
    - Pertencia - explicou Trahern, levantando os olhos para o homem. - Mas tudo que no era meu, ele deu ao Sr. Gaitlier e a D. Dora, em retribuio pelos anos 
que os dois passaram com os piratas.
    As sobrancelhas de Ralston se ergueram, surpresas:
    - Ele foi generoso, levando em conta que poderia ter comprado sua liberdade com o tesouro.
    Ruark ignorou o tom debochado e disse:
    - Era deles por direito, e achei que representaria um pagamento justo, e vindo dos piratas.
    Gaylord manteve-se calado. No conseguia entender algum se desfazer de uma pequena fortuna. Ralston rejeitou o assunto. Sabia que aes idiotas como aquela 
fariam com que a moa ficasse apreciando mais o cativo, e talvez fosse isso mesmo que este estivesse tramando.
    - Madame - Ralston dirigiu-se a Shanna - a senhora sabe que o pai de Sir Gaylord  um lorde e juiz dos tribunais ingleses? - Lanou um olhar cauteloso a Trahern 
para ver se o homem o estava ouvindo e ficou irritado porque o latifundirio parecia desinteressado pela conversa, concentrado apenas em saborear seu prato preferido.
    -  mesmo? - Shanna olhou interrogativamente para o homem  sua esquerda. - Lorde Billingsham? Nunca ouvi o nome dele em Londres.  juiz h muito tempo?
    Gaylord limpou delicadamente os cantos da boca com um guardanapo antes de responder, olhando-a ardentemente:
    - No consigo pensar em nenhuma razo, madame, que pudesse haver feito com que uma dama correta como a senhora fosse levada  presena dele. Ele julga homens 
perversos, assassinos, ladres, marginais de toda a espcie, e a senhora  flor delicada demais para ser encontrada nos lugares onde esses tipos pululam. Meu pai 
j mandou muito patife para a forca e, para se proteger, ele resolveu ser conhecido como Lorde Harry.
    Ralston observou Ruark detidamente, esperando alguma reao, pois o outro poderia deduzir que era mais do que uma coincidncia. Ruark o olhou apenas de relance, 
deu de ombros calmamente, e continuou a refeio.
    Pitney prestava ateno cuidadosa ao jantar, e Shanna tambm. Lembrava-se perfeitamente de quando o Sr. Hicks falou sobre Lorde Harry e de como ele tratou secretamente 
dos papis de enforcamento de Ruark, e perguntou-se que jogo estaria Ralston jogando.
    Somente algum to familiar com Ruark Beauchamp como Shanna teria reparado na sbita ateno que ele dedicou  refeio e ao endurecimento gradativo de seu olhar. 
Suas narinas alargavam-se levemente quando o odiado nome era citado; mas, a no ser por isso, desempenhou bem o papel de cativo, e deu a impresso de que nada o 
estava atingindo profundamente. Com enorme cautela, Shanna perguntou a Sir Gaylord, sorrindo suavemente:
    - Lorde Harry? Acho que j ouvi esse nome. - Seu cenho se franziu. - Mas no consigo lembrar-me...
    O comentrio de Pitney foi resmungado:
    - J ouvi falar nele. Tem gente que o chama de Harry, o Enforcador. Porque gosta demais de castigar gente na forca.
    - Boato malicioso! - exclamou Gaylord, ofendido. Shanna mostrou-se surpresa:
    - Muitas vezes me pergunto como deve sentir-se um homem, aps haver condenado outro  forca. Tenho certeza de que seu pai s condenou a esse fim os que o mereciam, 
mas me ocorre que isso deve representar uma terrvel carga emocional para ele. O senhor estava a par dos casos que ele julgava? Suponho que costumasse coment-los.
    - Os assuntos de meu pai no me interessavam, madame. Nunca lhes prestei ateno.
    - Ah, que pena!
    Voltaram  sala de estar aps o jantar, e l Shanna viu-se aturdida pela presena de Gaylord a seu lado no sof. Por cima do leque, observou Ruark acender o 
cachimbo perto das portas envidraadas e, os olhos de ambos se encontrando, ela percebeu a inclinao quase imperceptvel da cabea dele em direo ao prtico. Abanando-se, 
ela se levantou e reclamou sria:
    - Papai, aqui est um pouco abafado. Se o senhor no se ope, vou dar uma volta l fora na varanda.
    Trahern relanceou o olhar por cima do ombro e deu sua aprovao. Ruark apressou-se a dizer:
    - Madame, desde o ataque dos piratas no  seguro uma dama andar por a desacompanhada. Peo-lhe...
    - O senhor tem razo - interrompeu Gaylord e, para consternao de Shanna, pegou-lhe o brao. - Permita-me, senhora, por favor.
    Gaylord conseguiu habilmente virar a mesa, e dessa vez Ruark ficou para trs, enquanto o outro, todo prosa, apressou-se em deixar a sala com Shanna. Quando o 
cavaleiro fechou a porta atrs de si, riu zombeteiramente no rosto de Ruark.
    O brao forte de Pitney deteve Ruark antes que ele metesse a mo no trinco, e o empurrou delicadamente para trs. Ruark no estava com disposio para brincadeiras 
idiotas. Os msculos de seu queixo se enrijeceram, tensos, quando ele levantou o olhar e deparou com um sorriso gentil no rosto do homem mais idoso.
    - Calma, rapaz! - disse Pitney, com voz dissonante e baixa. - Se for preciso, tomo uma atitude.
    Os olhos cinzentos moveram-se rpidos at Trahern em silenciosa advertncia, e Ruark viu que o latifundirio se afastou do armrio com um clice de rum e tirou 
do bolso o relgio, que ficou olhando antes de olhar para Pitney.
    - Cinco minutos? - Ele no esperou resposta, e tambm Pitney olhou para seu relgio.
    - Acho que menos, pois o moo est meio ansioso.
    - Quer apostar uma cerveja contra um bitter? - sugeriu Trahern.
    - Aceito - respondeu Pitney, e guardou o relgio no bolso, enquanto fixava o olhar em Ruark. - Voc ainda no viu Shanna no mximo de sua disposio. - Inclinou 
a cabea em direo s portas envidraadas. - Homens melhores do que ele j tentaram. Se quer preocupar-se, preocupe-se com Gaylord.
    A sala ficou silenciosa, e apenas Ruark e Ralston demonstraram emoes. Ruark estava inquieto e Ralston sorria afetadamente satisfeito. Subitamente, ouviu-se 
da varanda um guincho furioso de Shanna. Ruark deu um pulo, e Ralston baixou o copo, atnito. Em seguida, o som de uma bofetada cortou o ar; houve um princpio de 
imprecao resmungada por Gaylord, acompanhada por um grito, tambm do cavaleiro, que terminou num sonoro grunhido.
    Pitney consultou o relgio e disse a Trahern:
    - Uma cerveja!
    Todos, inclusive Ralston, precipitaram-se para a porta, mas antes que a alcanassem, ela foi aberta, e Shanna entrou correndo na sala, segurando o corpete rasgado 
de seu vestido com uma das mos, enquanto flexionava a outra, como se estivesse doendo. O lindo rosto mostrava-se rubro, e o cabelo amarfanhado.
    Trahern deteve a filha colocando uma das mos no brao dela, e seus olhos a examinaram cuidadosamente,  procura de algum sinal de mau-trato.
    - Tudo bem com voc, Shanna, minha menina?
    - Tudo, Papai - respondeu ela, animada. - Melhor do que pensa, mas creio que nosso nobre hspede est enfeitando os arbustos com seu corpo msculo.
    Trahern passou por ela e Ruark tirou o casaco e o ps nos ombros da mulher. Shanna o olhou suavemente, quando ele lhe pegou a mo para examinar.
    - Quer que a vingue, senhora? - perguntou baixinho, sem levantar os olhos.
    - No, meu Capito Pirata Ruark - murmurou ela. - Pobre sujeito, teve sua recompensa. Olhe l. - Apontou a mo machucada para a porta no instante em que o pai 
e Pitney a abriram. Trahern deu a impresso de estar engasgado com alguma coisa, quando a parca luz derramou-se na varanda e iluminou o vulto magricela de Sir Gaylord, 
debatendo-se para pular a amurada que cercava o jardim. Folhas e gravetos quebrados estavam agarrados nele, e salientavam-se no casaco rosa. O cavaleiro ps os ps 
na varanda e, alheio aos que o olhavam, deteve-se para tirar as folhagens da roupa. Havia conseguido em parte seu intento, quando levantou a cabea e viu que trs 
dos quatro homens prximos o olhavam sorridentes, enquanto o quarto estava boquiaberto.
    Sir Gaylord mostrou-se  altura da ocasio. Levantando o queixo, retribuiu-lhes o olhar atenta e arrogantemente, e passou por eles com passadas largas e altaneiras, 
sem olhar para Shanna. Mesmo assim, sua pose deixava a desejar, pois seu porte tinha uma caracterstica estranha, motivada pela falta de um sapato. Agarrando o casaco 
enorme sobre os ombros, Shanna fez pequena reverncia e disse:
    - Boa-noite, cavalheiros. - E saiu rpido da sala, flexionando a mo como se ainda doesse.
    Trahern contemplou o copo vazio por um instante, antes de suspirar tristemente e foi servir duas cervejas, uma das quais deu a Pitney. Ralston serviu-se de conhaque 
e o sorveu. Em seguida, meio sem graa, pediu licena e saiu. Trahern serviu a terceira cerveja e a ofereceu a Ruark.
    - Ah, cavalheiros! - O idoso homem deu um risinho aps demorar-se num gole. - Quando minha filha partir, no sei o que vou fazer para animar isto aqui. - Seu 
risinho precedeu uma srie de risos altos, que contagiaram os outros dois homens, e deixando-o arfante na cadeira. - Acho que vou dormir. Estou muito velho para 
tudo isso.
    Deixou a sala aos outros dois homens e, enquanto percorria o vestbulo, ia sorrindo. Pitney reabasteceu os copos e fez um aceno de cabea para a porta.
    - Que tal um pouco de ar fresco, Sr. Ruark?
    Foram at a ampla varanda admirar a Lua cheia, enquanto John Ruark oferecia fumo ao companheiro. Para sua surpresa, o homem tirou um cachimbo pardo de barro 
do bolso e, aps uma tragada, fez um sinal de apreciao.
    - Peguei o hbito quando embarquei num dos navios de Orlan - murmurou. - Aqui  difcil conseguir bom fumo. Mas este  bom. Se !
    Andaram por algum tempo em silncio, deixando atrs de si uma trilha perfumada de fumaa. Estavam quase voltando  sala de estar, quando Pitney parou para tirar 
a crosta das cinzas do cachimbo.
    -  uma pena! - comentou o grandalho, limpando o cachimbo. Ruark o olhou interrogativamente. -  uma pena que seu irmo, o Comandante Beauchamp, no tenha podido 
zarpar conosco.
    O rosto de Ruark ficou lvido e ele tentou negar.
    - Meu irmo? - foi tudo que conseguiu murmurar, pois se dissesse mais, seria uma deslavada mentira.
    - Sim - confirmou Pitney, observando-o detidamente  mortia luz. Apontou para o peito de Ruark com a haste do cachimbo e continuou: s vezes, ocorre-me que 
existe mais a ser dito a respeito de Ruark Beauchamp do que John Ruark deixa transparecer.
    Pitney enfiou o cachimbo no bolso e foi para casa; quando Ruark entrou, momentos depois, a sala estava vazia.
    J era tarde, e a Lua mostrava-se uma bola vermelha protuberante no horizonte. Parecia agachar-se l com agourenta determinao e no dava a perceber que se 
tornaria na deusa de prata pura que corria pelo cu e emprestava o nome a amantes apaixonados. As ruas estavam escuras na vila, e Milly Hawkins estremeceu ao caminhar 
novamente pelo local do encontro e no ver ningum. Aborrecida, parou e, com olhar preocupado, olhou para a rua de paraleleppedos nas duas direes. A pele de sua 
nuca principiou a arrepiar-se e sua coluna dorsal formigou. Tinha o pressentimento de estar sendo vigiada. Espreitou todos os cantos e nesgas, mas nada viu. Arquejou 
de medo, porm, quando uma sombra alta se destacou e se dirigiu a ela. Suas mos trmulas lhe tamparam a boca e ela olhou fixo por um instante, antes de suspirar 
aliviada.
    - Ah,  voc, Chefe! - Riu. - Voc me deu um baita susto. Se deu! Est atrasado.
    O homem encolheu os ombros e no deu explicao. Usava uma capa negra que lhe ocultava a estatura, gola alta levantada sob um chapu de trs bicos que lhe escondia 
os traos no escuro. As botas de montaria eram de macio couro negro, assim como as luvas, e ele carregava um chicote de equitao, como se houvesse acabado de cavalgar. 
Quando chegou mais perto, Milly no parou de falar:
    - Bem, Chefe, tenho novidades. A gente precisa chegar logo a um acordo. O Sr. Ruark no me adiantou de nada, como voc disse que ia. J tem mulher e voc nem 
adivinha quem. Dona Shanna Beauchamp! S que ela no  mais viva. Ela agora  Madame John Ruark. O engraado  que foi ela mesmo quem me contou.
    Milly parou, para saborear o efeito da notcia.
    - Poxa, ela  igualzinha a mim! indo para a cama com um prisioneiro. Ela no tem esse gosto fino, no! Mas guarda segredo disso. - A moa roeu uma unha e seus 
olhos brilharam alegres. - Nem o pai dela sabe. Ele vai ter um ataque, quando eu contar pra ele. Minha velha tambm vai ter. Ela vive dando D. Shanna como exemplo 
para mim. Bem, sou melhor do que ela. - Milly estendeu a mo e afagou o brao do homem, sem perceber a cara feia que ele fez. - Tenho coisa melhor do que um prisioneiro. 
Olha, Chefe, voc tem de pagar um preo. No vou mais ficar deitando a com tudo que  marinheiro que logo vai embora. Quero um cara que esteja por perto quando 
eu tiver vontade de fazer amor.
    O chicote comeou a dar pancadinhas leves na bota do homem, mas Milly no reparou, e ofereceu seu melhor sorriso ao sujeito.
    -  claro que no sou mulher de ficar prendendo ningum, e se voc quiser dar umas voltinhas por a, no tem problema. Desde que volte pra mim...
    O homem abraou-a e comeou a conduzi-la pela rua. Milly adorou essa manifestao rara de carinho e interpretou mal o sorriso que o homem lhe deu. Encostou-se 
nele e ps a mo dentro do casaco do homem.
    - Conheo um lugarzinho calmo l na praia - murmurou com o olhar sugestivo. -  escondido, e tem musgo que me pode servir de travesseiro. - Na rua cheia de sombras, 
o eco de seu riso leve diminuiu pouco a pouco.
    O dia seguinte amanheceu claro e fresco. Ao primeiro sinal da manh Ruark e Shanna acordaram e, com um beijo de despedida, ele foi silenciosamente para seu quarto, 
onde se barbeou e se vestiu, para esperar os primeiros sinais de atividade da manso. Ficou deitado, ouviu Shanna movimentar-se em seu aposento, mas rejeitou a idia 
de l voltar. Hergus j brigava o bastante com ela, sem que mais lenha fosse atirada na fogueira. Todas as noites agora, eles partilhavam a mesma cama, nem que fosse 
apenas para dormir no conforto mtuo dos seus braos at que o sono baixasse sobre ambos.
    Ao entrar na pequena sala de jantar, Ruark serviu-se de uma xcara de caf. O cheiro forte e agradvel da infuso o atraiu, e ele apreciou o calor da bebida 
naquela manh gelada.
    Milan havia disposto uma travessa de frios e bolinhos de aveia; e a seu convite Ruark se estava acomodando perante farto prato quando Trahern e Shanna entraram 
juntos na sala, rindo. O pai se perguntava sobre a mudana havida em sua filha. Nas ltimas semanas, andava corada e alegre e, desde seu rapto pelos piratas, tinha 
perdido muito de sua empertigada formalidade. A freqncia dos comentrios irnicos diminuiu a tal ponto que ela quase parecia outra pessoa, uma clida e graciosa 
mulher, cujo encanto agora rivalizava com a beleza. Trahern riu sozinho, e aceitou essa transformao sem muitas perguntas. O cheiro de biscoitos amanteigados lhe 
encheu as narinas, e ele apressou-se a se sentar, deixando que Ruark puxasse a cadeira para a filha, como gostava de fazer.
    Um barulho de cascos ouviu-se  frente da casa, e logo Pitney entrou afogueado na sala, esfregando as mos e saboreando o aroma da comida. Jogou o chapu para 
Jason e juntou-se aos demais, arrastando uma cadeira para sentar-se. Viu que pai e filha o olhavam divertidos, e resmungou:
    - O cho da minha casa estava frio demais hoje de manh para um homem de minha idade ficar balanando de um lado para outro. - Olhou irritado para todos, como 
se desafiando algum a duvidar de sua sinceridade. - E tambm terminei de fazer uma mesa para o Sr. Dunbar, e ele disse que vinha aqui para falar com o Sr. Ruark 
sobre o jumento dele. Parece que o sujeito quer compr-lo.
    Pitney aceitou um prato de Milan e ps-se a saciar o apetite. A refeio foi partilhada de brincadeiras entre todos, mas no continuou assim por muito tempo, 
Milan acabara de servir mais caf a Ruark, quando se ouviu um grito e um punho esmurrou a porta da frente. Jason abriu a porta para um cativo da vila que entrou 
descalo na sala de jantar. O homem ficou nervosamente ao lado de Trahern, revirando o chapu e lanando breves olhares a Shanna, como se sua presena lhe cerceasse 
as palavras.
    - Sr.... Bem.. Sua Senhoria Trahern. - Na pressa, a lngua do homem se atrapalhou.
    - Bem, Sr. Hanks - instou Trahern, impaciente. - Diga logo.
    O rosto do cativo ficou vermelho e ele olhou de novo para Shanna.
    - Bem, senhor, hoje cedo eu estava no meu barco pegando uns peixes para a Sra. Hawkins. Ela me d um dinheirinho por eles. Levei o barco para terra para preparar 
as linhas e o anzol, quando vi um negcio colorido entre os arbustos. A mar estava baixa, por isso fui l ver o que era. - O homem parou, enrubesceu e baixou a 
vista amassando o chapu nas mos enormes e cheias de calos. - Era a Milly Hawkins, senhor. - Sua voz ficou entrecortada. - Estava morta, tinha sido espancada e 
atirada numa poa. - Em meio ao silncio glido, o cativo prosseguiu: - A Sr. Hawkins precisa saber senhor, mas eu no sei falar direito. Era a nica filha, essa 
coisa toda. O senhor fala para ela?
    - Milan! - berrou Trahern, fazendo com que o criado quase deixasse um prato cair. - Mande Maddock trazer minha carruagem imediatamente. - Afastou a cadeira, 
e todos  mesa se levantaram tambm. - Venha mostrar-nos onde est o corpo, Sr. Hanks.
    Aptica, Shanna atravessou a sala, mente confusa com a notcia dada pelo cativo. Milly e o beb, mortos! Que monstro teria feito tal coisa? A tragdia seria 
terrvel para ser suportada pela Sra.Hawkins, e Shanna ficou pesarosa porque no entendia como uma mulher to boa sofria tanto.
    O subconsciente de Shanna lhe cochichou que seu segredo estava mais uma vez a salvo, mas isso j no tinha importncia. Ela mesma teria contado a seu pai na 
maior alegria, se isso pudesse ter impedido a morte de Milly. No chegara a antipatizar profundamente com a moa e, claro, jamais desejara que alguma desgraa a 
atingisse. Sua preocupao agora era insignificante.
    Seguindo atrs de Shanna, Ruark estava igualmente estupefato. Na vspera, a tentativa de mat-lo, e agora o assassinato de Milly: teriam relao? Era uma mancha 
negra nos dias felizes e serenos que desfrutava com Shanna, desde que ela afastara os obstculos que havia entre eles.
    - Shanna - - A voz de Trahern os deteve. -  melhor voc ficar.
    - O Sr. Hanks tem razo, Papai - observou Shanna, tranqilamente. - A Sra. Hawkins precisa saber.  melhor haver uma mulher a seu lado nessa hora. Vou ficar 
com ela.
    Pai e marido olharam para Shanna, entusiasmados pelo bom senso e a compreenso da moa. Trahern concordou com a cabea, e o aposento ficou rapidamente vazio.
    O corpo de Milly achava-se de barriga para baixo numa depresso rasa na areia. Se a mar estivesse alta, uma piscina se teria formado; mas o Sol havia branqueado 
a areia de forma tal que parecia que a infeliz moa estava apenas cochilando na praia. Suas roupas achavam-se rasgadas e restavam apenas alguns fiapos de tecido. 
Marcas finas lhe deformavam o corpo, como se ela tivesse sido cruelmente espancada por um canio ou uma bengala. Os braos e a parte superior do corpo mostravam-se 
inchados e cheios de manchas roxas, onde um punho pesado ou um cacete os houvesse esmagado. Horrendo vergo lhe marcava o lado do rosto e se alongava at o cabelo 
emaranhado. Uma das mos ainda continha tufo de capim, testemunhando a luta de Milly para se firmar  proporo que baixava a mar. Sua outra mo estava estendida, 
perto da qual a inicial "R" encontrava-se toscamente desenhada na areia. A perna curta da letra acabava onde os dedos de Milly se haviam enterrado, num ltimo e 
convulsivo esforo.
    Ruark a olhou fixo, mente invadida pela viso de outra moa que havia morrido da mesma forma. Como isso podia acontecer to longe, com um oceano entre os dois 
fatos? Como?
    Trahern debruou-se perto da moa e examinou a letra garatujada na areia.
    -  um "R" - murmurou, e aprumou-se para olhar para o cativo. - Ou um "P". Mas ponho a mo no fogo por Pitney. - Mordeu os lbios pensativamente. - Poderia significar 
Ruark, mas no me acho inclinado a acreditar nisso. Estou certo de que poderia fazer o mesmo pelo senhor, se necessrio.
    A garganta de Ruark estava seca. O corpo estraalhado era muito familiar. O rapaz conseguiu murmurar, em voz rouca:
    - Obrigado, senhor.
    - Pode tambm representar Ralston, embora seja difcil imagin-lo envolvido com uma mocinha. Ele prefere mulheres mais velhas e rechonchudas. Mais slidas e 
confiveis. "Como a Inglaterra", diz ele.
    Ruark levantou os olhos e examinou o pequeno penhasco acima da praia. Um montinho de arbustos mostrava gravetos quebrados e, mais no alto, uma faixa de pano 
branco pendia como uma flmula de um galho.
    - L! - apontou. - Ela deve ter cado de l.
    Caminhou at o penhasco e subiu com dificuldade, seguido de perto por Trahern e Pitney. Hanks permaneceu embaixo e caminhou lentamente para seu barco, sem querer 
mais envolver-se em assunto to lgubre.
    Os trs encontraram uma clareira densamente sombreada por rvores e oculta por arbustos. O cho era um canteiro espesso de musgo e o resto da histria estava 
escrito a. O musgo achava-se arrancado em tufos, espalhados por toda a parte, o que denotava a luta feroz que se deve ter desenrolado. Pedaos da roupa de Milly 
encontravam-se tambm em vrios lugares ao derredor, e sulcos profundos de botas apareciam onde a moa fora levada at a borda do morro.
    A voz de Pitney achava-se trmula ao dizer:
    - O desgraado pensou que ela estivesse morta e a jogou no mar. Ela teria sido levada pela mar e desaparecido sem deixar rastro. Pobrezinha! Foi uma coisa horrvel, 
feita por um homem demonaco.
    Os olhos cinzentos encararam os de Ruark durante longo tempo, e nenhum dos dois vacilou. Quando Pitney voltou a falar, seu tom estava firme e ele dirigiu-se 
ao rapaz:
    - No conheo ningum capaz de fazer uma coisa dessas.
    - Nem eu - falou Trahern, bufando. - Foi uma coisa brutal. Brutal!
    - Senhor - comeou Ruark, relutante. Trahern o olhou interrogativamente. - Quero que o senhor saiba de uma coisa por mim e agora. -Precisou semicerrar os olhos 
para se proteger do Sol e poder ver o pai de Shanna. - Milly afirmou estar grvida e precisar de mim para se casar com ela.
    - Voc era o pai do beb? - perguntou Trahern, cautelosamente.
    - No, no era - garantiu Ruark. - Nunca toquei naquela garota. Aps um instante, o latifundirio fez um sinal afirmativo com a cabea e disse:
    - Acredito, Sr. Ruark. - Suspirou pesadamente. - Vamos levar a moa para casa. Eliot deve estar chegando com uma carroa.
    O veculo levou os homens  casa dos Hawkins, onde Pitney pediu licena e dirigiu-se ao botequim. Tomaram-se providncias para que o corpo de Milly fosse cuidado 
por uma amiga ntima da peixeira antes que a Sra. Hawkins visse os maus-tratos sofridos pela filha. Trahern e Ruark ficaram do lado de fora da humilde casa e se 
prepararam para enfrentar o casal. O quintal e o exterior estavam em runas. Dois porcos magricelas bufavam num canto debaixo de um abrigo de tbuas improvisado, 
enquanto umas 10 galinhas-d'angola raspavam o cho.
    Apreensivos, os dois entraram na casa. Era arrumada e limpa, embora dolorosamente desprovida de adornos, a no ser por um crucifixo de madeira pendurado na parede. 
O Sr. Hawkins estava sentado num sof torto, e nem olhou para eles.
    - A velha est l nos fundos - resmungou, e meteu a boca no gargalo de uma garrafa de rum, sempre olhando  distncia.
    Nos fundos da casa, um telheiro era sustentado por vigas tortas que davam sombra mas no impediam a chuva. Debaixo, a Sra. Hawkins achava-se sentada a uma mesa, 
de costas para eles. Com um faco, limpava peixes e despejava os restos num barril. Shanna se achava num banquinho ao lado; olhou para os dois homens e deu de ombros, 
embora sinais de lgrimas recentes permanecessem em seus olhos.
    - Bom-dia, cavalheiros - cumprimentou a Sra. Hawkins por cima do ombro, sem interromper o que fazia. - Podem sentar-se por a. Tenho meu servio para terminar. 
- Sua voz era cansada.
    Trahern e Ruark ficaram de p olhando-se constrangidos, sem saber o que dizer. A velha continuou a trabalhar, embora de vez em quando enxugasse os olhos com 
o dorso da mo e soluasse alto.
    - Ela no tinha sorte mesmo - disse, de repente, a peixeira, com sua voz aptica. Apoiou as mos na mesa e curvou a cabea. Mal podia ser ouvida agora. - Rezo 
para que esteja em paz. Ela estava sempre desejando coisas que no podia ter e nunca ficava satisfeita com o que tinha. - A velha mulher virou-se para encar-los, 
olhos vertendo lgrimas de pesar. - Milly no era m menina. - Sorriu e achou um lugar limpo no avental para enxugar o rosto. - s vezes, era meio teimosa. s vezes, 
os homens davam quinquilharias e moedas a ela, e ento passou a achar que eles iam dar tudo o que ela queria. Inventava histria sobre uns deles. Sei, Sr. Ruark, 
o que ela andava dizendo sobre o senhor e ela, mas sei tambm que o senhor nunca tocou nela. A garota chorava na cama porque o senhor no lhe dava confiana. Enquanto 
eu lavava roupa, ela ficava sentada por aqui se lamentando sobre o senhor.
    - Sra. Hawkins - comeou Ruark, suavemente - havia alguns homens que saam sempre com ela?
    - Sim - respondeu a mulher, fungando. Depois, assoou o nariz com estardalhao. - Mas nenhum durou.Bem, nos ltimos tempos havia um sujeito, mas no sei quem 
era. Ela no me disse e s se encontrava com ele de noite, e longe daqui.
    - O Sr. Ralston nunca... - Trahern no conseguiu expressar-se.
    - No, ele no. Dizia que ela era vulgar demais. Uma vez chegou a bater nela com aquele chicote dele. - A mulher riu. - Milly aprontava com ele! Chamava-o de 
magrela e cara de limo azedo.
    As lgrimas recomearam a escorrer, e o ombro da mulher tremeu com os soluos reprimidos. Shanna levantou-se rapidamente e foi consol-la.
    A Sra. Hawkins era uma cabea mais alta, porm as duas juntaram os rostos e falaram baixinho. Quando a Sra. Hawkins se acalmou, inclinou-se e beijou Shanna no 
rosto.
    - Agora, v embora, menina - disse ela, sorrindo. - Voc me fez bem, mas agora quero ficar sozinha um pouco.
    - Madame, se a senhora precisar de alguma coisa - afirmou Trahern - no hesite em nos dizer. - Fez uma pausa e acrescentou: - Milly fez uma letra na areia, um 
"R". A senhora conhece algum...
    A Sra. Hawkins sacudiu a cabea e disse:
    - No ligue para isso, senhor. Milly nunca foi boa em escrita. Alguns instantes se passaram antes que Ruark dissesse:
    - Amanh, venho consertar o telheiro.
    Nada mais havia a ser dito, e os trs foram embora. A volta  manso foi excessivamente demorada e silenciosa.
    Outubro estava a meio, e o Hampstead encontrava-se no porto reabastecendo-se, antes de levar Trahern e sua considervel comitiva  Virgnia. Enquanto seu grupo 
visitasse os Beauchamps, o patacho e a escuna negociariam com as colnias do litoral. Entrementes, a serraria se desenvolvia como um cogumelo bem alimentado. A cada 
dia que passava, ficava quase pronta, e montou-se uma serra bruta, at chegar uma melhor de Nova York. Na verdade, vrias serras com diferentes objetivos haviam 
sido encomendadas por insistncia de Ruark, e foi um dia de festa quando o Marguerite as trouxe.
    A tristeza pela morte de Milly foi posta de lado, quando Gaitlier e Dora foram  manso para, encabulados, anunciarem sua inteno de casar. Aps um brinde ao 
acontecimento, Shanna insistiu para que os dois dessem uma volta pela ilha com ela e Ruark. Mandou que a carruagem parasse  frente de pequeno prdio e l apresentou 
o noivo  escola que havia muito instara para que seu pai construsse. Gaitlier extasiou-se com os caixotes de livros, as lousas e outros objetos escolares que Shanna 
havia mandado para casa, durante seus anos de estudo. Entre afirmaes entusiastas de Gaitlier, de que aceitava ser o professor da ilha, ele e Dora comearam a desembalar 
o material, e ali ficaram, cheios de felicidade.
    Em meio a toda essa atividade, Gaylord Billingsham era o nico que no acompanhava o estilo de vida de Los Camellos. No se afetou muito com o fora levado de 
Shanna nem sentiu que deveria aliviar o anfitrio de sua presena, embora Trahern j no demonstrasse as gentilezas do incio de sua estada. Os modos do cavaleiro 
eram educados, sua arrogncia diminuiu um pouco, e sua atitude estava quase monstica.
    Apenas dois acontecimentos significativos perturbaram a vida normal na ilha. Um ocorreu quando Gaitlier abriu a escola no primeiro dia. Como governador interino, 
Trahern decretou que todas as crianas entre sete e 12 anos freqentassem as aulas e que somente ele poderia conceder dispensa. Isso causou algumas objees porque- 
algumas crianas mais velhas estavam bem arraigadas no sistema econmico das famlias. S quando ele foi pessoalmente s casas das famlias e pacientemente lhes 
indicou a possibilidade de maiores ganhos no futuro, atingiu-se o objetivo de ter todas as crianas da ilha na escola. Mesmo ento, foi triste quando se soube que 
a maioria das crianas maiores no possua os rudimentos de leitura, escrita nem matemtica. Os meninos mais velhos tinham o conceito de que escola era um lugar 
de divertimento, e logo Gaitlier ganhou a fama de ser um animal, com uma vara na mo o tempo todo. Contudo, depois da primeira semana, as crianas j sabiam como 
se comportar e comearam a encarar o homenzinho baixo e aparentemente frgil com novo respeito.
    A vida em Los Camellos se acalmou e voltou ao estilo de sempre, quando chegou o dia do casamento do professor. Como casamentos eram raros, a ocasio foi devidamente 
festejada. Haveria danas e festa nas ruas e, dada a possibilidade de consumo desenfreado de bebidas, Trahern decretou que aquele dia seria feriado. Os habitantes 
do povoado construram pequeno chal em frente  escola e o mobiliaram com donativos de todos. Pitney ps as mos enormes em madeira e construiu uma cama com dossel 
como a ilha jamais vira. Shanna e Hergus levaram Dora pela mo. Shanna presenteou a jovem noiva com um suave vestido de cetim amarelo, e Hergus lavou e enrolou o 
cabelo de Dora e lhe fez um penteado rebuscado mas apropriado. A moa estava radiante como uma flor e, quando os votos matrimoniais foram trocados, Ruark ficou observando-a 
surpreso, pois, naquele momento, Dora estava realmente linda.
    A noite se dissolveu numa festa contnua. Shanna, ao lado de Pitney e do pai, em meio  rua principal profusamente iluminada, sentiu-se leve, apesar do tumulto 
de sons, vises e cheiros de comida. Entre os habitantes da vila, ela estava alegre e animada. Guirlandas e ramos de flores abundavam, e eram uma festa colorida 
para os olhos. Raminhos de plantas de cheiro penetrante perfumavam o ar, e lanternas e tochas emprestavam  cena uma bruxuleante luz fantasmagrica. Os risos e as 
canes alegres contagiavam a todos.
    Ruark deu um grito para poder ser ouvido por Shanna e lhe ps na mo uma taa de champanha. Ao beber, o vinho lhe esquentou o estmago, e Shanna perdeu um pouquinho 
da pose.
    O aroma agradvel de pratos deliciosos era trazido pela brisa noturna e se misturava ao odor travoso de cerveja e rum sendo servidos. Cativos, criados e homens 
livres igualaram-se nas comemoraes. Pitney foi lentamente com Trahern s mesas onde estavam dispostos os refrescos para provar uma amostra. Shanna reparou que 
estava de mos dadas com Ruark, quando seguiram os recm-casados numa dana. Seu riso alegre misturou-se ao de Ruark, e sua cabea girava meio tonta pelo champanha.
    Via o rosto moreno de Ruark  sua frente, seus dentes alvos e os olhos que cintilavam dourados sempre que a olhavam. O corao da moa batia acelerado, no ritmo 
enlouquecedor da festa, e a censura de meses de duplicidade foi liberada: deixou seu esprito voar em liberdade, ainda que temporariamente. Tempo e espao deixaram 
de importar. Gaylord no teve oportunidade de se intrometer, e Shanna no prestou ateno ao enfatuado cavaleiro que, irritado, chamava a ateno de seu pai para 
ela e Ruark, nem  testa franzida de Hergus em desaprovao. Ali, em meio  multido, ela estava sozinha com Ruark, vendo-o, sentindo-lhe a proximidade, e estava 
exttica. Nunca fora to despreocupadamente feliz. Ria e danava  vontade, e o champanha ajudava-a a saciar a sede. Sua leveza desanuviava a cabea, dando-lhe vivacidade, 
e sua cabea ficou to leve quanto os ps.
    Trahern se estava divertindo tanto quanto a filha, pois seu bom sangue gals gostava de divertimento e iguarias. J no se surpreendia e at gostava de ver a 
filha em companhia de seu cativo predileto. O rapaz era excelente danarino, e Shanna, com seu corpo esbelto e gracioso, complementava perfeitamente a harmonia do 
par.
    Orlan Trahern muitas vezes vira a filha em ocasies semelhantes, rodeada por janotas posudos e caadores de dotes. J observara como a moa, para divertir-se 
e atormentar os homens, incentivava-lhes a corte e depois lhes esmagava a vaidade, mostrando-lhes total desprezo. Naqueles vrios meses desde sua volta da Inglaterra, 
era bvio que ela se estava controlando, conforme convinha a uma viva, e ele j no lhe podia censurar a alegria que demonstrava na festa. Orlan sorriu e se recordou 
de que ela no simpatizara com Ruark antes. Agora, mostrava aceit-lo como homem, e talvez at como igual.
    Cenho franzido, Gaylord observava o casal danando, ao lado de Trahern. Sbito, perguntou:
    - Que pretende fazer a respeito, senhor? Na Inglaterra seria um escndalo, se um cativo tivesse essas atitudes em relao a uma dama. Acho que se deve lembrar 
a esse sujeito o lugar dele. No quero usurpar sua autoridade, mas se eu fosse governador daqui, obrigaria esse homem a respeitar sua filha e as outras damas presentes.
    Pitney lanou um olhar malicioso para o cavaleiro por cima do ombro, e depois trocou um olhar interrogativo com Trahern. Este girou nos calcanhares ao provar 
um pedao de pozinho quente.
    - O senhor deve ter reparado que minha filha exige respeito de forma bastante prpria. - Bebericou o vinho, examinando o cavaleiro com um sorriso divertido. 
- Aprendi a confiar no julgamento de minha filha em relao a muitas coisas, talvez mais ainda do que ela prpria confie. Entretanto, se o senhor est determinado 
a educ-la, esteja  vontade para tentar.
    Gaylord endireitou o casaco de cetim dourado com um puxo e esticou o pescoo comprido acima do peito de rendas.
    - Se Madame Beauchamp aceitar minha proposta de casamento, eu lhe oferecerei toda a proteo contra tipos como aquele. Seria meu dever como cavaleiro do reino.
    Quando o ingls saiu vacilante, Trahern se virou para Pitney com um risinho e disse:
    - Acho que nosso amigo no aprendeu nada nos arbustos. Espero que isso no lhe custe caro.
    O riso de Ruark morreu quando sentiu que certa mo lhe agarrava brutalmente o ombro. Virando-se, deu de cara com Sir Gaylord, que ria debochado. Os recm-casados 
se entreolharam surpresos, e Shanna o olhou incrdula, atnita com a audcia do sujeito.
    Os olhos azuis-acinzentados de Sir Gaylord se detiveram friamente em Ruark, e ele disse:
    - Parece que devo estar sempre a relembrar-lhe seu lugar.  com o resto dos criados e escravos. Insisto em que deixe Madame Beauchamp sozinha. Compreende?
    Ruark baixou lentamente o olhar para os dedos compridos que lhe apertavam a seda do casaco. Ia responder, quando Shanna retirou a mo de Gaylord, como se fosse 
algo repugnante. Encarou o cavaleiro, faces coradas, olhos dardejando fogo verde. Por precauo, o homem recuou um passo, lembrando-se da bofetada que levara.
    - O senhor est-se intrometendo - afirmou ela, incrdula. - H razo para tal?
    Os habitantes da ilha pararam para contemplar a cena. Um murmrio interrogativo fez-se ouvir, e at Sir Gaylord reconheceu o tom irritado das vozes. O cavaleiro 
estava fora de seu elemento, pois Ruark tinha um lugar especial em Los Camellos, e Gaylord Billingsham era um estrangeiro antipatizado pela maioria. Gaylord falou, 
em tom mais reservado:
    - Madame, procuro apenas garantir que esse homem lhe tenha o devido respeito. A senhora talvez se sinta com obrigaes para com ele, por hav-la salvo dos piratas, 
mas  meu dever de cavalheiro resguardar a reputao de uma dama.
    Para Shanna, era ridculo que aquele idiota fingisse preocupar-se com sua honra na presena de outras pessoas, e em particular procurasse conquist-la com desastrados 
afagos. Ela riu, divertida.
    - Afiano-lhe, senhor, que no sou uma perfeita dama. - Vendo o olhar divertido de Ruark, acrescentou: - Imperfeita, talvez. - Pegou o copo do marido e o seu 
e, passando-os a Sir Gaylord, pediu meiga: - Por favor, ache um lugar para coloc-los, sim? - Em seguida, deu a mo a Ruark e fez sinal aos msicos para recomearem 
a tocar, dizendo: - Gostaria de danar com meu escravo.
    Ruark deu um risinho na cara vermelha do cavaleiro e disse:
    - Tente de novo em outra ocasio.
    Pondo a mo de Shanna em seu brao, Ruark a conduziu para longe do furioso homem. As finas hastes dos dois copos estalaram e, sem uma palavra, Gaylord girou 
nos calcanhares e se afastou em largas passadas.
    As danas continuaram cada vez mais animadas e ficaram cmicas,  medida que as pessoas davam suas interpretaes individuais aos vrios passos, em meio a estrepitosas 
palmas e ao ritmo cadenciado, at que, exaustos e sem flego, os casais resolveram comer e beber, para embalar sua alegria. Shanna recebeu at uma taa de champanha, 
posta em sua mo com insistentes apelos de que ela se divertisse e bebesse. Ela seguiu a sugesto, e seu riso leve misturou-se ao de Ruark. Encontrando espao a 
uma das mesas, ela se amontoou ao lado dele num comprido banco. O contato prximo foi agradabilssimo. Na verdade, Ruark o adorou. A coxa de Shanna estava junto 
da dele debaixo da mesa, e seu ombro cobria parcialmente o dele. A intimidade forneceu ao rapaz oportunidade para pr a mo no banco atrs dela, e como as lanternas 
iluminavam parcamente o local, e no havia ningum atrs deles, era natural que Ruark a acariciasse ao mximo, pois tinha dificuldade em manter as mos longe dela.
    Madame Duprey, a beleza de cabelos negros, e seu marido comandante estavam sentados mais adiante muito concentrados um no outro, aps a longa ausncia de casa 
do francs. At Shanna sentiu menos desprezo pelo homem ao ver os beijos apaixonados que ele depositava na nuca e no ombro da mulher.
    - Que amor! - - disse Shanna, sorrindo para Ruark. - Acho que ele a ama de verdade.
    - Mas nem a metade do que eu a amo, menina - sussurrou-lhe Ruark, perto do ouvido. - Estou quase estourando a cala de tanto que a desejo, e voc fica a elogiando 
a dedicao de outro homem. Estarei condenado a jejuar com esse banquete de seios rosados e coxas sedosas a meu lado, e fingir indiferena a esses frutos suculentos? 
Anseio por provar a ma de seu amor e teria o maior prazer em devor-la.
    - Psiu! - disse Shanna, rindo, debruando-se nele. - Voc est bbado. Algum pode ouvir.
    Certo de que, com toda a barulheira, suas palavras s seriam ouvidas por ela, Ruark deu um risinho maroto e falou:
    - , estou bbado, mas apenas desse nctar que  mais embriagador do que qualquer vinho que j ousei beber. Tenho febre em meu sangue, um fogo que s voc pode 
apagar. Sinto-o em minha virilha. Venha galopar comigo, linda donzela. Venha galopar este drago sensual, e derrubarei todos os seus sonhos de cavaleiros. Um beijo, 
um carinho, uma palavra gentil e, como uma mariposa, troco minha escamosa armadura pelo revestimento mais macio de homem. Amor, tenha cuidado com este animal! Ele 
se arrasta atrs de voc como uma pobre e fatigada alma implorando apenas um olhar, um sinal de reconhecimento de sua adorada. Seus cachos dourados ondulam como 
um pendo sob a brisa, e acho que agora a linda donzela se vai virar e me ver no como um monstro, mas como algum que teria prazer em lhe beijar as solas dos ps. 
Ah, Shanna, minha Shanna, tenha piedade deste animal atoleimado! Aceite-me em seu peito macio e livre-me deste peso tremendo..
    Shanna se viu invadida por um calor e uma ternura que no sabia explicar. Quase abriu a boca para dizer que seus sonhos eram frvolos, uma fantasia outrora alimentada 
por uma mocinha mas j ultrapassada, como bonecas de porcelana. Aquilo sim, era, real, sentir a coxa de Ruark contra a sua, seu brao contra as costelas esbeltas 
do rapaz, aquela cacofonia de viso, cheiro e barulho que os cercava, mas, ao mesmo tempo, os escudava de olhares indiscretos. Ele era o amante dela, marido ou no, 
e se entregava livremente a ele quando chegava o momento. J no mais o rejeitava. J no mais se dizia viva. J no estava de luto, e seu nimo era incentivado 
pela presena dele.
    Um brinde aos recm-casados interrompeu-lhe os devaneios, e Shanna se virou quando todos se levantaram, ergueram as taas e rapidamente formaram uma fila. Era 
o preldio para os convidados acompanharem o feliz casal ao seu chal, um cortejo que perambulou pelas ruas em comemorao. Shanna riu de novo, embora s vezes se 
encolhesse devido ao humor incentivado pelo lcool dos marujos, que abusavam da imaginao, mas provocavam risinhos abafados nas mocinhas.
    Foi quase um alvio quando a festa comeou a esmorecer e Ruark a levou de volta ao pai. Trouxeram a carruagem; Shanna sentou-se e ficou esperando por Hergus. 
Quando se formou o grupo, completo com Hergus e Gaylord, Shanna continuava no lugar, xale cuidadosamente dobrado no busto, e firmemente seguro. O sorriso dela lembrava 
o de um gato bem alimentado  custa de um bando de canrios. Ela quase no prestava ateno a Ruark e a Hergus; espremidos a seu lado, deixando a Sir Gaylord a oportunidade 
de partilhar o banquinho do lacaio ou de caminhar sozinho de volta. Ao perceber o dilema do cavaleiro, Pitney compadeceu-se, sorrindo, e escorregou para junto de 
Trahern, fazendo com que o proprietrio resmungasse. Pitney bateu ento com a mo no assento, convidando o cavaleiro a sentar-se. Gaylord suspirou. No estava com 
vontade de andar ou partilhar um assento com um criado e tinha pouca alternativa, a no ser encolher-se no canto. Os outros praticamente no perceberam que o enorme 
cotovelo de Pitney se apoiou nas costelas do cavaleiro, e s quando comeou o trajeto  que Gaylord, a cada buraco na estrada, resmungava como se estivesse sentindo 
dor.
    Na manso, Shanna precedeu Hergus na escada, e s quando a porta do quarto se fechou a moa disps o xale cuidadosamente na cama e o abriu, revelando uma garrafa 
fechada de champanha. Hergus ficou atnita e olhou para a patroa, achando que ela estava louca.
    - O que voc pretende fazer com isso a, hem?Eu bem que achei que voc estava bebendo demais, namorando o seu cativo bem debaixo da vista de todo o mundo. Seu 
pai tambm se encontrava l, mas nem isso importou. Se voc pensa que seu pai  um velho gag, que no percebe essas coisas, est mesmo biruta como penso.
    - No concordo - afirmou Shanna, rindo, e foi pegar as taas na sala de estar. -  que j no estou de luto, e  apropriado que eu celebre.
    - O que voc quer dizer com "luto"? - perguntou Hergus, perplexa. - Nunca soube que voc gostava tanto assim de Milly, nem que as duas se davam bem. - A criada 
deu de ombros e comentou baixinho: - Principalmente porque a mocinha, que Deus tenha piedade de sua alma, morria de inveja de voc. Se Abe Hawkins no passasse a 
vida de pileque, ela e a me dela iam ter muito mais coisas.. Mas ele tambm nunca trabalhou um dia sequer..
    - No  por causa de Milly. - Shanna ficou junto  porta, segurando dois clices. Executou uma profunda reverncia que fez as saias de tafet crescerem em volta 
dela e disse: - No existe mais viva. Sa do luto.
    - Voc nem esteve casada tempo bastante para se considerar esposa. O mnimo que o Sr. Beauchamp podia ter feito era viver o suficiente para botar um beb em 
sua barriga. Se isso tivesse acontecido, duvido que voc ia andar por a de namoricos com o Sr. Ruark. - Hergus suspirou melancolicamente. - Mas acho que, se ele 
tivesse vivido mais, vai ver que nem ia poder ser pai.
    De modo abrupto, Shanna ps os clices de lado, achando que realmente havia bebido muito. Pegou o champanha e o escondeu debaixo de um travesseiro. Ao observ-la, 
Hergus ficou preocupada, achando que a moa estava realmente louca.
    -  melhor eu a aprontar para a cama. Estou escutando o Sr. Ruark na escada, e quero ir embora antes que ele me veja. - Hergus tirou o vestido de tafet da patroa, 
deixando-a apenas com uma camiseta, em nome do recato, como ultimamente era hbito de Shanna. - Venha sentar-se aqui na penteadeira, para eu escovar seu cabelo, 
e depois vou embora.
    Isso logo se resolveu. As madeixas douradas caram em nuvens espessas e sedosas pelos ombros nus de Shanna, e a criada saiu ento do quarto. Sozinha, Shanna 
contemplou sua imagem de mulher macia, pele sedosa e seios finamente cobertos, ombros alvos e atitude expectante. As palavras proferidas por Ruark no lhe saam 
da cabea, e ela se imaginava sozinha num morro, ignorando as splicas que ele lhe fazia, enquanto ela procurava desesperadamente seu cavaleiro de armadura. Era 
um sonho caprichoso, que no valia a pena. Podia ter Sir Gaylord  hora que quisesse, mas estremecia de nojo ao pensar que precisaria submeter-se s carcias desajeitadas 
daquele homem. Vibrava, sim, pelo calor das mos de Ruark em seu corpo, excitando-a deliciosamente.
    A brisa noturna agitou as cortinas e, no silncio da casa, Shanna ouvia Ruark se movimentar no quarto. Quase compelida por estranha fora, foi at as portas 
envidraadas e, como um espectro, desapareceu, sem ouvir a porta de sua sala de estar se abrir e passadas atravessarem o aposento.
    - Seu pai disse que daqui a pouco vai subir e... - Hergus piscou os olhos, surpresa ao ver que o quarto se achava vazio e comeou a arfar: - Meu Deus! Ela foi 
estar com ele de novo. E o pai vem a!
    Nu at a cintura, Ruark encostou-se no pesado p da cama, olhos dardejando chamas douradas ao observar Shanna caminhar lentamente para ele, mexendo os quadris 
com movimentos ondulantes sob o traje transparente. Os seios maduros estavam comprimidos na fina fazenda, o que o excitou tremendamente. Os ps descalos da moa 
pareciam deslizar no tapete, e seus lbios exibiam sorriso malicioso.
    - Meu Capito Pirata Ruark, fazedor de vivas e destruidor de virgindades. O mais negro de todos os drages. Voc tece uma teia de palavras que aprisiona qualquer 
moa desavisada. Agora me diga sim ou no. Foi algum animal desprezvel que me tirou a virgindade numa noite tempestuosa de inverno? Acho que no. Foi um galanteador 
moreno e bonito que colheu a cereja, mas apenas mordiscou a fruta antes de desaparecer na escurido. Teria sido a flor da paixo que ele ansiava por colher que 
o trouxe a esta ilha, ou teria sido sede de vingana em relao quela que apenas tentou salvar-se do encanecido pobre-diabo num calabouo e s foi descobrir, tarde 
demais, que ele era um amante encantado? Que drago moreno vejo  minha frente? Que dizer dos cachos devoradores e dos fortes braos humanos que me enlaam? Meu 
galante cavaleiro, ser que o sangue que corre em suas veias  de animal ou  o sangue sensual de homem?
    O olhar inflamado dele a fixou com insistncia e ele disse:
    - Venha, minha vbora, que j lhe mostro.
    Shanna riu alto e roucamente, e ps as mos no estmago musculoso dele, subiu para as costelas e o peito, carinhosa e provocadoramente, sentindo-lhe o bater 
convulso do corao.
    - Vejo que est muito disposto, meu senhor - sussurrou ela, quando as mos dele lhe pegaram a cintura. Um rosnado baixinho soou fundo nela, como uma gata chamando 
o macho. Lenta e deliberadamente, ela se encostou-se a ele, primeiro com os lbios, depois com os bicos dos seios mal cobertos, fazendo com que o sangue de Ruark 
se esquentasse e fervesse.
    - Shanna, Shanna! - murmurou ele, e a abraou, comprimindo-a delicadamente e curvando-se para beijar-lhe os lbios macios.
    Um leve arfar o fez levantar os olhos, e ele viu Hergus perto das portas envidraadas, com aparncia chocada. A mulher estava com a mo tapando a boca, e de 
olhos arregalados, no se sabe de medo, horror ou surpresa. Ruark sentiu-se congelar.
    - Temos visita - murmurou, pondo as mos nas costelas de Shanna e fazendo com que ela se afastasse. Quando ela girou, atnita, ele ficou de costas para a criada, 
pois a cala justa revelava o estado de excitao em que ele se encontrava. Pegou logo um roupo no armrio e o vestiu apressado, enquanto Shanna dava vazo  fria:
    - Hergus, est-me espionando? O que significa isto?
    A criada s conseguiu gaguejar, envergonhada e constrangida pelo traje difano da patroa. Uma coisa era estar sozinha com Shanna nua, outra era v-la quase despida 
na presena de seu amante. Hergus era uma pessoa pudica, e sua amizade maternal por Shanna tornou seu constrangimento ainda mais profundo.
    -  bvio que voc no tem justificativa para me estar espionando - acusou Shanna, batendo, furiosa, os ps. Girando irritada com o corpo, jogou-se na cama de 
Ruark, onde arrumou a colcha e dobrou o lenol. A irada no-viva Beauchamp deixou o traseiro redondo cair pesadamente na fronha de paina e levantou a mo, aborrecida.
    Um sorriso divertido repuxou os lbios de Ruark e ele comeou a encher o cachimbo. Ardia de desejo de se reunir  mulher na cama, mas tinha de resolver o problema 
da escocesa, que parecia no ter a menor inteno de ir embora.
    - Sr. Ruark - rosnou Hergus, em tom de voz preocupado. - No h tempo. - Torceu as mos angustiada e apressadamente, e sussurrou: - O Sr. Orlan disse que vinha 
ver se Shanna estava direitinho na cama. - A criada resmungou, aflita. - Se o patro o encontrar aqui, no quero nem pensar, Sr. Ruark!
    O rapaz parou de acender o cachimbo e lhe perguntou:
    - Quanto tempo voc ficou ali ouvindo?
    As faces da mulher ficaram cor de beterraba, e ela baixou os olhos para as mos contorcidas:
    - No vim espionar ningum, s queria avis-la de que o pai dela estava a caminho. Eu no ia mentir para o senhor.
    - Sei disso, Hergus.
    - E nem vou falar para ningum - apressou-se a acrescentar. - Nem de outra coisa qualquer, senhor. Acho que o senhor...
    Parou e olhou surpresa para um ponto alm de Ruark. Este acompanhou-lhe o olhar e viu sua mulher enroscada como uma criana na cama, as negras pestanas roando 
as faces: Shanna dormia. Largou o cachimbo e fez um sinal com a cabea para Hergus:
    - Prepare a cama dela.
    A criada correu pressurosa para o outro quarto, Ruark foi at a cama e cuidadosamente levantou Shanna. Sentindo-lhe os braos, ela suspirou como uma gatinha 
e se aconchegou, feliz por estar com ele.
    Os lenis de Shanna estavam sendo dispostos por cima dela, quando se ouviram passadas no corredor. Ruark saiu depressa pela sacada e parou do lado de fora no 
escuro, para que seu vulto no fosse percebido. Ouviu abrirem a porta do quarto de Shanna e a voz de Hergus, abafada e aliviada.
    - Ela apagou como uma vela, senhor. Eu estava guardando as roupas dela.
    Trahern resmungou:
    - timo. - Seguiu-se demorada pausa, e depois ele disse: - Hergus, voc a tem achado mudada ultimamente?
    - N... no, senhor - gaguejou a criada. -  certo que ela cresceu um bocado.
    -  verdade - concordou Trahern, pensativo. - Gostaria que a me dela estivesse aqui. Minha Georgiana sempre teve mais jeito com a menina do que eu. Mas tenho 
aprendido muito nos ltimos meses. - Suspirou fundo e anelante. - Talvez ns dois ainda cheguemos a um entendimento ideal. Boa-noite.
    A porta tendo sido fechada, Ruark encostou-se na parede, aliviado. Hergus aproximou-se das portas envidraadas e, vendo Ruark, foi falar com ele:
    - Voc  um louco, John Ruark. E me fez virar traidora. Meu bom patro confia em mim para conseguir o que seja melhor para a menina. Estou avisando que no vou 
mais mentir para ele.
    A testa franzida de Ruark estava oculta na sombra, mas sua voz transmitiu a aflio que aquelas palavras lhe causaram:
    - Se Deus quiser, no vou mais precisar pedir-lhe que faa isso. Existe,  certo, uma poca para viver e outra para morrer, mas s vezes, parece que a poca 
para viver prevalece sobre a outra. Tenha pacincia Hergus. Garanto que tudo que fao e pretendo  para o bem de Shanna, porque, Hergus, amo essa moa mais do que 
tudo.
    Hergus baixou o olhar enquanto se esforava por conservar-se irritada e encontrar uma resposta causticante. Percebeu, ento, que estava sozinha.
     medida que a data da partida se aproximava, os preparativos se intensificavam em frentico ritmo. Aprontou-se a serraria para a primeira carga de troncos. 
Ruark passou a inspecionar os ltimos detalhes, e dedicou-se somente a isso nos dias que antecederam a viagem s colnias. Com os capatazes, realizou exaustiva verificao 
final, e examinou coxins, para ver se estavam bem lubrificados, e dentes de engrenagem, rodas, e vigas resistentes como projetado. O enorme mecanismo de gua foi 
verificado: estava perfeitamente equilibrado e funcionava apenas com suave presso. A nova serra estava no lugar e esperava a primeira carga de troncos vindos de 
carroa pelo plat sul.
    Ruark ficou satisfeito com tudo o que viu. Era uma realizao da qual se orgulhava. Dispensou os capatazes e operrios e andou at o lago, examinando detidamente 
as comportas e os lveos. Tudo estava pronto.
    Os zurros irregulares de um jumento mais para cima do rio chamaram a ateno de Ruark. O primeiro condutor das carroas com os troncos parou sua carga na estrada 
acima da serraria e desceu a p para ver onde descarregar. A parelha ficou cochilando  sombra e abanando as caudas indolentemente; ao contrrio de Old Blue, o animal 
na traseira, que zurrava insatisfeito, com as orelhas ao lado a cabea. Old Blue continuava rabugento, mesmo pertencendo a Trahern. O latifundirio fez proposta 
melhor do que a do Sr. Dunbar, e Ruark riu divertido e se perguntou se Trahern estaria questionando o acerto de sua compra.
    Ruark parou  margem do lago e contemplou a superfcie espelhada da gua. Todos os rudos se amainaram; havia uma tenso no ar, uma expectativa de que, dali 
a instantes, tudo seria abafado pela balbrdia das diversas atividades. As comportas estavam prontas para ser abertas, e os troncos prontos para ser descarregados. 
Tudo dependia do sinal de Ruark.
    Um som de lascas e estalos rompeu o silncio, e foi subindo rapidamente de volume e proporo. Ruark olhou para a carroa e, para seu horror, viu as estacas 
laterais lentamente cedendo sob o peso dos troncos. Com um estalo final, elas realmente no agentaram mais e espalharam a carga pela encosta do morro.  medida 
que desciam, os troncos ganhavam velocidade e iam derrubando o que encontravam no caminho. O nico lugar onde Ruark se poderia refugiar era o lago.
    Ruark deu um salto e alongou os passos. Seu corpo descreveu ligeiro arco no ar, e ele caiu estatelado na superfcie lisa da gua. Quando a gua lhe cobriu a 
cabea, ele se inclinou-e mergulhou fundo com toda a fora. A base de um tronco passou to perto dele, que o rapaz viu minsculas bolhas agarradas  casca da madeira. 
Ento sua flutuabilidade fez cessar a descida, e o tronco sumiu. Pedras roaram dolorosamente pela barriga do rapaz, e ele procurou afastar-se. Virando o corpo, 
pde ver a turbulncia espumosa acima. Outro tronco quase tocou o fundo antes de arremessar-se para cima como um peixe fisgado, e em seguida balouar na superfcie.
    Os pulmes de Ruark ardiam e estavam a ponto de estourar. Ele tocou o fundo do lago e deu um impulso para cima, oscilando como um tronco. Recuando para acompanhar 
a gua, ele ps precioso ar nos pulmes. Gritos e imprecaes vieram da margem onde ele estivera e, quando se esforou para abrir os olhos, Ruark viu o capataz e 
o cocheiro rodeados por uma multido que, ansiosa, examinava a gua,  procura de um sinal seu. Ruark agarrou-se a um tronco prximo, acenou e ouviu o grito de resposta. 
Descansou por um instante, e comeou a nadar lentamente para a margem.
    - Minha inteno no era inspecionar o lago to minuciosamente assim! - arfou ele, enquanto alcanava a margem.
    - O maldito idiota deixou os troncos desacorrentados quando desceu o morro - esbravejou o capataz.
    - No deixei, no! - afirmou o cocheiro. - Est pensando que sou algum burro? Verifiquei tudo, e eles estavam presos, sim.
    - No houve maiores problemas - disse Ruark, aceitando a mo estendida do capataz e subindo para a margem. O som que precedeu a avalancha dos troncos o estava 
inquietando. - Mas quero examinar a carroa.
    Ele adiantou-se na encosta. As correntes eram seguras no lugar por uma cavilha atravs de um elo e um suporte na base da carroa de forma tal que a cavilha pudesse 
ser aberta e os troncos cassem. Estacas de madeira dos dois lados prendiam ainda mais os troncos, mas elas estavam agora no cho, junto com a cavilha e a pequena 
marreta que todo cocheiro levava. Algum havia deliberadamente aberto a cavilha, aps retirar as estacas. A pegada parcial de uma bota aparecia na terra macia, e 
Ruark deduziu que Old Blue havia tido razo para zurrar daquela maneira. Como os homens  sua volta usavam sandlias de solas chatas ou sapatos de trabalho, Ruark 
no teve dvida de que outro homem estivera l. Seguiu a trilha por alguma distncia ao longo da estrada e at uma curva, protegida por espessos arbustos e rvores. 
L, ele encontrou outra impresso de um salto de bota, e as marcas de cascos de cavalo. Franziu o cenho e compreendeu que algum havia querido mat-lo.
    Ruark levantou os olhos a tempo de ver a pequena carruagem de Ralston surgir abruptamente na curva. O homem magro parou ao lado dos operrios reunidos em redor 
de Ruark. Saltou do assento com um sorriso triunfante de escrnio e disse:
    - Ah, vadiando de novo, hem? Espero poder convencer o Sr. Trahern de que so necessrias providncias mais rgidas para que os cativos trabalhem.
    As botas do homem estavam meticulosamente limpas; caso contrrio, Ruark o acusaria na hora.
    - Houve ligeiro problema - explicou Ruark, tenso, observando Ralston de esguelha. - E parece que no foi acidental, e sim proposital.
    - Deve ter sido causado pelo desleixo de um de seus preciosos cativos. - Ralston gesticulou com o chicote de montaria. - Devo acreditar que isso teve alguma 
coisa a ver com o estado em que voc est?
    - Teve sim - interferiu o capataz. - O Sr. Ruark estava l embaixo quando os troncos se soltaram. Ele s se salvou porque mergulhou no lago.
    - Que comovente! - disse Ralston, com um sorriso afetado. - Voc est sempre metido em confuso, no ? - Acariciou a extremidade do chicote e ficou pensativo. 
- Mas consegue fazer com que tudo vire a seu favor. Talvez voc, mais do que os outros, precise de disciplina.
    Ruark o olhou fixa e friamente. No pretendia deixar que o outro usasse seu chicote nele. Milly deve ter-se encolhido e gemido sob as vergastadas de seu espancamento 
cruel, mas se Ralston foi realmente seu assassino, agora enfrentava um homem, no uma garota indefesa.
    Um rudo de cascos na estrada chamou a ateno geral. tila surgiu rpido na curva, com Shanna no lombo. Ao ver o grupo, ela fez com que o animal tivesse de 
escorregar para se deter e os operrios mais assustados saram da frente.
    - Sr. Ruark! - Os olhos dela contemplaram o traje ensopado, e ela se inclinou para frente e afagou o pescoo de tila. - O senhor agora costuma nadar vestido?
    -  que houve um acidente, madame, e ele estava no meio - informou um dos homens.
    - Um acidente! - arfou Shanna. Tirou o joelho do aro dianteiro da sela e sentiu as mos de Ruark em sua cintura, para ajud-la a desmontar. - O que aconteceu? 
Voc est machucado?
    As perguntas saram em srie, e a testa franzida de Shanna revelou a Ruark que ela estava de mau humor. Ele ia tranqiliz-la, quando Ralston o empurrou bruscamente 
no ombro e esbravejou:
    - Mantenha distncia, idiota! - Ele brandiu o chicote perigosamente perto de Ruark. - Vou lembrar-lhe apenas uma vez, Sr. Ruark, de que um cativo no pode tocar 
numa dama. - Ralston parou, esperando a reao do homem que abominava, mas a nica resposta que teve foi um olhar glacial. Virou-se, ento, para Shanna e disse: 
- Madame, no  bom confiar muito nesses patifes, e  precipitado dar-se a tantas familiaridades com eles. So a escria da civilizao e no valem sua preocupao.
    Shanna estava petrificada de raiva, e seus olhos desfecharam fascas verdes:
    - Sr. Ralston! - Sua voz seria capaz de fazer gelar o homem mais ousado. - O senhor abusa do ttulo de homem e desconsidera o de um cavalheiro. J por trs vezes 
o senhor me atrapalha e me censura por meus modos.
    O rosto de Ralston ficou rubro por estar sendo publicamente repreendido, mas Shanna no tomou conhecimento. Dando um passo  frente e batendo-lhe de leve no 
peito com a extremidade do chicote de montaria, ela continuou:
    - Jamais volte a me confrontar! Um dia vamos ajustar nossas contas, mas, por enquanto, saia da minha frente.
    Ralston s pde obedecer. Lvido de fria, afastou-se em largas passadas e, antes de subir na carruagem, olhou irado em volta e disse:
    - Vocs a! - rosnou. - Voltem ao trabalho. J vagabundearam demais. O primeiro que eu pegar malandrando vai ser chicoteado!
    A estrada logo se esvaziou, e Ralston se sentou na carruagem e chicoteou o cavalo com violncia. Ruark o observou partir e fez um gesto ao cocheiro da carroa 
para que cedesse passagem aos outros.
    - Est ferido? - perguntou Shanna baixinho, olhos examinando-o  procura de algum ferimento.
    - No, meu amor - respondeu Ruark, rindo.
    - O que aconteceu?
    Ruark encolheu os ombros e contou-lhe calmamente a ocorrncia, e as provas do dolo. Afirmou tambm haver ligao entre o ltimo acidente e o da destilaria.
    - Parece, meu amor, que algum no est satisfeito com minha presena.
    A mo de Shanna tremia quando ela a ps no brao de Ruark e disse, com voz entrecortada e tensa:
    - Ruark, voc no est pensando que eu...
    Ela no conseguiu concluir, mas Ruark viu suas lgrimas ao olh-la surpreso. Sorriu meigamente e sacudiu a cabea:
    - No, amor, isso nem me passou pela cabea. Confio em voc da mesma forma que confio em minha me. No se preocupe com isso.
    Por um instante, Shanna no conseguiu falar, enquanto se esforava para controlar seus tremores, mas logo perguntou:
    - Que razo teria algum para fazer mal a voc?
    - Vrios dos piratas teriam motivo para isso - disse Ruark, rindo - mas duvido que tivessem coragem de vir at aqui. - Tentou tranqilizar a moa e prosseguiu: 
- Daqui para frente vou tomar mais cuidado.
    Um operrio subiu com dificuldade a encosta at eles, segurando um pedao de palha amassado.
    - Seu chapu, Sr. Ruark. - Entregou a massa disforme a Ruark, aparentando tristeza, e prosseguiu: - O senhor ia ficar assim, se no tivesse sido to esperto.
    O homem no esperou pelos agradecimentos; virou-se e deslizou morro abaixo novamente. Ruark contemplou o que restava do chapu, tentando ver alguma forma nele. 
Levantou o olhar para Shanna e seus olhos brilharam, risonhos:
    - Eu agora poderia ser um homem livre, no fosse o custo dos chapus novos - brincou.
    Os dias comearam a correr, e o Hampstead e o Tempest foram carregados com suprimentos e mercadorias para trocar. tila e Jezebel tambm iriam, e destinou-se 
um local para eles no convs do Tempest, dessa vez sob a orientao de Ruark, e construram-se baias acolchoadas para proteger os animais. A pressa e o furor dos 
preparativos encheram os dias que faltavam. Hergus ia e vinha correndo dos aposentos de Shanna como algum possudo pelo demnio. Certa vez, parou no corredor, enquanto 
Ruark olhava com um sorriso divertido nos lbios, para os seus braos carregados de capas e peles.
    - Guardar as roupas de inverno. Tirar as roupas de inverno - disse ela, arquejante. - Essa histria nunca termina.
    Chegou, ento, o dia da partida. Tudo foi colocado a bordo dos navios, que estavam ancorados na pequena baa. Entre gritos e despedidas, os passageiros embarcaram 
nas chatas e foram conduzidos por remadores para passar a primeira noite a bordo, e aguardar as aragens da madrugada.
    E chegou finalmente a madrugada. As velas foram enfunadas precariamente, at o vento aumentar. As ncoras foram levantadas e, embora fosse difcil perceber algum 
movimento, logo se formou uma ondulao de espuma branca debaixo das proas, e comeou a viagem. Os mastros guincharam com um estalo alto quando o Hampstead se elevou 
na primeira onda aps a enseada. Ouviu-se um tiro vindo da ilha, e Shanna observou a nuvem de fumaa esvair-se do morro. O Hampstead respondeu  saudao de despedida 
com o canho de popa, e um momento depois o Tempest seguiu atrs da primeira embarcao.
    Los Camellos era apenas uma manchinha no horizonte, quando Shanna finalmente desceu, irritada porque Ruark no achara conveniente visit-la na partida. Pela 
manh s seu pai e Pitney estavam presentes para cumpriment-la  mesa com o Comandante Dundas, um homem vigoroso parecido com seu pai, grande e pesado, mas um pouco 
mais magro e slido, devido a seus anos no mar. Durante a refeio, a conversa girou principalmente em torno das matrias-primas que poderiam ser encontradas para 
as serrarias na Inglaterra. Na verdade, Shanna aprendeu algo ao ouvir os homens dizerem que as colnias estavam cheias de fortes com paliadas e cabanas rsticas 
de troncos. Sua imaginao falhou quando ela tentou visualizar ndios pintados e meio nus perambulando nas matas. Sentia falta da voz bonita de Ruark e de sua presena 
 mesa; e isso fez com que a manh ficasse incompleta. Ficou surpresa porque seu pai no convidou Ruark a partilhar a refeio com eles.
    Depois do almoo, ao passear no convs, no conseguiu ver Ruark e ficou irritada, porque no podia procur-lo. Sentia-se abandonada porque o marido no tinha 
arranjado um tempinho para ficar com ela. Postou-se ao lado da amurada do tombadilho, de onde podia observar toda a embarcao. Algum tempo depois sentiu uma presena 
a seu lado e se virou esperanosa, mas deparou com Pitney que a olhava, com expresso de piedade nos olhos. Shanna fez um aceno rpido com a cabea e foi direto 
ao assunto:
    - Ainda no vi o Sr. Ruark. Onde  que ele est?
    Pitney semicerrou os olhos e respondeu:
    - A mais ou menos umas duas milhas daqui.
    Shanna ficou atnita, porque as palavras de Pitney no faziam sentido. Pitney inclinou a cabea e apontou para onde estava o Tempest, a estibordo. Passou-se 
demorado e perplexo momento antes que ela entendesse. Devagar, Shanna olhou de novo para Pitney, olhos arregalados ao se dar conta da situao.
    - Pois  - respondeu ele  pergunta no verbalizada. - Foi idia de Ralston, para que Ruark ficasse perto dos cavalos, mas Hergus e eu concordamos. - Pitney 
ignorou o arfar indignado de Shanna e continuou. - Isso vai evitar muita tentao.
    Shanna ajeitou o xale nos ombros com evidente irritao e seus olhos adquiriram glido tom azul, quando ela o olhou furiosa. Afastou-se, lbios balbuciando palavras 
que Pitney deu graas a Deus por no ouvir. Aborrecida, foi batendo os ps e em seguida o grandalho estremeceu ao ouvir uma porta ser fechada com estrondo.
    S no meio da tarde Shanna saiu do camarote. A maioria dos marinheiros era de antigos conhecidos, e ela trocava cumprimentos ligeiros quando encontrava um velho 
amigo. Contudo, quando Pitney ou Hergus se aproximava, o olhar de Shanna ficava glido e seus lbios se comprimiam.
    O dia passou, e mesmo com muitos amigos e a famlia perto, Shanna sentia-se totalmente s. Seu olhar estava sempre posto na pequena escuna de velas brancas que 
deslizava ao lado do Hampstead. A noite lhe aplacou a inquietao, mas o catre era estreito, duro e frio. Seguiu-se mais um dia, e Hergus se viu sem nada para fazer, 
pois Shanna se penteou e no permitiu que a criada entrasse no camarote.O Tempest foi avistado de madrugada, o casco no horizonte, e apenas a vela branca aparecendo, 
mas,  medida que o dia corria, a embarcao se aproximou para retomar seu posto de travs.
    O dia seguinte amanheceu cinzento e frio. O Tempest s foi avistado ao meio-dia. No quarto dia, uma chuvinha brumosa acossou o convs e s se agentava ficar 
pouco tempo ao ar livre, pois o frio atravessava os ossos. As velas foram rizadas, quando o vento aumentou e ficou mais para leste.
    Perto da noite, o rumo foi alterado para oeste. Haviam partido rumo norte, aproveitando os ventos de sul passando bem a leste e norte das Bermudas. Agora, rumavam 
a oeste, na direo norte da Baa de Chesapeake, deixando que os ventos norte ali predominantes os ajudassem no trajeto. A escuna se beneficiaria mais com os ventos 
da alheta e avanaria com maior velocidade, devendo chegar ao porto pelo menos um dia  frente do Hampstead.
    Nos dias seguintes, Shanna ficou mais impaciente e inquieta. Seus dias eram vazios e compridos. Quando o Hampstead se dirigiu a oeste, o Sol saiu e ventos favorveis 
impeliram o barco rapidamente para seu objetivo. Embora o tempo estivesse mais quente, para Shanna continuava pssimo, e a embarcao parecia uma tartaruga.
    Era depois do jantar, e at Sir Gaylord havia sido incomumente gentil. Mesmo assim, isso no abrandou os modos glidos de Shanna, e ela finalmente foi para o 
convs, a fim de escapar s inteis tentativas de alegr-la, desenvolvidas por seu pai e pelo Comandante Dundas. Encolhia-se contra a amurada, agasalhada por um 
manto e escondendo o nariz num regalo de l enrolado no pescoo, quando Pitney se aproximou. Encostou os cotovelos na amurada e observou as ondas inconstantes que 
formavam espumosas elevaes brancas. Depois de longo silncio durante o qual Shanna o ignorou, o homem resolveu falar:
    - Ultimamente a senhora anda de mau humor, Madame Beauchamp. Shanna contraiu os lbios e no respondeu, mas Pitney sabia muito bem o que havia estragado a felicidade 
da moa.
    - Voc est zangada e nervosa porque o destino lhe pregou rude golpe. - O tom era de escarninho e sarcasmo.
    - No foi bem o destino - vociferou Shanna. - Foram amigos em quem eu confiava.
    - Ah, voc fala! - brincou Pitney, rindo de leve. - Hergus e eu estvamos pensando que voc tinha perdido a lngua.
    Shanna ficou petulante com as piadinhas dele:
    - No tenho tido nada a dizer a vocs dois.
    - Pobre menina - zombou ele. -  triste que voc precise sofrer os caprichos do destino. - Pitney parou e esfregou as mos, olhando para o cu que escurecia. 
- Menina Shanna, vou-lhe contar uma histria.  de um rapaz cujos sofrimentos se equiparam aos seus.
    Shanna preparou-se para ouvir as sensaborias do homem.
    - Ele no era uma alma complicada, embora tivesse assumido a ferraria do pai e tivesse trabalhado nela com tanta honestidade e esforo que a transformou num 
enorme negcio de ferro que empregava doze pessoas. Conheceu uma dama nobre, a mais jovem de uma famlia rica, de vrias filhas. Aps venturoso namoro, os dois se 
casaram discretamente e ela lhe deu um filho. Isso forneceu  famlia a continuidade da sucesso e todos aceitaram o membro recm-chegado.
    "O filho era paparicado pelas tias, e a me no admitia interferncia do pai que, sendo plebeu, no podia compreender as maneiras de ser dos nobres ou, pelo 
menos, foi disso que seus pais a convenceram.O pai cedeu e permitiu que a governanta e os tutores criassem seu filho, e s quando os outros no ocupavam o tempo 
do filho  que ele passava alguns momentos com o menino.
    "O pai tornou-se um intruso na casa de sua mulher, e o quarto dela foi logo transferido para outra ala da casa. Ele a via durante o jantar mas apenas do outro 
lado da mesa e cercada por um enxame de senhoras arrogantes que o consideravam um leproso meramente tolervel. Ferido em seu amor-prprio, ele foi embora. O filho 
certa vez fugiu de casa e foi  loja do pai, onde os dois passaram momentos alegres at que o rapazote foi caado pelos criados, liderados pela tia mais prepotente. 
Ela mandava na casa e preveniu o pai do menino de que no mais interferisse com o filho. O homem reivindicou seus direitos, mas o juiz ficou impressionado pelo poder 
da famlia da mulher, e o pobre homem viu-se impedido de entrar na manso e de ver o prprio filho.
    "O menino escapou de novo durante uma tempestade de inverno e viajou descalo e dormindo ao relento s para estar com o pai. Mandaram busc-lo novamente, e o 
pai foi posto na cadeia por desobedincia. O filho, porm, foi acometido por calafrios e por um febro e acabou morrendo na manso, implorando para ver o pai.
    "Como j no mais podia incomodar, o homem foi solto e comeou a vagar pelas ruas bbado e amargurado. Voltou  manso e suplicou  sua mulher que abandonasse 
aquele lugar frio e cruel das irms mandonas e o acompanhasse. Ela prometeu que sim e o aceitou em seu leito de novo.
    Pitney parou e fixou as manoplas demoradamente.
    - No dia seguinte a encontraram ao p da escada, ossos fraturados e morta. As senhoras concordaram unnimes em que o marido a havia empurrado e, escudadas em 
sua riqueza e influncia, ele foi mais uma vez posto no calabouo. Porm, com a ajuda de amigos, fugiu da cadeia e foi para a casa da irm em Londres. Seu cunhado, 
um comerciante que ficou rico por seus prprios mritos, havia recebido uma concesso para uma ilha distante e deveria dali a pouco tempo levar a mulher e a filha 
para l. O condenado trocou de nome e trajes e foi com eles para a ilha, onde os ajudou a construir seu lar e fez um para si mesmo.
    O olhar de Pitney se fixou ternamente na jovem a seu lado, que lhe sorriu carinhosamente, lgrimas lhe molhando os olhos.
    - Estou com voc desde que voc era um bebezinho, menina Shanna. - A voz dele estava estranhamente grossa. - Balancei-a no colo e fiz cavalinho para voc no 
meu joelho. Sempre fiz o melhor para voc, e o que estou fazendo agora  tambm para o seu bem, embora no parea.
    - Tio Pitney - choramingou Shanna, enxugando uma lgrima que lhe escorreu pela face.
    - J a vi maltratar a sensibilidade de muito homem, embora a maioria deles tivesse merecido isso, mas esse tal com quem voc se casou, o Ruark, tem sido punido 
pela vida como poucos outros. Ele  um homem corajoso, inteligente, e dedicado ao que ele acha que  verdadeiro.  odioso que um homem desses esteja na condio 
de cativo mas voc, minha orgulhosa Shanna, o traiu sempre que pde, ignorando a sinceridade e o amor prprio dele. Claro que no  culpa sua, se voc  uma pirralha 
mimada, e eu tambm contribu para isso. Voc estudou muito, mas acho que nunca a ensinaram a ter considerao para com os pobres.  realmente uma proeza voc ser 
justa com as pessoas, quando o quer. Mas isso no  verdade em relao s pessoas mais prximas e que lhe so mais caras, Shanna. Voc sempre achou os homens uns 
idiotas e, quando esse cara apareceu, e ele tem mais valor do que os outros, voc nem sabia como lidar com ele. "Voc era capaz de ter ficado junto dele neste navio 
e, com a proximidade, ia ser questo de tempo antes que um de vocs cedesse, e abrisse o jogo. Ele tinha de ser separado de Sir Gaylord, mas voc no entende isso. 
Ralston desconfia de vocs dois, assim como todo o mundo, e faz semanas que no desgruda do p do Sr. Ruark. Eu sei porque vi. Mas voc nem presta ateno a essas 
coisas. Esse jogo que voc comeou j est sendo jogado h muito tempo e vai faz-la sofrer, mas compreendo que no possa acabar com ele.
    Pitney encarou a sobrinha e surpreendeu-se um pouco com o olhar meigo que ela lhe deu.
    - Peo duas coisas a voc, at acabarmos com essa histria: que no o prejudique muito e que no me pea mais favores relacionados a ele.
    Shanna olhou para o mar revolto, e pela primeira vez meditou sobre o que o Tio Pitney falara.
    O azul profundo do mar alto cedeu a tons mais verdes das guas mais rasas no dcimo dia da partida de Los Camellos, e antes que o Sol se aproximasse do zeniteh 
avistaram-se as dunas de um litoral. O vigia deu um grito, e Shanna, arrastando o pesado manto e apesar do vento gelado que varria o tombadilho, uniu-se aos homens 
do Hampstead. Afinal de contas, aquele lugar era o lar de Ruark, e ela ansiava por ver que tipo de terra teria dado origem a um homem daqueles.
    O corpo magrelo de Ralston tremia mesmo agasalhado e, resmungando que os ventos na Inglaterra eram mais amenos, ele procurou o calor de seu camarote. Sir Gaylord, 
mais vigoroso, ficou por mais um minuto; em seguida, com um resfolegar desdenhoso, retirou-se tambm para o abrigo do convs inferior. S Pitney e Trahern ficaram 
para observar as dunas de topo verde se aproximarem. Shanna abriu espao entre os dois homens e l ficou, desfrutando o abrigo e calor de ambos. O comandante ordenou 
alterao de rota para que a embarcao ficasse paralela ao litoral, em aproamento oeste. Viam-se ilhotas formando um bastio em frente ao litoral, enquanto o patacho 
permanecia ao largo.
    - Parece to rido! - Shanna expressou a opinio geral, em tom desapontado. - S se vem areia e arbustos. Onde esto as casas e as pessoas?
    Decepcionada, observou o desolador litoral. Virou-se e encontrou o Comandante Dundas bem atrs deles; Ele sorriu quase meigamente e afirmou:
    - Faltam uns dois ou trs dias no Rio James antes que cheguemos a Richmond.
    Algum tempo depois deixaram de avistar terra, mas no incio da tarde viram de novo o litoral. Foi perto de Hampton que pequena embarcao a vela os interceptou 
e logo o primeiro imediato do Comandante Beauchamp, Edward Bailey, subiu a bordo.
    - O Comandante Beauchamp me mandou acompanh-los no rio - explicou, antes de tirar do bolso um embrulho de papel encerado, dele retirando alguns documentos, 
que entregou ao comandante. - Estes so meus documentos e alguns mapas do rio. - Tirou uma carta do embrulho e a deu a Trahern. -  uma carta do Sr. John Ruark.
    O Sr. Bailey prosseguiu, enquanto Trahern abriu a carta e comeou a l-la. Sorrindo amplamente, o imediato virou-se para Shanna e disse:
    - Os Beauchamps esto ansiosos por conhecer a senhora, madame. Todo mundo achou que o comandante estava mentindo quando descreveu a senhora, mas  claro que 
ele nem chegou perto de saber definir sua beleza.
    Shanna sorriu ao elogio indireto, e sorriu para o galanteador.
    - Na primeira oportunidade vou falar com o Comandante Beauchamp - disse ela, rindo. - No vou permitir que afrontem minha reputao assim.
    - A carta confirma que o Comandante Beauchamp providenciou transporte para ns em Richmond. O Sr. Ruark vai verificar se est tudo pronto e nos encontrar l 
- informou Trahern, olhando de esguelha para Shanna. - Quase pensei que o rapaz fosse abandonar o Tempest e procurar sua liberdade. - Quando Shanna arquejou, surpresa, 
ele continuou:  o que eu teria feito - afirmou, encolhendo os ombros. - Eu teria fugido com a escuna. - Ele riu, bem-humorado, e seus olhos piscaram para a filha: 
- Comeo a duvidar do bom senso dele.
    Shanna deu as costas, irritada, e recusou-se a servir mais de isca para seu pai; o rosto do Sr. Bailey estava inteiramente aptico. Lanou um olhar de vis para 
o cu e testou o vento.
    - O Sr. Ruark me parece um homem de rara honra. Ele podia muito bem ser um Beauchamp. - Shanna virou a cabea e o olhou por cima do ombro; o imediato falava 
ao Comandante Dundas. - D para o senhor navegar a velocidade mxima e permanecer no rumo oeste. At o escurecer, a gente pode percorrer boa distncia.
    O rio ficou um pouco mais arriscado depois que passaram por Williamburg, e as margens mais largas. Chegou a escurido e o navio ancorou para passar a noite. 
A neblina cobriu o no como um cobertor sufocante de l e, em pouco tempo, o Hampstead parecia um pequeno universo suspenso no tempo e no espao. Shanna no podia 
afirmar se havia um mundo alm da cortina cinzenta e densa que girava ociosa contra o costado da embarcao. O ritmo do mar alto desapareceu e foi substitudo por 
pequenos e errticos movimentos, enquanto o Hampstead debatia-se contra os cabos que o prendiam e balouava nos redemoinhos e correntes do rio.
    Shanna lutou contra a solido de seu camarote. Pequena estufa fornecia calor, mas o frio da noite estava insuportvel. Sentia falta da proximidade de Ruark em 
sua cama. Pensativa, foi at sua arca, de l retirando a caixa de msica. Ele lhe havia pedido que a trouxesse, e no momento o objeto era seu vnculo mais prximo 
dele. A caixa era pesada e robusta, embora o exterior no indicasse a riqueza de seus entalhes, e era bem proporcionada, para dar ressonncia s notas.
    Quando ergueu a tampa, a msica tilintante encheu o camarote com a presena de Ruark. A cano era a mesma que ela j o havia escutado vrias vezes assobiar 
ou cantar. A moa cantarolou baixinho e fechou os olhos, recordando os braos fortes a abraando, os olhos ambarinos nos seus, o sorriso que podia provocar, aborrecer, 
agradar ou acalmar, o calor dele a seu lado, a fora dos msculos dele, enquanto ele trabalhava ao sol ou se mexia devagar sobre ela no escuro.
    O ltimo eco das notas se apagou na quietude do camarote. Shanna abriu os olhos e viu que estranha neblina os enevoava. Suspirou fundo ao guardar bem escondido 
a caixa de msica.
    H fogos... e fogos. Shanna apagou a lanterna e se acomodou debaixo dos cobertores, e o calor que a aqueceu no era o da estufa.
    - Mais um ou dois dias, meu amor - sussurrou no escuro. - Mas uma eternidade. - Deu-se conta das palavras que dissera, e lgrimas lhe incharam os olhos. - Sim, 
meu amor! Eu o amo, Ruark Beauchamp, e voc nunca mais ter razo para duvidar disso.
    A neblina ficou suspensa sobre a gua at que os ventos a mandaram embora. A nvoa adejou ento e deixou caminho aberto, mas continuou a envolver os mastros. 
A superfcie oleosa mostrava as espirais remanescentes de nevoeiro; quando a embarcao comeou a despertar, Shanna foi dos primeiros a ir para o convs. No fosse 
inadequado para uma dama, ela teria instado os homens a se apressarem, enquanto subiam com esforo a escada para o convs superior, esfregando os olhos de sono.
    Aps leve desjejum, Shanna voltou ao convs com o pai, sem querer perder nada da nova terra. Os dois ficaram encantados com a infinita variedade de coisas que 
viram passar. Trahern, atnito, murmurou:
    - O sonho de todo negociante. Um mercado inexplorado.
    Fecunda terra negra se estendia junto s margens do rio, e montinhos redondos comearam a surgir, mostrando penhascos s de pedra acima da densa floresta que 
vinha at a beira d'gua. Viram-se casas, algumas de tijolos vermelhos, grandes o bastante para se deduzir que abrigavam grandes fortunas. O rio tinha quase dois 
quilmetros de largura, mas a corrente engrossou. A manh ainda ia a meio, quando a embarcao teve que modificar o rumo, pois o rio desviava-se para a esquerda. 
Da em diante, o trajeto era mais tortuoso, e a tripulao se empenhou ao mximo, com as velas sempre a exigir que fossem ajustadas, mais soltas ou mais justas.
    Shanna mostrou-se animada e alegre o dia inteiro. Quando se avistavam pessoas na margem, ela acenava e conseguiu manter-se alegre mesmo quando Gaylord se aventurou 
no convs, de pssimo humor, e lamentou-se do clima. Porm, para alvio geral, ele tremia tanto no manto com adornos de pele de raposa, que logo se refugiou na parte 
inferior do navio.
    O dia de Shanna perdeu algo de sua animao, quando anoiteceu e o Sr. Bailey mandou lanarem ncoras, embora Richmond estivesse a pouco mais de 20 milhas. O 
homem insistiu:
    - No  conveniente navegar pelo rio  noite - afirmou. - Uma corrente desgarrada pode fazer-nos encalhar, e no se podem ver troncos submersos.  melhor esperar 
que a escurido desaparea, e a gente possa chegar com segurana.
    O vento soprou forte na manh seguinte, trazendo consigo borrifos pertinazes que fizeram com que at Shanna se recolhesse a seu camarote. Andou pelos parcos 
limites de sua cabina, de repente insegura de seu autocontrole. Como faria para no se lanar alegre nos braos de Ruark? Precisaria recorrer a todas as suas foras. 
Um passo em falso agora poderia mand-lo de volta  priso.
    A porta abriu-se subitamente com uma lufada de vento, seguida por Pitney. Este esfregou as mos e as aqueceu junto  pequena estufa, antes de falar:
    - Estamos quase chegando. Faltam umas duas milhas. O vento est de travs e a corrente est forte, mas acho que daqui a meia hora chegamos.
    Shanna respirou fundo, e a presso em seu peito cresceu estrepitosamente e quase explodiu. Conseguindo controlar suas emoes, ela apenas fez um gesto positivo 
com a cabea. Depois que Pitney e seu pai foram para o convs superior, ela lhes seguiu a esteira, externamente dcil.
    Os tripulantes estavam amontoados prximo ao equipamento para controlar as velas sacudidas pela ventania, quando o Hampstead foi levado para junto da terra. 
Logo que se abriu o portal e se baixou a rampa. Ruark veio para bordo, com um manto gotejante sobre as botas. Colunas de chuva escorriam-lhe do chapu de aba larga 
quando ele estendeu a mo para Trahern e riu melanclico:
    -  um dia feio para uma chegada, mas h lugares onde a chuva  considerada um bom pressgio.
    - E confio em que o ser mesmo - resmungou Trahern, e enfocou o assunto que ultimamente era seu favorito. - Por Deus, Sr. Ruark, essa sua terra  um verdadeiro 
tesouro. Nunca vi tanta riqueza inexplorada, esperando apenas - riu encantado - que um bom comerciante as faa render.
    Ruark virou-se e acenou, fazendo com que duas carruagens e uma carroa coberta parassem ao longo do navio, antes que ele agarrasse a mo de Pitney para cumpriment-lo.
    - Estou achando, rapaz - murmurou o grandalho, lambendo os lbios - que uma boa caneca de cerveja vai aquecer-me as entranhas. Ser que vocs tm um botequim 
onde um homem possa aplacar sua terrvel sede?
    - Temos sim - riu Ruark, apontando na direo da rua do cais. O Ferry Port, aquele prdio caiado l, tem um barril da melhor cerveja inglesa esperando. Diga 
ao dono que John Ruark vai pagar a primeira.
    Pitney saiu com uma pressa que confirmou sua declarao anterior, e fez Gaylord deixar rpido a rampa para no ser atirado no desembarcadouro de paraleleppedos. 
O cavaleiro olhou raivoso para as costas largas do outro, mas Pitney no parou, nem sequer reparou no ingls. Gaylord continuou at o escritrio da companhia para 
solicitar a bagagem que mandara antes, na fragata inglesa.
    Ralston tambm saiu do navio e, por um instante, Ruark o observou caminhar com a bainha do manto lhe batendo nos tornozelos ossudos.
    Ruark sequer havia olhado para Shanna, que esperava recatadamente pelo pai vrios passos atrs. O rapaz encarou-a naquele instante e seu olhar disse tudo. A 
mo dela tremeu, quando ele a pegou com o calor de sua prpria mo.
    - Shanna. Madame Beauchamp. - A voz dele estava levemente rouca e tensa. - Voc  responsvel pelo momento mais lindo do meu dia.
    - Ela estremeceu e os lbios dele se moveram numa afirmativa silenciosa:
    - Eu a amo.
    A dor na garganta de Shanna foi quase intolervel, quando ela lhe sorriu calmamente e replicou:
    - Sr. John Ruark, senti falta de seu esprito e humor  mesa, para no dizer nada de seus comentrios inteligentes e de sua dana. O senhor participou de alguma 
festa ultimamente? Talvez alguma dama das colnias o tenha atrado. - Ela o olhou fria e interrogativamente, e Ruark riu ligeiramente:
    - A senhora sabe que meu corao est comprometido, e a Deusa do Destino j decretou que no acharei ningum to lindo quanto a senhora.
    - Reparou que as faces dela coraram de prazer. Ele continuava segurando-lhe a mo, que agora cobriu com seu brao e olhou precavido para o cu:
    - Os orientais tm um ditado antigo que diz da sabedoria de se ficar sob a chuva - comentou Ruark em voz alta. - Se me permite, Madame Beauchamp, vou acompanh-la 
e a seu pai a um local onde a senhora poder tomar uma xcara de ch, enquanto se carregam as carruagens.
    Trahern olhou quase ansioso para as costas robustas de Pitney a tempo de v-lo desaparecer pela porta da taverna. Suspirando, fez um gesto com a mo e disse:
    - Vamos, Sr. Ruark. Acho que um pai tem certos deveres para com seus filhos que no podem ser evitados. - Parou pensativo e acrescentou: - Mas, h vezes em que 
desejo que tivesse tido um filho.
    Ruark estava felicssimo que isso no tivesse acontecido, mas no fez qualquer comentrio. Shanna, porm, sentiu o ardor do olhar dele, que lhe disse muito mais 
do que qualquer palavra.
    - Vou buscar Pitney - ofereceu-se Ruark, levantando-se. Pegou uma moeda na bolsa e disse: - Prometi que pagaria a primeira cerveja.
    A taverna era um lugar barulhento, quase lotada de marinheiros e trabalhadores comuns. A, em meio a essa baderna, Pitney calmamente tomava sua cerveja, debruado 
no balco do bar ao lado de um ruivo muito enftico, na conversao que ambos mantinham. Ruark no conseguiu ouvir nada, mas o homem sacudiu a cabea, socou o balco 
com o punho, e espetou o dedo no peito do companheiro:
    - No, agora sou eu que falo - ouviu Ruark ao abrir caminho por entre os peitos fortes de vrios marujos prximos. - Eu mesmo  que preciso encontrar o cara 
e me certificar de que ele  o prprio. Depois, acerto com voc e com o resto que precisa saber. No vou arriscar meu pescoo na forca para salvar o de um fulano 
que nunca vi.
    Ruark agarrou o brao de Pitney em calorosa saudao e jogou a moeda no bar.
    - Estalajadeiro, mais uma para que este homem possa chegar ao fim do dia e outra para o amigo dele.
    - Para mim no - recusou o escocs, sacudindo a cabea. - Preciso voltar para meu servio l no cais.
    - Antes de ir embora, meu bom amigo Jamie, quero que conhea um homem bom. Este  John Ruark - disse Pitney, com um sorriso dbio.
    - Vocs j se conhecem?
    Ruark franziu o cenho. Olhando detidamente para o homem, achou que nele havia algo estranhamente familiar, mas Jamie ficou de p rapidamente e, evitando o olhar 
de Ruark, deixou a taverna.
    - Eu deveria conhec-lo? - perguntou Ruark.
    - Sim, mas como eu sei onde ele fica, ele pode ir embora - disse Pitney, bebericando a cerveja e levantando a caneca para agradecer a Ruark.
    - Boa cerveja. Tome uma, rapaz. Vai enrijecer seu corpo para a viagem at sua casa.
    Cauteloso, Ruark o analisou e disse:
    - Do jeito que voc est falando, acho que j bebeu o bastante por ns dois.
    Com uma gargalhada, Pitney bateu nas costas de Ruark e insistiu:
    - Beba, John Ruark. Voc precisa de alguma coisa para no ficar pensando naquela mocinha danada com quem se casou.
    Quando Ruark voltou aos carros, Shanna j estava sentada na primeira carruagem, e quando Pitney se reuniu a Trahern no cais, Ruark endireitou a sela de tila 
para poder contemplar a pessoa que ele mais amava.
    - O senhor vai a cavalo, Sr. Ruark? - perguntou Shanna baixinho, observando-o.
    - Vou, madame. Com esta chuva, preciso verificar as estradas  frente para ver se esto dando passagem.
    Shanna encostou-se ao assento almofadado e colocou pesado abrigo de pele no colo. Um sorriso de alegria lentamente se formou em sua boca. Pelo menos, ele no 
estaria longe.
    O interior do veculo no era luxuoso, mas dava impresso de robustez e espao. Pilhas de mantas de plo quase enchiam os assentos e pequeno recipiente de aquecimento 
estava no cho e proporcionava gostoso calor aos ps de Shanna.
    Gaylord chegou, e foi com certa surpresa que Ruark o viu instruindo a disposio de vrias arcas na carroa.
    - Sir Gaylord vai viajar conosco? - perguntou Ruark a Trahern.
    - Vai - grunhiu o outro. - Infelizmente, ele quer apresentar seus planos e necessidades financeiras aos Beauchamps. Pela quantidade de bagagem que ele trouxe, 
pretende ser hspede deles por algum tempo.
    Pitney deu um risinho e cutucou Trahern com o cotovelo.
    - Pelo menos o cavaleiro no vai ser seu hspede. Outra pessoa vai ter de passar a aliment-lo.
    Ruark resfolegou e esfregou o dorso da mo no queixo, e perguntou a Pitney:
    - Por que voc antipatiza tanto com os Beauchamps?
    Pitney resmungou ao ouvir essa observao imprevista, e fez com que Trahern risse.
    - Por favor, entre na carruagem senhor - pediu Ruark. - E providenciarei para que seus bas sejam carregados por sobre a bagagem de Sir Gaylord. Acho que os 
Beauchamps deveriam ter mandado dois carroes. Mas se estiver tudo certo, podemos comear a viagem.
    Trahern aquiesceu com a cabea, ansioso por se livrar da chuva, e Ruark dirigiu-se  ltima carroa. Ao voltar, Ralston, com um p no degrau da segunda carruagem, 
olhou-o com frio desprezo, encolheu os ombros e entrou no veculo. Gaylord comentou sobre a m sorte de ter de suportar o cotovelo de Pitney e seguiu Ralston na 
carruagem.
    Ruark amarrou Jezebel na traseira da carruagem de Trahern e atirou os arreios de Shanna na carroa coberta. Quando se encostou-se  carruagem, viu Orlan examinar 
uma das mantas de pele, e soprar ao testar a riqueza e a espessura das peles.
    - Magnficas! - exclamou Orlan. - John Ruark, estou muito confortvel. Gostaria que houvesse mais gente com tal previso. C estou, cercado por pequena fortuna, 
e os Beauchamps as usam como mantas de viagem. Notvel-
    - Estamos prontos, senhor. Posso dar o sinal?
    Trahern aquiesceu com a cabea, Ruark olhou rpido para Shanna e tocou a aba do chapu antes de retirar-se e fechar a porta. Recuou e girou o brao. Um assobio 
penetrante foi emitido pelo cocheiro, quando ele sacudiu as rdeas e chicoteou o animal lder da parelha. As carruagens se moveram e deram um solavanco ao subir 
a vereda s margens do rio. O rudo de cascos de cavalo harmonizou-se num ritmo quando os animais cavalgaram pelas ruas da pequena cidade de Richmond.
    Viajaram certa distncia por campos, e chegaram a uma encruzilhada de onde seguiram por trilha mais estreita, marcada por grande rvore com trs entalhes salientes 
no tronco.
    - Esta  a Estrada dos Trs Entalhes - anunciou Ruark, sobrepondo a voz ao rudo dos cascos e das rodas das carruagens, e Trahern fez um sinal positivo com a 
cabea. Ruark continuou: - Na prxima encruzilhada, vamos dar uma parada numa hospedaria para comer qualquer coisa.
    - Homem eficiente, esse John Ruark - resmungou Trahern, satisfeito, recostando-se no assento. - Ele providenciou tudo.
    A terra foi tomada por densas florestas. O caminho era largo e a passagem deveria ser fcil, mas havia rvores e a vegetao baixa era densa, e mesmo um homem 
a p a teria achado quase impossvel de ser vencida. Confirmando a informao de Ruark, quando a caravana chegou a outra encruzilhada, os cocheiros desviaram as 
carruagens da estrada e pararam  frente de ampla construo com muitas janelas que um cartaz castigado pelo tempo anunciava como sendo a Taverna da Cerveja Rpida. 
Uma senhora de rosto simptico recebeu-os como sendo convidados dos Beauchamps e mandou pr numa mesa uma toalha limpa. No se fez nenhum lugar especial para Gaylord 
e, relutante, ele se reuniu a Trahern, no sem antes tirar a poeira do banco com as luvas. Os trs cocheiros sentaram-se  extremidade da mesa e mal repararam na 
expresso de desagrado de Gaylord. Passaram-se canecas de cidra quente. Shanna bebericou a sua com pouco interesse, pois se perguntava o que estaria retendo Ruark. 
Sua curiosidade foi logo satisfeita quando ele entrou carregando um velho mosquete quase to alto quanto ele, e o encostou na porta. Chegou-se para Pitney e colocou-lhe 
 frente as duas enormes pistolas que outrora o haviam ameaado.
    - Encontrei isto aqui debaixo do seu banco - explicou ao atnito Pitney.
    Ruark despiu um casaco de pele de castor que havia tirado do carroo, estendeu-o  frente da lareira de pedra, o que deixou ver as pistolas que carregava no 
cinto. Gaylord achou isso intolervel e ficou de p, insultado:
    - Um cativo com armas! - exclamou exasperado, e enfrentou Trahern. - Realmente, senhor, preciso protestar. O senhor trata esse cativo como se ele fosse um lorde.
    Trahern continuou a bebericar sua cidra e encolheu os ombros:
    - Se ele protege o seu couro, senhor, que diferena faz?
    - Protege o meu couro? O biltre quer mais  que eu morra! - Gaylord apontou o dedo para Ruark e indagou:
    - Voc a! Com que direito anda armado?
    - Evidente que com o meu direito - respondeu, calmamente, Ruark. Quando Gaylord se mostrou com vitoriosa arrogncia, Ruark continuou de modo reprovador, como 
se dirigisse a uma criana obstinada. - Existem grandes e perigosos animais por aqui, e alguns salteadores, embora raros. E h tambm os selvagens pagos de quem 
o senhor sempre fala. Ruark riu sardnico e continuou. - No vi mais ningum correndo  frente da caravana para proteger as senhoras. - Deu um risinho e encarou 
o outro, que enrubesceu. - Fique descansado, Sir Gaylord, que, se o senhor encontrar um homem desses, ficarei aliviado em entregar minhas armas a ele.
    Ruark esperou enquanto Sir Gaylord resolveu calar-se, e como no sugeriu mais nada, Ruark tomou assento no espao estranhamente aberto entre Shanna e o pai.
    O estalajadeiro colocou uma caneca fervente  sua frente; a dona do local trouxe enorme panela de ensopado e comeou a encher os pratos. Um rapazinho apanhou 
uma travessa de madeira cheia de fatias douradas de po e manteiga. Surgiram tambm pores de mel e conservas, e logo a refeio foi sendo devorada pelos famintos 
viajantes. Shanna comeu mais do que nas ltimas semanas, e Trahern elogiou tudo que comeu, a tal ponto que a dona da casa, acanhada, balbuciou-lhe agradecimentos. 
Quando ele se levantou para partir, ela lhe deu um pudim para comer na viagem.
    Quando Ruark pegou o chapu e o casaco, Ralston aproximou-se da porta, pegou o mosquete e passou a mo pela coronha de bordo encrespado, onde se via uma placa 
de lato.
    - Excelente arma, Sr. Ruark - comentou, quando o rapaz veio peg-la. - E cara. Onde a conseguiu?
    Ruark olhou por cima do cano da arma para os dois olhos rapaces que o encaravam, e semicerrou os seus. Shanna susteve a respirao, pois o mosquete estava apontado 
para a cabea de Ruark, e os dedos magros acariciavam o gatilho como se Ralston quisesse que a arma estivesse engatilhada.
    - Devo avis-lo, se  que j no sabe - disse Ruark, apontando para a arma - que est carregada.
    - Claro - disse Ralston, com um sorriso matreiro.
    - Sr. Ralston - rosnou Trahern. - Largue essa arma antes que o senhor d um tiro em sua prpria e tola cabea.
    Ao ouvir a ordem, o sorriso de Ralston se desvaneceu e, relutante, obedeceu. Ruark apanhou o mosquete e, sob o olhar frio do outro homem, passou um paninho na 
coronha da arma, como se para limp-la das manchas dos dedos de Ralston. O insulto foi pequeno, porm bvio. Girando nos calcanhares, o homem magro marchou para 
fora da taverna, batendo a porta com estrpito.
    A Estrada dos Trs Entalhes era comprida, e estreita em alguns lugares e larga em outros. O panorama campestre sempre variava. A caravana percorreu altos penhascos 
de granito e trotou por trilhas salpicadas de pedras,  beira dos penhascos. A estrada mergulhava em vales e sacolejava sobre troncos postos para cobrir terra fofa. 
No finzinho da tarde, passaram por uma plantao e por pequenos ranchos com cabanas de troncos. Um cartaz pintado  mo surgiu ao lado da estrada, anunciando que 
a travessia lamacenta se chamava Estrada do Vale do Meio. L florescia pequena comunidade e havia um casaro com uma placa de lato identificando o local como "Estalagem".
    O grupo, j cansado da viagem, mal falou enquanto comeu. Contentaram-se em encontrar-se numa superfcie slida, sem solavancos nem desnveis, e a conversa acabou 
logo depois que comeou.
    - S podemos oferecer-lhes trs aposentos para passar a noite - explicou o estalajadeiro. - Os homens vo ter de dividir dois, e as senhoras, um.
    Gaylord levantou os olhos do prato e apontou com o garfo para Ruark, dizendo:
    - Ele pode ficar no estbulo como os cocheiros. Assim, o Sr. Ralston e eu ficamos num quarto e o Sr. Trahern e o Sr. Pitney no outro.
    Trahern franziu o cenho quando o cavaleiro terminou de falar, e o estalajadeiro sorriu, desculpando-se:
    - No tenho mais quartos, mas l nos fundos h uma cabana velha que no  usada. Talvez algum possa dormir l.
    Ruark prontamente se ofereceu. Levantando a xcara e a levando aos lbios, olhou para Shanna. Levantou-se, largou a xcara na mesa e pegou o casaco.
    - Vou tratar dos cavalos de Madame Beauchamp, Sr. Trahern. Sugiro que todos durmam cedo, porque amanh temos um dia de viagem pela frente, e vai ser estafante. 
- Ps o chapu, caminhou lentamente at a porta, onde se virou e disse: - Boa-noite.
    Shanna irritava-se ao lado de Hergus, que roncava, e se perguntava que horas seriam. No vinha nenhum barulho de movimento nem de vozes l de baixo nem dos quartos 
no corredor, mas a moa no tinha meios de saber se todos dormiam.
    - Hergus - murmurou, e ficou contente ao no obter resposta. No era provvel que pudesse testar seu pai nem Pitney pelo mesmo mtodo. Calculou que talvez dali 
a meia hora todos estivessem em sono profundo.
    Cautelosamente, Shanna levantou-se e foi at a cadeira onde Hergus deixara sua mala aberta. Um manto de l estava pendurado num lado, que ela ps nos ombros 
e, em seguida, calou um par aconchegante de sapatos. A chuva continuava a bater nas vidraas, e o vento gemia lgubre nos beirais. A noite estava fria e mida, 
mas vinha de encontro aos objetivos de Shanna.
    Os minutos se arrastavam. Shanna deixou, sorrateira, o quarto, desceu cuidadosamente a escada, correu pelo salo da hospedaria e saiu. Estava livre! Seus ps 
espalhavam poas frias enquanto ela corria, mas seu corao estava liberto.
    A cabana era uma forma escura debaixo de grandes rvores, a alguma distncia da hospedaria. Timidamente, Shanna bateu na tosca porta, que se abriu rangendo. 
No recebeu nenhuma resposta do interior, e empurrou a porta. Ruark no estava  vista, embora houvesse um fogo crestando na lareira, lanando sua luz bruxuleante 
nas paredes de troncos entrelaados e nos mveis parcos e simples. Como a cabana era a nica atrs da taverna, no havia dvida de que o estalajadeiro se referira 
quela mesmo. O vento e a chuva fustigavam as costas de Shanna e faziam seu manto de l esvoaar para frente, como se a estivesse impelindo para entrar. O ar glido 
penetrava entre as pregas e na camisola de tecido fino. O fogo a atraiu irresistivelmente. Shanna comprimiu o manto em volta do corpo trmulo e virou-se para fechar 
a porta. Arfou, quando uma sombra negra salientou-se  frente. Seu temor durou pouco, porm, pois o rosto sob o chapu gotejante era o que ela procurava e queria.
    - Estava na expectativa de sua vinda - disse Ruark, com voz rouca. Avanou para a claridade e, com o salto da bota, fechou a porta. A tranca os protegeu de qualquer 
intromisso. Ruark jogou uma trouxa grande que levava  frente da lareira, encostou o mosquete ao lado da porta, e atirou o chapu na mesa.
    - Meu Deus, que saudade! - sussurrou, e a abraou forte, ignorando os trajes ensopados de chuva. Sua boca se comprimiu contra a dela como o ataque rasante de 
uma ave de rapina, esmagando-lhe os lbios em feroz e apaixonado beijo. Shanna agarrou-se a ele como a nica coisa slida em seu mundo em turbilho. Seus rostos 
estavam frios pelo vento, mas o beijo inflamou-se com o calor do desejo. O manto de Shanna escorregou para o cho, e ela se agarrou ao casaco mido de plo de Ruark, 
mas nem sentiu os arrepios que a percorreram.
    - Eu o amo - sussurrou ela contra os lbios dele, e lgrimas de felicidade lhe brilharam nos olhos, quando ele levantou a cabea para olh-la. As mos de Ruark 
seguraram o rosto da moa, examinando-o, buscando a verdade das palavras dela. Shanna repetiu a frase, com o corao, com os olhos, com toda a emoo de uma mulher 
apaixonada. - Ruark, eu o amo.
    Rindo eufrico, ele a levantou quase at os ombros, e girou-a alto at que o som da alegria de ambos se fundiu num giro estonteante. Ruark levou-a mais para 
perto do fogo, sempre sorrindo. Gentilmente, estendeu a mo para afagar-lhe o rosto, e ela acariciou-o tambm, beijando-lhe a palma da mo. Shanna tremia no traje 
molhado, de frio e da sensao esmagadora de felicidade que quase a fazia explodir.
    - Vou aquec-la, espere um pouco.
    Ruark recuou, e os olhos dela o seguiram como se no pudessem deixar de olh-lo. As roupas dele eram desconhecidas para ela: cala de pele de alce que ressaltava 
as coxas musculosas, e um casaco de plo de castor com gotinhas imitando jias, e  luz bruxuleante do fogo elas reluziam como 1.000 rubis. Parecia um gato caador, 
e ela sentiu medo e orgulho simultneos. Aquela era a terra dele, e ele era livre. Nenhum homem jamais o domaria, nem ela, em seu juzo perfeito, voltaria a cham-lo 
de escravo. Pensou na dvida levantada por seu pai sobre o assunto, e sabia que, se Ruark fugisse para buscar sua liberdade, ela o seguiria aonde quer que fosse.
    Ele tirou o pesado casaco e a envolveu com ele. Shanna se aconchegou sob o casaco de castor, ainda quente do corpo dele, e observou-o acrescentar gravetos ao 
fogo at este crescer em chamas altas. Olhou surpresa o aposento, detendo-se na estrutura de corda e madeira de uma cama que talvez outrora tivesse servido aos ocupantes 
da cabana, mas no havia nenhum sinal de coberta ou travesseiro.
    Ruark viu onde o olhar dela estava pousado, e seus prprios olhos reluziram.
    - No tema, amor - disse ele. - J providenciei para que voc no fique desconfortvel.
    Shanna riu e fechou mais o casaco, recatadamente.
    - Animal! Agora que estou presa em seu covil, acho que vou acabar devorada como guloseima. -,
    - Devorada? - Ruark puxou a camisa justa e negra pela cabea, e a respirao de Shanna ficou presa em sua garganta ao ver o dorso nu de Ruark distender-se  
sua frente.
    - Devorada, no, amor. - Ele esticou o dedo e pegou-lhe um cacho sobre os ombros. - Esta  a taa mgica que  cheia para os amantes  mesa dos deuses. Quanto 
mais ela  provada, mais gostoso fica o nctar. Ricos soberanos tm implorado para definir os limites desse tesouro. Esta  uma coisa a ser partilhada, que nunca 
pode ser devorada em egosta cobia.
    Shanna tocou-lhe o brao, e seus olhos afagaram-lhe o rosto, em sinal de carinhosa posse.
    - Com voc, sou apenas egosta, querido.
    A boca de Ruark comprimiu levemente a sua.
    - Comigo se passa o mesmo, adorvel Shanna.
    Ajoelhando-se, desamarrou os ns da trouxa e aprumou-se, expondo o seu contedo. Havia peles lindas e opulentas, vermelhas, douradas, negras e bege, coisas lindssimas.
    - Onde...
    -  tudo meu - respondeu Ruark  pergunta inacabada. Fez um gesto e disse. - Peguei no carroo.
    - Mas como  que voc as conseguiu? E essas roupas que voc est usando so suas, no? Feitas para voc.
    -  verdade. - Ele parou para rir para ela, ajoelhando-se numa perna e apoiando o brao na outra coxa. - Minha famlia soube que eu passaria por aqui e me mandou 
as peles.
    - Sua famlia? - disse Shanna, aproximando-se.
    - Amor, logo vou lev-la at eles - disse Ruark, sorrindo. Voltou a agachar-se e espalhou as peles, alisando-as, e separando uma para servir de coberta. Naquele 
instante, a cabea de Shanna formou a imagem de um selvagem, que era Ruark, meio nu, em tons dourados perante o fogo, cabelo amarrado na nuca. Os que pensavam que 
aquele homem se submetesse a eles eram idiotas, e isso inclua Gaylord, Ralston e at seu pai.
    Ruark ficou na frente dela; era um vulto de tons vermelhos e negros, moreno quanto qualquer ndio, e as batidas loucas de seu corao provaram que essa nova 
imagem de Ruark Beauchamp a excitava mais do que qualquer outra.
    Ele tirou o casaco pesado de cima dela, e comeou a desamarrar os ns de seu vestido. Shanna fechou os olhos, exttica, quando as mos dele comearam lentamente 
a descer, pegaram os seios trmulos e lhe acariciaram os quadris de veludo. Sob o brilho quente do fogo a pele da moa luzia em tons ambarinos, mais adorvel do 
que nunca. Havia um fulgor nela que Ruark jamais reparara; era algo diferente, que no sabia definir.
    - Como voc  adorvel! - exclamou, quase em reverncia. - No posso acreditar, mas voc est mais linda ainda. Que feitio faz o amor!
    Shanna sorriu-lhe meigamente.
    - No  feitio, meu amor. Seus olhos o enganam. Voc est jejuando h muito e gostaria at de um mingau, em vez de um prato refinado.
    - Mas acontece que o que vejo no tem nada de mingau - disse ele rouco, fazendo com que ela se deitasse na coberta de pele. As mos de Ruark tremiam quando ele 
se despiu e a puxou para mais perto ainda. Os seios macios dela eram um sonho tornado realidade, um alvio da longa ausncia no mar. As coxas leitosas de Shanna 
se abriram para as mos exploratrias dele, e os afagos errticos do rapaz fizeram com que a moa desse gritinhos de trmula alegria. Ele lhe beijou a boca de forma 
devoradora de amor e paixo, depois lhe beijou os seios ansiosos, que se lanaram  frente, em louca expectativa. Shanna fechou os olhos  medida que a felicidade 
da voraz boca de Ruark lhe excitava intensamente os nervos. Sentiu a urgncia dele contra ela, e em seguida ele era uma chama dentro dela, consumindo, ardendo, pondo 
fogo nela at que as ondas ondulantes e fundidas a invadiram com prazer quase insuportvel. Ela lhe ouviu o respirar entrecortado e as palavras sussurradas de amor. 
O corao dele batia loucamente contra os seios de Shanna, e sob suas mos os rijos msculos das costas dele se flexionaram com vigor msculo. Os dois foram ento 
apanhados num turbilho embriagador de delrio.
    A chuva batia na pele lustrosa estendida nas janelas e o vento uivava na noite, mas, depois de sua prpria tempestade, Shanna e Ruark continuaram deitados, em 
pacfica satisfao. Estavam de frente para a lareira; as costas dela comprimiam-se contra o slido sustentculo do peito dele, os joelhos de Ruark achavam-se encolhidos 
atrs dos dela, e os dois contemplavam as chamas reativadas que saltavam ansiosas num tronco. Suas vozes eram abafadas e indolentes, mas pareciam ecoar no silncio 
da cabana. Suas mos ergueram-se ante o fogo bruxuleante, e os dois suavemente entrelaaram os dedos num n de amor. Os lbios de Ruark mordiscaram a carne macia 
do ombro de Shanna e se afundaram vibrantes na garganta alva, indo em seguida provar o lbulo de sua orelha.
    - Vou construir uma manso para voc - sussurrou ele. Shanna riu e disse:
    - Esta cabana serve, desde que voc fique aqui comigo. - Virou de frente para que ele pudesse ver seus olhos meigos e apaixonados e ler o amor que dela se desprendia. 
- Fique sempre comigo. Nunca me deixe.
    - Nunca, amor. Nunca. Eu a amo.
    Os cantos da boca de Shanna se curvaram e ela disse:
    - E eu a voc.
    Ruark alisou-lhe o cabelo amarfanhado e esfregou o rosto nos cachos cheirosos, aspirando o suave aroma que se desprendia da moa.
    - Acho que sempre o amei - confessou Shanna, surpresa. - Quando a cegueira abandonou meus olhos, vi-o no como drago, mas como o homem a quem eu teria escolhido.
    - E voc me escolheu mesmo, lembra-se? - indagou ele, sorrindo. Shanna deu um risinho e se aconchegou junto dele.
    -  verdade. - Depois, subitamente sria, murmurou: -Voc conhece o caminho para c como se j tivesse vindo aqui antes. Onde  sua casa?
    Ruark se espreguiou, indolente, esticando um brao moreno no ar, e respondeu:
    - Minha casa  o lugar onde voc estiver.
    Os olhos de Shanna estavam cheios de amor, quando ela o olhou firme e perguntou:
    - Nossa casa vai ser como esta?
    - Uma cabana no meio do mato? - Ele sorriu e murmurou. - Passaramos meses sem conta sozinhos? Voc se assustaria com isso, amor?
    Como uma criana ansiosa, Shanna sacudiu negativamente a cabea e replicou:
    - No, mas nunca me deixe, sim?
    A mo dele tateou-lhe o corpo. Shanna continuava deitada e correspondia aos beijos dele com suave ardor.
    - Acha que eu seria capaz de abandonar meu corao, minha razo de ser? - perguntou Ruark.
    - O que me diz de filhos? - murmurou ela.
    - Vamos ter uns dez - garantiu Ruark. - Ou at mais um pouco.
    - Basta comear com um? - perguntou Shanna, rindo.
    - Bem, um ou dois. - Suas carcias ficaram mais ousadas. - Seja l o que comportar o mercado.
    - Mas, quanto ao primeiro filho, voc ficaria decepcionado se fosse menina?
    Ruark parou, e o silncio ficou insuportvel. Com suavidade, ele tirou a coberta de cima dele, revelando-lhe o corpo  luz clida do fogo, e lhe tocou os seios 
retesados e a barriga lisa.
    - Ento  isso que est diferente em voc! - disse, sorrindo.
    - Voc lamenta? - perguntou ela, observando-lhe o rosto.
    - No! - Ele riu largo, e voltou a cobri-la com a pele. - H quanto tempo voc est assim?
    - Pelos meus clculos - disse Shanna, com respirao entrecortada - acho que desde a ilha dos piratas.
    Sbito, Ruark riu e disse:
    - Nosso amor a cada dia nos proporciona maiores venturas. - Inclinou-se para mais perto dela e disse, srio: - Preciso de voc, Shanna, meu amor! - Beijou-a 
meigamente. - Eu a desejo, Shanna, meu amor. Eu a amo, Shanna.
    Ele a acariciou, procurou, e mais uma vez a paixo de ambos explodiu. O fogo aumentou, os carves viraram cinzas, e a longa noite passou com uma rapidez despercebida.
    Ainda estava escuro quando Ruark acompanhou Shanna de volta  hospedaria, mas os primeiros raios de Sol apareciam no horizonte. No salo da hospedaria, tudo 
estava em silncio. Um perdigueiro levantou-se preguioso da frente da lareira fria, procurou lugar mais macio, num capacho de retalhos, e olhou-os desinteressado. 
Ambos subiram silenciosamente a escada e se separaram  porta do quarto com um ltimo e ardente beijo, que teria de bastar o dia inteiro.
    Os minutos voaram, e mais uma vez fez-se silncio. Ento, a porta no final do corredor se abriu, e Ralston saiu do aposento que partilhava com Gaylord. Seu vulto 
semelhante ao de uma cegonha vestia comprido roupo. Parou em frente  porta de Shanna, deu um risinho debochado e uma pancadinha na face.
    "Pode ser que a senhora, hoje, seja Madame John Ruark", refletiu, pensativo. "Mas logo vai sentir a dor de voltar a ser viva, garanto."
    A chuva foi embora, e o Sol surgiu, mas junto com um frio intenso que perturbava as faces e o nariz. Shanna esperou com Ruark no abrigo da porta  medida que 
as carruagens iam sendo trazidas. Seu pai e Pitney continuavam no salo da hospedaria, terminando o desjejum, enquanto Gaylord andava em largas passadas a pequena 
distncia do jovem casal, num esforo para se livrar do frio. As mos de Shanna estavam enfiadas no regalo, e ela se enroscava no manto de veludo forrado de pele. 
Embora soubesse que ainda demoraria para a caravana chegar  casa dos Beauchamps, havia caprichado na aparncia. O vestido de veludo azul-rei, cheio de babados de 
renda na garganta, ressaltava-lhe a beleza incomum. Seu cabelo, suspenso sob o capuz azul, lhe dava um ar digno e calmo; quando os olhos de Ruark se fixaram nela, 
ele se surpreendeu com a variedade de mulheres que havia percebido naquele vulto esbelto e pequeno. Ela se havia transformado de uma sedutora tentao na dama tranqila, 
fria e graciosa de agora.
    Dando um sorriso escarninho, Ralston passou por eles. No estava muito precavido quanto a Shanna, porque resolveu abruptamente perguntar-lhe:
    - Dormiu bem, madame? Shanna no parou para responder, mas o fez sorrindo:
    - Muitssimo bem. E o senhor?
    Ele bateu com o chicote na bota e respondeu:
    - Passei inquieto a maior parte da noite. - Sem maiores comentrios, Ralston foi at onde Gaylord se irritava e resmungava, e deixou Shanna e Ruark surpresos, 
olhando em sua direo.
    - O que voc acha que ele quis dizer com isso? - indagou Shanna, levantando os olhos para Ruark.
    - Isso, meu amor, s ele sabe - respondeu Ruark, olhando para o homem e franzindo o cenho.
    Depois que Trahern se acomodou na carruagem, Pitney subiu e sentou-se ao lado do gigantesco cunhado, o que fez Trahern levantar a sobrancelha, porque sabia que 
as panas de ambos no ficariam confortveis naquele espao. Orlan bateu no joelho de seu robusto companheiro e abriu a boca:
    - Feche as asinhas, meu bom amigo. Calculo que voc deixou as costelas de Sir Gaylord com manchas roxas, e no quero o mesmo tratamento.
    Shanna deu a mo a Ruark para se aboletar. Gaylord, ao ver a moa sozinha no assento, atreveu-se a reunir-se a ela; roou o cativo e ps o p no estribo para 
subir, mas a bengala de Trahern o impediu.
    - Importa-se de ir na outra carruagem? - pediu o latifundirio. - Quero trocar algumas palavras com meu cativo.
    O cavaleiro se empertigou, arrogante, e disse:
    - J que insiste, senhor. Trahern fez um gesto afirmativo com a cabea e sorriu:
    - Insisto, sim.
    Na estrada, a conversa girou basicamente sobre as terras por que passavam e a riqueza do interior daquela regio. Os movimentos inexorveis, combinados com o 
pouco sono da vspera, fizeram com que Shanna ficasse sonolenta. Suas plpebras fechavam-se; com um bocejo reprimido, tentou cochilar, apoiando-se na almofada, mas 
era natural que descansasse a cabea no ombro do marido, e logo estava aconchegada a ele, brao atirado nos quadris de Ruark. Este a recebeu de bom grado, mas sob 
o olhar incmodo de Trahern, mexeu-se constrangido.
    - O senhor tem algo a discutir comigo? - perguntou, pigarreando. Trahern mordeu os lbios pensativo, e contemplou o rosto adormecido da filha.
    - Na verdade, tenho pouco a falar, mas h muita coisa que prefiro no discutir na presena de Gaylord. - Interrompeu-se quando Ruark fez um aceno de cabea, 
e comentou: - O senhor parece perturbado. Ela  pesada?
    - No senhor - respondeu Ruark, lentamente. Um sorriso lhe veio aos lbios. -  que eu nunca apoiei uma mulher com o pai  minha frente.
    - Acalme-se, Sr. Ruark - disse Trahern, rindo. - Desde que pare somente nisso, acho at gentil de sua parte servir de travesseiro para minha filha.
    Pitney baixou o chapu de trs pontas sobre os olhos e espreitou o jovem, o que aumentou bastante o constrangimento de Ruark. Comeou a achar que o grandalho 
sabia mais a respeito de Shanna e ele do que ambos desconfiavam.
    Ao meio-dia pararam ao lado da estrada e se deliciaram com o almoo trazido da estalagem. Logo em seguida, continuaram a viagem. As parelhas percorreram com 
esforo extensa inclinao no vale, e as encostas dos morros e as florestas verdes ficaram para trs. Ali, as rvores tinham poucos tons verdes, mas em compensao 
ostentavam vibrantes combinaes coloridas e apenas um ou outro carvalho erguia seus braos, ou via-se um pinheiro ou abeto.
    Finalmente, as carruagens pararam no Desfiladeiro Rockfish. Magnfico panorama se descortinava em todas as direes. As montanhas alcanavam o sul e o norte, 
e suas vivas cores outonais eram suavizadas pela neblina azulada junto aos picos. A beleza da vista era realmente esplendorosa. Shanna estava perplexa com a regio, 
embelezada pelos tons cpreos. Onde o Sol da tardinha se refletia, os tons eram fortemente dourados e cinzentos. Mesmo a lembrana de tardes suaves e nevoentas em 
Paris, a dos campos verdejantes e bem cuidados da Inglaterra eram ofuscadas em confronto com o louco caleidoscpio de cores  frente da moa. Ela aceitou o suave 
orgulho presente na voz de Ruark, quando ele chamava a ateno para esse ou aquele detalhe. Para onde quer que olhasse, ele a estava contemplando, quase em expectativa, 
como se esperasse alguma reao dela. Quando o olhava surpresa, ele simplesmente sorria e seus olhos luziam carinhosamente.
    -  possvel que as chuvas tenham feito desaparecer ou prejudicado algumas estradas - explicou o rapaz a Trahern, quando este entrou mais uma vez na carruagem. 
- Vou cavalgando  frente e deixar sinais para os cocheiros. Eles conhecem o caminho e daqui para frente h muitos declives. Eu me reunirei de novo a vocs ou ficarei 
esperando em algum ponto. - Bateu a mo no chapu  guisa de cumprimento e foi embora sem esperar resposta.Ouviu-se o barulho dos cascos de seu cavalo,e ele desapareceu.
    Os cocheiros fustigaram as rdeas, colando-as s parelhas, e as carruagens recomearam a andar. Com uma srie rpida de golpes, os animais saram da serra, encontraram 
terrenos mais suaves e se dirigiram ao sul, quando o caminho tomou direo reta aps uma curva em redor da depresso de uma montanha. Atravessaram estreita trilha 
onde havia pequena taverna e um entreposto ao lado da estrada. Mais para frente, havia uma estrada mais larga, onde os veculos diminuram a marcha para fazer a 
curva, e se dirigiram agora para o norte, ao longo das montanhas. Os cavalos galopavam como se as carruagens nada lhes pesasse. Os breques zuniam quando os cocheiros 
dirigiam com o p na alavanca de freio e diminuam o mergulho de cabea, cada vez que o declive da estrada se aprofundava um pouco mais.
    Comearam a surgir, do lado esquerdo, vastos campos, nos locais onde o vale desaparecia. Shanna ficou assustada ao ver a carruagem descair abruptamente para 
baixo, quase nas patas traseiras dos animais. Os campos se estendiam ento dos dois lados da estrada. Mesmo assim, o vale abrigava morros e plancies, alguns bosques 
e extensos campos.
    De repente, um cavalo passou velozmente por eles, e Shanna reconheceu tila. O cocheiro fez sua parelha parar, e a carruagem se deteve. Trahern se debruou para 
fora da janela; e Ruark fez tila se aproximar e informou:
    - Estamos quase chegando  casa dos Beauchamps, senhor. Falta pouco. Ser que Madame Beauchamp gostaria de cavalgar o resto do percurso?
    Trahern virou-se para fazer a pergunta  filha, que j estava calando as luvas. Chegou  porta do veculo e Ruark a pegou e colocou no lombo de Jezebel. Em 
seguida, a caravana retornou rapidamente seu caminho. Os dois cavaleiros iam  frente e Pitney viu que se adiantaram bastante.
    - Ah, o vigor da juventude! - suspirou Trahern e se recostou no assento, apoiando os ps  frente.
    Pitney levantou a caneca de cerveja em silenciosa saudao e disse:
    -  melhor mesmo que a gente chegue logo. S h uma gotinha.
    O caminho estava livre, e o Sol, quente. O casal deixou as carruagens para trs e se viu livre. Onde a trilha era suave, eles galoparam, mas  medida que o caminho 
ficava mais difcil, precisaram diminuir a marcha e apenas trotar. Shanna olhou para o perfil de Ruark. Ele estava absorvido pelo panorama e o examinava enquanto 
cavalgavam. Montava com desenvoltura e parecia simultaneamente um cavalheiro e um madeireiro, com sua cala macia de pele de alce e o colete justo, a camisa de linho 
branco e lao em forma de gravata. Era um homem bonito, e os olhos dela brilharam de amor e orgulho ao observ-lo.
    A manso de tijolos vermelhos dos Beauchamps erguia-se imponente entre carvalhos cujos troncos exigiriam trs homens para serem cingidos. Shanna contemplou atnita 
a residncia, pois era das maiores que vira. Havia alas que se salientavam dos dois lados da casa; a parte principal tinha um telhado ngreme e uma janela de gua-furtada, 
com altas chamins. Ao se aproximarem, gritos animados foram ouvidos, vindos do lado de dentro, e logo a porta se abriu e uma moa correu para a pequena varanda:
    - Mame! Eles esto chegando!
    Ao grito, um grupo apareceu, e quando Ruark ergueu Shanna do dorso de Jezebel, Nathanial desceu os degraus e adiantou-se, pegou a mo de Shanna e a afastou de 
Ruark.
    Um casal de certa idade estava no gramado e, a seu lado, havia uma mulher alta de cabelos negros e um rapaz, cujo sorriso lhe ocupava todo o rosto.
    - Meu pai e minha me - anunciou, ao trazer Shanna perante os dois: - George e Amlia Beauchamp.
    Shanna fez respeitosa reverncia; ao aprumar-se, o homem lhe sorriu, examinando-a cuidadosamente por trs dos culos de aros de tartaruga. Era bonito, alto, 
magro, cabelos negros, ombros largos, e sorriso franco.
    - Ento, esta  Shanna! - Sua voz, apesar de arrastada, era firme e grave. Fez um gesto de aprovao com a cabea. -  uma moa muito bonita. Vamos reivindic-la 
para ser uma Beauchamp.
    A mulher, de olhos castanhos e grisalho cabelo castanho-avermelhado, foi mais reservada, e olhou longamente para Shanna antes de fitar, preocupada, o filho mais 
velho. Objetivamente, pegou a mo de Shanna nas suas e comentou:
    - Shanna. Que lindo nome! - Perscrutou os olhos verdes-azulados e finalmente se permitiu sorrir e dizer: - Temos muito que conversar, minha cara.
    Shanna no entendeu essa frase, mas havia pouco tempo para pensar naquilo, pois Nathanial puxou a mulher alta e de cabelos negros para o lado e disse:
    - Esta  minha mulher Charlotte, uma megera! - disse ele, rindo; em seguida, passou o brao na cintura fina da mulher e puxou-a para si. - Mais tarde, voc vai 
conhecer nossos filhos.
    Charlotte riu e estendeu as mos magras para Shanna:
    - Acho que o nome Madame Beauchamp vai chamar muita ateno. Importa-se se a chamarmos de Shanna?
    - Claro que no. - Shanna estava encantada com a cordialidade da mulher e sentiu que essa impresso era recproca, quando a outra lhe apertou gentilmente a mo.
    - Jeremiah Beauchamp - informou Nathanial, fazendo um gesto para o rapazinho sorridente. - Meu irmo mais moo. Como  muito garoto, s agora comea a apreciar 
o belo sexo; portanto, no ligue se ele se engasgar. Voc  a moa mais bonita que ele v h j algum tempo.
    O rapazinho corou, mas continuou a rir. Como o pai, era alto e delgado, mas tinha o cabelo castanho-avermelhado e os olhos castanhos da me.
    -  um prazer, Jeremiah - disse Shanna suavemente, oferecendo-lhe a mo.
    - E esta  minha irm Gabrielle. - Nathanial fez um carinho no queixo da moa, e ela fez uma mesura graciosa. - Depois, voc conhecer a irm gmea dela, Garland.
    - Voc  linda demais - disse Gabrielle. -  verdade que j esteve em Paris? Garland disse que deve ser um lugar mau. Como  que voc consegue fazer seu cabelo 
ficar assim? O meu estaria no ombro antes do meio-dia.
    Shanna reagiu rindo e estendeu as mos  avalancha de perguntas.
    - Gabrielle! - Amlia abraou a jovem afetuosamente. - Deixe Shanna pelo menos ter tempo de respirar.
    - Nosso filho negligenciou seus deveres - disse George. - Ele nos deveria ter trazido voc h muito tempo. - Seu rosto assumiu um lampejo de humor e ele prosseguiu. 
- Bem-vinda a The Oaks, Shanna.
    S ento as duas carruagens salpicadas de lama e sujeira entraram na alameda e, derrapando, pararam em frente  manso. Os cavalos do casal, percebendo que a 
jornada terminara e sentindo o cheiro das pastagens, haviam-se afastado do carroo mais pesado e desaparecido. Ruark armou os degraus da primeira carruagem e abriu 
a porta. Trahern se levantou e, penosamente, desceu quando Nathanial se adiantou para cumpriment-lo. Pitney tambm desceu e se apresentou de novo, quando Sir Gaylord 
se chegou.
    - Gaylord Billingsham - anunciou ele e, quase delicadamente, estendeu a mo. - Cavaleiro do reino e cavalheiro da corte. H meses lhe mandei uma carta, quando 
soube que o Sr. Trahern viria aqui.
    - Eu me lembro - respondeu Nathanial. - Mas no  hora de falar de negcios. Tratemos de amenidades.
    Nathanial levou os cavalheiros a seus pais e fez as apresentaes. Apenas o cavaleiro reparou que havia sido o ltimo a ser apresentado, aps Ralston.
    O Sol atingiu o pico do morro a oeste, e o dia foi escurecendo. Foi a dona da casa que ps um fim s conversas que se estavam travando no gramado.
    - Caros senhores e senhoras - reprovou. - No faz sentido estarmos expostos ao frio, quando temos uma casa bem aquecida  disposio. Venham. - Pegou o brao 
do marido e deu o outro a Shanna. - Vamos mandar pr a mesa daqui a pouco. Os cavalheiros sem dvida gostariam de beber alguma coisa antes da refeio. Eu, para 
dizer a verdade, estou com frio.
    Amlia os conduziu para o interior da casa, e logo os homens estavam bebericando um conhaque envelhecido h anos. Um xerez foi servido a Shanna, do qual ela 
apenas bebericou, pois desde o casamento de Gaitlier seu estmago estava avesso a bebidas alcolicas. Seus olhos sorriram para Ruark, que estava junto e observava 
do lado de dentro da porta.
    Gabrielle aproximou-se de Nathanial e o cutucou com o cotovelo, e inclinou a cabea na direo de Ruark:
    - Quem  esse?
    - Ah, sim! - Nathanial ficou constrangido e disse. - Este - bem. John Ruark, outro colaborador do Sr. Trahern.
    - Ah, o cativo! - exclamou Gabrielle por cima do ombro, inocentemente. - Mame, ele pode ficar aqui em casa conosco?
    Shanna susteve a respirao, chocada. Os Beauchamps se ofenderiam com a presena de Ruark? Ela sequer pensara nisso. Gaylord no perdeu a oportunidade:
    - Mocinha inteligente! Est bem a par das nuanas de classes. Ela iria longe na corte. - Viu que Shanna o olhava fria e irritadamente, mas deu um sorriso afetado 
e se achou muito esperto.
    - Cale a boca, Gabrielle - ordenou, duramente, Amlia Beauchamp. A jovem olhou arrogantemente para Ruark, que lhe retribuiu o olhar de cenho franzido, o que 
indicava pensamentos violentos. A voz de Gabrielle foi alta o bastante para que seu dilogo com Nathanial fosse ouvido pelos demais.
    - Como algum pode ser to desprezvel a ponto de se vender por dinheiro?
    Gaylord, como sempre, deu rpida explicao:
    - Porque so pessoas de classe inferior, mocinha, que no conseguem lidar com os assuntos mais simples.
    Silncio nervoso recebeu essa observao, antes que Madame Beauchamp reprovasse a filha.
    - Gabrielle! Cale-se! O Sr. Ruark no pde evitar ser o que . Gabrielle franziu o nariz em desaprovao e disse:
    - Bem, eu no quereria que um cativo fosse meu marido.
    - Gabby! - exclamou George Beauchamp em voz baixa, mas em tom que no admitia contestao. - Obedea  sua me. No  cristo atazanar os menos afortunados.
    - Sim, Papai - respondeu, suavemente, Gabrielle.
    Shanna viu Pitney rindo por trs da caneca e pensou, com sbito rancor: "Ele no  um tio muito inteligente. Bebeu tanto que est meio apatetado com sua caneca 
de cerveja e ri feito um idiota quando zombam de Ruark."
    Quando olhou para o marido, porm, Shanna ficou atnita, pois ele estava tranqilo e no demonstrou aborrecimento, quando seu olhar seguiu Gabby. Na verdade, 
seu rosto exprimia algo semelhante a contentamento quando Gabrielle se virou e, vendo que ele a olhava, lhe sorriu inocente. Os olhos dele se estreitaram, ameaadores.
    Shanna depositou o copo e viu que os olhos castanhos de Gabrielle estavam fixos sobre ele, e se preocupou ao reparar no cenho franzido da mocinha.
    - O Sr. Trahern tem sido muito generoso para com aquele homem - continuou Gaylord, autoritariamente. - Acolheu o Sr. Ruark em sua prpria casa e o trata como 
um membro da famlia. Acho que isso  demais. Os aposentos dos escravos sero o bastante para ele aqui. No  preciso incomodar-se, amigos, com gente como ele.
    - No h espao l - retrucou Amlia. Seu marido passou-lhe o brao no ombro e ela continuou, em tom mais suave: - Ele pode ficar na casa.
    - Como j disse, o sujeito se d bem com cavalos - disse o cavaleiro, aspirando rap. - Ele que se deite com eles.
    - No vou... - comeou Amlia, numa exploso de raiva, mas Ruark a interrompeu:
    - Peo licena, madame, mas prefiro mesmo dormir l, se no fizer objeo. - Encostou-se no portal e cruzou os braos, quando Gaylord o olhou, raivoso.
    De repente, Shanna teve vontade de enfrent-los a todos com a verdade, que quase lhe saiu dos lbios quando ela se ergueu, trmula, da cadeira. Ansiava por defender 
o seu amor e seu casamento com o cativo. A nica coisa que a fazia calar-se era que Sir Gaylord certamente correria at o pai juiz para lhe dizer que um homem que 
ele condenara  forca estava vivo. Levou a mo vacilante  testa e pediu:
    - Madame Beauchamp, ser que posso deitar-me um pouco antes do jantar? Acho que a viagem me cansou mais do que eu podia imaginar.
    Trahern baixou os culos; era bvia sua preocupao. Como uma criana viva e alegre, Shanna sempre demonstrara inesgotvel energia. Era mais uma faceta da filha 
sobre a qual ele precisaria rever sua opinio.
    Ruark partilhou essa preocupao e fez meno de se aproximar de Shanna ansiosamente, mas viu-se de frente com as costas de Charlotte, que interferiu no caminho. 
Amlia Beauchamp foi at Shanna e lhe pegou o brao.
    - Claro, minha filha - acalmou-a. - Foi uma viagem longa e cansativa para voc. Talvez tambm queira lavar-se um pouco.
    Ao passar pelo cativo, Amlia parou e indagou:
    - Sr. Ruark, quer fazer o favor de levar a bagagem da senhora l para cima? Acredito que o carroo j tenha chegado.
    - Sim senhora - respondeu ele respeitosamente e saiu.
    As escadas levavam ao vestbulo e, enquanto a Sra. Beauchamp acompanhava Shanna at em cima, seu vestido de tafet escuro sibilava com cada movimento seu. Ruark 
entrou de novo na casa, carregando pequena arca no ombro e, no outro brao, uma valise. Sem uma palavra, subiu as escadas atrs das duas mulheres e foi at o quarto, 
na extremidade traseira da casa. Um fogo danava, animado, na lareira, como duendes vermelhos e dourados saltitando num tronco. Macio e negro tapete oriental abrigava 
os ps das poltronas de couro do aposento. Pesada cama estava com uma colcha azul de veludo, e as cortinas eram feitas do mesmo tecido.
    - Aqui  o quarto do meu filho, quando est em casa - explicou a Sra. Beauchamp, acendendo as velas do candelabro. - Acho que voc no se importar em ficar 
aqui, porque todos os outros quartos de hspede esto ocupados. Acho que falta um toque feminino ao aposento.
    - Est timo - murmurou Shanna. Seu olhar encontrou o de Ruark, interrogativo, quando ele trouxe a bagagem. Ela corou e cruzou as mos, constrangida, ao perceber 
que a mulher se virou e observava os dois.
    - Viu meu ba, Sr. Ruark? - conseguiu dizer.
    - Vi sim, vou busc-lo l embaixo.
    - Mande David ajud-lo a traz-lo, Sr. Ruark - sugeriu Amlia.
    A porta se fechou, e a mulher mais velha se inclinou para dobrar as cobertas.
    - Mandei sua criada Hergus dormir, depois de jantar. Pobre mulher, parece que padeceu durante a viagem.
    Shanna pensou: "Deve ter sofrido muito, tendo de viajar com Gaylord e Ralston." Em voz alta, disse:
    - Ela nunca passa bem em viagens.
    Ociosamente, Shanna folheou um livro com lombada de couro que estava na escrivaninha ao lado da janela e levantou um olhar interrogativo para a Sra. Beauchamp, 
ao ver que no compreendia nenhuma palavra.
    -  grego. Pertence a meu filho - explicou a mulher, afofando um travesseiro. - Mesmo quando rapazinho, ele estava sempre lendo e fazendo coisas.
    Bateram levemente  porta, que foi aberta para deixar entrar Ruark e o homem alto e idoso, vestindo imaculado traje, que os havia conduzido at a casa. Os dois 
conseguiram levar o enorme ba de Shanna at o p da cama. Quando Ruark se aprumou, estava at arfante e, ao parar para respirar fundo, seus olhos brilharam zombeteiros, 
antes de ele sair pela porta com David.
    Amlia voltou sua ateno para Shanna, que continuava a olhar para a porta fechada, e disse:
    - Vou ajud-la com sua roupa, menina. Quer que eu mande subir uma bandeja?
    - No  preciso. Vou descansar um pouquinho s.
    Shanna ficou de costas para Amlia e deixou que a mulher lhe desamarrasse o vestido. Despindo-se, Shanna esperou em sua blusa leve, enquanto a senhora guardava 
o vestido de veludo.
    - Posso pegar uma camisola para voc? - perguntou, gentilmente, a senhora. Quando Shanna sacudiu negativamente a cabea, Amlia sorriu e foi at a porta. - Ento, 
vou deix-la. Descanse bem. - Abriu a porta e parou para olhar por cima do ombro para a linda jovem. - Acho que, se um homem conseguir a aprovao de seu pai como 
parece que o Sr. Ruark conseguiu, ele  homem para lidar com qualquer tarefa que lhe seja dada. Eu no me preocuparia, menina.
    Quando ela saiu, Shanna sentou-se na beira da cama, onde ficou por longo tempo. No havia percebido que suas emoes eram to evidentes que ela no conseguiria 
dissimul-las. Se elas eram to visveis para a Sra. Beauchamp, logo Orlan Trahern perceberia que sua filha estava apaixonada pelo cativo.
    O som de uma porta batendo em algum lugar da casa acordou Shanna. Ela estava deitada, ainda usando sua comprida blusa, mas coberta por um cobertor. Um reloginho 
em cima da lareira indicava que eram oito e meia.
    Shanna se sentou, assustada. S tivera a inteno de descansar um pouco, mas horas se haviam passado. No podiam ter ficado esperando-a para jantar at to tarde, 
e de repente ela percebeu que estava morta de fome. Quase 10 horas haviam transcorrido desde que ela comera e no havia sinal de bandeja alguma. Naturalmente porque 
ela dissera  Sra. Beauchamp que desceria para jantar.
    Tirou pesado roupo de veludo da mala, vestiu-o e fechou-o at o pescoo. Mesmo que tivesse de ir ao estbulo buscar Ruark para ajud-la, ia encontrar algo para 
comer. Nunca na vida sentira tanta fome.
    "Deve ser por causa do beb." Sorriu, admirada, percebendo a mudana em seu corpo, e seu nimo elevou-se. De repente ficou ansiosa por segurar um corpinho minsculo 
nos braos. No importava se menino ou menina. Naquele momento, poderia amar todos os bebs do mundo! Que diferena um ano tinha feito em seu modo de pensar! Antes 
ela se preocupara com medo de estar grvida de um filho de Ruark. Fora inocente em acreditar que havia possibilidade de escapar a uma gravidez. Ele fora ousado ao 
lhe haver tirado a virgindade numa carruagem. Mas precisaria mesmo ser ousado para conseguir seu respeito e seu amor.
    Controlando o barulho de seus passos, Shanna desceu cautelosamente a escada. Tudo estava silencioso na sala de jantar e na de visitas. Apenas um lampio mortio 
iluminava o local, mas vinham vozes dos fundos da casa. Seriam os criados? Ser que eles lhe arranjariam o que comer? Valia a pena arriscar.
    Caminhou silenciosamente pelo vestbulo, atravessou pequena sala de jantar e foi seguindo o som de vozes. O cheiro de comida alcanou-a e ela esqueceu tudo o 
mais. Ps a mo numa maaneta. Ali devia ser a cozinha, e o fato de estar ligada  casa no era estranho, dado o clima glido. Um acesso de riso a recebeu quando 
ela abriu a porta, e viu Nathanial gargalhando ao lado do pai, que ostentava sorriso malicioso.
    - Shanna! - A voz de Charlotte fez-se ouvir s suas costas, e Shanna, virando-se, viu a mulher com Amlia e Jeremiah. Gabrielle,  mesa, levantou-se surpresa, 
e o humor dos homens sumiu ao contempl-la.
    - Desculpe - murmurou Shanna, meio sem jeito, ao dar-se conta de que s havia membros da famlia ali. - No tive inteno de bancar a intrusa. - J ia embora, 
quando Amlia levantou a mo e disse:
    - Espere, menina. Pode entrar - convidou, e virou-se para a filha, dizendo: - Gabrielle, pegue o prato dela.
    - Mas Mame...
    - No interessa. Faa o que mando. E depressa. No v que a pobre moa est com fome?
    - No estou vestida direito - disse Shanna, sorrindo debilmente. Acho melhor voltar.
    - Bobagem! Guardamos um prato quente para voc. Venha sentar-se aqui - instou Charlotte, puxando uma cadeira.
    Ouviu-se um assobio do lado de fora da casa, e a porta dos fundos abriu-se, deixando ver Ruark, com uma braada de lenha. Ao ver Shanna, parou e relanceou o 
olhar pelos rostos curiosos.
    - Bem, deixe a lenha a, rapaz - mandou George, aps um momento de silncio. Fez um gesto para o caixote de lenha. - Voc est com fome, no est?
    - Estou, senhor - foi a resposta. Ruark depositou sua carga e percebeu o olhar confuso de Shanna. - Era o mnimo que eu podia fazer para pagar o jantar a esta 
boa gente.
    - Hum! - exclamou Amlia, levantando a sobrancelha, e Jeremiah apressou-se a vir  frente, esfregando as mos na cala, nervoso.
    - Sr. Ruark, quer ir caar na montanha amanh? Vi umas pegadas grandes por l. Se o senhor quiser, podemos ir de manhzinha.
    - Preciso pedir ao Sr. Trahern - respondeu Ruark, atirando madeira no fogo e olhando para Shanna de esguelha.
    Mais preocupada com sua prpria intruso, Shanna sentou-se onde Charlotte sugerira e cruzou as mos. Envergonhada, Gabrielle correu e lhe ps  frente um prato 
cheio. Correu at o forno e trouxe outro prato quente.
    - Por favor, Sr. Ruark, sente-se - disse, depositando o prato.
    Serviu dois grandes copos de leite gelado e os ps ao lado dos pratos dos dois, e Ruark sentou-se ao lado de sua mulher. Enquanto comia, a conversa se animou 
de novo, e Shanna acabou rindo com eles todos. O esprito animado de Ruark juntou-se ao dos demais. Para encanto de Jeremiah, ele comeou a contar a hilariante histria 
de uma caada escocesa. Foi uma noite agradvel e, estranhamente, Shanna sentiu-se parte da famlia. Perguntou-se se isso no poderia vir a ser verdade. Talvez Ruark 
fosse algum primo distante deles. O Comandante Beauchamp havia negado isso. Ou no havia? Era algo em que pensar.
    As onze e tanto da noite, quando a famlia comeou a retirar-se para seus aposentos, Shanna se levantou da mesa e deu boa-noite a Nathanial e ao pai dele, de 
p junto  lareira. Ruark fez meno de levantar-se tambm, mas George lhe ps a mo no ombro e o forou a sentar de novo.
    - Voc estava me falando do corcel, e tenho muito a perguntar. Fique mais um pouco.
    O olhar de Ruark seguiu a sada de Shanna, e ele viu a porta fechar-se atrs dela. O caminho estava escuro para Shanna, pois s havia uma vela acesa no aparador 
da sala de jantar e, no corredor, a nica luz vinha do lampio na sala de estar. L, nas sombras do vestbulo, Shanna postou-se diante das pequenas e quadradas vidraas 
de cristal que formavam a janela maior, atrada pela viso da Lua cheia. Sua plida claridade escorria atravs dos galhos meio nus dos gigantescos carvalhos do gramado 
fronteirio.
    O ranger da porta da cozinha interrompeu os devaneios da moa; Shanna virou-se ao notar Nathanial vir em largas passadas pelo corredor. O homem a viu, parou 
e depois se dirigiu a ela.
    - Shanna! - Sorriu,  luz mortia. - Pensei que voc j estivesse na cama.
    - Estava admirando a vista - murmurou ela,  guisa de explicao. Ele espreitou pela janela para a linda viso externa.
    - Voc v com os olhos de artista - observou ele. Shanna deu uma risadinha e comentou:
    - Eu gostaria de ser artista.
    - Quer conversar? - convidou ele.
    Shanna encostou-se na janela para poder continuar a contemplar a noite hibernal e perguntou:
    - Sobre o que, senhor?
    A resposta demorou a vir:
    - Qualquer coisa. - Encolheu os largos ombros. - Qualquer assunto que lhe agrade.
    - E que assunto o senhor acha me agradaria?
    - O Sr. Ruark - respondeu ele, mansamente.
    Ela procurou algum sinal de descontentamento ou desprezo no rosto dele, mas s encontrou um meigo sorriso.
    - No posso neg-lo - murmurou, e voltou a olhar pela janela, torcendo a aliana de ouro. - O senhor j nos viu juntos, e talvez no aprove, mas eu o amo, e 
espero um filho dele.
    - Ento por que essa farsa, Shanna? - A voz demonstrava piedade e simpatia. - A verdade  to doda assim?
    - Estamos encurralados - suspirou ela, triste. - Ele no me pode reivindicar por outras razes, e eu ainda preciso encontrar um meio de abrandar a raiva de meu 
pai. - Meneou a cabea e olhou fixo para suas mos. - No lhe posso pedir sigilo, sob sua palavra de honra, porque isso o faria cmplice de minha dissimulao. S 
espero poder depender de sua discrio. Est-se aproximando o dia em que tudo ficar s claras.
    Seguiu-se longa pausa antes que Nathanial voltasse a falar:
    - Pode contar com minha discrio, Shanna. Mas gostaria de dizer uma coisa. - Ele respirou, fundo. - Acho que vocs dois no acreditam em ns. Voc considera 
seu pai um monstro cruel? Ele a castigaria por seu amor? Voc v em seu redor um bando de inimigos, ou s encontraria amigos e aliados dispostos a ajud-la?  triste 
pensarem que minha mulher e eu assistiramos  desgraa de uma dama, sem levantar nossas vozes e nossos braos para defend-la. Ouso dizer que seu pai se levantaria 
para defend-la, se voc anunciasse seu amor. Voc o cr to trpego a ponto de haver esquecido os ardores da juventude? Acho Orlan Trahern muito razovel, e com 
uma vibrao incomum.
    Nathanial deu vrios passos para as escadas e se virou para Shanna:
    - Sim, realmente creio que vocs dois nos julgam mal. Mas aguardarei sua revelao, como voc disse, no tempo apropriado. - Estendeu a mo para ela e disse: 
- Venha, Shanna, vou lev-la a seu quarto. J  tarde. - Riu manso, e Shanna sentiu que o bom humor dele a estava contagiando. O homem concluiu: - E me pergunto 
quanto tempo vocs vo conseguir guardar segredo...
    Plidos raios de Sol coaram-se pelas cortinas finas e aqueceram o quarto com sua claridade de meio de manh. Com prazer quase desperto, Shanna agitou-se na larga 
cama e abriu os olhos. Um tom colorido a seu lado no travesseiro lhe chamou a ateno e, quando ela levantou a cabea, viu que era uma rosa vermelho sangue. Pegou 
a flor e a cheirou admirando-lhe a beleza frgil. Os espinhos haviam sido cuidadosamente retirados da longa haste.
    - Oh, Ruark! - murmurou, sorridente.
    A impresso no travesseiro ao lado do seu a informou de que ele estivera l durante a noite. Com um risinho feliz, Shanna apertou o travesseiro contra o busto, 
mas dele se separou ao ouvir baterem baixinho  porta. Quando ela ordenou, Hergus entrou.
    - Bom-dia, menina - cumprimentou, alegre, a criada. - Dormiu bem?
    Shanna mexeu-se na cama e se espreguiou como uma gata feliz.
    - Muito bem, mas estou faminta.
    - Menina, isso  um sinal estranho - disse Hergus, olhando desconfiada. Shanna deu de ombros, inocentemente, e comentou:
    - No entendo.
    Hergus se ocupou arrumando roupas que estavam no ba e disse:
    - Acho que entende. Do jeito que tem feito tudo para eu no a ver nua, acho que voc deve dizer ao Sr. Ruark que ele vai ser pai.
    - Ele j sabe - respondeu Shanna calmamente, encarando a mulher atnita. - Voc calculou certo. Vou ter um filho dele.
    - Ooooohh, no! - gemeu a criada. - O que voc vai fazer?
    - A nica coisa que posso fazer: contar a meu pai. - A idia de precisar fazer isso gelou o corao de Shanna. - Espero que ele no fique muito zangado.
    - V esperando! - grunhiu Hergus. - Pode apostar que ele vai querer capar o Sr. Ruark.
    Shanna rodopiou e encarou a mulher; seus olhos dardejavam clera:
    - No me diga mais o que  decente e apropriado. Decente e adequado  eu amar Ruark e ter o filho dele. - Bateu o p para enfatizar suas palavras.
    - No vou mais tolerar nenhuma calnia contra o meu Ruark, venha de onde vier!
    Hergus compreendeu haver atingido o limite da pacincia de Shanna e cuidadosamente mudou de assunto. Enquanto ajudava sua patroa a trocar de roupa, a conversa 
abrangeu temas leves e ela teve dificuldade em ficar calada.
    - Todos os homens j tomaram o desjejum e saram, menos Sir Gaylord. Ele parece muito atrado pela Srta. Gabrielle.
    - Ele  um almofadinha cobioso - zombou Shanna. - Est  cata de uma mulher rica. Preciso prevenir Gabrielle.
    - No  preciso. - Hergus riu. - Ela j deu um fora nele. Disse que no queria que ele tocasse nela e que ele tomasse cuidado com as mos.
    - Ento, suponho que ele volte a me perseguir - disse Shanna, suspirando, desconsolada. - Talvez consigamos achar-lhe uma viva rica e gaga, com uma bengala 
bem pesada, para mant-lo na linha.
    - Ele no gosta de mulher velha - falou Hergus, dando de ombros. Est sempre de olho  nas franguinhas. Quando a gente passou por Richmond, ele quase quebrou 
o pescoo para olhar uma mocinha engraadinha que vinha andando pela estrada. - Fungou alto e levantou o nariz, empertigada: - No o agentei.
    As lindas sobrancelhas de Shanna se levantaram, em sinal de preocupao:
    - Ser que ele conseguiu convencer os Beauchamps a empregarem dinheiro no estaleiro dele?  possvel que eles concordem s para se livrar dele.
    - No  provvel - disse Hergus. - Hoje de manh passei pelo cavaleiro no corredor, e ele estava conversando com aquele simptico Comandante Beauchamp. O comandante 
no me pareceu muito inclinado a aceitar.
    - timo! - Shanna sorriu. - Ento ele talvez v embora logo. - Seria melhor se ele no estivesse por perto, quando Shanna fosse falar com o pai.
    Quando Shanna desceu a escada, Amlia lhe gritou, da porta da sala de visitas:
    - Venha ficar conosco, Shanna. Mando buscar uma bandeja para voc e um bule de ch.
    Charlotte e Gabrielle estavam tocando uma melodia no cravo e se levantaram e vieram sentar-se nas cadeiras ao lado do sof onde Shanna se sentou.
    - Os homens saram hoje cedinho para mostrar os arredores a seu pai, e a casa ficou to silenciosa sem eles que quase d para ouvir uma pluma cair - disse Amlia, 
rindo.
    Um barulho assinalou suas palavras; e as senhoras se viraram para olhar, atnitas, o motivo. Uma copeira,  porta da sala de estar, estava boquiaberta com a 
bandeja que havia deixado cair. A seu lado, Gaylord limpava o casaco de cetim e o peitilho de rendas.
    - Sua palerma! Tenha mais cuidado da prxima vez - disse ele, rpido. - Correndo por a dessa maneira, voc quase estraga meu casaco.
    Indefesa, a jovem olhou para a Sra. Beauchamp e torceu as mos, perturbada; o queixo comeou a tremer e os olhos enormes se encheram de lgrimas.
    - No precisa assustar-se, Rachel - falou Amlia, gentilmente; e ajudou a criadinha a apanhar os cacos do bule e do prato de porcelana. Amlia entregou o ltimo 
caco  mocinha, limpou as mos no leno e observou a criadinha sair silenciosamente da sala. A dona da casa virou-se ento com uma circunspeco que demonstrava 
sua autoridade.
    - Sir Gaylord, enquanto estiver nesta casa, deve lembrar-se de no fazer crticas aos menos afortunados. No o tolerarei. Rachel sofreu muito e foi bastante 
maltratada antes de vir trabalhar para ns. No est conosco h muito tempo, mas  boa menina, e seus servios me so teis. No gostaria que ela fosse embora porque 
um hspede nosso foi desnecessariamente severo com ela.
    - Madame, a senhora est exigindo que eu tome cuidado com meus modos? - perguntou Gaylord, atnito. - Madame, minha famlia  das melhores da Inglaterra, e sei 
como lidar com criados. - Olhou arrogante para ela e continuou. - A senhora talvez j tenha ouvido falar no Juiz Lorde Gaylord. Ele  meu pai.
    -  mesmo? - comentou Amlia, tolerante. - Talvez, ento, o senhor conhea o Marqus, irmo do meu marido?
    O queixo de Gaylord caiu; satisfeita com a reao dele, Amlia rodopiou fazendo um barulhinho de seda sibilando e dirigiu-se s trs senhoras, para tomar seu 
lugar entre elas.
    - Marqus! - gaguejou Gaylord, dando um passo  frente. - O Marqus de Beauchamp, de Londres?
    Amlia levantou a sobrancelha calmamente e o olhou:
    - Existe outro? No sabia. - Fez um sinal para Rachel entrar, e a moa cautelosamente evitou passar prximo a Gaylord. - Senhoras, de que falvamos?
    - Voc foi maravilhosa, Mame! - exclamou Gabrielle, entusiasmada, quando o homem se retirou.
    - Fiz uma maldade - confessou Amlia. Deu de ombros e o riso iluminou a sala. - Mesmo assim, senti-me bem. O jeito com que Gaylord mandou Ruark sair da mesa 
ontem  noite parecia at que ele era o dono da casa.
    - Nathanial disse que ouviu que o pai de Sir Gaylord estava em visita a Williamsburg - anunciou Charlotte, pegando uma xcara de Amlia. - Ser que ele  to 
enjoado como o filho?
    Seus olhos pretos se viraram, quase preocupados, para Shanna, que de repente parou de mexer o ch. Sob o olhar fixo da outra, Shanna concentrou-se no prato, 
temerosa de que notassem sua perturbao. S conseguia pensar no jeito que daria para fugir da casa e prevenir a Ruark de que Harry, o Enforcador, estava perto o 
bastante para ser perigoso.
    - Nossa, Shanna, como fui grosseira! - desculpou-se Charlotte. Devo compreender que voc tem o direito a gostar desse fulano. Gaylord hoje de manh disse que 
voc e ele estavam perto de ficarem noivos.
    Shanna quase engasgou com o bolinho amanteigado que comia.
    - Eu? - Engoliu ch para ajudar a descer os pedaos do bolo e sacudiu a cabea, resolutamente. - Afirmo-lhe que isso  histria dele. J lhe respondi quanto 
a me casar com ele - esfregou o pulso ao lembrar-se - e foi uma recusa peremptria.
    - Ento, por que ele continua a pression-la, Shanna? - perguntou Gabrielle. - Desde hoje de manh ele nem me olha, o que  um alvio, mas, durante alguns instantes, 
algum era capaz de jurar que ele estava apaixonadssimo por mim. Se voc j lhe disse que no quer casar-se com ele, por que esse homem continua a falar nisso?
    Shanna deu de ombros, e Charlotte teve um acesso de riso.
    - Talvez Shanna tenha sido delicada ao recus-lo, minha querida.  frustrante para qualquer cavalheiro que uma moa lhe diga que ele  velho o bastante para 
ser seu pai e, alm disso, que lhe chamem a ateno para a pana.
    Shanna riu, tomando ch e comentou:
    - E eu que pensei que minha resposta havia sido brutal! Minha mo ainda funciona, caso ele queira avivar certa lembrana.
    - No! - disse Gabrielle, rindo. - Voc bateu mesmo nele? Bem feito, Shanna. Mas por que ele a atormenta? O mnimo que ele podia fazer  desistir de voc.
    - Suponho que o Sr. Ralston lhe tenha informado que meu pai gostaria que eu me casasse com um nobre - explicou Shanna. - Com certeza, Gaylord espera que me influencie 
pelo fato de ele ser um cavaleiro.
    - Mas seu pai no me parece simpatizar muito com ele - disse Amlia. - Na verdade, ficou aborrecidssimo quando Gaylord sugeriu que o Sr. Ruark se retirasse 
e fosse comer junto com os criados. Voc perdeu uma discusso e tanto, querida. Seu pai disse que jantaria com Ruark, e George afirmou que o dono da casa era ele, 
e que convidaria quem lhe desse na veneta para nossa mesa. O pobre Nathanial tentou acalmar todo mundo, mas no se deu muito bem. Passaram-se uns quinze minutos 
at que algum percebesse que o Sr. Ruark havia ido embora. Desde ento, George e seu pai no conseguem dirigir-se a Gaylord com gentileza.
    - Ento, talvez, tenha sido melhor eu me ter afastado mesmo - rematou Shanna, ironicamente.
    Pouco tempo depois, Shanna viu-se a ss com a matriarca Beauchamp e no entendeu as justificativas esfarrapadas que as duas outras mulheres deram para sair do 
aposento. Pelas janelas da frente, Shanna viu Gaylord caminhando em largas passadas no quintal, mos cruzadas nas costas, e cabea baixa, como se estivesse meditando 
sobre um assunto srio.
    - Suponho. Shanna, que voc ouviu muitas histrias que lhe do a idia de que a Virgnia  uma terra selvagem. - Amlia deu um risinho quando Shanna concordou 
com a cabea. - Sim,  selvagem, mas nunca lamentei ter construdo nossa casa aqui. Na ocasio s tnhamos Nathanial e ns mesmos ramos umas crianas. Meus pais 
ficaram temerosos. Queriam que eu permanecesse na Inglaterra at George poder construir um lar para ns. Acharam que ele desistiria e voltaria. Ele vrias vezes 
afirma que teria mesmo voltado, se eu no o tivesse acompanhado.
    - A senhora tem uma casa encantadora, Sra. Beauchamp, e sua famlia tambm  encantadora.
    - Oh, j passamos por muitas provaes que talvez no tivssemos precisado enfrentar na Inglaterra - continuou Amlia. - Mas acho que somos melhores pessoas 
devido aos problemas que partilhamos. E somos talvez mais fortes tambm. No poderia tolerar um filho almofadinha como Gaylord. Talvez meus filhos ficassem deslocados 
na corte, mas garanto que so homens e no dependem da riqueza alheia para ter uma cama macia. E como eu os amo, quero que sejam felizes.  natural que uma me queira 
o melhor para seus filhos. At aqui, tiveram a felicidade de encontrar a pessoa que queriam. Se Deus quiser, Gabrielle e Jeremiah tero a mesma sorte.
    Distraidamente, Shanna bebericava seu ch, perguntando-se se a me de Ruark a aceitaria com o mesmo entusiasmo e cordialidade que Amlia demonstrava em relao 
a Charlotte. Esta podia quase ser invejada, mas a mulher que havia criado Ruark devia ser algum especial tambm.
    - Voc est confortvel no quarto de meu filho? - perguntou Amlia, mansamente.
    - Sinto-me muito  vontade l - afirmou Shanna. - Suponho que no vero o quarto seja bastante fresco, porque aquela enorme rvore nos fundos deve dar tima sombra. 
Onde est seu outro filho?
    - Quer mais ch, minha querida?
    - S meia xcara, por favor. Obrigada.
    - Ele vem e vai o tempo todo. - Gostaria de conhec-lo um dia desses.
    Amlia relanceou o olhar a jovem hspede e disse:
    - Acho que voc vai conhec-lo, minha cara. Acho que vai.
    Pouco tempo depois, Shanna descia a escada vestindo um traje de montaria de veludo verde que lhe dava aos olhos um tom semelhante ao das esmeraldas. Gabrielle 
estava entrando pela porta da frente.
    - H alguma trilha onde eu possa cavalgar e no me perder? - perguntou Shanna.
    A moa respondeu levando-a para os fundos da casa. L, elas podiam olhar pela janela para as montanhas que se estendiam alm.
    - Existe uma trilha que leva ao alto do vale perto daquele carvalho grande. - Sendo pouco mais alta, Gabrielle olhou para Shanna e acrescentou calmamente, dando 
de ombros: - Voc deve encontrar o Sr. Ruark por l, bem como o Jeremiah.
    Shanna relaxou com o ritmo do cavalgar de Jezebel e sentiu a aragem estimulante enquanto o capim trigueiro era pisado pelos cascos da gua. O vento batia no 
penacho do bon de montaria e, na alegria pura do momento, Shanna sacudiu as rdeas. A montaria reagiu  instigao e correu, quase voou. Era um terreno familiar 
a Jezebel, e ela realmente correu velozmente. Shanna deixou-a galopar at passarem pelo grande carvalho e entrarem na floresta, por uma trilha j gasta e cheia de 
plantas rasteiras. A, ela assumiu ritmo mais calmo.
    O ar era frio, mas o Sol estava a pino, e havia uma sensao de virgindade naquela floresta. Shanna viu um cabrito monts passando pelas sombras mosqueadas. 
A trilha comeou a subir. Morros erguiam-se de ambos os lados, e a trilha contornava um penhasco de pouca altura. Ao rode-lo, Shanna ficou atnita e deteve a gua.
     sua frente espalhava-se amplo vale, frtil e luxuriante como uma pedra preciosa. No centro do vale, uma srie de laguinhos reluzia sob o cu lmpido. Eram 
alimentados por uma catarata que descia por um penhasco atravs de coloridos arcos-ris. Depois dos lagos, sob os galhos altos e um agrupamento de pinheiros, havia 
uma cabana de construo simples e tosca, de cuja chamin fina coluna de fumaa subia ao cu.
    Shanna reparou que havia pisadas de vrios cavalos, e instou Jezebel a ir mais depressa, passou por vrios salgueiros, espalhou gua de um regato de guas claras 
e depois as duas chegaram ao terreno que j pertencia  cabana. A porta estava escancarada, e havia um machado em meio a uma pilha de troncos. Depois da cabana, 
uma cerca rodeava um campo no qual pastava considervel manada de cavalos que se equivaliam em graa e beleza a Jezebel. Inquieta, a gua bateu com as patas no tufo 
denso de capim sob seus cascos, enquanto Shanna segurava firmemente as rdeas e contemplava a beleza do vale pacfico.
    Ouviu um barulhinho s suas costas; virando-se, Shanna viu Ruark apoiando o rifle num cepo de rvore. Rindo, ele se aproximou para tir-la do lombo da gua.
    - Como soube onde eu estava? Ela sorriu para ele, quando tocou a terra e respondeu:
    - Gabrielle me disse.
    - Que bom! - disse ele, acariciando o veludo sobre as costelas dela. Inclinou-se e sua boca encobriu a dela em um beijo demorado e ardente de boas-vindas. Shanna 
suspirou feliz e se aninhou no gibo de couro, enquanto Ruark a abraava. Ela lembrou-se, ento, do que havia ido fazer l.
    - Harry, o Enforcador, est em Williamsburg - murmurou, abraando-o o, olhando-o firme.
    - Aquele desgraado! - rosnou Ruark.
    - O que vamos fazer? - perguntou Shanna, preocupada.
    - No se assuste, amor - Ruark afagou-lhe o rosto. - Vamos resolver tudo de vez. - Beijou-a de novo, recuou e, levantando a cabea, emitiu um arrulho suave. 
Um movimento nos arbustos atrs da cabana chamou a ateno de Shanna e, em seguida, Jeremiah apareceu. Tambm ele carregava comprido mosquete e estava vestido  
semelhana de Ruark, com cala de pele de alce, colete e camisa de linho.
    - Sr. Ruark - exclamou Jeremiah, voz estranhamente risonha. - Acho melhor eu ir consertar aquele buraco na cerca, antes que a gua o descubra. Vou demorar um 
pouco.
    Levantou o machado e partiu, arrastando os ps. Shanna podia jurar ter ouvido um risinho no ar. Ruark o viu ir-se, com um brilho nos olhos.
    - Rapazinho inteligente! - disse. - Sempre pronto a fazer mais do que precisa.
    Shanna franziu ligeiramente o cenho, e teve a impresso de que algo havia acontecido entre Ruark e Jeremiah que ela no percebera. Mas o que importava, desde 
que ela e Ruark pudessem ficar a ss?
    Ele pegou a parte traseira do traje dela e levantou a barra, que tocava o capim mido.
    - Se voc vai querer ficar passeando por aqui, vai precisar de um par de calas. Vou prender Jezebel antes que ela se perca por a. Depois, mostro-lhe os arredores.
    Shanna segurou as saias e o seguiu. No curral, Ruark tirou os arreios da gua e afrouxou a cinta. Jezebel o seguiu como um cachorro treinado, quando ele a levou 
at o porto e a deixou passar.
    Feliz, Shanna correu na direo de um recanto sombreado sob alto pinheiro. Danou e chutou o espesso tapete de folhas de pinheiro. Voltando a Ruark, atirou-se 
em seus braos como uma mocinha apaixonada. Seu riso ecoou na clareira. Levantou os braos bem acima da cabea e os arqueou, eufrica, antes de p-los em redor do 
pescoo de Ruark e se debruar para frente para beij-lo.
    - Quer ver a cabana? - perguntou Ruark, com voz rouca.
    Shanna concordou, ansiosa, com a cabea e lhe deu a mo, deixando que ele a levasse de volta  clareira.  frente da cabana, Ruark a levantou nos braos e a 
carregou pela porta baixa da construo. Dentro, o ambiente era simples e estava parcamente iluminado pelo fogo que ardia na lareira. Ruark ps Shanna no cho e 
deixou que ela observasse o local, enquanto ele, pegando um tio, acendeu o cachimbo. Intrigada com o vigoroso conforto da cabana, Shanna esfregou a mo na superfcie 
de uma mesa talhada  mo, e olhou curiosa para grande panela de ferro que estava pendurada longe do fogo. Pulou alegre na cama, apalpou a rica colcha de pele que 
a cobria e depois foi at o centro do aposento.
    - Poxa, Ruark, no seria maravilhoso se pudssemos ter alguma coisa parecida com esta? - perguntou, entusiasmada.
    Ele a olhou interrogativamente atravs da coluna de fumaa que subia de seu cachimbo e perguntou:
    - Shanna, voc acha mesmo que ficaria contente aqui?
    Ela fez beicinho, insinuante.
    - Voc duvida? Meu estofo  robusto, Sr. Beauchamp, e se me desafiarem, esforo-me ao mximo. Aprenderei a cozinhar. Talvez no to bem quanto as cozinheiras 
de Papai, mas no gosto mesmo de maridos gordos.
    - Deu um tapinha na barriga chata dele e depois na sua. - Voc me amar mesmo quando eu estiver de barriga grande com o beb?
    - Shanna - disse Ruark, abraando-a. - Eu a amarei at a morte. A moa se agarrou a ele e correspondeu a seus beijos ardentes.
    - Jeremiah vai ficar ausente quanto tempo?
    Ruark estendeu uma das mos s costas para trancar a porta e respondeu:
    - At eu o chamar.
    Os galhos desolados do carvalho se estendiam desamparados para as vidraas da janela do quarto, quando Shanna contemplava a noite estrelada. A tarde passada 
com Ruark na cabana havia confirmado que ela queria passar a vida com ele, apesar de todas as provaes que isso pudesse englobar. J estava decidida a isso, mas 
sentia-se solitria. Era como se estivesse sozinha no mundo e todo o peso de sua loucura lhe desabasse nos ombros. O que ela estava na iminncia de fazer podia deix-la 
sem ningum, sem Ruark, sem o pai, sem ningum. Ser que os Beauchamps a receberiam com todo o seu oprbrio, como dissera Nathanial?
    Shanna ps a mo na barriga e percebeu a vida que ali florescia. De repente, compreendeu que jamais estaria s.
    Orlan Trahern estava sentado numa poltrona de couro no quarto de hspedes, debruado sobre uma pilha de mapas e livros-razo. Os frutos daquela terra eram ricos 
o bastante para atiar-lhe o corao de comerciante. Na verdade, ele comeava a ver as vantagens de comprar propriedades l, talvez no Rio James, onde sua frota 
pudesse ir e vir.
    - Uma batida leve na porta do quarto lhe interrompeu os pensamentos e a voz de Shanna soou meiga:
    - Papai, voc est acordado?
    Ele largou os papis na mesa e instou:
    - Entre, Shanna, entre.
    A porta se abriu e Shanna entrou, fechando a porta em seguida. Indo at o pai, beijou-lhe a testa e lhe viu o sorriso divertido.
    - Alguma coisa errada, Papai? - perguntou, curiosa.
    - No, filha. Estava s recordando. - Ele a olhou com afeto. Ela parecia pequenina, no vestido solto de veludo. - Voc parecia assustada, como quando era criana 
e havia tempestade. Voc batia na nossa porta e vinha encolher-se entre sua me e eu.
    Shanna encolheu-se intimamente e procurou uma cadeira para aplacar seus tremores. Conseguiu apenas sentar-se e olhar para as mos trmulas, embora soubesse que 
ele a olhava, esperando.
    - Papai, eu... - Sua voz estava baixinha, quase trmula. Ela tomou flego e falou tudo de uma s vez: - Papai, estou grvida, e o pai  John Ruark.
    Seguiu-se um momento de silncio mortal, e Shanna no conseguiu levantar o rosto para ver a raiva e o choque no rosto do pai.
    - Pelo amor de Deus, mulher!
    Shanna estremeceu ao ouvir a voz do pai. Orlan saiu da cadeira e se postou em frente  filha. Shanna preparou-se de novo, mas a voz dele soou baixo, mas continuou 
a parecer rouquenha no quarto silencioso.
    - Sabe o que fez?
    Os olhos dela se estreitaram e lgrimas penderam das espessas pestanas, ameaando cair, enquanto ela tentava encontrar uma forma de exprimir seus sentimentos. 
Ento ele falou, e suas palavras lhe invadiram a mente:
    - Voc resolveu para mim, querida menina, um problema que me tem perturbado as ltimas semanas. Como poderia eu, que vivo a matraquear sobre sangue azul e ttulos, 
pedir a minha filha que se casasse com um cativo? - Ele se inclinou e lhe pegou as mos no colo, levantou-lhe o queixo at ela o olhar. - Se voc me tivesse pedido 
para escolher, eu lhe teria implorado que se casasse com Ruark. Mas como prometi, voc  que devia escolher seu marido, e eu no interferiria mais. - Ele lhe examinou 
a expresso e perguntou: - Voc o ama?
    - Ah, Papai, amo sim. - Ela se levantou e, atirando os braos em redor do pescoo dele, escondeu o rosto no ombro do pai. - Se amo!
    Seu sussurro foi meigo e feliz.
    - Ele a ama? Vai casar-se com voc. - Ele no parou. - Pelos diabos, ele vai, sim! - Sua voz comeou a elevar-se, enraivecida. - Ele vai, ou ento eu...
    Os dedos de Shanna lhe tamparam os lbios, calando-o. Ela tencionava contar a histria toda, mas a verdade de seu ardil poderia provocar sentimentos mais violentos. 
Era melhor contar pouco a pouco e no forar a sorte.
    - Papai, existe um problema, que vou contar no momento apropriado, mas h uma razo que no podemos divulgar ainda. - Ela viu que ele franziu a testa e lhe pediu: 
- Confie em mim, Papai. Tudo vai dar certo. Confia em mim?
    - Suponho que voc tenha bons motivos - admitiu ele, relutante. - Mas essa histria no deve prolongar-se muito. Eu gostaria de espalhar a notcia.
    - Obrigada, Papai. - Ela o beijou, saiu correndo do quarto e voltou a seu aposento. Fechou a porta e deu largas passadas em direo  cama, sorridente e lacrimosa 
ao mesmo tempo.
    Uma sombra se ergueu da cadeira do outro lado do quarto, e ela arfou antes de reconhecer Ruark. Atirou-se em seus braos e riu contra o peito dele, abraando-o 
com fora.
    - Contei a ele, Ruark. Contei a Papai sobre ns.
    - Eu estava calculando. - Os lbios dele beijaram os cabelos dela.
    - Ouvi o grito de dor que ele deu.
    - Oh, no! - Ela se inclinou para trs e o olhou. - Ele aprova, Ruark. E ficou at feliz com a notcia.
    O cenho de Ruark se franziu, surpreso.
    - No lhe contei que estvamos casados, s disse que me encontro grvida de voc.
    Ruark levantou as mos e gemeu:
    - Muito obrigado, madame. Agora, virei aproveitador de vivas.
    - Patife! - Shanna afastou-se dele e olhou recatada por cima do ombro. - Se eu fosse mesmo viva, isso bem que podia ser verdade. Claro que... - ela o encarou 
com um beicinho de zanga bem dissimulado - existe aquela viva velha,  a ela que voc se refere?
    - No, madame. Refiro-me a uma viuvinha jovem e sedutora que vive tentando meu ardor.
    Ruark ficou srio, aps pensar por um instante.
    - Shanna, meu amor, como a noite provoca a revelao de verdades, tambm tenho algo a confessar.
    - Ruark, no temo seus ex-amores - disse Shanna, rindo. - No me perturbe com segredos agora. Meus nervos ainda esto trmulos. - Foi at a porta e abriu o trinco. 
Relanceou a vista pelo quarto, atnita. - Como  que voc entrou aqui? David estava l embaixo. Eu o vi da escada. Voc agora tem asas?
    - No, meu amor. - Ruark fez um gesto para a janela. - O carvalho ao lado da cozinha  uma escada jeitosa. Pensei que voc talvez precisasse de companhia. - 
Ps as mos na cinturinha dela e a chegou at ele. - Shanna, quero contar-lhe uma coisa. Este  meu...
    Shanna o silenciou com os lbios e se comprimiu contra ele.
    - Diga-me de seu amor, Sir Drago - murmurou. - E depois me deixe ver alguma prova do que diz.
    - Eu a amo - sussurrou Ruark, passando-lhe os braos por baixo do roupo. Sentiu o calor do corpo macio dela sob a seda do traje, e todas as demais idias lhe 
sumiram da cabea. - Eu a amo como a Terra deve amar a Lua que se eleva como uma deusa de prata na noite e traz a luz para as criaturinhas do escuro.
    Shanna o empurrou para a cama e ronronou-lhe contra o peito e lhe acariciou os msculos nus e firmes.
    - Eu a amo como as flores amam a chuva e espalham suas ptalas para expor seus coraes macios ao toque suave da chuva. - Seus lbios procuraram os dela e ele 
murmurou: - Eu a amo, Shanna, mais do que a tudo.
    Shanna acordou sobressaltada e ficou imvel, perguntando-se o que havia interferido em seu sono para faz-la acordar. O relgio na lareira delicadamente bateu 
trs horas. Sentiu o corpo nu de Ruark encolhido contra suas costas, e o brao dele em seu quadril. Percebeu que tambm ele estava tenso e rgido, respirao entrecortada. 
Rolou a cabea no travesseiro e,  luz mortia do fogo, viu que ele estava apoiado num travesseiro e olhava para a porta. Ento Shanna ouviu a maaneta sendo torcida 
e lentamente posta de volta ao lugar: a porta trancada no permitia entrada. Seus olhos interrogaram os do marido.
    Ruark ps um dedo nos lbios, fazendo-lhe sinal para que se calasse. Saindo cautelosamente da cama, ele pegou a cala e a vestiu. Com passadas largas e silenciosas, 
ele atravessou o quarto e Shanna vestiu a camisola. Se ele ia enfrentar algum do outro lado da porta, ela no ia ser vista nua.
    Com muito cuidado, Ruark virou a chave at que um barulhinho revelou que a tranca estava solta. Com um movimento rpido que assustou Shanna, ele recuou e abriu 
a porta.
    No havia ningum. Nem no corredor do lado de fora do quarto. Tudo estava envolto em sombra e, embora Ruark perambulasse silencioso por ali, no conseguiu encontrar 
ningum. Franzindo a testa, voltou ao quarto e fechou a porta, voltando a tranc-la.
    - Quem pode ter sido? - sussurrou Shanna, quando ele se sentou a seu lado na cama.
    - Estou comeando a desconfiar de uma pessoa - respondeu Ruark. Aps alguns instantes, ele se levantou, tirou a cala e se enfiou debaixo das cobertas novamente.
    - Voc est frio - disse Shanna, encolhendo-se contra ele. Abruptamente, Ruark se sentou, e Shanna o olhou, surpresa.
    - Que diabo  isso? - Ele inclinou a cabea para ouvir melhor. No silncio do quarto, o gemido dbil mas irritado de um cavalo pde ser escutado.
    -  tila - sussurrou Shanna, sentando-se ao lado de Ruark. - Alguma coisa o est incomodando.
    Ruark puxou as cobertas e ps rapidamente a cala.
    - Vou ver o que .
    Enfiou a camisa pela cabea e disse:
    - Quando eu sair, tranque a porta. Se algum tentar entrar, grite. Algum vai ouvi-la.
    De repente, Shanna teve medo. Era muita coincidncia ser acordada no meio da noite e, em seguida, ouvir tila. Se os dois estivessem dormindo mesmo, no teriam 
ouvido tila, devido s janelas estarem fechadas e ao fato de o estbulo ficar a boa distncia da casa.
    - Ruark, no v! - suplicou ela. - No sei, mas sinto que h alguma coisa errada.
    - Vou tomar cuidado. - Beijou-a ligeiramente. - Mantenha meu lado quentinho. Quando voltar, vou estar com frio.
    Shanna franziu a testa, preocupada, e o acompanhou  porta.
    - Tenha cuidado, por favor.
    Trancou a porta depois que ele saiu, e comeou a andar de um lado para outro do quarto, inquieta, e roendo unha. S o brilho avermelhado das cinzas na lareira 
dava claridade ao aposento, e o lugar estava to frio que ela tremeu na camisola. Ajoelhando-se em frente  lareira, revolveu os carves quentes at surgir uma pequena 
chama e ento Shanna ps sobre ela dois toros de carvalho. No saberia dizer quanto tempo ficou em frente  lareira se esquentando, mas seu corao gelou quando 
um grito lancinante se fez ouvir na noite, e ela ouviu Charlotte guinchar no quarto que dava para o corredor:
    - O estbulo! O estbulo est pegando fogo! Nathanial, acorde! O estbulo est pegando fogo!
    Shanna deu um grito e ficou em p. Relanceou, temerosa, para fora da janela e viu um bruxulear a certa distncia.
    - Ruark! - Sufocando um grito, ela foi at a porta, arranhou-a e os dedos trmulos mexeram na chave. - Oh, no! Por favor, no! Ruark!
    Ignorando estar descala e de camisola, Shanna abriu a porta e correu para o corredor, quase esbarrando com Nathanial, que mal havia conseguido vestir uma cala. 
Charlotte estava atrs dele, carregando um lampio e segurando uma colcha em redor dos ombros, para agasalhar-se.  frente deles, portas j se haviam comeado a 
abrir.
    - Ruark! - soluou Shanna, quase histrica. - Ele est no estbulo!
    - Oh, meu Deus! - Charlotte ps a mo nos lbios, e os olhos negros se arregalaram de pavor.
    Nathanial no teve tempo para fazer comentrios, mas, estando j totalmente desperto, desceu as escadas como se o diabo o estivesse perseguindo. Shanna voou 
atrs dele e mal percebeu que Charlotte jogou um cobertor em suas costas. Correram at os fundos da casa, escancarando portas, e no se detiveram ao atravessar o 
gramado.
    Chamas lambiam as paredes do estbulo como lnguas vorazes, e os trs encontraram as portas fechadas; as maiores obstrudas, e a menor, com pesada estaca impedindo 
a entrada. Os resfolegares e os gritos dos animais presos penetraram a noite, e o estalar das chamas aumentou de intensidade.
    Shanna pegou o brao nu de Nathanial e as compridas unhas lhe enterraram na carne.
    - Ruark! - gritou mais alto do que o estrpito. - Ele veio ver os cavalos!
    Aproximaram-se da portinha, e Nathanial apanhou baldes d'gua do cocho e os atirou nas chamas que ameaavam as soleiras enquanto Shanna lutava contra o peso 
da estaca. Ele a afastou para o lado e, com um nico empurro, fez cair a estaca. Soluando, Shanna agarrou ferozmente a tranca. O metal quente lhe queimou os dedos, 
mas a moa envolveu a mo na colcha e conseguiu levantar a tranca.
    Densas colunas de fogo saram quando a porta foi aberta, sufocando Shanna e forando-a a recuar,  procura de ar. Nathanial retirou-lhe a colcha das costas e 
a mergulhou no cocho; ento, atirando-a na cabea e nos ombros, agachou-se sob as nuvens negras e sufocantes, e entrou no inferno de fogo.
    O grito de terror de tila furou o ar; Shanna comprimiu as mos trmulas nos ouvidos, soluando de medo. Homens corriam por toda a parte. Formaram-se filas para 
passar baldes de gua e jog-los na gigantesca massa de fogo. Um borrifar de fagulhas espalhou-se onde Shanna estava, e ela ficou de respirao paralisada na garganta. 
Um horror nauseante se congelou em seu peito enquanto sua imaginao a apavorava, fazendo com que ela visualizasse Ruark contorcendo-se em agonia. O pnico estava 
quase fazendo-a entrar gritando no celeiro, mas ento ela viu um vulto dirigindo-se com dificuldade a ela, atravs da fumaa. Respirando fundo, Shanna mergulhou 
para frente e se enfiou na fumaa agoniante. Nathanial cambaleou para ela, com Ruark nos ombros, e o cobertor em cima dos dois. Shanna pegou-lhe rapidamente o brao 
e o conduziu para fora, os pulmes quase estourando.
    Eles deixaram a porta livre, e outros homens passaram correndo para salvar os cavalos. Orlan Trahern, num roupo de veludo vinho e Pitney, correndo no gramado, 
com as pontas do camisolo de dormir soltas em cima da cala surgiram. Nathanial caiu de joelhos, sufocado, com falta de ar; Ruark saltou debilmente dos seus ombros, 
emaranhado na colcha molhada. Charlotte foi para o lado do marido, e debruou-se sobre ele, enquanto Shanna freneticamente rasgou o cobertor ensopado de Ruark. Ele 
gemeu ao levantar a cabea para ela:
    - Meu querido, meu querido! - Ela chorou aliviada, quando os olhos dele se abriram. - Voc est bem? Est machucado?
    - Minha cabea. - Ele estremeceu, quando os dedos dela lhe tocaram o crnio. Shanna olhou, atnita: a manga de sua camisola estava empapada de sangue.
    - Voc est sangrando! - arfou.
    Charlotte ajoelhou-se do outro lado de Ruark, e lhe inclinou a cabea. Seus dedos magros repartiram-lhe cuidadosamente os cabelos e suavemente tatearam o caroo 
inchado, provocando uma careta de Ruark.
    - Aqui h um corte - anunciou Charlotte. - Voc machucou a cabea?
    - Um desgraado me atingiu por trs - resmungou Ruark. Depois sentou-se ao lado de Shanna, e com extremo cuidado tocou a nuca.
    - Ele estava no cho ao lado das baias, e as portas do estbulo achavam-se obstrudas pelo lado de fora - disse Nathanial. - Quem provocou o incndio queria 
que ele morresse assado.
    Pitney passou por eles correndo, conduzindo a gua Jezebel, e outros homens apressaram-se a sair do estbulo em fogo, trazendo mais cavalos. Amlia aproximou-se 
de Ruark, o vulto alto e esguio disfarado nas dobras do roupo do marido. Sob a claridade intensa do fogo, seu rosto estava abatido quando ela perguntou, com voz 
tensa:
    - Voc est bem?
    - Estou - assegurou-lhe Ruark, com esforo. Ele se esforou para ficar de p, mas caiu de joelhos e agarrou a cabea como se quisesse coloc-la no lugar. Preocupada, 
Shanna o observava detidamente e, quando Gabrielle a cobriu com uma colcha de retalhos, esticou uma ponta para limpar o rosto sujo de fuligem de Ruark. Vestindo 
apenas um camisolo de dormir, George perguntou:
    - Que diabo aconteceu?
    Um grito enfurecido, no de animal, impediu a resposta, e todos se viraram para o estbulo incandescente. tila veio correndo, corcoveando e lutando contra um 
vulto escuro agarrado a seu flanco. Ruark deu um assobio penetrante; o corcel dirigiu-se para eles, e parou perto de Shanna. O cavalo ficou tremendo e bufando enquanto 
escavava o capim; o vulto que surgiu, todo sujo, era o de Orlan Trahern.
    - Graas a Deus! - ofegou Orlan. - Tive medo de que ele fosse para o mato.
    Ele estava com o roupo solto em uma das mos, uma extremidade do cinto do roupo enrolada no pescoo do cavalo, e a outra firmemente enrolada na outra mo de 
Trahern.
    O velho Trahern estava de fazer pena: o cabelo chamuscado nas pontas se destacava de sua cabea como uma coroa prateada. O rosto estava manchado de fuligem e 
o roupo, salpicado de manchas negras, onde as fascas haviam alcanado. Faltava-lhe um chinelo e seu p e perna estavam sujos de uma coisa marrom, enquanto o outro 
chinelo estava amassado. Shanna arquejou e disse:
    - Papai! Que foi que...
    - O animal estava amarrado na baia - bufou Trahern, agarrado no ombro do animal, a mo ainda presa no cinto. - Quando eu o soltei, ele me pisou o p e no quis 
que eu o conduzisse. - Com muito cuidado, testou o p e rosnou de dor quando ele tocou o cho. - Animal ingrato! - disse Trahern. - Voc me machucou seriamente. 
Devia virar comida de cachorro.
    O cavalo resfolegou e acariciou o flanco de Trahern com a cabea.
    - Ei, que  isso? - Trahern pegou a corda e segurou a cabea do animal. - Ele est sangrando.
    Ruark esqueceu a dor na cabea e ficou de p para examinar o nariz e a cara de tila, onde havia vergastadas sangrentas no focinho de veludo.
    - Ele foi espancado. E o senhor disse que estava amarrado?
    - Sim. - Trahern soltou a mo e a flexionou, como se tivesse dvida de que a pudesse ainda usar. - E estava de cabea baixa, perto das tbuas.
    George se aproximou, espreitou atravs dos culos e pensou em voz alta:
    - D a impresso de que ele foi usado como isca para atrair algum ao estbulo. - Olhou pensativo para Ruark e para Shanna, que se levantou para pegar o brao 
do marido. O fato de que Ruark havia dito que dormiria no estbulo no foi questionado, quando George concluiu: - A cada momento, farejo que essa histria teve algo 
a ver com assassinato. Mas, em nome de Deus, por qu?
    - No sei - resmungou Ruark, virando-se para os outros homens. - Os cavalos esto a salvo?
    - Esto! - respondeu Pitney, mal-humorado. - Mas olhe aqui o que achei. - Exibiu um chicote pesado com sangue reluzindo na superfcie negra e cabelo cinzento 
agarrado no vermelho grudento.
    Os lbios de Ruark se estreitaram, quando ele pensou no ser brutal que seria capaz de espancar to cruelmente um animal.
    - Desgraado! - exclamou, veemente. - Se eu botar as mos no filho da puta que fez isto, vou acabar com ele.
    - Bem, seja o que for que voc fizer a ele, ter de ser com as mos - disse Nathanial, maliciosamente. - Acho que vi suas pistolas e seu mosquete no estbulo 
antes do jantar. Provavelmente esto-se derretendo nesse inferno.
    O estbulo continuava a arder, indiferente aos esforos feitos para que as chamas fossem debeladas. Alguns homens abriram um buraco na parede da parte dos equipamentos 
de montaria, e a maioria dos arreios e das selas foi salva. A madrugada comeou a clarear em cima do morro, e s ento as ltimas e calcinadas estruturas do estbulo 
caram numa pilha.
    Foi um grupo exausto e de rostos pretos que voltou a casa. As mulheres se haviam retirado antes, devido ao frio. Amlia, ainda com o roupo do marido, estava 
esperando os homens em casa e rapidamente serviu-lhes copos de saboroso conhaque. A nica exceo foi uma caneca cheia de cerveja gelada at a borda, dada a Pitney. 
O grupo admitiu que o acontecimento poderia ter sido um desastre total e, fatigados, todos fizeram um brinde. Amlia observou divertida, enquanto provaram a bebida, 
e seu marido ergueu os olhos, curioso.
    - Vocs so realmente umas figuras - disse ela, rindo. George examinou os culos quebrados com um sorriso triste.
    - , somos guerreiros campestres. - Suspirou e riu. - Agora, posso mandar construir o estbulo no morro do carvalho, onde sempre quis.
    - Boa sorte, ento - disse Amlia, suavemente. - Menos mal, exceto pelo p do Sr. Trahern e seus culos quebrados. O que aconteceu?
    - Seu filho menor, madame, me confundiu com o ar. No meio da confuso, tentou correr atravs de mim.
    Seu humor seco provocou risos dos homens cansados e fez Jeremiah corar.
    - Sr. Ruark - disse Amlia, ao sair da sala - o senhor pode usar o quarto antigo de Nathanial. Fica ao lado do de Shanna. Acho que vai saber encontr-lo. - Deu 
um risinho. - Aquela pobre rvore antiga j no deve crescer mais, estando to perto da cozinha...
    Havia atividade frentica na casa, enquanto os criados se apressavam em preparar banhos para os Beauchamps e seus hspedes. A cama de Ralston no havia sido 
usada e ele no era encontrado em lugar algum. Gaylord dormia em paz, e seus roncos podiam ser ouvidos.
    J era tarde quando o resto do pessoal da casa tomou o desjejum. Orlan entrou com dificuldade na sala de jantar, com o p enfaixado. Apesar dos apelos de Shanna, 
Ruark recusou-se a enfaixar a cabea e calmamente sentou-se a seu lado  mesa. Ningum lhe questionou o direito de sentar-se ali e, na ausncia de Gaylord e Ralston, 
a refeio foi calorosa e agradvel. Comentou-se o acontecimento da madrugada, e Shanna ficou surpresa em ver como os Beauchamps riam entre si, como se o prejuzo 
no os houvesse afetado em absoluto. Com entusiasmo, comearam a planejar o novo estbulo, e a tranqilidade com que Ruark ofereceu sugestes intrigou Shanna.
    Gaylord surgiu; os olhos cinza-azulados examinaram o grupo em redor da mesa antes que ele consultasse o relgio, atnito.
    - Bem - disse ele debilmente, guardando o relgio. - Estou perdendo algum feriado local?
    - O senhor dormiu a noite inteira? - perguntou Shanna, obviamente surpresa.
    - Claro que sim - suspirou ele. Li sonetos at tarde, mas da em diante... - Parou e coou o rosto, com uma unha imaculada. - Parece que houve uma perturbao 
qualquer, mas, depois de algum tempo, a casa serenou, e supus que havia sonhado. - Ele se sentou e comeou a encher um prato. Para um homem de muito cio, seu apetite 
era enorme. - Por que pergunta? Perdi alguma coisa?
    - Seu sono  incrivelmente pesado, senhor - comentou Ruark, levemente irnico.
    -  sim - disse Gaylord, servindo-se liberalmente de conservas de fruta numa torrada. - Asseguro-lhe que  uma caracterstica de bero. Uma mente honesta est 
sempre em paz. - Olhou Ruark com expresso invejosa, ao v-lo to perto de Shanna. - Acredito que voc mais uma vez se esqueceu de seu lugar, cativo. No h dvida 
de que essa boa gente  educada demais para lembrar-lhe sua situao.
    Ruark bufou zombeteiro e disse:
    - Mas  evidente que o senhor me lembrar dela.
    Por debaixo da mesa, a mo de Shanna apertou levemente a coxa do marido, avisando-o para precaver-se. Era melhor evitar discusses com o homem que poderia trazer 
Lorde Harry at Ruark. Logo Gaylord iria embora, e a verdade poderia ser revelada ao pai dela. Talvez, ento, eles se dedicassem a limpar o nome de Ruark. Os dedos 
magros e morenos de Ruark apertaram levemente os dela debaixo da toalha, para silenciosamente a acalmarem, e permaneceram em sua mo. George baixou a xcara de ch 
e disse firmemente:
    - O Sr. Ruark  bem-vindo  minha mesa, senhor. Gaylord encolheu os ombros e disse:
    - A casa  sua. Estavam deixando a mesa, quando o cavaleiro pediu ao anfitrio:
    - Ser que o senhor mandaria um criado pegar um cavalo manso para mim l no estbulo? Tenho vontade de conhecer esta terra de que o senhor tanto se gaba e tentar, 
se possvel, encontrar algum mrito nela.
    Ruark, lanando-lhe um olhar cptico, perguntou, com uma ponta de sarcasmo:
    - O senhor  capaz de encontrar o caminho sozinho, ou precisa de um guia?
    Pitney ocultou um sorriso divertido, quando o cavaleiro olhou raivoso para o cativo:
    - De qualquer forma, no preciso de voc para me buscar - disse Gaylord, com escarninho.
    - O estbulo incendiou-se completamente hoje de madrugada - interrompeu Amlia, olhando para os dois homens, preocupada.
    Gaylord levantou as sobrancelhas e disse:
    - O estbulo? E os cavalos?
    - Conseguimos salvar todos - disse Pitney, agressivo. - Parece que algum tocou fogo depois de trancar o Sr. Ruark l dentro. Mas  claro que o senhor estava 
dormindo, e no sabe nada a respeito.
    - Sem dvida, essa  a histria que o cativo contou aps ele se ter descuidado e tocado fogo no estbulo - bufou o cavaleiro. - Astucioso estratagema.
    - Acho difcil ter acontecido isso - interferiu Nathanial - pois as portas estavam trancadas.
    - Talvez o escravo tenha feito inimigos. - Gaylord deu de ombros. - Mas isso no me interessa. S pedi um cavalo, no um relatrio completo das desventuras de 
todos.
    - Um cavalo ser apanhado - disse George, bruscamente.
    Para alvio dos demais, Sir Gaylord conseguiu montar um animal e, com o corpo desconjuntado balanando na sela, galopou e desapareceu de vista. Famlia e hspedes 
reuniram-se na sala de estar, pois se resolveu que o dia seria passado em descanso. A viso de George estava prejudicada pelos culos quebrados, e o p machucado 
de Orlan no lhe permitia muita mobilidade. Ele instalou-se em pesada cadeira, com o p enfaixado em cima de um banquinho. Feito um exame, constatou-se que no havia 
ossos quebrados, mas o p achava-se muito inchado, e incomodava bastante.
    Pouco tempo depois, o som de uma carruagem chegando atraiu a ateno geral. Gabrielle foi  janela e afastou a cortina de seda para poder ver. Por cima de seu 
ombro, Shanna viu uma moa com um beb nos braos descer os degraus de um landau, com a ajuda do cocheiro.Gabrielle soltou a cortina e virou-se para encarar a me, 
olhos arregalados:
    -  Garland! Voc no disse a ela que no viesse aqui?
    Amlia arquejou e largou o trabalho manual. Levantou-se e ficou indecisa sobre o que fazer.
    - Oh, meu Deus! Garland! - exclamou. - Meu Deus! - Virou-se suplicante, para o marido. - George!
    Ruark tambm ficou subitamente perturbado. Sacudindo a cabea como se estivesse sentindo dor, afastou-se do lado de Shanna e foi encostar-se na lareira, cruzando 
os braos no peito e franzindo o cenho em genuno desagrado. Perplexa, Shanna o olhava curiosa.
    A entrada de Garland foi como um redemoinho passando pela porta, uma aragem fria percorrendo a casa. Ela no parou ao entrar na sala: foi direto  me e colocou-lhe 
a criana nos braos. Shanna desviou o olhar de Ruark e viu apenas as costas esbeltas e vestidas de veludo e um chapu de aba larga que ocultava completamente o 
rosto de Garland. Sem olhar para mais ningum, a recm-chegada atravessou, arrogante, a sala e parou em frente a Ruark. Este sorriu tolerante, quando ela ficou na 
ponta dos ps e lhe beijou a boca.
    - Bem-vindo a casa, Ruark - disse ela, com voz quente e meiga.
    Garland virou-se, tirou o chapu e foi direto a Shanna, que estava boquiaberta e contemplava o cabelo negro, os olhos ambarinos, e o sorriso devastador. Shanna 
no teve dvida de que aquela era irm de Ruark. Mas, ento, Garland era irm de Gabrielle e de Nathanial e de Jeremiah! Todos eram irmos de. Ruark Deverell Beauchamp!
    - Claro que voc deve ser Shanna - disse Garland, com um amplo sorriso. - Nathanial no lhe fez justia na descrio.
    - Oh! - Shanna arfou e levantou-se com o choque. Seus olhos voaram at Ruark, que s conseguiu sorrir debilmente e dar de ombros. - Voc! - No disse mais nada, 
e Shanna encarou a moa de novo. - Voc ... Oh!
    Rosto em fogo por ser to tola, Shanna girou o corpo e saiu correndo da sala, subiu a escada e foi para seu quarto. Trancou a porta e deu de cara com a surpresa 
Hergus que arrumava o aposento. Foi como se Shanna estivesse vendo o quarto pela primeira vez: aquele era o quarto de Ruark. A escrivaninha era dele, o livro de 
grego era dele, a cama, o armrio, tudo era dele. Como ele a havia enganado!
    A voz de Orlan Trahern soou alta na sala de estar subitamente silenciosa:
    - Ser que algum me pode explicar o que est havendo?
    Um risinho escapou de Pitney, quando Ruark foi para frente de Trahern e, batendo os calcanhares, fez ligeira mesura:
    - Ruark Beauchamp, s suas ordens, senhor.
    - Ruark Beauchamp! - berrou Orlan.
    Seu cativo no esperou para explicar-se, mas apressou-se a correr atrs de Shanna. Trahern levantou-se e fez meno de segui-lo, mas sentiu dor no p ferido. 
Pegou rapidamente a bengala e foi saltitando at o p da escada, e rosnou para cima:
    - Como ela pode ser viva se voc  Ruark Beauchamp?
    - Ela nunca foi viva - respondeu Ruark, por cima do ombro. - Eu menti.
    - Maldio! Vocs so casados ou no?
    - Somos casados. - Ruark estava no meio da escada.
    - Tem certeza? - berrou Orlan, mais alto.
    - Tenho, senhor!
    Ruark desapareceu no corredor, e Trahern saltitou de volta  sala de visitas, cabea baixa, imerso em pensamentos, cenho franzido. Olhou acusadoramente para 
Pitney, que deu de ombros e acendeu o cachimbo. Olhando em torno, Orlan viu as expresses preocupadas dos Beauchamps, principalmente a de Garland, que no parecia 
segura de que havia feito a coisa correta. A barriga de Trahern comeou a sacudir, um risinho lhe surgiu nos lbios, e logo se transformou em um acesso de riso. 
Alguns sorrisos hesitantes surgiram. Mancando, Orlan foi at George e lhe estendeu a manopla:
    - De uma coisa tenho certeza, senhor: o tdio nunca far parte da minha vida.
    Ruark tentou a maaneta e encontrou o caminho obstrudo.
    - Shanna! - gritou. - Quero explicar.
    - V embora! - guinchou ela. - Voc me fez ficar com cara de idiota na frente de todo o mundo!
    - Shanna! - Voltou a experimentar a maaneta. - Abra!
    - V embora!
    - Shanna!
    A irritao de Ruark aumentou, e ele encostou o ombro na porta, mas lembrou-se de que continuava to slida quanto antes.
    - Deixe-me em paz, seu peralvilho choramingo! - berrou Shanna. - V pregar suas peas em outra idiota qualquer!
    - Droga, Shanna, posso explicar.
    - Droga o qu? Por que sou uma idiota? - rosnou ela. - V embora, seu biltre!
    - Abra a porta!
    - No abro!
    Ruark recuou e chutou a porta com toda a fora. O painel era de carvalho macio, mas a tranca e a ombreira no foram feitas para agentar aquilo. Com um estalar, 
a porta se abriu e um chuveiro de reboco e madeira caiu do lado da parede. L embaixo, Amlia ps a mo, preocupada, no brao do marido, mas ele lhe deu uma pancadinha, 
confiante.
    Ruark entrou, olhando em momentnea surpresa para os destroos que fez; mas, onde esperava ver Shanna, deparou com a horrorizada Hergus. As mos da criada estavam 
nos lbios, e os olhos to arregalados como luas.
    - S... S... Senhor Ruark! - gaguejou, e conseguiu ento falar. - Vou tirar o senhor daqui deste quarto - gaguejou. - No vou permitir que faa suas trapaas 
aqui com essa gente to boa.
    Ruark a ignorou e dirigiu-se a Shanna, que estava de costas. A escocesa, porm, correu e ficou em seu caminho.
    - Saia da minha frente - rosnou Ruark. No estava com disposio para permitir interferncias.
    A criada foi firme:
    - Sr. Ruark, o senhor no vai fazer isso aqui!
    - Mulher, voc est-se interpondo entre mim e minha esposa! - Quase igualou o tom de voz de Trahern e andou para frente, ameaador. -Saia!
    Hergus ficou de queixo cado. Debilmente, afastou-se e deixou o quarto, sacudindo a cabea e resmungando.
    - Shanna! -exclamou Ruark irritado, mas compreendeu a mgoa da moa. - Shanna! - A voz dele foi mais macia, e depois mais macia ainda: - Shanna, eu a amo.
    - Beauchamp! Beauchamp! - A cada palavra, ela batia o p. - Eu devia ter sabido.
    - Tentei contar-lhe ontem  noite, mas voc no me quis ouvir. Shanna o encarou, olhos cheios de lgrimas:
    - Quer dizer que sou Madame Beauchamp, dos Beauchamps da Virgnia. No sou viva, nem nunca fui. Vou ser me de um Beauchamp, e meu pai vai ter tudo o que sempre 
quis.
    - Os desejos de seu pai que se danem! - Ruark a tomou nos braos. - Voc  que vai ter tudo o que sempre quis.
    - Desde o princpio voc me fez de boba - acusou ela, resistindo-lhe ao abrao. Colocou os braos cruzados entre eles, enquanto o olhava firme. - Voc podia 
ter-me contado, e me poupado muita coisa.
    - Lembra-se, meu amor, quando estvamos em Mare's Head e voc me disse que me aceitaria se eu fosse rico e viesse de famlia bem conceituada? - perguntou ele 
baixinho, e continuou, sem esperar resposta: - Eu queria que voc me amasse, Shanna, independente de eu ser um cativo ou um Beauchamp. Se eu lhe tivesse contado, 
nunca teria a certeza.
    - Tudo isto  seu, no ? Este quarto, o vale, a cabana e a cama onde fizemos amor? Os cavalos? At Jezebel, foi presente seu a mim, no?
    - Tudo que tenho, dou de bom grado a voc - murmurou Ruark. As sobrancelhas de Shanna se juntaram, quando um novo pensamento a invadiu:
    - Como  que voc sabe tanto de engenhos?
    As mos dele lhe roaram as costas quando ele tentou de novo traz-la mais para perto, mas a moa ainda o recusou. Ele respondeu baixinho:
    - J constru trs para mim no Rio James e um grande em Well's Landing, acima de Richmond.
    - E navios? - Ela o contemplou desconfiada. - Sempre me intrigou sua maneira de lidar com a escuna. Voc parece ter talento especial para navios e para tudo 
o mais que faz.
    Os grampos se soltaram pela presso dos dedos dele, e as madeixas douradas caram, livres do coque austero.
    - Minha famlia possui seis navios no litoral. - Os olhos de Ruark acariciaram o rosto da moa. - Eu tenho dois, agora trs, com a escuna.
    - Voc  to rico quanto meu pai - gemeu Shanna, irritada.
    - Duvido, mas posso comprar quantos vestidos voc quiser - retrucou ele, rindo.
    Shanna enrubesceu ao se lembrar da discusso sobre vestidos e as vezes em que ela o rejeitou.
    - Esse tempo todo voc riu de mim - resmungou ela, sem jeito. - Deve ter ansiado para pr a mo em parte de sua riqueza, para comprar sua liberdade de Los Camellos.
    - Eu lhe disse certa vez que dinheiro no era problema para mim. Ele foi at onde estava a caixa de msica e, para surpresa de Shanna, abriu uma portinha dissimulada 
na parte traseira, revelando uma cmara. De l, Ruark tirou alguns pedaos de pele de alce e duas pequenas maletas de couro. Um barulhinho soou quando ele as segurou.
    - Tenho isto desde que Nathanial foi a Los Camellos. Ele at me mandou uma caixa para guardar tudo. Aqui h mais do que bastante para me resgatar e pagar minha 
passagem at Virgnia. Se eu no quisesse ter ficado com voc, poderia ter partido. - Voltou a ela, e suas mos lhe afagaram o cabelo e lhe seguraram o rosto de 
forma tal que seus olhos se encontraram. - Eu a amo, Shanna. Quero que partilhe minha vida e o que me pertence. Quero construir uma manso para voc, como seu pai 
fez para sua me, e meus pais fizeram aqui. Quero dar-lhe filhos de cabelos pretos e louros, e v-los crescer rodeados por nosso amor. Tenho terras no Rio James, 
que serviro para alimentar nossos filhos. S espero sua palavra para dizer onde vai ser a casa.
    Shanna fungou:
    - Eu tinha idia de viver numa cabana com voc. - Ruark a abraou forte, e ela murmurou, junto ao peito dele. - Eu gostaria de tirar seu couro, sabe?
    - Meu beb no serve, madame? - perguntou ele, terno.
    - Capito. Pirata. John. Ruark. Deverell. Beauchamp. Como devo cham-lo? - Shanna limpou as lgrimas.
    - Amante! Marido! Pai de seus filhos! Amor de sua vida! Voc me conhecer por qualquer nome.
    - Pai Beauchamp? - Shanna sacudiu a cabea, desaprovando. - Marido Beauchamp? - Franziu o nariz. - Ruark? Amante? - Os braos dela rodearam o pescoo de Ruark, 
e sua boca se levantou para encontrar a dele. O beijo lhes uniu os lbios, em ardente amor.
    Passou-se algum tempo antes que eles se separassem e fossem trazidos mais uma vez  realidade por um pigarrear discreto  porta. Dessa vez ambos se viraram sem 
temer quem fosse, e depararam com o riso de Nathanial:
    - Estou sempre me metendo - disse ele.
    Shanna deu um risinho e se aconchegou nos braos de Ruark:
    - No vou pedir sua discrio, senhor. Conte a quem quiser. Ruark insistiu com o irmo que entrasse e perguntou:
    - Qual  o problema?
    Nathanial coou o rosto, pensativo, e os olhos castanhos se mostraram risonhos:
    - Tive medo de que Shanna pensasse que sou um mentiroso porque no disse que era seu irmo, e quis acertar tudo, agora que o segredo j foi revelado.
    Impulsivamente, Shanna beijou o rosto de Nathanial e falou:
    - Eu o perdoo. Aposto que Ruark o fez jurar segredo.
    - E fez mesmo - respondeu Nathanial. - Quando aportamos em Los Camellos, Ruark me procurou. Eu lhe dei dinheiro para pagar por sua liberdade, mas ele se recusou 
a partir e a revelar tudo. Pensei que ele estivesse maluco ou enfeitiado por uma bruxa. - O comandante riu. - Depois, eu a conheci, e pude entender pelo menos parte 
da lgica de Ruark. Com todo o devido respeito, madame - ele fez ligeira mesura, para desculpar-se - eu j me havia responsabilizado por meus irmos, quando falei 
com voc. No lhe menti.
    - Mas como  que voc foi parar l? - indagou Shanna. - Certamente, no por coincidncia.
    - Quando aportei em Londres, indaguei sobre o paradeiro de Ruark. Soube que ele havia sido acusado de assassinato e condenado  forca. Os registros de Newgate 
revelaram que o corpo dele havia sido entregue ao criado de uma tal de Madame Beauchamp. No cais, informaram-me que essa mesma senhora e sua comitiva haviam partido 
para uma ilha chamada Los Camellos. Fiquei curioso, por isto parei l, ao voltar. Devo tambm contar-lhe uma coisa que talvez a tranqilize. Contratei advogados 
em Londres, e eles me prometeram detalhada investigao sobre a morte da moa, embora at agora eu no tenha recebido nenhuma notcia animadora.
    - Mas certamente essa notcia vir - disse Shanna. - Precisa vir! Ruark no matou a moa. E no queremos passar o resto da vida nos escondendo do mundo. Teremos 
mais filhos depois deste primeiro. Eles vo precisar de um lar e de um nome.
    Ruark chegou mais perto de sua mulher e a abraou:
    - Sim, teremos muitos filhos mais - concordou. - Todos Beauchamps, para que o mundo os conhea.
    - Voc j contou a seu pai sobre o beb? - perguntou Nathanial. Ela se recostou no vulto comprido s suas costas e acariciou as mos magras e morenas em sua 
cintura:
    - J, ontem  noite.
    Nathanial fez um aceno positivo com a cabea, satisfeito:
    - Quer dizer que isso tambm j no  segredo.
    - Perdoe-me, meu amor - disse Ruark. - Dei a notcia  minha famlia antes de voc chegar. Vim na frente para cumpriment-los.
    - E eu que pensei que Gabrielle era esnobe por provoc-lo - disse Shanna, rindo.
    - Todos relutaram em participar da brincadeira, mas a presena de Gaylord os convenceu. No fosse por ele, Mame teria revelado tudo logo - explicou Ruark. - 
Ela no tolera dissimulao.
    - Voc foi terrvel! - disse Shanna, fazendo beicinho, mas seus olhos estavam risonhos quando se viraram de vis para olhar Ruark. - Eu quase fui embora, sabe? 
Estava possessa.
    - Eu teria ido atrs - assegurou Ruark, exibindo os alvos dentes, - Voc  dona do meu corao e do meu beb. No teria fugido.
    - Pois  - disse Nathanial, rindo. - E pode acreditar nisso, Shanna. Ele estava resolvido a conquistar seu amor, e acho que conseguiu.
    - Conseguiu mesmo - respondeu Shanna, radiante.
    - Ento, vou deix-los a ss. -  porta, Nathanial se virou e disse, sorrindo, indicando a porta destruda. - Embora ache que j no seja preciso, com to pouca 
privacidade.
    As famlias, no primeiro andar da casa, agora unidas numa s, cumprimentaram-se e no precisaram esperar muito para que Shanna e Ruark aparecessem. Como Nathanial 
deduziu, quando a porta do quarto de algum est permanentemente escancarada nem mesmo um casal amoroso tem muito que fazer. Ruark foi a Trahern, pegou-lhe a mo 
e nela colocou uma sacola fina e comprida.
    - So cinqenta libras de ouro, senhor - anunciou. - O preo de minha servido. mil e quinhentas libras. - Ruark esperou enquanto Trahern sopesava a sacola, 
com sua mo experiente de comerciante. - Apreciaria a gentileza de o senhor assinar meus papis e declarar que est tudo pago.
    Trahern tirou de dentro do casaco de veludo um pacote, que deu a Ruark sem abrir.
    - Eles esto assinados desde que voc levou minha filha de volta.
    - Sua opinio foi apressada, senhor - sorriu Ruark. - Porque agora j vou lev-la do senhor novamente.
    - Maldio! - exclamou Trahern, fingindo fria. -  injusto eu perder minha filha e meu melhor cativo ao mesmo tempo.
    - O senhor nada perdeu - afirmou Ruark. - Nunca se ver livre de ns. - Ps Shanna suavemente ao lado do pai e contemplou-lhe os olhos sorridentes. - Se Deus 
quiser, vamos colocar uma pilha de pequeninos problemas  sua porta, senhor.
    George suspirou, aliviado, e tirou os culos quebrados:
    - Preveniram-me para no tirar os culos ou o senhor poderia reparar na semelhana entre mim e meu filho, e estou satisfeito que o segredo tenha sido revelado: 
s assim posso voltar a ver o mundo claramente. - Seus olhos ambarinos brilharam quando ele sorriu para Shanna e lhe pegou as mos. - Meu filho soube escolher. Voc 
orgulha nossa famlia, Shanna.
    Garland adiantou-se hesitante, segurando a filha adormecida nos braos:
    - Lamento o distrbio que causei, e espero que me perdoe por haver irrompido daquela forma.
    - Na hora tive vontade de lhe dar umas palmadas - disse Ruark, rindo. - Mas poder divulgar o assunto me aliviou de grande carga, por isso acho que devo agradecer-lhe.
    - Voc  gmea de Gabrielle? - perguntou Shanna, indecisa, e olhou para seu marido e para a cunhada, perguntando-se se ainda haveria surpresas. A semelhana 
entre ambos era espantosa.
    - Evidente que sou - disse Garland, alegre. - Mas Ruark e eu sempre fomos mais parecidos do que os outros. E as pessoas ficam confusas quando descobrem que sou 
gmea de Gabrielle. Ruark e eu nos parecemos com Papai, e os outros, com Mame.
    O beb se agitou nos braos de Garland, e Shanna observou fascinada a criana bocejar e espreguiar os minsculos membros.
    - Ser que posso segur-la? - pediu Shanna, meigamente.
    - Claro. Tome. - Garland sorriu orgulhosa e colocou a filha nos braos de Shanna. Quase temerosa, a moa aceitou a trouxinha, leve como uma pluma e macia como 
seda. O rosto de querubim examinou curioso a viso estranha, e Shanna, que jamais estivera to perto de um beb, ficou igualmente surpresa. Os braos de Ruark rodearam 
Shanna e ele silenciosamente admirou a sobrinha.
    - Ela  to pequenina. - Disse Shanna, atnita.
    - Todos eles so assim no comeo - garantiu Garland. - Voc vai ver.
    Orlan Trahern recostou-se, sorrindo de satisfao. Muitas coisas precisavam ser explicadas ainda, mas ele tinha confiana de que tudo se aclararia na hora certa. 
O que mais importava era que sua filha havia excedido de muito suas expectativas quanto a marido, e, ainda por cima, estava grvida. Ele era um homem feliz, e at 
a dor no p, pouco lhe diminua a felicidade.
    Ento, poucas horas aps a calamidade do estbulo, houve grande felicidade. Ruark pegou a mulher pelo brao e a apresentou ao mundo, desafiando todos a disputar 
sua pretenso ou menoscab-la de alguma forma, embora nenhum dos presentes fosse capaz de faz-lo. Os dois formavam lindo par: ele era bonito e orgulhoso, e ela, 
linda, carinhosa e feliz. As duas famlias contemplavam o casal e no tinham dvida de que a combinao dos dois era ideal.
    Foi um momento feliz para todos. At Hergus, a criada, que h tempos sofria com o peso do segredo, sorria  porta, ao ver Shanna e testemunhar sua alegria. Tambm 
Pitney estava orgulhoso de seu questionvel papel no casamento. Entretanto, ele alimentava atormentadora inquietao, pois nem todas as perguntas haviam sido respondidas 
e faltavam muitas a ser formuladas. Logo, sua inquietao se estendeu aos demais.
    Ralston voltou, e quase imediatamente um ambiente opressivo formou-se em redor do grupo at ento feliz. O homem magro entregou o manto ao mordomo e entrou na 
sala de visitas. Com o cenho franzido e interrogativo, seus olhos percorreram as fisionomias de aparncia normal como se procurasse alguma pista e se concentraram 
em Trahern, com o cabelo chamuscado e o p enfaixado.
    - Eu... - comeou hesitante, olhando para o p de Trahern - quis levar meu cavalo para o estbulo, mas no vi sinal do lugar l da estrada. Trahern riu baixinho 
e disse:
    - Para encontrar o estbulo,  preciso olhar para baixo no cho. - Como Ralston no entendesse, ele explicou: - Virou fumaa na madrugada de ontem, e s restam 
cinzas. - Orlan parou e olhou para seu empregado por demorado momento. - Pensando bem, no vi sinal de voc. Onde esteve?
    - Perdo, senhor - apressou-se Ralston a responder. - Tive notcias de um conhecido que mora em Mill Place, e fui l v-lo. O senhor disse que o estbulo pegou 
fogo?
    - Sim - respondeu Pitney, rabugento. - Pelo visto, voc no tomou conhecimento de nada. - Sua frase ficou no ar, como se fosse uma pergunta.
    - Quando encontrei o homem que fui procurar, j era tarde para voltar, e ele me convidou a passar a noite l - retrucou Ralston, dando de ombros. - No achei 
que fosse fazer diferena. O senhor precisou de mim, Sr. Trahern?
    Trahern eliminou a apreenso do homem:
    - Tudo bem. Eu apenas no sabia que voc tinha amigos entre o pessoal das colnias.
    -  s um amigo da famlia. Um sujeito imprudente, dado a especulaes loucas. No  bem a pessoa indicada para apreciar os melhores requisitos das boas maneiras 
inglesas.
    Os cenhos de Ruark se levantaram cpticos. Bem podia imaginar a alegria de uma noitada com Ralston.
    - O senhor esqueceu seu chicote, Sr. Ralston - disse Pitney, tranqilamente.
    - Esqueci nada! - exclamou Ralston, irritado. - Ontem, eu o pus no cho enquanto meu cavalo estava sendo selado e, quando me aprontei para sair, no consegui 
ach-lo. No tive tempo de perguntar ao cavalario porque estava com pressa, mas fique certo de que vou fazer tudo para que ele mo devolva ou pague pelo roubo.
    A testa de George Beauchamp se franziu ao ouvir a aluso de que seu empregado era responsvel, mas Amlia pousou-lhe a mo no brao e chamou-lhe a ateno com 
um gesto quase imperceptvel de cabea. Trahern impediu Ralston de fazer maiores acusaes:
    - Basta! J houve muita confuso sobre o incndio e aquele srdido animal, que tem a pose de um cavalo de arado e no se importa com o lugar em que pe os cascos. 
- Mexeu no p enfaixado com a extremidade da bengala e estremeceu. - Se eu voltar a tocar naquele jumento vai ser com a ponta pesada de minha bengala.
    - Ora, Papai - censurou Shanna, defendendo tila. -  voz corrente que quem contradana com um cavalo, deve ser um p-de-valsa.
    Os risos que se seguiram foram baixos e logo desapareceram. Ralston no sorriu, mas comparou seu relgio com o da lareira. A conversa ficou arrastada e a sala 
de visitas, por vrios perodos, silenciosa. A presena de Ralston fez com que a alegria rareasse.
    Foi num desses perodos de longo silncio que Trahern ficou inquieto, tamborilando no brao da cadeira. Parou e lentamente levantou a mo para contempl-la. 
O tamborilar continuou, e todos os olhos na sala se concentraram nele. O som se traduziu em cascos que se aproximavam. Charlotte foi  janela quando uma voz autoritria 
gritou uma srie de instrues ininteligveis, e o ribombar dos cascos cessou.
    - Soldados ingleses - informou Charlotte. - Mais ou menos uns doze.
    Na excitao da chegada, s Pitney reparou que Ralston sorria de satisfao e olhava raivosamente e com franca hostilidade para Ruark. Ouviu-se uma batida  
porta, e logo o mordomo fez entrar um oficial ingls na sala de estar. Ruark estava de costas para a lareira, com a mo no arco da construo, mas, quando o homem 
entrou, ele ficou imediatamente de costas para a sala, contemplando as chamas. Dois soldados com mosquetes seguiram o oficial e postaram-se dos lados da porta.
    - Major Edward Crter, do Destacamento de Virgnia do Nono Batalho de Fuzileiros Reais de Sua Majestade - anunciou o oficial.
    - George Beauchamp. - George deu um passo  frente e ofereceu a mo, rapidamente apertada pelo outro: - Dono desta casa e destas terras, por decreto real.
    O Major Crter fez um aceno afirmativo com a cabea, mas permaneceu duro e formal.
    - Estou a servio de Sua Majestade - informou a George. - Respeitosamente solicito que meus homens tenham permisso para dar gua e descanso a seus cavalos. 
Como vamos passar a noite, solicito tambm abrigo para meus homens.
    O Sr. Beauchamp sorriu pesaroso para o homem e disse:
    - Estamos sem estbulo, Major. Mas h celeiros, e tenho certeza de que podemos providenciar alojamentos para seus homens.
    - O que o senhor puder conseguir ser bem-vindo. - O major relaxou um pouco. - No o quero incomodar, de forma alguma. - Pigarreou. Agora, quanto ao que me trouxe 
aqui. Fui informado de que um assassino foragido anda por estas bandas. Segundo uma carta annima que recebi de Richmond, o homem se chama Ruark. John Ruark.
    O silncio desceu como uma mortalha na sala. Uma pena que casse no tapete faria um estrpito. S Ralston no ficou surpreso. Shanna no ousou mexer-se, embora 
seus olhos se concentrassem em Ruark. Com um suspiro resignado, Ruark virou-se da lareira e encarou corajosamente os olhos do major, que ostentava sorriso lacnico.
    - Eu me rendo ao senhor, Major Crter. No tentarei fugir. - Ruark fez um sinal de cabea para os soldados. - No h necessidade de violncia. Os olhos do major 
lentamente percorreram a sala e contemplaram os rostos tensos e expectantes dos presentes:
    - Acho que vou aceitar sua promessa. Evidentemente, sabe que est preso, no ?
    Ruark fez um sinal afirmativo com a cabea, e o oficial mandou que os dois soldados  porta fossem embora. Voltou a olhar Ruark, e um sorriso lhe brincou nos 
lbios:
    - Beauchamp! Eu deveria ter adivinhado. - Sem o saber, o major repetiu as palavras de Shanna, e esfregou o queixo, recordando algo. - Se bem me lembro, o nome 
todo  Ruark Deverell Beauchamp.
    Ralston demonstrou a surpresa que antes no evidenciara. Sua boca se abriu, e ele deu um passo vacilante em direo ao oficial:
    - Que... - Sua lngua parecia presa. - Ele? Beauchamp? - Seu dedo apontou vrias vezes para Ruark. - Ele? Mas...
    Os olhos pretos se fixaram em George e, depois, em Amlia, Gabrielle, Shanna, Jeremiah e Nathanial. Seus olhos demoraram-se mais em Garland, que lhe retribuiu 
o olhar com um sorriso.
    - Oh! - Engoliu em seco. Brincou com a luva da mo esquerda e finalmente a descalou quando foi at a lareira e ficou olhando os carves.
    - Da ltima vez que nos encontramos, o senhor era capito - disse Ruark, apontando para os gales do oficial.
    -  verdade. - O major voltou a esfregar o queixo. - Lembro-me bem, Sr. Beauchamp, e estou satisfeito por haver trazido mais homens desta vez.
    - Lamento o que houve, Major - respondeu Ruark, e pareceu sentir o que dizia. - S posso dizer que fiquei meio zangado por haver sido brutalmente acordado.
    - Meu maior desejo  que eu no esteja presente, quando o senhor estiver todo zangado - retrucou, rindo, o Major Crter. - Peo-lhe, porm, que no se preocupe 
muito com o queixo quebrado. Esses tempos de paz dificultam muito as promoes. Foi o ferimento que ps meu nome em evidncia e me garantiu a promoo e evitou que 
eu fosse excludo do exrcito. Redundou at numa felicidade o queixo quebrado, embora me houvesse causado certa dor. - Examinou a sala. - O senhor parece fazer parte 
da famlia.
    - Ele  meu filho. - A voz de Amlia soou aguda e tensa, e ela deu o brao ao marido. - Tudo isto  um terrvel engano. Tenho certeza de que Ruark no  culpado 
daquela coisa horrenda. E tencionamos fazer tudo para prov-lo.
    - Claro, madame - replicou, gentilmente, o major. - A senhora pode ficar descansada de que uma investigao minuciosa ser feita. Temos muito a examinar no caso. 
- Olhou para George. - Senhor, a jornada desde Williamsburg foi longa, e acho que  quase hora do ch. Vejo que a refeio est sendo servida. Pode oferecer-me uma 
xcara?
    - Minha hospitalidade falhou - respondeu George. - No prefere algo mais forte? Tenho um conhaque excelente.
    - O senhor  excessivamente gentil para com um simples servo da coroa. - O major sorriu quando um copo de conhaque lhe foi entregue e fechou os olhos, quase 
em xtase, quando deu o primeiro gole. - Isto  uma ddiva para um homem cansado como eu. - Deu outro gole e o apreciou tanto quanto ao primeiro. - Meu Deus! - exclamou, 
de repente, o major. - Daqui a pouco esqueo a cabea. - Mexeu no bolso de dentro do casaco e de l tirou um pacote de envelopes. - Por acaso est presente o Comandante 
Nathanial Beauchamp?
    Nathanial se adiantou e identificou-se.
    - Hoje em dia procuram aproveitar ao mximo o tempo de um oficial - disse, pesaroso, o major. - Estes despachos so de Londres para o senhor, enviados pelo agente 
do correio em Williamsburg e trazidos por mim mesmo. Pelo menos um deles tem o lacre real.
    Nathanial apanhou as cartas e foi at a janela, onde a claridade era maior.
    Shanna foi at Ruark e lhe deu o brao, apertando-o. Havendo reparado no movimento gracioso que ela fez para atravessar a sala, o Major Crter os olhou meio 
inseguro. Havia notado aquela beleza logo que entrou, e suspirou desapontado quando Ruark a apresentou:
    - Minha mulher, senhor. Shanna Beauchamp. O major fez uma reverncia e disse:
    - A senhora  linda, madame.  uma luz na escurido. Tenho enorme prazer em conhec-la. - Aprumou-se e a olhou, cauteloso. - Seu nome  Shanna? A senhora ... 
alis... era a Srta. Shanna Trahern?
    - Sou sim - respondeu Shanna, meigamente. - Este  meu pai, Orlan Trahern. - E apontou para o pai, sentado a certa distncia.
    - Lorde Trahern! - O major estava obviamente impressionado e correu para Trahern. - Tenho ouvido falar muito no senhor.
    - Sei! - Trahern recusou-se a apertar a mo estendida. - Aposto que mal, mas meu gnio vai melhorar muito, quando essa tolice a respeito do jovem Ruark se esclarecer. 
Pode informar a seus superiores, major, que vou usar minha influncia e minhas posses nessa causa.
    O major ficou constrangido. Se havia outros dois nomes e duas fortunas que poderiam perturbar a paz da coroa, ele no tinha conhecimento. Nathanial acabou de 
ler perto da janela e se reuniu a eles.
    - Acredito que no seja necessrio gastar nenhum dinheiro por ora. - Esticou um documento de aparncia oficial, cheio de lacres, para o major. - Isto deve ser 
entregue ao oficial da coroa mais prximo, senhor. Quer aceit-lo?
    Com um suspiro relutante, o major pegou a carta da mo de Nathanial. Comeou a l-la, lbios se mexendo junto com os olhos. Fitou Ruark, depositou o copo e leu 
adiante. Comeou a dizer as palavras em voz alta:
    - "... Assim, em razo de novas provas e  luz da petio feita pelo Marqus de Beauchamp, todas as medidas legais no caso de Ruark Deverell Beauchamp devem, 
a partir desta data, ser postas de lado at que investigaes posteriores determinem a verdade deste caso." - O Major Crter baixou o papel e dirigiu-se a todos 
na sala: - O documento leva o lacre do Marqus e da Suprema Corte. - Olhou para Ruark e Shanna, e um sorriso de alvio se espalhou por seu rosto. - Parece que o 
senhor est livre, Sr. Beauchamp.
    Com um grito de alegria, Shanna atirou os braos em redor do pescoo de Ruark e quase o estrangulou, de to animada. Ouviram-se suspiros de alvio na sala.
    - O senhor quer dizer... - a voz estridente de Ralston interrompeu a alegria, e todos se viraram ao mesmo tempo para olh-lo - que um assassino foragido pode 
ser posto em liberdade por um... - foi  frente e agitou o canto do documento antes que o major pudesse impedir que ele o alcanasse - ...por um pedao de papel? 
Acho injusto! Acho realmente uma deciso injusta!
    - Esta carta explica tudo, senhor - argumentou o major. - A mulher tinha marido e saa com outros homens. Havia queixas registradas de homens a quem ela havia 
roubado. Eles reclamaram que, aps estar com ela, no conseguiam lembrar-se de nada e, quando acordavam, estavam a enorme distncia da hospedaria. Ademais, vrios 
cavalheiros na Esccia presenciaram a chegada do Sr. Beauchamp vindo das colnias. Ele no podia ser pai da criana que ela esperava j h algum tempo, e desconfiam 
de que o marido a matou num ataque de cime.
    - Uma moa inglesa foi brutalmente assassinada e estava grvida, e agora seu assassino  posto em liberdade? - exclamou Ralston, que s assimilara o que achava 
interessante para ele mesmo.
    - Sr. Ralston! - berrou Trahern. O Major Crter ps a mo na espada e perguntou:
    - Por acaso desafia uma ordem da Suprema Corte, senhor?
    A desaprovao desses dois homens de autoridade bastou para acalmar o agitado Ralston. Contudo, foi o dio que viu nos olhos de Shanna, que andou na direo 
dele, que o fez recuar.
    - Eu apenas... no! - gaguejou Ralston. - Claro que no! - Engoliu em seco. Seu pomo-de-ado tremia convulsivamente, e ele olhou para a moa que, com raiva incontida, 
quase lhe pisou os dedos magros dos ps.
    - Se seus lbios voltarem a pronunciar o nome de meu marido, eu os arrancarei de seu rosto. - Embora a voz de Shanna fosse apenas um sussurro, Ralston a ouviu 
to bem como se ela houvesse gritado, e fez um aceno afirmativo com a cabea.
    - Sim, sim! Isto , nunca, nunca! - Ralston ficou imvel at Shanna afastar-se. Ele tirou cuidadosamente o p da lareira e limpou as cinzas quentes da sola da 
bota. Seguiu Shanna com o olhar at ela estar a salvo nos braos do marido mais uma vez. O homem comeou a recuperar a pose, quando Pitney lhe bateu no brao:
    - Sr. Ralston, encontrei isto. Creio que  seu. - O grandalho estendeu o chicote que havia mostrado antes a Ruark e observou o outro detidamente:
    - Ah, obrigado. - Ralston ficou aliviado e apanhou o chicote. -  meu mesmo.  muito difcil cavalgar s com um graveto de salgueiro. - Parou e, fazendo uma 
careta de nojo, revirou o objeto na mo. - O que  isto?
    - Sangue - grunhiu Pitney. - E plo de tila. Foi usado para espancar o animal at ele gemer e levar Ruark ao estbulo. Mas  claro que o senhor no sabe nada 
a respeito disso. O senhor esteve desaparecido a noite inteira. Qual  mesmo o nome do seu amigo?
    - Blakely, Jules Blakely - respondeu Ralston, atordoado.
    - Blakely? Sei quem  - disse George, do outro lado da sala. - Ele tem uma cabana logo nos arredores de Mill Place. J o tenho ouvido falar de um parente na 
Inglaterra, mas era, deixe-me ver.. - esfregou o queixo pensativo e olhou para Ralston - era o irmo da mulher dele.
    Ralston no encarou ningum; ficou olhando para o cho. Sua voz estava rouca e, quando ele falou, foi num sussurro.
    - Minha irm, quando eu era um rapazote, foi falsamente acusada de roubo e vendida como escrava. Ela... se casou com o camarada, um sujeito das colnias. - A 
vergonha de ter de divulgar isso pareceu-lhe intolervel.
    O Major Crter estava ao lado de Trahern, anotando tudo que ocorria. De vez em quando apertava os lbios e finalmente ps a mo no bolso do casaco e de l retirou 
um manual grosso, de capa simples. Folheou-o rapidamente e parou para ler, atento, uma pgina. Depois, caminhou de um lado para outro, meditando. Aps dar vrias 
voltas em redor da cadeira de Trahern, ele parou e iniciou um discurso:
    - Tenho sido um oficial de carreira a maior parte de minha vida, exceto por um perodo em Londres. - Fez um aceno de cabea para Ruark e sorriu de leve. - Da, 
estou bem experiente na arte da batalha. Mas, ser um oficial da Coroa em tempos de paz  outro assunto. Contudo, os melhores crebros da Coroa elaboraram um manual 
que deve tomar o lugar da experincia, e sua natureza  tambm sugestiva e no diretiva. - Levantou o livro e o agitou, para que todos o vissem. - Deixa  pessoa 
a opo de o seguir  risca, ou de ignor-lo e se arriscar a uma corte marcial. Aqui diz: quando um oficial encontra, na rea civil, um assunto incomumente confuso 
e ou suspeito, deve investigar e esclarecer os fatos. - Marcou a pgina com o dedo e prosseguiu. - Embora isso possa parecer presunoso, no encontrei palavras melhores 
para descrever esta situao. - Afrontou todos os olhares que atraiu, virou-se e encarou Pitney. - Essa questo do estbulo. O senhor quis dizer que o incndio foi 
proposital?
    - Sem dvida - interrompeu Nathanial, enftico. - A entrada estava obstruda por um tronco, e meu irmo foi atingido na cabea.
    Sob a insistncia do major, contou-se o acontecido, e no final o oficial atirou as mos para o alto, em completa surpresa.
    - Cavalheiros, por favor. Estou tentando compreender a histria, que  muito confusa. Talvez fosse melhor se comessemos do princpio.
    - Virou-se devagar e os examinou a todos, e parou para encarar Ruark de novo. - Sr. Beauchamp. - Sorriu rapidamente e seus olhos se fixaram nos outros dois Beauchamps 
do sexo masculino. - Sr. Ruark Beauchamp - emendou. - Perturbou-me muito ver seu nome nos papis de condenao  forca, mas o senhor ficou a, aparentemente tranqilo, 
como se no se importasse. Como  possvel? Ruark estendeu as mos:
    - S sei que fui tirado de minha cela, colocado em outra com alguns homens, e depois transferido para um barco que partiu para Los Camellos. - Fez um sinal com 
a cabea por cima dos ombros do major. - Talvez o Sr. Ralston possa explicar melhor. Foi ele quem providenciou tudo.
    - O qu? - Trahern aprumou-se na cadeira e virou o corpo para olhar para Ralston. - Voc o comprou em Newgate?
    - Comprar no  bem o termo, Papai - respondeu Shanna, em lugar do homem. - O carcereiro, Sr. Hicks, gostava muito de dinheiro, como posso testemunhar. - Olhou 
detidamente para Ralston e continuou: Quanto o Sr. Hicks cobrou pelo trabalho que teve? Cem, duzentas libras?
    Ralston balbuciou algo e no enfrentou os olhos do major. Depois, olhou para Shanna, como se uma idia lhe tivesse ocorrido:
    - A senhora me tem ameaado e acusado em vrias ocasies, madame, mas como  que a senhora se casou com o tal de Ruark Beauchamp, quando esse mesmo homem estava 
na cela em Newgate?
    Trahern virou-se devagar na cadeira para encarar Shanna, e sua sobrancelha se ergueu:
    -  - concordou com a cabea. - Essa resposta deve ser muito interessante, Shanna.
    Esperou o que ela ia dizer.
    Shanna examinou atentamente o broche que usava, esfregou os ps no tapete, sorriu sem jeito para Ruark, respirou fundo, e enfrentou o olhar do pai:
    - Foi l que fui buscar um nome que lhe agradasse e pudesse preencher as condies de seus desejos. Encontrei um que no poderia ser questionado e cujo portador 
julguei no me fosse importunar por muito tempo. E ele e eu fizemos um trato. - Ela sorriu por cima do ombro para Ruark e lhe estendeu a mo. Ele a pegou e ficou 
a seu lado, e lhe passou um brao protetor pela cintura. Ela voltou a se dirigir ao pai. - A mentira foi amarga, e acabou virando-se contra mim, pois, quando descobri 
que no era viva, no consegui admiti-lo. - Encostou-se confortavelmente em Ruark. - Lamento a farsa, Papai; mas, se eu pudesse ter certeza de que o fim seria o 
mesmo, repetiria tudo de novo.
    Trahern riu alegre e, quando a olhou, disse:
    - Eu me perguntava por quanto tempo voc toleraria aquele ultimato. Durante certo perodo, achei que voc havia cedido, mas agora vejo que tem muito do sangue 
Trahern.
    Shanna olhou, hesitante, o major:
    - Enterraram outro homem no caixo que eu julguei fosse o de Ruark. Talvez um indigente qualquer. Isto  tudo que sei.
    Pitney deu um passo  frente e continuou a narrativa:
    - Recebi o caixo do Sr. Hicks em Newgate. Tinha dentro um velho, fenecido e murcho, que morreu de fome ou doena, no sei. Fosse quem fosse, ele jaz sob uma 
bela sepultura com o nome Ruark gravado. H pouco mais a contar, a no ser que encontrei um homem que afirma ser o marido da moa assassinada em Londres. - Quando 
o major abriu a boca para falar, Pitney levantou a mo para impedi-lo. - Sei que o homem  suspeito. Neste momento ele est em Richmond. Em Londres, o camarada estava 
embriagado, e s me disse que Ruark no podia ter sido o assassino. - Pitney notou o olhar acusador de Shanna e apressou-se a acrescentar: - Quando descobri que 
Ruark havia fugido do carcereiro, no vi razo para aumentar a confuso. S foi em Richmond que o marido da moa disse que logo poderia provar a inocncia de Ruark, 
por isso deixei que fizesse o que pretendia. Podia ter sido um ardil para ele se ver livre. - Pitney deu de ombros. - Confiei no sujeito.
    - Uma moa foi morta na nossa ilha - disse Trahern, pensativo. - E ela desenhou um "R" na areia.
    Pitney virou-se para olhar Ralston e este, sob o peso daquele olhar, aborreceu-se e disse:
    - Est-me acusando? - rosnou ele. - Eu abominava aquela pirralha, mas no tinha razo para mat-la. Ela nada significava para mim.
    Shanna franziu o cenho para ele.
    - Milly estava grvida, e o senhor lhe dava moedas. Ruark e eu o vimos com ela no corredor da manso.
    Ralston fez um gesto casual com a mo e retrucou:
    - Ela ia trazer-me peixe. S isso.
    - Por que o senhor seguia Ruark na ilha? - perguntou Pitney. - Eu o vi fazer isso muitas vezes.
    O queixo do homem magro se contorceu, aborrecido.
    - O senhor gostaria de me acusar de tentar assassin-lo, no? O senhor e ela - fez um gesto para Shanna - tramaram em Londres, s minhas costas, para combinar 
o casamento - disse Ralston, com um sorriso escarninho. - Bem, eu no sabia que ele era casado com ela, quando os vi juntos perto do engenho. O Sr. Ruark foi ousado 
com as mos o bastante para me fazer crer que havia algo entre eles. Como eu era responsvel por ele estar na ilha, sabia que, se ele fosse acusado de abusar da 
filha do Sr. Trahern, haveria perguntas, e eu teria de responder a vrias delas. S soube que os dois eram casados na viagem para c, e logo que desembarcamos mandei 
uma carta s autoridades. Pensei que o Sr. Ruark fosse um assassino, compreende? Foi isso que o Sr. Hicks disse.
    Shanna e Ruark trocaram olhares que comunicavam o fato de que ambos perceberam o significado das palavras de Ralston. Alm de Pitney, s Milly os sabia casados.
    - Sr. Ralston - disse Pitney, agressivo. - O senhor  um homem surpreendentemente inocente.
    - Major! - Ralston chamou a ateno do oficial. - Sou cidado da Inglaterra, tenho direito  proteo da lei. - Irritou-se com a luva de sua mo direita, arrancou-a 
e jogou as duas na mesa. - Se algum me quiser acusar, que o faa num tribunal. S a eu responderei. Mas essa zombaria  insuportvel. Exijo a proteo de um oficial 
do rei.
    Amlia se aproximou de Ruark, quando o homem terminou sua tirada, e seu cotovelo comeou a cutucar-lhe as costelas. Ele a olhou de relance, e ela olhou para 
Ralston. Atnito, Ruark franziu a testa; com um suspiro, Amlia apontou para a mo direita de Ralston. Ruark a olhou e franziu mais uma vez a testa para a me. Amlia 
juntou as sobrancelhas e fez outro gesto. Desta vez, Ruark olhou atentamente para a mo do homem e, de repente, percebeu a razo de sua me insistir tanto.
    - Sr. Ralston - disse Ruark, suavemente. - Onde o senhor conseguiu este anel?
    Ralston levantou a mo, olhou para o anel e respondeu rudemente:
    - Foi pagamento de uma dvida. Por qu?
    - Pertence  minha famlia h geraes - disse Ruark, dando de ombros. - Acredito que me foi roubado.
    - Roubado? Bobagem! Emprestei dinheiro a um sujeito, e ele no tinha como me pagar, por isso me deu o anel.
    Ruark olhou para o major e falou para ele e para os demais:
    - Minha me me deu esse anel para que eu o presenteasse a minha mulher. Eu o usava numa corrente em redor do pescoo, e estava comigo quando fui aos aposentos 
da moa em Londres. Foi na noite em que ela foi assassinada. Quem pegou o anel esteve certamente no quarto dela naquela noite.
    O queixo de Ralston caiu quando ele percebeu toda a implicao das palavras de Ruark. A mo do major pegou sua pistola, e uma expresso medonha estampou-se no 
rosto de Ralston quando ele, mais uma vez, tornou-se o centro das atenes.
    - No! No fui eu! Eu no a matei! - Comeou a suar. - O senhor no me pode imputar isso. Tome seu maldito talism. - Tirou o anel e o atirou para o outro lado 
da sala. Seus olhos ficaram desnorteados e ele repetiu: - Estou-lhes dizendo. no a matei! - Sua voz ficou suplicante quando ele se virou para Ruark: - Como pode 
acusar-me? Nunca fiz nada para prejudic-lo. Meu Deus, camarada! Dei o dinheiro para salv-lo do carcereiro. Isso no vale nada?
    De repente, Ralston lembrou-se das correntes e das ameaas que havia vociferado contra Ruark. No encontraria piedade nele. Encarou Pitney e lhe submeteu sua 
splica:
    - Viajamos juntos. - Entretanto, Ralston lembrou-se do chicote sangrento e sabia que o homem enorme desconfiava dele. No encontraria ajuda a tampouco. Olhou 
firme para Trahern e viu que este o olhava, zangado, e ouviu o que o velho disse.
    - Voc me trazia homens da cadeia e embolsava o saldo?
    Pnico! Medo! O mundo de Ralston desmoronava. Esforou-se por controlar as mos trmulas e os joelhos que batiam. Ruark falou ento calmamente:
    - Quem lhe deu o anel, Sr. Ralston? Sir Gaylord, talvez?
    O homem engasgou e depois riu, com alvio repentino e enorme:
    - Foi isso mesmo. Ele me deu o anel porque eu lhe emprestei dinheiro.
    - E onde foi que Sir Gaylord disse que o havia conseguido? - perguntou Ruark, elevando a voz acima dos murmrios surpresos.
    - Ele disse que de um escocs. Em troca de uma dvida.
    - Jamie  escocs - interrompeu Pitney, franzindo a testa. - Ele poderia ter tirado o anel de Ruark.
    - Onde est Sir Gaylord? - perguntou Ruark, com voz indiferente. - Continua andando a cavalo?
    - Ningum o viu - disse Amlia.
    - Vamos resolver logo esta histria quando ele chegar - afirmou o major.
    - Quanto voc pagou por Ruark? - perguntou Trahern a seu empregado.
    O alvio de Ralston transformou-se de repente em agonia, e ele respondeu, apressado:
    - Duzentas libras.
    - Voc me disse que havia pago mil e quinhentas. S posso deduzir que me roubou anteriormente tambm. - Trahern sopesou a sacola de dinheiro e a atirou de volta 
a Ruark: - Nunca houve um dbito justo de servido do senhor para comigo, e seus servios foram mais do que suficientes para retribuir meu investimento no senhor. 
- Sem se virar, acrescentou: - O dinheiro que o Sr. Ralston tiver de receber de Los Camellos no lhe ser pago, e ficar como compensao do que ele j me deve ter 
roubado. Ralston gaguejou, ofendido:
    - Isso  tudo que tenho no mundo!
    -  melhor voc viver aqui nas colnias por algum tempo - disse Trahern, olhando Ralston friamente. - Pois j no trabalha para mim. - E continuou, quase jovial: 
- Talvez o Sr. Blakely aceite sua servido. Seja l quem for seu prximo patro, advirto-o de que no o roube.
    Os ombros do homem magro penderam de desnimo. Ele havia perdido mais do que ganhara com seus roubos. Foi um golpe cruel e ele no gostaria de precisar viver 
o resto da vida nas colnias. Se Gaylord no lhe pagasse, ele estava realmente em maus lenis. O aposento ficou silencioso quando Ralston se atirou numa cadeira.
    Havendo passado a maior parte da excitao, Shanna sentiu sbito cansao. A madrugada fora longa, devido ao incndio no estbulo. Em seguida, o medo de que os 
soldados ingleses levassem Ruark.  medida que as tenses se aplacavam, percebeu estar  beira da exausto. Falou baixinho de seu estado a Ruark, e ele pediu licena 
para os dois se retirarem. Acompanhou-a na escada e fechou as cortinas no quarto. Ela sufocou um bocejo e caiu, desanimada, na beira da cama. Ele sorriu ao se aproximar 
e lhe dar o ombro para que se apoiasse, e seus olhos foram eloqentes quando ele a olhou.
    - A porta no fecha - lembrou ela, maliciosa, e riu, ao se jogar na cama. - Voc se d conta de que j no precisamos encontrar-nos furtivamente?
    Ruark foi ao armrio e de l tirou uma camisa limpa.
    - Agora que posso reivindicar meu quarto de volta, vou fazer o mesmo com tudo dentro dele. - Olhou, maliciosamente, para ela, que deu um risinho divertido.
    - No com essa porta aberta. Esfrie sua luxria, senhor, at que consertem a porta.
    - Vou mandar providenciar isso com a maior pressa, madame. Shanna observou-o despir o gibo de couro e tirar a camisa pela cabea, e seus olhos transbordavam 
amor.
    - Ainda h uma coisa que me incomoda, Ruark - disse ela, baixinho. - Quem tentou mat-lo?
    - Tenho uma forte desconfiana - disse ele, enquanto tirava a camisa de linho. - E pretendo esclarecer isso rapidamente.
    Enfiando a fralda da camisa na cala, ele foi at a cama. Debruou-se, apoiou os braos dos dois lados da moa, e beijou-a, saboreando-lhe a vida reao.
    - Eu o amo - sussurrou Shanna, passando-lhe os braos pelo pescoo.
    Ruark lhe sorriu e repetiu as mesmas palavras, enquanto a mo deslizava pelo corpo da moa, acariciando-a meigamente. De repente, seus dedos errantes pararam 
logo acima do joelho dela, e ele expressou sua surpresa na testa franzida:
    - A senhora agora tem protuberncias, madame?
    Shanna deu um risinho e levantou as saias para mostrar-lhe o punhal na bainha, enfiado em sua liga:
    - Depois de hoje de manh, conclu que voc precisava de proteo.
    Ruark ficou fascinado ao ver as pernas bem feitas e continuou a acariciar-lhe a pele nua. Os beijos dele ficaram mais ousados, e o sangue lhe ferveu. Arfando, 
Shanna sussurrou, junto aos lbios dele:
    - A porta. Algum nos pode ver.
    - Temos um problema com nossa privacidade - disse Ruark com voz rouca, beijando-lhe a barriga aveludada antes de baixar-lhe as saias. Vou ver o que posso fazer 
para consertar a porta. No v embora.
    - Pode deixar - garantiu ela.
    Ao ouvir o som das passadas dele correndo pelo corredor, Shanna sorriu e se aconchegou contra o travesseiro. Ruark nem ligou para o barulho de seus passos. Passou-se 
algum tempo e suas plpebras fecharam, quando sua felicidade suavemente a conduziu a sono tranqilo.
    Shanna despertou lentamente. Pequeno e furtivo som lhe perturbou o sono, mas no lhe causou apreenso nem medo. Continuou deitada, tomando aos poucos conscincia 
das coisas e vacilando no precipcio do sono. O leve barulho de raspagem voltou. Era o galho do carvalho que roava na vidraa da janela. Shanna virou a cabea no 
travesseiro e,  luz abafada do quarto, distinguiu o vulto de um homem entrando no quarto pela janela.
    - Ruark? - murmurou sonolenta. - Que brincadeira  esta?
    O vulto negro se aprumou e virou-se. Shanna arfou e sentou-se na cama, abafando um grito. O homem dirigiu-se a ela com um sorriso afetado.
    - Gaylord! - Shanna surpreendeu-se, mas deixou de tremer. Evidentemente, aquele almofadinha idiota era inofensivo. Ela perguntou, irritada: - O que o senhor 
quer, entrando furtivamente em meu quarto?
    - Minha cara Shanna. - O cavaleiro riu com desdm. - Estava imitando o que j vi seu galante marido fazer. No sou pelo menos to bonito quanto ele?
    - Certamente que no! - exclamou Shanna, francamente, e sacudiu a cabea de leve. Sua mente continuava adormecida. Mas, ele no estava presente quando Garland 
chegou. Como sabia do casamento? Isso a intrigou e lhe aguou a curiosidade e a desconfiana. - Antes de eu chamar os criados para expuls-lo, pergunto de novo, 
Sir Gaylord: o que pretende ao vir aqui?
    - Tranqilize-se, minha senhora. - Encostou um mosquete de cano longo no espaldar de uma cadeira e sentou-se, pondo as botas lamacentas em outra cadeira. - Estive 
resolvendo uns assuntos particulares e quero apenas ter uma palavra em particular com a senhora.
    Shanna levantou-se e alisou a camisola de veludo e o cabelo emaranhado pelo sono, sentindo que os olhos dele no a largavam. Enfiou os ps nos chinelos e olhou 
para o relgio na lareira. Passava pouco do meio-dia. Afinal de contas, ela dormira apenas alguns momentos, e logo Ruark estaria de volta para consertar a porta.
    - No posso imaginar o assunto que temos em comum, Sir Gaylord - afirmou Shanna arrogantemente, enquanto dobrava a colcha e a punha nos ps da cama. Se aquele 
tedioso imbecil pensava em renovar seus galanteios, ela encerraria logo o assunto. No tencionava ficar ouvindo bobagens daquele homem.
    - Ah, minha adorvel Lady Shanna. - Billingsham recostou-se na cadeira e juntou as pontas dos dedos, formando um campanrio em cima da barriga. - A rainha gelada! 
A intocvel! A mulher perfeita! - O riso tinha um tom maldoso e desagradvel. - Eu no diria to perfeita assim. Minha cara, a senhora praticou um delito e chegou 
a hora de pag-lo.
    Shanna franziu o cenho e perguntou:
    - O que o senhor est dizendo?
    - Falo de seu casamento com John Ruark, evidentemente. A senhora no quer que ningum fique sabendo, quer?
    Ento, ele no sabia que o segredo fora revelado, mas sabia a respeito do casamento. Ela lhe deu corda.
    - Senhor, pretende dinheiro de mim?
    - No, minha senhora - assegurou ele, o olhar seguindo-a com indisfarvel desejo, quando ela se afastou um pouco.
    Gaylord ficou de p e, fingindo andar despreocupadamente, postou-se entre Shanna e a porta. Encarou-a abruptamente e adotou uma pose ridcula, com o joelho dobrado, 
enquanto a olhava de forma ardente.
    - No pretendo nada to sinuoso. - O homem sorriu afetado. - Acontece que preciso de sua ajuda, e a senhora vai ganhar algo em troca. Se convencer seu pai e 
os Beauchamps a investir boa soma no estaleiro de minha famlia, nada direi sobre seu casamento com esse tal de Ruark nem informarei s autoridades que seu marido 
, de fato, um assassino foragido.
    O rosto de Shanna mostrou-se cuidadosamente aptico:
    - Como  que o senhor est a par disso? Ele resfolegou e explicou:
    - Aquele idiota Ralston me contou, a bordo do Hampstead, que havia comprado um assassino na cadeia e que esse homem era John Ruark. - Acompanhei atentamente 
a atuao de meu pai no julgamento de seu marido. S que ele ento se fazia conhecer por Ruark Beauchamp. O que mais me intrigava era como a senhora foi casar-se 
com aquele patife. Julgava que ele havia sido enforcado, e quando a senhora se apresentou como viva dele, surpreendi-me, pois eu pensava que ele era solteiro, segundo 
os documentos em poder de meu pai. Eu no conhecia Ruark Beauchamp, portanto s pude deduzir que John Ruark era a mesma pessoa, quando Ralston me contou o que havia 
feito. A senhora se casou com ele na priso, no foi?
    Shanna assentiu devagar com a cabea:
    - Foi. E que far o senhor, se eu aceder a seu pedido?
    - Ora, viajo logo para Londres, claro! - respondeu, com um gesto brusco. - Para cuidar de meus negcios l.
    - O senhor afirma que volta a Londres, no ? - Uma idia comeou a brotar sutilmente na cabea de Shanna. Ela havia pensado em ridicularizar o homem com a verdade, 
mas resolveu que satisfaria melhor sua prpria curiosidade. Manteve a voz no mesmo tom meio aborrecido, mas fez uma pergunta diferente: - Acaba de me ocorrer, Sir 
Gaylord, que o senhor precisa muito de dinheiro. Vive afirmando ser pobre, mas vive de maneira luxuosa. O senhor era amigo do Sr. Ralston. Talvez tenha pedido emprestadas 
algumas libras a ele.
    - E se pedi, madame? - Ele ficou nervoso, quase zangado. -  da sua conta?
    - Claro que no. - Shanna sorriu para dissipar o temor do outro e continuou, mais calmamente: -  que ele tinha um anel de muito valor, e insistiu que foi pagamento 
de uma dvida. - Ela o instou a responder. - Sabe qual ? Um de camafeu, antigo?
    - Ah, esse! - O cavaleiro mostrou-se aliviado. - A maior parte de minhas jias e dinheiro estava na bagagem enviada para Richmond. Pedi emprestado algum dinheiro 
a ele at chegar ao porto e poder pagar-lhe.
    - E o anel? Como  que o senhor se apossou dele? Ele a olhou de esguelha e respondeu:
    - Dei algumas moedas a um escocs, e como ele no me pagou, fiquei com o anel.
    - Parece que h muitas dvidas no mundo.
    - H mesmo, mas por que esse interesse pelo anel, madame? - A voz dele traiu desconfiana. - O idiota do Ralston havia ficado com a jia e insistira em receb-la 
como pagamento.
    - Quero perguntar mais uma coisa. - Shanna desviou o assunto, para algo menos delicado. - Como  que o senhor soube que John Ruark era meu marido? Obviamente, 
foi o senhor quem contou a Ralston. - Ela inclinou a cabea e pensou em voz alta, ao ver que ele no respondeu: - Muitas pessoas conheciam partes do segredo, mas 
poucas sabiam do casamento entre mim e John Ruark. No consigo deduzir quem...
    Um frio percorreu as veias de Shanna, e ela foi  janela para puxar a pesada cortina para o lado, e piscou quando o Sol invadiu o aposento.
    - S Pitney e Milly sabiam. Como confio em Pitney, s pode ter sido Milly. Pobre Milly, estava grvida... - A voz de Shanna ficou mais lenta, e ela encarou Gaylord: 
- Ruark no podia casar-se com ela, e ela deve ter recorrido a... - Seu queixo caiu, quando percebeu tudo. - O senhor! - disse Shanna, horrorizada. - E Milly! O 
senhor a matou!
    Shanna comeou a perceber o perigo em que estava, quando os olhos de Gaylord se estreitaram e seu rosto ficou srio. Ela entendeu que precisava fugir e correu 
at a porta. Gaylord a alcanou facilmente e os dedos finos e ossudos a agarraram pelo brao. Com um tom rspido de voz, atirou-a para trs, e ela se estatelou na 
cama. O vulto alto elevou-se sobre ela e sobressaiu, agourento, como se fosse jogar em cima dela. Mentalmente, a moa gritou para que Ruark voltasse logo.
    - Sim, Milly! - debochou o cavaleiro. - E no pense que est livre de igual destino, portanto, boquinha fechada.
    Tirou de sob o casaco pesado chicote e bateu sugestivamente com a extremidade na palma da mo. Shanna recordou-se das fundas marcas de chicotadas no corpo de 
Milly e do nariz de tila, e no teve a menor vontade de experimentar o mesmo. Obediente, ficou quieta.
    Gaylord comeou a andar de um lado para outro, inquieto, sem deixar caminho livre para Shanna chegar  porta, e se mantinha a um ou dois passos dela. Vociferava, 
enquanto caminhava:
    - Aquela cadela ordinria, filha de um pescador! Ha! Ela engravidou e achou que eu seria o otrio que a livraria da vergonha. - Girou nos calcanhares e agitou 
o chicote de montaria. - Mas mudou de idia. Mudou-se! Ela gemeu, suplicou piedade, e jurou que no falaria nada, mas achei melhor me assegurar disso.
    Shanna ficou nauseada com a viso de Milly tentando dissuadir aquele homem de mat-la, suplicando pela vida, e sendo espancada cruelmente. Sentou-se  beira 
da cama e tentou aplacar o pavor que a foi dominando. O homem era louco. Matava por capricho. Sem dvida, havia igualmente assassinado a mulher em Londres, quando 
ela se tornou um estorvo. Shanna pensou ento que, se ele se convencesse de que ela era uma ameaa... No se podia permitir ficar pensando nisso. Precisava dizer 
alguma coisa para distrair Gaylord.
    - Meu pai vai... - comeou hesitante.
    - Seu pai! - As narinas de Gaylord alargaram-se e ele a olhou furioso; seu rosto tornou-se uma mscara contorcida de dio. - Lorde Trahern - arremedou, zangado. 
- Um plebeu! Filho de um ladro! Como odiei precisar suplicar-lhe dinheiro! A ele! Um comerciante que rouba os nobres da riqueza que por direito lhes pertence; apossando-se 
de suas casas e terras porque eles j no podiam cumprir-lhe as exigncias absurdas. Lordes e outros nobres de valor, reduzidos a se arrastar aos ps dele por uns 
trocados! Homens valorosos que poderiam modificar a Inglaterra, indo implorar dinheiro a um mero comerciante.
    A ira de Shanna ergueu-se em defesa do pai. Ela no permitiria que um criminoso o caluniasse:
    - Meu pai nunca roubou ningum! Foi a prpria falta de bom senso das pessoas que as desgraou.
    - Meu tio no diria o mesmo. - Gaylord ofendeu-se e assumiu atitude arrogante. - A corte lhe ordenou que entregasse a propriedade da famlia em pagamento de 
suas dvidas. Acho que hoje seu pai chama a essa propriedade de "casa de campo". Mas voc o defende, Shanna, esquecendo-se de suas prprias atribulaes. Voc sabe 
demais, no posso permitir que ande livre por a.
    Parou, pensativo, por um instante e coou o queixo com a ponta do chicote:
    - O que devo fazer? Preciso do dinheiro de seu pai, mas no posso deixar que voc espalhe o que sabe para todo mundo. - Aproximou-se dela. - Por que demonstrou 
tanta curiosidade em relao ao anel? Por que ele foi to rapidamente notado? - Ps o p na cama e apoiou o cotovelo no joelho, debruando-se para olhar Shanna de 
perto. A moa deu de ombros e respondeu o mais inocentemente possvel:
    -  que o anel parecia uma coisa mais cara do que as posses de Ralston poderiam permitir.
    - Madame, tenho pouco tempo para brincadeirinhas e menos pacincia ainda - retrucou Gaylord, respirando fundo.
    Quando Shanna abriu a boca para responder, a mo dele vibrou uma forte pancada. A violncia do golpe a arremessou mais uma vez na cama, e a cabea da moa girou, 
quando ela se esforou para apoiar-se num cotovelo e tocou a face entorpecida.
    - Na prxima vez em que eu lhe fizer uma pergunta, tente responder melhor, minha cara. - O tom de voz dele foi rspido. - Diga-me, ento: por que o anel?
    - Pertenceu a Ruark - cuspiu Shanna, entre lbios irados.
    - Assim  muito melhor, minha cara. - Ele a examinou, atentamente. - Quer dizer que o seu Ruark j desconfia que eu seja o assassino da rameira em Londres? Ele 
no acredita que eu peguei o anel com o escocs? - Gaylord levantou a mo. - No precisa mentir de novo. Voc disse que eu matei Milly. E  claro que ele falou com 
seu pai. - Fez uma inclinao afirmativa com a cabea e os olhos de Shanna reluziram de desprezo. Ah, entendo. Quer dizer que acabou minha farsa. - Ele se aprumou 
longe dela. - Muito bem! J estava mesmo cansado de bancar o janota imbecil para diverti-la.
    Shanna percebeu que seu rosto a traiu de novo.
    - O que , surpresa, minha cara? - disse ele, arrogante, sem o sotaque emproado. - Eu sabia que as suas mentes plebias se divertiriam com um idiota desajeitado. 
Mesmo assim, estou magoado, madame, que logo a senhora tenha acreditado nisso to depressa.
    Shanna expressou no olhar furioso todo o dio que sentia por aquele homem.
    - Percebo, minha cara Shanna - Gaylord riu e alisou a gola do casaco - que voc foi incapaz de demonstrar piedade por um conturbado cavaleiro do reino, mas reserva 
sua adorao para um patife das colnias. Eu me pergunto se ele enfrentou realmente os piratas com a coragem que me disseram e se voc sobreviveu  histria to 
pura e intocada como me quiseram fazer crer.
    Gaylord recomeou a andar, cabea baixa, meditando, mas os olhos astutos sempre pousados em Shanna.
    - Piratas! - Riu alto. Parou e agitou o chicote para a moa. - Com os diabos,  isto mesmo! Um resgate!
    Voltou  cadeira e rapidamente trouxe o mosquete. Os olhos de Shanna se arregalaram. Ela reconheceu a arma de Ruark, que ele havia deixado no estbulo antes 
do incndio.
    - Isso mesmo, minha senhora - disse Gaylord, com sorriso malvolo, vendo que ela fixava a espingarda. -  de seu marido. Retirei as armas dele do estbulo depois 
que o atingi. Devia ter terminado com ele l mesmo, antes de tocar fogo no lugar. Eu o atra  noite, quando a casa estava silenciosa. Reconheo, sem modstia, que 
fui inteligente ao usar tila para isso. Se eu tivesse planejado melhor as outras duas tentativas, ele estaria morto antes, mas passava pelos locais e notei que 
as oportunidades eram ideais. Mas eu no sabia que ele era seu marido ento. Estava no paiol com Milly quando vocs dois se divertiam l embaixo. Percebi ento que 
devia liquid-lo, porque voc obviamente estava apaixonada pelo biltre. Sua paixonite me estragou os planos de casamento e eu realmente precisava do dinheiro de 
seu pai, sabe? - Riu. - No poderia ter evitado meus credores at aqui, no fosse pelo tesouro que encontrei no quarto daquela mulher em Londres. Ela tentou tirar-me 
umas moedas, mas eu a sosseguei. Ela mereceu morrer.
    Gaylord tirou de repente comprido cachecol do armrio e foi at Shanna, para pux-la brutalmente pelos ps. Em seguida, seus dedos penetraram com fora no brao 
da moa.
    - Nem um pio, minha cara - advertiu, falando perto do ouvido dela. - Sorte sua que eu tenha encontrado como utiliz-la. - Amarrou os braos da moa s costas, 
enquanto olhava com luxria para o corpete justo. - Seja dcil, minha cara.
    Acariciou-lhe ligeiramente o busto e seu corpo inteiro. Amarrada ou no, Shanna no pde tolerar os maus-tratos. Abriu a boca para gritar furiosa, mas ele a 
amordaou com um leno. Tentou cuspir o tecido de linho, porm ele amarrou-lhe outro cachecol na boca, e prendeu-o com fora. Sir Gaylord fuou na mala de Shanna 
at encontrar um manto pesado e o ps nos ombros dela. O cavaleiro passou ento a tira do rifle pelo brao esquerdo e tirou uma pistola do cinto com a outra mo. 
Segurou a pistola sob o manto e torceu a mo no cabelo de Shanna, at ela se contorcer de dor.
    - Isto  para que voc no tenha mpetos de me abandonar, minha cara - disse ele, rindo.
    Sir Gaylord parou, e seus olhos luziram ao percorrer o quarto.
    - Mas como  que eles vo ficar sabendo? - disse baixinho. A pequena escrivaninha ficava no canto do quarto, e foi onde o olhar dele se deteve. - Claro! Vamos 
escrever um bilhete. Venha, minha cara.
    Arrastou-a at o mvel, ps a pistola em cima da escrivaninha e abriu uma gaveta. Tirou, de modo abrupto, uma folha de papel e mergulhou a pena no tinteiro. 
Escreveu ento, ousadamente:
    "Exijo, separadamente, cinqenta mil libras dos Beauchamps e de Lorde Trahern. instrues sero dadas depois."
    Como assinatura ele rabiscou um "B" enfeitado, e terminou a letra com uma espiral. Com um riso debochado, ps o bilhete na cama, recuperou a pistola e levou 
Shanna para o corredor.
    Estavam chegando  escada, quando de repente ele empurrou Shanna contra a parede e comprimiu-lhe a pistola na garganta, para que ela ficasse quieta. Espreitou 
para baixo, quando pde observar a porta sendo empurrada por um ruivo magro e vigoroso, que ficou de lado para deixar Ruark entrar. As mos deste estavam cheias 
de ferramentas e pedaos de madeira. O homem seguiu Ruark e, aps fechar a porta, ajudou-o a depositar sua carga num canto.
    - Meu nome  Jamie Conners. Estou procurando por um tal de Sr. Pitney.
    Shanna viu que Gaylord enrijeceu, quando o estranho se apresentou.
    - O Sr. Pitney est aqui mesmo. - Ruark conduziu o homem  sala de estar.
    Quando o corredor ficou vazio, Billingsham levou Shanna at o p da escada, forando-a a andar  sua frente como se para escud-lo, enquanto ele se esgueirava 
junto  parede, agitando a pistola como se um bando de inimigos o ameaasse. Ele a arrastou por algum tempo e depois a fez parar. Podiam-se ouvir vozes vindo da 
sala de estar. Shanna pensou em se soltar e atirar-se para longe de seu captor, mas nessa hora Gaylord pegou-lhe o cabelo e o puxou dolorosamente, como se para preveni-la 
de que ficasse em silncio.
    - No, eu no tinha motivo pra matar minha garota, mas sei quem acabou com ela - dizia o escocs. - No foi esse a, no. O cara que eu procuro era mais alto 
e mais forte.
    Ruark observou o homem flexionar os braos para indicar mais fora.
    - Mas esse desgraado est aqui. Desculpe falar assim, donas. - O homem tirou o chapu e o espremeu nas mos. - Ele chegou quando eu no estava no cais e pegou 
a bagagem que eu tinha seguido desde Londres. L no porto me disseram que ele falou que vinha para a casa dos Beauchamps.
    - O homenzinho analisou as expresses que o cercavam.
    - No h mais nenhum homem aqui? Assim desta altura? - Ergueu a mo acima da cabea. - Mais ou menos da altura do Sr. Pitney. Ele era metido a elegante, usava 
roupa de lorde e um chapu grande, com pluma. Era um cavaleiro do reino.
    - Sir Gaylord Billingsham! - exclamou Ruark.
    - Isso mesmo! - O escocs riu alto. - Sir Gaylord Billingsham. Shanna contorceu-se sob a mo de Gaylord, mas ele a olhou ameaadoramente e levantou a pistola, 
fazendo meno de bater-lhe. Empurrando-a a frente, rodeou a escada e dirigiu-se para os fundos da casa. Os criados estavam reunidos na cozinha para preparar o almoo, 
e foi fcil para Gaylord empurrar Shanna pela porta dos fundos sem ser notado. Num instante, os dois chegaram  proteo dos arbustos que havia prximo do estbulo. 
Ele a fez passar com facilidade pela cerca e logo a conduzia para o campo. Quando entraram no bosque, Shanna estava sem ar, devido  mordaa. L esperavam Jezebel 
e um cavalo selado dos Beauchamps. A gua usava apenas um cobertor amarrado com uma corda. Nos flancos, duas sacolas com suprimentos. Sem parar, Gaylord ps Shanna 
em cima do animal e amarrou-lhe os ps com um pedao de couro cru, por baixo da barriga do cavalo. Recuou para examinar o que acabara de fazer e riu gelidamente:
    - No est muito confortvel, mas serve. Como pode ver, ia usar a gua como um burro de carga, mas resolvi que, em vez disso, ela vai  lev-la, minha cara.
    Pegou as mos de Shanna, e a cutucou com um cano da arma.
    -  frente, minha senhora, se no se importa. - Amarrou-lhe as mos e, com um riso amargo, ps a crina da gua dentro dos dedos de Shanna e disse: - Agarre-se 
bem, minha cara. Eu ficaria tristssimo se a jovem casse, e voc, nem  preciso dizer.
    Deu um risinho abafado e subiu na outra montaria, revelando uma tcnica de equitao no exibida antes. A gua no tinha freios, apenas uma corda, e Gaylord 
fez um n com a extremidade solta da corda e o amarrou em seu brao e esporeou o animal. Indefesa, Shanna olhou por cima do ombro, e seu pavor superou a coragem 
que tentava demonstrar. No havia sinal de alarme vindo da manso, e suas esperanas de se livrar daquele louco se esvaam rapidamente. Estivesse ele com vontade 
de mat-la ou estupr-la, ele o conseguiria, como acontecera com Milly e a outra moa.
    Havia pouco que ela pudesse fazer para retardar a fuga, mas fosse l o que fosse, ela se agarraria  oportunidade.
    Atravessaram o pasto velozmente e se dirigiram para o carvalho alto no outro extremo. Shanna conduzia o cavalo mais ou menos em ziguezague, tentando dificultar 
a fuga ao mximo. O cavalo resfolegava e corcoveava ao se ver malconduzido e, se no conseguiu postergar a fuga, Shanna teve pelo menos a satisfao de ver Gaylord 
se esforando para galopar.
    Entraram na floresta, e Shanna conhecia a trilha, pois levava  cabana de Ruark no vale. Evidentemente, Sir Gaylord desconhecia que o lugar que ele julgava ser 
o mais seguro, fosse exatamente o contrrio.
    Estavam no bosque, comeando a subida, quando Gaylord diminuiu a marcha e, aproximando-se dela, retirou-lhe a mordaa. Shanna cuspiu para livrar-se do gosto 
de linho suado.
    - Pode gritar, minha cara. Alto e pelo tempo que quiser. - Gaylord deu uma risadinha abafada. - No existe ningum para ouvi-la. Ademais, no quero ocultar sua 
beleza mais do que o necessrio.
    - Divirta-se, prezado lorde. - Shanna sorriu-lhe calma e quase gentilmente. - Seu fim se aproxima rapidamente. Estou grvida de Ruark, e ele vai persegui-lo 
sem cessar. J matou homens que, como o senhor, tentaram roubar-me dele.
    Gaylord a olhou surpreso e, em seguida, riu e resfolegou:
    - Quer dizer que a senhora est grvida dele, no ? Acha que isso faz alguma diferena para mim? Acredite no que quiser, madame, mas tenha cuidado. J sofri 
bastante suas agulhadas arrogantes. Passe a respeitar o meu temperamento, e talvez a senhora consiga sair deste episdio sem sofrer desnecessariamente. No h ningum 
atrs de ns. No podem saber o caminho que tomamos.
    - Ruark vir at aqui. - Shanna conseguiu manter o sorriso confiante.
    - Ruark! - bufou Gaylord.
    Ele impeliu seu cavalo  frente e tentou arrastar a gua a ritmo mais acelerado. Shanna esforou-se para, com os calcanhares, forar sua montaria a parar. O 
trajeto na trilha foi essa luta o tempo inteiro, e serviu para distrair Shanna de seu medo e das idias pessimistas.
    O major ficou de p e perguntou, quase irritado:
    - Como o senhor sabe que foi Sir Gaylord quem matou sua mulher? Jamie Conners ficou nervoso de repente e gaguejou:
    - Bem, eu... - O escocs fechou a boca e no disse mais nada; ficou revirando o chapu cada vez que o major o pressionava por uma resposta. O tempo todo Jamie 
lanava olhares apreensivos para Ruark, at que este percebeu ser a razo pela qual o homem no falava.
    - Pode falar, camarada - instou Ruark. - J esperamos muito. No vou fazer nenhuma acusao contra o senhor, e acho que o major concordar que o que o senhor 
tem a dizer vai deslindar um crime maior, que tenho a certeza tambm o senhor gostaria de ver solucionado.
    - Bem - comeou Jamie devagar. - A mulher e eu tnhamos um probleminha, sabe? Ela se oferecia prs homens e os levava para o quarto e misturava um lquido na 
bebida deles. Enquanto eles dormiam, a gente... bem, a gente se servia. A gente tirava um dinheirinho, uma besteirinha, essas coisa, no ? - Em seguida, apressou-se 
a afirmar: - A gente nunca machucou ningum. A gente...
    - Como  que o senhor sabe que foi Gaylord - insistiu, rispidamente, o major.
    - Vou chegar l. Sabe, a gente pegou esse sujeito a - fez um sinal para Ruark - e ele desmaiou na cama dela. Peguei o dinheiro dele e ela pegou umas coisinhas 
para botar no cofre dela. A gente estava economizando pra voltar  Esccia, e o dinheiro j estava quase dando. Agora, foi tudo embora. No chegava ele espanc-la 
at a morte, ele tambm levou nossas economias de muito tempo. - O escocs era incrivelmente ingnuo, quanto  noo de propriedade.
    - Lembra-se disto? - indagou Ruark, exibindo-lhe o anel. Jamie olhou firme para a jia e acabou respondendo, relutante:
    - Sim, ela o roubou do senhor. Estava numa corrente em redor do seu pescoo. E ela achou que era bonitinho. Ela no tinha nada parecido. Era uma boa moa. Era 
forte e fiel. - Fungou alto e esfregou o nariz com o dorso na mo. - Sinto um bocado de falta dela. Nunca mais encontrei uma igual.
    - Vamos falar de Sir Gaylord - insistiu o major, agressivo.
    -J falo nele! - exclamou Jamie, irritado. - J vou! Tenha um pouco de pacincia. Bem, esse cara a estava na cama, a gente roubou as coisa dele e guardou. Ento, 
bateram na porta. Eu no podia ser visto, porque ela vinha pressionando uns homens ricos para conseguir dinheiro, e dizia que o beb era de um deles, e ameaava 
ir falar com suas famlias. Sir Gaylord era um deles. Ficou danado quando minha mulher disse que ia contar ao pai dele, aquele lorde bacana. Bem, Sir Gaylord  que 
estava batendo na porta, dizendo que queria falar com ela. Desci pela calha e me esgueirei pela frente pra tomar umas cervejas no bar, enquanto esperava. Passado 
algum tempo, ele saiu, puxando o chapu na cara, para ningum o reconhecer. Ento, voltei ao quarto e l estava ela, sangrando e morta, e o Sr. Ruark se achava l, 
ainda duro - na cama. Ele no havia mexido um msculo desde que eu tinha ido embora, e ela havia jogado um cobertor em cima dele, e Sir Gaylord no sabia que ele 
estava l. Mas o tal de cavaleiro, tinha encontrado o cofre. Acho que ela no o tinha guardado. L dentro havia uma pequena fortuna, e s fiquei com o dinheiro do 
Sr. Ruark.
    Este riu, mas sem alegria:
    - Sim, e na minha bolsa tambm havia uma pequena fortuna. - O homem inclinou a cabea,  guisa de desculpa:
    - O dinheiro eu gastei seguindo o danado do cavaleiro, ou, pelo menos, ficando de olho na bagagem dele e naquela fragata que ele tomou quando saiu de Londres.
    George pegou o brao do major e interrompeu:
    - Major Crter, j ouvi o suficiente. Peo-lhe que coloque alguns homens em redor da casa. Sir Gaylord certamente voltar. Se no voltar, podemos comear a procur-lo.
    Ruark foi at a porta e disse:
    - Se me do licena, vou fazer uns pequenos consertos l em cima.
    - Pegou as ferramentas e a madeira. O risinho de Nathanial o acompanhou quando ele subiu a escada. Ruark entrou no quarto, tomando cuidado para no tocar na 
porta enviesada, para no fazer barulho. Ps as ferramentas na mesa e relanceou o olhar em volta da cama.
    Vazia?
    Olhou rapidamente pelo quarto e concentrou-se na cama. Havia reparado na escrivaninha aberta e viu o bilhete. Aproximou-se, e logo seu grito de raiva fez a casa 
tremer. Saltou correndo a escada, descendo trs degraus de cada vez, e arremessou-se sala de estar adentro, onde atirou o bilhete amarrotado no colo de Trahern.
    - Ele a levou! - disse sufocado, tremendo de raiva. - O desgraado pegou Shanna!
    Foi a voz de Amlia, firme e autoritria, que se fez ouvir:
    - Ruark, controle-se. Do jeito que voc est, no vai ser til a Shanna. Ruark sacudiu a cabea como se para clarear a mente e percebeu que foi Nathanial que 
lhe segurou o brao e o pai quem lhe tirou das mos, agora imveis, o rifle que ele impensadamente havia apanhado. Voltou  realidade, e embora o pice de sua ira 
se acalmasse, sentia ainda um dio glido nas entranhas.
    Pitney observava Ruark e este lhe lembrou um animal vingativo. Dessa vez, ficou profundamente aliviado porque a fria selvagem no era contra ele, pois j no 
havia correntes que pudessem refrear Ruark. O imbecil que havia aguado a ira daquela ave de rapina se arrependeria para sempre.
    Trahern franziu o cenho ao ler o bilhete. A inicial garatujada ao p da nota lhe invadiu a mente mesclada a uma variedade de emoes. O total do pedido apenas 
arranharia uma frao de sua imensa fortuna; num cofre a bordo do Hampstead havia dinheiro suficiente para o resgate. Era, porm, a raiva que o magoava mais. Apesar 
de sua habilidade em julgar os homens, havia permitido que aquela serpente se aninhasse em sua prpria casa.
    Ralston continuava sentado debilmente, sem interferir. Nada sabia dos instintos brutais de Gaylord e apenas havia esperado receber parte do dote.
    George andava para c e para l, querendo dedicar-se a alguma atividade, mas sem saber a qu. Nathanial ficou ao lado das mulheres, que silenciosamente torciam 
as mos, temendo por Shanna. Jeremiah estava prximo e agarrava o rifle com determinao. Fosse o que fosse que acontecesse, ele participaria. No o deixariam de 
fora, sob o pretexto de que era criana.
    Pitney levantou-se e torceu convulsivamente as mos ao ler o bilhete, por cima do ombro de Trahern. Sua voz foi a primeira a romper o tenso silncio.
    - J vi essa inicial antes.
    - Claro que j - retrucou Trahern, com inusitado rancor. - Est marcada em todos os lenos dele, nas camisas e em todos os lugares onde ele conseguiu colocar 
essa inicial.  um "B" de "bastardo".
    - No, no! - exclamou Pitney. - Eu me refiro a outra coisa. Uma coisa no to...  isso mesmo! O "R" de Milly! No era "R". A menina no sabia ler nem escrever, 
e a nica pista que pde dar foi o que viu: um "B", com um floreio na ponta, indicando Billingsham.
    Trahern levantou o papel e o agitou para o major:
    - Foi aquele seu cavaleiro que matou Milly!
    - Com todo respeito, senhor - replicou o major, calmamente. - Ele no  meu cavaleiro.
    - Ouvi o caso contado por um jovem tenente no bar em Los Camellos - bufou Pitney. - Parece que um cavalo pisou no p de Sir Gaylord, e ele caiu contra um marechal 
quando um morteiro explodiu perto. O marechal achou que ele lhe salvou a vida e elogiou o bravo feito de tal maneira que conseguiu que Gaylord fosse agraciado com 
o ttulo de cavaleiro.
    O major levantou as sobrancelhas e tentou justificar o fato:
    - Essas coisas acontecem na guerra.
    - Vocs vo ver! Vocs vo ver! - esbravejou o escocs, quase fora de si. - Ele vai fazer com sua mocinha o que fez  minha mulher, com aquele chicote sangrento 
e o desgraado punho forte que ele tem!
    O escocs sentiu estranho calafrio lhe subir pelas costas. Levantou os olhos, encarou Ruark e estremeceu. O rosto do outro estava inexpressivo e os olhos frios 
brilhavam com uma luz que parecia vir l de dentro deles. No disse palavra, mas havia morte nele. Certa vez o escocs ouviu uma histria de um lagarto lendrio 
que olhava nos olhos da pessoa e a matava. Desviou rpida e nervosamente o olhar porque aquela mesma sensao glida lhe havia sido transmitida pelo outro homem, 
o mesmo que havia sido enforcado e, no obstante, l estava.. Jamie estremeceu de novo e reconsiderou ardentemente sua crena religiosa.
    De repente, George parou de andar e se dirigiu a eles:
    - Se um homem precisa ir longe com um prisioneiro, ele tem de ter cavalos, e os nossos esto no celeiro.
    Pegou seu rifle, e Pitney tambm, mas, enquanto os outros homens comeavam a pensar em agir, a porta da frente j fora fechada por Ruark. Todos pegaram armas 
e correram atrs dele, deixando as mulheres sozinhas para se consolar, Ralston de p, indeciso, e Trahern, fumegando na cadeira. Finalmente, ele se levantou e se 
apoiou na bengala.
    - Se pensam - disse, irritado - que vou ficar aqui sentado junto das senhoras, vocs esto malucos! - Deu um passo com a bengala, depois outro, e ento, jogando 
a bengala no cho, seguiu atrs dos homens, ignorando o p com ataduras.
    George Beauchamp chegou ao celeiro a tempo de ouvir o filho interrogar agressivamente o sargento:
    - Os cavalos, homem! Quem levou os cavalos hoje?
    - Somente Sir Gaylord, senhor - respondeu o sargento, atnito. Ele chegou pouco antes do meio-dia e mandou que selassem um cavalo. Tinha estado fora a manh 
inteira e queria um cavalo descansado. Eu mesmo selei o cavalo. Levou tambm aquela gua com cicatrizes nas patas. Disse que talvez precisasse carregar umas coisas. 
- O sargento parou e acrescentou,  guisa de defesa: - Ele disse que o dono da casa lhe dera licena.
    - Est tudo bem, sargento - assegurou George, ao ver a expresso preocupada do outro.
    Foi o sbito e forte relinchar e o barulho de cascos atrs deles que os fez virar a cabea. tila estava escavando a parede do celeiro com os cascos, e de repente 
passou a bufar e bater com as patas.
    George apontou o dedo para o animal e perguntou ao sargento:
    - O que est havendo com ele?
    - No sei - disse o sargento, dando de ombros. - Ele comeou a se irritar quando Sir Gaylord chegou e ficou mais zangado ainda quando ele levou a gua.
    George levantou a sobrancelha e olhou para Ruark, e seus olhares se cruzaram por um instante. Ruark fez um sinal positivo com a cabea e correu para abrir as 
portas do celeiro, enquanto seu pai fez sinal para que os homens deixassem o caminho livre. George soltou a tranca e escancarou o porto. tila resfolegou. Os cascos 
rasparam o cho de pedra. Agitou a cabea, viu as portas abertas e virou-se instantaneamente para elas. Antes que ele pudesse galopar, Ruark agarrou um punhado de 
crina espessa acinzentada e, rodopiando, subiu no lombo forte do animal. tila parou, derrapando, e comeou a corcovear irritado at que Ruark encaixou os joelhos 
e assobiou forte. O cavalo conheceu ento seu cavaleiro e, pressentindo que ambos estavam engajados na mesma misso, saltou rumo s portas. Atrs deles, Nathanial 
e o major comearam a berrar ordens.
    tila rodeou a manso; com um salto lpido, passou pelo porto ao lado do estbulo incendiado. Ruark deixou-o escolher o caminho e apenas agarrou-se ao lombo 
do cavalo, sem dirigi-lo. Entraram no arvoredo, e tila parou subitamente na clareira. Atirou a cabea para trs, farejando o ar; em seguida, disparou novamente. 
Logo passaram o bosque e se viram no pasto, correndo como o vento. O cheiro de Gaylord estava forte nas narinas de tila; porm, mais forte ainda, era o cheiro da 
gua. Os dois estavam num lugar onde o ar era frio e revigorante. O cavalo corria em ritmo cadenciado, sem se esforar mas retesando-se a cada galope de forma tal 
que seus cascos mal tocavam o solo. Os altos carvalhos eram apenas uma mancha escura e cavalo e cavaleiro estavam agora no caminho certo. Quando Ruark percebeu isto, 
comeou a orientar o animal e logo os dois pareciam uma s criatura com um propsito comum.
    Gaylord irritou-se ao relancear a vista para Shanna. A calma e a pose da moa eram inquietantes. Precisava v-la subjugada, pelo menos por medo. Ele foi para 
junto dela de novo, e o ritmo dos cavalos ficou lento, como se estivessem caminhando.
    - At um idiota reconhece quando encontra seu senhor - comeou.
    - E o senhor - comentou ela, com o mesmo sorriso tranqilo - finalmente encontrou o seu. - Shanna sentiu o peso do pequeno punhal em sua perna. No ousava apanh-lo. 
Acalmou-se, dizendo para si mesma que chegaria a oportunidade. Forando-se a relaxar, ela olhou reto para frente, temerosa de que seu autocontrole desmoronasse.
    - No sou um homem cruel, madame, e a senhora  linda - tentou ponderar Gaylord. - Pequenas demonstraes de gentileza suas talvez encontrassem receptividade 
favorvel de minha parte. Quero apenas partilhar um momento de prazer com a senhora.
    - Meu prazer, senhor - zombou a voz macia de Shanna - seria jamais voltar a v-lo.
    Que filha da puta! Como podia rejeit-lo assim?
    - Voc est indefesa! - gritou ele, levantando-se nos estribos. - Est sob meu poder, e farei o que quiser com voc!
    Shanna disfarou o estremecimento que a percorreu e riu, zombeteira:
    - Senhor, a relva mida lhe amarrotaria a roupa...
    - Aqui no h ningum para salv-la! - berrou ele.
    A resposta da moa foi a mais suave possvel:
    - Ruark vem a.
    Gaylord agitou o mosquete para ela, enfurecido:
    - Se ele vier, eu o matarei.
    Ela sentiu um pavor quase esmagador, e s falou para evitar que seus lbios tremessem:
    - J lhe disse, senhor, que ele passou algum tempo com os ndios e aprendeu-lhes os costumes? Chegou at a conquistar-lhes o respeito. Isso aconteceu quando 
era apenas um rapazola. J lhe contei, senhor, que ele pode passar por uma floresta como uma sombra, sem que uma folha se mexa? J lhe disse que ele  exmio atirador? 
Quando se zanga, luta como um selvagem. Na verdade, ele  um selvagem. - Deu um leve risinho. - Os piratas poderiam corroborar isso. Chegaram a tem-lo, sabe?
    Pelo canto do olho, Shanna viu Gaylord relancear a vista por cima do ombro, e examinar a trilha  frente com cuidado invulgar, para pessoa to ousada.
    - O senhor j pensou como foi possvel a apenas um homem livrarmos a todos, inclumes, da ilha dos piratas?
    Passaram por um local elevado onde a trilha descia no vale. Gaylord fez os dois animais pararem, voltando a examinar a trilha s suas costas. Shanna inclinou 
a cabea para o lado para prestar ateno e, de repente, a segurana que ela havia transmitido com suas palavras se fortaleceu ainda mais. Sir Gaylord a observava 
com irada desconfiana no rosto. Ela se aprumou e o olhou de frente, fazendo ligeiro sinal afirmativo com a cabea.
    - Sim, Ruark vem a.
    Suas palavras foram meros sussurros, mas enfureceram o cavaleiro. Com um grunhido, ele deu um puxo na corda, o que fez a gua corcovear. Shanna lutou para conservar-se 
sentada e, frentica, agarrou-se  crina do animal, no momento em que galoparam a toda para o vale. Passaram pela ltima curva, deixando marcas negras em locais 
onde os cascos destroaram a grama. Gaylord fez os animais pararem em frente  cabana e rangeu os dentes de dor porque a gua andou aos tropees. Acalmou os bichos 
e saltou de sua montaria, amarrando-os na cerca. Flexionou o ombro, como se sentisse dor. Pegou as sacolas na gua de Shanna e, destrancando a porta da cabana, atirou-as 
l dentro. Voltou, retesou os msculos e andou um pouquinho, procurando sua comodidade antes da de Shanna. Quando finalmente se satisfez, foi at Shanna. Desamarrou-lhe 
um p e meteu-se entre os cavalos para soltar o outro p. Demorou-se um pouco na tarefa, os dedos longos acariciando desnecessariamente os tornozelos finos de Shanna 
e subindo pelas pernas dela. Shanna susteve a respirao, temerosa de que ele encontrasse o punhal.
    De repente, um barulho de cascos de cavalo na extremidade do vale chamou-lhes a ateno. Por um instante, o flanco cinza do cavalo e o castanho escuro de seu 
cavaleiro foram vistos por entre as rvores. O nimo de Shanna fortaleceu-se, seus olhos marejaram-se de lgrimas de alegria, mas ficou sisuda ao ver Gaylord pegar 
o mosquete. Rindo sozinho, ele engatilhou a arma e firmou o mosquete na sela de seu cavalo; cautelosamente, apontou para onde a trilha fazia a ltima curva.
    Outro dos vrios enganos cometidos por Gaylord foi dar as costas a Shanna. Quando os cascos retumbaram perto da curva, ela ergueu o p e chutou o flanco da gua 
com toda a fora. Com um gemido agudo, Jezebel saltou; seu movimento apanhou Gaylord entre as montarias e o fez arfar. O mosquete disparou para cima como uma flecha 
mal endereada, no momento exato em que Ruark chegou correndo na curva, no lombo de tila.
    A gua foi fortemente cutucada nas costelas e corcoveou, o que fez com que o homem sasse aos tropees de entre os dois animais, respirando com dificuldade. 
Quando ergueu os olhos, viu um enorme corcel cinza, olhos rajados de vermelho, narinas abertas e orelhas para trs, arremessando-se diretamente contra ele, e um 
homem encolhido nos ombros fortes como um esprito vingador.
    Gaylord esqueceu o rifle quando um calafrio lhe percorreu a espinha. Puxou Shanna com violncia do lombo da gua, arrastou-a at a cabana e a empurrou para entrar. 
Com os braos ainda presos, ela entrou tropeando pelo cho e se estendeu na cama. Gaylord entrou, fechou a porta e ia colocar a pesada tranca quando todas as partes 
da porta, incluindo dobradias e o fecho do cadeado, desabaram em cima dele.
    Ruark se havia jogado no cavalo cinzento, impulsionando os ps  frente, e carregando na arremetida toda a velocidade da carreira. Suas pernas ficaram meio entorpecidas 
pelo golpe, porm ele rolou por sobre um ombro e logo ficou de p, e pronto para a luta.
    - Vamos, seu desgraado! - rosnou. - Se voc quer minha mulher, vai precisar matar-me com suas mos! Desta vez no haver nenhum estbulo incendiado.
    Gaylord no era pequeno, e o calor da refrega o contagiou. Livrou-se da porta destroada e ficou de p num pulo, tentando pegar as pistolas que j no estavam 
no cinto e, sim, sob os cascos do cavalo. O cavaleiro s teve tempo de perceber isso antes de Ruark atacar. Um uivo de fria saiu dos lbios de Gaylord em resposta 
ao grunhido de Ruark. Finalmente, Billingsham podia lutar abertamente contra aquele cativo que desde o incio o havia atormentado. Com um rudo seco, os dois homens 
se encontraram, peito a peito, e seus braos se entrelaaram, num teste de pura fora.
    Embora quase cego pela raiva, Ruark se surpreendeu com a fora de seu antagonista. A respirao de ambos silvava por entre os dentes cerrados, e os tendes dos 
dois retesavam-se com seus esforos. Os ps de Gaylord escorregaram, quando Ruark o agarrou e inclinou para trs. Ele no teve alternativa seno ceder, ou seria 
arremessado de costas. Tentou desviar-se para o lado, mas Ruark no o permitiu. Os dois corpos se engalfinharam numa nuvem de p e, aos olhos de Shanna, transformaram-se 
numa confuso de braos e pernas que se debatiam.
    Tremendo de emoo e de ansiedade pela sorte de Ruark, Shanna levantou as saias e pegou a ponta do punhal. Suas mos amarradas estavam quase entorpecidas, mas 
a moa conseguiu livrar a arma e a enfiou entre os joelhos. Freneticamente, comeou a cortar as cordas com a lmina.
    Os dois homens se levantaram e ficaram de joelhos. Ruark enfiou a cabea no queixo de Gaylord e agarrou-lhe as magras costelas, segurando-o como um urso at 
que a espinha do outro foi inclinada a ponto de quase quebrar. Gaylord gemeu com a presso e, de repente, torceu o corpo de lado e se soltou. Os dois oscilaram e 
caram, e novamente foram envolvidos por uma nuvem de poeira.
    A mo do cavaleiro tocou um pedao duro de madeira e ele o ergueu. Numa extremidade, havia preso um couro de animal, mas ele no teve tempo de tir-lo. Rolou 
acima de Ruark e um risinho lhe sibilou dos pulmes castigados, quando ele se apoiou com toda a fora no pau, em cima do pescoo do cativo. Ruark pegou a madeira 
e seus tendes se esticaram no pescoo e nos braos como cordame retesado quando ele esforou-se para evitar que o pau o sufocasse. A madeira foi ligeiramente deslocada 
para cima, e Gaylord guinchou sua decepo. O joelho de Ruark colocou-se sob a barriga do cavaleiro e ergueu parte do peso. Seu p escorregou para baixo do quadril 
do cavaleiro; e ele oscilou e levantou Gaylord por cima da cabea, livrando-se do pau com que Gaylord o atacara. O pedao de pele se soltou da madeira. Ruark lembrou-se 
ento de que a ponta do pau tinha uma cabea de lmina dupla. Era o machado que ele havia deixado na cabana.
    Shanna arfou e Gaylord riu, alegre, segurando a arma de lmina dupla, enquanto Ruark se esforava por ficar de p. Ruark pegou um toco de lenha para se defender, 
no momento em que o cavaleiro avanou. Ruark s pde recuar, quando a lmina afiada o ameaou, nos limites exguos da cabana.
    A beira da mesa prendeu a parte traseira das coxas de Ruark e ele j no teve para onde recuar. Com um grito de triunfo, Gaylord deu um golpe para baixo e Shanna 
se encolheu e sufocou um grito. Ruark esquivou-se para o lado, e a mesa, com um grande estrondo, partiu-se ao meio quando o machado a atingiu. Ruark atirou o toco 
de lenha nas canelas do homem e agarrou outro. O machado tentou alcanar a barriga de Ruark, e o golpe mal pde ser aparado com a madeira. O machado vibrou de novo. 
Ruark saltou para trs para evitar a lmina e caiu no cho, quando seus ps se emaranharam nos destroos da mesa.
    O grito de vitria de Gaylord terminou num gemido de dor. Havia tentado desviar-se ao ver o brilho do punhal de Shanna, mas a pequena arma o havia atingido no 
rosto e ele sentiu o choque quente do corte no pescoo, que lhe abriu a carne.
    Em sua sede de sangue, ele havia mais uma vez se esquecido da dama; a qual, alis, no era dama coisa nenhuma! Ela se havia soltado e participou da refrega com 
o estilete de prata, protegendo a sua e a vida de seu marido ferozmente. Com um rosnado, Gaylord abriu os braos, ela foi atirada longe e o punhal voou e foi parar 
num canto. Porm, quando Gaylord voltou a pegar o machado, Shanna voltou para arranhar-lhe os ombros pouco protegidos pela camisa fina. Finalmente, ela lhe chamou 
a ateno. O punho ossudo do homem a atingiu com vontade; Shanna tropeou de costas, quando o soco lhe alcanou o queixo. Tonta, cambaleante, ela se estendeu de 
novo na cama coberta de peles, e de repente tudo ficou preto e vazio.
    Chegou a vez do outro animal que Gaylord ignorara por tempo excessivo. Um rosnado meio baixo, meio gritado lhe chegou ao ouvido, e o machado lhe foi arrebatado 
como se ele fosse uma criana. Encolheu-se e julgou v-lo lampejar, para terminar matando-o. E a ferramenta realmente lampejou, mas para cima e, com tanta fora, 
que a lmina ficou meio enterrada num caibro do teto; o cabo, oscilando, no podia ser alcanado. Contudo, o alvio de Gaylord durou pouco, pois foi apertado com 
tamanha violncia, que quase no pde respirar. Estava sendo agarrado por um animal enlouquecido que no lhe dava trgua e lentamente o levantou do cho, com seus 
braos de ao. Atirado no meio do aposento, ele foi de encontro  parede e imediatamente atacado por golpes impiedosos desferidos por todos os lados. Viu dentes 
alvos sob olhos ambarinos de pestanas negras, num rosto furioso que prometia morte. Uma chuva de golpes foi desfechada contra ele, roubando-lhe toda a fora. Comeou 
a temer ser derrotado e, pior do que isso, temeu pela vida. Levantou um brao e, debilmente, fez meno de atingir o adversrio, mas foi atacado com tamanha selvageria 
que tropeou para trs e s pde proteger a cabea com os braos. Caiu de joelhos e cambaleou quando um violento soco lhe atingiu o rosto. Sua mo de repente ficou 
cheia de veludo macio e ele mal divisou um rosto de mulher acima dele.
    - Detenha-o! Detenha-o! - soluou. - Ele vai-me matar!
    Shanna debateu-se contra o desmaio que a assaltou; atravs do zumbido em seus ouvidos, ouviu uma imprecao distante, misturada a um grito soluante. Sacudiu 
a cabea para liberar a nvoa, e parte de sua viso voltou. Viu Sir Gaylord a seus ps no cho, agarrando-lhe a barra do vestido, e implorando por sua vida. De repente, 
a cabea de Shanna ficou desanuviada. O que aquele homem no tinha concedido aos outros, lhe seria dado: piedade. Ela passou por cima do cavaleiro estatelado e, 
pegando o brao de Ruark, levou-o ao busto:
    - Ruark! - suplicou. - Deixe que ele acerte as contas com o carrasco. - Passou uma das mos pela cabea de Ruark e, com a outra, empurrou-lhe o corpo rgido 
para trs. Parou  frente dele, puxou-lhe o rosto para perto do seu e lhe beijou os lbios at que ele caiu em si e ela sentiu que a ira o abandonava. Percebeu que 
havia vencido, quando ele a tomou nos braos e, levantando-a no ar, esmagou-a com seu abrao.
    Shanna ficou sentada no cepo da rvore, enquanto Ruark lhe aplicava um pano molhado no rosto machucado. Nathanial e o major chegaram naquele instante e apearam 
em frente  cabana. Gaylord estava sentado perto, num banco tosco feito a mo, bem amarrado com uma corda.
    Os recm-chegados examinavam a cena, quando George e os outros se acercaram. George olhou para a porta destroada: dando um risinho, dirigiu-se a Ruark:
    - Meu filho, voc realmente sabe lidar com portas... - Gaylord foi colocado num cavalo, e Shanna montou tila, onde se encarapitou nos braos do marido. Por 
nada nesse mundo, ela trocaria sua vida naquele momento. A porta da cabana foi colocada no lugar com auxlio de cordas; o grupo se preparava para retornar, quando, 
de repente, ouviu-se um grito vindo da trilha e um barulho de cascos chegou-lhes aos ouvidos. Esperaram curiosos quando uma gua velha, de pernas duras e porte engraado, 
veio trotando pela curva. No se podia determinar quem resfolegava mais, se a gua ou quem a montava. Uma seqncia de imprecaes acompanhava o trote da gua. Nathanial 
desceu de seu cavalo e, caridosamente, ajudou Trahern a desmontar. Retirando a sela da gua de Trahern, colocou-a no lombo de Jezebel, a gua de andamento mais suave, 
enquanto George levava a gua j velha para o pasto, deixando-a l para que pastasse em paz.
    O crepsculo estava baixando, quando aquele alegre grupo chegou  manso, e ningum notou que tila, com sua carga dupla, resolveu ficar bem atrs de todos. 
Na verdade, era duvidoso afirmar que ele era guiado por algum, pois seus dois cavaleiros estavam muito ocupados um com o outro.
    O grupo foi direto ao celeiro, onde George apontou para uma baia de paredes altas, feitas para abrigar um touro ou garanho eventualmente desgarrado. Era pouco 
usada. Dentro havia uma mesinha e um banquinho, uma pilha de vrios cobertores e palha fresca. As cordas foram retiradas de Sir Gaylord e o atiraram na baia-cela. 
Ele olhou furioso para o local, esfregou os pulsos e disse a seus captores, de forma desdenhosa:
    - Podem maltratar-me se quiserem, mas, como cavaleiro do reino, s posso ser julgado pelo alto tribunal de Sua Majestade em Londres.
    - Talvez - replicou, pensativo, o Major Crter. - Isto depende do magistrado em Williamsburg.
    - No me submeterei  sua ordinria justia das colnias! - disse Gaylord, asperamente. - Meu pai providenciar para que cuidem de mim.
    - Com certeza - disse o major, esfregando um dedo no queixo. - Lorde Billingsham veio s colnias para "aperfeioar o rudimentar sistema", creio que foi o que 
ele disse. Ele agora  juiz em Williamsburg, e seu caso ser o primeiro que ele julgar.
    Gaylord ficou boquiaberto, e seus olhos mostraram-se distantes e baos. Sentou-se no banquinho e ficou olhando para a parede, parecendo no ouvir coisa alguma. 
Seus lbios se mexeram brevemente, e seu sussurro mal dava para ser entendido:
    - O Velho Harry, o Enforcador. - Seus ombros penderam e o ar de arrogncia havia desaparecido.
    Um momento depois, George entrou na manso e caminhou a passos largos e decididos at a garrafa de conhaque. Nathanial e Jeremiah o seguiram; os risos largos 
anunciavam boas novas. Pitney e o major ajudaram o irritado e exausto Trahern a sentar-se. Ele se atirou na cadeira e contemplou a gaze suja do p ferido. Os ltimos 
a entrar foram Shanna e Ruark, de braos dados e sorrisos felizes como se o dia s lhes houvesse trazido venturas.
    Risos e gritos encheram a casa at ela quase fraquejar nos alicerces. Contou-se o incidente algumas vezes, e cada um lembrou uma parte at a histria se completar. 
Houve pancadinhas nas costas, apertos de mo e brindes. Somente Orlan Trahern continuou sentado, mal-humorado, bebericando rum e bitters preparados por Pitney. Foi 
nessa euforia de congratulaes que Hergus trouxe uma bandeja de petiscos para aguar os apetites dos esfaimados. Ao ver determinado homem, seu grito feriu os ouvidos 
de todos:
    - Jamie! Jamie Conners!
    O escocs virou-se e contemplou a mulher que lhe pronunciara o nome.
    - Hergus? - perguntou lentamente, olhos arregalados de surpresa. - Meu Deus! Hergus! Meu verdadeiro amor! - O olhar surpreso da mulher o inflamou.
    - Poxa, uma poro de anos se passou e nunca soube de voc! Nem uma palavra!
    Hergus depositou a bandeja e, com um sorriso clido para Pitney, deu as costas a Jamie, em atitude semelhante quela que vira Shanna adotar com vrios pretendentes. 
Seu amor se extraviara; para que existisse a reconciliao, ele precisaria pagar alto preo.
    - Eu... eu... - gaguejou o pobre homem - no encontrei sinal de voc quando me soltaram.
    Hergus no respondeu; limitou-se calmamente a servir s pessoas os petiscos da bandeja. Shanna, porm, olhou-a e percebeu-lhe o sorriso disfarado e as plpebras 
baixas. No momento, Shanna quase teve pena de Jamie, mas viu algo novo em Hergus, algo simultaneamente macio e firme, e calculou que, com retribuio adequada, o 
escocs poderia recuperar o que perdera.
    Shanna foi para o lado do pai e o olhou por um instante. Ao ver-lhe o cenho franzido, perguntou delicadamente:
    - Est com dor no p, Papai?
    - Meu p no di tanto quanto outro lugar de meu corpo - disse ele, bufando. - Foi preciso uma ameaa terrvel para que eu montasse um cavalo, mas se houver 
um terremoto agora, no sou capaz de montar de novo. Neste momento, no tenho conforto nem em p nem sentado. Acho bom eu ir logo para a cama, para me sentir melhor.
    Shanna comeou a rir sem parar, embora ele a olhasse cada vez mais zangado.
    - Papai, pior ainda que voc tivesse de ter feito isso por minha causa. - Ela se inclinou e lhe beijou a testa.
    - Qual o qu! - Trahern mexeu-se na cadeira como se para aplacar a dor e disse a Ruark, que estava agora ao lado de Shanna: - Todos os meus ossos me doem, e 
ela fica a rindo como uma maluca. Cuidado, meu filho, ela  capaz de lev-lo  sepultura.
    - Mesmo se eu tivesse certeza disso - falou Ruark, rindo - no faria nada para mudar minha situao.
    Shanna apertou a mo do marido amorosamente, depois sentou-se no brao da cadeira do pai e o abraou pelos ombros.
    - Estou cercada pelos animais que h em vocs. - E sorriu meigamente, para desmentir suas palavras. - Um drago  minha esquerda, e um urso grisalho  direita. 
Ser que deverei sempre na minha vida temer suas presas?
    - Mantenha-a grvida, rapaz! - disse Trahern, rindo e melhorando de humor. -  a nica maneira. Mantenha-a grvida!
    -  o que pretendo fazer, senhor. - Ruark olhou para Shanna, e seus olhos transmitiram amor, em silenciosa comunicao.
    Ruark achava-se  janela, observando as faixas cinzentas do alvorecer no cu. Deitada na cama, Shanna tambm estava acordada. Ruark se aproximou e enfiou-se 
sob as cobertas.
    - Voc est frio - disse Shanna.
    - Aquea-me...
    Eles ficaram juntinhos.
    - Quase um ano... - murmurou ela.
    - , a cada alvorecer - ele lhe sussurrou no ouvido - o Sol nos separava. Mas daqui para frente isso acabou.
    Passou-se um instante de silncio, enquanto os dois se aninhavam nos braos um do outro. Ruark traou uma curva no brao dela e perguntou:
    - Matei seu drago, amor?
    - Matou meu drago? No, e no quero mais falar nisso. - Shanna passou os braos no pescoo dele. - Que o demnio tome conta dos reluzentes cavaleiros. Venha, 
Drago Ruark, sopre seu fogo e me aquea. O dia est apenas comeando para ns. -
    Eplogo
    Orlan Trahern achava-se sentado na igrejinha na ilha de Los Camellos, ouvindo a lenga-lenga da voz do proco l no plpito. Sua mente no estava concentrada
no sermo, e sim em outros assuntos.
    A ilha ultimamente andava solitria. Faltava alguma coisa. A vida continuava como de hbito, mais lenta devido ao calor do vero, e apressada na poca das colheitas 
de cana e do corte de madeira. Os engenhos e a serraria trouxeram progresso ao lugar, e a nova riqueza era liberalmente dividida para ser desfrutada por todos. Era 
o que ele sempre havia sonhado, mas agora tais realizaes j no lhe davam qualquer animao.
    Pensou na filha e no marido dela. O beb j devia ter nascido, mas ele s saberia dali a semanas. Relanceou o olhar para o quadro a leo de sua mulher Georgiana, 
pendurado perto de seu reservado na igreja e calculou que ela ficaria encantada com a perspectiva de ser av. Na verdade, teria insistido para que os dois fossem 
estar ao lado de Shanna na hora do parto. Ele quase pde ver a mulher lhe sorrindo com seu olhar tolerante e sensato.
    H tempos, j achava seu sangue envelhecido e ralo, mas agora esse mesmo sangue reanimou-se com o fervor da juventude, quando ele imaginou a riqueza dos novos 
mercados que esperavam por algum habilidoso nas colnias. Ansiava cada vez mais por se ver no mercado com uma pilha de faturas no bolso e um carregamento de mercadorias 
no cais. Ansiava por abrir caminho a cotoveladas por uma multido e ouvir o jargo de permutas, a cano ritmada de um leiloeiro, e sentir a emoo do instante em 
que se obtm um bom negcio. Queria aguar a mente contra as astutas meias verdades do vendedor, e adoar seu apetite com o mesmo gostinho em relao a um comprador 
precavido.
    At Pitney ultimamente andava inquieto e falava em deixar a ilha e procurar fortuna na nova terra. Trahern deduziu que o outro se houvesse apaixonado pelos vastos 
espaos, e que estaria achando a vida na ilha acanhada e limitada. No caminho para a igreja haviam avistado um barco, e Pitney foi at o cais para receber a embarcao. 
O brilho de aventura estava em seus olhos.
    "Por Deus,  tentador!", pensou Orlan Trahern. "Nas minhas viagens pelas colnias, eu poderia visitar meu neto sempre." - Seus olhos fixaram-se de novo no quadro. 
- "Eu tambm estaria sempre na ilha, Georgiana, e sempre adoraria as lembranas do que aconteceu por aqui."
    O proco terminou o sermo e instava a congregao a ficar de p para cantar um hino, quando parou e olhou mudo para os fundos da igreja. Antes que Trahern pudesse 
virar-se, enorme mo lhe agarrou o ombro e, quando ele ergueu os olhos, Pitney lhe estava sorrindo.
    Trahern franziu a testa e comeou a levantar-se, quando uma trouxinha lhe foi suavemente posta nos braos. Mal teve tempo de ver o cabelo negro, quando outra 
trouxinha foi parar,em seus braos. Ele olhou para os dois bebs, e admirou-lhes o cabelo negro e o tom esverdeado dos olhos.
    O queixo do homem caiu. Ergueu os olhos, atnito, e deparou com a imagem sorridente de Shanna, que lhe disse:
    - Um menino e uma menina, Papai.
    - Esta notcia no poderia ser dada por carta - sorriu Ruark. - Estvamos mesmo lhe devendo uma visita.
    Orlan Trahern no conseguiu falar. Olhou de novo para os netos e no conseguiu pensar em palavras que pudessem expressar sua alegria. Contemplou o quadro a leo 
na parede, e sua voz mostrou-se abafada e entrecortada, quando ele murmurou:
    - Isto  mais do que sonhvamos, Georgiana! Muito mais do que sonhvamos!
    
    
    
    
    
    
    
    
     
     

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Kathleen E. Woodiwiss    - Shanna




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